ARTIGO

Paul Goodman e o problema da natureza humana a partir de uma  leitura “gestáltica”: desdobramentos para o campo da política e da  educação anarquista

Paul Goodman and the problem of human nature from a Gestalt reading:  consequences for the field of politics and anarchist education

Marcus Cézar de Borba Belmino

RESUMO 

Paul Goodman foi um anarquista, crítico literário, psicoterapeuta, membro do grupo  inicial de criação da Gestalt-terapia e coautor do livro “Gestalt Therapy” e, também, um dos pilares do movimento de desescolarização. Este artigo aborda as discussões  sobre a teoria da natureza humana e a antropologia de Paul Goodman, assim como seus desdobramentos para o campo da política e da educação. Para Goodman, a  natureza humana foi perdida devido a um sistema social repressor que impede o  desenvolvimento da criatividade, da sexualidade e das experiências interpessoais de vivência comunitária. Por isso, como forma de resgatar estes princípios básicos da  natureza humana, Goodman aponta um sistema anarquista, descentralista e  pacifista de organização política e uma nova proposta de educação pautada na  desinstitucionalização dos jovens. Para tanto, procuramos desenvolver um estudo  bibliográfico tendo como foco as obras de Paul Goodman, principalmente aquelas  que tratam de seus fundamentos políticos, buscando compreender como Goodman  entende a problemática da natureza humana e o campo das relações políticas. Como conclusão, compreendemos que as discussões de Goodman que apontavam  as falhas do sistema americano no século passado ainda são extremamente atuais,  e o resgate do trabalho de Paul Goodman se torna necessário para contribuir com a  reflexão gestáltica acerca do contemporâneo.  

Palavras-chave: Paul Goodman; Anarquia; Natureza Humana; Educação. ABSTRACT

Paul Goodman was an anarchist, a literary critic, a psychotherapis, member of the  initial group that has create Gestalt Therapy and the coauthorof the book Gestalt  Therapy, and also one of the cornerstones of the proposals for deschooling. This  article covers the discussions about human nature and anthropology of Paul  Goodman and its consequences for the field of politics and education. For Goodman  human nature is lost due to a repressive social system that prevents the  development of creativity, sexuality and interpersonal experience of living in  community. Therefore, Goodman points a anarchist, pacifist and decentralist system  of political organization and a new proposal for education based on the  deinstitutionalization of youth. Therefore, we seek to develop a bibliographic study  focusing on Paul Goodman’s work, especially those addressing his political grounds,  seeking to comprehend how Goodman understands the human nature problematic  and the field of political relations. In conclusion, we point out that Goodman’s  discussions, which pointed to the failure of the American system of the last century,  are extremely actual, and the rescue of Paul Goodman´s becomes necessary to  contribute to the gestaltic reflection on the contemporary. 

KeyWords: Paul Goodman; Anarchy; Human Nature; Education.

Introdução

Segundo Wodcock (1998), Paul Goodman foi um dos pilares do movimento  anarquista americano. Paul Goodman foi um escritor, crítico literário, psicoterapeuta, crítico político e posteriormente (a partir dos anos de 1960) tornou-se um ferrenho  crítico dos modelos de educação tradicional e um dos principais nomes da  desescolarização, tendo seus debates atravessado a antropologia, a educação, a  psicanálise, a Filosofia, a psicologia e vários outros temas.

Durante toda a sua carreira, escreveu críticas literárias, poesias e um de seus  principais trabalhos foi a novela “The Empire City” (GOODMAN, 2001), escrita em  quatro partes, mostrando as vicissitudes da trama de pessoas que vivem a vida  selvagem da cidade de Nova Iorque. Desde cedo, trabalhou como professor em  escolas e universidades, porém, nunca conseguia passar muito tempo em um  emprego dado o seu envolvimento sexual com alunos. Goodman era bissexual  assumido e defendia a livre expressão da sexualidade dos jovens, isso porque,  como um assíduo leitor de Wilhelm Reich, Goodman acreditava que um dos motivos  da neurose contemporânea eram as formas de inibição da sexualidade (STOEHR,  1994).

Em 1945, Goodman escreve o “The May Pamphlet” (GOODMAN, 2010a), que dá  início à sua trajetória como anarquista. Sendo revisado em 1962, nesse manifesto,  Goodman apresenta suas principais críticas ao Sistema Organizado e mostra os  perigos da centralização do poder, já problematizando sua principal tese política que  será desenvolvida mais tarde, a saber, a de que “o anarquismo é a única política  segura” (GOODMAN, 2010e, p. 51). Durante toda a sua carreira, Goodman  desenvolve sua compreensão de uma sociedade anárquica, apontando mais do que  uma proposta prática de implantação desse modelo social, mas sim, uma leitura  crítica das formas de centralização e burocratização da vida, exposta em vários de  seus trabalhos incluindo a coletânea de artigos intitulada de “Utopian Essays and Pratical Proposals” (GOODMAN, 1973).

No final da década de 40, Goodman é apresentado ao casal Frederick (ou Fritz) Perls e Laura Perls, dois psicanalistas foragidos da Europa, e que depois de alguns  anos na África do Sul desenvolvendo sua prática como analistas, resolveram migrar  para os Estados Unidos com o propósito de construir novas bases para sua prática  clínica. Para construir os fundamentos dessa nova abordagem, Fritz procurou Paul  Goodman com alguns escritos, ensaios e seu livro intitulado de “Ego, Fome e  Agressão” (PERLS, 2002), que tinha como propósito apresentar uma releitura do  pensamento freudiano a partir da psicologia da Gestalt e do pensamento Holístico.

Por mais que quisesse fundar uma nova abordagem psicoterapêutica, Fritz sabia  que não tinha muito interesse em sistematizar uma nova obra e, por isso, delegou a  Goodman o trabalho de fazê-lo (STOEHR, 1994). Goodman, que fora inicialmente  convocado para ser editor do livro, acabou tornando-se coautor do trabalho. O estilo  de coautoria de Paul Goodman era bem peculiar: ele gostava de debater o tema  com seus parceiros, mas preferia escrever sozinho, dando sua própria interpretação  para as ideias produzidas no debate. Com Fritz, o trabalho ainda fora mais peculiar,  pois sabe-se que os encontros dos dois foram muito escassos, e que a verdade é que eles pouco se suportavam (STOEHR, 1991b). Goodman assumiu a construção  desse projeto, dado que, mesmo não tendo experiência como psicoterapeuta,  Goodman era um assíduo leitor e comentador de Sigmund Freud e de Wilhelm  Reich, e um crítico ferrenho aos chamados psicanalistas culturalistas (STOEHR,  1991a).

Esse trabalho desembocou no livro “Gestalt Therapy: Excitement and Growth in The Human Personality”, publicado em 1951. O livro foi dividido em duas partes, uma  parte teórica escrita prioritariamente por Goodman com influência das propostas de  Perls buscando apresentar um novo enfoque da natureza humana, e uma parte  prática escrita por Perls com o apoio do professor universitário Ralph Hefferline, que  fora convidado pelos outros dois autores tanto para dar mais respaldo acadêmico ao  livro, como, também, para auxiliar na construção dos experimentos práticos do livro.

Nesse sentido, aqui, concordamos com Stoehr (1994;1991a) e com From (1988), e  tal como procuramos mostrar em outros trabalhos (BELMINO, 2014a, 2014b) de que  o tomo teórico do livro “Gestalt Therapy” fora escrito, prioritariamente, por Paul  Goodman, e de que é nessa obra que ele melhor consegue sistematizar suas ideias  acerca da natureza humana e suas vicissitudes. Logo após a publicação do “Gestalt  Therapy”, Goodman participa da fundação do Instituto Gestalt de Nova Iorque e se  dedica ao trabalho como psicoterapeuta e a ampliar seus debates acerca da clínica  psicoterápica e sua correlação com o campo da natureza humana. Goodman se  afasta de Fritz Perls devido a uma série de discordâncias pessoais e teóricas, mas  nunca perde o contato com Laura Perls, que fora sua tutora, psicoterapeuta, e amiga  pessoal durante o resto de sua vida (STOEHR, 1994)

No início da década de 60, Goodman abandona a prática como psicoterapeuta  (inclusive porque legalmente ele não poderia mais atuar como psicoterapeuta por não querer submeter-se aos exames de qualificação para essa práticas), e por isso  retoma seus anos de trabalho em sala de aula para apresentar uma nova forma de  olhar para a juventude e a educação. Em 1960, Goodman publica o livro “Growing Up Absurd”, sendo considerado a sua principal obra e também o livro que tem o  maior alcance de público na sociedade americana, isso porque, mesmo a Gestalt terapia se tornando uma abordagem reconhecida em âmbito internacional nas mãos  de Fritz Perls, o livro “Gestalt Therapy” foi um fracasso de vendas e, por isso, o  reconhecimento de Goodman como importante coautor dessa abordagem foi  largamente negligenciado (FROM; MILLER, 1997). Em “Growing Up Absurd” (Goodman, 1960), o anarquista apresenta uma crítica radical à juventude americana  e mostra a falta de sentido que os jovens vivem na sociedade pós-guerra. AREm  seus livros posteriores, tais como “Compulsory Mis-education” (GOODMAN, 1976) e  “New Reformation” (GOODMAN, 2010d), Goodman desenvolve sua crítica ao campo  da educação e procura repensá-la a partir da educação progressiva e com uma  retomada direta dos princípios anarquistas, descentralistas e pacifistas que sempre  permearam sua discussão.

Assim, neste artigo, pretendemos explorar o pensamento de Goodman a partir de  dois grandes desdobramentos da sua obra, a saber, os campos da política e da  educação. Por mais que haja outros pontos de exploração na obra de Paul  Goodman, entendemos que esses dois eixos centrais estão fundados em teses que  Goodman acabara desenvolvendo já desde seus escritos iniciais e que constantemente atravessavam todas as suas temáticas de interesse. Isso porque, tal  como discutido em uma pesquisa anterior (BELMINO, 2014), Goodman escrevera  sobre uma miríade de temas, mas sempre fundado em uma constante reflexão  sobre a ética e a natureza humana. Dessa forma, neste artigo, pretendemos explorar  qual é essa forma de pensar a natureza humana e sua ética nos campos da política  e da educação, mostrando como Paul Goodman ainda é um autor fundamental para  uma compreensão da vida contemporânea, e que suas críticas e propostas ainda  são extremamente atuais e pertinentes para olhar para como o mundo Ocidental  ainda está calcado em modos de governos centralistas, alienantes e que destroem o  desenvolvimento humano pautado na criatividade e na integração comunitária  genuína. Para tanto, fora feita uma pesquisa bibliográfica buscando sistematizar as  obras de Goodman que versam sobre a problemática da natureza humana, assim  como o modo como Goodman pensa o campo da política e da educação. Além  disso, foram levantados estudos de diferentes comentadores de sua obra,  principalmente os trabalhos de Taylor Stoehr (1991a; 1991b; 1994; 2010a; 201b)  que é considerado o principal biógrafo de Goodman.

Por isso, neste artigo nosso propósito será: 1) Apresentar como Paul Goodman  pensa o campo da natureza humana e sua proposta ética de compreensão das  relações humanas; 2) Discutir os fundamentos da crítica política goodmaniana a  partir de sua perspectiva anárquica; 3) Discutir os desdobramentos dessas  concepções no campo da educação e da formação dos jovens na sociedade  contemporânea. Esperamos mostrar, no final deste artigo, a importância de inserir  Goodman no discurso da crítica social e educacional brasileira.

1 – A natureza humana e a construção de uma ética  

Para Goodman (1960), a natureza humana é um dos primeiros pontos fundamentais  que deve ser discutido em qualquer investigação, seja no campo da política, da  psicoterapia e ou da educação. Para ele, natureza humana precisa ser pensada a  partir do princípio de que ela é em parte dada e em parte mutável, e, por isso,  Goodman, ao contrário dos marxistas e dos existencialistas, discordava do caráter  de total mutabilidade da experiência humana:

“Sua natureza é supreendentemente maleável. E ao mesmo tempo não é tão supreendentemente maleável como pensam de modo a que a natureza humana possa ser desconsiderada, da maneira como parecem supor alguns sociólogos democráticos e políticos fascistas [...]” (PERLS;  HEFFERLINE; GOODMAN, 1997, p. 116).

Dessa forma, é necessário construir o modo como podemos pensar esta relação  intrínseca entre o que é maleável e o que é dado, e isso só será possível a partir da  ideia de constituição entre a natureza e a cultura. Por mais que Goodman fosse um  defensor claro do pensamento não dicotômico – recorrendo à fenomenologia e ao  pragmatismo como estratégias de superação da forma de raciocínio moderna  (MÜLLER-GRANZOTTO; MÜLLER-GRANZOTTO, 2012) –, Goodman entendia que  natureza e cultura não poderiam ser confundidas como a mesma coisa. Tal como o  oxigênio e o hidrogênio na molécula de água (VINCENT, 1978), os campos da  natureza e da cultura não se distinguem como categorias incomunicáveis, mas também não são possíveis de serem fundidos a ponto de se tornarem  irreconhecíveis.

Para Goodman, se há um processo de alienação de ordem política da nossa  natureza humana, esta se dá por uma inibição cada vez mais arrojada da nossa  natureza. Em qualquer investigação sociológica, psicológica ou biológica, sempre  precisamos partir da célula básica de compreensão da experiência, a saber, a noção  de “campo organismo/ambiente” (PERLS; HEFFELINE; GOODMAN, 1997, p. 42).  Dessa forma, para Goodman, só é possível compreender um animal em sua  constituição mais básica de vinculação entre o organismo e o meio circundante.  Assim, fundado nas teorias que pressupõem a integração organísmica (ou seja, a  ideia de que o organismo é constituído pela relação intrínseca entre aspectos ditos  mentais e ditos fisiológicos), tal como o funcionalismo de John Dewey, o gestaltismo  de Kurt Goldstein ou a psicologia política de Willhem Reich - teorias que serviram de  base para Goodman pensar sua concepção de natureza humana e, por conseguinte,  a Gestalt-terapia (STOEHR, 1994) -, todas essas perspectivas pressupõem a  unidade organísmica e a necessidade de uma investigação calcada nas ciências da  unidade psicofísica e a necessária interlocução do organismo e o meio. Assim, se  falamos de uma investigação especificamente humana – dirá Goodman – perceberemos que todas as suposições sobre as formas de experiência sempre nos  fazem recorrer às três funções básicas de constituição da natureza humana, a  saber, a sexualidade, a comunidade e a criação (VINCENT, 1978).

Destarte, o que acompanhamos na história da humanidade, é uma sucessão de  erros antropológicos que nos levam a nos distanciar cada vez mais dessas funções  básicas. O desenvolvimento da linguagem e dos contatos simbólicos nos distanciou das necessidades básicas e do contato direto com nossos excitamentos e desejos,  e, paulatinamente, fomos alienando (ou, porque não dizer, reprimindo) nosso contato  com a sexualidade genuína, com o cooperativismo comunitário e com a  espontaneidade e inventividade frente aos problemas. O preço antropológico de uma  sociedade organizada, em que os riscos da vida selvagem foram substituídos pelas  certezas e previsibilidades da vida burocrática, é a sexualidade reprimida, a solitária  instrumentalização do outro nas relações humanas, e a inibição da criatividade  infantil (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997). Não é à toa que os excitamentos ainda buscam se atualizar em esferas que, aos olhos de uma sociedade organizada  e burocrática, são absurdas e inaceitáveis, como a pornografia, as práticas sexuais  alternativas, as relações sadomasoquistas, nas práticas de violência nas guerras, e  nas formas de degradação do próprio corpo (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN,  1997).

Por isso que, por mais que haja explicitamente essas formas de alienação da  experiência humana, Goodman não deixa de acreditar, calcado em seus aliados  teóricos defensores das teorias organísmicas, que, mesmo frente aos processos  coercitivos da sociedade moderna, ainda é possível encontrar uma sorte de  capacidade de autorregulação organísmica (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN,  1997). Porém, mais do que um processo de reorganização homeostática, Goodman  acredita que, para além da formulação de um ajustamento do organismo às  condições do meio, há também uma capacidade criativa nessa forma de adaptação,  sempre buscando uma saída nova para aquilo que já está dado ou estabelecido.

Esse processo Goodman chamou de ajustamento criador ou “ajustamento criativo” (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997, p. 60). Por isso, por mais tenhamos  vivido uma formação antropológica de um contínuo processo de traição (GOODMAN, 2010a) de nossa natureza, a nossa apatia e a nossa desistência frente  aos conflitos e à sociedade burocrática não deixam de ser uma “aquisição muito recente da humanidade” (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997, p. 125), ou  seja, a construção de uma formulação possível dentro desse contexto. A neurose  contemporânea é justamente essa estratégia (que não deixa de ser criativa) que  assumimos na construção da sociedade moderna, onde, como forma de proteção  frente a um mundo tão indecifrável, nós tornamos uma forma habitual nossas  maneiras de evitar (a qualquer custo) os conflitos vividos nele. Para um animal  extremamente frágil é fundamental que a previsão e comensurabilidade da realidade  se tornem funções possíveis de controle (tanto da natureza quanto social), porém,  em troca desse processo, o homem abandona paulatinamente sua espontaneidade  e criatividade (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997).

O que existe de perdido ou inadaptado em nossa sociedade contemporânea não é a  natureza humana, mas sim a própria sociedade (GOODMAN, 1960). Sendo assim,  para Goodman, a única ética possível nesse contexto é justamente a crença no  processo de autorregulação organísmica, ou melhor, na capacidade de ajustamento  criativo dos organismos em relação ao meio (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN,  1997). Assim, “não podemos ser enganados por um ajustamento criativo” (PERLS;  HEFFERLINE; GOODMAN, 1997, p. 226) e, por mais que esse processo não seja  infalível, ele ainda é a única “evidência positiva” (PERLS; HEFFERLINE;  GOODMAN, 1997, p. 226) de acepção ética.

As relações atravessadas pela baixa vitalidade oriunda da neurose instituíram  relações mobilizadas pela centralização do poder e pela alienação às formas  coercitivas de poder. E, desse modo, as formas de coerção e submissão do outro  sempre vão se sobreporàs formas de ajustamento criativo. Isso porque as formas de  ajustamento criativo são sempre cooperativas, criativas, e não impõem um lugar de  quem ganha ou quem perde. As relações de poder sempre são coercitivas, são  impositivas e, por isso, submetem o outro. Porém, a relação de poder se manifesta pelo excesso de inibição, e isso tem como resultado uma sociedade inibida,  ressentida e ansiosa (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997). O paradoxo é que  sempre subjugamos quando nos sentimos ameaçados, ou seja, é quando na luta  pelo poder nos mostramos frágeis que construímos estratégias explícitas de ameaça  ao outro e tentativa de destitui-lo.

Assim, também de forma paradoxal, somente quando voltamos para a própria  experiência, e retornamos à confiança em nossa própria natureza, podemos  recobrar a potencialização da sexualidade, da comunidade e da criação. Para  Goodman, esse é o projeto que perpassa seus eixos de investigação, como, por  exemplo, a psicoterapia, a política e a educação, que, por mais que tenham a ver  com campos distintos da experiência humana, podem ser mediadas por essa  mesma ética, a saber, uma ética anarquista (STOEHR, 1994), que busca o  desenvolvimento da autonomia e da confiança no ajustamento criativo.

A temática da importância das discussões de Goodman para o campo da  psicoterapia tem sido retomada por vários teóricos da Gestalt-terapia, tanto em  âmbito internacional (p. ex. ROBINE, 2006; SPAGNOULLO-LOBB, 2002, entre  outros), como em solo nacional (MÜLLER-GRANZOTTO; MÜLLER-GRANZOTTO,  2012; BELMINO, 2014, entre outros). Por isso, agora vamos analisar o modo como  Goodman cria uma interlocução desta leitura ética e da natureza humana para o  campo da Política anarquista.

2 – A dimensão política do pensamento de Paul Goodman: crítica à sociedade  centralista e os caminhos da anarquia

Em 1945, Paul Goodman lançou seu primeiro manifesto anarquista, em que fazia  uma acusação extremamente pertinente ao modelo social constituído até então. Em  seu “The May Pamphlet” (GOODMAN, 2010a), Goodman apresenta os argumentos  do que ele considera o maior crime cometido pela Sociedade Organizada do século  XX, a saber, o crime de “traição” de nossa própria natureza (GOODMAN, 2010a, p.  21, tradução nossa). Para Goodman, a perda do sentimento comunitário em prol da  lucratividade em cima dos outros, a repressão da sexualidade e as formas de  desvitalização que suspendem a capacidade criativa dos indivíduos eram os maiores crimes já cometidos pela humanidade.  

Assim, muito mais do que um ladrão, um assassino ou os pervertidos sexuais, a  perda da referência e da crença na própria natureza levou o homem a estados cada  vez mais deformados de vinculação à sua experiência mais imediata. Para o autor, a  burocracia à qual fomos submetidos nos últimos séculos, principalmente as  mudanças pós-revolução industrial, levou o homem a se alienar nas garantias e  determinações do próprio estado (VINCENT, 1978).

Goodman retomou o termo cunhado por Augusto Comte chamado “Sociolatria”, para  denominar esse estado de submissão à “religião da sociedade” (GOODMAN, 1991a,  p. 44, tradução nossa), ou seja, de submissão à crença de que o Estado e a  sociedade organizada podem e devem dominar a vida cotidiana.

Assim, no sistema organizado e centralizado, em que as manobras de poder são  identificadas às grandes instituições, as pessoas se sentem pequenas e fracassadas  frente aos grandes empreendimentos da vida (GOODMAN, 1968). Por isso, se  alienam no trabalho e fora dele, buscam meios medíocres de satisfação e, por isso,  se contentam com trabalhos burocráticos com pouca vinculação à sua real vocação  ou à historicidade de sua comunidade (GOODMAN, 1960). Confundem o tédio da  falta de criatividade com a necessidade de um consumismo imposto pela própria  sociedade organizada, ou seja, a sociedade organizada tira das pessoas qualquer  crença na criação e na transcendência, e, por isso, a vida torna-se segura e  previsível, porém, ao mesmo tempo, tediosa e sem vitalidade. Em compensação,  enquanto que a sociedade faz essa troca, ela também cria meios artificiais (a que  poucos segmentos da sociedade de fato têm acesso), afirmando trazer um remédio  para o tédio cotidiano, mas que, em contrapartida, só geram mais desvitalização e  consumo exacerbado.

Por isso que, para Paul Goodman, a única política segura é aquela de base  pacifista, anarquista e descentralizadora (GOODMAN, 2010a, GOODMAN, 1968).  Se o grande problema da formação dos modos de repressão são as ações  coercitivas às quais somos submetidos, a luta pelo poder e a manutenção desta luta

são, consequentemente, absurdas. Para Goodman, toda forma de ação coercitiva  repressora (ou seja, antinatural) inibe a vitalidade, destrói o patriotismo, incapacita a  criatividade e a sexualidade:

“Nós somos criados em uma sociedade mista de coerção e natureza. As  

mais fortes influências naturais – preocupação dos pais, imitação infantil;  

desejo adolescente de estar entre os irmãos e ser independente, a  

capacidade de um artesão para produzir algo e um dever do cidadão – 

todos estes são anormalmente exercidos para nos fazer renunciar e  esquecer nossas naturezas”. (GOODMAN, 2010a, p. 23, tradução nossa). 

O pacifismo de Goodman em nada tem a ver com uma apatia política, mas, muito  pelo contrário, tem a ver com tentar recobrar a natureza humana por vias que  defendem a liberdade de expressão, e a vivência autêntica de conflitos. Devido à sua experiência como psicoterapeuta, Goodman sabia que, em um processo de  emergência de um conflito genuíno, não devemos impedi-lo de aparecer utilizando de estratégias de coerção ou de abuso de poder institucional. Muito pelo contrário, é  na emergência de um conflito genuíno que é possível uma resolução genuína para o  conflito (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997). Se essa ideia é possível no  ambiente seguro da psicoterapia, também poderia será possível nos embates  políticos das comunidades. Porém, se o conflito é inibido por uma força exterior,  provavelmente ele se mantará latente, porém com uma força destrutiva muito mais  intensa do que se fosse liberado anteriormente. Assim, para além de uma visão  psicológica, Goodman (2010f) entende que as revoluções inacabadas do passado,  continuam retornando (tal como situações inacabadas) e procuram meios de se  atualizar, porém, agora destituídas dos meios materiais de resolução que existiam  outrora.  

Assim, o pacifismo de Goodman não era uma proposta ingênua, isso porque ele não acreditava, como ele mesmo afirmou, que a natureza era naturalmente boa e a  sociedade que a corrompia (GOODMAN, 1968). Muito pelo contrário, é justamente  pela natureza humana não ser naturalmente boa que o poder não pode ser  concentrado na mão de ninguém (GOODMAN, 2010e). Seu pensamento anárquico  estava calcado na crença de que “os anarquistas querem aumentar o funcionamento  intrínseco e diminuir o poder extrínseco” (GOODMAN, 2010b, p. 55, tradução  nossa), possibilitando uma maior autonomia e criatividade na experiência humana.  Goodman era um crítico ferrenho à noção de liberdade, para ele, não deveríamos  lutar por liberdade, deveríamos lutar por autonomia, que implica, necessariamente,

no desenvolvimento das próprias potencialidades, mas também no maior sentimento  de pertença a uma comunidade (GOODMAN, 2010e).

Por isso, para Goodman, a única estratégia possível de reintegrar o homem à  comunidade é o abandono do pensamento centralizador (VINCENT, 1978).  Goodman não acreditava em uma reforma social total, muito menos de uma  revolução que poderia ser planejada e aplicada em longo prazo. Goodman  acreditava na revolução interior, na desconstrução do apego à centralização no seio do próprio indivíduo, e, com isso, ele tornar-se um transformador comunitário. Para  Paul Goodman, a única política verdadeira é aquela constituída nas pequenas  comunidades, e, assim, na vinculação do homem aos membros próximos de suas  relações verdadeiras. Assim, sua política propunha uma retomada das relações  genuínas entre as pessoas, e, portanto, uma integração maior entre os grupos.  

Seu modelo utópico não tinha como propósito, tal como era muitas vezes atribuído  ao movimento anarquista, destituir a ciência e a tecnologia do contexto da vida  humana (GOODMAN, 2010f). Muito pelo contrário, para Goodman, a ciência e a  tecnologia em uma sociedade não centralizadora têm um papel fundamental. Para o  autor, o problema do desenvolvimento científico é que se tornou inviável, na  sociedade atual, pensar a ciência sem estar diretamente vinculada às formas de  dominação social ou como instrumentos de poder e manutenção de poder. Ao invés  de ajudar e facilitar as relações humanas e o desenvolvimento comunitário, a ciência  e a tecnologia acabam sendo os principais instrumentos para causar o afastamento  do homem de sua própria natureza.

Uma sociedade não centralizada e baseada em modelos comunitários de gestão  poderia se utilizar do desenvolvimento tecnológico para ampliar o bem-estar social  nestas comunidades. Para Goodman, poderíamos, em um modelo ideal de  organização social, ampliar o uso da tecnologia para tarefas que de fato poderiam  existir sem a atuação humana, como atividades industriais e manutenção estrutural  de uma cidade, por exemplo (GOODMAN, 1973).  

No modelo social de Goodman, toda a comunidade estaria empenhada em garantir  a sobrevivência de uns dos outros e também estaria intimamente ligada ao processo  educativo dos jovens. Esse contato íntimo com os membros da comunidade e com  os problemas da comunidade serviria de parâmetro muito maior para avaliar se as  estratégias escolhidas pelo grupo para o desenvolvimento social de fato funcionam  ou não. Para Goodman, os critérios, como é o caso dos índices do tipo PNB  (produto natural bruto), em nada falam sobre o verdadeiro progresso ou fracasso de  uma comunidade, pois, dentro de um contexto amplo como um país, ele denota  somente o avanço econômico que, em muitos casos, é diretamente proporcional ao  afastamento dos indivíduos daquilo que realmente importa em suas vidas:  

“O exemplo tipo, mencionado por Galbraith, é o daquele homem que toma  

uma aspirina, enquanto, a caminho de uma praia superpovoada, vê, em  

pleno engarrafamento, fumegar o radiador da sua viatura: tudo nessa  

situação concorre para o crescimento do produto nacional bruto[...]”

(GOODMAN, 1968a, p. 118).

Porém, a crítica ao centralismo e o afastamento das determinações econômicas do  Estado moderno, para Goodman, não propõem nenhuma garantia de perfeição.  Para ele, isso inclusive é um bom argumento para a descentralização social, pois,  caso determinada estratégia não funcione em uma comunidade, o estrago será  menor, porque o problema será somente em um grupo e os outros poderão tanto  socorrê-lo como também aprender com os erros de cada comunidade. Além disso,  uma sociedade não centralizada não está livre dos conflitos, porém, tal como  discutido anteriormente, ele sabia que era possível pensar os conflitos humanos como formas energizadas de participar ativamente de uma relação, e não algo que  possa ser necessariamente destrutivo.

O problema vivido pela sociedade ocidental moderna que vive a partir dos sistemas  centralizados não são os conflitos, mas sim a falta deles (PERLS; HEFFERLINE;  GOODMAN, 1997). Justamente pela desvitalização causada pela inibição da  sexualidade e da agressão, as pessoas se tornam menos capazes de lidar  genuinamente com as formas conflitivas, e, por isso, acabam precisando recorrer a  estratégias coercitivas de manutenção social. O uso da coerção não é fruto de um  excesso de poder, mas sim de um sentimento de impotência frente o outro, por isso,  os Estados precisam garantir a ordem a partir da coerção (instituições totais,  policiamento, exército, etc.), justamente devido à sua impotência frente às formas de  criação social que, necessariamente, vão fugir do previsto, e, como formas de  manutenção do “status quo” social, usam desses artifícios para produzir medo e a submissão dos indivíduos.  

Goodman, além de um anarquista, sempre trabalhara como professor em escolas,  universidades e em aulas particulares. Ele sabia bem que um dos principais instrumentos de manutenção desse modelo social era justamente a formação  escolar dos jovens. Por esse motivo, Goodman começa, principalmente a partir da  década de 60, afocar suas críticas ao modo como a juventude americana vinha  desenvolvendo seu estilo de vida (GOODMAN, 1960). Goodman percebera que, se  ele estava buscando uma proposta de mudança social, era fundamental que ele  voltasse seu olhar para a juventude e o sistema educacional americanos.

3 – Juventude e falta de sentido: a crítica ao sistema educacional

Talvez a melhor forma de definir a crise americana pós-guerra fria seja defini-la  como uma crise religiosa (GOODMAN, 2010f). Porém, para entender o que  Goodman chama de crise religiosa, é necessário retomar a etimologia inicial da  palavra “religião”, que significa religar, ou seja:

“Aquilo que liga o organismo ao meio, a relação simultaneamente íntima e  

cósmica do indivíduo com tudo o que o circunda, com os outros homens,  

com a sociedade, com os seus instrumentos, com a natureza, com a flor e  

com a estrela, com a Criação e, através dela, com o Criador. Neste sentido,  

todo o acto humano é religioso, toda palavra é oração, nada escapa ao  

sagrado.” (VINCENT, 1978, p. 91).

Assim, o grande problema da sociedade organizada pós-guerra é a falta de ligação  das pessoas com sua cultura, seu passado e sua comunidade. Tornou-se imoral o  patriotismo, porém, é fundamental contextualizar que, para Goodman, a necessidade de um retorno ao patriotismo em nada tem a ver com o apego  indiscriminado à ideologia americana. Para ele, o grande problema da juventude  americana é ter confundido o sistema organizado com a sociedade como história (GOODMAN, 1960).  

Os jovens acabam, a partir do momento em que são submetidos aos enganos do  sistema organizado, se submetendo indiscriminadamente ao contexto no qual foram inseridos. “Os adolescentes resignam naturalmente, à condição que lhes é imposta e  acomodam-se, a bem ou a mal, às normas do sistema” (VINCENT, 1978, p. 97). Frente a essa profunda crise, brotam do sistema dois grandes movimentos como  saídas para lidar com a falta de sentido imposta pelo sistema, a saber, a  delinquência e o movimento “hippie.”

Os delinquentes são os filhos do próprio sistema, querem ser incluídos no sistema  de forma inversa, acabam roubando e depredando o sistema, para terem direito a  comprar os mesmo itens e geringonças impostas pelo mercado e pelo “marketing”.  Como afirma Goodman (1960), existe um pacto entre o que é produzido pela  delinquência e o que a classe média frustrada do sistema organizado consegue  produzir. Assim, a delinquência é uma caricatura do próprio sistema de que ela  emergiu, pois ela, no final das contas,  

“nasce de um conflito exacerbado entre o desejo de partilhar o prestígio da  

vida burguesa e a impossibilidade de o alcançar; é o resultado de uma  sociedade frustrada que degenera, pela força das coisas, em agressividade  

mórbida, porque o que o delinquente pretende é ter acesso, custe o que  

custar, a esse direito de cidade e a esse nível de vida que a sociedade lhe  

recusa.” (VINCENT, 1978, p. 98).

Se os adolescentes que vivem a delinquência querem esse direito de cidade, eles  também buscam a todo custo (como uma forma quase religiosa de relação) serem  pegos, pois, ao serem presos ou detidos pelas autoridades, eles finalmente estão  sendo reconhecidos pelo sistema que os excluiu. “Debaixo de sua capa de ódio, a  delinquência é, pois uma forma última e desesperada de amor” (VINCENTE, 1978,  p. 99).

Por outro lado, o movimento “hippie” busca a todo custo viver por fora do sistema.  Os “hippies” abandonam sua cultura e seu passado em prol de buscar uma nova  cultura, uma nova forma de organização e de vida. Precisam destruir sua história  frente a toda a vergonha que sentem do próprio sistema que os constituiu. Porém,  Goodman não concordava totalmente com os movimentos de contracultura. Por  mais que reconhecesse, na subcultura delinquente e nas novas formulações  culturais dos “hippies”, saídas criativas para o problema do sistema organizado,  Goodman entendia que, sejam os delinquentes ou os “hippies”, ambos são sintomas  do mesmo processo: o modo como os jovens acabam se tornando exilados de sua  própria cultura. Por isso que, para ele, o importante não era subverter ou destruir a  cultura e a história, mas reestabelecer o contato antropológico do homem com sua  natureza, ou seja, com sua comunidade, sua sexualidade e sua criatividade.

Assim, a pergunta feita por Wilhelm Reich nos anos de 1940, em que questiona não  por que as pessoas roubam e matam, mas sim: porque dado à opressão e  desigualdade social que vivemos a maioria das pessoas não roubam e matam? (REICH, 1998), era então retomada por Goodman. Esta ideia, que levou Reich a estudar as formas de repressão e a sua profilaxia das neuroses, possibilita  Goodman se perguntar o que aconteceu com os jovens e por que eles perderam a  capacidade de se revoltar e lutar contra o sistema em prol de estabelecer seu  contato real com sua comunidade.

A incapacidade da revolta da juventude está intimamente ligada aos aspectos  políticos ditos anteriormente. A dessensibilização e a apatia produzida pelo sistema  organizado atacam diretamente a grande maioria dos jovens. Exilados em sua  própria pátria, os jovens são treinados desde cedo a se submeterem a um sistema  opressor, e, por como eles são criados no seio desse sistema e destituídos de sua  própria historicidade, são submetidos à crença de que a sociedade sempre foi assim  e por isso sempre será assim.  

Por isso, o principal sistema de submissão social é o sistema educacional. Isso  porque, longe de estar integrado à vida comunitária e à real necessidade de um  grupo social, o sistema educacional treina os jovens para se submeterem à apatia  do sistema organizado:

“É na escola e não em casa ou em contato com os amigos, que a maioria  

dos nossos cidadãos de todas as classes aprende que a vida é,  

inevitavelmente rotina, despersonalização e venalidade, que é melhor  

obedecer e calar-se, que não há espaço para a espontaneidade, a  

sexualidade aberta e liberdade de espírito. Formados nas escolas, se  

adaptam aos mesmos postos de trabalho, à mesma cultura, e à mesma  

política. Esta é a educação, a deseducação, a adaptação às normas  

nacionais e o enrolamento em função das ‘necessidades nacionais’”.

(GOODMAN, 2010b, p. 23; tradução nossa).

Assim, o que eles aprendem desde cedo é que a vida é repetitiva, com pouca  criatividade, submissa a padrões e regras inquestionáveis, e que os poucos  momentos de lazer e criação são, também, mediados pelo mesmo sistema.

Em seus livros “Compulsory Mis-education e The Comunnity of Scholars”, Goodman  aponta mais do que uma crítica ao sistema educacional, mas sua proposta de  revitalização ou de reforma do sistema escolar. Sendo considerado um dos  principais nomes do processo de desescolarização, ao lado de Ivan Illich (Stoehr,  1994), Goodman não era, tal como seu companheiro Illich, contra o sistema escolar,  apostando na derrubada dessas instituições como saída para a educação (Illich, 1985). Porém, Goodman sabia que o desenvolvimento humano e as escolas  precisavam necessariamente de uma reforma profunda. Como um atento interlocutor  de A. S. Neil e a proposta escolar de “Summerhill”, mas principalmente como um  leitor assíduo da educação proposta por John Dewey, Goodman mostra um novo  modelo de se pensar a educação desde a infância até o ensino universitário.

Para ele, uma das grandes armadilhas contemporâneas é a obrigatoriedade do  ensino (GOODMAN, 1976). Isso porque, mais do que uma proposta de  esclarecimentoe de humanização, a obrigatoriedade do ensino educacional está  diretamente ligadaàs demandas do sistema organizado e não com as reais  demandas de uma determinada comunidade. Porém, contra o radicalismo do  movimento de desescolarização, Goodman entende que o fim do sistema  educacional também não é a saída mais viável. Isso porque não podemos afirmar  com toda certeza que, hegemonicamente, o ambiente familiar e próximo da criança  ou do jovem (como, por exemplo, a vizinhança) seja constituído de um ambiente  nutritivo suficiente para o seu desenvolvimento pessoal.

Dessa forma, como uma alternativa para a escolarização tradicional, Goodman  começa a levantar uma série de propostas que, mais do que uma nova cartilha  educacional, são problematizações para serem levantadas e debatidas nos  ambientes educacionais, já que, o princípio fundamental da discussão goodmaniana  é que “nenhuma educação é certa: o ideal é crescer num mundo que valha a pena  viver” (GOODMAN, 1998, p. 261). Assim, a proposta de Goodman está constituída  em alguns postulados.

O primeiro ponto é o de “eliminar totalmente a escola para algumas classes” (GOODMAN, 1976, p. 41, tradução nossa). A ideia básica é tentar ampliar o convívio  de determinadas crianças à própria vida comunitária e ao grupo (família e vizinhos) à  sua volta. É claro que essa regra não poderia ser aplicada a todo e qualquer  contexto, pois Goodman sabia bem que o problema da falta de suporte dos jovens  pela sociedade não era um problema que pudesse ser resolvido simplesmente pelo  fechamento das escolas, porque, crianças e adolescentes, muitas vezes, por mais  precário que seja seu aprendizado na escola, ainda possuem esse local como um  ambiente de trocas afetivas e desenvolvimento de sentimento comunitário. Por isso,  em ambientes em que seja possível a desescolarização, é interessante a  implementação desta experiência, até mesmo porque, como aponta Goodman, caso  a experiência não desse certo, há pesquisas, até mesmos nos modelos de educação  tradicional em que sabe-se “que há evidencias concretas de que, com um bom  ensino, as criança conseguem recuperar num período de quatro a sete meses os  primeiros sete anos do trabalho escolar”. (GOODMAN, 1976, p. 41, tradução nossa).

Como próximos pontos, Goodman apresenta a proposta de flexibilização do espaço  físico da escola, propondo que se utilize “a cidade mesma como se fosse uma  escola” (GOODMAN, 1976, p. 41, tradução nossa). O ensino deve ser produzido em  grupos de até dez alunos que retomam o “modelo de educação ateniense” (GOODMAN, 1976, p. 41, tradução nossa), que muito se aproxima do que os  delinquentes usam como forma de aprendizado de suas ideologias. Porém, livre da  imposição ideológica, os professores se utilizariam do espaço público da cidade para  criar problemas reais de aprendizado e de desenvolvimento pessoal e comunitário.  Além disso, a educação deveria ter a participação de outros adultos não educadores formados, como “o farmacêutico, o lojista, o mecânico” (GOODMAN, 1976, p. 42,  tradução nossa) como forma de ampliar o contato da criança com os mais velhos e  da responsabilidade social do aprendizado dos jovens.

Além disso, Goodman propõe que “o comparecimento às aulas não seja obrigatório”,  porque, “se os professores forem bons, logo as ausências tenderão a diminuir. Se  forem ruins deve-se deixar que eles descubram isso” (GOODMAN, 1976, p. 42,  tradução nossa). A obrigatoriedade da presença em sala de aula deve ser  substituída por modelos flexíveis de aprendizado que possibilitem ao aluno se  dedicar a outras possibilidades além daquelas propostas em sala de aula.

As escolas também deveriam ser descentralizadas, criando “pequenas unidades” (GOODMAN, 1976, p. 42, tradução nossa) espalhadas pela cidade. Os grupos  poderiam ser reunidos em grandes auditórios para que percebessem a amplitude da  comunidade, mas o ensino deve ser criado em um modelo menor e com mais  opções de lazer e interesses dos alunos. Goodman propõe também a retomada das  escolas rurais para que a cultura rural não seja perdida (lembremos que a década de 60 nos Estados Unidos foi marcada por um grande êxodo das populações para os  grandes centros urbanos). Além disso, deveria ser dada oportunidade para que as  crianças dos centros urbanos pudessem conhecer a escolas rurais e conhecer o  trabalho que é desenvolvido nas fazendas. Para Goodman, a educação deve  reestabelecer o contato vivo com os desejos profissionais e “uma educação decente  deve ter como objetivo preparar o indivíduo para um futuro melhor, onde um espírito  diferente anime a comunidade e onde seja possível criar novas ocupações que não  sirvam somente para a obtenção de “status” e “salários”. (GOODMAN, 1998, p. 262,  tradução nossa).

Por isso, Goodman reforça a necessidade de também se repensar o ensino  universitário. Não sendo contra o desenvolvimento tecnológico e a ciência,  Goodman sabia que o problema do desenvolvimento científico estava na submissão  da ciência e da tecnologia aos interesses do sistema organizado e centralizado. Se a  educação da criança e do adolescente não vincula as pessoas às suas reais  necessidades, o ensino universitário acaba se tornando sem sentido ou então  vinculado a necessidades completamente alheias ao real desejo do jovem. Por isso,  Goodman acreditava que só seria possível um bom ensino universitário se este  fosse com o propósito de retomar a formação humana, mas que também estivesse  intimamente ligado com a vocação da pessoa. Assim, Goodman acreditava que  antes da decisão em relação a em que se formar, o jovem deveria experimentar  trabalhos e atividades práticas antes de se dedicar ao ensino universitário. Com  esse modelo educacional diferenciado, os jovens poderiam, aos poucos,  reestabelecer sua autonomia e produzir mudanças de fato significativas do “status  quo” social ao qual estamos submetidos.

Considerações Finais

Paul Goodman é ainda um autor pouco discutido nos solos brasileiros. Apesar de já  haver alguns artigos publicados em língua portuguesa sobre o autor, praticamente  nenhum de seus livros foi publicado em língua portuguesa, o que ainda é possível  encontrar são algumas traduções de recortes de seus artigos (p. ex. WOODCOCK,  1998). Porém, por mais que Goodman tenha escrito sobre os problemas do solo  americano da década de 40 à 70, seus “insights” e críticas são válidos até hoje. Sem  dúvida, os problemas encontrados no Sistema Organizado que Goodman tanto  criticou se avolumaram e se tornaram cada vez mais agressivos. Os problemas  apontados pelo modelo político da sociedade americana e seu desdobramento na  educação acabaram se tornando marca não só dos Estados Unidos, mas de toda a  sociedade ocidental. A opressão silenciosa e a desesperança social vivida pelas  pessoas têm se agravado cada vez mais nas últimas décadas, inclusive aqui no  Brasil.

Provavelmente Goodman sabia que, enquanto escrevia sobre os problemas  americanos, o Brasil atravessava uma ditadura militar. Jorge Mautner, durante seu  exílio nos Estados Unidos, acabara tornando-se amigo pessoal de Paul Goodman e  o considera uma grande influência em sua formação intelectual (COHN, 2007). O  que talvez Goodman não imaginasse é que as décadas que sucederam o fim da  ditadura militar levaram o Brasil a se deparar com todos os problemas do centralismo: a apatia política dos jovens, uma educação que impede o potencial  criativo e o clima de uma repressão silenciosa que, em troca da segurança  burocrática, inibe toda forma de sentimento comunitário.  

Por isso é que ressaltamos a importância de se ler Paul Goodman no Brasil,  entendo-o como um autor que pode nos ajudar a ampliar nossa compreensão social  e tentar repensar novas propostas práticas de transformação política e educacional.  No que tange ao campo da Gestalt-terapia, Goodman nos possibilita ampliar a  leitura ética do pensamento gestáltico, sendo um autor que procura claramente  compreender os efeitos das estratégias coercitivas na vida humana em sua relação  com as instituições. Por mais que a Gestalt-terapia tenha nascido como uma forma  de se pensar a clínica psicoterapêutica, a participação de Goodman desde os  primórdios de fundação da abordagem a torna uma leitura crítica profunda aos  desdobramentos políticos e sociais que o campo interpessoal tem tomado. Mais do  que uma coletânea de estratégias dogmáticas de resolução dos problemas  humanos, Goodman nos possibilita uma leitura crítica e profunda dos  desdobramentos contemporâneos do ocidente. Por isso, mais do que uma leitura  moral específica a ser cumprida em um modelo de psicoterapia, ou em um modelo  político ou em um modelo pedagógico, Goodman pode contribuir à reflexão  gestáltica com uma leitura ética enquanto modo de pensar nossa relação com o  Outro: mais do que uma estratégia de solução de problemas, a leitura que Goodman  empresta à Gestalt-terapia é um modo único de problematizar as relações humanas  sem querer apresentar respostas fáceis a serem seguidas, mas apontando os  efeitos corrosivos em nossa natureza das formas coercitivas institucionais a que nos  submetemos.

Por esse motivo, ressaltamos a importância de Goodman como uma peça chave  para uma ampliação da Gestalt-terapia, em que, mais do que integrarmos novos  autores e novas perspectivas epistemológicas, retornar à Goodman é retornar à  orientação inicial de nossa abordagem, e que, talvez, seja lá onde podemos  encontrar formas muito originais e ainda desconhecidas em solo brasileiro sobre  como podemos entender as vicissitudes da vida humana.  

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NOTAS

Marcus Cézar de Borba Belmino: Psicólogo, Mestre em Psicologia pela UNIFOR - Universidade de Fortaleza, CE. Doutor em Filosofia pela UFSC - Universidade  Federal de Santa Catarina. Formação em Gestalt-Terapia pelo IGC - Instituto Gestalt  do Ceará. Professor convidado em cursos de formação e especialização em Gestalt Terapia no Brasil. Autor do livro “Fritz Perls e Paul Goodman: Duas Faces da Gestalt  Terapia” e organizador do livro “Gestalt-Terapia e Atenção Psicossocial”.

Endereço para correspondência

Marcus Cézar de Borba Belmino

E-mail: marcuscezar@gmail.com

Recebido em: 24/10/2016

Aprovado em: 20/12/2016

Revista IGT na Rede, v. 13, nº 25, 2016, p.234-252 DOI 10.5281/zenodo.15054415

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526