ARTIGO

Terapia Comunitária Integrativa e Seu Diálogo com a Gestalt Terapia

Integrated Community Therapy and its Dialogue with Gestalt- Therapy

Jaqueline de Lima Braz

Janaina Maria Vidal Sampaio

Ebenezer Teixeira de Souza Júnior

Fabiane de Souza Pedro

Lídia Cristina da Silva Braga

RESUMO

Neste artigo apresentam-se aspectos teóricos da Terapia Comunitária Integrativa e  da Gestalt-Terapia, com o objetivo de realizar um diálogo entre essas teorias,  correlacionando conceitos e propondo uma contribuição da Gestalt-Terapia à TCI.  As contribuições da GT à TCI buscam potencializar os efeitos das rodas de TCI,  caso as propostas descritas sejam inseridas no desenvolvimento das rodas.  Apresentam-se também as observações de algumas rodas de TCI ocorridas na  cidade do Rio de Janeiro, verbalizações de participantes que corroboram as  similaridades entre as teorias e as possíveis situações em que a Gestalt-Terapia  pode entrar nas rodas de TCI como um recurso.

Palavras-chave: Terapia Comunitária Integrativa; Gestalt-Terapia; Diálogo. ABSTRACT

In this article, theoretical aspects of Integrated Community Therapy and Gestalt Therapy will be presented with the aim of holding a dialogue among these theories,  correlating concepts and proposing a contribution from the Gestalt-Therapy to the  Integrated Community Therapy. The contributions from the Gestalt-Therapy to the  Integrated Community Therapy aims to strengthen the effects of the Integrated  Community Therapy research meetings, if the described proposals are inserted in the  development of the meetings. Some research meetings of Integrated Community  Therapy also present observations, which occurred in Rio de Janeiro city, with  participant’s verbalizations who corroborate the similarities among the theories and  the possible situations in which the Gestalt-Therapy may enter the research meetings  as a resource.

Keywords: Integrated Community Therapy; Gestalt-Therapy; Dialogue.

INTRODUÇÃO

O presente trabalho consiste em uma proposta teórica de união entre a Terapia  Comunitária Integrativa e a Gestalt-Terapia. Diante dessa questão, a pesquisa tem  como objetivo identificar similaridades teóricas entre essas teorias, correlacionando  conceitos de ambas e de utilizar a GT como recurso em TCI, apresentando suas  possíveis contribuições. Em pesquisa bibliográfica verificou-se a inexistência de  artigos e outras fontes que realizem o diálogo entre esses dois saberes. Desta  forma, acredita-se que o desenvolvimento deste trabalho promoverá uma  potencialização da prática da TCI, caso recursos da GT sejam inseridos em seu  desenvolvimento. O interesse por esse estudo surgiu mediante a participação na  oficina de roda de Terapia Comunitária Sistêmica Integrativa, ocorrida na ONG “Pela  Vida”.

A descrição dos resultados desta pesquisa se desenvolveu a partir da  fundamentação teórica construída nos conceitos da GT e da TCI. Para compreender  o diálogo entre elas, suas similaridades e possíveis contribuições da GT, foi adotada  a abordagem qualitativa, utilizando como procedimento a pesquisa de campo, para  coleta de dados sobre a execução das rodas de TCI. Como instrumento de coleta de  dados foi utilizada a observação participativa em atividades ocorridas na cidade do  Rio de Janeiro.

Após a revisão bibliográfica sobre a temática e a observação em rodas de TCI foi percebida a existência de similaridades entre as teorias, o que possibilita o proposto  diálogo entre essas. E, a partir desse diálogo a existência de contribuições que a  Gestalt-Terapia pode oferecer à Terapia Comunitária Integrativa.

A GESTALT-TERAPIA

A Gestalt-Terapia é uma abordagem de psicoterapia que acredita no ser holístico, o  ser integrado ao meio. Ela reúne técnicas e estratégias terapêuticas específicas  dentro de um modelo teórico e prático de intervenções fenomenológicas. A principal  característica dessa abordagem é o processo de crescimento pessoal que ela  potencializa. Diferentemente, de outras abordagens, a Gestalt-Terapia prioriza a  experiência em relação à fala. Nessa perspectiva, um diferencial desta abordagem é  o uso dos experimentos, que são propostas para a pessoa “entrar” na situação que  está sendo abordada naquele momento. Além das verbalizações, expressões não  verbais (gestos, posturas e entonação) também são consideradas na atuação do  terapeuta.  

O Gestalt-terapeuta acredita que toda pessoa tem em si potencialidades que  permitem que elas façam a melhor escolha possível para elas, naquele momento.  Quem sabe o que é melhor para a pessoa é ela própria e não o terapeuta. Ele é  somente um facilitador para que o cliente se conheça e se perceba. Deste modo é  possível que ele encontre a forma mais adequada de fechar suas “gestaltens” abertas. Assim, se auxilia o cliente a uma atitude dentro da psicoterapia, que implica em acreditar no desenvolvimento, no crescimento humano e na construção de uma  relação. Cabe ressaltar que o crescimento e o desenvolvimento humano são  concebidos dentro da Gestalt-terapia como um processo contínuo que se dá por  meio do contato entre a pessoa e o ambiente, de acordo com Frazão et al. (2014). E,  que o trabalho psicoterapêutico é fundamental para esse processo.

No trabalho psicoterapêutico, segundo Yontef (1995), “a relação entre o terapeuta e  o cliente é o aspecto mais importante da psicoterapia”, coloca-se todo o ser  disponível, aqui e agora, para uma relação autêntica e singular. O terapeuta deve se  disponibilizar para vivê-la, mas não visá-la como objeto. A relação autêntica  simplesmente acontece. Assim, a “relação terapêutica se constrói como uma ponte  de comunicação entre o terapeuta e cliente, buscando a consolidação de um  processo ativo”, conforme Melo (2015).

Dentre os principais conceitos da GT estão: Aqui e Agora: Trata-se da forma que a  pessoa encontra, na atualidade, de manejar situações, independente da  temporalidade. O passado só existe quando faz sentido no presente. Enquanto, o  futuro é uma possibilidade que se apresenta na atualidade. “Awareness”: O estar  consciente (“tobeaware”) é ter consciência da própria atenção, da própria  consciência. Segundo Yontef(1995), a “Awareness” é uma forma de experienciar. É  o processo de estar em contato, vigilante com o evento de maior importância no  campo indivíduo/meio, com total suporte sensório-motor, emocional, cognitivo.  

• Ajustamento Criativo: É o processo pelo qual a espontaneidade instintiva da  pessoa encontra a solução disponível em si mesmo, no ambiente ou em  ambos de se autorregular. Goldstein definia a autorregulação organísmica  como uma forma do organismo interagir com o mundo, segundo a qual o  organismo pode se atualizar, respeitando a sua natureza, do melhor modo  possível.  

Este lidar com o meio pode se dar tanto através de reações de aceitação e  

adaptação a este, quanto também através de ações de rejeição e fuga do  

mesmo. Quando à continuidade do sistema é ameaçada pelo contato com o  

meio, a retirada do contato é uma tentativa de adaptação do organismo.  

Esta noção de fuga, de resistência, como respostas também de  

equilibração, é claramente levada para o campo conceitual da Gestalt  

terapia (LIMA, PATRÍCIA VALLE de ALBUQUERQUE; Vol. 2, N. 3. 2005).

• Fenomenologia: Baseada no que é obvio ou revelado pela situação, e não na  Interpretação do observador. A atitude fenomenológica é reconhecer e  colocar “entre parênteses” (colocar de lado) ideias preconcebidas sobre o  que é relevante. Objetiva uma descrição cada vez mais clara e detalhada do  que é e desenfatiza o que seria, poderia ser, pode ser e foi.  

• Teoria Paradoxal da Mudança: Beisser (1975) afirma: “que esta mudança  ocorre quando a pessoa se torna o que ela é e não quando ela tenta se  tornar o que não é”. A mudança não ocorre por meio de uma tentativa  coercitiva do indivíduo ou de qualquer outra pessoa em mudá-lo, mas acontece se a pessoa faz o esforço, e leva o tempo necessário, para ser o  que é estando integralmente de posse de suas posições atuais. Pela  rejeição do papel de agente da mudança e tornando a mudança ordenada e  significativamente possível.

Em GT, o grupo pode ser definido como uma comunidade de aprendizagem com  indivíduos cujo objetivo é resolver problemas pessoais e interpessoais, com auxílio  de um líder treinado. Os problemas podem variar dos sintomas fóbicos de um  indivíduo a sentimentos de isolamento e alienação em relação a outras pessoas. Na  prática percebemos que o grupo terapêutico tem mais força no empoderamento das  pessoas, pois seus membros todos juntos buscam a compreensão do mistério  humano dos sentimentos básicos de nossa existência: dor, raiva, angústia, alegria,  amor, medo e tristeza. Acontecem trocas e aprendizados uns com os outros, ainda  numa perspectiva do individual para o individual ou mesmo do individual para o  grupal ou de terapeuta para individual ou grupal. Uma Gestalt cuja natureza é maior  que a soma de suas várias partes. Os líderes cuidam para comunicar aos  participantes suas regras básicas e essenciais. As regras não devem ser utilizadas  com rigidez ou autoritariamente. São elas: assumir autoria de seu comportamento e  fala (dizer EU ao invés de nós, a gente, entre outros); priorizar o aqui e agora,  compartilhar sentimentos, pensamentos e sensações presentes; atenção na maneira  como ouve os outros participantes; fazer afirmações no lugar de perguntas; falar diretamente com a outra pessoa; ouvir o que o outro está sentindo e validar essas  vivências; prestar atenção em gestos, mudanças de posturas e experiências físicas;  confidencialidade do que os outros dizem; experimentar riscos enquanto  participantes das conversas; colocar parênteses ou compartimentizar; respeito pelo  tempo em que o outro não se encontra disponível para a fala.

A TERAPIA COMUNITÁRIA INTEGRATIVA

A Terapia Comunitária Integrativa é uma metodologia criada pelo psiquiatra e  antropólogo Prof. Dr. Adalberto Barreto, da Universidade Federal do Ceará. Ela nasceu em 1987 para responder às demandas do Centro de Direitos Humanos da  Comunidade do Pirambú, a maior favela do Estado do Ceará, Brasil. Ela vem sendo  aplicada em vários países, em diversas áreas – social, de saúde e de educação. A  roda de TCI é um espaço de acolhimento e de partilha de sentimentos e  experiências de vida. Mobiliza recursos e competências das pessoas por meio da  ação terapêutica do próprio grupo, e estimula a formação de uma rede social  solidária para enfrentar os problemas do cotidiano.  

Enquanto muitos modelos centram suas atenções na patologia, nas  

relações individuais, privadas, a TCI se propõe cuidar da saúde comunitária  

em espaços públicos. Propõe-se a valorizar a prevenção. Prevenir é,  

sobretudo, estimular o grupo a usar sua criatividade e construir seu  

presente e seu futuro a partir de seus próprios recursos (BARRETO;

ADALBERTO, 2003.).

Essa metodologia promove encontros interpessoais e intercomunitários, com o  objetivo de resgatar a identidade cultural dos indivíduos e suas comunidades,  ampliando a percepção dos problemas e possibilitando sua resolução através de  competências locais.  

É um procedimento terapêutico de fácil acesso e viável para grupos de todos os  tamanhos. De acordo com Adalberto Barreto, a base teórica da TCI é formada de 5  pilares: Conceitos da Teoria dos Sistemas; entendimento psicossocial do conceito  sobre Resiliência; aplicabilidade e valorização da Antropologia Cultural; a  inclusividade e o incentivo ao aprendizado mútuo contextual na visão da Pedagogia  de Paulo Freire; e a observação atenta à linguagem verbal e não verbal destacada  pela Teoria da Comunicação. A roda de TCI pode acontecer em qualquer lugar que  possa acomodar o grupo de interessados e deve ser conduzida por um terapeuta  comunitário formado por um dos polos credenciados como formador pela  Associação Brasileira de Terapia Comunitária Integrativa – ABRATECOM. Podemos  dizer que a TCI é um conhecimento pluridimensional, em que se integra o que as  pessoas e comunidades construíram como experiência de vida, e formas científico acadêmicas de saber, desdobradas em disciplinas e especialidades. Etapas ou  momentos da roda de TCI: organização do espaço: cadeiras em círculo, facilitando a  proximidade dos participantes, igualdade na participação e o diálogo íntimo e  respeitoso; acolhimento e dinâmica: clima caloroso, quebrando resistência e medos,  brincando e aproximando com liberdade; escolha do tema: tema livre, mas que seja  conectado a algo que os membros estejam integrados. Elege-se um tema, dando  oportunidade a todos de se inserirem no contexto; perguntas durante a  contextualização: busca a compreensão das vivências de cada um. Há um caminho  interno a ser percorrido, interrogando seus próprios conflitos; compartilhamento de  experiências: através do assunto em debate, cada indivíduo amplia o tema na sua  perspectiva e não há perda de elo, de conexão com os outros membros;  encerramento: responde-se a seguinte pergunta: O que estou levando daqui?  Ocorre a conscientização do que foi levantado fortalecendo o grupo.

Além das etapas descritas, as rodas de TCI possuem regras. Que segundo a  terapeuta sistêmica de grupo e família, Sandra Monica Silva Schwarzstein, são: falar  sempre na primeira pessoa – EU; ficar em silêncio quando o outro fala; não julgar;  não dar conselho; e sugerir uma música, poesia ou ditado popular quando alguém  estiver falando.  

A TCI é hoje utilizada em todos os estados brasileiros em interação com diversas  organizações da sociedade civil, universidades bem como com o sistema público de  saúde. Pelos resultados positivos que vem apresentando, a TCI foi recentemente  adotada como estratégia de atenção básica em saúde mental pelo Ministério da  Saúde do Brasil - MS. As ferramentas terapêuticas da TCI são a ajuda mútua e a  abordagem grupal, e na rede de cuidados básicos tem sido utilizada para prevenir  doenças psíquicas através de uma prática social.

O DIÁLOGO ENTRE A TERAPIA COMUNITÁRIA INTEGRATIVA E A GESTALT TERAPIA

A TCI e a GT apresentam em suas práticas aspectos similares, motivo pelo qual se  propõe um diálogo entre esses dois campos do saber. A partir de participação em  roda de TCI e conhecimentos sobre a prática gestáltica nota-se que ambas buscam  a responsabilização do indivíduo por suas escolhas, e a promoção de crescimento  pessoal.  

Considerando esse aspecto da responsabilização, a Gestalt-terapia destaca e apóia  três pontos importantes: a liberdade, a responsabilidade e a escolha humana. A  esse respeito, Martins (1998) afirma que o sujeito humano é:

Um ser responsável, como uma totalidade passível de integração, como um  

ser voltado para a consciência, auto-regulado, em permanente energia de  

auto-realização e presentificação e em busca de dar um sentido às suas  

percepções, às suas experiências, à sua existência. Estas idéias supõem  

um resgate do humano em tudo o que seja potencialmente transformador,

gerador de possibilidades e caminhos para a reconstrução de si mesmo.(  

MARTINS,1998, p.16 apud PERES e HOLANDA,2003,p.6).

Na Terapia Comunitária Integrativa ao iniciar a roda no momento do acolhimento que é uma das bases da TCI, o co-terapeuta coloca para os participantes as regras,  e uma delas é falar sempre na 1ª pessoa do singular e de sua própria experiência;  com isso, o participante se torna responsável pela sua fala e pela sua experiência de  vida. Entende-se que a responsabilização e a promoção de crescimento pessoal são  premissas utilizadas em ambas às práticas, mas apesar da similaridade, acredita-se  que a GT pode auxiliar a TCI se essa utilizar-se do conceito de awareness, visto que  os momentos de relato podem promover a tomada de consciência de si mesmo e a  formação de Gestalt. Para tal, além dos discursos as rodas deveriam incluir  iniciativas do co-terapeuta que levem o participante e os demais a experienciar o  que está sendo trazido. Ainda que o relato esteja sendo feito por uma pessoa, como  a temática é definida a partir do interesse de todo grupo, a experiência surtirá  efeitos, mesmo que distintos, em todos.  

A GT embasa sua atuação no aqui-agora, em como o indivíduo lida com as  situações “hoje”. E, na TCI os temas abordados nos debates são incômodos trazidos  naquele momento, assuntos pertinentes ao cotidiano dos seus participantes. No  entanto, na escolha do tema que faz parte de um momento na roda de TCI, o  terapeuta estimula os participantes a “falar sobre aquilo que está trazendo  sofrimento para suas vidas” (MORAES, ET AL.,2014, p.37). Porém, há uma  diferenciação entre as duas modalidades no que tange a maneira de abordar os  assuntos atuais. Enquanto que o aqui-agora da GT não se restringe apenas a  demandas negativas, a pergunta introdutória que remete aos sofrimentos parece  delimitar a escolha dos participantes por situações ruins. Neste ponto, deveria a TCI  como a GT deixar que o assunto apareça, sem definir como possibilidades apenas  as experiências dolorosas, pois naquele momento algo positivo pode ser o que  configura o aqui-agora do participante e, pode servir para aprendizado e como  ferramenta para o grupo, tal qual as situações de dificuldade.

O Gestalt terapeuta deve em sua prática validar a fala do cliente, sem julgamentos  ou conselhos, através de uma escuta ativa. Entre os participantes da roda de TCI,  também deve haver respeito em relação às falas dos outros. Sem interrupções ou  

conselhos, e colocando-se disponível à escuta. Na formação de grupos em GT deve  haver uma disponibilidade em partilhar, assim como nas rodas de TCI, em que os  participantes propõem temas de sua realidade e incômodo, para escolha do grupo.  Há, ainda, a possibilidade de o participante não estar aberto a partilhar ou de não  possuir uma demanda específica para o momento, e ambas as situações devem ser  regidas pelo respeito.  

Gestalt terapeutas e mediadores das rodas de TCI não se colocam em uma posição  vertical, em relação aos pacientes e participantes das rodas, os dois agem como  facilitadores, o primeiro, do processo psicoterapêutico; e o segundo, no  desenvolvimento das rodas. Desta forma, estabelecem em suas práticas relações  horizontais. Essa relação gera na psicoterapia uma potencialidade do indivíduo, o  que se equipara ao empoderamento dado nas rodas de TCI.

Diante do exposto acima, observa-se entre as duas abordagens uma postura  dialógica. E nela, entende-se que todo o “ser está sempre em relação” e que tal  posicionamento (postura) , provoca aceitação, confirmação e inclusão, permitindo  uma relação viva e atuante, como evidencia De Andrade Souza e Sant’Ana (2010).

Cabe ressaltar, que na postura dialógica não há lugar para “comandante”, em que as  pessoas precisam estar à espera de uma ordem e regras para saber como viver  suas próprias experiências (MARIOTTI, 2001). A GT e a TCI abrem mão desse  “poder manipulador” e adotam uma postura horizontal e facilitadora.

A Terapia Comunitária Integrativa possui cinco pilares, já descritos anteriormente, e  entre eles também há semelhanças com a Gestalt-Terapia. A Teoria Geral dos  Sistemas, um dos pilares da TCI, também é um conceito utilizado pela GT. O  pensamento sistêmico busca compreender a interrelação existente entre as partes e  o todo. As crises e os problemas são observados e resolvidos como partes  integradas de uma rede complexa, cheia de ramificações, que interligam as pessoas  num todo. A abordagem sistêmica percebe a pessoa humana na sua relação com a  família, com a sociedade, com seus valores e crenças contribuindo para a  compreensão e transformação do indivíduo.  

A proposta de Von Bertalanffy é construir modelos e descobrir os princípios  

gerais aplicáveis a sistemas complexos de qualquer natureza - biológicos,  

ecológicos, psíquicos, sociais, econômicos e culturais - que não sejam  

vagas analogias e tampouco transposições de conceitos de uma área de  

conhecimento para outra (TELLEGEN, THERESE A. 1984).

A antropologia Cultural e a capacidade de resiliência, também são pilares da TCI. A  primeira ressalta que os valores e as crenças são fatores importantes na formação  da identidade do indivíduo e do grupo. Adalberto Barreto considera que a  transformação social só será possível quando considerar duas vias: a do  conhecimento científico e a do saber popular. Já, a resiliência trata da capacidade dos indivíduos de superar as dificuldades contextuais. Esses princípios  assemelham-se ao ajustamento criativo, utilizado pela Gestalt-Terapia. Segundo  este princípio, as pessoas encontram a solução disponível de se autorregular.  Acredita–se que os indivíduos se autorregulam dando prioridade para a execução de  ações que visem à satisfação das suas necessidades emergentes, e quando uma  necessidade é satisfeita, está deixaria de ser figural e outra necessidade emergirá.

Em sua Pedagogia, Paulo Freire, propõe que a partir da descoberta de novos  conhecimentos e consequentemente, novas formas de intervir na realidade, os  indivíduos tornam-se sujeitos da história. E, de acordo com a Teoria da  comunicação: comunicar é buscar a consciência de existir e pertencer, de modo que  a consciência que o indivíduo tem de si, nasce de uma relação de comunicação com  o outro. Todo comportamento, cada ato, verbal ou não, individual ou grupal, tem  "valor de comunicação", existindo múltiplas possibilidades de significados e sentidos  ligados ao comportamento humano. Nesse contexto, a emergência da doença ou  agravo; explicitam conflitos interacionais com o meio, com o outro (BARRETO, 2003;  WATZLAWICK et al., 2002) (GRANDESSO, MARILENE A., 2007).

Segundo Watzlawick (2002), os processos de comunicação interferem no  comportamento. Todo comportamento é comunicação. A atividade ou a inatividade,  as palavras ou o silêncio, mesmo não intencionais, possuem um valor de  mensagem. Toda comunicação tem dois aspectos: a comunicação verbal e não  verbal expressa por meio de gestos, olhares, tom de voz, etc. Nesse sentido, a  comunicação se torna uma sequência ininterrupta de trocas. Os princípios da Teoria  da Comunicação aplicados na Terapia Comunitária indicam que todo sintoma tem  valor de comunicação. Isso significa que as queixas e os problemas apresentados  estão comunicando um desequilíbrio familiar ou social.  

Na Gestalt – terapia, os aspectos da comunicação não-verbal são fonte de  informação tão relevante quanto o exposto verbalmente. O psicoterapeuta evidencia  para o cliente os elementos não- verbais expostos durante sua fala e chama-o a  pensar o fenômeno corporal junto ao que está sendo relatado. Essa prática pode ser  adotada pela TCI com o objetivo de evidenciar a integralidade do sujeito e as  diferentes formas de manifestação de uma temática. E, à partir desse apontamento  podem ser possíveis intervenções de cuidado e atenção ao corpo.

A Gestalt-Terapia tem em comum com as terapias de linhagem existencial a ênfase  no homem-em-relação, na sua forma de estar no mundo, na radical escolha da sua  existência no tempo, sem escamotear a dor, o conflito, a contradição, o impasse,  encarando o vazio, a culpa, a angústia, a morte, na incessante busca de se achar e  de se transcender.Quanto à importância das comunicações verbais no processo  terapêutico, Perls (1977, p. 81) afirma que:  

“[...] um bom terapeuta não escuta o conteúdo do blá, blá, blá que o  

paciente produz, mas o som, a música, as hesitações. A comunicação real  

está além das palavras." Continuando, ele faz um alerta: "[...] não escutem  

as palavras, escutem apenas o que a voz lhe conta, o que os movimentos

contam, o que a postura conta, o que a imagem conta" (Perls, 1977, p.81)  

(D'ACRI, GlADYS; LIMA, PATRÍCIA; ORGLER, SHEILA. 2012).

Vale dizer: material para o Gestalt-terapeuta é tudo o que ele pode observar e  perceber atentamente através dos seus sentidos no aqui-e-agora da situação de  terapia, não se restringindo à comunicação verbal, ou seja, incluindo a comunicação  não verbal. Nesse momento, serão pontuadas as divergências entre a TCI e a GT.  Durante as rodas de TCI percebe-se uma rigidez estrutural, que prevê passo a  passo o andamento da atividade, e essa estrutura é imutável. Em contrapartida a  prática da GT permite intervenções de acordo com as demandas que surgem, se  adaptando ao fenômeno, a fim de possibilitar uma experimentação do mesmo. Além  disso, a primeira centraliza sua atuação no discurso dos participantes, enquanto a  segunda prioriza a experimentação/vivência da demanda. Cabe, uma reflexão sobre  a rigidez presente nas rodas de TCI. De fato, o modelo estruturado propicia  benefícios aos seus participantes, mas certa maleabilidade em sua execução não  promoveria maiores efeitos? Fazer com que os participantes experienciem o  conteúdo abordado surtiria maior impacto nos indivíduos, levando-os a uma maior  consciência dos fatos, ainda que tal prática quebre a sequência estrutural das rodas  de TCI.

Devemos pensar se a maior contribuição que a GT pode dar à TCI não é a  possibilidade de um encontro, referindo-nos a roda de terapia comunitária  integrativa, mais flexível e fluido. Embora seja compreensível que o passo-a-passo  das rodas é uma forma de garantir o cumprimento dos objetivos, principalmente pelo  fato de que o facilitador não é um profissional de psicologia, há a possibilidade de se  estar atento à mais fatores, do que somente a fala. Facilitador e participantes, ainda  que não sejam psicólogos, de perceber no contato com os demais os momentos em  que há uma excitação corporal, mudança vocal e outros. Em suma, a atenção do  grupo deve se deslocar do conteúdo verbal do participante para ele, de uma forma  ampla e integral. A premissa da TCI quanto ao respeito e a atenção ao outro,  permaneceriam intactas, mudando apenas sua focalização.  

OBSERVAÇÕES EM RODAS DE TERAPIA COMUNITÁRIA INTEGRATIVA E AS POSSÍVEIS CONTRIBUIÇÕES DA GESTALT-TERAPIA

Durante os meses de março e abril de 2015 foram realizadas quatro visitas às rodas  de TCI, nos bairros de Botafogo e Catete, na cidade do Rio de Janeiro. As rodas  acontecem semanalmente, no período noturno, contendo duração de uma hora e  meia. A roda ocorrida no Catete acontece numa Unidade Municipal de Saúde,  enquanto a roda do bairro de Botafogo acontece na sede do Instituto NOOS, que  tem por objetivo o desenvolvimento e a difusão de práticas sociais sistêmicas  voltadas para a promoção da saúde dos relacionamentos nas famílias e nas  comunidades. A diferença observada entre as rodas consiste no número de  participantes nas unidades. Na roda de Botafogo o contingente foi bem maior e  possuía a participação de variadas faixas etárias. Na roda do Catete o grupo nas  três visitas prestadas percebeu um grupo muito reduzido. Vale ressaltar que apesar  do grupo pequeno assistido na unidade Municipal de Saúde havia tanto acolhimento quanto o apreciado na roda de Botafogo. Em ambas as rodas, as regras da TCI são seguidas à risca.  

Todos os participantes que frequentemente assistem as rodas conhecem as regras  e se enquadram de modo muito positivo e tranquilo as exigências relatadas no início  de cada atividade. As questões colocadas como incômodo são votadas pelo grupo e  a temática é definida. Ao propor uma dinâmica de aquecimento sentimos a  satisfação dos participantes por terem suas opiniões e conhecimentos validados pelo grupo. No fechamento das atividades o equilíbrio dado pela roda, através de  uma dinâmica, fortalece todo processo ocorrido do início ao final da atividade.

Diante das observações participativas se pode constatar que o desenvolvimento das  rodas de TCI corroboram as similaridades descritas anteriormente, deixando claro que a Gestal-terapia pode contribuir para um melhor empoderamento de  crescimento pessoal, resiliência e ressignificação de vida, tanto individual como  coletiva através da autorregulação, do ajustamento criativo, da responsabilidade, do  aqui e agora, e da teoria paradoxal da mudança. São conceitos que podem reforçar  a prática da TCI. Isso se refere à “visão holística do homem como ser  biopsicossocial, sempre em interação com o seu meio, isto é, leva-se em conta a  pessoa em sua totalidade, mas também o contexto no qual ocorre” (GOODMAN;  HEFFERLINE; PERLS,1997,p.10). Exprimindo assim uma das importantes  contribuições da Gestat-terapia.

Na roda de Botafogo foram observados nas verbalizações de participantes, os  seguintes aspectos: responsabilização, a relação dialógica e o aqui-agora.  

• “Eu, A. fico com raiva da submissão feminina” (responsabilização) • “Eu me identifico com o conflito entre a mãe e o filho, que você acabou de  descrever”. (Relação dialógica)

• “Eu, V. estou chateada porque briguei com meu filho, hoje” (aqui-agora)

Além dos aspectos observados nas rodas de Botafogo, a falas presenciadas no  Catete demonstraram a aplicabilidade de tais conceitos: autorregulação e  ajustamento criativo.

• “Eu, D. tenho pânico há dez anos e hoje eu consigo pegar o metrô, dar aula e  ficar sozinha durante o dia”. (autorregulação)

• “Eu, M. consigo, hoje, não entrar em conflito com a minha mãe, pois entendo  que ela tem suas dores. E, com isso, passei a não me aborrecer e a  compreender que isso me faz sentir melhor”. (Ajustamento criativo)

No transcorrer das rodas de TCI nota-se que sua rigidez estrutural poderia permitir  uma maleabilidade, como há na GT, possibilitando um maior contato com as  demandas explicitadas, para tal indica-se a inserção de vivências e experimentos,  propiciando uma experimentação dos fenômenos. Desta maneira, se acredita que os  efeitos das discussões seriam mais eficazes. Visto que vivenciar produz maior  consciência do que o discurso. Em relação ao sigilo embora a TCI e a GT, atuem de maneira diferente há uma coerência na visão de ambas, por se tratar de propostas  diferentes. A GT necessita do sigilo por se tratar de uma psicoterapia, com um  contato frequente, geralmente semanal, que se sustenta em uma relação regida pela  confiabilidade. Já a TCI não possui uma obrigatoriedade quanto à periodicidade presencial, cada participante comparece de acordo com sua disponibilidade. Neste  formato é possível compreender a ausência do sigilo, pois a rotatividade de  participantes é maior.

Em síntese, a interdisciplinaridade entre as duas abordagens coopera para a  adaptação do indivíduo em seu ambiente através de um processo criativo em que  ambas empoderam o homem a se expressar livremente, a aceitar-se como é,  fazendo suas escolhas e se responsabilizando por elas. Além de promover a  ressignificação de sua história de vida, possibilitando um crescimento pessoal amplo  e contínuo ao longo da trajetória do indivíduo, dando atenção ao que é vivido. O que evidencia Prestrelo et al. (2016):

A importância dada ao vivido implica em uma atualização do possível. Esse  

possível vai sendo atualizado e ao mesmo tempo reconfigura cada  

experiência compartilhada, percebendo que cada indivíduo tem a sua  

maneira de vê o mundo, de vivenciar as suas experiências, que não existe  

certo ou errado e que cada um compartilhando suas experiências abre  

possibilidades para reflexão diante do diferente e do novo (PRESTRELO  

ET.AL.,2016).

Diante disso, a proposta de interdisciplinaridade entre a GT e a TCI potencializa o  indivíduo a superar suas adversidades e o desafia para uma vida integrada ao meio  (ambiente), sem medo de ser o que é. Desta forma, a interdisciplinaridade poderá  servir como instrumento de rede, oferecendo apoio individual e social (CARVALHO  ET. AL.,2013 ).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste trabalho foi abordada a relação entre a Gestalt- Terapia e a Terapia  Comunitária Integrativa, tendo em vista a possibilidade de usar a GT como recurso  na TCI com o objetivo de potencializar as rodas.

Conclui-se que ambas apresentam uma profunda ligação em suas práticas, mesmo  sendo utilizadas de formas diferentes, onde ambas proporcionam ao indivíduo bem estar, autoconhecimento, responsabilização e consciência, promovendo através de  suas práticas a capacidade do indivíduo desenvolver a resiliência, levando o mesmo  

a um empoderamento social e individual.

Desta forma, os objetivos propostos foram cumpridos, já que se conseguiu identificar  similaridades teóricas entre elas, correlacionando seus conceitos e comprovando que é possível utilizar a GT como recurso na TCI.

Sendo assim, este trabalho foi importante para o crescimento acadêmico e  profissional, pois possibilitou a compreensão de que se pode experimentar outra  forma de pensar, deixando a rigidez que o suposto saber produz, gerando um ganho  pessoal e profissional, onde fomos atravessados com o acolhimento e com a  simplicidade de profissionais comprometidos com o bem-estar do indivíduo.

Através deste trabalho se percebe que a junção de TCI e GT pode contribuir com a  sociedade devido à praticidade de sua execução, podendo ser executada em  qualquer espaço físico, e principalmente por atingir a população de forma igualitária.

Verifica-se a importância de futuras pesquisas com o objetivo de fornecer dados  científicos que fortaleçam o diálogo entre a Gestalt-Terapia e a Terapia Comunitária  Integrativa e que experimente, na prática, a união entre esses dois saberes.  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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NOTAS

Jaqueline de Lima Braz - Psicóloga (CRP 03/15805), Especialista em Gestalt terapia e Ergonomista. Professora convidada de curso de formação em Gestalt terapia e psicoterapeuta infantil.

Janaina Maria Vidal Sampaio - Psicóloga (CRP 05/46711) e Especialista em  Gestalt-terapia. Palestrante em temas de doenças crônicas.

Ebenezer Teixeira de Souza Júnior - Psicólogo (CRP 05/47355) e Especialista em  Gestalt-terapia.

Fabiane de Souza Pedro - Psicóloga (CRP 05/34007) e Especialista em Gestalt terapia.

Lídia Cristina da Silva Braga - Psicóloga (CRP 05/40010) e Especialista em  Gestalt-terapia.

Endereço para correspondência:

Jaqueline de Lima Braz

E-mail: jaqueline-braz@hotmail.com

Janaina Maria Vidal Sampaio

E-mail: janainaesuacasa@hotmail.com

Ebenezer Teixeira de Souza Júnior

E-mail: jr_psimus@hotmail.com

Fabiane de Souza Pedro E-mail: fabpedro@ig.com.br

Lídia Cristina da Silva Braga E-mail: lidia.foit@gmail.com

Recebido em: 15/09/2017 Aprovado em: 01/03/2018  

Revista IGT na Rede, v. 14, nº 27, 2017, p.201-217 DOI 10.5281/zenodo.15054621

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526