ARTIGO

Mandalas como recurso terapêutico na prática da Gestalt-Terapia

Mandalas as a therapeutic resource in Gestalt therapy practice

Bruna Improta de Oliveira Mendonça

Maria Alice Queiroz de Brito

RESUMO  

Mandalas aparecem, desde as culturas mais antigas, como um símbolo de  harmonia, integração e transformação. Trata-se de um recurso utilizado em práticas  psicoterapêuticas, mas pouco fundamentado teoricamente na perspectiva da  Gestalt-terapia. Este artigo busca empreender uma relação sobre as diversas  possibilidades de utilização desse recurso na prática clínica sob a fundamentação  teórica da Gestalt-terapia. Especificamente, visa revisar criticamente a literatura  sobre o tema, fomentar uma ampliação da compreensão do tema em suas  possibilidades terapêuticas e, por fim, ampliar a compreensão teórica dessas  possibilidades a partir da Gestalt-terapia. A metodologia utilizada foi a revisão  sistemática da literatura. Os resultados encontrados demonstram que o tema ainda  possui extensa lacuna na perspectiva teórica mencionada, contudo em sua  utilização na prática psicoterapêutica, trata-se de um recurso que facilita a revelação  do modo de funcionamento do seu criador, facilitando o estabelecimento de  “awareness”, liberação de “gestalten” cristalizadas, integração dos conteúdos  liberados, revelação dos mecanismos de defesa e o modo de operar em suas  relações com o outro e com o mundo, e, consequentemente, proporcionando a  possibilidade de um contato mais genuíno e fluido.

Palavras-chaves: Gestalt-terapia; Mandalas; Técnicas Gestálticas. ABSTRACT:

Since ancient cultures mandalas appear as a symbol of harmony, integration and  transformation. Although being a resource used in psychotherapeutic practices, it is  theoretically unfounded from the perspective of Gestalt therapy. Through a  systematic review of the literature, this article aims to stablish a relationship between  the use of this technique in clinical practice based on the theory of Gestalt-therapy.  Specifically, it aims to review critically the literature, to foster a broader understanding  of the theme in its therapeutic possibilities, to extend the theoretical understanding of  these possibilities from the Gestalt therapy point of view. The metodology was a systematic review of the literature. The results shows an extensive gap in the  theoretical perspective mentioned above,, even though in psychotherapeutic practice,  it is an instrument that facilitates the disclosure of the way its creator works, its awareness, the release of repressed content and crystallized gestalten, the  integration of the liberated contents, the revelation of the defense mechanisms and  the way of operating in their relations with the other and with the world, and  consequently providing the possibility of a more genuine and fluid contact. 

Keywords: Gestalt-therapy; Mandalas; Gestalt Techniques.

INTRODUÇÃO:

As mandalas estão presentes nas mais remotas culturas e em diferentes  continentes, consistindo em estruturas ou imagens circulares, cujo nome advém do  sânscrito e significa centro, circunferência ou "círculo mágico" (JUNG, 2011b). Nos  registros da história da humanidade, esta estrutura aparece como o símbolo  universal e essencial da harmonia, integração e transformação, representando,  também, o potencial criativo do indivíduo, em suas expressões e comunicações  (CATARINA, 2009).

As culturas hindus e budistas são marcadas pela presença deste símbolo,  promovendo uma conotação religiosa, explicitada pela afirmação de Jung (2011b)  que "em seu uso cultural, os1 mandalas são extremamente significativos, pois seu  centro contém em geral uma figura de supremo valor religioso: às vezes, é o próprio  Shiva, ou Buda" (pp. 108). A atribuição de uma valorização máxima ao centro do  símbolo, coincide com o significado central dos símbolos das mandalas individuais.  Jung (2011a) afirma, também, que a verdadeira mandala é individual e provêm  sempre de uma imagem interior, construída pouco a pouco através da imaginação  ativa e que nenhuma é igual à outra.

A confecção de mandalas consiste em uma técnica bastante utilizada na arteterapia  contemporânea, inclusive gestáltica, como podemos ver nos escritos de Ciornai  (1995; 2004). Apesar disto, há imensa lacuna na literatura, e a percepção de que  dentre os poucos materiais escritos existentes, a grande maioria está fundamentada  na perspectiva teórica da psicologia analítica, justificando a importância da  elaboração de trabalhos que consolidem este instrumento na prática gestáltica.

Este artigo tem como objetivo principal revisar sistematicamente a literatura sobre o  tema e construir, a partir dos resultados, uma relação sobre as diversas  possibilidades de utilização das mandalas na prática clínica sob fundamentação  teórica da Gestalt-terapia. Como objetivos específicos pretende fomentar uma  ampliação da compreensão das mandalas em suas possibilidades terapêuticas e ampliar a compreensão teórica dessas possibilidades a partir da Gestalt-terapia.

Pode-se perceber com a realização deste trabalho importante contribuição para a  psicologia, em especial para a Gestalt-terapia, já que a construção e análise de  mandalas é reconhecida como um recurso poderoso no processo de  autoconhecimento (CIORNAI, 2004; RHYNE, 2000; JUNG, 2011a), mas possui muito  pouco catalogado nesta perspectiva teórica. Acreditamos na possibilidade de  contribuição significativa para a condução e vivência dos processos terapêuticos  utilizando este recurso.

METODOLOGIA:

 1 Jung (2011b) utiliza a terminologia mandalas no masculino. Optamos neste trabalho pela utilização  no feminino consonante com a linguagem mais popular e com outros autores citados neste  manuscrito.

O presente estudo consiste em uma revisão de literatura que, conforme Sampaio e  Mancini (2006), se refere a uma maneira de pesquisar que utiliza como fontes de  dados a literatura sobre determinado tema, disponibilizando um resumo das  evidências relacionadas a uma estratégia de investigação específica, através da  aplicação de métodos explícitos e sistematizados de busca, apreciação crítica e  síntese da informação selecionada.

Foi realizado um levantamento de trabalhos acadêmicos indexados no SciELO Brasil  e no portal de periódicos da CAPES com os seguintes descritores:  Gestalt(and)Mandalas; Mandalas; Terapia(and)Mandalas; Psicologia(and)Mandalas nos idiomas português, inglês e espanhol. O levantamento foi realizado no dia 23 de  dezembro de 2016 inicialmente com o filtro dos últimos 05 anos, mas foram retirados  os filtros disponibilizados pelos sites, pela ínfima quantidade de materiais que  surgiram.

No site do SciELO Brasil não foram encontrados trabalhos com os descritores  mencionados acima.  

No portal de periódicos da CAPES os descritores Gestalt(and)Mandalas e  Terapia(and)Mandalas não gerou nenhum resultado, mesmo desativando as  ferramentas de refinamento. Ao incluir Psicologia(and)Mandalas surgiu um trabalho  produzido na Suíça através da perspectiva de Carl Jung. Ao pesquisar apenas  Mandalas surgiram 67 trabalhos, que após refinamento para os últimos 05 anos  foram reduzidos para 21. Ao analisar esses 21 trabalhos, percebe-se que todos são  publicações internacionais e apontam uma diversidade de áreas de aplicação como  medicina (3), filogenética e evolução (2), ayurveda e farmácia (1), artes (1),  publicação de livros de colorir (2), ecologia (1), religião e rituais culturais (4), letras  (1), educação (1), engenharia (1), linguística asiática (1) e psicoterapia analítica  junguiana (3), os quais se dividem em análise de pessoas com TDAH, facilitação de  interação entre estudantes de psicologia e análise de um caso clínico pela  perspectiva da psicoterapia analítica.  

Diante dos resultados precários, foi necessário ampliar as buscas em livros sobre  arteterapia, mandalas e Gestalt-terapia, afim de encontrar materiais que guiassem a  construção que se segue. Estes resultados fortalecem a importância deste trabalho  para a reflexão teórica deste tema na Psicologia no Brasil, mais especificamente da  Gestalt-terapia.  

SOBRE A GESTALT-TERAPIA:

A Gestalt-terapia é uma abordagem psicoterapêutica que surgiu da inter-relação de  várias escolas e correntes filosóficas, metodológicas e terapêuticas, como a  fenomenologia, o existencialismo, a teoria de campo, a psicologia organísmica, a  psicologia da Gestalt, a psicanálise, as filosofias orientais e a corrente humanista.  

Segundo Pinto (2009) a atitude fenomenológico-existencial é o ponto para o qual  convergem essas diversas fontes, e que fundamenta a concepção do humano na  abordagem gestáltica. Dessa forma, ela tem como valor relevante o fato de que o ser humano é fundamentalmente um ser de relação. A existência humana, desta  perspectiva, é definida segundo a relação campo-organismo-meio, sendo impossível  conceber o indivíduo fora do contexto e do meio no qual está inserido, bem como  das relações que estabelece a partir daí (KIYAN, 2006).

Para Kiyan (2006), complementando essa perspectiva, a existência é relação e,  como relação, é também contato. A Gestalt-terapia é construída, portanto, para  entender esse processo de contato. O conceito de contato, segundo D´acri, Lima e  Orgler (2007), tem sido utilizado para definir o intercâmbio entre o indivíduo e o  ambiente que o circunda dentro de uma visão de totalidade. Refere-se aos ciclos de  encontros e retiradas do organismo/meio, ocorrendo sempre em um limite  denominado fronteira de contato, que une e separa essas duas instâncias  (sujeito/meio), tornando-as mais ou menos facilitadoras do contato.

O contato, bem como todo o trabalho dentro desta perspectiva, ocorre e é focado no  "aqui e agora", e, segundo Rodrigues (2000), todo o trabalho terapêutico centra no  que o cliente traz no momento em que está vivenciando seu processo - seus  pensamentos, sensações, sentimentos e intuições -, não descartando nenhuma  informação que seja percebida e que seja importante para o processo terapêutico.  Essas informações não se restringem ao discurso verbal, mas incluem os gestos,  expressão facial, respiração, modo de olhar, ato de desviar o olhar, e tudo o mais  que emergir no "aqui e agora".

Conforme afirmam Polster e Polster (2001) o psicoterapeuta primeiro ouve a história  e deixa que o significado se manifeste, em lugar de colocar expectativas sobre os  possíveis significados, diante dos quais os comportamentos devem se encaixar. Os  mesmos autores afirmam que o significado se desenvolve a partir da  sequencialidade da vida, e que em psicoterapia o símbolo é mais poderoso quando  o significado emerge da experiência.

A Gestalt-terapia, neste sentido, lança mão de recursos terapêuticos baseados no  experimento, como um mecanismo que envolve a instrumentalização de diversas  técnicas projetivas (KIYAN, 2009; ZYNKER, 2007). Este mecanismo mobiliza o  indivíduo a confrontar as emergências de sua vida, através de um sistema de ação  contrário ao modelo do "falar sobre", promovendo a operacionalização dos  sentimentos e ações, numa situação de segurança relativa demarcada pelo vínculo  terapêutico (POLSTER & POLSTER, 2001).

A Gestalt-terapia é, na verdade, uma permissão para ser criativo, como afirma  Zynker (2007), e um dos objetivos desta perspectiva é promover a “awareness” do  cliente. Entende-se “awareness” como uma condição de extrema qualidade na  percepção e consciência de si, do outro e do campo da relação. Uma "capacidade  de perceber o que ocorre dentro e fora de si, no momento presente, nos níveis  corporal, mental e emocional. Significa a possibilidade de se dar conta,  simultaneamente, do meio externo e interno, através de recursos perceptivos e  emocionais" (FRAZÃO, 1999, pp. 28).  

Mais especificamente, “Awareness” significa um processo de contato, uma relação  entre campo, organismo e meio, no qual, o indivíduo presencia, no "aqui e agora", uma profunda e acentuada qualidade de atenção e sentido. É o processo de estar  em vigilante contato com o evento mais importante do campo-organismo-meio, com  pleno suporte sensório-motor-emocional-cognitivo-energético (YONTEF, 1984).

A possibilidade deste estabelecimento de “awareness” permite que o indivíduo tenha  mais clareza das necessidades que surgem em seu organismo, já que se depara  com várias necessidades simultâneas a serem satisfeitas, numa tentativa constante  de estabelecer um equilíbrio homeostático (PINTO, 2009).

Perls (2011) afirma que a necessidade dominante do organismo, em qualquer  momento, se torna a figura de primeiro plano e as outras necessidades recuam, pelo  menos temporariamente, para o segundo plano. Esse processo dinâmico, quando  em funcionamento harmonioso leva o indivíduo a "fechar a ‘Gestalt’" de determinada  situação, dependendo de um ajuste ao meio, da maneira que lhe é possível naquele  momento, na tentativa de suprir a demanda emergente (PERLS, 2011). Segundo  Kiyan (2006) esse ajustamento nem sempre é uma resolução da questão que está  emergente, mas sim a opção que parece melhor, no sentido de cumprir a demanda  organísmica que se torna figura naquele momento. Desta forma, o conceito de  ajustamento criativo, traz a ideia de um ajustamento possível naquele momento,  interagindo criativamente dentro do campo de relação.

A Gestalt-terapia, desta forma, fundamenta atividades que visam o desenvolvimento  no indivíduo da tomada de consciência, promovendo facilitação do processo de  autoconhecimento e autorrealização. Considerando a construção e análise de  mandalas um recurso técnico possível nesta tarefa, parto da explanação do  histórico, utilização e simbologia deste recurso, para compreensão e posterior  articulação com os conceitos gestálticos.

MANDALAS: O CÍRCULO SAGRADO - HISTÓRICO, UTILIZAÇÃO E  SIMBOLOGIA.  

A estrutura circular está presente na vida dos indivíduos desde a fase embrionária, já  que os sujeitos se constituem a partir de uma célula-ovo, com forma circular, em um  ambiente materno, o útero que acolhe o embrião, também neste mesmo formato  (FREITAS, 2007). Além disso, a referência de planeta que todo indivíduo habita é  circular e o círculo expressa a totalidade que os compõem (FREITAS, 2007).

Mandala é uma palavra sânscrita que significa centro, circunferência ou círculo  mágico, aparece em quase todas as religiões e, através da Antropologia podem-se  verificar os registros e considerar a presença destes símbolos nas mais remotas  culturas e diferentes continentes (CAMPBELL, 1997; JUNG, 2011c). O símbolo  circular aparece nos rituais primitivos de adoração ao sol, nos mitos, sonhos, religião  antiga e moderna, nos desenhos dos monges tibetanos, nos planos arquitetônicos  das cidades e na astronomia, sempre trazendo ideia de inteireza (D´ASSUMPÇÃO,  D´ ASSUMPÇÃO & BESSA, 1984; JUNG, 1964). Foi descoberto, além disso, através  de estudos antropológicos, que nas tribos primitivas, a produção de arte em forma  circular aumentava quando a tribo sofria ameaças como guerras e doenças (D´ ASSUMPÇÃO, D´ ASSUMPÇÃO e BESSA, 1984). Talvez as mais antigas da humanidade tenham existido desde a era paleolítica, nos desenhos rupestres  rodesianos, que são universalmente difundidos (CAMPBELL, 1997; JUNG, 2011c).

Estes símbolos mostram em todas as partes do mundo uma disposição bastante  semelhante de seus elementos, normalmente reunidos no centro em forma de  círculos ou polígonos, muitos em formato de cruz ou círculo de flores (JUNG, 1964).  Arguelles e Arguelles (1972) reforça que a universalidade da mandala está em sua  constante, o princípio do centro. O centro é o começo deste símbolo e, o desenho  tradicional sempre utiliza o círculo e o quadrado (ARQUELLES & ARQUELLES,  1972).

Os estudos geométricos, assim como as mandalas, advêm das civilizações antigas,  podendo ser reconhecidos nas tradições celta, druídica, egípcia e caldaica, mas  muito aprofundados pelos gregos antigos e pelos judeus na Cabala. Basso e Amaral  (2011) consideram que os campos de conhecimento e informação sobre os  indivíduos podem ser consideravelmente ampliados se levamos em consideração os  números e figuras geométricas não apenas em suas bases matemáticas, mas como  signos carregados de simbologia.

O círculo é a imagem da totalidade, da unidade, o "um", sem começo e fim, além do  tempo e espaço, sem nome, forma, ilimitado e vazio, pleno de potencialidades,  infinito em possibilidades (BASSO & AMARAL, 2011). O segredo do círculo, no  entanto, é o ponto. O ponto como centro e o círculo representando o campo. O ponto  é a semente, princípio o qual o círculo é a expansão infinita; é a máxima contração  do círculo. O movimento é ação básica dessas duas direções, espirais com direções  diferentes (círculo - centro; centrípeta/ centro - círculo, centrífuga), que a mente  percebe como uma só (BASSO & AMARAL, 2011).

O quadrado, por sua vez, tem dimensões e se localiza no tempo e espaço,  representando a matéria, a forma (BASSO & AMARAL, 2011). São quatro os  elementos básicos da matéria: fogo, ar, água e terra, traduzindo estados da matéria  como princípios que se estabilizam, que representam corpo e presença. Quatro é o  princípio que fixa uma forma, define, limita, que estabiliza, mas pode também  aprisionar, paralisar, congelar e completar. O quatro tem lados opostos, cima e baixo,  direita e esquerda, dentro e fora, em uma característica dual, capaz de materializar,  coagular (BASSO & AMARAL, 2011).

Sobre a prática terapêutica de utilização das mandalas, D´assumpção,  D´assumpção e Bessa (1984) apontam que este recurso é tão antigo quanto a  própria humanidade. O que há de novo são metodologias para se trabalhar com ela,  de forma dirigida, voltadas para a psicoterapia, acelerando o processo terapêutico.  Neste sentido, Jung (2011b) foi um dos primeiros teóricos a se debruçar na  compreensão das mandalas a partir da prática psicoterapêutica que, diante das  expressões de seus pacientes em desenhos circulares, adotou essa palavra para  descrevê-los.  

D´assumpção, D´assumpção e Bessa (1984) contudo, revelam que, além de Carl  Jung (2011b), a técnica de utilização terapêutica das mandalas teve como uma das  precursoras a psiquiatra norte-americana, Joan Kellog (1992), que começou a utilizar este recurso como teste projetivo em pacientes que iriam se submeter à terapia do  LSD, na clínica do Dr. Stanilav Groff, pesquisador e criador da abordagem  Holonômica. Através da produção das mandalas, ela percebia quais pessoas tinham  risco de surto psicótico caso tomassem LSD. Neste caso, selecionava as pessoas  que poderiam se submeter à terapia; nesse processo ele começou a perceber que  as mandalas agiam, também, terapeuticamente.  

D´assumpção, D´assumpção, Bessa (1984) e Jung (2011a; 2011b) aprofundam que  como um fenômeno psicológico, as mandalas aparecem espontaneamente em  sonhos, em estados de conflito e em casos de esquizofrenia. Ao trabalhar com  mandalas, no entanto, é importante estar atento ao fato de que cada indivíduo é  singular (KELLOG e DI LEO, 1975). Isso reforça a ideia de que, apesar de consistir  um símbolo universal, não se pode trabalhar com a mandala como representando  elementos estáticos do indivíduo, mas como um instrumento que situa como a  pessoa está naquele momento, e que é parte de um processo progressivo (KELLOG e DI LEO, 1975).

Na perspectiva psicoterapêutica, a confecção de mandalas consiste em uma técnica  que pode ser utilizada para a abertura e/ou fechamento de processos, bem como ser  proposta no desenvolvimento de todo o trabalho terapêutico. Pode ser realizada  através de diversos recursos, conforme aponta Freitas (2007), a partir de um tema,  de um relaxamento, de um conto, uma fábula, ou surgir espontaneamente.  

As técnicas para a confecção das mandalas podem ser utilizadas de diferentes  formas, tantas quantas couberem na criatividade humana, como pintadas com tinta  guache, acrílica, a óleo, giz de cera, lápis de cor; feitas na terra com flores, plantas e  recursos naturais; confeccionadas a partir de colagens diversas, utilizando papéis  coloridos, linhas, lã, tecido, sementes, figuras; vivenciadas em forma de dança  circular em grupo ou individual; ou mesmo utilizando-se diferentes técnicas ao  mesmo tempo.  

Certos procedimentos, contudo, são importantes de serem seguidos, a depender do  propósito, como traçar o círculo na base quadrada maior (no caso de mandalas pintadas ou colagens), marcando com um ponto o centro, delimitando-o antes de o  trabalho começar; além de escolher os materiais a serem utilizados antes de iniciar a  prática, deixando-os disponíveis e visíveis para quem vai produzir a mandala. Em  uma vivência dirigida, deve-se levar em conta os objetivos propostos, utilizando a  técnica adequada ao indivíduo ou ao grupo, e quando for uma vivência livre, dá-se a  oportunidade do material ser escolhido, também anteriormente (KIYAN, 2009).

As cores costumam ser analisadas em trabalhos terapêuticos com mandalas, dentro  de outras abordagens, podendo assumir uma perspectiva positiva ou negativa,  dependendo das circunstâncias que são utilizadas (KELLOG e DI LEO, 1975). Neste  trabalho, contudo, em consonância com os pressupostos gestálticos, em especial o  método fenomenológico, predefinições e interpretações por parte do psicoterapeuta,  em relação às cores, não são levadas em conta. Para Forghieri (2004) a redução  fenomenológica é o recurso para se chegar ao fenômeno como se revela por si  mesmo, assim o Gestalt-terapeuta usa a descrição das cores usadas, a intensidade  do traço no lugar de interpreta-los, deixando que o cliente lhes dê o significado. O “epoché”, suspensão das expectativa e julgamentos, e a equalização, como  suspensão de hierarquias no significado dos itens de descrição da experiência, são  necessários para se chegar à "coisa mesma", o fenômeno em si, representado pela  produção do cliente. O foco está nas sensações e representações particulares que  aquelas cores possuem para o indivíduo que produz.

MANDALA COMO RECURSO TERAPÊUTICO PELA GESTALT-TERAPIA:  

Em Gestalt-terapia compreende-se que o indivíduo busca, todo o tempo, um  equilíbrio homeostático. De acordo com Perls (2011) essa homeostase é o processo  que o organismo encontra de satisfazer suas necessidades. Como essas  necessidades podem surgir concomitantemente, existe uma dinâmica interna que  permite uma hierarquização das mesmas, de forma que se possa satisfazer uma de  cada vez.

A produção de mandalas em situação terapêutica pode fazer emergir do fundo, a  história de vida, - com todos os aspectos que a compõem (situações inacabadas,  fluxo de experiência presente, crenças, filosofia vida, religião, mecanismos de  defesa, etc.) - conteúdos que o indivíduo tem dificuldades de acessar, e que não se  tornam figura, pelas defesas e resistências que reproduz.  

Neste sentido, a mandala é um instrumento portador dos conteúdos emocionais do  indivíduo que a produziu. O seu formato circular e o seu centro, traduzem elementos  da estrutura da psique, da totalidade, da forma primordial onde nascem todas as  formas (BASSO & AMARAL, 2011), projetando ao exterior conteúdos internos nem  sempre acessíveis por outras vias como a verbal. Por ser uma possibilidade de se  expressar livremente, e sem a verbalização, o indivíduo evita a racionalização dos  conteúdos emocionais, que acontece muito nos momentos de expressão pela fala,  porém, consonante com as ideias de Basso e Amaral (2011), com uma maior  segurança interna, proporcionada pela concretude, materialização, contenção e  organização que o quadrado propicia. Esta dinâmica facilita o emergir dos  conteúdos, já que para a figura emergir, é necessário um suporte interno como fundo  (RIBEIRO, 1985).

 

Ao projetar na produção seus conteúdos emocionais, no momento da análise, o  indivíduo é capaz de tornar figura, aqueles materiais que estavam distorcidos no  fundo, e entrar em contato com eles de forma menos dolorosa. Zinker (2007) afirma  que nos processos de construção "as formas começam a se destacar em relação a  um fundo até então homogêneo. (...) O processo interior das pessoas se reflete em  sua produção. Ele vem de um estado em que a energia se encontrava  predominantemente indiferenciada para entrar em condição de clareza da  consciência." (pp. 277).

A produção e análise das mandalas, portanto, tem um caráter catártico por si só, à  medida que o indivíduo tem a possibilidade de externar esses conteúdos que, por  outras vias, não conseguem ser acessados ou liberados, proporcionando uma  sensação de alívio e bem-estar àquele que a produz.

O terapeuta precisa estar atento às nuances, variações de comportamento, modo de  funcionar e expressões corpóreas que o cliente vivencia ao longo da produção, para  que no momento adequado possa questionar ao indivíduo o que está acontecendo  no aqui e agora. Toda a construção individual e subjetiva, sempre dará pistas do  funcionamento deste indivíduo em suas relações (KIYAN, 2009).  

Muitas vezes a forma de expressar as insatisfações e fazer contato são similares,  mas no processo interno conteúdos muito particulares e divergentes são  mobilizados, como a impossibilidade de perceber o erro, a intolerância à  possibilidade de produzir algo feio, a própria sensação de inadequação em suas  relações, ou mesmo a dificuldade de tomar decisões e sustentá-las. Essas situações  vêm acompanhadas de mudanças na respiração, gestos corporais e até pequenas  frases de descontentamento, que devem ser percebidas e pontuadas pelo terapeuta contribuindo para a ampliação da “awareness”.  

Yontef (1984) afirma que na Gestalt-terapia enfatizamos “awareness” "no sentido de  saber o que estou fazendo agora (...). E não se confunde esse estar sendo com o  que foi, poderia ter sido ou poderia ser. Nós guiamos nosso procedimento baseados  na ‘awareness’ do que é, energizando a figura em questão no presente e com vivo  interesse" (pp. 53). Nestes casos, a partir das intervenções de intensificação destes  gestos, ou dos questionamentos sobre "o que você está sentindo agora? O que está  acontecendo neste momento?", o cliente passa a se dar conta de que sensações,  sentimentos, e desejos emergem deste contato. Neste momento, abre-se a  possibilidade de o indivíduo perceber em que situações de vida ele reproduz e tem  vivenciado esta forma de agir e sentir. Em todos os casos, as sensações e sentimentos que surgem no momento da produção e da interpretação, representam  o momento atual do indivíduo e cabe ao terapeuta conduzir para um “continuum” de  “awareness” e uma tentativa de compreensão global de si mesmo.

Levando-se em conta que é necessário trabalhar e compreender aquele conteúdo  que emerge do fundo, a mandala para além de ser geradora de catarse e liberação  de tensão, tem o poder de integrar esses elementos que, muitas das vezes,  aparecem de maneira confusa. Kiyan (2009) e Andrade (2000) relatam que a arte, de  modo geral, possui por princípio básico a integração de polaridades, que tantas  vezes a GT busca como objetivo terapêutico, favorecendo a comunicação e coesão  de elementos conflitantes, e a reconciliação das necessidades do indivíduo com as  demandas do mundo externo.  

O contato sempre ocorre em um limite denominado fronteira de contato, mais ou  menos permeável a depender do indivíduo e da situação, favorecendo, dificultando  ou impedindo, desta forma, o contato final (PERLS, 2011). Na produção de  mandalas, o formato quadrangular representa um limite estabelecido pelo formato da  folha de papel, ou enquanto moldura que contém o círculo central, atuando simbolicamente como a fronteira de contato, dando contenção e trazendo o limite, o  que pode facilitar ainda mais a integração dos conteúdos e equilíbrio dessas  polaridades, presentes no círculo. Ao mesmo tempo, como representante da  dualidade, o quadrado sozinho mantém a ilusão da separação e do medo (BASSO &  AMARAL, 2011). A mandala, no entanto, contém o círculo e o centro, representando  o movimento energético dessas polaridades, num livre fluxo de energia ascendente (em direção ao círculo) e descendente (em direção ao centro), representando o  também fluxo do ciclo homeostático (figura-fundo), mas com uma borda que  estrutura e encoraja o contato, pelo próprio cliente.  

É a tensão entre opostos que mantém a nossa integridade identitária ao longo da  vida, na medida em que cada movimento feito em direção à mudança gera outro  movimento para a conservação, e o processo não se completa sem uma nova  síntese entre ambos (SPANGENBERG, 2007). Essas forças para a mudança e  preservação, em sua inter-relação, fenômeno denominado resistência, é o que  garante o nosso crescimento. Segundo Spangenberg (2007) é importante que o  cliente experimente essas duas forças como polaridades dentro da sua própria  pessoa, e o conteúdo projetado nas mandalas representa a integração desses  elementos.

Zinker (2007) contribui para as informações acima, quando relata que à medida que  se avalia uma obra artística final, neste caso específico a produção da mandala completa, o indivíduo tem a sensação interior de plenitude e integração. O terapeuta  tem um papel central na promoção deste ambiente seguro e acolhedor, que, somado  ao próprio formato geométrico da mandala, permite ao cliente a exploração desses  conteúdos de uma maneira menos dolorosa. Kiyan (2009) complementa relatando  que "a liberação da expressão, juntamente com o contato confiável que o cliente  pode obter no processo terapêutico, pode promover verdadeiras obras de arte  humana, no sentido da reconfiguração de uma existência na qual a melhor forma  não pôde ser vivida" (pp. 95).

Como já foi dito, as polaridades (crescimento e morte, atração e repulsão de formas  e forças, passado e futuro, etc) são mantidas juntas pelo centro (ARQUELLES &  ARQUELLES, 1972) e manifestadas pela dualidade do quadrado (BASSO &  AMARAL, 2011). Desta forma, centramento (concentração) e crescimento  (expansão) definem o ritmo ou processo da mandala, também representado pelo  movimento centro-círculo-centro. Pela concentração de sua energia, um organismo  é capaz de curar-se, crescer e expandir-se além de si mesmo (ARQUELLES &  ARQUELLES, 1972).  

Como afirma Spangenberg (2007), a nossa intenção em psicoterapia é colocar quem  nos consulta em contato com seu dilema. Respeitar a resistência é, neste sentido,  contatar a polaridade das forças em luta, já que representam a própria resistência. O  resultado desta confrontação consciente e experiencial, possibilitada pela construção  da mandala, em seu devido tempo produzirá uma nova síntese. Este instrumento  consiste, portanto, na materialização da própria resolução organísmica do sujeito, na  medida em que proporciona a experimentação do dilema e o equilíbrio das forças  polares dentro da singularidade de cada um.  

Em outras palavras, a representação mandálica traz a própria representação do  indivíduo, enquanto ser-no-mundo, num movimento do "aqui e agora", sem começo  e sem fim. O ponto central, representa a continuidade, através de um fluxo  organizador, estruturador, em contração (centrípeto) e um fluxo em direção à  periferia (centrífugo) de expansão, que destrói a forma conhecida, trazendo novas  possibilidades (BASSO & AMARAL, 2011). Cada indivíduo não é nem um, nem outro movimento, isoladamente, mas é um e outro simultaneamente (BASSO & AMARAL,  2011), construindo e destruindo, abrindo e fechando “gestalten”, renovando e  estabilizando, coexistindo em distintos sistemas.

O mais importante em uma intervenção e relação terapêutica, deste modo, não gira  necessariamente em torno do conteúdo das histórias de vida, pois isso está  presente em sua totalidade, e em todo o modo que o sujeito se relaciona no contexto  terapêutico, mas da forma como esse sujeito se expressa (SPANGENBERG, 2007).  Além disso, a sugestão de produção de mandalas deve ser dada preferencialmente  quando já te se um vínculo terapêutico, pois ficará mais fácil para o terapeuta  detectar os padrões repetitivos do cliente, realizando uma intervenção mais  assertiva.

Os padrões repetitivos representam uma matriz ou leitura fixa do mundo e de si  mesmo, e por uma resposta comportamental estereotipada (forma), que pretende  defender o indivíduo da exposição emocional ao conteúdo, sendo realizada sem  tomada de consciência, de forma automática (SPANGENBERG, 2007). Desse modo,  se não podemos deixar em evidência a “forma” e não a mudamos, jamais  poderemos auxiliar na transformação da matriz emocional do cliente. O experimento  com as mandalas permite evidenciar a “forma” como conteúdo de identidade  neurótica, na medida em que o sujeito se revela com menos controle que através da  via verbal, como já fora mencionado.

Os mecanismos de funcionamento, expressos pela identidade neurótica em Gestalt terapia, são instrumentos a serviço da manutenção e preservação de uma  determinada estrutura de personalidade, o que Spangenberg (2007) chama de  “como” da resistência. Não consiste em um eixo patológico, mas uma necessidade  de sobreviver e organizar o campo perceptivo em todas as suas possibilidades de  seleções e prioridades. Para avaliar estes mecanismos é necessário entender como  estão sendo utilizados, a serviço de qual tipo de estrutura de personalidade e quais  as consequências de sua aplicação na vida de cada sujeito (SPANGENBERG,  2007).

Em relação à compreensão destes mecanismos na Gestalt-terapia, Kiyan (2006)  refere-se à palavra “Self” genericamente utilizada como sinônimo de "eu" ou "eu  mesmo", determinando uma característica de instância psíquica, ou seja, um lugar  em mim mesmo que "sou eu". Perls, Hefferline e Goodman (1997) articularam a  teoria do “Self” e afirmam:

“Self” é o sistema complexo de contatos necessários ao ajustamento no  

campo imbricado (...) não deve se pensar “self” como uma instituição fixada;  

ele existe onde quer que haja de fato uma interação de fronteira, e sempre  

que esta existir (...) o “self” pode ser considerado como estando na fronteira  

do organismo, mas a própria fronteira não está isolada do ambiente; entra  

em contato com este, e pertence a ambos, ao ambiente e ao organismo (pp.  

179).

Desta forma, o “Self” não pode ser considerado uma instância, mas um sistema cuja  função é variável dependendo da necessidade organísmica e do meio no qual esse  organismo busca sua satisfação. Kiyan (2006) complementa que a "força" do “Self” é  diretamente proporcional à demanda de energia necessária para o fechamento de determinada figura, de forma que ele se torna mais presente, quanto maior a  dificuldade da necessidade ser satisfeita. O “Self” assume função de mediador, e  quando há a resolução ele perde a intensidade.

A alienação das partes do nosso “Self” nunca é totalmente satisfatória, mas sempre  retornam e grande parte da energia é gasta em manter uma estrutura fixa, numa  relação repetitiva entre forma e conteúdo (SPANGENBERG, 2007). Embora fique  claro que todos utilizamos todos os mecanismos em seu aspecto relacional e  limitador, sempre utilizamos alguns de forma mais constante e intensa que outros,  existindo uma ordem entre eles (SPANGENBERG, 2007). Dependendo do  mecanismo em jogo, portanto, a dificuldade para ser vencida exige distintas  estratégias.

Dentre os mecanismos2 centrais, conforme explicitados por Spangenberg (2007),  encontram-se a “projeção, a introjeção, a retroflexão, a deflexão, a confluência e o  egotismo”. Posteriormente, foram integradas outras possibilidades, conforme  expresso por Pinto (2015), envolvendo a “proflexão”, como uma interligação da  “projeção” e “retroflexão”. O trabalho de transformação não é conduzido no intuito de  destruir ou agredir o mecanismo prevalente, já que se trata do que assegura a forma  que contem a identidade da pessoa, mas modificando seu uso e flexibilizando sua  função (SPANGENBERG, 2007), como veremos a seguir.

Já que o “Self” assume essa "plasticidade" em relação a sua função, pode assumir a  função ou aspecto de Ego, Id e Personalidade, muito mais para efeito didático que  uma correspondência total com a realidade (KIYAN, 2006). Essa mesma autora  sugere que a função id está ligada às funções e atos automáticos, como satisfação  das necessidades vitais e pulsões internas, a função ego, por sua vez, consiste em  uma função ativa do “Self”, em que há liberação de atitude por parte do indivíduo,  tanto no sentimento de assimilação como de rejeição. Indivíduo deliberadamente  manipula o ambiente, a partir de uma tomada de consciência, contatando ou fugindo,  dependendo do que seja necessário para fechar uma “Gestalt”. Por fim, a função  personalidade está ligada à autoimagem. Grosso modo é como cada um se  percebe. Esta função tem por tarefa básica assegurar a integração das experiências  anteriores, construindo a identidade de cada um (KIYAN, 2006).

As mandalas e a maneira como são produzidas sempre ativam um modo de  funcionamento do “Self”, de forma que o gestalt-terapeuta vai conduzir a atividade do  cliente na perspectiva da ativação da função necessária ao atingimento dos  objetivos do trabalho proposto.

Pode-se perceber na prática clínica, que a produção de mandalas livres, sem uma  consigna anterior, ou necessidade de uma simetria, ativa o “Self” funcionando como  Id, podendo ser realizada por exemplo com pinturas com tinta de dedo (sem pincéis,  os dedos funcionam como pincéis, dificultando o controle e a precisão), ou pedindo  que o sujeito tente não "escolher" as cores por um padrão de beleza estético anterior  e comum, mas que apenas olhem para as cores e experimentem utilizá-las pela livre  vontade, sem uma reflexão prévia do que pode ficar "mais bonito" ou harmônico  esteticamente. Neste caso, o indivíduo não atua tanto com a "consciência", mas  deixa fluir as suas pulsões internas, buscando clarificar esses conteúdos, deixá-los  emergir, satisfazer essas necessidades vitais sem controlar o que surge.

Esse tipo de trabalho pode ser interessante de ser conduzido principalmente em  indivíduos introjetivos, pelo temor à rejeição, ao ridículo e pelas tentativas de se  adequar às expectativas (PINTO, 2015); projetivos, que normalmente estão sempre  alertas, defensivos, em permanente estado de atenção e controle (PINTO, 2015);  retroflexivos, pela alta capacidade de se conter e se portar do modo "adequado"  (PINTO, 2015) e pelos egotistas, por serem muito ligados à imagem, vaidade,  perfeccionismo e sensibilidade às críticas (PINTO, 2015). Por estimular a função Id,  dificultam o controle e a rigidez, estimulando um modo de funcionar diferente do  costumeiro.

 2 Embora acreditemos na importância de discorrer sobre cada mecanismo isoladamente, optamos por  citar, mas não aprofundar esta revisão, diante da limitação estrutural que o artigo nos impõe. Para  este aprofundamento indicamos Pinto (2015) e Spangenberg (2007).

Por outro lado, a produção de mandalas geométricas, simetricamente desenhadas e  organizadas, em todos os seus âmbitos, ativam e reforçam o modo de  funcionamento do “Self” como Ego. Aqui o “Self” atua de maneira ativa, e o indivíduo  constrói a mandala com intenção e foco no que quer construir ou destruir, com  consciência de cada traçado e o que eles representam, tecendo conscientemente  uma estrutura que melhor satisfará a sua necessidade consciente.

Este exercício, por sua vez, tende a ser interessante quando utilizado em sujeitos  dessensibilizados, que temem o contato e tendem a resfriá-lo (PINTO, 2015);  defletores, que tendem a reagir intensa e exageradamente aos contatos com o outro,  com tônus corporal muito energizado e dificuldade de fechar as “gestalten” (PINTO,  2015); profletores, pela tendência à impulsividade e labilidade emocional, além da  dificuldade de controlar os impulsos e estabelecer fronteiras sólidas (PINTO, 2015)  e, por fim, em confluentes, pela tendência a se misturar, além de necessidade de  fortalecimento da fronteira de contato (PINTO, 2015), justamente por promoverem  um fortalecimento das fronteiras, maior controle e organização do material que  emerge.  

No caso da função personalidade, essa vai ser ativada em qualquer tipo de trabalho  com mandalas, pois todos promovem uma projeção da autoimagem. Qualquer  trabalho realizado vai ser elaborado e interpretado de acordo com a percepção do  cliente e da forma como ele se percebe, facilitando a integração dos conteúdos  internos e clareza do seu modo particular de funcionar.  

Polster & Polster (2001) afirmam que o contato é o meio para a pessoa mudar e para  mudar a experiência que tem no mundo. A mudança é o resultado inevitável do  contato, na medida em que ocorrem a assimilação do que é nutritivo e a rejeição do  que é nocivo. No trabalho com as mandalas, o indivíduo se depara com a  possibilidade de compreender a sua inteireza; se permite vivenciar as gestalten ocultas, e vivenciar a sensação de completude e integração. Entra em contato com o  seu próprio modo de construir; de existir em relação. Ele experiencia o realizar, o  produzir, a sua interação com os materiais e consigo mesmo, e experiencia a  possibilidade de mudança; a possibilidade de modificar caminhos, refazer e reconstruir. Melhor dizendo: a possibilidade de modificar caminhos, de refazer-se e  reconstruir-se.

 

CONCLUSÃO:

O elemento circular sempre teve papel central na vida dos indivíduos, desde os  tempos mais remotos. O objetivo geral deste documento foi fornecer um material  teórico, com base nos fundamentos gestálticos, de forma a facilitar a utilização das  mandalas dentro desta perspectiva na prática clínica e colaborar com a construção  de um arcabouço teórico que ainda está muito insipiente.

Percebemos que a construção e a análise das mandalas tem um caráter pessoal,  particular e intransponível, revelando e fazendo emergir conteúdos muito próprios e  únicos de quem os preparou, e ativando um modo particular de funcionamento do  Self; lembrando que os elementos da mandala em interação com o seu centro,  trazem uma representação das propriedades psíquicas que estão sempre em  mutação. Por esse mesmo motivo, uma mandala feita por outra pessoa, pode até ser  trabalhado com um indivíduo que não a produziu, mas dentro da perspectiva do que irá ecoar em quem a está analisando.  

Conforme observado, estes elementos circulares possuem um poder de  centramento, e fortalecimento da fronteira de contato, não só pelo seu formato  quadrangular, circular e o seu centro, mas também pela possibilidade de exprimir  toda a excitação e revelar o poder criador de cada um, além de proporcionar e  catalisar uma revelação dos mecanismos de defesa e disfunções de contato  utilizadas pelo indivíduo que as produz. Ao expressar os conteúdos internos, que  nem sempre são acessíveis por outras vias como a verbal, a mandala proporciona  esse contato com o interior e todas as situações bloqueadas de “gestalten” inacabadas. O indivíduo se percebe em sua inteireza; se permite experienciar a  sensação de completude e integração. O formato quadrangular atuando como um  limite, uma fronteira de contato, também auxilia no contato mais fluido com o "fundo"  e as “gestalten” ocultas, e no fechamento destas com maior segurança, e sensação  de completude.  

Deve-se levar em conta, como percebido ao longo do artigo, que o experimento de  produção e análise das mandalas, assim como qualquer outro experimento artístico,  não se trata de um evento único, que resolve um problema central, numa estrutura  de uma sessão. Esta é uma ferramenta e um modo de trabalhar experimentalmente  com o outro, e consigo mesmo, que pode levar ao desenrolar de diversas questões  a serem trabalhadas, muitas vezes, em mais de um momento, e que não se  encerram ali, como a resolução de todos os problemas do indivíduo.

Por fim, diante da ínfima literatura acerca deste recurso, e marcando a importância  que possui para a prática clínica, este trabalho se propôs a demonstrar o quanto  este elemento é significativo, e o espaço que esta reflexão pode e precisa preencher  na teoria gestáltica, junto a outros experimentos já difundidos e comumente  experienciados.

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NOTAS

Bruna Improta de Oliveira Mendonça: Doutoranda em Psicologia pela Universidade  Federal da Bahia (UFBA); Mestra em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia  (UFBA); Especialista em Gestalt-terapia (IGTBA e Escola Bahiana de Medicina e Saúde  Pública); Psicóloga formada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua em clínica  individual e de grupos através da Gestalt-terapia e arteterapia gestáltica, facilita oficinas e  workshops, contemplando também o foco em Orientação Profissional. Docente do curso de  Psicologia da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e da Especialização em Psicologia  Organizacional da UNIFACS - Universidade Salvador, além de lecionar em especializações  de Gestalt-terapia nas cidades de Salvador-BA, Vitória-ES e Feira de Santana-BA.

Maria Alice Queiroz de Brito: Graduada pela Faculdade de Psicologia (PUC-SP) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1976); Mestrado em Programa de Pós Graduação em Psicologia -PPGPSI pela Universidade Federal da Bahia (2012). Diretora do  Instituto de Gestalt-terapia da Bahia. Atualmente é docente da Universidade Federal da  Bahia; Temas em que leciona: psicoterapia; gestalt-terapia, psicoterapia breve, caixa de  areia em gestalt--terapia, psicologia transpessoal, reconfiguração do campo familiar.

Endereço para correspondência

Bruna Improta de Oliveira Mendonça

E-mail: improta.bruna@gmail.com

Maria Alice Queiroz de Brito

E-mail: likaqb@uol.com.br

Recebido em: 15/03/2018

Aprovado em: 04/07/2018

Revista IGT na Rede, v. 14, nº 27, 2017, p.273-290 DOI 10.5281/zenodo.15054648

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526