ARTIGO

Marcas na pele: A autolesão sob a ótica da Gestalt-terapia Skin tags: Self-harm from the point of view of Gestalt-therapy 

Damiriane Lino Couto

Luane Seixas Pereira Cunha

RESUMO

A produção desse trabalho tem por intuito compreender a conduta autolesiva,  um comportamento de violência autoinfligida, a partir da perspectiva da Gestalt terapia. Essa correlação tem o objetivo central de perceber o modo como a  abordagem gestáltica lida com as práticas autolesivas e qual o papel do  Gestalt-terapeuta frente essa demanda. Utilizando-se da pesquisa bibliográfica  para a coleta de dados as reflexões são direcionadas a partir da percepção  “gestáltica” da relação corpo-pessoa-mundo e da forma particular da Gestalt terapia considerar um sintoma como contextualizado e do sujeito como ser-no mundo. O trabalho facilitou ainda a reflexão sobre o papel do Gestalt-terapeuta,  a qual à este importa atentar-se para a percepção do que a autolesão tem a  dizer sobre o sujeito que a pratica. Ainda que o comportamento autolesivo seja  difundido nos ambientes sociais, no âmbito acadêmico há uma escassez de  produção sobre esse tema, sobretudo nas pesquisas brasileiras. Logo, esse  trabalho tem em sua essência a premissa de contribuir com novos olhares  sociais e científicos à conduta autolesiva, impulsionando para que o tema deixe  de ser um tabu.

Palavras-chave: Autolesão; Autoagressão; Gestalt-terapia; Ajustamento  Criativo.

ABSTRACT

The production of this work has the objective understand the self-injurious  conduct, a behavior of self-inflicted violence starting of the perspective of  Gestalt-therapy. This interconnection has the central objective to perceive the  way that the gestaltica approach dealing with self-injurious practices and what is  the role of the Gestalt-therapist in front this demand. Using bibliographic  research for the collection of data the reflections are directed from the Gestalt  perception of the body-person-world relationship and the particular form of  Gestalt-therapy to consider a symptom as contextualized and of the subject  how to be in the world. The work facilitated the reflection on the role of the  Gestalt-therapist, who to this one is attentive to the perception of what the self injury has to say about the subject who practices it. Although self-injurious  behavior is widespread in social settings, there is still a shortage of production  on this subject, especially in Brazilian research. Therefore, this work has in its  essence the premise of contributing with new social and scientific looks to self injurious conduct, pushing for the topic to stop being a taboo.

Keywords: Self-injury; Self-harm; Gestalt-therapy; Creative Adjustment.

INTRODUÇÃO  

Comportamentos de agressividade autodirigida têm acompanhado a evolução  humana, estando presente em culturas e tradições diversas e possuindo  variadas funcionalidades e motivações. Na contemporaneidade algumas  condutas autoagressivas carregam consigo características religiosas e sociais,  como o esticar dos lábios e pescoço em tribos africanas, e, especialmente, na  cultura ocidental como meio de garantir a individualidade, caracterizado pelo o  uso de “piercings” e tatuagens (BORGES, 2012).

Contudo, determinados comportamentos autogressivos têm ganhado espaços  de discussões, especialmente pelas motivações afetivas e emocionais  envolvidas, são as práticas automutilatórias e autolesivas (BORGES, 2012).  Erroneamente, tais condutas são tidas como semelhantes, no entanto, estas se  diferem quanto ao grau de violência, pois enquanto a automutilação volta-se  para ações de amputação de parte do corpo, a autolesão se caracteriza por  danos sobre a pele, como cortes e queimaduras.

A centralidade desse estudo volta-se, pois, para a prática autolesiva que não  esteja relacionada à intenção de suicídio ou à um sintoma de alguma patologia  específica. Tendo em vista as colocações de autores como Walsh (2007),  Arcoverde e Soares (2012), Cummings (2015), Garreto (2015), a autolesão  sem estar relacionada às características supracitadas, pode ser compreendida  como uma tentativa de homeostase entre o sujeito e meio. Esse modo de se  relacionar com o mundo externo pode, então, representar a melhor maneira  que fora encontrada por esse indivíduo na busca por autorregulação.  

No que se refere à magnitude e prevalência estudos apontam que a autolesão  é mais recorrente entre adolescentes e mulheres jovens, tendo início, de modo  geral, entre os 11 e 15 anos de idade podendo se estender por décadas  (GARRETO, 2015). Autores postulam ainda o crescimento de conteúdo “on line” sobre a prática autolesiva, propagada especialmente entre adolescentes,  o que tem gerado preocupações em termos sociais (CAVALCANTE, 2015;  OTTO; SANTOS, 2015).

O comportamento de autolesão é instaurado e mantido por meio de diversos  fatores, de caráter biológico, psicológico e social, refletindo assim, a  complexidade desse comportamento (ARCOVERDE; SOARES, 2012). Logo,  para compreender tal conduta é necessário ter um olhar global, que  correlacione o indivíduo com sua história de vida, seu contexto e seu momento  atual. Nesse aspecto, a Gestalt-terapia como abordagem psicológica pode  fornecer subsídios na compreensão da autolesão, especialmente por sua visão  holística do ser-humano. Sendo assim, de que modo a Gestalt-terapia  compreende o comportamento de autolesão e qual é a postura do Gestalt terapeuta frente essa demanda?  

A partir desse questionamento esse trabalho visa abarcar questões que  correlacione a prática de autolesão e os conceitos da abordagem gestáltica,  fornecendo a possibilidade de contribuir para pesquisas com essa temática.

Objetiva-se, portanto, facilitar a reflexão sobre o papel da conduta autolesiva no  organismo; levantar a discussão acerca da interlocução da Gestalt-terapia e  corpo; pensar na autolesão como um ajustamento criativo e fomentar a reflexão  acerca do posicionamento do Gestalt-terapeuta em contato com um cliente que  tem a prática da autolesão.  

Por meio da pesquisa bibliográfica os dados foram coletados a fim de abranger  o questionamento central e as especificidades dos demais objetivos desse  estudo. A análise dos dados é de abordagem qualitativa e de caráter  exploratório, influenciando que o fenômeno seja percebido e compreendido  através de um novo paradigma. Para tanto, inicialmente a autolesão é  apresentada com o delineamento de seus aspectos gerais, abarcando  conceituação e diferenciação de termos, possível definição e prevalência.  Posteriormente a autolesão é concebida como um comportamento de múltiplos  fatores, indicando estudos que a compreende através de um caráter  biopsicossocial. Logo após, a fim de auxiliar o leitor na reflexão acerca da  escolha da teoria gestáltica, há um apanhado geral sobre a compreensão de  ser e mundo na perspectiva da Gestalt-terapia.

Nesse estudo, explana-se também o modo como a Gestalt-terapia compreende  a autolesão, sugerindo reflexões no que se refere a função que o “self” ocupa  no organismo. Logo após, a discussão se abrange considerando a  compreensão do corpo em Gestalt-terapia, como meio de explorar  considerações da conexão corpo-pessoa-ambiente do sujeito que se  autolesiona. Finalmente a discussão volta-se para o papel do Gestalt-terapeuta  frente à essa demanda, priorizando a ética e a autonomia do cliente que  procura a psicoterapia.  

O tema da autolesão ainda é pouco discutido no ambiente acadêmico, logo, o  desenvolvimento desse trabalho sofreu com a escassez de artigos científicos  na área da psicologia e afins. Contudo, através das discussões aqui levantadas  têm-se a possibilidade de serem estabelecidas novas reflexões e ponderações  no que se refere ao comportamento de autolesão, uma prática socialmente  difundida, mas que ainda é um tabu.  

1 - FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

1.1. Características Gerais da Autolesão

O comportamento de autolesão é compreendido pela literatura como uma  prática de violência autodirigida (ALMEIDA; HORTA, 2010; ARCOVERDE;  SOARES, 2012; BORGES, 2012; CALDAS et al., 2009; OTTO; SANTOS, 2015;  WALSH, 2007). Arcoverde e Soares (2012, p. 294) salientam que o ato de  provocar danos físicos a si mesmo causa estranheza por contradizer o  chamado “instinto da busca pela sobrevivência, evitação da dor e preservação  da vida”. Nessa perspectiva, Daolio (2012) afirma que a conduta de autodestruição implica a participação de modo repetitivo em alguma atividade  de caráter perigoso, havendo ou não a intencionalidade de suicídio.  

A prática de autodestruição pode ser percebida historicamente em diversas  culturas, vinculando-se, portanto, a uma característica social. Tais  comportamentos podem incluir um caráter religioso, possuindo finalidades  específicas – como as de curar, marcar posição social, ou ser expressão de  espiritualidade – refletindo tradições e demarcando uma posição social para os  indivíduos que a pratica (ALMEIDA; HORTA, 2010). Na contemporaneidade o  uso de “piercings” e tatuagens são artifícios presentes na esfera social e, ainda  que sejam consideradas práticas de agressão autodirigida, são condutas  aceitas socialmente (ARCOVERDE; SOARES, 2012; BORGES, 2012).  

No entanto, existem comportamentos de agressividade autodirigida que são  considerados patológicos por não estarem relacionados a nenhum valor  simbólico no meio sociocultural e/ou religioso. Assim, autolesões,  automutilações, tentativas de suicídio e suicídio, são condutas que possuem  motivações de caráter afetivo e emocional e, por essa razão, o indivíduo pode,  provavelmente, experienciar situações de preconceito ou julgamento por parte  do outro (SIMEON; HOLLANDER, 2001, apud ALMEIDA; HORTA, 2010).  Borges (2012) postula estudos que enfatizam que quando o objetivo não é a  morte, mas a tentativa de estabelecer um equilíbrio psicológico frente à  situações de adversidades, o indivíduo que não possui mecanismos de  homeostase vale-se das condutas autolesivas ou automutilatórias.

Comumente, autores utilizam o termo “automutilação” quando, na verdade,  estão se referindo à prática de autolesão (ARCOVERDE; SOARES, 2012).  Almeida e Horta (2010), Borges (2012) e Otto e Santos (2015) apontam que a  automutilação seria uma espécie de autolesão “maior”, tendo por  características a amputação de uma parte do corpo. Como nos relatos feitos  por Nucci e Dalgalarrondo (2000) onde apresentam seis casos de indivíduos  com transtornos mentais que tiveram o comportamento de arrancar os próprios  olhos (enucleação ocular). Logo, enucleação de olhos, casos de castração e  amputação de alguma parte do corpo são comportamentos característicos de  indivíduos psicóticos.  

Por sua vez, o comportamento de autolesão refere-se à prática de causar  danos ao próprio corpo. Sendo comum nesta conduta o uso de materiais  cortantes como lâminas, facas, cacos de vidros ou espelhos para fazer cortes  na pele, geralmente nos pulsos, braços e coxas; queimar-se; bater-se; atritar  objetos contra a pele, impedir cicatrização de ferimentos e derramar materiais  corrosivos sobre a pele, todas essas ações de tal forma que ocorra o  surgimento de um ferimento (ARCOVERDE; SOARES, 2012; CAVALCANTE,  2015; CEDARO; NASCIMENTO, 2013; GARRETO, 2015; GRATZ, 2001;  KAPLAN et al., 1997). Cavalcante (2015) afirma que tais práticas são utilizadas  como meio de suplantar dores de cunho emocional, em que o indivíduo não  sabe lidar como o faz com a dor física. Os ferimentos causados podem ter,  ainda, a intenção de aliviar o sentimento de culpa sacrificando uma parte do  corpo (CALDAS et al., 2009).

É possível perceber, pois, que a conceituação do comportamento de  autoagressão sofre diferentes definições, podendo ser prejudicial para a  compreensão do fenômeno por não existir um consenso entre os  pesquisadores (BORGES, 2012). A mesma autora ainda postula que essa  diversidade conceitual deriva das diferenças culturais. No entanto, assim como  na pesquisa de Arcoverde e Soares (2012), para esse estudo o termo  autolesão será utilizado referindo-se à conduta de ferir-se de modo intencional,  não se tratando de uma tentativa de suicídio, de automutilação desfigurante ou  estando vinculada à um sintoma de uma determinada patologia, mas  relacionada à “...destruição ou alteração direta do tecido corporal sem intenção  suicida consciente, mas que resulte em ferimento suficientemente grave para  provocar danos a esse tecido” (GRATZ, 2001, p.254).  

Diversos estudos acerca da autolesão salientam as funcionalidades da  conduta, sendo utilizada, especialmente, como meio de regular aflições  emocionais e relações interpessoais (ARCOVERDE; SOARES; 2012;  CUMMINGS, 2015; GARRETO, 2015; WALSH, 2007). Nock e Cha (2009 apud  BORGES, 2012) e Garreto (2015) ainda consideram outras funções que a  autolesão assume para o sujeito que a pratica, relacionando-se à autopunição,  podendo ser um comportamento natural, sendo utilizado como forma de  influência do comportamento dos outros e como possibilidade de comunicação.  O delineamento dessas funções e a prevalência da motivação de caráter  afetivo/emocional corroboram com a ideia de Otto e Santos (2015, p.51) que  ressaltam: “a autolesão vem mostrar que, para algumas pessoas, a dor na pele  não é nada quando comparada à dor psíquica”.  

No que tange à prevalência Arcoverde e Soares (2012) apontam que a  autolesão encontra-se maior entre mulheres, adolescentes e jovens adultos.  Caldas “et al”. (2009) indicam estudos que demonstram a prevalência da  autolesão em prisioneiros, sustentando que o encarceramento pode ser um  fator de vulnerabilidade para a autolesão. O comportamento de autolesão pode  ser encontrado em pessoas que sofreram negligência e/ou violência na  infância, pessoas com diagnóstico de algum transtorno, como transtorno de  alimentação, pós-traumático, de personalidade “borderline”, de ansiedade  (ARCOVERDE; SOARES, 2012; CALDAS et al., 2009; GARRETO, 2015).  Contudo, ainda que relacionado à sintomas de psicopatologias o ato de se  lesionar propositadamente tem sido descrito como um modo de manifestação  independente, já que essa conduta é encontra também em populações não clínicas (ARCOVERVE e SOARES, 2012).  

Segundo Garreto (2015) estudos indicam que o início da autolesão acontece  na adolescência entre os 11 e 15 anos de idade e pode permanecer por  décadas. Tal autor ainda afirma que mulheres jovens são mais propensas a  continuar a prática de autolesão e Borges (2012) ressalta em sua pesquisa que  a idade entre 18 e 25 anos é o grupo que possui mais potencial em se  desenvolver comportamentos autolesivos. Cavalcante (2015), em sua  pesquisa, afirma que a prática da autolesão tem crescido em conteúdo “on-line” e, por conta disso, se observa uma “onda autolesiva” entre adolescentes, gerando certo tom alarmante em escolas, instituições terapêuticas, entre a área  médica e na mídia.  

Ainda assim, a literatura não fornece dados específicos acerca da estimativa da  autolesão. Garreto (2015) reitera que na população brasileira não há estudo  epidemiológico publicado a respeito da conduta autolesiva em amostra clínica  e/ou populacional em nenhuma faixa etária, confirmando o que sugere  Arcoverde e Soares (2012) e Otto e Santos (2015) acerca da escassez de  pesquisa feita sobre o fenômeno da autolesão no Brasil.  

1.2. Autolesão: um Comportamento Biopsicossocial

Para compreender o comportamento de autolesão é preciso identifica-lo como  um ato que envolve múltiplos fatores. Arcoverde e Soares (2012) afirmam que  a conduta autolesiva é complexa podendo ter motivações biológicas,  psicológicas e/ou sociais. A partir desta prerrogativa esse estudo visa abarcar  os aspectos biopsicossociais que envolvem o ato de se autolesionar, e como  esta compreensão pode contribuir para a reflexão do manejo psicoterapêutico  na perspectiva da Gestalt-terapia.

A concepção de analisar o comportamento de modo biopsicossocial emerge da  compreensão de homem em Gestalt-terapia, o qual é concebido de modo  holístico, como um ser biopsicossocial, dotado de diferentes dimensões  (FRAZÃO; FUKUMITSU, 2015). Nessa perspectiva, a conduta autolesiva  relaciona-se com os vínculos que o sujeito estabeleceu ao longo de sua história  nas diversas extensões – física, afetiva, intelectual, social, cultural e espiritual – que o constitui.

Na esfera biológica a conduta de autolesão está vinculada aos aspectos  neuronais. De acordo com os postulados de Arcoverde e Soares (2012) o ato  de se ferir, em algumas pessoas, pode ser mantido devido à dependência do  neurotransmissor endorfina que é liberada quando há danos corporais. A  liberação da endorfina e a eminente sensação de dor física causada pelo  ferimento agem como um modo de distração a sentimentos de angústia e  frustração, causando alívio temporário. A repetição da conduta autolesiva,  nesse aspecto, relaciona-se com o fato de que em toda relação de  dependência ocorre o fenômeno da tolerância, logo, ferimentos cada vez mais  graves são provocados para manter os altos níveis de endorfina, evitando,  assim, a abstinência.  

Conforme determinados estudos, os indivíduos que possuem o comportamento  de autolesão podem apresentar um déficit na capacidade de resolução de  problemas, função relacionada ao córtex pré-frontal, mais especificadamente  ao córtex órbito-frontal, envolvido no controle das ações através da  antecipação, raciocínio, tomada de decisões, resolução de problemas e ajuste  social do comportamento (ARCOVERDE; SOARES, 2012; GARRETO, 2015;  KELLER; WERLANG, 2005).

Arcoverde e Soares (2012) ressaltam que a conduta autolesiva pode ser  considerada uma alternativa de ação utilizada como estratégia de  enfrentamento de estresse. As funções de tomadas de decisões e a  capacidade de resolução de problemas envolvem o processo de escolher uma  dentre várias alternativas de ação, considerando as vantagens e desvantagens  no que se refere aos resultados (se a alternativa escolhida possibilitará o  alcance do objetivo), aspectos morais ou sociais (se a alternativa escolhida é  tida como moral e/ou socialmente inaceitável para o sujeito e/ou sociedade) e  autoconsciência, estando relacionada com as capacidades pessoais de  responsabilizar-se pela escolha.  

Borges (2012) ainda salienta que as explicações apenas biológicas sofrem  críticas, pois a autolesão é considerada um comportamento complexo indo  além de conceitos exclusivamente “biologicistas”. Nesse sentido, faz-se  necessário considerar as demais esferas que podem influenciar a conduta  autolesiva e como essas correlacionam-se para que tal comportamento seja  efetivado e mantido.

Em muitos casos a autolesão poderá representar uma tentativa desesperada  de cura, de estabilidade social e, em outras situações, de espiritualidade como  também poderá ser entendida como uma forma mórbida de autoajuda, já que  fornece um alívio temporário (BORGES, 2012). Nesse sentido, Otto e Santos  (2015) indicam que enquanto alguns sintomas são característicos de uma  determinada patologia, a autolesão se configura como um sintoma que se  adapta a diferentes demandas, podendo estar presente em casos de estados  depressivos, crises de ansiedade, transtorno de personalidade “borderline”,  momentos de impulsividade, agressividade, e em períodos de isolamento social  e de desesperança.  

Contudo, ainda que a conduta autolesiva esteja relacionada à uma  sintomatologia de determinados sofrimentos psicopatológicos este tipo de  conduta é encontrado também em populações não-clínicas, como salienta  Arcoverde e Soares (2012). A autolesão é, portanto, um comportamento que  impõe discussões mais profundas devendo, pois, questionar sobre a sociedade  e cultura atuais, indo além de soluções rápidas, definições e classificações de  novas doenças (CAVALCANTE, 2015). Dentro desta perspectiva que se deve  buscar compreender o comportamento de autolesão, abarcando além do indivíduo o contexto sócio/cultural no qual este se relaciona.  

Caldas “et al”. (2009) em seus estudos descreveram o ato de se ferir como  uma possível tentativa de comunicar um problema interpessoal, caso o ato seja  ignorado ou ocorra uma resposta não solidária ou desagradável, então o  comportamento autolesivo pode ser repetido de uma maneira mais  ameaçadora até que seu objetivo seja alcançado. Pode-se perceber que os  indivíduos que praticam a autolesão possuem grande influência do contexto  social, pois como indica Daolio (2012) a época atual legitimou culturalmente  condutas autodestrutivas que vão desde vícios socializados à objetalização do  outro e de si mesmo. Desse modo, Cavalcante (2015) sugere que a busca de  homeostase entre o interno e externo poderá influenciar no surgimento de práticas autolesivas como uma reação para manter o eu acordado em  condições de privação emocional não tendo, necessariamente, a intenção de  suicídio mas, a busca por equilíbrio.  

Perceber-se como não pertencente ao grupo social que o rodeia pode levar o  indivíduo a ter reações como a autolesão e a sociedade capitalista  contemporânea exerce influência nesse sentimento de “não-pertença”. Borges  (2012) aponta que uma das formas de conseguir a singularidade e,  simultaneamente, de demarcar o lugar na sociedade – sentir-se pertencente à  esta – poderá ser através de marcas na pele. A pele passará a ser um  reservatório de afetos e as marcas asseguram o indivíduo da sua existência,  distinguindo-o do outro e é por ela que se responde ao meio envolvente,  possibilitando o equilíbrio entre o interno e o externo.  

A autolesão, desse modo, possui funções no organismo de quem a pratica, a  funcionalidade do comportamento refere-se à diferentes aspectos e motivações  para que o comportamento seja mantido. Borges (2012) pondera estudos que  levantam hipóteses diversas para a conduta autolesiva como a de  aprendizagem social; autopunição; anti-dissociação; anti-suicídio; identificação;  sinalização social; analgésica à dor e a hipótese pragmática. Tal autora ainda  sustenta que negligência e/ou maus-tratos na infância pode acarretar traumas,  podendo a autolesão ser usada como meio de suplantar as dores que o  passado acarretou.  

A conduta autolesiva revela-se demasiadamente complexa, visto que são  comportamentos que envolvem diversos fatores e que, por essa razão, não  podem ser generalizados. A escassez de estudos no Brasil torna-se um  obstáculo para levantamentos de dados, como sugere Arcoverde e Soares  (2012). A grande variedade de fatores que podem influenciar a conduta  autolesiva indica a necessidade de compreender tal ato com especificidade,  indo além de generalizações e classificações de psicopatologias, considerando  que os fatores ambientais, neurológicos e psicológicos podem afetar,  simultaneamente, o indivíduo que pratica a autolesão, pois “tudo afeta tudo e  tudo é uma coisa só” (RIBEIRO, 2007, p.34).  

1.3. Compreendendo a Gestalt-terapia: Visão de Ser e Mundo

A Gestalt-terapia – GT vai além de uma abordagem ou teoria psicológica, é por  tanto, uma forma de ver o externo e o interno, um modo de viver, uma filosofia  existencial, uma forma peculiar de perceber a relação do ser vivo com o mundo  (GINGER e GINGER, 1995) e, como indica Ribeiro (2006), é uma ciência,  técnica e arte. A abordagem gestáltica não refere-se só ao homem mas, à  natureza como um todo, por isso resgatar o verdadeiro sentido do humano  implica resgatar a relação corpo-pessoa, mente-pessoa, ambiente-pessoa  compreendendo os três ângulos do triângulo chamado totalidade (RIBEIRO,  2006).

Conforme salienta os estudos de Fagan e Shepherd (1973) a Gestalt-terapia foi  desenvolvida por Frederick S. Perls, sendo influenciado pelas teorias  psicanalíticas na perspectiva de Wilheim Reich; pela Fenomenologia existencialismo europeu e pela Psicologia da “Gestalt” sendo caracterizada  como a terceira força da Psicologia. A palavra “Gestalt” é de origem alemã e  não há tradução para o português ou qualquer outra língua, Ginger e Ginger  (1995, p. 13) afirmam que “Gestalten” significa “dar forma, dar uma estrutura  significante”1. “É como se Gestalt-terapia fosse a projeção, a experiência  imediata, teórica do que significa Gestalt” (RIBEIRO, 2006, p.138).  

Apesar de ser considerado o principal precursor e fundador da Gestalt-terapia,  Perls afirmou em seu livro “Gestalt-terapia explicada” que é melhor chamá-lo  de “descobridor” ou “redescobridor”, pois de acordo com ele a “Gestalt é tão  velha quanto o próprio mundo” (PERLS, 1997, p. 3). Nessa mesma obra  Frederick S. Perls sustenta que a Gestalt-terapia considera o organismo como  um sistema que está em equilíbrio e seu funcionamento deve ser de forma  adequada, sendo assim, qualquer desequilíbrio é experienciado como uma  necessidade de correção.  

Ginger e Ginger (1995, p.16) descrevem a Gestalt-terapia como a “Terapia do  Contato”, da mesma forma Ribeiro (2007) salienta que a compreensão do  termo “contato” quando utilizado em GT difere-se da conceituação habitual. Na  abordagem gestáltica o conceito de Contato tem sua complexidade particular e,  quando bem compreendida, fornece subsídios para maiores possibilidades de  operacionalidade, tornando-se, portanto, um instrumento de trabalho sendo  referenciado pelas filosofias e teorias de base da GT: Existencialismo e  Fenomenologia, Psicologia da Gestalt, Teoria do Campo e Teoria Holísitca  (RIBEIRO, 2007).

Desse modo, Ribeiro (2007) afirma que a Gestalt-terapia está centrada no  conceito de Contato e na natureza das relações da pessoa consigo mesma  (organismo) e com o mundo exterior. O Contato ocorre sempre na fronteira  

entre o homem e o mundo, sendo a fronteira um lugar privilegiado do encontro  das diferenças. Ribeiro (2007, p. 11) postula ainda, que “Contato é emoção  experienciada, é movimento à procura de mudança, é energia que transforma,  é vida acontecendo, é consciência dando sentido à realidade”. Logo, a  compreensão conceitual de “contato” implica e fornece a possibilidade de  reflexão dos demais termos utilizados em GT, e assim, favorece o  entendimento da concepção de comportamento, de homem e meio, de saúde e  doença e, especialmente, do manejo terapêutico na perspectiva gestáltica.  

Perls (1997) salienta que o organismo está sempre se dirigindo para a  autorregulação, referindo-se à quando o organismo é deixado só para tomar  conta de si mesmo, sem que haja interferência ou interrupções, levando este – o organismo – ao equilíbrio adequado. Para Perls o que deve ser  compreendido primordialmente é a tomada de consciência em si e de si  mesmo, pois a tomada de consciência completa (“awareness”) e atual (aqui e  agora) pode tornar presente a autorregulação organísmica, sendo o oposto  disso toda patologia que interfere no autocontrole organísmico e,  consequentemente, na saúde do indivíduo como um todo.

Para que essa autorregulação seja eficaz e saudável o contato deve ser pleno  e genuíno abarcando a totalidade do sujeito, refletindo uma visão holística.  Sobre esta questão, Ginger e Ginger (1995) salientam a interconexão  permanente do indivíduo global, onde o todo está em um fluxo constante no  aqui e agora. Há, sendo assim, a necessidade da compreensão do humano  enquanto ser de dimensões biopsicossócio-espiritual (RIBEIRO, 2006), Ginger  e Ginger (1995, p. 17) afirmam que tal perspectiva sobre o ser humano que a  

1 Aspas dos próprios autores Serge e Anne Ginger.

Gestalt desenvolve “favorece um contato autêntico com os outros e consigo  mesmo, um ajustamento criador2 do organismo ao meio”. Nesse sentido, o  ajustamento criador ou ajustamento criativo se refere tanto uma forma do  organismo se autorregular, como um meio para não se desintegrar, criando  sintomas (SILVA; ALENCAR, 2011).  

Aguiar (2014) pontua que o processo denominado autorregulação organísmica  pode ser representado pela concepção do “Ciclo do Contato”, sendo concebido  por Ribeiro (2007) como movimentos orgânicos que procura satisfação de  necessidades por meio do contato nos diversos níveis. Assim sendo, a cada  ciclo em que uma necessidade é satisfeita o organismo se prepara para um  novo ciclo. Da concepção do Ciclo do Contato emerge conceitos como parte todo e figura-fundo. Perls (1997) afirma que figura é a experiência do primeiro  plano e o fundo o conteúdo, a perspectiva, a situação e quando juntos, figura fundo, formam a Gestalt. Por meio de tal compreensão e por conceber o  homem enquanto ser global, que transcende a concepção dualista3, revelando se enquanto uma totalidade multidimensional, às vezes, uma parte destaca-se  e expressa-se em primeiro plano (AGUIAR, 2014).

Ainda se referindo à compreensão do Ciclo do Contato, Ribeiro (2007, p.16)  explicita a concepção de “self” em GT, afirmando que: “O ‘self’ entra na Teoria  do Ciclo do Contato apenas como um dos elementos mediante os quais se  pode visualizar como o contato funciona, quando experienciado no encontro  humano”. Ribeiro (2007) ainda afirma que os fatores de cura e bloqueios de  Contato são algumas das várias formas de Contato que dão visibilidade ao  “self”.  

Os bloqueios de Contato, relacionam-se à um funcionamento não saudável do  organismo, é um modo de ajustamento criativo que corresponde à uma forma  do ser humano de lidar consigo mesmo e com o meio impedindo ou  dificultando, em alguns momentos, a realização de um contato pleno – satisfação de uma necessidade – (AGUIAR, 2014). Em contrapartida, como  salienta Monteiro Junior (2010) para cada bloqueio de contato há um fator de  cura atrelado, essa ideia emerge da concepção que Ribeiro (2007) postula  acerca da evolução terapêutica em GT, onde o processo de cura ou da saúde  possui uma dialógica, em que tudo afeta tudo.  

Na abordagem gestáltica o processo terapêutico de acordo com Ribeiro (2007,  p.52) deve:  

[...] facilitar um processo de diferenciação da realidade, com abertura  

total de horizontes, no qual a pessoa pense diferente, deseje  

diferente, se sinta diferente e aprenda a correr riscos, de tal modo  

que crie, em sua vida, formas de contato mais nutritivas e eficientes.

Sendo assim, o processo terapêutico está engajado no processo de mudança,  este ocorre no momento em que terapeuta e cliente fazem Contato com suas  

2 Grifo dos autores.

3 Conceito religioso e filosófico que admite a coexistência de dois princípios básicos, como  corpo e mente, estando um e outro sempre em conflito (BARTOSZECK, 2007).

totalidades, não apenas e necessariamente com seus sintomas, ao  psicoterapeuta cabe, por tanto, não tratar a doença e sim a pessoa adoecida  (RIBEIRO, 2007).  

Ginger e Ginger (1995, p.19) salientam que a Gestalt-terapia encoraja o  indivíduo a “observar as profundas correntes internas” da própria  personalidade, e não exaurir-se lutando contra ela. Nessa perspectiva, Ribeiro  (2006, p.106) define GT como uma terapia dialógica, em que o encontro é  primeiro intra-subjetivo e em um segundo momento inter-subjetivo, logo,  “cliente e terapeuta entram em contato após uma reflexão dialógica interna e  recíproca”. O caráter intersubjetivo sustenta que o cliente é um ser ativo nesse  processo, sendo ele próprio responsável por sua cura, afinal “o terapeuta cuida  do cliente para que ele possa se curar” (RIBEIRO, 2006, p.100). Concebe-se,  por tanto, que o manejo da psicoterapia deve ser pautado na compreensão do  indivíduo em sua totalidade, onde há integração e não análise, sendo uma  abordagem existencial a GT não se ocupa somente em lidar com o sintoma  mas, com a existência total da pessoa (PERLS, 1997).  

2 - METODOLOGIA

A pesquisa bibliográfica tem por objetivo possibilitar que o pesquisador entre  em contato com material que já fora produzido em relação ao tema estudado  (LAKATOS; MARCONI, 2003). Logo, a fim de contemplar os objetivos  propostos nesse Trabalho de Conclusão de Curso e abarcar a pergunta que  norteia este estudo, a metodologia utilizada para o embasamento teórico é  concernente à pesquisa bibliográfica.  

Toda pesquisa de caráter científico tem por finalidade o desenvolvimento de um  caráter interpretativo no que se refere aos dados obtidos, desse modo, torna-se  imprescindível correlacionar a pesquisa com o universo teórico (PRODANOV;  FREITAS, 2013). Por esta razão, o material teórico utilizado nesse estudo com  intuito de fundamentar a pesquisa, foram selecionados a partir de artigos  acadêmicos, revistas científicas, obras literárias, dissertações e trabalhos de  conclusão de curso, utilizando a pesquisa eletrônica em bancos de dados como  BVS (Biblioteca Virtual em Saúde), Google Acadêmico, Revista IGT na Rede,  PePSIC, SciELO e Teses USP, entre os meses de Julho à Novembro de 2016.

Com o objetivo de contribuir com a produção científica brasileira, a língua  portuguesa foi priorizada nesta pesquisa, no entanto, devido à carência de  material produzido referente à temática, produções da língua inglesa foram  utilizadas para corroborar com o universo teórico e fornecer subsídios nesta  pesquisa. Do mesmo modo, produções mais recentes, foram primordialmente  utilizadas. A pesquisa foi delimitada através do uso dos descritores:  “autolesão”, “automutilação”, “autoagressão”, “condutas autolesivas”, “Gestalt terapia”, “ajustamento criativo”, “ética na abordagem gestáltica”, “sintoma em  Gestalt-terapia”, “Intervenção na abordagem gestáltica”.

Para melhor compreensão do desenvolvimento desta pesquisa bibliográfica  foram feitos 2 gráficos que especificam o delineamento do estudo, bem como,  os fatores que influenciaram a inclusão/exclusão do uso de artigos. Os gráficos  relacionam-se com: 1.quantidade de artigos encontrados nos bancos de dados  já mencionado e 2.os artigos utilizados após os critérios e fatores de  inclusão/exclusão.  

O total de artigos inicialmente encontrados nas bases de dados foram de 121,  no entanto, a partir da pergunta norteadora “De que modo a abordagem  gestáltica compreende o comportamento de autolesão e qual postura do  Gestalt-terapeuta frente à essa demanda?” alguns critérios foram utilizados  para a exclusão de artigos que se referiam a: autolesão como sintoma da  esquizofrenia; automutilação como comportamento de desfigurar partes do  corpo; pesquisa de amostras populacionais em outros países que não o Brasil,  totalizando por fim o uso de 32 artigos.

É válido ressaltar que a pesquisa bibliográfica não é uma repetição do que já  foi dito ou escrito acerca de determinado assunto mas, fornece a compreensão  de um tema a partir de um novo enfoque ou abordagem, propiciando dessa  forma, novos olhares e reflexões sobre um mesmo assunto (LAKATOS e  MARCONI, 2003). Portanto, é seguindo tal prerrogativa que esta pesquisa  bibliográfica se direciona, a fim de influenciar novas reflexões e servir de base  para a construção de novas pesquisas.

No que se refere à abordagem este Trabalho de Conclusão de Curso se  relaciona com o método qualitativo onde, segundo Minayo (2001) a pesquisa  se refere ao universo dos significados, motivos, aspirações, crenças, atitudes e  valores, correspondendo, assim, a um espaço mais profundo das relações, dos  processos e do fenômeno. O objetivo desse estudo é de caráter exploratório,  partindo da perspectiva que este tipo de pesquisa tem o intuito de proporcionar  maior familiaridade com o problema, objetivando torná-lo mais explícito  (GERHARDT; SILVEIRA, 2009).

Grafico 1. Total de artigos encontrados em cada banco de dados com  base nos descritores.

Total de artigos: 121.

Gráfico 2. Total de artigos utilizados com base nos critérios de exclusão.

Total de artigos: 32.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

3.1- A Autolesão nos Caminhos da Abordagem Gestáltica

Considerando o que fora elucidado no decorrer desse estudo, torna-se possível  especular o modo como a abordagem gestáltica percebe a conduta autolesiva.Ginger e Ginger (1995) afirmam que a concepção de comportamento em  Gestalt-terapia emerge de uma percepção ampla e de um contexto global. Ao  passo que, Arcoverde e Soares (2012) salientam que para compreender o  comportamento de autolesão faz-se necessário identificá-lo em um conjunto  global, que envolve fatores e motivações diversas, de caráter biológico,  psicológico e/ou social.  

Dessa forma, através das concepções acima citadas, supõe-se que há uma  relação entre a concepção de comportamento em GT e o modo como a  conduta autolesiva deve ser percebida. A Gestalt-terapia considera o  comportamento em seus aspectos e contextos globais (GINGER; GINGER,  1995; PERLS, 1997; RIBEIRO, 2007) e é por essa via que a conduta de  autolesão deve ser compreendida de acordo com estudos (ARCOVERDE;  SOARES, 2012; BORGES, 2012).  

Borges (2012) em seu estudo explicita hipóteses de funções que o  comportamento de autolesão poderá assumir, como de aprendizagem social;  autopunição; anti-dissociativa; anti-suicídio; identificação; sinalização social;  analgésico à dor e a função pragmática, estando relacionada ao fácil acesso.  Nessa perspectiva, a concepção de que o comportamento de autolesão  assume diferentes funções no organismo dos sujeitos que a pratica pode ser  percebida através da premissa gestáltica de que “uma parte num todo é algo  bem diferente desta mesma parte isolada ou incluída num outro todo”4 (GINGER; GINGER, p. 14, 1995). Nesse sentido, uma mesma ação em  contextos diferentes e feitos por pessoas distintas pode repercutir sentidos  diversos.

As diferentes funções que o comportamento de autolesão possui influenciará  na função que o “self” irá assumir na personalidade do sujeito que a executa.  Ribeiro (2007) sustenta que o “self” é um sistema da personalidade, e sua  função é colocar-se como figura/fundo nas relações com o mundo exterior,  sendo a expressão da existência estrutural e estruturante em um processo  evolutivo na formação do corpo-pessoa-mundo. Através dessa percepção a  conduta autolesiva é uma expressão do “self”, é a forma do indivíduo se  relacionar com o mundo, um modo de ser-no-mundo que, segundo Angerami Calmon (2007, p. 26), “implica uma luta constante do homem consigo próprio  para não perder sua dignidade existencial e suas características individuais”.

A relação estabelecida entre o homem e o seu meio ambiente denomina-se  fronteira de contato. Esta fronteira é mais ou menos experienciada pelos  sujeitos como aquilo que está por dentro da pele e aquilo que está por fora dela  (PERLS, 1997). Aguiar (2014) afirma que é na fronteira de contato que ocorre a  seleção do que é nocivo e do que é saudável para o indivíduo, regulando as  trocas entre organismo e meio e as chances de crescimento e satisfação de  necessidade do indivíduo.  

Desse modo, é na fronteira de contato que os eventos psicológicos têm lugar,  os pensamentos, ações, comportamentos e emoções são o modo de    


4 Grifo dos autores

experiência e encontro com esses eventos de fronteira (GINGER; GINGER,  1995). Aguiar (2014) ressalta que o organismo tende à autorregular-se tendo  por objetivo alcançar o melhor acordo possível na busca da satisfação plena de  suas necessidades experienciadas, especialmente na fronteira, sendo este  acordo denominado ajustamento criativo. Assim, a conduta autolesiva pode ser  compreendida, a partir dessa perspectiva, como a reação experienciada na  fronteira de contato em busca do equilíbrio entre o organismo e ambiente.

Otto e Santos (2012) postulam que a autolesão relaciona-se à uma maneira  particular de reagir à uma emoção dolorosa. Logo, é através desse  comportamento que o indivíduo se ajusta aos eventos e emoções que lhe  proporcionam dor que ocorrem no mundo externo e são sentidas internamente,  é por meio da autolesão que ele busca a homeostase, a autolesão configura-se  portanto, como uma forma de ajustamento do organismo ao meio ambiente.

Aguiar (2014) salienta que os ajustamentos criativos podem ser saudáveis e  não-saudáveis e o que os diferencia relaciona-se à forma como a interação  entre sujeito/mundo acontece, essa interação é sempre regida pelo processo  de autorregulação. Assim, o que configura o ajustamento como não saudável é  o uso que o sujeito faz dele, a frequência com que ocorre e, principalmente, a  impossibilidade do sujeito ajustar-se de outro modo às diversas situações,  tornando-se inadequado e disfuncional ainda que satisfaça alguma  necessidade específica (AGUIAR, 2014).  

Otto e Santos (2012, p. 31) afirmam que “enquanto alguns sintomas são  próprios de um determinado sofrimento, a autolesão se configura como um  sintoma que se adapta a diferentes demandas”. Desse modo, os sujeitos que  praticam a autolesão adaptam esse comportamento à situações que  experienciam, é pela autolesão, portanto, que o organismo busca  autorregulação quando em contato à demandas que proporcionem  desequilíbrio emocional. Através da prática deliberada e repetida do  comportamento de autolesão o sujeito alcança o objetivo de regulação  esperada quando depara-se com emoções que lhe causam dor (CUMMINGS,  2015). Por essa razão a conduta autolesiva pode ser compreendida através da  ótica gestáltica como um ajustamento criativo disfuncional.

No entanto, ainda que o ajustamento criativo seja considerado disfuncional, por  dar mais ênfase ao criativo do que o adaptativo, o que deve ser lembrado é o  caráter de autorregulação do organismo e que cada indivíduo é único e  singular, portanto, faz-se necessário considerar que cada indivíduo vai construir  o seu “ser-no-mundo” da melhor forma possível de acordo com as condições  do momento (NUNES; HOLANDA, 2008). Dessa perspectiva gestáltica e  através dos estudos sobre a autolesão é possível considerar tal conduta,  independente da função que assuma no organismo, como um modo particular  de estar e ser-no-mundo, configurando-se como a melhor maneira que o  indivíduo encontrou de aliviar tensões que experiencia no mundo externo.

Essa reflexão pode auxiliar na compreensão do caráter não-suicida da  autolesão, ainda que, como sugere Otto e Santos (2012) a repetição do ato possa levar a danos graves ao corpo e ocasionar a morte, a questão está na  não existência de intencionalidade de suicídio. Como salienta Kaplan et al.  (1997) na conduta autolesiva não há intenção manifesta de suicídio.  

Perls “et al”. (1998) postulam que todo comportamento, escolha, atitude e  construção do indivíduo configura-se como uma tentativa de equilibrar-se  diante de algo que o desequilibra, tendo assim uma função na relação que ele  estabelece com o meio. Portanto, a autolesão destoa de uma “tentativa de  suicídio” estando, pois, baseada na intencionalidade do indivíduo tirar a própria  vida (KELLER; WERLANG, 2005), e vincula-se à “tentativa de autorregulação”  do seu mundo interno (organismo) com o mundo externo (meio ambiente).  Essa concepção fundamenta o que Borges (2012, p. 21) afirma em sua  pesquisa que “a autolesão possibilita a regulação emocional”.

3.2- Autolesão, Ajustamento Criativo e o Sintoma na Gestalt terapia  

Sendo na fronteira de contato que ocorre o encontro das diferenças – organismo e mundo externo – é nesse local que a experiência acontece.  Através da pele e outros órgãos sensoriais que a experiência é percebida, a  pele pode ser tanto a fronteira do indivíduo quanto um órgão de contato  (GINGER; GINGER, 1995; PERLS et al., 1997). Em sua pesquisa sobre  autolesão, Borges (2012) salienta que é através da pele que se responde ao  meio envolvente, possibilitando o equilíbrio entre o interno e o externo, e  iniciando o delineamento das fronteiras dos indivíduos.

Na contemporaneidade uma das formas de garantir a individualidade e,  simultaneamente, demarcar um lugar na sociedade poderá ser através de  marcas na pele (BORGES, 2012). Autores como Arcoverde e Soares (2012)  salientam que o uso de tatuagens, brincos e “piercings” são atos de ferir-se  socialmente aceitos, essa ideia também é concebida nos estudos de Borges  (2012, p. 13) onde afirma que “as tatuagens e os ‘piercings’ são considerados,  por alguns teóricos, consequências da globalização em que, pela modificação  do corpo, se obtém prazer, para além do esperado”.

Nunes e Holanda (2008, p. 177) em seu estudo sobre transtorno de  alimentação, afirmam que tais comportamentos exercem a função de um “muro  protetor entre pessoa e o mundo”, semelhantemente, é possível considerar que  aqueles que praticam a autolesão utilizam o corpo como forma de defesa do  indivíduo, resultante da interação com o campo externo.

Sobre o corpo e campo Ribeiro (2007, p. 12-13) salienta que,

O campo primeiro e mais importante é o nosso corpo, físico e  

psíquico, que constitui nosso espaço vital, síntese e reflexo de nossa  

totalidade. Podemos, dizer, portanto, que todo contato se dá no  

espaço vital da pessoa e que seu corpo reflete as energias que  

emanam desse mesmo campo, é portanto, sujeito e objeto do  

contato, tudo começando e terminando nele, no corpo.

É através do corpo que se inicia o processo de construção da subjetividade do  indivíduo, o corpo é o primeiro espaço a ser reconhecido pela criança como  sendo ela. Todos os sentimentos e pensamentos passam pelo corpo (ANTONY,  2010). Antony e Ribeiro (2005) ainda salientam que é a partir do corpo que se  descobre e interage com o mundo, sendo o corpo, portanto, local de expressão  e experimentação. A concepção do homem vinculada à relação corpo-mundo  emerge da compreensão Fenomenológico-existencial, filosofias de base da GT.  

Como afirma Forghieri (2011, p. 29)

O corpo tem um poder de síntese; ele unifica as sensações e  

percepções de si, bem como as que se referem ao mundo; o corpo  

é simultaneamente unificado e unificador na sua constante e  

simultânea relação com o mundo.

Seguindo a linha de raciocínio até aqui discutida, é possível conceber que o  corpo do indivíduo se materializa no mundo representando o próprio indivíduo,  constituindo, desse modo, suas características corporais, como se o corpo  fosse a representação fiel de sua existência interna (BROOCKE; MACEDO,  2006). Sendo assim, refletindo através da compreensão fenomenológica de  homem, a autolesão pode ser uma metáfora onde as marcas corporais  concretas feitas intencionalmente se transmutam em marcas sentidas  internamente, de modo abstrato através de sentimentos e emoções.  

Silva e Alencar (2011) afirmam que o corpo é representado como a parte  orgânica do indivíduo e, por ser organismo o corpo está em interrelação com o  mundo externo buscando sempre sua melhor expressão, logo, o  comportamento patológico, a doença/sintoma corporal configura-se como  sendo a melhor maneira de satisfazer às demandas do ambiente.  

Os autores supracitados salientam que o conceito de ajustamento criativo é  “...o que melhor acolhe a questão da doença e assim permite se trabalhar a  questão da doença/sintoma” (SILVA; ALENCAR, 2011, p. 357). Nesse sentido  Nunes e Holanda (2008) reiteram que o adoecer é visto como uma etapa de  um ajustamento criativo disfuncional que possui, muitas vezes, a  funcionalidade de proteger o sujeito de determinadas experiências  insuportáveis. Portanto, a prática da autolesão pode ser percebida como o  sintoma, sendo o modo que o organismo ajustou-se para relacionar-se com os  outros e com o mundo externo.

Conforme D’acri (2007) o sintoma é a busca constante por uma forma de  diminuir a angústia e sofrimento, ainda que esta forma seja uma deformação do  que entende-se por original e saudável. O sintoma corporal é, portanto, uma  espécie de porta de entrada escolhida pelo cliente para se mostrar, é o que ele  consegue fazer para pedir ajuda no momento, ainda que o faça de modo  involuntário (GINGER; GINGER, 1995), a autolesão, contudo, é feita de modo  intencional.

Diversos autores (ARCOVERDE; SOARES, 2012; BORGES, 2012; GARRETO,  2015) atribuem ao ato de se lesionar propositadamente a função de busca de equilíbrio psicológico frente à sentimentos diversos, desse modo, é através da  autolesão que o indivíduo reage às demandas internas e, especialmente,  sociais. Cremer (2011) salienta que o sintoma dá a notícia de que algo não vai  muito bem com o sujeito, mas que faz sentido para aquele dado momento da  vida. É possível, então, considerar a prática de autolesão como um indicativo  de que alguma necessidade não foi suprida de modo saudável, mas que para  determinando momento tal conduta possibilitou o equilíbrio do sujeito consigo  mesmo, com o outro e/ou com o meio.  

Ainda concebendo a ideia do sintoma na abordagem gestáltica Nunes e  Holanda (2008) afirmam que sintoma é a expressão fenomenal do sujeito que  aparece enquanto tal, sendo também um modo de ajustamento que não está  de acordo com as necessidades reais e atuais do indivíduo. Contudo, tais  autores comentam que o sintoma simboliza algo a respeito da vida da pessoa,  como uma espécie de mensagem, logo, não se pode simplesmente extingui-lo,  uma vez que é algo desenvolvido pelo organismo.  

A partir das explanações feitas, a correlação entre a autolesão e a concepção  de sintoma em Gestalt-terapia fornece subsídios para o desenvolvimento de  uma postura terapêutica que considere o indivíduo como um todo e não apenas  como sintoma (NUNES e HOLANDA, 2008). Sendo assim, é possível refletir  que tal qual o sintoma a conduta autolesiva possui uma função específica no  organismo do indivíduo que a pratica. Através de uma visão gestáltica o  movimento do terapeuta deve se relacionar à compreender o que a autolesão  significa na vida da pessoa, qual posição ocupa e qual relação possui com a  história de vida.

3.3 - O Gestalt-terapeuta e Práticas Autolesivas: O Respeito à  Autonomia do Cliente

Na medida em que este estudo possibilita a discussão da autolesão, como uma  doença/sintoma sob a ótica da abordagem gestáltica, faz-se necessário  discorrer acerca das possibilidades terapêuticas interventivas. Inicialmente é  preciso salientar que a concepção de saúde em Gestalt-terapia refere-se a  comportamento fluido, criativo, livre e espontâneo, desse modo, considera-se  além do sintoma, o todo que está em terapia – o psiquismo, o meio social, o  corpo – para assim chegar o que mantêm o sintoma (NUNES; HOLANDA,  2008; SILVA; ALENCAR, 2011).

Nessa perspectiva, Martín (2008, apud SILVA; ALENCAR, 2011) postula que  uma personalidade sadia é alcançada quando os campos psicológico, social e  corporal funcionam de forma harmoniosa e, se possível, paralelamente. Ao  desenvolver uma perspectiva unificadora do ser humano que integra  dimensões sensoriais, afetivas, intelectuais, sociais e espirituais, a Gestalt terapia favorece, para o cliente, um contato autêntico com os outros e consigo  mesmo e um ajustamento criativo do organismo ao meio (GINGER; GINGER,  1995).

Caldas “et al”. (2009) comentam que o atendimento psicológico para indivíduos  que praticam a autolesão funciona como espaço de acolhimento e expressão  de subjetividades. Logo, o trabalho do psicoterapeuta deve estar pautado em  estabelecer um vínculo com o cliente que forneça um espaço de experiência e  expressão. A psicoterapia, desse modo, deve priorizar o contato e a relação  dialógica, tendo em vista a compreensão do sintoma e o que ele está  encobrindo, propiciando ao cliente a reflexão e, por consequência, a  descoberta de novas formas de lidar com o meio externo (NUNES; HOLANDA,  2008). Arcoverde e Soares (2012) salientam que, de modo geral, quem pratica  a autolesão não diz que o faz por vergonha ou medo de julgamentos, dessa  forma, no processo terapêutico o vínculo estabelecido é fundamental para o  desenvolvimento saudável da comunicação e da intervenção.  

Sendo assim, é por meio do ajustamento criativo que a pessoa pode superar o  que já não tem funcionalidade, mantendo um constante processo e ampliação  de sua autonomia dentro das possibilidades que encontra no ambiente (PINTO,  2009). Por essa razão, o terapeuta propiciará um espaço para que essa  autonomia seja alcançada e para que o cliente torne-se curioso por si mesmo,  compreendendo o sentido do sintoma e refletindo novas formas de ser-no mundo, se assim o quiser (NUNES; HOLANDA, 2008).

Cummings (2015) define a autolesão como um dano repetido e deliberado no  tecido do corpo como modo de evitar dor emocional. A conduta autolesiva é  entendida como uma lesão intencional, sobre esse ato Arcoverde e Soares  (2012) afirmam que causa estranheza por contradizer o instinto de busca pela  sobrevivência. Nesse sentido, é fundamental que o psicoterapeuta preze pela  suspensão fenomenológica e pela inclusão, onde a primeira se refere ao  terapeuta ouvir a demanda clínica sem emitir julgamentos pessoais, ao passo  que a segunda diz respeito a atitudes permissiva do terapeuta, sem julgar o  comportamento do cliente como positivo ou negativo (NASCIMENTO; VALE,  2013). As duas premissas citadas favorecem que o contato ocorra e, por  consequência, possibilita condição para “awareness” por parte do cliente, isso  é experienciar-se corporalmente com sensações distintas que reverberam  fluidez (BROOCKE; MACEDO, 2006).

Sendo assim, o fazer ético da clínica é pautado na possibilidade de o terapeuta  ser capaz de ouvir as demandas do cliente sem emitir julgamentos pessoais  e/ou socialmente construídos, tais atitudes permitirão uma comunicação fluida  na terapia e um contato autêntico na relação terapeuta-cliente (NASCIMENTO;  VALE, 2013). Nessa perspectiva, o cliente que tem o comportamento de  autolesão deve ser visto em um contexto, a compreensão de sua demanda  deve ser ampla, envolvendo as diversas dimensões que o constitui, sem tomar  sua conduta como certa ou errada mas, como a expressão de quem ele é e por  tanto aceitá-lo de forma empática e acolhedora.  

A compreensão do comportamento de autolesão como um ato de motivações  biopsicossociais e de funções diversas, favorece o entendimento de como essa  conduta se relaciona com outros fatos ou acontecimentos que marcaram de  algum modo a vida da pessoa. Os aspectos biológicos, psicológicos e sociais que estão, possivelmente, envolvidos na autolesão indicam a necessidade do  Gestalt-terapeuta se atentar para o indivíduo como um ser global, e por tanto,  entendendo a possibilidade de um atendimento multiprofissional.

Broocke e Macedo (2006) ressaltam que é necessário, para o Gestalt-terapeuta  prestar atenção ao corpo, pois é através do corpo que o indivíduo estabelece o  relacionamento com o mundo e com seus determinantes, e é ele que se revela  para a investigação através da perspectiva fenomenológica. As autoras citadas  

ainda afirmam que abordar o corpo gestalticamente implica reconhecer o  funcionamento integrado corpo/mente, sendo fundamental a atenção por parte  de toda ação psicoterapêutica à vivência corporal concreta, individual e original  experimentada pelo cliente em suas relações, que abarcam a si, ao outro e ao  ambiente.

As marcas sentidas de modo abstrato e emocional são transferidas pelo  sujeito, de forma concreta, para sua própria pele. É, portanto, através da pele  que o contato é experienciado, ela protege e delimita ao mesmo tempo em que  possibilita trocas com o meio, ela é, sendo assim, metáfora e ilustração  concreta (GINGER; GINGER, 1995). Diante disso, é fundamental perceber de  que modo é a relação corpo-pessoa-mundo desse sujeito.

Finalmente, vale ressaltar que o terapeuta não se ocupa em analisar o sintoma  mas, se interessa pela forma, pela relação atual, pela observação das  circunstâncias e as distorções da relação presente e como estes aspectos  influenciaram o surgimento do sintoma, sem justifica-lo ou sustenta-lo mas,  explorá-lo junto com o cliente numa relação empática (GINGER; GINGER,  1995). Cremer (2011) considera que, ao focar no sintoma, perde-se a totalidade  do sujeito e trabalhar para eliminá-lo seria perder a única pista que se tem  daquela questão, podendo ainda ser uma forma de extinguir a maneira  existencial que o sujeito possa ter conseguido para ajustar-se às demandas.  

Refletindo gestalticamente acerca do processo psicoterapêutico de um sujeito  que se autolesiona, o foco não estaria na retirada de tal comportamento, mas  na compreensão de sua relação com a totalidade do cliente. Desse modo,  considera-se que o Gestalt-terapeuta não se empenhará em negar as  emoções, situações e sentimentos que influenciam a prática de autolesão, mas  facilitará a reflexão do sujeito para que ele próprio descubra novos modos de  ajustamentos criativos saudáveis e novas formas de ser-no-mundo. Devendo,  pois, considerar primordialmente a autenticidade do cliente que procura a  psicoterapia, relacionando-o com seu contexto e experiência atuais e com os  contatos que estabelece com os outros no meio ambiente. Por fim é importante  ressaltar que: “O gestaltista, assim como o encanador, vela para assegurar  uma circulação fluida, para desobstruir os canais, para evitar tanto a seca  quanto a inundação” (GINGER; GINGER, 1995, p. 164).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É através da pele que sensações concretas são experienciadas. A pele é a  camada protetora do organismo e, simultaneamente, a possibilidade de  perceber e estabelecer um Contato. O corpo, como um todo coberto de pele e  terminações nervosas, é a expressão de existência do sujeito, e é por meio  dele que há a interrelação entre o organismo, o outro e o meio ambiente,  refletindo a totalidade de um Contato.  

Perceber a autolesão à luz da Gestalt-terapia fomentou a reflexão das diversas  formas de Ser-no-mundo que ao ser-humano é possível. Apesar da autolesão  possuir uma definição complexa, por ser um comportamento de variáveis  biopsicossociais e por sua conceituação sofrer divergência na literatura, sua  característica principal são as marcas feitas na superfície do corpo. As marcas  são feitas, sobretudo, nos braços e pernas, sendo estes membros de  locomoção e contato.

Compreender gestalticamente a conduta autolesiva implica o reconhecimento  de que é através do corpo que o indivíduo se relaciona com o mundo externo, e  que seu corpo é a expressão própria de sua subjetividade e de seus  sentimentos internos. Desse modo, as marcas concretas feitas sobre a pele  refletem marcas sentidas de forma abstrata e internas, experienciadas na  fronteira de Contato.  

Quando o sujeito depara-se com demandas que ocasionam desequilíbrio no  organismo, seja algum sentimento/emoção que naquele momento lhe cause  dor, a autolesão é a “porta de saída” para que esse equilíbrio seja restaurado,  ou ainda para que a sensação de homeostase seja experienciada. Naquele  dado momento, ainda que de forma rápida e momentânea, a autolesão foi a  melhor maneira de aliviar as tensões do meio, o que se configura um  ajustamento criativo disfuncional ou um sintoma.  

Pensar em sintoma na abordagem gestáltica é pensar no papel do Gestalt terapeuta. As intervenções e o modo de trabalho psicoterapêutico com sujeitos  que praticam a autolesão se assemelham com a forma de se trabalhar com  outras demandas, visto que, o Gestalt-terapeuta tem por premissa cuidar da  pessoa e não do sintoma/doença. Especialmente, quando se percebe que o  sintoma sempre reflete e simboliza a existência e história de vida do sujeito, ao  terapeuta cabe, pois, buscar compreender essa relação e facilitar o contato do  cliente com suas experiências.

A autolesão é um tema que tem fomentado discussões no âmbito social por  envolver valores morais, e por essa razão quem pratica pode sofrer  preconceitos e julgamentos. Porém, o que não se discute é que a cultura atual  pode ser um facilitador para que tal ato seja legitimado, contatos são  estabelecidos de modo cada vez mais superficiais e o culto ao individualismo é  pregado.  

Desse modo, a autolesão sob a ótica da abordagem gestáltica pode favorecer  uma visão revolucionária, que considera o indivíduo em sua totalidade, não o  definindo através de um sintoma e/ou ação. O Gestalt-terapeuta busca compreender, junto com o cliente, o que determinado ajustamento criativo tem  a dizer sobre a sua história de vida, como esse modo de Ser-no-mundo reflete  suas experiências internas.  

Ainda que o comportamento de autolesão seja amplamente difundindo nos  ambientes sociais, especialmente entre adolescentes por meio de conteúdo  “online”, no âmbito acadêmico há uma escassez de produções à esse respeito  o que, de certo modo, impulsionou para que esse trabalho fosse desenvolvido.  O intuito desta pesquisa é, essencialmente, explanar reflexões sociais e  científicas acerca da autolesão, favorecendo que o tema possa ser discutido  sem sofrer discriminações, influenciando desse modo o surgimento de novas  pesquisas que possam dar a voz àqueles que, por algum motivo, praticam a  autolesão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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NOTAS

Damiriane Lino Couto: Psicóloga formada pela Faculdade de Tecnologia e  Ciências de Jequié, Bahia no ano de 2017. Psicóloga clínica da cidade de  Jaguaquara, Bahia e Psicóloga do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF)  de Itaquara, Bahia.

Luane Seixas Pereira Cunha:

E-mail: luseixaspsi@hotmail.com

Endereço para correspondência:

Damiriane Lino Couto

E-mail: damiriane.coutopsi@gmail.com

Luane Seixas Pereira Cunha

E-mail: luseixaspsi@hotmail.com

Recebido em: 13/12/2017

Aprovado em: 26/04/2018

Revista IGT na Rede, v. 14, nº 27, 2017, p.233-259 DOI 10.5281/zenodo.15054635

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526