ARTIGO

Um Olhar para o Campo como Lugar Fértil para a Presentificação  do Fenômeno: Relato de minha experiência com grupo terapêutico

A Look at the Field as a Fertile Place for Presentiment of the Phenomenon:  Report of my experience with a therapeutic group

Roberta Sant’Anna dos Prazeres Freixo da Silva

RESUMO  

O presente artigo trata do trabalho de grupo realizado durante o curso de  especialização em atendimento clínico, na abordagem da Gestalt-terapia, do IGT - Instituto de Gestalt-Terapia e Atendimento Familiar. Neste trabalho, foram expostos  pontos que se mostraram muito presentes durante este atendimento como:  dificuldades encontradas durante este processo grupal, no qual se fez importante  atentar para a presentificação do fenômeno no campo, na realização de terapia de  grupo e não terapia individual em grupo.  

Palavras-chave: Grupo Terapêutico; Gestalt-Terapia; Condução de terapia de  grupo; Campo; Fenômeno.

ABSTRACT

This article deals with the group work in partnership with a co-therapist during the  course of specialization in clinical care , the approach of Gestalt therapy, IGT - Institute of Gestalt Therapy and Family Service . In this work , we were exposed  points that were very present during this call as: difficulties encountered in this group  process , which became important to pay attention to the presentification  phenomenon in the field, conducting group therapy and no single therapy group . Research methodology and how it is divided . 

Keywords: Therapeutic Group; Gestalt therapy; group therapy driving; Field;  Phenomenon.

INTRODUÇÃO

O presente artigo apresenta a minha1 atuação enquanto aluna do curso de  especialização em Psicologia Clínica - Gestalt-Terapia (Indivíduo, Grupo e Família2) do IGT - Instituto de Gestalt-Terapia e Atendimento Familiar3, no qual pude viver a  experiência de ser uma das psicólogas responsáveis pela condução de um grupo psicoterapêutico por aproximadamente um ano e dois meses. Esta vivência foi um  grande aprendizado uma vez que, durante minha graduação em psicologia, o  trabalho com grupos não foi tão enfatizado. Terminei a graduação com pouca  informação sobre esta modalidade de atendimento. Este contexto contribuiu para  uma visão distorcida de minha parte, em relação ao trabalho psicoterapêutico de  grupo conforme mencionarei mais à frente. Antes de trazer aqui minha experiência  com o grupo, considerei importante pontuar de modo breve alguns conceitos  abordados neste artigo, para que o leitor possa ter melhor compreensão dos  mesmos.

O primeiro deles é o conceito de campo, muito utilizado entre os Gestalt-terapeutas.  Este conceito é originado da física e se ajusta muito bem à proposta da Gestalt terapia. Denomino de “local abstrato”, onde as relações se dão de modo sistemático,  de forma interativa e contínua no tempo e espaço e que influencia os fenômenos  que ocorrem dentro dele. Desta forma, faz sentido colocar que o indivíduo é  influenciado e definido a partir da sua relação com esse campo, bem como o campo  só pode ser explicado considerando a troca de experiência entre as pessoas. Para  Yontef (1998, p.173) é uma “Totalidade de forças mutuamente influenciáveis que em  conjunto, formam uma fatalidade interativa unificada”. Onde a energia e os modos  de ser de cada membro do grupo, tocam-se e cruzam-se, gerando respostas  diversas de cada um, a seu modo, da maneira que aprenderam a lidar e a responder  diante do que acontece no meio.

“Neste local, tudo está presente, objetos e organismos, por isso essa  

interação citada acima, sofre influências de todos os lados. Tanto da pessoa  

para o campo, como o inverso também, pois não existe campo  

independente do indivíduo, assim como não existe indivíduo fora do  

campo”. (YONTEF, 1998, p.173)

De acordo com Yontef (1998, p.173), é no campo que os fenômenos se manifestam  e esse campo, pode variar em tamanho, podendo ser físico, tocável ou não. As  forças presentes nele são percebidas através dos nossos sentidos, dependendo do  observador. Em gestalt-terapia, ao trabalharmos com pessoas, passamos a observá las em seus campos organismo/meio, podendo ser este segundo, o ambiente  escolar, profissional, grupo de treinamento, familiar, relação entre casal, pais e  filhos, dentre vários outros ambientes em que o Ser Humano está presente.  

 1 Por se tratar de um relato da minha experiência, considerei coerente escrever este artigo em forma  de narrativa, utilizando-me dos verbos em primeira pessoa.

2 Ao longo deste artigo utilizarei apenas o termo curso de especialização para referir-me a este curso. 3 A partir deste ponto, e ao longo de todo o artigo, será usada apenas a sigla IGT para fazer referência  a este instituto.

O outro conceito importante de ser abordado é o de psicoterapia de grupo, em que  são utilizadas técnicas psicoterápicas em grupo de pessoas, com a atuação de um  ou mais psicólogos, os quais chamamos de Co-terapeutas4. Durante este processo,  a interação ocorre de pessoa para pessoa, incluindo nessa teia relacional o  profissional de psicologia. Já na psicoterapia individual, a relação se dá de forma  direta, entre psicoterapeuta e cliente, não havendo, portanto, a presença de outras  pessoas nos atendimentos, embora saibamos que outras pessoas do convívio do  cliente podem influenciar, mesmo não estando presencialmente nas consultas.

“Na terapia de grupo, entretanto, tanto as interações paciente-paciente  

quanto as interações paciente terapeuta são usadas, à medida em que  

ocorrem no setting do grupo, para efetuar mudanças no comportamento mal  

adaptado de um dos membros do grupo. Em outras palavras, o próprio  

grupo, bem como a aplicação de técnicas e intervenções específicas pelo  

terapeuta treinado, servem como um instrumento para a mudança. Esta  

característica dá à psicoterapia de grupo seu potencial singular”.  

(VINOGRADOV, 1992, p.3)

Os grupos são organizados com finalidades distintas, podendo ser abertos ou  fechados, considerando que o primeiro permite a entrada de novos membros e o  segundo não. Estes podem estar voltados para um tema específico, como por  exemplo, grupos de “Pessoas com Síndrome do Pânico”, ou de “Gestantes”, dentre  outros. Também ocorrem grupos sem temas específicos, os quais costumam ser  organizados de acordo com horários disponíveis, ou dias da semana, como ocorre  comumente na CS-IGT - Clínica social do IGT5. Durante as sessões de grupos,  conforme relatado no desenvolvimento deste artigo, as relações são trabalhadas  através das situações que emergem dentro do espaço do grupo terapêutico.  

“O grupo é como uma rede, como uma teia de aranha, onde cada elemento  

funciona como um ponto nodal independente, mas psicodinamicamente  

interligado, agindo como um subsistema, onde cada um afeta o outro e é  

afetado pelo conjunto, criando uma matriz operacional”. (RIBEIRO, 1994,  

p.35)

A atuação do psicólogo na terapia de grupo é justamente atentar ao que acontece e  como acontecem essas experiências durante as consultas entre seus membros. A  maneira como cada um vive e lida com o que emerge dessa relação grupal, pode  retratar características de cada indivíduo. Quando o psicólogo traz para esse espaço  terapêutico essas formas de responder ou lidar de seus clientes, ele favorece aos  mesmos que percebam os padrões que costumam repetir em suas vidas.

“No grupo terapêutico, as pessoas podem experienciar o verdadeiro sentido  

da existência à procura de sua essência. Ali se vêem e se sentem a dor, a  

angústia, a raiva, o amor, a alegria, o medo, a tristeza, todos os sentimentos  

humanos à procura de sua inteligibilidade, de sua lógica interna, ao mesmo  

tempo em que nos deparamos, como viandantes diante da esfinge,  

impotentes entre o que é do coração e o que é da cabeça. Ali também  

 4 Co-terapeutas é a denominação utilizada para a parceria formada quando dois ou mais psicólogos  coordenam juntos um atendimento psicológico.

5 Ao longo de todo o artigo utilizarei a sigla CS-IGT para me referir à clínica social do IGT

aprendemos como diante da esfinge, mil lições, resumidas em uma só: O  

Ser Humano é ser de infinitas possibilidades”. (RIBEIRO,1994, p.10)  

Por último, contextualizo a noção de psicoterapia individual em grupo, a qual refere se à atenção dada pelo psicólogo às questões pessoais de cada cliente do grupo  terapêutico de modo independente. Ou seja, sem que tal questão seja trabalhada  junto com os demais membros do grupo. Como se durante a sessão terapêutica, fosse dado um tempo específico para que cada cliente trouxesse seu tema para ser trabalhado de forma individual, enquanto os demais membros do grupo se limitavam  a observar. É como se o olhar do psicólogo estivesse voltado para cada participante  individualmente, sem um olhar mais atento para as relações presentes no grupo.  

Justificativa

Posso afirmar que ao iniciar minha especialização em psicologia clínica, na  abordagem gestáltica, não fazia ideia e não possuía o menor interesse por trabalhar  com grupos. Até que, para minha surpresa, a partir do momento em que comecei a  atuação e o estudo da teoria que embasava esta modalidade de atendimento pude perceber-me curiosa, altamente motivada e instigada por entender como acontecia  esse processo de psicoterapia de grupo.

Nesse início, ao mesmo tempo em que achava tudo muito difícil, aos poucos dei-me conta daquilo que acontecia nas relações do grupo, durante as sessões. Na medida  em que estudava e vivia as experiências durante as consultas, sentia-me cada vez  mais atraída pela forma como as relações aconteciam. Comecei a identificar, com  cada vez mais clareza, que as questões dos clientes não resolvidas, ficavam  cristalizadas, abertas, repetindo-se em vários momentos e de formas diferentes, na vida dessas pessoas. Inclusive dentro do grupo, esses aspectos cristalizados,  manifestavam-se nas relações vividas ali na psicoterapia.

Durante esta experiência, deparei-me com uma grande tendência que o psicólogo iniciante tem de trabalhar as questões individuais dos membros no grupo, sem estar  atento à matriz grupal, ou seja, sem considerar a forma de funcionamento do grupo,  sua configuração. Diante disso, posso destacar que o ponto no qual mais encontrei  dificuldade, e que me manteve alerta durante todo o processo com esse grupo, foi o  cuidado para não realizar terapia individual em grupo.  

Destaco que essa dificuldade encontrada durante os atendimentos, relacionava-se  ao fato de que cada cliente trazia suas questões de modo individual, dentro do  grupo, por acreditarem que o psicólogo teria todas as respostas para cada um, e por  isso, vislumbravam obter esse retorno individual. Buscando um olhar só para si,  como se pudessem ser vistos de fora do campo do grupo. Essa percepção dos  clientes, de certo modo, também fazia sentido para mim, logo no início dos atendimentos, pois eu tinha uma visão muito definida do que era atendimento  individual e não tinha ainda clareza sobre o atendimento com grupo. Com o tempo,  fui me apoderando e percebendo que o que era trabalhado no grupo, era a forma dos membros de se relacionarem e de como iam construindo seus sintomas dentro  daquela realidade que estavam inseridos.

Ao deparar-me com a exigência de produzir um artigo de final de curso, precisei  eleger um tema, e recordei-me das dificuldades encontradas por mim durante o  processo de desenvolvimento dos atendimentos de grupo. Considerei a  oportunidade de estudar sobre a minha experiência e de compartilhar com outros  colegas minhas reflexões. Neste caminho verifiquei que existe muito pouco material bibliográfico que trate diretamente sobre a diferença entre terapia de grupo e terapia  individual em grupo.

Por isso, trazer aqui essa relação psicólogo/cliente no atendimento de grupo,  relatada neste trabalho, trata de buscar apresentar aspectos importantes em relação  ao trabalho de terapia de grupo, como forma de compartilhar minha experiência para  meio acadêmico.

De acordo com o pensamento de Jorge Ponciano Ribeiro:

“No grupo, cada um de seus membros tem a oportunidade rara de ver o  

mundo e a si mesmo com os olhos dos outros, de se ouvir com os ouvidos  

dos outros, de se tocar com as mãos do outro, de se amar com o coração  

do outro, de se descobrir imensamente limitado e potencialmente divino,  

sagrado, mulher, homem, de carne e osso”. (RIBEIRO, 1994, p.11)

É importante considerar também, que possuir conhecimento do trabalho com  grupos, dentro da abordagem gestáltica, favorece ao atendimento psicoterápico de  um público maior de pessoas. Esta forma de atendimento me parece eficaz,  tratando-se por exemplo, do serviço público de saúde, onde a demanda por  atendimento de pessoas com baixo poder aquisitivo é muito grande em relação ao  número de profissionais disponíveis para realizar estes atendimentos.

Quando trago aqui neste trabalho, um olhar atento para o que acontece no campo,  para o fenômeno, favoreço também que o psicólogo ou estudante de psicologia, possam dar-se conta do que é o trabalho terapêutico com grupos, dentro da  abordagem gestáltica. Esse artigo pode ser importante para ajudar o psicólogo que  irá trabalhar com grupos a ter uma atuação mais consciente desse processo, no  sentido de estar atento para cuidar da relação entre seus membros e da relação  entre o psicólogo e estes participantes.

Objetivo

Diante do que foi citado, meu objetivo é levar o leitor a uma reflexão com foco para  um dos maiores desafios que tive nessa prática, que foi olhar para os membros do  grupo não apenas individualmente e sim a partir das relações estabelecidas no  “setting” terapêutico. Para a forma como atuam no grupo, para como o grupo se  movimenta, procurando dar maior atenção em como as coisas de fato acontecem e  não apenas para o que cada um traz em termos de conteúdo verbal para as  consultas.

Perls ilustra com exatidão esse ponto de vista.

“[...] tudo que o paciente faz, óbvio ou oculto, é uma expressão de si  

mesmo. Sua inclinação para frente, e seu rechaço, seus protestos abortivos,  

sua inquietação, seus enunciados sutis, suas hesitações entre duas  

palavras por fração de segundos, sua caligrafia, seu uso de metáfora e  

linguagem”. (PERLS, 1973, p.88)

Metodologia

Como norte para realização deste trabalho, utilizei-me da abordagem gestáltica, com  a realização de um breve levantamento bibliográfico nos indexadores: Scielo,  BVSPS e Pepsic, utilizando as palavras-chave grupo terapêutico, gestalt-terapia, condução de terapia de grupo, campo e fenômeno.

Também fiz leituras dos trabalhos de conclusão de curso da linha de pesquisa de  atendimento de grupo já apresentados, do curso de especialização, bem como a  releitura dos textos trabalhados durante a minha especialização neste mesmo  Instituto. Por fim, fiz uso inclusive dos meus relatórios de atendimento de grupo, com  observações apontadas das supervisões realizadas durante este período de  atendimento, que serviram de registro de um olhar referente àquele momento em  que estava realizando os atendimentos.  

Este artigo está dividido em três seções. Na primeira seção relatei minha  experiência de atendimento de um grupo terapêutico, pontuando questões centrais  relacionadas ao risco do psicólogo manter um olhar apenas individual em relação  aos clientes que estão sendo atendidos na modalidade de psicoterapia de grupo. Na  segunda seção trouxe à discussão terapia de grupo: uma linha tênue para terapia  individual no grupo. Para concluir teci minhas considerações finais sobre a  importância de estar atenta ao movimento, ao fenômeno do grupo, à forma como  este mesmo grupo estabelecia os contatos, incluindo aí a postura dos psicólogos.

RELATO DE EXPERIÊNCIA

Relato aqui pontos que considero relevantes sobre o que vivi no atendimento de  grupo, no qual atuei em parceria com a psicóloga Edna de O. Santos, através de  atendimento realizado na CS-IGT – entre 2014 e 2015. Esta clínica encontra-se  localizada no Bairro da Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. A Clínica Social do  

IGT, recebe pessoas de várias regiões da Cidade, que não possuem condições  financeiras para custear sessões de psicoterapia em consultório particular. Para  serem atendidas, as pessoas pagam um valor que seja viável para seu orçamento  familiar, optando inclusive por realizar pagamentos por sessão ou mensalmente. A  Clínica realiza os atendimentos de grupos, tendo como quantidade máxima de  participantes em cada grupo de 6 pessoas. Estes clientes são atendidos por  psicólogos formados, alunos do curso de especialização em psicologia clínica, na  abordagem gestáltica.

Durante esse período de atendimento de aproximadamente um ano e dois meses,  fui conseguindo ter clareza do que significava esse tipo de trabalho com grupos, dos meus atravessamentos, enquanto profissional inexperiente nesta área, dando-me  conta de como a teoria aprendida neste curso, se aplicava ali na prática. De como  cada membro do grupo investia energia, diante das várias situações que iam sendo  colocadas no campo, de como relacionavam e lidavam com as experiências do aqui  e agora. A expressão aqui e agora é muito utilizada por nós, psicólogos Gestalt terapeutas, referindo-se ao fenômeno que acontece no espaço aqui e no tempo  agora. Está relacionado a concentrar-se na experiência que se vive no momento.  Assim como Perls afirma.

“A terapia gestáltica é, então, uma terapia “aqui e agora”, em que pedimos  

ao paciente durante a sessão para voltar toda a sua atenção ao que está  

fazendo no momento, no decorrer da sessão.

[...] Pedimos ao paciente para não falar sobre seus traumas e problemas da  

área remota do passado e da memória, mas para reexperienciar seus  

traumas – que são situações inacabadas no presente – no aqui e agora”.  

(PERLS, 1973, p.76)

Pude verificar também, que o psicólogo afeta e é afetado enquanto está na relação  com o cliente, já que suas histórias se cruzam e tocam a cada um, de modos  diferentes. Ele está presente no grupo como mais um membro, que também tem um  papel de mediador. Diante disso, precisei me enxergar no grupo e de fora do grupo,  algumas vezes ao lado de algum membro específico ou ao lado do grupo, como  forma de exercitar a consciência do meu lugar, do meu papel como psicóloga dentro  dele.  

O grupo que começamos a atender, funcionava sempre no mesmo dia da semana,  com uma hora e meia de duração, cada atendimento e, iniciou com apenas dois  membros. Durante o período de um ano, este grupo ficou aberto para o recebimento  de novos membros, com limite máximo de seis participantes. Embora pudéssemos  ter pessoas ingressando a qualquer momento no grupo, este era um dos temas  tratados com os membros, sempre antes da entrada de outra pessoa.

Nosso grupo funcionou com apenas duas pessoas, tendo permanecido nesta  configuração por aproximadamente dois meses. Por conta de ainda não estarmos  com o grupo completo, via-nos muito preocupadas com o preenchimento de uma  hora e trinta minutos de atividades com apenas estas duas pessoas.

No primeiro encontro, fizemos uma programação de realizarmos a apresentação dos  membros do grupo e uma dinâmica para trabalharmos o contrato do mesmo. Neste  momento, foram trazidos pontos importantes para que todos pudessem ter clareza e  se responsabilizar pelas escolhas daquele momento em diante. No contrato, foram tratadas questões relacionadas aos honorários, sigilo, horário de funcionamento,  entrada e saída de membros e assiduidade dos mesmos. Silveira, cita a importância  do contrato no processo Psicoterapêutico, como segue:

“Considero aquilo que chamamos de contrato terapêutico como muito  importante para o desenrolar do processo. O maior índice de desistência na psicoterapia é devido a mal-entendidos no contrato. Penso, então, no papel do terapeuta, no sentido de passar as informações de forma clara para que o cliente saiba o que ele nessa relação pode receber, com o que ele pode contar, até onde pode ir e decidir se aceita ou não as condições. Se por um lado quem estabelece as regras do contrato é o terapeuta, cabe ao cliente manifestar a sua opinião. Essa é mais uma oportunidade de verificar como o cliente se relaciona com as propostas do terapeuta”. (SILVEIRA, 1997, p.13).

Já neste momento, podíamos trabalhar a forma como os clientes lidavam com as  regras colocadas no contrato e o mais interessante é que embora estivéssemos  atentas a isso, no exato momento em que trouxe esse relato, pude perceber que eu  não tinha total clareza do quanto era importante observar a forma como o grupo se  comprometia com as regras do contrato. Provavelmente eu, naquela época, não  houvesse me apoderado da proposta, no sentido de ser uma experiência nova, o  trabalho com grupo e com a própria abordagem. Talvez não estivesse ainda  conseguindo articular a teoria aprendida com esta vivência prática.

Ao reler nosso primeiro relatório6, pude verificar que ao expor o que vivemos no  primeiro dia, fomos relatando nossas primeiras impressões acerca dos componentes  do grupo individualmente, suas histórias pessoais. Pouco falamos sobre as relações  estabelecidas entre os membros do grupo. Ao reler esses escritos, notei que na  verdade não tínhamos clareza da necessidade de devolver para o grupo o que era  vivido e favorecer a interação entre os membros. Tendíamos a focar a relação  apenas psicólogo/cliente e muito pouco as relações entre os membros de uma  maneira mais ampla. Como se fosse um olhar para cada um de cada vez. Nos  relatórios haviam algumas pontuações sobre o que era percebido de cada cliente,  porém isso não era valorizado ou compartilhado com os membros do grupo. Muitas  vezes apenas nas supervisões isso era lembrado e relatado oralmente por nós.

Uma das coisas mais marcantes para mim, foi perceber a importância de um olhar  mais atento à situação externalizada pelo cliente. Situação esta a qual chamamos de  fenômeno, que manifestava-se através de um tom de voz, ou uma expressão facial,  uma resposta verbal ou não verbal, como reação ao que acontecia naquele exato  momento, na sessão. Essas externalizações por parte do cliente, muitas vezes eram  pouco valorizadas por mim. As percebia de forma muito superficial, ou  aparentemente sem importância, a ponto de eu, como psicoterapeuta, ter  dificuldades, em alguns momentos de fazer conexão com algum significado para  aquele momento no grupo, de checar com eles como aquela situação os tocava.  Talvez por achar irrelevante ou até mesmo por não ter percebido, em função desta  superficialidade. Esta questão me remete ao pensamento de Frederick Perls (1973,  p.88) “Enquanto tomamos algo como garantido e o rejeitamos como óbvio, não  temos a menor inclinação para promover uma mudança, nem temos instrumentos  com que fazê-la”.

As intervenções nesse início, pareciam tentativas de se trabalhar o fenômeno, pois  notei que possuía um olhar para o que emergia no grupo, porém como iniciante,  conseguia apenas pontuar falas de alguns membros do grupo e não para o grupo  como um todo. Estas falas pareciam óbvias, porém não focava nisso, no sentido de  fazê-los ampliar a percepção e irem se apoderando do que viviam nas relações que  estavam estabelecendo. Sendo assim, o que era percebido como pouco importante

para mim, acabava não sendo trabalhado de forma mais ampla. Posso dar um breve  exemplo aqui a partir da leitura de um relatório: “Paciente passou fragilidade” (relato).

 6 Os relatórios de grupo eram realizados pelos psicólogos, a cada semana de atendimento, onde eram  apontadas as nossas percepções acerca de ação planejada para o dia de atendimento, elementos  observados na dinâmica de grupo e de cada membro individualmente, mobilização interna dos  psicólogos, intervenções realizadas e avaliação do encontro.

Nesta afirmação, poderia ter trabalhado no grupo sobre esta minha  percepção, fazendo a seguinte colocação: Estou te vendo com uma expressão  diferente, tom de voz trêmulo nesse momento, ao falarmos desse assunto. Como se  sente agora? Como é sentir-se assim? Voltar-me para o grupo e trabalhar: Vocês  percebem o que eu destaquei? Como é vê-lo assim? Como vocês se sentem? O que  isso diz de vocês, entre outras possibilidades de intervenção.

É importante o psicólogo trazer para o campo o que é percebido dessa relação, que  muitas vezes aparece como sem importância, para ir trabalhando no grupo o  processo de dar-se conta, do que se vive ali, naquele momento. O olhar para si  mesmo, olhar para o outro, se ver no olhar do outro e permitir que o outro se veja  através do seu olhar. Esses fenômenos vão ocorrendo, nesse campo que é o  “setting” terapêutico, em que as relações cruzam-se e afetam-se, podendo a partir  disso, ir se transformando.

Era muito presente nesse início também, ainda no segundo mês de atendimento,  estarmos atentas ao conteúdo verbal que cada membro do grupo trazia de forma  individual, ou seja, direcionarmos nosso olhar para o que diziam, sem atentarmos  para o como esses conteúdos eram trazidos, o como afetavam e eram afetados pelo  

grupo. Acredito ser esse um dos aspectos que nos levava a realizar o atendimento  individual em grupo. Parece-me que esta forma de olhar o grupo, com a percepção  para cada cliente de forma separada, seguindo um modelo de psicoterapia  individual, levava-nos a focarmos nessas questões pessoais e a não fazermos  correlação com sua forma de lidar no campo, com os demais membros. Outro  grande problema de estarmos voltados somente para o conteúdo verbal, é que em  nossas intervenções faziam-se presentes de forma marcante perguntas com “por  quê?” Esse tipo de pergunta acaba sendo superficial e não leva o paciente à reflexão. Para Frederick Perls (1973, p.89): “As perguntas com “por quê”? só  produzem respostas no passado, defesas, racionalizações, desculpas e a ilusão de  que um evento pode ser explicado por uma causa única”.  

Na medida em que os membros traziam temas de sua vida fora do grupo e  ficávamos voltadas para esses relatos orais, sem observar o que era experimentado  no grupo a partir de ouvir cada tema, o foco de trabalho ficava em discutir ações e  dificuldades do cliente em sua vida fora da relação no grupo. Isso dava margem a  intervenções mais racionais e menos relacionais.  

Diante disso, ressalto que ouvir o que o cliente diz, vai para além do conteúdo em si  de seu discurso, mas nos leva a compreender o que está presente nele, bem como  a forma como conta, olhando para o tom de voz, expressão facial e corporal.  Observar se existem incoerências em relação ao que é dito e ao que é manifesto no  aqui e agora, também são exemplos de como não focar somente no material do que  é trazido apenas verbalmente. Se dermos atenção simplesmente ao que é dito, deixamos de olhar para o como é dito, ao quanto é dito, para quem é dito, ao como o  cliente se sente naquele momento em que está diante de nós, trazendo seu tema. Quando trazemos esse fenômeno, no sentido de tornar claro para os membros do  grupo, acerca do que se vive, do quanto isso reverbera para cada um, do quanto  isso dá cor e sentido para o grupo em si, estamos fazendo terapia de grupo.

Retomando a linha do tempo do grupo apresentado, após três meses, recebemos  mais três membros, completando assim, um grupo com cinco componentes. Posso  salientar, que este momento foi bastante instigante e mobilizador, pelo menos da  minha parte, por causa do movimento que estes novos integrantes proporcionaram  para o grupo, em função de suas diferenças, visões de mundo e histórias de vida,  que ali se cruzavam e destacavam-se, tornando figura a diferença em cada um dos  membros.

Foi um momento de impasses, questionamentos, de atritos e me percebi nesse  grupo, buscando cuidar das relações, porém no sentido de apaziguar, de dar  explicações sobre o processo terapêutico. Essa minha postura, acredito que os  tenha levado a refletirem sobre o impacto da chegada dessas novas pessoas, de  como estava sendo difícil lidarem com o novo, com pessoas diferentes num grupo  que já estava formado com uma configuração diferente, em que havia grande  sintonia entre as pessoas que lá já estavam. Desta forma, pude facilitar a ampliação  de seus olhares para o que viviam no aqui e agora. Este acontecimento valida a  importância de se colocar no campo aquilo que é percebido para trabalhar com os  membros. Acredito que este momento tenha sido crucial, para que eu pudesse atuar  de forma mais efetiva, de acordo com a proposta da abordagem. Contudo, hoje  percebo que estava muito presente na minha postura evitar o conflito, no sentido de  que eu não queria que eles ficassem com o incômodo, aspecto esse, o do  incômodo, importante para o processo de dar-se conta. Nesse ponto, acho que eu  poderia estar mais consciente do que eu vivia internamente, para aproveitar melhor  o que estava presente nas relações. Inclusive, durante a revisão dos meus  relatórios, foi possível verificar as dificuldades vividas por mim, em supervisão, para  externar sobre minha mobilização pessoal durante os atendimentos. O que ressalta  a importância do psicoterapeuta estar atento em relação a si, para também estar  inteiro na sessão, utilizando-se de modo oportuno, também como instrumento para o  trabalho.

Algumas questões foram trazidas pelos clientes do grupo, sobre não se perceberem  sendo tratados diretamente em relação às suas demandas específicas. E neste  momento, também foi necessário explicar que não necessariamente de uma forma  direta, mas estavam sendo trabalhados sim, a partir do momento em que suas  formas de atuação no mundo se refletiam nas relações vivenciadas ali e que  provavelmente estariam relacionadas com suas queixas. A citação abaixo de  Vinogradov e Yalom, ilustra perfeitamente essa ideia.

“Nos ‘settings’ de grupo, os pacientes têm à sua disposição um leque  

imenso de relacionamentos; devem interagir uns com os outros, com os  

líderes dos grupos, com pessoas de diferentes bagagens de vida, com  

membros do mesmo sexo e com membros do sexo oposto. Os membros  

devem aprender a lidar com suas simpatias, antipatias, similaridades,

diferenças, inveja, timidez, agressão, medo, atração, competitividade. Tudo  

isto ocorre sob o escrutínio do grupo onde, com uma cuidadosa liderança  

terapêutica, os membros dão e recebem feedbacks acerca do significado e  

efeito de suas várias interações uns com os outros. Desta forma, o próprio  

‘setting’ de grupo torna-se um instrumento terapêutico bastante específico”.  

(VINOGRADOV; YALOM, 1992, p.13-14)

O término do grupo ocorreu algumas semanas antes de concluirmos o curso de  especialização no IGT. Este grupo foi encerrado com três membros, pois tivemos a  saída de três pessoas do grupo no decorrer do processo, por questões pessoais.  Destas três pessoas, duas deram continuidade no processo psicoterápico, com  outras novas psicólogas, também alunas do curso de especialização. O terceiro  membro do grupo, decidiu não continuar por indisponibilidade de horário.

TERAPIA DE GRUPO: UMA LINHA TÊNUE PARA TERAPIA INDIVIDUAL NO  GRUPO

Durante a minha primeira experiência com atendimento de grupo, mais  precisamente nos primeiros atendimentos, via-me querendo entender o processo de  cada membro individualmente. Por isso, ficava muito atenta em cada história de  cada membro e consequentemente com dificuldades em perceber o movimento do  grupo em si. Por várias vezes questionei-me: Como poderei ajudar as pessoas que  aqui estão, se eu preciso dar atenção a todos ao mesmo tempo?  

Aos poucos fui percebendo que as relações que aconteciam durante o processo  terapêutico não eram apenas intrapessoais, mas também interpessoais. Cada  membro vivenciava a experiência a seu modo, de acordo com a sua matriz, lidando com as questões que iam surgindo do outro, dentro do espaço terapêutico. Cada  gesto, cada olhar, a cada silenciar-se, reverberava de um modo diferente em cada  um, dando movimento, trazendo novas configurações para o grupo, ou seja,  tornando figura o que no momento anterior mostrava-se como fundo e vice-versa.

Acredito que um grande perigo para o psicólogo iniciante é estar focado apenas ao  que cada membro traz. Em preocupar-se a dar as respostas para o problema de  cada cliente do grupo, colocando-se no lugar de detentor do saber. Ou ainda buscar  trabalhar o tema trazido pelo cliente como se os demais participantes não  estivessem presentes. Esquecer da importância do como e quando cada tema é  trazido por cada um e do quanto estes podem refletir nos demais. É muito comum a  ideia de que a dor é privativa e que pode ser ouvida fora de um contexto mais  amplo. Para buscar sair deste caminho limitador é interessante que o coordenador busque manter a curiosidade e o olhar mais aberto para o contexto em que cada  tema surge durante as consultas de terapia de grupo. Uma possibilidade é devolver  os temas trazidos para este mesmo grupo, a fim de que tomem consciência de como  tal questão é sentida nesse coletivo e de como reagem diante dessas situações,  para que assim possam ir se apropriando de si mesmos. Desta forma, o psicoterapeuta sai de uma posição superior, favorecendo a relação dialógica7, que  deve estar presente no trabalho do Gestalt-terapeuta. Neste contexto o psicólogo  sai do lugar de que somente ele pode contribuir para o desenvolvimento de seu  cliente e amplia as possibilidades de troca dentro do grupo. Para Quadros (2011,  p.64), “Necessitamos reaprender, nesta atuação como terapeutas a experienciar o  coletivo despojando-nos da vaidade e ficando mais confortáveis no lugar do não  saber”.

Além disso, eu e minha Co-terapeuta, cada uma com suas histórias e percepções,  tocamos e fomos sendo tocadas ao longo dos atendimentos. Na medida em que os  temas eram trazidos, de acordo com a forma com que cada um reagia a uma fala,  ou um gesto e até mesmo ao silêncio íamos nos atualizando, ampliando nossa  percepção sobre nós mesmas e sobre os membros do grupo. Assim, nessa teia  relacional, as formas de nos colocarmos ou de reagirmos, iam influenciando as  relações, dando aos poucos uma forma, uma cor para a maneira de funcionar do  grupo. Nós também fazíamos parte do grupo.

O psicólogo precisa estar muito presente, no aqui e agora, dando-se conta além do  que acontece no grupo, mas também de si mesmo, das suas emoções, sentimentos,  pensamentos, diante do que é vivido no processo. Estar atento ao processo de  “awareness8”, para que possa aproveitar de modo mais produtivo os fenômenos que  ocorrem no “setting”. Quando me refiro ao bom aproveitamento dos fenômenos,  quero trazer a importância de se estar consciente do que ocorre no aqui e agora, ao  que é dito, como é dito. Olhar para expressões e gestos de cada membro do grupo e  ao mesmo tempo, como psicoterapeuta, perceber o que é vivido internamente diante  desses fenômenos.

A partir do momento em que passei a olhar para a forma como cada membro  posicionava-se diante das várias situações vividas, e como suas respostas  reverberavam no grupo, pude aos poucos ir me apoderando de como fazer terapia  de grupo. Assim, fui conseguindo obter melhor aproveitamento das intervenções e  facilitando o processo de dar-se conta dos clientes para além do enfoque individual  de cada um. Fiquei mais voltada para o processo no grupo e não para o olhar em  partes.

Embora pareça fácil, quando se diz da necessidade de estar atento ao que se vive internamente durante os atendimentos, na verdade não é. Muitos fatores  atravessavam meus pensamentos durante as consultas. Nesses momentos em que vivia um certo distanciamento momentâneo, ao perceber-me distante, retomava meu  olhar atento ao grupo, conseguindo observar o que estava acontecendo no campo e  assim, captava aspectos importantes do que era trazido pelo grupo. Tornava-me  capaz de dar as devolutivas por meio do que era percebido, através de intervenções clarificadoras de processo. Isso tendia a me aproximar mais ainda do campo.

Quando me refiro à linha tênue considerando as duas modalidades terapêuticas,  individual e grupal, trago justamente um lugar que permeia com grande facilidade o  trabalho entre uma e outra forma de atuação do psicólogo, a terapia individual,  porém estando dentro de um propósito de terapia de grupo. Essa facilidade de  penetração da terapia individual no trabalho com grupos, constituiu-se para mim  num grande desafio, conforme trouxe neste artigo. Esse era um exercício constante  em minha prática, pois em alguns momentos, mesmo estando atenta a importância  de uma postura e olhar de campo, me via tentada a assumir um olhar mais  individual.

A partir do momento em que me conscientizei e foquei no movimento de olhar para o  campo como sendo o lugar onde os fenômenos ocorrem, de onde se extrai o que emerge dessa relação e se devolve para o grupo, pude favorecer o processo de  “awareness” tanto para o cliente em relação a seus processos pessoais, quanto em  relação ao meu trabalho e a minha habilidade de fazer contato com o outro. Posso  dizer que para mim, esta é a oportunidade genuína de atuação do Gestalt-terapeuta  no grupo, no sentido de que a partir desse momento do encontro entre o fenômeno e  o dar-se conta, tendo o psicoterapeuta como um facilitador desse processo surge  uma oportunidade para que as mudanças possam começar a acontecer.

 7 Dentro da abordagem dialógica, o terapeuta é visto como “Steward” do diálogo, ficando a  personalidade do terapeuta à serviço do diálogo com o cliente. O terapeuta nessa relação, tenta  compreender a pessoa como um todo, em suas dimensões intrapsíquica, interpessoal ou transpessoal. 8“Awareness é uma forma de experienciar; é o processo de estar em contato vigilante com o evento  mais importante do campo indivíduo/ambiente, com total apoio sensório motor, emocional, cognitivo e  energético”. (YONTEF, 1998, p.215)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao revisar os relatórios, associado às leituras que realizei, pude tornar-me mais  apoderada da minha atuação enquanto psicóloga, no trabalho com grupos  psicoterápicos. Além disso, consegui ver-me em momentos diferentes, adquirindo  agora melhor percepção do quanto me desenvolvi. E ao dar ênfase sobre a  importância da minha ampliação de consciência sobre uma linha tênue, da terapia  de grupo, para terapia individual no grupo, pude constatar quão rico e intenso é o  caminho que tenho para percorrer. Caminho esse que não tem um ponto de  chegada.

A realização deste artigo, foi para mim, um grande facilitador do meu processo de  “awareness” dessa atuação, pois a cada releitura de textos, a cada revisão dos  nossos relatórios de atendimento, a sensação de “Ah!” se fazia presente dentro mim,  fechando questões que ainda se mostravam latentes e abertas. Embora eu tenha  encontrado dificuldades no decorrer da execução deste artigo, pude amadurecer e  ratificar o conhecimento e a experiência adquiridos.

Hoje, percebo minha atuação em grupo, mais madura em relação a esta primeira  experiência, durante a minha especialização. Venho constatando que estou mais atenta aos fenômenos que ocorrem, procurando fazer vários movimentos de olhar  de fora do grupo e buscar formas de manejo que toquem as pessoas de modo a  darem-se conta do que estão vivendo no aqui e agora. Ainda assim, noto certa  dificuldade de minha parte quando o cliente sente necessidade de trazer questões suas, muito específicas para grupo, necessitando de atenção em seu dilema.  Nesses momentos, busco me conscientizar do que estou vivendo internamente,  procuro observar como as pessoas do grupo estão lidando com as questões que  estão sendo expostas pelo cliente. A partir disso, realizo intervenções que podem  ser direcionadas ao grupo ou ao próprio cliente, dependendo do que estiver presente  como figura no momento.

Outro ponto que considero oportuno destacar ao final deste artigo, é o fato da  importância do psicólogo estar em psicoterapia, pois acredito que este é o ponto central para um trabalho satisfatório. Assim, ele terá um melhor apoderamento de  seus conteúdos internos durante sua atuação psicoterapêutica, buscando maior  consciência de sua ação no grupo, estando sobretudo, mais disponível para utilizar se como ferramenta nesse trabalho. Possuindo consciência de que o que acontece  no campo lhe toca, de como lhe toca, adquirindo maior apropriação na hora de  devolver para o grupo, aquilo que é vivido entre os membros. Estar em vigilância  constante, inclusive para que se dê conta de que em algum momento poderia não  estar presente no grupo.

Diante do que foi dito no início do artigo, sobre a minha descoberta do trabalho com  grupos, do quanto me senti instigada, hoje ao concluir este trabalho, vejo-me ainda  mais motivada a dar continuidade. Tendo como aspecto relevante, a importância do  

trabalho com grupos dentro do cenário de atendimento das redes públicas, em que a  demanda de pessoas necessitando dos serviços de profissionais de saúde mental é  muito grande, em relação ao número de profissionais disponíveis para prestação de atendimentos psicológicos. Além do contexto do serviço público percebo a  importância e riqueza desta modalidade de atendimento como forma de atender de  maneira consistente um número maior de pessoas, através de uma ferramenta  poderosa de intervenção. Deste modo, se faz presente e extremamente válido ter  adquirido essa experiência de realizar psicoterapia em grupo, pois me preparou para  atender esta demanda social, através de uma ferramenta consistente de trabalho  psicológico.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HYCNER, Richard. Relação e Cura em Gestalt Terapia – São Paulo: Summus,  1997.

PERLS, F.S. A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. – 2.ed.  Rio de Janeiro: LTC, 1973.

PERLS, F.S. Gestalt-Terapia Explicada. São Paulo: Summus, 1977.

QUADROS, T.L. A prática clínica individual como desdobramento e  reverberação do coletivo. Revista IGT na Rede, v.8, nº14, p.56-66, 2011.  Disponível em: <http://www.igt.psc.br/ojs>. Acesso em: 21 jan. 2014.

RIBEIRO, J. P. Gestalt-terapia: O Processo Grupal: Uma Abordagem  Fenomenológica da Teoria do Campo e Holística. São Paulo: Summus, 1994,  p.92-98.

THERESE, A. Tellegen. Gestalt e Grupos Uma Perspectiva Sistêmica. São Paulo Summus,1984.

VINOGADOV, S; YALOM, I. D. Psicoterapia de grupo: um manual prático. Sophia  Vinograndov, Irvin D. Yalom. Trad.de Dayse Batista. Porto Alegre: Artes Médicas,  1992.

YONTEF, Gary M. - Processo, Diálogo e Awareness - Tradução Eli Stern. São  Paulo: Summus, 1998.

NOTAS

Roberta Sant’Anna dos Prazeres Freixo da Silva: Graduada pelo Centro Universitário  Celso Lisboa-1999; Especialização em Recursos Humanos e Especialização em Psicologia  Clínica pelo IGT-RJ. (Instituto de Gestalt-Terapia – Indivíduo, Grupo e Família) -2016.

Endereço para correspôndência

Roberta Sant’Anna dos Prazeres Freio da Silva

E-mail: psirobertasp@gmail.com

Recebido em: 20/09/2016

Aprovado em: 27/12/2106

Revista IGT na Rede, v. 13, nº 25, 2016, p.218-233 DOI 10.5281/zenodo.15054412

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526