ARTIGO

Reflexões Sobre a Clínica Gestáltica Virtual

Reflection on the Virtual Gestaltic Clinic

Adelma do Socorro Gonçalves Pimentel

RESUMO  

O texto aborda experiências brasileiras de pesquisa e atendimento psicológico  pela internet, o volume de sites regularizados pela Resolução 11/2012 do Conselho Federal de Psicologia, apresenta uma proposição exploratória da  clínica gestáltica, em meios virtuais baseada em pesquisa qualitativa. O manejo  clínico, em modo sincrono e assíncrono, é guiado pela atitude fenomenológica; visa apreender as intencionalidades contidas na entonação da voz, e  disposição do cliente para se expressar por e-mail, chat e videoconferencia. No  atendimento sincrono, a forma de sentar, posicionar o torax, a cabeça, as  expressões faciais são indicadores para ampliar a compreensão do mundo  existencial e subjetivo do cliente. O clínico pode agregar linguagens  expressivas, poesias, fotos, biografias, vídeos de curta metragem para  desvelamento das ideologias que encobrem a existência humana. Conclui-se  que, a clínica gestáltica em meio virtual se vale da criatividade e da integração  de suportes técnicos; a comunidade cientifica se preocupa com a finalidade,  vantagens, desvantagens e postura ética do serviço, que é um campo que  demanda expandir o debate sobre a questão.

Palavras-chave: Clínica; Gestalt-terapia; Virtual; Pesquisa qualitativa. ABSTRACT 

This article talks about brazilian experiences of search and psychological care  through the internet, the websites amount are controlled by 11/2012 resolution  of Federal Council of Psychology, presenting a exploratory proposal of gestalt  clinical, in virtual media based on a qualitative research. The clinical  

management, in the synchronous and asynchronous way, is guide by the  phenomenological attitude; aim to seize the intentionality that has on the voice  intonation, and client disposition to express by e-mail, chat or videoconference.  In the synchronous attendance, the way of sit, place the chest, the head, the  face expressions are indicators to expand the existencial and subjective world  comprehension of the client. The clinical may add expressive languages,  poetry,photos,biography,short videos, to disclosing the ideology that conceal  the human existence. We concluded that gestalt clinical in virtual media uses  the creativity and technical support integration; the scientific community concern  about the purpose, advantages,disadvantages and ethical posture of the  service, that it's a domain that needs to expand the debate about the question. 

Keywords: Clinic; Gestalt therapy; Virtual; Qualitative research.

INTRODUÇÃO

No ano de 2012, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) emitiu a Resolução  nº 011 para regulamentar a pesquisa e o “serviço psicológico realizado por  meios tecnológicos de comunicação à distância. Realizados em até 20  encontros ou contatos virtuais, síncronos ou assíncronos” (p.2). O documento  determina quais serviços são permitidos: orientação psicológica, seleção de  pessoal, aplicação de testes regulamentados, supervisão, atendimento  eventual de clientes em trânsito (http://site.cfp.org.br/).

Preocupar-me com a pesquisa da interface psicoterapia e tecnologias de  informática e comunicação configura uma ação de conhecimento e de crítica às  lacunas presentes nos currículos das Instituições de Ensino de Psicologia; na  orientação do Conselho Federal de Psicologia; e nas práticas de Psicólogos  que se auxiliam da internet para realizarem práticas clínicas baseadas na  lógica do capitalismo de mercado.  

Pondero que, a via da interrogação é útil para enfrentamento da via do  reducionismo imposto pela “proibição”, porquanto a conservação da  “naturalização” de um modo de fazer clinica mantém o desconhecimento a  respeito das possíveis contribuições das tecnologias de informática e  comunicação.  

Visando problematizar empiricamente alguns aspectos do uso das tecnologias  de informática e comunicação na psicoterapia, elaborei um projeto de pesquisa,  aprovado sob o Parecer, CONEP. 1.624.840, 2016, cujo objetivo foi  desenvolver o estudo exploratório: “Psicoterapia breve focal on-line: sentidos  do envelhecimento e da depressão vinculados a exposição de si nas redes  sociais”.

Assim, neste texto, apresento reflexões sobre a experiência de realizar uma  pesquisa exploratória, em uma clínica escola acerca do uso dos meios virtuais  em psicoterapia, modalidade breve, fundamentada em aportes da Gestalt terapia. O enfoque do estudo foi viabilizado por meio de pesquisa qualitativa. A questão do estudo foi: Quais as contribuições de trinta sessões para o  processo psicoterapêutico breve em meio virtual?  

Usei as orientações propostas em Fiorini (2013) para dialogar e definir o  número de sessões praticadas na pesquisa, pois, o autor é pioneiro na  composição de uma fundamentação epistemológica da psicoterapia breve  focal. Sob o ponto de vista de um manejo clinico gestáltico da psicoterapia  breve ressalto que Ponciano (2013) qualifica-a como uma forma de  intervenção, na qual o objetivo é produzir mudanças terapêuticas em um curto  prazo de tempo que se estende por até seis meses. De modo geral, suas  características são: ativa e dirigida para objetivos específicos; limitada, e para  sintomas que foram claramente definidos.

Espero com o estudo contribuir para ampliar o conhecimento sobre o tema que,  no Brasil requer ampliar o investimento das instituições de ensino e pesquisa e  do sistema conselhos.  

CENÁRIO DO ATENDIMENTO PSICOLÓGICO EM MEIO VIRTUAL

A interface entre ações realizadas por não especialistas em psicologia e as  Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), para compartilhar ajuda para  redução do sofrimento humano, teve como precursor a criação de grupos de  apoio, moderados e não moderados, abordando angústias provocadas pela  depressão, transtorno bipolar e esquizofrenia, antecedendo a inserção dos  psicólogos no campo da oferta dos serviços síncronos e assíncronos em meio  virtual. Quanto as atividades de psicólogos, o cenário abrangeu as etapas de:  a) criação de softwares terapêuticos; b) grupos de apoio; c) testes  informatizados; d) elaboração de Home Page; e) consulta virtual; f) processo  terapêutico (RODRIGUES, 2014).

No Brasil, em 1995 destacaram-se dois eventos: a criação de uma “home  Page” no Laboratório Nacional de Computação Científica do CNPq, e do  Núcleo de Pesquisas de Psicologia e Informática (NPPI) na Clínica de  Psicologia Ana Maria Poppovic da PUC/SP. Os mesmos são marcos que  situam a década de 1990 como baliza do interesse de psicólogos brasileiros  pela articulação dos serviços clínicos e de avaliação/ informatização dos testes  psicológicos com a interface das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC).  

Rodrigues (2014) afirma que nos Estados Unidos da América do Norte,

A psicoterapia “on-line” é permitida, mas existem restrições,  

estabelecidas por legislações estaduais. Para um terapeuta atender  

pela “internet” restringe-se à localização geográfica do registro  

profissional dele: se for registrado no Alabama, só poderá atender  

pessoas que estejam no Alabama. Cada estado norte-americano tem  

suas próprias regras (p.21).

Pietá e Gomes (2014) realizaram uma revisão de estudos em psicoterapia pela  internet, em que concluíram que é uma prática viável e promissora. Pietá “et al” (2015) testaram protocolos para acompanhamento de psicoterapia “on-line”,  em atividade de pesquisa no programa de pós-graduação da UFRGS  focalizando no estudo sugestões para oferta do serviço.

Ruffo (2016), assegura,

Psicoterapia “on-line” é uma comunicação entre pessoas, na qual  

uma delas tem o papel de profissional de saúde mental,  

assemelhando-se a um atendimento presencial; Orientação visa um  

assunto específico que se encerra no próprio “e-mail” ou em número  

limitado de sessões, propiciando ao cliente buscar auxilio para  

encontrar um atendimento presencial (p.19).

No cenário internacional, pesquisadores dos EUA, Alemanha e França  produziram o “software” terapêutico “Eliza”. Na Espanha, baseado no programa  “Eliza” foi desenvolvido por Barres e Boronat, um programa de inteligência  artificial para realizar “psicoterapia”, denominado de Dr. Abuse (RODRIGUES,  2014).

Na esfera das diretrizes éticas, em 1995, nos EUA, a APA elaborou normas  para a prestação de serviços psicológicos de “Telepsychology”, um segmento  da “Telehealth”, definida como “o uso de tecnologias de informação e de  telecomunicação que suportam o atendimento clínico de profissionais da saúde  realizados à distância, e suas inter-relações com educação, saúde pública e  promoção de saúde” (APA). As diretrizes visavam educar e servir aos  psicólogos como referências de conduta e código de ética para a utilização de  dispositivos móveis, “e-mail”, “chat”, mensagens de texto, “internet”, “blogs”,  “sites”, videoconferências interativas.

SERVIÇOS PSICOLÓGICOS VIRTUAIS: PONTOS DE VISTA EM GESTALT TERAPIA

No mês de abril de 2017, em consulta ao site do CFP localizamos vinte e um  Gestalt-terapeutas credenciados para concretizar orientação psicológica em  meios virtuais, vinculados aos regionais dois, três, cinco, seis, oito, nove e  doze. Os sites localizados estão em acordo com a Resolução 11/2012 do CFP.

Quanto à realização de pesquisas sobre a psicoterapia em meios virtuais, em  acordo com a Resolução citada, aprovada pela CONEP, e elaborada em base  aos preceitos éticos da Declaração de Helsinque de considerar a condição  humana e o respeito ao sofrimento arcabouços fundamentais do mundo da vida  - encontramos, o Núcleo de Pesquisas Fenomenológicas: NUFEN que  desenvolve o estudo exploratório: Psicoterapia breve focal on-line: sentidos do  envelhecimento e da depressão vinculados a exposição de si nas redes  sociais. (Parecer, CONEP. 1.624.840, 2016).  

Os sites http://www.folegopsi.com.br/ / tbione@gmail.com /  

lucasgarcia.psi@gmail.com, http://www.pollyanelattmann.com.br/ ,  http://www.psicologasamaraoliboni.com.br/ psicologasamaraoliboni@gmail.com  são alguns dos circunscritos no cadastro do CFP, que oferecem orientação  psicológica por Skype, WhatsApp, por e-mail. Alguns, dispondo os  profissionais, 24 horas online, por exemplo, o http://falapsi.com.br. Esta  informação demonstra a efervescência do campo, e a integração das  tecnologias de informática e comunicação ao serviço especializado da  psicoterapia.  

No âmbito teórico, Basso (2016) indaga: “O que a Gestalt-terapia pode nos  orientar sobre o virtual”? (p. 279). Para responder à questão, discorreu sobre a  filosofia da tecnologia, apoiado em algumas teses propostas por Marilena  Chauí e Walter Benjamin. Explanou limites de uso da internet, mudanças nos  modos das pessoas se comunicar e relacionarem, e uma concepção de virtual, entendido como “Aquilo que existe em potência e não em ato, sua tendência é atualizar-se. Virtual e atual não são contraditórios, sim modos diferentes de ser.  Já o real é o que de fato existe”. (p. 275)

Conforme Basso (2016), com o uso da internet pelo Gestalt-terapeuta, “...é possível realizar uma sessão via ‘WhatsApp’. Obviamente, será preciso delimitar suas características ou propostas no contrato (seja ele presencial ou virtual”) (p 290).

Na esfera da pesquisa, para o NUFEN (2016), uma das preocupações do  manejo clinico é a composição da relação psicoterapêutica virtual, que  entendemos como um modo de intercâmbio característico entre psicólogo e  usuário, distinta de outras modalidades de relações, sobretudo por pautar-se  em objetivos, metodologias, procedimentos, e ser um serviço ofertado de modo  privado, ou por exemplo em instituições públicas de saúde mental. Requer  como elemento imprescindível o estabelecimento de um vínculo de confiança e  diálogo (PIMENTEL, 2003).

A relação psicoterapêutica virtual ocorre no “Entre” (BUBER, 1979) dialógico  que configura a palavra não como logos, mas como dabar ou ação criadora,  “Mientras en muchas de nuestras lenguas la palabra se reduce a una locución  verbal, para el semita el término dabar, que ordinariamente traducimos por  palabra, es mucho más rico, pues indica al mismo tiempo palabra, hecho o  acontecimento” (http://www.linguee.es/ingles-espanol/traduccion/dabar.html). 

Assim, a clínica virtual se desloca do leito, do espaço esterilizado pelo  enquadre privado1 para o mundo da vida2 e questiona os Gestalt-terapeutas  sobre as dificuldades concretas em estabelecer vínculos, cujo limite não é uma  exclusividade do contexto virtual. No cotidiano, consideramos que somente há  liames quando estamos totalmente abertos e interessados no outro.  

A relação psicoterapêutica que ocorre no “Entre” dialógico objetiva a expressão  das queixas principal e secundária, e baseia-se em uma concepção  antropológica de existente no mundo com o outro. Visa facilitar a identificação,  o fechamento e o fluxo das necessidades de uma pessoa, que ocorrem em um  campo de contatos e relações, de modo que a consciência intencional e o  ajustamento criativo atuem como movimento de equilibrar-se, desequilibrar-se  e reequilibrar-se incessantemente.  

Inclui o cuidar, que para Ayres (2004) se realiza: ontológica, genealógica,  crítica e reconstrutivamente. A fundamentação ontológica é baseada na obra  “Ser e Tempo” elaborada por Martin Heidegger, em que o cuidado é  simultaneamente: “Uma compreensão filosófica e uma atitude prática frente ao  sentido que as ações de saúde adquirem nas diversas situações em que se  

  

1 Consultórios particulares, laboratórios, espaços particulares ou institucionais que criam  experiências em condições ideais distantes do mundo da vida.  

2 O conceito do mundo da vida (Lebenswelt) aparece no debate fenomenológico na última fase  do pensamento de Eduardo Husserl. Refere à experiência originária, vivencia imediata  pautada na intuição. (GUIMARÃES, 2012, P. 29)

reclama uma ação terapêutica”, (p.74). Esta concepção de cuidado aponta para  o “existenciário ser-com aquele” que tem que ser cuidado, e também, aquele  que detém o cuidado de si, sendo o cuidado proveniente da interação. Cuidar  é um ato relacional que possibilita o cumprimento da autonomia e do bem estar. A compreensão “conceitual genealógica” é inspirada na obra de  Foucault em que, o cuidado de si faz parte da existência humana, sendo  inerente a condição humana. E a concepção “crítica” de cuidado está  relacionada as práticas de saúde contemporâneos (CARDOSO, 2013).

Observo que as qualificações descritas, inspiradas na abordagem  fenomenológica, configuram-se como proposições para que os Psicólogos  avaliem se podem integrá-las (ou não) a sua compreensão do contexto de  intervenção, em que se inserem.  

EXCERTOS DE UMA EXPERIÊNCIA

Pimentel (2016) ilustra o manejo por e-mail de dois casos clínicos, com  destaque para a composição da relação psicoterapêutica.  

Caso 1. O cliente tem 33 anos, desempregado, mas ajuda o pai em seu  comércio. Tem curso superior completo em publicidade; mora com os pais,  segundo ele tem muito afeto por um irmão mais novo e pela sobrinha de  quatros anos. Revelou que não tem amigos, sente irritação, impaciência e  intolerância crescentes.

Cliente

Olá, não sei exatamente o que tenho que escrever aqui, então  

começarei falando sobre os motivos. Ando tendo profundos  

sentimentos de tristeza e angústia já a algum tempo. Na verdade, em  

alguns momentos eles ficavam mais intensos. Acho que justamente  

por isso, acabei normalizando. Entretanto, a uns meses atrás,  

ouvindo um Podcast, um dos partipantes contou sua história de não  

poder pagar por um psicólogo, que procurasse as clinicas de  

psicologia das universidades federais. Por isso, estou aqui.  

Atenciosamente, (e-mail 1)  

Psicoterapeuta

Olá, chamou-me a atenção a menção aos seus profundos  

sentimentos de tristeza e angústia. Imagino o seu sofrimento. Parece  

que você convive com estes sentimentos de modo habitual.  

Os sentimentos fazem parte de nossa vida de um modo que nos  

confortam e pesam; porém, de maneira alternada, como movimento.  

No seu caso, parece que é mais presente a sensação de fardo e  

peso? Se entendi adequadamente, gostaria que falasse sobre quais  

as condições, em que percebeu que a tristeza e a angústia  

começaram a aumentar. Se facilitar contar sobre seus sentimentos  

pode usar fotos, desenhos, poesia, pinturas, sonhos.

Cordialmente, (resposta 1.)

Caso 2: a cliente tem 40 anos, vivencia conflito conjugal com separação,  agressividade e agressão. Trabalha, entretanto, está prestes a terminar o  contrato de trabalho por demissão.  

Cliente  

Boa tarde li uma matéria RELATO DE EXPERIÊNCIA Violência  

doméstica e familiar: atenção social a detentos da delegacia da  

mulher de Belém do Pará - DEAM. Gostaria de saber onde posso  

falar com uma pessoa que me oriente em relação a esse tipo de  

agressão. Sou uma vítima dessas agressões e não consigo ir  

denuncia-lo porque acho que sempre ele irá mudar mais sei que no  

fundo sem ajuda de um profissional ele não conseguira, então aonde  

posso leva-lo, o que posso fazer para ajuda-lo e me ajudar. Se for  

possível me ajude estou realmente muito desorientada e confusa, já  

não aguento mais tantas agressões. (e-mail 1)

Psicoterapeuta

Conte-me mais um pouco sobre a situação que você vive (Resposta  

1).  

Cliente.  

Sou uma mulher trabalhadora, mãe de dois filhos de pais diferentes,  

fiz esta semana 40a estou vivendo um relacionamento ha quase 4  

anos com uma pessoa extremamente bipolar e agressiva, e desde

do segundo ano em diante começaram as agressões em distantes  

datas mas sempre que aconteciam ele se arrependia e tudo voltava a  

ser o que era antes, porem eu sempre soube que ele precisava de  

tratamento mais nunca procurei de fato, me tornei uma prisioneira das  

vontades dele não posso fazer nada que desaponte a vontade dele  

que ele reage com agressão. Então a mais ou menos 3 semanas  

atrás descobri uma nova traição dele isso porque ele já vindo  

reincidentemente me traindo com ex mulher e agora descobri que tem  

outra no trabalho ai as agressões estão sendo constantes e ja não sei  

mais o que fazer ja pedi para ele ir embora e que viva a vida dele

como quiser ele diz me amar e que não vai sair da casa e ai vai  

ficando e na medida que o tempo passa as coisas vão surgindo e eu  

não tenho forças para enfrenta-lo e denuncia-lo ou fazer qualquer  

coisa. (e-mail 2)

Psicoterapeuta  

Esta comunicação objetiva, inicialmente, pensar com você as  

questões de sua vida relacionadas ao que a mulher aprende que é  

sua “obrigação”. A leitura do seu e-mail anterior me chamou a  

atenção você se identificar como mulher trabalhadora que luta pelos  

seus objetivos. (resposta 2)

Pimentel (2016) evidencia no excerto dos casos, a preocupação em  estabelecer um diálogo com os clientes, a partir da percepção de aspectos do sofrimento de ambos contidos nos relatos. Assim, no manejo clínico do e-mail,  três procedimentos gerais foram comuns ( e o são, a todas as tecnologias de

informática e comunicação, inclusa a “internet”, o “smartphone”, o “WhatsApp”, a videoconferência que o psicoterapeuta utilizar): a) adotar o termo de  consentimento livre e esclarecido para a psicoterapia; b) garantir o sigilo sobre  a identificação do cliente; c) assinar o contrato de atendimento em meios  virtuais que descreve os acordos, sobretudo, a não utilização de “infocentros” e  “lanhouses” para a realização das sessões clínicas. No âmbito especifico dos  procedimentos, o guia da elaboração dos acordos é a queixa relatada pelo cliente.  

A autora lembra que, os procedimentos descritos são bases da postura ética3 profissional, sobretudo formas fundamentais de advertir aos psicoterapeutas  que preservem as condições possíveis para a viabilidade da realização dos  atendimentos, por exemplo, adotar o termo de consentimento livre e  esclarecido (TCLE) é uma diretriz do Ministério da Saúde para pesquisas.  

A Resolução do Conselho Nacional de Saúde nº 466, de 12 de dezembro de  2012 define TCLE: “Documento no qual é explicitado o consentimento livre e  esclarecido do participante e/ou de seu responsável legal, de forma escrita,  devendo conter todas as informações necessárias, em linguagem clara e  objetiva, de fácil entendimento, para o mais completo esclarecimento sobre a  pesquisa a qual se propõe participar”. (Disponível em  

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/cns/2013/res0466_12_12_2012.html)

Portanto, a redação do TCLE quando é clara permite ao cliente plena  informação e transparência acerca da atividade clínica, do contrato, e da  publicação anônima dos resultados que contribuirão para o avanço do  conhecimento na área de estudo. Sobre as condições técnicas do uso da  “internet”, os documentos usados na pesquisa referem-se às atitudes a serem adotadas pelo psicoterapeuta e pelo cliente; porém, fica este último  responsável pelos meios digitais e contextos em que realizará a sessão,  sobretudo a sincrônica.  

Prosseguindo a descrição do manejo do caso clínico um foi possível perceber  na história da queixa primaria relatada que, o cliente vivenciava sentimentos de  angustia, tristeza e solidão, o que o impedia de sair de casa e conversar com  outras pessoas. Sentia-se incapaz de exercer sua profissão. No manejo do  caso clínico número dois, observa-se que a cliente a procurou, por iniciativa  própria, a partir da leitura de um texto da autora que circula na “internet”. Este  modo de demanda espontânea não é comum, porém demonstra a  potencialidade do uso da “internet” para fins psicoterapêuticos.  

A cliente, nos “e-mails” indicou vivenciar uma elevada carga de ansiedade provocada pela situação de conflito conjugal, o que demandou, no primeiro  mês de consultas, seis interações de e-mail durante três sessões semanais. As  interações mencionadas ocorreram todas no mesmo dia.  

 

3 Considero as premissas da Filosofia Clássica cujos fundamentos éticos visam encontrar o  melhor modo de viver e conviver na vida privada e pública. (The Internet Encyclopedia of  Philosophy) http://www.iep.utm.edu/e/ethics.html

.

Neste texto enfatizo que, os dados do manejo clínico estão vinculados à  pesquisa qualitativa, um modo que os psicoterapeutas dispõem para  compreender a queixa e avaliar sua capacidade de ajudar aos clientes no  alcance do ajustamento criativo no contexto das suas vivências narradas. É  importante aludir já que, nos cursos brasileiros de graduação em Psicologia  oferecidos por universidades públicas temos sobre a clínica em meios virtuais,  apenas atividades curriculares optativas integradas aos projetos pedagógicos.  Portanto é imprescindível à realização de pesquisas para qualificar o manejo  clinico em meio virtual. Lembro, ainda que o Núcleo de Pesquisas de  Psicologia em Informática (NPPI), da Pontifícia Universidade Católica de São  Paulo (PUC-SP) organizado nos anos de 1995 é uma referência pioneira no  cenário da orientação psicológica (FARAH, 2004).

Na pesquisa foi possível observar o e-mail como um modo potencial de  atendimento, que pode somar ao conjunto de estratégias que habilitam o  Gestalt-terapeuta a realizar a clínica virtual. Considero que no manejo da  clínica virtual as concepções estruturais e dinâmicas do contato, das funções  de contato; de ajustamento criativo e ajustamento deliberado, respectivamente,  geradores de um modo saudável e de um modo adoecido de viver numa dada  situação existencial – fornecem o escopo para a facilitação das sessões  virtuais, pois constituem formulações epistemológicas, e teórico-metodológicas  da Gestalt Terapia.

Conforme Perls, Hefferline e Goodman (1997) as bases conceituais aplicadas a  clínica são compostas a partir dos conceitos de: Estrutura: princípio ontológico que considera o homem como aquele que apreende totalidades e não partes  isoladas da realidade, pois a própria realidade se mostra estruturada; Campo:  componente que possibilita ao sujeito perceber-se integradamente, por meio do  diálogo continuo entre parte e todo (fronteira de contato, o outro e o meio  ambiente); Experiência: composta por elementos fisiológicos, sensoriais,  motores e culturais. Proporciona as pessoas a elaboração dos sentidos  singulares. Pode gerar “awareness” espontânea e comportamento deliberado,  quando a relação figura-fundo, respectivamente, é concluída como integração  ou é inacabada como desintegração da experiência. Também integram as  bases conceituais, aplicadas à clínica, os conceitos de Contato, Diálogo, que possibilita o fluxo da “awareness” do cliente; Tempo vivido, implicando a  vivencia e a socialização no presente, abrangendo as rememorações e as  antecipações, e Personalidade, fala e “self”, elementos organizadores dos  relacionamentos, das assimilações, da aquisição da fala poética e do  ajustamento criativo.

Além disso, o Gestalt-terapeuta, durante o atendimento virtual síncrono e  assíncrono, se guiara pela atitude fenomenológica. Os suportes mencionados são redefinindos nos atendimentos para que as referencias não simulem a  mera transposição do setting presencial (ALMEIDA, 2010).

Algumas funções de contato, sobretudo paladar e olfato serão balizadas no  atendimento em meio virtual, síncrono e assíncrono em experimentos, em que a imaginação é fortemente estimulada durante a sessão clínica. Quanto à  visão, no modo sincrono, esta se constitui como uma das principais funções de  contato entre o gestalt-terapeuta, o cliente e o seu mundo, pois é a partir dela  que o psicólogo pode apreender os sentidos expressos pelo cliente. Por meio  da visão, o gestalt-terapeuta pode transmitir interesse, acolhimento, empatia,  preocupação. Durante o atendimento, o gestalt-terapeuta ao atentar para a  comunicação não verbal, estimula o cliente a buscar significados aos gestos e  formas corporais.

No que diz respeito a escuta, será necessário apreender as intencionalidades  contidas nas comunicações por “e-mail”; e por videoconferencia, na entonação  da voz, e na disposição do cliente para falar e ouvir. Conforme as demandas  do cliente, a queixa primaria apresentada sera facilitada pelo gestalt-terapeuta  incluindo recursos expressivos. Podem fazer juntos um enfoque das  capacidades e interesses do internauta, com vistas a trabalhar com as  potencialidades do cliente.  

Em se tratando de movimento corporal, no atendimento em meio virtual, no  modo sincrono a forma de sentar, posicionar o torax, a cabeça, as expressões  faciais são indicadores para o gestalt-terapeuta ampliar a compreensão do  mundo existencial e da expressão subjetiva do cliente. 

Considero oportuno incluir uma sucinta reflexão sobre o processo de  virtualização baseada nos aportes fornecidos por Levy (2011). Para o autor, virtual é definido “Como o nó de tendencias ou de forças que acompanha uma  situação, um acontecimento, um objeto ou uma entidade qualquer, e que  chama um processo de resolução: a atualização” (LEVY, 2011, p.11). 

Levy (2011, p 17) problematiza a virtualização em sua “dinamica, não como  um modo de ser”, e analisa no seu processo o que chama de “ondas”, movimento que antecede o uso pelas pessoas das tecnologias de informatica e  comunicação. Menciona, por exemplo que a “virtualização do corpo” se deu  pelo uso do telefone, da televisão, da máquina fotográfica, do transplante de  órgãos e de sangue, das imagens médicas nas ressonancias magnéticas, do  enxerto de córnea nos casos de catarata, dos esportes de queda e  deslizamento.  

Nesta gama de situações há tanto a presença do corpo “tangível” quanto a sua “desterritorialização”. Contudo, Levy (2011, p 33) afirma que o corpo “...Não  pode ser reduzido a um processo de desaparecimento ou de  desmaterizalização, mas um processo de reinvenção, reencarnação,  multiplicação, vetroização, heterogênese do humano”. 

Com esta breve reflexão situo a inclusão da linguagem corporal no horizonte da  clínica em meios virtuais; contudo, podemos observar que, somente a  abordagem da virtualização do corpo, requer a composição de outra escritura  devido a sua complexidade, o que transcende o limite deste texto.

Prosseguindo a narrativa, proponho que o Gestalt-terapeuta agregue a clínica  várias linguagens expressivas, por exemplo, poesias, fotos, biografias, vídeos  de curta metragem, “links” com músicas de relaxamento, que podem contribuir  

para desvelamento das ideologias que encobrem a existência humana no  contexto de euforia e da sociedade do espetáculo4 que tendem a “obrigar-nos”  a consumir produtos comerciais e pessoas.

As linguagens expressivas e artísticas beneficiam a ruptura com a linguagem  técnica peculiar a racionalidade instrumental, possibilitando que o Gestalt terapeuta ajude ao cliente criar auto suporte e suportes sociais que renovem a  esperança em recuperar o sentido da existência e a condição humana.  

No atendimento síncrono as linguagens expressivas e artísticas beneficiam a comunicação, contudo, conforme as escolhas de expressão do cliente, por  exemplo: gostar de poesia, desenhar, música, pintura, etc. Qualquer forma  incluída na fluidez da “awareness” será sempre indicada pelo cliente, e  compreendida como metáfora para acesso e desvelamento das camadas que  ocultam os sentimentos. Assim, a clínica gestáltica em meio virtual,  fundamentada na fenomenologia existencial reconhece na criatividade um dos  componentes da visão de mundo do cliente.

Atender e refletir de modo ético, empático e amoroso acerca de como se  organiza o contato mediado por dispositivos tecnológicos e pela “internet” contribui para elaborar procedimentos clinicos para o trabalho atual do Gestalt terapeuta.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os estudos iniciais da psicoterapia gestáltica em meios virtuais configuram-se  indicadores de que há viabilidade, em constituir uma clínica para o atendimento que se vale das Tecnologias de Informática e Comunicação. Entretanto, mais  pesquisas são necessárias para desenvolver e fundamentar as intervenções e  identificar às demandas dos clientes pela “internet”, em base a ontologia do  cuidado.

Concomitante, é necessário enfrentar as lacunas da área na formação do  psicólogo inserido nos projetos pedagógicos saberes que os qualifiquem o  manejo clinico em meios virtuais; e também que o CFP promova o debate  

nacional para a atualização dos documentos legais que normatizam as práticas  profissionais.

Até agosto de 2016, 510 sites foram credenciados no Conselho Federal de  Psicologia (CFP) para ofertarem o serviço de orientação psicológica em meio  virtual. Tal volume corresponde a 0,18% do universo de psicólogos, pois somos  

  

4 O termo “Sociedade do Espetáculo” foi elaborado por Guy Debord (2003) . qualifica modos de  produção do capitalismo e de relações sociais mediadas por imagens. “Ele é a expressão de  uma “Weltanschauung”, materialmente traduzida. É uma visão cristalizada do mundo” (Debord,  2003, p 14)

279.039 profissionais no Brasil. O regional 06 com 255 sites tem o maior  número de habilitados; todavia tem 88.590 profissionais, o que corresponde a  0.30% do seu universo. Assim, no Brasil, os sites cadastrados constituem um  contingente pequeno; porém, ao fazer-se rápida busca nos motores da  “internet”, identifica-se uma oferta mais ampla de serviços psicológicos em  meio virtual não credenciado no CFP; o que demonstra que o atendimento pela  “internet” cresce em “pujança comercial”. Tal situação requer  acompanhamento pelo sistema conselhos, e suportes científicos para  implementar os atendimentos na área da clínica ( http://site.cfp.org.br/ ).

Considerando que, entre as atribuições do Conselho Federal estão: “Expedir as  resoluções necessárias ao cumprimento das leis em vigor e das que venham  modificar as atribuições e competências dos profissionais de Psicologia; Servir  de órgão consultivo em matéria de Psicologia”. E dos Conselhos Regionais: Orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão em sua área de  competência, e sugerir ao Conselho Federal as medidas necessárias à  orientação e fiscalização do exercício profissional; indaga-se: quais ações de  orientação e acompanhamento estão sendo promovidas para que a  psicoterapia em meio virtual seja uma intervenção que contribua socialmente  para a saúde psíquica dos usuários dos serviços públicos?  

A comunidade cientifica tem abordado o tema focalizando a postura ética do  profissional; concepção, finalidades, vantagens e desvantagens do serviço;  enquadre clínico, etc. Consideramos que, um posicionamento ético envolve o  princípio do bem comum, auto avaliação da experiência profissional, formação  e experiência supervisionada. Havendo somente a atitude comercial no atendimento (presencial e) virtual o uso da tecnologia aplicada aos serviços  clínicos torna-se instrumental, um fim em si mesmo.  

No cenário de regulamentação do serviço, o sistema conselhos é a instituição  que para ser justa requer acompanhar ativamente a participação dos  coordenadores técnicos dos sites e fazer cumprir as obrigações, através da  criação de protocolos de avaliação aplicados constantemente; convidar a  universidade e os usuários da internet para reflexões; prover referencias de um  protótipo visual para os sites, de modo a evitar a imensa variedade nas  arquiteturas, estilo, poluição visual, elementos estéticos, comerciais, narcísicos,  etc.  

Um protótipo permitiria à identificação clara dos sites que respondem de modo  ético a adesão às resoluções vigentes. Contudo, no que se refere à legislação  a função do sistema conselhos na vanguarda do diálogo e das mudanças  tecnológicas de informática e comunicação favorece regulamentar, que difere  de restringir, por exemplo, o uso de determinados aplicativos; no que se alude  aos associados ao sistema conselhos, a oferta de serviços norteada em  princípios filosóficos, políticos, éticos difere de obrigação. Por sua vez, os  cursos de psicologia, ao incluírem na formação básica e complementar saberes  interdisciplinares como filosofia da tecnologia, criptografia para guarda e sigilo  dos dados se tornam vanguarda.

No âmbito da Gestalt-terapia são necessárias novas pesquisas sobre a prática  clínica, em meio virtual para favorecer ao Gestalt-terapeuta formação e  capacitação constante para qualificar e avaliar o serviço realizado, de modo a  ajudar o cliente a lidar com seu sofrimento humano de modo criativo e  consciente. A questão é complexa e seu debate é cogente.

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NOTAS

Adelma do Socorro Gonçalves Pimentel: PHD em psicologia e  psicopatologia do desenvolvimento pela Universidade de Évora/ PT; Doutora em Psicologia Clínica PUC/SP; Coordenadora do Programa de Pós-graduação  em Psicologia da UFPA

Endereço para correspondência:

Adelma do Socorro Gonçalves Pimentel

E-mail: adelmapi@ufpa.br

Recebido em: 26/06/2017

Aprovado em: 20/04/2018

Revista IGT na Rede, v. 14, nº 27, 2017, p.218-232 DOI 10.5281/zenodo.15054631

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526