ARTIGO

O Processo Ciclo do Contato em uma Situação de Luto

The Cycle of Contact Process in a Grieving Situation

Leane Valente de Oliveira

Marília Zara Gentil de Oliveira

Edilza de Aguiar Lobato

RESUMO

O presente estudo pretende facilitar o aprendizado e reflexão dos princípios da  Gestalt-Terapia e promover o raciocínio teoria-prática de estudantes de  Psicologia e interessados na área hospitalar. Como objetivo, visa servir de  veículo de reflexão e aprendizado para estudantes de Psicologia e demais  profissionais interessados. Para isto, o método escolhido foi um estudo de caso com uma paciente que necessitou enfrentar um aborto induzido na Santa Casa  de Misericórdia do Pará no segundo semestre do ano de 2011. Para tanto,  busca-se contemplar o saber da Fenomenologia na intermediação entre a  pessoa que passa pela situação de luto e o seu contato com o sentimento de  perda. O resultado desse estudo favoreceu uma ampliação do olhar acerca da  dor humana, suas formas de expressão e possíveis passos do contato em  direção à cura. Dessa forma, é considerado relevante na medida em que é  possível se apresentar na prática essa identificação do Ciclo do Contato e dos  Fatores de Cura antes só estudados na teoria.

Palavras-Chave: Luto; Ciclo de Contato; Mecanismos de Defesa; Fenomenologia; Gestalt-Terapia.  

ABSTRACT

The present study aims to facilitate the learning and reflection of Gestalt Therapy principles and to promote the theory-practice reasoning of Psychology  students and those interested in the hospital area. As a goal, it aims to serve as  a vehicle for reflection and learning for students of Psychology and other  interested professionals. For this, the method chosen was a case study with a  patient who had to face an induced abortion in the hospital of Santa Casa de  Misericórdia do Pará in the second semester of 2011. This seek to contemplate  the knowledge of Phenomenology in the intermediation between person who  goes through the grief situation and their contact with the feeling of loss. The  result of this study favored a widening of the gaze on human pain, its forms of  expression and possible steps of contact towards the cure. In this way, is it  considered relevant insofar as it is possible to present in practice this  identification of the Contact Cycle and the Healing Factors previously studied  only in theory. 

Keywords: Mourning; Contact Cycle; Mechanisms of Defense; Phenomenology; Gestalt-Therapy.

I - INTRODUÇÃO

O processo de luto inerente a todos os seres humanos inclui uma variedade de  sentimentos, pensamentos e reações que surgem devido tais experiências. A  perda significa algo além do que muitas vezes é visto, são partes da identidade  da pessoa e da sua maneira de ser-no-mundo que estão envolvidas no  processo, sendo que a qualidade da elaboração do luto está diretamente  relacionada com a qualidade estabelecida com a pessoa e o objeto perdido. Logo, o presente estudo de caso, que foi supervisionado por profissional  docente em Psicologia Hospitalar, pretende revelar sob o olhar fenomenológico como o ser humano lida de forma única com um processo de luto, considerando o ciclo de contato proposto pela abordagem da Gestalt-Terapia e  os mecanismos de defesa que podem ser relacionados a ele. O caso é de uma  jovem de 17 anos que relatou a sua experiência de precisar abortar e como  estava vivenciando isso, que apoio recebeu, quais suas expectativas de vida,  seu sofrimento e desejos. Nesse contexto, busca-se compreender o Ciclo de  Contato desta jovem diante da dor da perda do seu primeiro filho. Serão  apresentados pontos relevantes para essa compreensão, como a  Fenomenologia, o ciclo de contato, o luto em uma visão fenomenológica e por  fim a apresentação de informações fornecidas a partir do relato fornecido pela  paciente.

II - FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 - A Fenomenologia

De acordo com a etimologia, a fenomenologia é o estudo ou a ciência do  fenômeno. E como tudo o que aparece é considerado fenômeno, logo, o  domínio da fenomenologia é praticamente ilimitado, e não poderíamos, pois,  confiná-la numa única ciência (DARTIGUES, 2003).

Assim, não é possível proibir a ninguém que se intitula de fenomenólogo desde  que sua atitude tenha algo a ver com a etimologia do termo: “Se nos atemos à  etimologia, qualquer um que trate da maneira de aparecer do que quer que  seja, qualquer um, por conseguinte, que descreva aparências ou aparições, faz  fenomenologia” (P.RICOEUR, 1953, p.82). Nesse sentido, o conceito de  fenomenologia para MERLEAU-PONTY (apud MARCELLO, 2009, não  paginado), é “o estudo das essências e todos os problemas, segundo ela,  resumem-se em definir as essências na existência, e não pensa que se possa  compreender o homem e o mundo de outra maneira senão a partir de sua  ‘facticidade’”. Nesse contexto, a fenomenologia surge então como proposta de  nova filosofia: uma filosofia de rigor. Esta “nova” filosofia surge da inquietude  de Edmund Husserl (1859-1938) acerca da postura adotada pela psicologia  naquela época. Logo, podemos considerá-lo o verdadeiro iniciador desse  movimento, que deu um conteúdo novo a uma palavra já antiga, como  podemos ver na comparação de Dartigues (2003, p.3):

Enquanto a fenomenologia de tipo Kantiano concebe o ser como o  

que limita a pretensão do fenômeno ao mesmo tempo em que ele  

próprio permanece fora de alcance, enquanto inversamente, na  

fenomenologia hegeliana, o fenômeno é reabsorvido num  

conhecimento sistemático do ser, a fenomenologia husserliana se  

propõe como fazendo ela própria, às vezes, de ontologia, pois,  

segundo Husserl, o sentido do ser e do fenômeno não podem ser  

dissociados.  

A noção de intencionalidade é central para a fenomenologia, é restaurando a  intencionalidade em seu sentido obvio, isto é, como visada da consciência e  produção de um sentido, que a fenomenologia poderá perceber os fenômenos  humanos em seu teor vivido. Logo, ela não pode se transformar num simples  campo psicofísico sem comprometer com isso, a própria ideia de  fenomenologia (DARTIGUES, 2003).

Merece ser considerado o fato de que a fenomenologia e o método  fenomenológico tiveram origem na crítica, da capacidade de discernir de  Husserl e de sua insatisfação com a superficialidade que os rumos da ciência  estavam tomando no momento histórico vivido. Desta maneira, tanto a  fenomenologia quanto o método fenomenológico são fundados como proposta  de uma filosofia de rigor, em contraponto às explicações naturalistas do mundo  (das coisas, do conhecimento, da consciência e do homem) interpretações de  sentido que, para Husserl, não tinham o rigor lógico-metodológico necessários  à produção do conhecimento científico e, consequentemente, não tinham  condições de virem a ser consideradas como bases para a ciência em geral  (MARCELLO,2009). Resumindo, é possível dizer que a fenomenologia,  enquanto terminologia ou nomenclatura está presente na história da filosofia e  das ciências humanas há muitos séculos. Porém, a proposta fenomenológica atual é consideravelmente mais jovem.

2.2 - O Luto na Visão Fenomenológica

Ao passar por uma perda, tais como morte, divórcio, separação de pais, filhos  saindo de casa, distanciamento dos pais de origem, perda de uma habilidade  conhecida, relacionadas com a idade, entre outras fazem parte do  desenvolvimento humano. O processo de luto inclui uma variedade de  sentimentos, pensamentos e reações com tais experiências. O conceito de  perda não pode significar apenas uma coletânea de definições, mas, sim,  partes da identidade da pessoa e da sua maneira de ser-no-mundo e, faz-se pertinente, nesse momento, tomar a fenomenologia como a filosofia e o método  capazes de instrumentalizar a compreensão do fenômeno por meio de três  questões de investigação: a redução fenomenológica, a intencionalidade e a  intersubjetividade. A primeira aborda a realidade na sua própria essência  mundo-sujeito no aqui-agora; a segunda apresenta atribuição de um sentido,  um objetivo em uma direção para o real ou o irreal; a terceira questão trata  sobre a pluralidade de intercâmbios entre os sujeitos no mundo (RIBEIRO,  2009). Nesse sentido, situações de perda, são fenômenos que normalmente  surgem de forma inesperada, sem advertência, o que pode nos fazer duvidar  do sentido da vida. Toda experiência na sua essência interfere em nossa percepção de vida e é por isso que normalmente, quando passamos por uma  situação de perda, revemos os valores da vida. E em toda experiência vivida,  há uma chance de mudança e crescimento como ser humano no trabalho de  intersubjetividade.

Sobre a vivência do aqui-agora, Fukumitsu (2004) relata que a partir do  momento que constatamos que estamos lidando com um momento de crise,  existe uma necessidade de que toda a situação seja inteiramente experenciada  no aqui-agora. Dessa maneira, entre outras contribuições, a visão  fenomenológica-existencial se faz importante, se considerada um  embasamento teórico no lidar com perdas, pelo seu pensamento de que o  “agora engloba tudo que existe” (PERLS apud FUKUMITSU,2004, p.12).

Em geral não se pode fazer nada quando alguma pessoa amada morre. Por  outro lado, é importante entender que, embora não possamos fazer nada com  as facticidades da vida, existe a liberdade (permeada pela possibilidade) de se  fazer o que se quer e de escolher como se apropriar da situação propriamente  dita (FUKUMITSU, 2004).  

Ainda sobre a perda, Fukumitsu (2004, p.14) afirma que “perdas são  experiências do nosso viver, experiências como inúmeras outras, que nos  ensinam, transformam, deformam e formam”.

Davis, C.G.; Wortman, C.B.; Lehman, D.R. e Prateia, R.C. (apud  FUKUMITSU,2004, p.15) levantam as seguintes suposições clínicas: “As  pessoas que confrontam perdas súbitas, traumáticas, inevitavelmente  procuram um sentido de vida. Com o passar do tempo a maioria pode  encontrar significado e encerrar o assunto. Encontrar significado significa  ajustar-se”.

Aramin (apud FUKUMITSU,2004), explora três temas principais que emergem  quando acontece a situação de perda de um ente querido: choque, luto e depressão. Outro autor, Granader (apud FUKUMITSU, 2004), apresenta sete  temas relacionados ao luto: raiva, perda de fé, perda da confiança no futuro,  sonhos espirituais, fazer da morte uma amiga, convicção no destino, nova  perspectiva da vida.

As variadas situações de perdas provocam uma demanda de aspecto  emocional e relacional e a qualidade da elaboração está diretamente  relacionada com a qualidade estabelecida com a pessoa e o objeto perdido. É  importante entender que o luto é um processo, isso pode ser facilitador para a  compreensão da dor das pessoas que lidam com as perdas. Por fim, a vida é  uma constante reciclagem, a elaboração das perdas implica num processo de  reorganização individual e relacional (FUKUMITSU, 2004).

A autora apresentou As Fases do Processo de Lidar Com as Perdas com o  objetivo de organizar suas pesquisas sobre o luto, são:

2.2.1- O processo do luto: neste contexto, o respeito pela dor e pela situação  é fundamental e vital para a sobrevivência. Faz-se pertinente compreender a  dor como parte disso e, aceitar a nova condição, torna-se muito desafiante. É  um processo de adaptação à perda. As reações podem ser: chorar, retirar-se  dos lugares e evitar contato com os sentimentos culpando o corpo, criando  doenças e sintomas.

2.2.2- O processo de cicatrização: Não existe um tipo de planejamento ou  manual de saída para evitar a dor provocada pelo sofrimento do luto. Contudo,  Saders (apud FUKUMITSU, 2004) propõe cinco características da fase  curativa, a seguir:

2.2.2.1 - Alcançando um momento decisivo: é a percepção de um novo  mundo que se apresenta a partir da sua retirada de um buraco existencial,  passando a conviver com pessoas novas e rotinas diferentes que podem fazer  a diferença em como perceber este mundo.

2.2.2.2 - Assumindo o controle: é necessário entender que cada pessoa é  única na habilidade de controlar a sua vida. Assim, assumir a responsabilidade  de decidir o que é melhor para si requer tempo, coragem e uma certeza de que  é possível mudar.

2.2.2.3 -Redimensionando os papéis: as situações de perda exigem  mudanças nos papéis familiares, profissionais, parentais e renunciá-los, é a  tarefa mais árdua. Faz-se imprescindível criar novas possibilidades para  desempenhar um novo papel.

2.2.2.4 - Formando uma nova identidade: é compreensível que o luto cause  uma postura cética a respeito do poder interno, é uma sobrevivência apesar da  dor. Os significados da vida advêm de ciclos do aprender e reaprender e da  compreensão do quanto se quer mudar na vida.

2.2.2.5 - Centrando-se: é a busca do equilíbrio e da harmonia que auxilia na  reestruturação da pessoa. É o cuidar da vida social, da relação com a família e  com os amigos. Neste momento, se existe fé, a perda é transformação, é ela  que dirá o sentido da perda.

2.2.3 - O processo de sobrevivência e recomeços: As lições de nossas  perdas: é aceitar a vida na sua totalidade apesar das perdas, é acreditar nela  com um começo, um meio e um fim, um aprender a desfrutar a vida  novamente.

A autora relata como experiência própria do luto a necessidade de outras  estratégias que a auxiliaram no processo de aceitação:  

• Perceber-me.

• Perceber o tempo necessário para processar o luto.

• Conscientizar-me de que a vida significa também correr riscos.  

“eu não tenho verdadeiramente mais nada a perder. Eu já perdi tudo  

o que era significante para mim”. Quem pensa dessa maneira,

precisa resgatar a fé na vida, pois sempre teremos algo a zelar e a  

cuidar. A fé está na convicção de que estamos vivos.

• Entender que perder não significa o final do mundo.  

Sobrevivemos às nossas perdas (FUKUMITSU, 2004, p. 29).

Dessa forma, é perceptível que assim como todas as fases do processo de  lidar com as perdas, como a própria contribuição da vida pessoal autora,  considera-se válida este estudo, haja vista que o ser humano não está imune  independente do que seja e quem seja.

2.3 - O Ciclo do Contato

O contato é um movimento transformador de junção, de síntese, que  

permite a realidade se fazer e se refazer sobre si mesma num  

processo nunca acabado, porque o contato, como unidade de  

transformação, tende a ampliar-se ao infinito pelas possibilidades que  

tem de adquirir novas propriedades a cada instante (Ribeiro,1997,  

p.17).

Segundo Ribeiro (1997) o ciclo do contato deve ser considerado um sistema  dinâmico, relacionado a mudanças em que o “Self” (sistema de contato  organismo-ambiente) assume esta função. Assim, um não existe sem o outro,  ambos estão ligados com o mundo e com o ambiente. Este ciclo possui as  seguintes características: Nove formas de resistências; Nove formas polares a  estes mecanismos como Fatores de Cura; O ciclo encerra um programa, uma  “Gestalt”; A mudança é uma função de contato de interação entre pessoa mundo e bloqueio-fator de cura; e O Self está no centro do ciclo, é por onde os  comportamentos se revelam. A partir disso, os fatores de cura, são chamados  pelo autor de: fluidez, sensação, consciência, mobilização, ação, interação,  contato final, satisfação, retirada. Eis a representação dos Fatores de Cura e do Ciclo de Contato, e posteriormente, as conceituações de cada uma  concomitantemente:

Fluidez: é um novo movimento, é uma renovação a partir da localização  própria no tempo e espaço, é onde há a criação e a recriação da própria vida.

Sensação: é o estar atento aos sinais do corpo onde a pessoa sente e procura  novos estímulos.

Consciência: é o estar atento ao que acontece em volta, dar-se conta de  maneira clara e reflexiva e perceber-se recíproco com pessoas e coisas.

Mobilização: existe a necessidade de mudança, de exigência, de expressar o  que sente sem ter medo de ser diferente dos outros.

Ação: é a responsabilização pelos próprios atos, sem medo.

Interação: Não se espera nada em retribuição. É sentimento de estar e  relacionar com o outro como uma forma de perceber-se como pessoa.

Contato final: é o reconhecimento de si mesmo como a própria fonte de  prazer, faz-se o que gosta e o que quer sem intermediário. Os relacionamentos  pessoais são diretos e claros.

Satisfação: é a percepção de um mundo saudável em que o prazer e a vida  podem ser co-divididos como uma forma de crescimento.

Retirada: é a percepção do que é meu e o que é do outro. É ser fiel a si  mesmo e aceita o outro quando lhe convém.  

Ribeiro (1997) defende que, mesmo que uma determinada pessoa consiga  interromper o ciclo, em qualquer lugar, existirá um ponto interrompido que será  o local onde a energia se bloqueará e apontará a neurose.  

Os mecanismos neuróticos (de defesa) se opõem ao livre desenrolar do ciclo  de contato e são numerosas as “Gestalts” inacabadas, logo, os ciclos são  interrompidos por perturbações de origem interna ou externas ao sujeito que  não permite o desenvolver do self. Esses mecanismos de evitação do contato  podem ser saudáveis ou patológicos, dependem da sua intensidade,  maleabilidade e oportunidade. Os principais mecanismos são:  

Fixação: é o apego excessivo justificado pelo medo de ser surpreendido por  uma nova realidade. Neste contexto, existe o sentimento de incapacidade que  induz a pessoa a permanecer em coisas e emoções.

Dessensibilização: é o entorpecimento diante de um contato, dificultando o  estímulo da pessoa. É a diminuição sensorial do corpo que causa a perda do  interesse por novas e intensas sensações.

Deflexão: é o evitamento do contato sem qualquer direção, como os  sentimentos de incompreensão, não valorização por parte dos outros e sempre  desconhece os motivos pelas quais as coisas acontecem na vida.

Introjeção: é aceitação de normas e opiniões de outros por medo da mudança  e por isso prefere-se a rotina e situações controláveis. Existe o desejo de  mudança, mas delega a outros as decisões da sua vida.  

Projeção: é a atribuição ao outro, de coisas que não gosta em si mesmo. Ao  sentir-se ameaçado, pensa demais antes de agir e identifica nos outros  dificuldades e defeitos semelhantes ao seus.  

Proflexão: é a manipulação do outro para receber o que precisa. É o  desconhecimento de si como uma forma de nutrição e por isso, necessita do  outro para a satisfação de sua necessidade.

Retroflexão: é o desejo de ser como as outras pessoas desejam. O  sentimento de arrependimento é comum por se considerar inadequado às  ações que pratica. É o inimigo de si mesmo.

Egotismo: é o colocar-se como o centro de tudo e ter o total controle do  mundo externo. É a imposição de vontades e desejos próprios e o desprezo  dos desejos alheios.  

Confluência: é a dependência do outro. Não sabe diferenciar o que é seu e o  que é do outro com o objetivo de ser semelhante aos demais.  

III – MÉTODO

A partir de um atendimento individualizado no hospital da Santa Casa de  Misericórdia do Pará, foi realizado um estudo de caso com uma paciente de 18  anos de idade submetida a aborto induzido por infecção aos 6 meses de  gestação.

IV – ANÁLISE

Como forma de melhor analisar e obter uma interação entre os assuntos  mencionados anteriormente, propomos analisar o Ciclo do Contato (formulado  pela Gestalt-Terapia) e o processo de luto em uma visão fenomenológica,  juntamente a um caso fictício, de forma que seja possível identificar o  surgimento dos mecanismos de defesa e de cura, além do contexto de luto  vivenciado. A paciente, com nome fictício Rosa, possui 18 anos, está “casada”  há três anos com um rapaz. Soube que estava grávida aos 4 meses de  gestação. Mas, por conta de uma infecção, precisou ser submetida ao aborto  induzido aos 6 meses de gestação.

Precisou interromper o curso técnico de enfermagem e cuidava da mãe que  estava recém-operada, e que para chegar até ela precisava subir escadas e  que, por isso, o marido reclamava muito e acabavam brigando, deixando-a  muito aborrecida e com dores, mas que mesmo assim, não procurava ajuda.

Parto: Antes do parto, disse que sentiu o seu bebê mexer e que no setor PPP  ouviram os batimentos cardíacos dele. Na sala de parto, disse que se  incomodou muito com a grande quantidade de estudantes observando tudo.  Relatou que fez muita força para expelir o feto, mas que isso só aconteceu  depois que uma médica introduziu uma espátula lhe causando muita dor. T.  disse que se não fosse esse procedimento, talvez o seu bebê estivesse vivo.  Relatou que não quis olhar para o bebê por medo de estar deformado, pois  lembrou-se de um feto em decomposição achado perto da sua casa. T. passou  por uma curetagem antes de ir para a enfermaria. Sua mãe que acompanhou o  parto disse que o feto estava todo bem formado.

Principais sintomas, sinais e sentimentos correlatos na gravidez: informou que  seu bebê se movimentava bastante quando ela estava “em paz” (sic), como se  fosse uma comunicação dele aos carinhos que ela fazia na barriga.

Principais sintomas, sinais e sentimentos correlatos no parto: T. relatou que a  médica a enganou dizendo que não iria sentir tanta dor e que sentiu a mão do  feto encostar na sua perna e isso a agoniou bastante, mas que mesmo assim  não quis vê-lo.  

Principais sintomas, sinais e sentimentos correlatos no puerpério: revelou que  sente tanta saudade que ainda sente a sua barriga mexer e isso a deixa muito  chorosa.

Relação paciente/equipe médica: T. informou que nas suas idas e vindas na  instituição foi atendida por seis médicos ao todo e não sabe o nome de  nenhum. Mas que todas às vezes foi atendida rapidamente e que do dia  anterior até o momento da entrevista não havia recebido visita de nenhum  médico.  

Relação paciente/equipe de saúde: Paciente revelou que algumas técnicas de  enfermagem são “grossas” (sic).

Nível de informação acerca de seu estado de saúde: T. informou que até o  momento não recebeu nenhuma informação a esse respeito.  

Expectativa/adesão ao tratamento: Relatou que ao saber da gravidez, fez pré natal e tomou todas as medicações recomendadas e que logo compraria o  enxoval da criança.  

Significado e vínculo com o bebê: T. revelou que o seu bebê faria parte de uma  nova geração da família e que colocaria o nome Talison para combinar com o  do sobrinho Alison. Mas, que ele não morreu, ele virá numa próxima gravidez.

CONTEXTO ATUAL (Período que foi realizada a entrevista)

Estressores: T. disse que gostaria de receber a visita de seu pai, mas a sua  mãe impede.

Contexto atual: reconhece que precisa recuperar a sua saúde para voltar a  cuidar da mãe que está recém-operada.

História/dinâmica familiar: Sua mãe engravidou também aos 18 anos e é  separada de seu pai. T. mora próximo da mãe. Seu marido trabalha numa  panificadora.  

Relações afetivas / amorosas: T. disse que gosta muito da mãe, do pai e do  marido, mas que eles não se entendem e isso, a deixa muito “estressada” (sic).

Crenças religiosas: É evangélica.

Auto-conceito / auto-imagem / auto-estima: relatou que se acha uma pessoa  muito explosiva e estava muito pior quando grávida. Negou-se a tomar banho.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com o presente artigo, foi possível uma visão mais prática do desenvolvimento  do processo do ciclo de contato, da manifestação dos mecanismos de defesa,  além da elaboração do luto e suas possíveis fases na vida de uma pessoa.  Essa articulação de processos foi importante para futuramente identificarmos e  intervimos de forma organizada e clara sobre qualquer situação que envolva  um dos assuntos citados, de tal forma que a pessoa seja considerada na sua  singularidade, no seu ritmo, na sua forma de ser no mundo, além das  estratégias para transformar o que está sendo disfuncional em funcional. É a  partir desse entendimento do ciclo do contato que podemos compreender  aonde e de que forma a pessoa está paralisada ou com dificuldades, buscando  com isso a compreensão de si mesmo, a responsabilidade por seus atos e o  fechamento de “gestalten” antes abertas. Também existe a situação do luto,  que em muitos casos não são bem elaborados ou discutidos, o que dificulta  para o fechamento de “gestalten”. O luto vai se apresentar de várias formas na  vida de uma pessoa, e é importante que a pessoa visualizasse um possível  crescimento e mudanças diante tais experiências. Por fim, podemos dizer que  o estudo de caso no espaço hospitalar público, alcançou o objetivo proposto, pois contribuiu ao facilitar o aprendizado e reflexão dos princípios da Gestalt Terapia e ao promover raciocínio teoria-prática de estudantes de Psicologia e  interessados em uma área, no caso hospitalar, onde ocorrem variadas  situações de luto e morte. E a partir desse artigo outros temas podem ser  estudados e discutidos futuramente, tais como: A preparação dos profissionais  de saúde para lidarem com situações de luto, a importância do psicólogo  hospitalar como promotor de saúde, o preconceito dos profissionais para com  as mulheres que sofreram aborto, entre outros temas possíveis.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DARTIGUES, André. O que é a fenomenologia?.Trad: Maria José J.G. de  Almeida: São Paulo:Centauro,2003.

FUKUMITSU, K.O. Uma visão fenomenológica do luto: um estudo sobre as  perdas no desenvolvimento humano. Campinas: Livro Pleno, 2004.

MARCELLO, Guilherme Conti. Breves considerações sobre fenomenologia  e psicologia. 2009. Disponível em:  

<http://www.redepsi.com.br/portal/modules/soapbox/article.php?articleID=506>  . Acesso em: 03 Mar. 2012.

______. Origem e conceitos básicos da fenomenologia. 2009. Disponível  em:  

<http://www.redepsi.com.br/portal/modules/soapbox/article.php?articleID=514>.  Acesso em: 03 Mar. 2012.  

RIBEIRO, Jorge Ponciano. O Ciclo do contato. São Paulo: Summus, 1997. _______. Gestalt-terapia de curta duração. São Paulo: Summus, 2009.

NOTAS

Leane Valente de Oliveira: Acadêmicas do 8º semestre do curso de  Psicologia da Universidade da Amazônia – (UNAMA). Especialização em Arte  Terapia (FIBRA) e Orientação Profissional.

Marília Zara Gentil de Oliveira: Acadêmicas do 8º semestre do curso de  Psicologia da Universidade da Amazônia – (UNAMA). Mestra em teoria e  pesquisa do comportamento (UFPA); Especialista em Terapia e Orientação  Familiar (UNAMA) eResidente de Psicologia na Saúde da Mulher e da Criança  (UEPA-FSCMPa)

Edilza de Aguiar Lobato: Psicóloga, com especialização em Psicologia  Clínica, Psicologia Organizacional e do Trabalho, Mestranda em Psicologia na  Universidade Federal do Pará, atuante em clínica - Gestalt-Terapeuta, e em  Psicologia Organizacional e do Trabalho, área na qual presta consultoria. Professora Orientadora da disciplina Teoria e Técnicas Psicoterápicas Gestalt.

Endereço para correspondência:

Leane Valente de Oliveira:  

E-mail: leanevalente@hotmail.com

Marília Zara Gentil de Oliveira:  E-mail: marilia_zara@hotmail.com

Edilza de Aguiar Lobato:

E-Mail: edilzalobato@outlook.com

Recebido em: 21/11/2017

Aprovado em: 20/04/2018

Revista IGT na Rede, v. 14, nº 27, 2017, p.260-272 DOI 10.5281/zenodo.15054639

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526