ARTIGO

Receios e expectativas de clientes e psicólogos acerca da  psicoterapia de grupo

Fears and expectations of cussomers and psychologists about the group  psychotherapy

Priscila Abdias da Silva Bolorini

RESUMO

Este estudo aborda crenças, receios e expectativas gerais demonstrados por  clientes e psicólogos em relação à psicoterapia de grupo. Tais comportamentos e  sentimentos foram observados no contato com clientes (principalmente, durante o  processo de entrevistas de triagem e encaminhamento e primeiras sessões do grupo  terapêutico) e com psicólogos durante os períodos de graduação e pós-graduação  ocorridos entre os anos de 2004 a 2012. A partir das informações obtidas por meio  de consulta bibliográfica e da experiência pessoal como aluna, psicóloga e cliente de  grupo terapêutico, pretende-se contribuir para ampliação da discussão e  compreensão do processo terapêutico em grupo.

Palavra–chave: Psicoterapia de Grupo; Gestalt-Terapia; Receios; Expectativas. ABSTRACT

This study deals with beliefs, fears and general expectations demonstrated by clients  and psychologists regarding group psychotherapy. Such feelings and behaviors were  observed by the contact with customers (mainly during the interview process of  screening and referral and first sessions of group therapy) and with psychologists during periods of undergraduate and postgraduate occurred between the years 2004 to 2012. From the information obtained through bibliographic research and personal  experience as student, psychologist and client of therapy group, we intend to  contribute to expanding the discussion and understanding of the therapeutic group  process.

Key-words: Group Psychotherapy; Gestalt-Therapy; Fears; Expectations.

INTRODUÇÃO

Debruçar sobre este trabalho me fez recordar o período da graduação e pós graduação, relembrando os caminhos que reforçaram o interesse por grupos e como  esse interesse culminou com o encontro com a Gestalt-Terapia1. Esse interesse foi  influenciado por diferentes fatores e acontecimentos externos, além de questões  pessoais, aspectos da minha personalidade, história e cultura.

Minhas primeiras experiências teóricas e práticas como psicoterapeuta iniciaram-se  na graduação, realizada entre os anos de 2004 a 2009 em instituição privada de  ensino, localizada na cidade do Rio de Janeiro. Nessa fase, fui apresentada a algumas abordagens teóricas e às formas de atuação clínica de cada uma no  atendimento de clientes.

Percebi que, em geral, as disciplinas tinham seu foco no processo terapêutico  individual, enquanto que o processo terapêutico realizado em grupo era pouco  abordado. (Aqui, faço uma pausa para esclarecer que chamo de processo terapêutico individual aquele tipo de psicoterapia realizada por um psicólogo e um  único cliente, enquanto que o processo terapêutico realizado em grupo refere-se à psicoterapia realizada por um ou mais psicólogos com mais de um cliente simultaneamente). Esse enfoque para o atendimento individual era comum, não  somente às disciplinas teóricas, como também às práticas. A instituição oferecia,  pelo menos, seis opções de estágios para atendimento individual com abordagens  teóricas distintas e somente uma opção que possibilitava o atendimento de grupos.  Ou seja, os alunos que desejassem ter a experiência do atendimento grupal deveriam seguir a linha de estudo daquele estágio, independentemente de suas  preferências teóricas e práticas.

Ao consultar alguns autores, vi que essa não era uma situação incomum. Em seu  livro Psicoterapia de grupo: teoria e prática (2006b, p. 421), Yalom chama atenção  para o uso secundário da terapia de grupo, apesar dos resultados positivos desta  

modalidade de atendimento apontados em pesquisas. Em referência aos  profissionais de saúde citados nos levantamentos, o autor considera que parte do  problema se deve à falta de exposição a esta modalidade durante a formação  profissional; em relação aos pacientes, considera que as preocupações podem estar  associadas às dificuldades que enfrentam em seus próprios grupos de convivência.

 

1 A palavra Gestalt foi mantida do alemão por não ter uma tradução equivalente em outras línguas.  Sugere as noções de totalidade (partes que convergem para um todo), de integração, de configuração,  de formação (dar forma). A Gestalt-Terapia foi criada por Frederick S. Perls e colaboradores e  constituiu-se sob a influência de várias correntes teóricas e filosóficas como: a Psicologia da Gestalt, a  Teoria Organísmica, a Teoria de Campo, a Teoria Sistêmica, a Fenomenologia, o Existencialismo, o  Humanismo, a Psicanálise, as terapias psicocorporais de inspiração Reichiana, o Psicodrama e as  filosofias Orientais; além da experiência e criatividade de seus precursores. Para saber mais sobre a  Gestalt-Terapia, consulte as obras citadas na bibliografia deste trabalho.

Pinheiro da Silva (2015, p.15) também observa, com base em suas vivências como  coordenador de grupos de treinamento de psicólogos, a alta frequência de alunos  candidatos com pouca ou nenhuma experiência no que se refere a práticas grupais.  Segundo o autor, “a experiência universitária parece não ter trazido, para muitas  dessas pessoas, uma aproximação interessante em relação a esse tipo de trabalho”.

Tal situação me gerou alguns questionamentos: “as outras tantas abordagens e  linhas psicológicas não tinham nada a dizer sobre o atendimento de grupos”? “um  psicólogo que acredita nos preceitos de uma dessas abordagens não pode trabalhar  com grupos”?, “se ele pode, pois sua habilitação em psicologia lhe dá esse direito,  ele não deveria ter sido submetido a algum tipo de experiência, ainda que  introdutória, sobre como atuar em atendimentos envolvendo grupos”?; entre outros.

Nesse momento, o leitor pode discordar: “A faculdade nos ensina o básico. Depois, cada profissional deve se especializar para que possa desempenhar melhor sua  profissão”! Concordo, mas o conhecimento teórico e alguma experiência prática  sobre a atuação com grupos são muito relevantes para nosso exercício profissional,  principalmente, considerando os benefícios da psicoterapia de grupo diante das condições socioeconômicas atuais de nosso país.  

Conforme apresentado por Vinogradov e Yalom (1992, p.10), uma das vantagens  significativas da psicoterapia de grupo é a possibilidade de alcançar mais pessoas  através do uso eficiente de tempo, espaço e outros recursos. Esses fatores são  muito importantes, quando consideramos a situação atual dos serviços de saúde  que, no que se refere à realidade brasileira, costumam ter uma demanda muito  maior do que a quantidade de profissionais disponíveis.  

“Então, qualquer cliente pode ser encaminhado para a psicoterapia de grupo ”? Essa  pergunta não é incomum e tem sido alvo de estudos. Resultados verificados em pesquisas – conforme abordados por Yalom (2006, p. 189-190) apontam muitos  benefícios específicos produzidos pela terapia de grupo, como: possibilidade de ter  mais aprendizagem social, desenvolvimento do apoio social e melhora nas relações  sociais. De qualquer forma, o atendimento psicoterapêutico em grupo envolve um  processo de seleção e entrevistas entre psicólogo e clientes, exigindo do profissional  conhecimento específico desse tipo de modalidade a fim de possibilitar uma prática  mais coerente e responsável. No entanto, esse detalhamento não é o foco do  presente trabalho.2 

Não se pretende, aqui, estabelecer qualquer tipo de escala que pretenda determinar  que uma modalidade terapêutica seja mais eficaz do que outra. A psicoterapia  individual, certamente, é bastante poderosa para gerar aprendizado e  transformações para o cliente. Todavia, como o eixo central deste estudo gira em  torno da psicoterapia de grupo, torna-se essencial expressar algumas de suas  características. Nesse sentido, um importante material de trabalho são as trocas e  interações realizadas pelos clientes, pois a experiência de grupo cria um contexto  

 2Recomenda-se a leitura do capítulo 8 do livro “Psicoterapia de grupo – teoria e prática” de Irving  Yalom (2006).

propício para que as características relacionais que são exercidas no dia-a-dia sejam evidenciadas no contato entre os membros.

As características interacionais tratam daquilo que é muito visceral no ser humano, daquilo que está presente nos seus primeiros segundos de vida. No momento da  concepção, várias atividades são disparadas; as células embrionárias, imediatamente, iniciam esse processo de se relacionar com o meio para dele obter  os materiais e realizar as trocas indispensáveis à formação do indivíduo. Essas  trocas são essenciais, pois vão determinar, não somente o desenvolvimento, mas a  sobrevivência do organismo.

“Para que o indivíduo satisfaça suas necessidades (...), deve ser capaz de  

manipular a si mesmo e ao seu meio, pois mesmo as necessidades  

puramente fisiológicas só podem ser satisfeitas mediante a interação do  

organismo com o meio”. (PERLS, 1988, p. 24).

Esse processo de interação com o ambiente acompanha o homem durante toda a  sua vida, exercendo grande influência sobre seu desenvolvimento psicológico e seu  estado emocional. Por meio do contato, pelo exercício de aproximação e  afastamento, o ser humano vai se diferenciando e reconhecendo cada vez mais a sua identidade e a identidade do outro. E é, justamente, no contato que está o foco  da Gestalt-Terapia; não naquilo que há no indivíduo ou naquilo que há no mundo,  mas principalmente no contato que é, talvez, a principal característica da vida, como  afirma Ribeiro (2006, p. 132): “Viver é estar em contato”.  

O modo como as pessoas fazem contato revela as facilidades ou dificuldades  existentes na identificação de necessidades e na discriminação dos meios para  atendê-las, revela a expressão, os modos de bloqueio, de mudança e de  permanência de cada ser humano, entre outros; o contato revela, em última  instância, quem somos. Existe aqui um fato incontestável: somos seres de relação,  seres determinados para o contato.

A noção de contato se torna particularmente importante quando se busca compreender (e trabalhar) certos sintomas ou patologias vivenciados pelo cliente. Esses, muitas vezes, são indicadores de impasses, embaraços ou até mesmo, de interrupções nos ciclos do contato, que ocorrem seja por uma fragilidade ou por uma  rigidez na fronteira de contato. Como ressalta Perls (1988, p.45): “Todos os  distúrbios neuróticos surgem da incapacidade do indivíduo de encontrar e manter o  equilíbrio adequado entre si próprio e o resto do mundo”.

Esses distúrbios são parte de uma rede complexa que fazem sentido dentro do  modo de funcionar de um determinado organismo, em determinado tempo e lugar e,  apesar de indicarem entraves nas relações com os outros, também podem se  constituir como a única linguagem que o organismo encontrou para não interromper  totalmente o contato. Contudo, essa linguagem encontrada pelo organismo pode  não estar clara para o indivíduo que, apesar de experimentar um desconforto, nem  sempre se dá conta de que este é resultado de dificuldades na interação com as  outras pessoas, com os variados grupos aos quais pertence ou, mesmo, aos quais deixou de pertencer.

Quando essa situação começa a incomodar e o sofrimento e a dor tornam-se cada  vez mais difíceis de compreender e de suportar, muitos recorrem à ajuda e, então, somos convidados, como psicólogos, a estar ao lado do cliente nessa rica  caminhada.

É nesse momento que o enquadre começa a ser delineado e que devemos  estabelecer um contrato terapêutico para servir de guia e protetor dessa relação que  se inicia. É no contrato que psicólogos e clientes vão discutir e decidir questões  ligadas aos horários de encontro, valores do serviço, condições e (especialmente  para fins deste trabalho) a modalidade de atendimento: psicoterapia individual, de  família, de casal, infantil e/ou de grupo. Muitas vezes (ou, em todas às vezes), o  psicólogo precisará explicar ao cliente a proposta de cada modalidade de  atendimento, desconstruir certos receios e construir a confiança necessária para o  bom andamento do processo.3 

Durante os atendimentos realizados na época de graduação em psicologia e pós graduação/especialização em Gestalt-Terapia4tive a oportunidade de atender em  várias modalidades e também de realizar várias primeiras entrevistas com o objetivo  de compreender as queixas iniciais trazidas pelos clientes e de avaliar a  necessidade e o tipo de encaminhamento, isto é, a recomendação sobre uma  modalidade de atendimento mais pertinente ao caso. Conforme os atendimentos  aconteciam e mais e mais encaminhamentos eram feitos, algumas situações começaram a chamar minha atenção:

∙ A quantidade desproporcional de ofertas de estágio para terapia de grupo na  graduação (como disse mais acima, eram seis turmas que realizavam  atendimento individual e somente uma que oferecia atendimento de grupo);

∙ Pequena quantidade de alunos da graduação que se inscreviam na  modalidade de estágio que atendia grupos em comparação às outras  modalidades de estágio;

∙ A atitude de alguns clientes que vinham para a primeira entrevista já com a  expectativa de realizarem terapia individual e que apresentavam objeções ao  ouvir propostas de atendimento em grupo (clientes atendidos na graduação e  na pós-graduação);

∙ Pouco (ou nenhum) interesse por parte dos colegas (alunos da graduação em   

3 Nem todos os profissionais, seja por decisão pessoal ou por viabilidade, trabalham com variadas  modalidades de terapia. Em todo caso, entende-se que é importante que o profissional faça um  encaminhamento que não considere somente os seus interesses pessoais, mas, principalmente, as  necessidades terapêuticas do cliente.

4 Como citado anteriormente, a graduação foi realizada entre os anos de 2004 a 2009 em instituição  privada de ensino, localizada na cidade do Rio de Janeiro. A pós-graduação/especialização em Gestalt Terapia foi realizada entre os anos de 2009 a 2012, no Instituto de Gestalt-Terapia e Atendimento  Familiar (IGT), localizado na cidade do Rio de Janeiro. 

psicologia e alunos da pós-graduação em Gestalt-Terapia) em conhecer o  trabalho terapêutico em grupo, encaminhando a maior parte dos clientes das  instituições para os atendimentos individuais, apesar das longas filas de  espera nessa modalidade.

Acerca disso, Yalom destaca:

“Os pacientes e muitos profissionais da saúde mental continuam a  

subestimar e temer a terapia de grupo e, infelizmente, essas mesmas  

atitudes influenciam os programas de formação em terapia de grupo de uma  

forma negativa. A terapia de grupo não costuma ter prestígio acadêmico.”  

(2006b, p. 421).

Essas atitudes me despertaram curiosidade e estão no cerne da discussão deste  estudo.

Justificativa

A curiosidade e a inquietude são características importantes para o desenvolvimento  da ciência. Particularmente para nós, psicólogos, são atitudes importantes para  mantermos vivos um interesse sincero e uma disposição permanente para estarmos  em contato com nossos clientes e também para revisarmos conceitos, teorias e  práticas. Portanto, o presente estudo se justifica pela importância de estar em  constante reflexão sobre as práticas que envolvem nossa profissão e, neste caso em  particular, pela necessidade de se ampliar a compreensão acerca dos fenômenos  ligados às interações presentes nos atendimentos em grupo. Além disso, embora  haja muitos trabalhos envolvendo o tema da psicoterapia de grupo nas mais  diversas abordagens5, ainda há poucos trabalhos sobre a psicoterapia de grupo na  abordagem Gestáltica, além de escassez de material que discuta especificamente  os receios e as expectativas (crenças, ansiedades, fantasias, entre outros.) do  cliente e do psicólogo diante da possibilidade de ingressar num processo terapêutico  em grupo e/ou durante o percurso desse processo.6 

A escolha por estudar o processo de psicoterapia de grupo é baseada na  importância das interações sociais para o desenvolvimento humano. É sabido que o  isolamento social é um aspecto de risco para a saúde mental e se constitui um fator  a ser verificado pelo profissional de saúde, pois pode indicar condições clínicas  relevantes, como depressão e transtornos psiquiátricos, por exemplo.

No livro “Psicoterapia de Grupo: um manual prático”, publicado originalmente em  1989, Vinogradov e Yalom já chamavam atenção para recorrentes queixas  envolvendo uma crescente sensação de alienação interpessoal na vida moderna,  

 

5 Buscas feitas em indexadores como “Google”, “Google Scholar” e “Scielo” com as expressões  “psicoterapia de grupo”, “terapia de grupo”, “psicologia” e “grupo” (simultaneamente).

6 Essa afirmação se baseia na busca que fizemos na bibliografia apresentada no curso de  Especialização e também em páginas da internet como “Google”, “Google Scholar” e “Scielo” pelas  seguintes expressões: “receios e expectativas” e “terapia de grupo”, durante o ano de 2015.

sensação de isolamento, anonimidade e fragmentação social; e ressaltavam a falta  de coesão e de experiências capazes de oferecer apoio e de favorecer a  autorreflexão. Alguns anos depois, na apresentação do livro “Gestalt-terapia – O  processo grupal. Uma abordagem fenomenológica da teoria do campo e holística”  (RIBEIRO, 1994), Ari Rehfeld também chama atenção para a questão do isolamento  e do individualismo e acrescenta: “Pensar grupo é pensar no coletivo. Toda vez que  agimos coletivamente, avançamos. O “nós” é mais forte que o “eu”.” (grifos do  autor). Hoje, mais de vinte anos depois, não é possível afirmar que a situação esteja diferente.

O surgimento de diversas soluções tecnológicas que procuram conectar as pessoas  como, por exemplo, o sucesso das incontáveis redes sociais com seus milhões de  adeptos por todo o mundo parece ser uma forma de lidar com essa sensação de  isolamento e distanciamento entre as pessoas. Tal fenômeno pode ser uma tentativa  da sociedade de buscar novas formas para que o indivíduo possa se expressar e se  relacionar mais com outros.

Contudo, a intermediação e as facilidades trazidas pela tecnologia nem sempre são  capazes de fazer com que as pessoas consigam levar para o mundo dos contatos  físicos a mesma espontaneidade e intimidade que apresentam nas redes sociais. No  mundo virtual, muitas pessoas se expõem se exibem e circulam com certa  flexibilidade e ousadia; no entanto, no mundo do contato pessoal, face a face, muitos  desses relacionamentos são superficiais, distantes e incongruentes.7 O estudo da  atuação dos indivíduos e grupos nas redes sociais não faz parte do escopo desse  trabalho, porém, essa comparação é trazida por se tratar de um fenômeno muito  marcante em nossa realidade que, frequentemente, é levantado pelos clientes nos  grupos terapêuticos e que convergem para essa ideia de dificuldades nos  relacionamentos sociais.

Refletir e discutir sobre temas que envolvem o ser humano são atividades essenciais  visto que somos, ao mesmo tempo, pesquisadores e objetos de estudo; emissores e  receptores de nossas próprias teorias e práticas profissionais. Tudo isso nos impõe  um profundo senso de responsabilidade e ética no contato com o cliente e com nós  mesmos. Esse sentido de ética e responsabilidade deve nortear a relação  terapêutica e, portanto, no caso específico da atuação em um processo de  psicoterapia de grupo, é interessante que o psicólogo considere se há no cliente e  em si próprio, aspectos que possam gerar insegurança e impactar negativamente no  desenrolar do processo.

Nesse sentido, Ribeiro adverte:

“Conduzir o grupo é, antes de tudo, um ato de ciência, de competência  

 7 Tal afirmação se baseia em minha experiência profissional. Em um dos grupos que atuei, era comum  os participantes falarem que se preocupavam em fazer postagens em redes sociais que pudessem  indicar sua condição de vida feliz e próspera, quase sempre apresentado viagens, passeios, compras  e idas a restaurantes, por exemplo. Mas, nas sessões terapêuticas, ficavam evidentes sérias  dificuldades econômicas e no relacionamento afetivo.

didática e metodológica. Arriscar-se a conduzir um grupo terapêutico sem o  

devido preparo científico e técnico é pôr em risco a sanidade das pessoas e  

a sua própria, sem dizer que é eticamente imoral.” (1994, p. 180).

Objetivos

O objetivo geral deste trabalho é ampliar o conhecimento sobre a psicoterapia de grupo, auxiliando o leitor a clarificar alguns sentimentos ou crenças que podem estar  presentes antes do início da terapia e/ou no seu decorrer. Os objetivos específicos  são: trazer à discussão, investigação e reflexão, alguns receios e expectativas sobre a psicoterapia de grupo, demonstrados por clientes e psicólogos com os quais tive  contato ao longo da graduação e pós-graduação, associando esses temas à minha própria vivência. Por receios e expectativas, refiro-me a ideias, fantasias, medos,  preconceitos, dúvidas, ansiedades, enfim, concepções negativas e/ou positivas em  geral que, muitas vezes, antecedem a vivência do processo em si.

Considerando o conteúdo teórico já existente acerca da Gestalt-Terapia e dos  trabalhos grupais, não existe aqui a pretensão de esgotar o assunto. O intuito é  contribuir com o aprofundamento teórico do tema, trazendo à reflexão ideias manifestadas por clientes e psicólogos sobre o trabalho terapêutico em grupo,  traçando paralelos com minhas próprias certezas e incertezas, vividas no lugar de  psicóloga, aluna e também membro de um grupo terapêutico. Entendendo que a  discussão desse tema é relevante para a formação do psicólogo e que pode ser  particularmente útil para clientes que vivam situações análogas.

Por meio deste artigo, o leitor poderá fazer um trabalho introspectivo questionando se se algum dos itens apresentados coincide ou já coincidiu com a sua maneira de  enxergar a psicoterapia de grupo e buscando conhecer suas próprias motivações  relacionadas a essas crenças.

Reforçando que cada modalidade de psicoterapia (individual, grupo, casal, família,  entre outros) tem sua aplicação de acordo com a situação terapêutica específica,  com a realidade e características de cada cliente e de cada psicólogo. Certamente, a  melhor terapia é aquela que melhor se enquadra ao cliente e ao psicólogo. Cabendo  ao psicólogo sugerir ao cliente a modalidade de atendimento mais adequada à  situação, com base nos conhecimentos teóricos e práticos oriundos da Psicologia (e  de outras áreas de saber relacionadas) e nas informações (explícitas e implícitas) fornecidas pelo cliente.

Metodologia

Como a experiência pessoal é fonte muito importante para a realização deste  trabalho, boa parte do texto foi escrito em primeira pessoa do singular, considerando que essa forma oferece maior clareza e simplicidade ao texto. Essa decisão foi bem  acolhida pela orientadora e possui também respaldo teórico, conforme exposto na  dissertação de mestrado apresentada por Pinheiro da Silva (2015, p. 20). Segundo o autor, que também optou por escrever na primeira pessoa do singular, essa é uma  atitude coerente com a tradição Gestáltica por levar aquele que fala a se  responsabilizar, a se identificar pessoalmente com aquilo que se diz.

“Mas a palavra responsabilidade pode ser também habilidade de responder:  

de ter pensamentos, reações, emoções numa determinada situação. Agora,  

esta responsabilidade esta habilidade de ser o que se é, se expressa  

através da palavra ‘eu’”. (PERLS, 1977, p. 96, grifo do autor).

A presente monografia baseia-se em consultas bibliográficas de perspectiva  Gestáltica8 e na experiência pessoal construída durante os períodos de graduação  (2004-2009) e pós-graduação (2009-2012) realizadas em instituições de ensino  privadas na cidade do Rio de Janeiro e durante o período de psicoterapia pessoal na  modalidade de grupo (2012).

Do ponto de vista teórico, a base deste trabalho está na perspectiva holística,  relacional e processual da existência humana afirmada pela Gestalt-Terapia e em  sua crença no potencial e na sabedoria do organismo, isto é, a crença de que ele é  capaz de encontrar soluções criativas e inovadoras e de mobilizar energia para seu  próprio crescimento e desenvolvimento. Outra base fundamental está na  consideração sobre a interdependência inseparável entre o indivíduo e o ambiente.

Em relação à perspectiva pessoal, este trabalho compreende um pouco das minhas  interações com colegas e professores, com clientes em entrevistas de  encaminhamento e atendimentos em grupo, das vivências surgidas nas supervisões  e, também, da experiência de ser membro de um grupo terapêutico. Nesses oito  anos, interagindo com pessoas tão diferentes, vivi muitas situações parecidas no  que tange a receios, expectativas, fantasias, ansiedades, enfim, às ideias sobre a  psicoterapia de grupo. Procurei descrever as situações da maneira como se  apresentaram ao meu entendimento (sem tentar determinar as causas motivadoras  desses comportamentos), numa perspectiva fenomenológica do processo grupal;  como descrito por Ribeiro (1994, p. 47):

“Fenomenologia é, concisamente, uma filosofia, um processo, uma técnica,  

um modo de ver o mundo. Supõe uma leitura, uma descrição e uma  

explicação da realidade, enquanto fenômeno a ser desvendado. Fenômeno  

é aquilo que aparece, é o aparente da coisa. É aquilo com que me encontro;

aquilo que vem ao meu encontro, que se oferece ao desvendamento.”

Algumas afirmações ou hipóteses se apoiam em como experimentei o contato e nos  impactos provocados pelas relações vividas com os clientes e com outros  psicólogos. Não coube no escopo deste trabalho realizar um estudo estatístico sobre  a quantidade de pessoas que manifestaram receios e desconfianças sobre o  trabalho psicoterapêutico em grupo ou mesmo elencar os principais temas trazidos  

 

8 A consulta bibliográfica tem sua base nos principais autores que foram estudados durante o curso de  “Especialização em Psicologia Clínica - Gestalt-Terapia (Indivíduo, Grupo e Família)” do Instituto de  Gestalt-Terapia e Atendimento Familiar – IGT, em autores que têm grande importância para a Gestalt Terapia e aqueles que trazem importantes considerações sobre o processo grupal.

por ordem de recorrência. Para viabilizar o desenvolvimento deste trabalho, foram  selecionados alguns temas de acordo com as situações que mais me chamaram  atenção ao analisar os relatórios de atendimentos, anotações de supervisão e de  aula e outras memórias. Como diz Perls (1979, p. 11): “[...] o observador é sempre  parte dessas observações. Ou então, seleciona o que está observando”. Os temas  escolhidos serão discutidos em forma de capítulos, seguindo a ordem descrita a  seguir.

O capítulo 1 – Receios e expectativas percebidos no contato com clientes – traz  temas abordados por clientes com certa recorrência, envolvendo sentimentos de  desconfiança ou fantasias relacionados à psicoterapia de grupo, demonstrados,  

principalmente, durante as entrevistas de encaminhamento e nas sessões iniciais  dos grupos.

O capítulo 2 – Receios e expectativas percebidos no contato com psicólogos – aborda questões ligadas a dúvidas e receios apresentados por psicólogos e também  informações prestadas por supervisores da pós-graduação acerca de como seus  alunos (psicólogos, pós-graduandos) se comportavam em relação ao processo de  terapia em grupo, bem como, as mudanças de comportamento desses alunos ao  longo dos atendimentos.  

O capítulo 3 – Experiência Pessoal – conta minha experiência de participar de um  grupo no papel de aluna e psicoterapeuta9 e no papel de cliente e de como esses  receios e expectativas me impactaram.

O último capítulo traz as considerações finais sobre este trabalho.

I. RECEIOS E EXPECTATIVAS PERCEBIDOS NO CONTATO COM CLIENTES

“As pessoas necessitam de pessoas – para sua sobrevivência inicial  

e contínua, para a socialização, para a busca da satisfação. Ninguém  – nem os moribundos, nem os excluídos, nem os poderosos –

transcende a necessidade de contato humano.” (YALOM, 2006b, p.

41).

Revisitando a bibliografia, vemos que a presença de concepções erradas sobre a  psicoterapia de grupo não é algo incomum. Yalom (2006b, p. 238) descreve o  resultado de algumas pesquisas feitas com pacientes, com alunos de psicologia e  com residentes de psiquiatria em que receios e expectativas desfavoráveis sobre a  terapia de grupo são mencionados com significativa frequência. Um dos  levantamentos apresentados descreve que mais de 50% dos pacientes  entrevistados se recusariam a participar de uma terapia de grupo, ainda que não  

 9 Durante a graduação, atendi grupos como estagiária em psicologia e, na pós-graduação, já possuía  o título de psicóloga, porém, era estudante na modalidade Gestalt-Terapia.

houvesse outra modalidade de tratamento disponível. “As preocupações citadas  incluíram o medo do ridículo e da vergonha, falta de confidencialidade e o medo de  piorar por alguma forma de contágio”. (YALOM, 2006b, p. 238).

Durante o período de graduação e especialização, realizei muitas entrevistas de  avaliação com o objetivo de acolher e compreender as queixas trazidas pelos  clientes. Ao final do encontro, discutíamos uma proposta de encaminhamento.  Nessas entrevistas, pude observar a presença dessas preocupações demonstradas  por meio de dúvidas, receios, fantasias e expectativas em relação à psicoterapia de  grupo. Em geral, os clientes, mesmo que nunca tivessem feito terapia, esperavam  serem atendidos em psicoterapia individual e ficavam surpresos ou desconfiados  diante de uma proposta diferente. Acredito que tal atitude se deva à falta de  conhecimento sobre o assunto, à falta de referências de pessoas de seu convívio  que já tenham se submetido a um processo terapêutico em grupo e/ou, até mesmo,  pela experiência malsucedida em outras situações envolvendo grupos.

A seguir, serão abordadas algumas questões que considero interessantes para  serem discutidas e aprofundadas envolvendo receios, expectativas, ansiedades,  crenças iniciais, entre outros, percebidos nos contatos com os clientes em relação à  temática da psicoterapia de grupo.

1.1 Exposição

Embaraços para lidar com situações em público e inibição social são comuns a  muitas pessoas. Não é difícil encontrar em nosso convívio pessoas que dizem sentir  ansiedade ao terem que falar em público, mesmo que seja diante de uma pequena  plateia. Em “Gestalt-Terapia explicada”, Perls (1977, p.57) aborda essa questão:  “Agora, se você não estiver certo do papel que quer desempenhar, e for tirado do  seu palco privado para o palco público, então, como bom ator, você experienciará o  medo frente à audiência”.

Na situação de um processo terapêutico, essa ansiedade tende a ser maior, pois o  cliente - mesmo que nunca tenha feito terapia antes - compreende que o processo  terapêutico poderá fazê-lo revelar aspectos de sua intimidade e que estará exposto a um tipo de contato diferente do que costuma experimentar em seu cotidiano. Em  outras palavras, o cliente pensa: “nunca disse isso para minha família ou para meus  

amigos, como vou me revelar assim para estranhos”? A possibilidade de que várias  pessoas possam ter algum acesso à sua intimidade e aos seus segredos tende a ser  vista com muito receio.

Acerca disso, Yalom faz considerações interessantes no capítulo 10 de seu livro  Psicoterapia de grupo: teoria e prática (2006b). Como exemplo, o autor relata um  sonho de uma cliente que se preparava para ingressar na psicoterapia de grupo. Ao  contar sobre o sonho, a cliente descreve sentimentos de ansiedade e perturbação.  Segundo o autor, essas concepções errôneas são bastante comuns no imaginário  dos clientes.

“A imagem de cada membro confessando problemas para a plateia reflete  

um dos medos mais básicos e comuns de indivíduos que entram para  

grupos de terapia: o horror de ter de se revelar e de confessar  

transgressões e fantasias vergonhosas para uma audiência desconhecida.

E mais, os membros imaginam uma resposta crítica, debochada,  

ridicularizante e humilhante dos outros. A experiência é fantasiada como um  

julgamento apocalíptico perante um tribunal inflexível e sem compaixão”.

(YALOM, 2006b, p. 239).

Apesar de frases amplamente repetidas no cotidiano como “todo mundo erra” e  “ninguém é perfeito” que transmitem a noção de que todas as pessoas têm  imperfeições e falhas, na prática, nem sempre essa é uma postura simples de se  adotar. Algumas pessoas vivenciam seus defeitos ou julgam eventos ocorridos em  sua vida com muito rigor e culpa e temem serem excluídas, criticadas, rejeitadas ou perderem o respeito dos demais, caso os outros venham saber quem realmente são  ou o que fazem / fizeram. Aqueles que guardam segredos antigos, com conteúdos  comprometedores e dotados de carga emocional pesada, podem experimentar uma  expectativa de alcançar alívio através da revelação, mas também, uma ameaça  diante dos efeitos negativos que essa revelação pode causar. “Alguns podem  experimentar um medo disseminado de se revelarem: cada palavra, sentem eles,  pode comprometê-los com mais revelações progressivas ”. (YALOM, 2006b, p. 310).

Outra face da experiência de exposição manifesta-se pela crença de que a  psicoterapia obriga o cliente a falar tudo. Tal expectativa pode levar a uma sensação  de perda total de controle, principalmente, quando se está no início do processo e  ainda naquela fase de conhecer o grupo e de experimentar o terreno. Nessa fase, o  cliente ainda não tem elementos para prever as possíveis reações dos membros do  grupo diante da situação que deseja expor. Além do mais, ainda que regras de  confidencialidade sejam abordadas no contrato, como apontam Polster e Polster  (2001, p.135), não é possível garantir o que cada membro considerará como  confidencial.

Lembro-me de uma cliente que, nas primeiras sessões do grupo, manifestava  sintomas que apontavam para níveis elevados de ansiedade (alguns sintomas eram  visíveis e outros eram relatados por ela mesma), como: taquicardia, sudorese, rubor  facial e tremores. Tudo isso apenas ao ser citada em algum momento pelo grupo.  Para ela, a hipótese de compartilhar seus pensamentos, sentimentos e aspectos de  sua história para o grupo era algo muito assustador. Seus sintomas eram muito  aparentes e, não por coincidência, as queixas que a trouxeram ao consultório eram  justamente sobre sua dificuldade em lidar com situações de exposição, situações em  que fosse notada, em que ficasse em evidência; apresentava muita ansiedade  diante do outro, o que vinha atrapalhando seus relacionamentos pessoais e  profissionais.

No outro extremo do que as expectativas de exposição podem gerar, o exemplo de  outra cliente: alguém que tinha uma postura muito participativa e dominante sobre o  grupo. Já nas primeiras sessões, desatou a falar de questões bastante íntimas sem  

qualquer preocupação com as pessoas ao redor. Neste momento, o leitor pode  questionar tal relato, entendendo que é isso que se espera do processo terapêutico e que a cliente demonstrava auto aceitação e coragem. No entanto, o contato com  ela, ao longo das sessões, demonstrou que essa atitude tinha mais relação com  uma inabilidade em perceber o outro, em perceber o impacto que causava nas  demais pessoas. Certa sessão, após ter exposto bastante conteúdo confidencial de  sua vida, relatou um sonho em que estava na rua, sem dinheiro e vestindo roupas  íntimas. O grupo trabalhou sobre esse sonho e os aspectos que ficaram mais  evidentes foram: poder e vulnerabilidade. Toda vez que a cliente se expressava para o grupo, contando detalhes sobre sua intimidade, ganhava atenção e poder; mas,  depois da revelação, sentia-se exposta e vulnerável. O grupo, por sua vez, tinha  sentimentos contraditórios em relação à postura da cliente. Ao mesmo tempo em  que ficavam envolvidos com as revelações, também havia um sentimento de  invasão que dificultava com que pudessem dar suporte à cliente, já que eles próprios  não tinham condições de suportar aquele conteúdo naquele momento (reforçando  que estávamos nas primeiras sessões do grupo e que, portanto, ainda não havia  confiança e coesão suficientes). Esse é um “dilema inevitável”, como dizem Polster e  Polster (2001, p. 137), pois o processo terapêutico pode acabar levando o cliente a  esse comportamento exibicionista.

Também havia outros clientes com comportamentos semelhantes, no entanto, nos  grupos terapêuticos em que participei (seja como psicóloga ou como cliente), assim  como nos grupos de supervisão e nas vivências de “workshops”, de modo geral, o  que mais vi acontecer foi um comportamento cauteloso e uma busca gradual de  exposição. Especialmente no início do grupo, os clientes costumam experimentar o  ambiente, falando pouco sobre seus sentimentos, trazendo questões genéricas ou  contando relatos sem expressar muito envolvimento emocional com o assunto. Falar  do clima, das horas, de uma pessoa famosa, do aperto do transporte público, do  jogo de futebol, entre outros, pode trazer conforto, preenchendo o tempo da sessão  e evitando determinados conteúdos.

A fase inicial de um grupo terapêutico é um momento de aprendizado, no qual as  pessoas ainda estão se conhecendo e conhecendo o terreno comum; é natural que  se sintam pouco à vontade para abordar certos temas. No entanto, um receio  exagerado pode levar o cliente a adotar uma postura distante, marcada por muito  silêncio e poucas expressões. Suas participações podem se constituir de comportamentos estereotipados, com frases prontas ou monossilábicas e gestos  dissonantes. Há casos em que o cliente pode até revelar que não deseja falar sobre  si ou que não gostaria de tocar em determinado assunto, mas tal comportamento  pode afastá-lo dos demais e tende a fazer com que tire pouco proveito da  experiência terapêutica. À medida que mais revelações vão se dando no grupo, o  cliente tanto pode ganhar mais confiança para se revelar como pode ficar mais tenso  por considerar que a qualquer momento será a sua vez.

O receio ou ansiedade pela exposição é bastante genuíno, pois o processo  terapêutico em si já é um convite para a auto revelação. Daí a extrema importância  de se conversar com os clientes no momento do contrato sobre a necessidade de se  manter a confidencialidade dos assuntos abordados no grupo, de modo que todos  possam se sentir seguros e estimulados a compartilhar.

1.2. Encobrimento

Como dito na introdução deste trabalho, ao mesmo tempo em que o avanço da  tecnologia tem produzido o esmaecimento das fronteiras, disponibilizando recursos  nunca antes vistos que possibilitam às pessoas superarem barreiras geográficas,  linguísticas e temporais no contato com o outro, esse processo também pode gerar afastamento e perda de intimidade.

Esse distanciamento pode ser verificado ao observar como as pessoas estão cada  vez mais apegadas a aparelhos eletrônicos como “smartphones e tablets”. Mesmo  quando estão rodeadas por outras pessoas (num restaurante, na condução, até  mesmo numa festa ou outro evento social), a atenção principal, quase sempre, está direcionada para esses aparelhos. Nesse momento, o contato com as pessoas que  estão no mesmo espaço físico se torna pobre no que tange a um genuíno interesse  pelo outro. Essa atitude é característica de um relacionamento “Eu-Isso”10, em que o  sujeito procura o outro com uma finalidade específica, somente para atender uma  necessidade individual, em que não há abertura para troca de experiências e para  transformação.

Em minha experiência clínica, recebi clientes com esses traços que apresentaram  expectativas bastante positivas ao ouvir a proposta de participar de um processo de terapia em grupo. Porém, nem sempre essa atitude era de fato positiva, pois, por  vezes, estava baseada na crença (inconsciente ou não) de poder se esconder  dentro do grupo. Nesse caso, estar sozinho com um psicólogo poderia ser  experimentado como algo ainda mais invasivo, enquanto que a fantasia de poder  ocultar-se nas outras pessoas do grupo trazia mais conforto e segurança.

Frequentemente, esses clientes adotavam uma postura silenciosa, aparentemente solidária e compreensiva para com os outros participantes, procurando esquivar-se  de dar suas opiniões, alegando não ter questões para trabalhar ou trazendo-as  superficialmente. Tudo isso pode indicar uma tentativa de não se envolver com a  terapia e de fugir de temas os quais o cliente teme ter que encarar. Nutrir esse  comportamento também pode ser uma estratégia para manter as pessoas afastadas e evitar envolvimento. Nesse caso, encobrir-se à sombra dos outros participantes faz  todo o sentido dentro do estilo de vida dessa pessoa e, apesar de fazer com que  deixe de experimentar partes importantes do processo, para o cliente, pode ser  percebido como um ganho.

A expectativa de ser encoberto pelo grupo não atua somente por um possível medo  da exposição e vergonha, mas também pode demonstrar uma atitude de não querer  se comprometer com o processo, de não precisar assumir responsabilidades para  com o grupo. Segundo Yalom (2006b, p. 314), a participação do cliente na terapia de  grupo aumenta o sentido de envolvimento e valorização por parte dos outros   

10 A concepção de “Eu-Tu” e “Eu-Isso” é trazida pela filosofia de Martin Buber. O “Eu-Tu” refere-se a  uma situação em que o homem se dirige ao outro, sem nenhuma finalidade a priori; é um momento de  presença, de totalidade. O “Eu-Isso” é uma atitude de conhecimento, de utilização de meios com  finalidades específicas. Ambas são possibilidades de realização e são inerentes à condição humana.  (D’ACRI, G.; LIMA, P.; ORGLER, S., 2007, p.89).

membros. O autor adverte que a falta de participação pode impedir que o cliente  tenha ganhos com o processo terapêutico, além de poder levar o grupo a abandonar  essa pessoa.

O cliente pode usar esse comportamento para monopolizar o grupo, chamando  atenção para si e tentando incutir a noção de que é rejeitado pelas pessoas,  colocando-se como uma vítima à espera do cuidado e da tolerância dos outros  membros. Ele se esforça para se mostrar demasiadamente vulnerável a fim de  provocar o grupo a bajulá-lo, a pedir por sua participação, além de tentar induzir o  psicólogo a protegê-lo desproporcionalmente11. As consequências dependerão das  características do grupo: pode haver um sentimento de adoção e proteção ou o  grupo pode perder o interesse e abandonar esse membro.

1.3. Disputa por espaço e papéis

A figura do psicólogo costuma estar associada a muitas idealizações que incluem  certo clima de mistério e uma crença de que ele é detentor de uma sabedoria capaz  de responder a todo questionamento e de garantir a felicidade daquele que procura  seu serviço. Pode existir uma expectativa inconsciente de que o psicólogo venha a  se tornar um guru pessoal, alguém que saberá tudo do cliente, que estará  integralmente disponível para atender às suas necessidades e que possa lhe  garantir as respostas para as decisões que precisa tomar. Por outro lado, de modo  não tão dramático, há aqueles que buscam na figura no psicólogo um pai, uma mãe,  um irmão, um melhor amigo, enfim, alguém que ocupará um papel muito importante  e, por vezes, central em sua vida. Em ambos os casos pode haver uma alta  expectativa do cliente em relação à figura do psicólogo, fazendo com que dedique  para ele um lugar especial e único em sua vida. Perls (1988, p.57) fala dessa  idealização:

“Para ele, o terapeuta pode ser um par de ouvidos sem corpo, ou talvez um  

padrinho mágico que só tem que balançar sua varinha de condão para  

transformar o diabo num jovem bonito, de boa aparência, esguio, e cheio de  

dinheiro e charme”.

Ao ingressar na terapia individual, é bem provável que o cliente tome conhecimento  de que seu psicólogo também ocupa esse papel diferenciado na vida de outras  pessoas, isto é, de que ele não é o único cliente na vida do psicólogo. Mas, como o  cliente não participa da interação entre o psicólogo e os outros clientes, isso pode  não se constituir uma questão relevante, até porque o cliente pode criar uma  fantasia de ser mais especial para o psicólogo do que os demais.

No entanto, na psicoterapia em grupo, o cliente assiste a interação do “seu”  psicólogo com os outros membros, o que pode despertar sentimentos de ciúmes e  rivalidades. O cliente pode se ressentir de ter que dividir a atenção do psicólogo com  

 

11 O psicólogo deve proteger e zelar pelos membros do grupo, garantindo um ambiente acolhedor para  que o processo terapêutico possa se desenrolar sem, no entanto, agir de uma forma protecionista que  impeça o crescimento do cliente.

outras pessoas. Tal receio pode se tornar mais intenso conforme o cliente toma  conhecimento sobre a quantidade de pessoas participantes do grupo ou da entrada  de novos membros - que é uma situação que pode ampliar sua insegurança e  ansiedade.

O cliente que percebe que precisa urgentemente se submeter a um processo  terapêutico, mas que ainda tem pouco ou nenhum conhecimento sobre como  funciona a psicoterapia em grupo expõe um receio de que não haverá tempo  suficiente para trabalhar suas questões e de que sua individualidade será pouco  

considerada. O cliente que vem da terapia individual, por sua vez, receia que venha  perder seu lugar especial diante dos olhos do psicólogo e fantasia que os outros  membros do grupo serão seus rivais.

Esse tipo de inquietação era bastante comum de se manifestar na entrevista de  encaminhamento12. Muitos clientes apresentavam uma ou mais dúvidas, como: de  que forma o tempo era dividido entre os membros; o tempo de a sessão ser suficiente para que o psicólogo pudesse compreender e ajudar, já que teria que  cuidar de outras pessoas simultaneamente; se havia uma escolha/divisão sobre qual  membro poderia tratar de suas questões no decorrer das sessões do grupo, enfim,  os clientes tinham receios sobre ter que disputar por tempo e por espaço;  questionavam se essa indicação seria realmente efetiva para resolver suas  dificuldades.

Após o início da psicoterapia de grupo, esses receios e fantasias tendem a se  transformar em atitudes reais e começam a se manifestar por meio de comportamentos de competição/agressividade ou de submissão/passividade. De  acordo com as características de cada cliente, pode começar uma disputa pelos papéis: o da pessoa mais sofrida ou necessitada, a vítima, o sensível, o que tem as  respostas, o sedutor, entre outros. Clientes competitivos, com alto grau de  assertividade e agressividade podem atuar de maneira monopolizadora usando o  tempo e o espaço da sessão de maneira egoísta, pretendendo apenas trabalhar  conteúdos particulares e não dando margem para o surgimento de manifestações do  grupo. Sua atitude pode ser uma tentativa de ter o controle da sessão, levando o  grupo e, principalmente, o psicólogo a focalizarem a atenção em sua pessoa.  Enquanto isso, os membros que não gostam de competir e que não sabem como  usar sua agressividade, podem experimentar rivalidade e frustração diante do  domínio do espaço pelo outro, ao mesmo tempo, que assumem uma postura  passiva e submissa.

Essas ideias são também apontadas por Yalom (2006b, p. 237) como recorrentes  em pesquisas. O cliente tem a concepção de que o tempo e a atenção do psicólogo  são diluídos pela quantidade de membros existentes no grupo; o que, portanto,  tornaria a psicoterapia de grupo menos eficaz.

 12 Aqui, me refiro, especificamente, às entrevistas realizadas na pós-graduação. Durante o primeiro atendimento, após ouvir o motivo da busca do cliente pela terapia, avaliava-se a modalidade de  atendimento mais pertinente ao caso, quando pertinente.

1.4. Conflitos

Algum nível de conflito não só é esperado, como é inevitável num grupo terapêutico.  Talvez o cliente possa saber disso por já ter feito ou por conhecer pessoas que  fazem terapia em grupo ou simplesmente pode intuir que, ao compartilhar com  outras pessoas um processo de tanta intimidade e exposição, diferenças  provavelmente surgirão e poderão gerar conflitos. “Embora algumas pessoas  apreciem o conflito, a grande maioria dos membros (e terapeutas) de grupos sente se bastante desconfortável ao expressar e receber raiva” (YALOM, 2006b, p. 293).

Durante uma sessão de primeira entrevista realizada na pós-graduação, uma cliente  demonstrou claramente a presença de expectativas negativas diante da proposta de  ser atendida em grupo. O motivo de sua desconfiança era sua crença de que  certamente entraria em conflitos acentuados com algum membro do grupo. Sua vida  era marcada por discussões com todas as pessoas do seu convívio; o motivo que a  trouxe para a psicoterapia era justamente as dificuldades que enfrentava nos  relacionamentos interpessoais devido à agressividade. Daí o seu receio de que tais  acontecimentos se repetissem e prejudicassem seu processo terapêutico. Ela  acreditava que a psicoterapia deveria ser um espaço de compreensão total e que  somente os “bons” sentimentos poderiam ser expressos, por isso, considerava que não seria uma boa candidata para a psicoterapia de grupo. Como esperado, sua  agressividade apareceu logo no início das sessões do grupo e de uma maneira  bastante acentuada, gerando momentos de conflito e tensão que se desdobraram ao  longo da terapia.

Esse receio é pertinente, pois realmente o grupo tem a potência para exercer  pressão sobre os membros. Essa pressão pode ficar muito forte, requerendo  respostas do indivíduo e reações que podem ser difíceis de controlar - mesmo para  aquelas pessoas que se consideram dispostas a trabalhar com qualquer conteúdo.  Nesse sentido, Perls (1988, p.57) escreve que o homem pode ser “muito bom  falando em problemas e muito ruim lidando com eles”.

Em geral, as pessoas sabem que uma terapia é capaz de lhe oferecer apoio e  aceitação, mas especialmente para aqueles que nunca participaram de uma  psicoterapia de grupo, nem sempre se sabe de que forma isso é alcançado. Ao  ingressar no grupo, o cliente se depara com outras pessoas que podem ter estilos  de vida muito contrários aos que ele valoriza ou que considera aceitável. Esses  aspectos podem desencadear sentimentos antagônicos, tensões e impasses. Por  mais que o cliente tenha facilidade em expressar sentimentos de raiva e hostilidade,  um conflito declarado pode gerar desconforto, ansiedade e confusão. Esses  sentimentos são experimentados como desagradáveis pelo cliente e seu desejo é o  de aniquilá-los pela evitação ou outro tipo de interrupção de contato (PERLS, 1988, p.109).

Atendi clientes que faziam um esforço tão grande para serem aceitos pelo grupo,  que não se permitiam discordar dos outros, temendo chocar os demais com alguma  crença ou comportamento divergente. Esses clientes experimentavam qualquer nível de conflito como algo perigoso para o desenvolvimento e permanência dos seus  relacionamentos. Por outro lado, havia também aqueles que, regularmente, acabavam se envolvendo em polêmicas e embates. Apesar das características  distintas, ambos os clientes – o que alimenta o conflito e o que foge dele - podem  manifestar receios em experimentar o processo terapêutico em grupo por terem que  lidar com sua agressividade.

“Parece que a nocividade dos conflitos tem um dos seguintes significados  

(ou todos eles): 1) todos os conflitos são ruins porque desperdiçam energia  

e causam sofrimento; 2) todos os conflitos excitam a agressão e a  

destruição, o que é ruim; 3) alguns conflitos são ruins porque um dos  

litigantes não é saudável ou é antissocial, e em lugar de se permitir que  

participe do conflito, deveria ser eliminado ou sublimado [...]” (PERLS;  

HEFFERLINE; GOODMAN; 1997, p.163).

Não é de se estranhar que o cliente tenha esse tipo de insegurança, uma vez que,  em nossa sociedade somos pouco - às vezes, nada - estimulados a trocar feedbacks intensos e genuínos, no seu lugar, aprendemos a usar frases e expressões clichês  que nos ajudam a disfarçar o que de fato sentimos e pensamos e que mantêm o  outro afastado.

1.5. Contágio

Talvez a principal marca do mundo contemporâneo seja a pulverização acelerada da  informação. Com isso, conceitos que antes eram exclusivos de determinados  segmentos profissionais tornam-se mais facilmente populares, como, por exemplo, o  uso no cotidiano de expressões e termos que remetem às ciências como Psicologia,  Psiquiatria e/ou Psicanálise (ex: depressão, “stress”, pânico, TOC, bipolar,  hiperatividade, trauma, complexos, entre outros.). Tal ocorrência aponta para  alguma aproximação desses ramos científicos para com a população; mas ainda há  fantasias e bloqueios que envolvem tais saberes, especialmente, em relação ao  processo terapêutico que é uma atividade promovida por essas ciências.

Ainda não é uma tarefa fácil para muitas pessoas a busca por ajuda para questões  psicológicas. Essa espécie de resistência ao atendimento psicológico é manifestada  nas clínicas sociais; muitos clientes só buscam a terapia porque receberam a  indicação expressa de algum outro profissional ou porque já passaram por diferentes  profissionais e não tiveram a demanda resolvida. Não raro o psicólogo é o último a  ser acionado e constitui-se como a última esperança.

”Seja o que for, ele não pode conseguir por si só, nem por intermédio do  

seu meio ambiente, de outro modo, não teria recorrido ao terapeuta. Mas,  

certamente já tentou conseguir o apoio de que necessita (...). No entanto,  

uma vez que não foi bem sucedido, vem até nós frustrado (...)”. (PERLS,  

1988, p.59).

Muitos são os motivos que podem estar ligados a essas dificuldades. Em alguns  casos, ela se baseia na crença de que receber ajuda psicológica é um atestado de  que o cliente fracassou em gerenciar seus sentimentos, emoções e comportamentos ou, até mesmo, que lhe falta sanidade mental. Tanto assim que a expressão “é  psicológico” ganhou uma conotação pejorativa, sendo usada como se fosse um para  conferir um diagnóstico a situações que não têm tanta importância, muitas vezes, denominadas de “frescuras”.

Além dessas concepções negativas sobre a atitude de buscar atendimento  psicológico, também podem existir inseguranças sobre o processo terapêutico em si:  “Mas o que dizer [...], do medo do paciente de que a terapia, ao invés de ajudá-lo, o  mergulhará ainda mais profundamente numa terra de ninguém, e lhe dará uma  rasteira”? (PERLS, 1988 p.57) e/ou dúvidas sobre a capacidade do terapeuta: “talvez suspeite de que o terapeuta seja apenas uma fraude e um charlatão, mas  que no desespero de seu problema e no fundo de seu coração deseje proporcionar lhe uma mudança imediata”. (PERLS, 1988 p.57).

Apesar da insegurança sobre a eficácia da terapia, é possível que a pessoa consiga  aceitar ajuda na figura do psicólogo, por enxerga-lo como alguém superior, um  profissional que detém os conhecimentos e as técnicas que o levarão à solução de  seu problema. Por outro lado, outras crenças e preocupações podem surgir em  relação ao grupo: “se aquelas pessoas também precisam de ajuda a ponto de terem  buscado uma psicoterapia, são inaptas para ajudar-lhe e, ainda mais, podem até  transmitir mais problemas através da exposição de suas mazelas”. Segundo Yalom  (2006b, p. 238), esse é um tipo de preocupação comum dos clientes que ingressam  na psicoterapia de grupo; o cliente sente medo de um contágio mental, de ficar mais  doente pela associação com os outros membros.

Mesmo concordando com um encaminhamento para a terapia de grupo, o cliente  que se avalia dessa maneira pode ingressar na terapia com a expectativa de que  falará sobre seus problemas sem envolver-se nos conteúdos dos demais. Ele pode  assumir uma característica dominadora, tentando exercer controle e pressão sobre o  grupo, monopolizando o tempo e direcionando os assuntos, utilizando temas  urgentes ou sedutores, entre outros, ao mesmo tempo em que tem dificuldade para  ouvir empaticamente, rejeitando as influências e estímulos vindos dos outros  membros. Sua atitude para com o grupo, com frequência, demonstra desdém e  altivez, o grupo não é considerado como um meio suficiente para atender suas  necessidades. Por mais que os outros membros se conectem a ele, sua crença é de  que não precisa da intervenção de outras pessoas sobre sua vida, especialmente,  se essas pessoas não atenderem ao seu nível de exigência. Trata-se de um contato  coisificado (como citado no item 1.2).

Para a pessoa que está desequilibrada em relação à sua autoestima, adotando uma  postura excessivamente autossuficiente, aceitar ajuda vinda de uma pessoa que não  atende aos seus critérios de exigência tende a ser intolerável. Para esse cliente, a  ideia de submeter-se a um grupo terapêutico pode gerar muita ansiedade e  incertezas, pois ele não possui qualquer fagulha de fé no processo grupal, não  entende de que maneira essa experiência possa ajudá-lo. O cliente experimenta  uma ansiedade em ter que pertencer a um grupo e, de certa forma, de ser mais um, como os outros; essa experiência homogeneizadora o faz se sentir depreciado além  de temer ser “contaminado” com os sintomas dos outros membros (YALOM, 2006b, p.332).

II. RECEIOS E EXPECTATIVAS PERCEBIDOS NO CONTATO COM  PSICÓLOGOS

“...é vital que os terapeutas acreditem em si mesmos e na eficácia de seu  

grupo.” (YALOM, 2006b, p.26)

As crenças que cliente e psicólogo guardam sobre a eficácia da terapia são determinantes para o andamento do processo e estão presentes antes mesmo da  relação terapêutica ser configurada.

Ao conversar com colegas nas fases de graduação e pós-graduação sobre a  psicoterapia de grupo, era comum ouvir essa (des)crença sendo manifestada. A  desconfiança quanto à eficácia do processo às vezes se dava porque o psicólogo preferia atuar com uma modalidade específica (exemplo: com terapia individual), por características particulares do psicólogo, mas principalmente, pela falta de  conhecimento e contato com a psicoterapia de grupo em sua formação acadêmica.  Como relatado na introdução deste trabalho, a formação acadêmica, de fato, não  costuma privilegiar o aprofundamento de temas ligados à psicoterapia de grupo.  Essa perspectiva é descrita por Yalom no capítulo 17 de seu livro “Psicoterapia de  grupo: teoria e prática”:

“A terapia de grupo é uma planta curiosa no jardim da psicoterapia. Ela é  

forte: as melhores pesquisas disponíveis estabeleceram que a terapia de  

grupo é tão efetiva quanto a terapia individual13. Mesmo assim, necessita de  

cuidados constantes. Seu eterno destino é ser sufocada periodicamente  

pelas mesmas velhas ervas daninhas: “superficial”, “perigosa”, “secundária  

– para ser usada apenas quando não houver terapia individual disponível ou  

esta não for acessível”. Os pacientes e muitos profissionais da saúde  

mental continuam a subestimar e temer a terapia de grupo e, infelizmente,  

essas mesmas atitudes influenciam os programas de formação [...]”.

(YALOM, 2006b., p. 421, grifos do autor).

Na pós-graduação havia uma série de aulas que discutiam o trabalho com grupos.  Os alunos também tinham contato com outros profissionais que traziam diferentes  pontos de vista e modos de intervenção. Além disso, à medida que os alunos  formavam seus grupos terapêuticos, havia uma troca de informações que enriquecia  a experiência dos demais. Por diversas vezes, durante as aulas e supervisões de  atendimentos, os supervisores informavam que, em geral, os psicólogos/alunos  apresentavam uma tendência inicial para realizar mais encaminhamentos14 para

 13 MCROBERTS, C.; BURLINGAME, G; HOAG, M. Comparative Efficacy of Individual and Group  Psycotherapy: A Meta-Analytic Perspective, Group Dynamics 2 (1998): 101-17. BURLINGAME, G.;  MACKENZIE, K.; STRAUSS, B. Small-Group Treatment:Evidence for Effectiveness and Mechanisms  of Change, in Bergin and Garfteld’s Handbook of Psychotherapy and Behaviour Change, 5th ed., ed.  LAMBERT, M. (New York: Wiley, 2004), 647-96.

14 Uma das etapas da pós-graduação consistia no atendimento aos clientes que procuravam a clínica  social do instituto. Antes de definir questões contratuais (tipo de atendimento, horário, entre outros.),  os clientes passavam por uma primeira sessão com os estudantes. Nessa primeira sessão (primeira

terapia individual. Mais tarde, conforme as aulas e os atendimentos aconteciam,  começavam a ampliar as modalidades de encaminhamentos, passando a indicar  mais vezes a psicoterapia de grupo.

Tais observações me levam a crer que muitos psicólogos poderiam se valer mais do  trabalho terapêutico em grupo caso tivessem melhores oportunidades de  experimentar essa modalidade de trabalho de forma segura. Ou seja, contando com  o apoio e experiência de um supervisor. Isso seria particularmente interessante no  período da graduação, em que o aluno está dando seus primeiros passos na clínica.

De todo modo, como o objetivo deste trabalho não é investigar os motivos por trás  desses receios ou expectativas, o foco se concentrará na descrição e discussão de  alguns desses sentimentos e crenças. Para tanto, foram eleitos alguns temas que  me chamaram a atenção durante conversas, debates em sala de aula e supervisões  e que refletem alguns dos receios, expectativas, crenças, medos, inseguranças,  entre outros, manifestados por colegas graduandos e pós-graduandos em relação à  psicoterapia de grupo.

2.1. A amplitude do grupo

O grupo é um ambiente dinâmico com impulso para o movimento. Trata-se de um  campo onde podem ser encontradas forças antagônicas capazes de gerar  movimentos de direções e intensidades distintas, como nos diz Ribeiro (1994, p.16):  “Psicólogo e cliente se encontram em um campo de forças [...]. Esse campo tem  energias negativas e positivas, que se atraem e repelem dependendo de como se  encontram.” Os inúmeros fatores atuantes criam uma atmosfera de infinitas  possibilidades que revelam a complexidade do “setting” grupal, exigindo bastante  fluidez, humildade, atenção e sensibilidade do psicólogo.

Aos poucos, os clientes vão mostrando facetas de sua personalidade e o modo de  se relacionar com as outras pessoas. Assim como na vida real, paixões, rivalidades,  competições, lutas, dores, questões sexuais, luto, chegadas e partidas, enfim,  comportamentos, emoções e tudo mais que possa caber na dimensão do humano  se fazem presentes no campo e tendem a ser amplificados pela força do grupo. Tal  cenário pode se configurar de maneira caótica para o psicólogo, deixando-o  perplexo e inseguro. “Como conduzir o grupo? Como fazer as pessoas realizarem  trocas e “feedbacks” produtivos? Como fazer uma pessoa parar de falar? Como  conseguir que outra fale? Como concentrar os assuntos em algo que faça sentido  para a dinâmica grupal? Como responder aos ataques do grupo contra o psicólogo?  Como entender o que está acontecendo na sessão? Onde está a energia do grupo”? Enfim, muitos questionamentos podem acometer o psicólogo e ele pode realmente  ser “encaixotado pela força das ondas” do grupo. A possibilidade de perder o   

entrevista), se confirmando a necessidade e/ou desejo do cliente pelo atendimento, o psicólogo que  estava realizando a entrevista conversava com o cliente sobre qual modalidade de atendimento ele  considerava mais interessante para acolher aquele tipo de demanda. Quando os clientes eram encaminhados para os atendimentos da própria clínica social, ele poderia ser atendimento nas  modalidades de terapia individual, de casal, de família ou de grupo.

controle, de não conseguir se concentrar ou de não exercer o seu papel tornam-se  medos comuns dos psicoterapeutas.

“Trabalhando com grupo, temos permanentemente dois sentimentos:  

perplexidade e incerteza. O grupo nos surpreende a cada instante. Sua  

motilidade e energia ultrapassam nossa capacidade de controle. ”

(RIBEIRO, 1994, p. 40).

O psicólogo deve captar a energia presente no campo e clarificá-la para o grupo, isto  pode ser particularmente difícil se o grupo parece estar envolvido em vários temas e  suscitando variadas emoções. É importante que o psicólogo esteja bem sintonizado  com o aqui e agora e consiga discernir as necessidades e o que está acontecendo  no grupo. Isto é, que seja capaz de entender qual é a figura emergente, o que está  óbvio naquele momento. Ele precisa identificar o que é simples dentro de um contexto que é extremamente complexo – sem dúvida, não é uma tarefa tão fácil.

A natureza da psicoterapia envolve criar um ambiente favorável para a expressão e  experimentação, o que inclui viver e/ou reviver situações negativas. Podem surgir  questões que evocam reações intensas nos membros do grupo e que também  podem impactar profundamente o psicólogo, especialmente, se esses temas  envolverem aspectos emocionais, crenças, valores ou acontecimentos reais da  história de vida do psicólogo que estejam muito sensíveis. Acompanhar o processo  de crescimento de um grupo tem a ver com ter acesso a um número considerável de  situações dolorosas. Se o psicólogo precisar se preocupar em lutar pela sua  sobrevivência, perderá a noção do que acontece no grupo. Naturalmente, a  evocação de temas que possam tocar profundamente o psicólogo também ocorre  nas outras modalidades de terapia, mas a diferença principal reside na força que  essas situações ganham ao serem expressas em um grupo. A dinâmica grupal com  suas diferentes nuances pode produzir um contexto de maior tensão e instabilidade  ao psicólogo, pois no grupo tudo se torna maior, mais ressonante, mais amplo.

Acerca dessa intensidade, Ribeiro declara:

“O grupo terapêutico é indescritível, algo que escapa à capacidade humana de  descrevê-lo. A produção de um grupo terapêutico é algo como uma criação  

misteriosa, algo finamente sutil e forte, que tentamos entender, descrever, cuja  essência escapa à nossa consciência. Pensamento e emoção, fantasia e  

realidade, nada e tudo, ordem e caos se misturam na beleza da criação do ato  terapêutico grupal”.

“Humildade é a palavra, a postura para poder abeirar-se da grandiosidade da  comunicação, dos relacionamentos, das formas de contato, de amor que gera,  aquece e mantém uma relação terapêutica grupal.” (1994, p. 84)

2.2. Necessidades individuais X necessidades do grupo

Um grupo é uma entidade diferente e maior que a soma dos elementos que o  constituem e deve ser compreendido a partir desse conceito de totalidade. A relação  vivida pelos participantes dá contorno e sentido aos eventos e qualquer mudança ocorrida em um participante afetará todo o grupo. O psicólogo, independentemente de sua abordagem teórica, deve buscar conhecer os processos que envolvem a  dinâmica grupal e atuar num outro nível de compreensão e intervenção. “[...] o grupo  tem uma teoria e um tipo de processo próprios que exigem uma metodologia  adequada. O discurso da terapia individual, portanto, não vale, em definitivo, para o  do grupo”. (RIBEIRO, 1994, p.79).

Entender o que isso significa na prática pode não ser simples, principalmente, para o  psicólogo que não está habituado ao trabalho em grupo. Pode ser complicado para o  psicólogo equilibrar sua atuação no contato com um membro específico e/ou com o  grupo como um todo. Facilmente, ele pode favorecer o desenvolvimento de um  ambiente propício para uma terapia individual em que os outros membros do grupo  passam a ser meros expectadores, ansiosos por sua vez de estarem no palco. A  problemática individual é trazida para o grupo, porém, o contexto grupal não é focalizado. Tellegen (1984, p.72) aborda esse tipo de prática como não sendo o  modelo proposto pela Gestalt-Terapia, praticamente não sendo mais utilizado,  pertencendo à história da psicoterapia de grupo. Essa atitude tem mais chance de  ocorrer se houver no grupo algum cliente cujas características chamem muito a  atenção do psicólogo. Ele pode acreditar que aquela pessoa, seja por qualquer  razão, necessita mais de sua presença e de seu tempo e, assim, sacrifica as  necessidades do grupo em seu favor.

O psicólogo pode ser levado e (dessa forma, pode levar o grupo) para uma imersão  na problemática individual de determinado cliente por diversos motivos: ele pode  tecnicamente e propositalmente, trazer aquele cliente ao foco para trabalhar  questões específicas; mas também, pode ser que ele se sinta demasiadamente  responsável pela solução dos problemas desse cliente e considere que o cliente só  terá sua questão trabalhada dessa forma; ou simplesmente, pode não saber como  fazer para que tais questões sejam trabalhadas no grupo. Ele pode acreditar que é  sua responsabilidade fazer com que todas as pessoas do grupo tenham suas  necessidades atendidas e que isso acontecerá na medida em que cada cliente  puder expressar individualmente suas próprias questões. Isso certamente ocupará  muito tempo da sessão e, provavelmente, o grupo terá saído sem se engajar  coletivamente em nenhum tema. Por outro lado, os membros também podem entrar  numa confluência15 improdutiva, isto é, numa situação (ainda que não expressa em  palavras) em que todos concordam em não discordar, um ambiente em que não há  espaço para manifestações de diferenças individuais. Uma pessoa que passe a  expressar opiniões divergentes pode ser encarada pelo grupo como uma ameaça  que deve ser banida, assumindo o papel de bode expiatório. Em determinado  momento, o que pode parecer uma coesão produtiva, na verdade, pode representar  uma confluência fantasiosa, uma tendência à homogeneização, em que não há  espaço para as diferenças individuais.

O receio do psicólogo em ter dificuldades para identificar as necessidades  individuais e as necessidades do grupo e para equilibrar o processo de atendimento  

 15 O Dicionário de Gestalt-Terapia: “Gestaltês” (D’ACRI, G.; LIMA, P.; ORGLER, S. 2007, p. 52) traz  um resumo sobre a noção de confluência sob a ótica dos principais autores da Gestalt-Terapia.

e frustração de necessidades é pertinente porque muitos não receberam qualquer  tipo de acompanhamento para que possam desempenhar essas atividades.  Principalmente no início, quando as fronteiras de contato tendem a ser rígidas e o  psicoterapeuta ainda está conhecendo qual será o ritmo do grupo. Alguma  ansiedade do psicólogo sobre essa situação é compreensível, pois, de fato, ele  precisará discernir esses fenômenos para que possa intervir de modo coerente. Do  contrário, “[...] o descuido, por parte do terapeuta, das fronteiras grupo-indivíduos  nas suas múltiplas manifestações, pode ter consequências gravemente prejudiciais  [...]”. (TELLEGEN, 1984. p.82).

Como dito no início deste tópico, as teorias individuais não são suficientes para  realização do trabalho terapêutico em grupo devido à complexa trama de fatores  presentes. “O grupo, enquanto campo, tem leis próprias. Assim o comportamento  deixa de ser uma resultante da realidade interna da pessoa para ser analisado como  uma função do campo.” (RIBEIRO, 1994, p.181). A maior parte dos psicólogos  conseguirá compreender isso, portanto, é natural que fiquem inseguros e receosos  quanto à condução de um grupo terapêutico quando têm pouca ou nenhuma  vivência sobre esse tipo de enquadre.

2.3. Definição do seu papel no grupo

A ansiedade em relação ao seu papel como psicoterapeuta é bastante provável de  se manifestar dada a complexidade da dinâmica grupal – situação em que o  psicólogo sofre maior exposição pública, podendo ter sentimentos de perda de  controle e medo de ser sobrepujado pelo grupo, além de outras questões (YALOM,  2006b, p.421).  

Embora o psicólogo também seja um membro do grupo, inegavelmente seu papel  lhe impõe responsabilidades diferenciadas desde o momento da concepção,  passando pelo desenvolvimento, até o término do grupo. Conforme perspectiva  apresentada por Tellegen (1984, p.79-80), o papel do psicólogo é muito importante  para o surgimento e manutenção do grupo. Ele precisa administrar questões que  vão desde a seleção e definição dos membros, horário, local; assim como, gerenciar  a dinâmica grupal, servindo como mediador e como modelo das interações; ele  precisa decidir como será estruturado o trabalho e os tipos de intervenções que  precisam ser aplicadas a fim de favorecer o processo grupal.

Muitas dessas decisões, para terem sentido, precisam ser tomadas no aqui-e-agora  da sessão. Quanto mais complexa for essa tarefa, ou seja, quanto mais variáveis  estiverem presentes no campo, mais difícil se torna discernir sobre as decisões a  serem tomadas, exigindo cada vez mais flexibilidade do psicólogo. Especialmente  em seu início, é o psicólogo que dará forma, selecionando os clientes e dando o  “tom” das interações.

É importante que o grupo desenvolva laços afetivos, que haja um clima de confiança  e abertura, e que acredite no tratamento - essa construção passa pela figura do  psicólogo como a principal referência para os membros do grupo.

Na fase inicial de um grupo terapêutico, o psicólogo ocupa uma posição chave em  que as relações dos participantes estão centralizadas em sua pessoa. Geralmente,  esses clientes não se conhecem e o psicólogo é a figura que os une e dá sentido.  Ele transmite segurança e apoio e serve como modelo para a interação aos  participantes. De acordo com suas características pessoais e sua formação teórica,  o psicólogo pode adotar uma postura mais distante e neutra ou uma postura mais  participativa. De todo modo, é inegável que seu papel constitui-se o de uma  autoridade e, por conseguinte, ele detém um poder diferenciado no grupo.

Em Gestalt-Terapia, como explicam Ginger e Ginger (1995, p.145) “O psicólogo e  seu cliente são dois ‘parceiros’ envolvidos numa relação ‘dual autêntica’, mesmo que  seus estatutos e seus papéis sejam diferentes” (grifos do autor). Assim, o psicólogo se coloca ao lado do cliente para explorar o sintoma e compartilhar essa aventura a  dois. Portanto, ele não é um simples receptador de dados, mas assume uma  posição participativa.  

Essa mesma parceria ocorre no grupo, em que é preciso estabelecer relações  autênticas, especialmente entre os psicólogos e os membros. O psicólogo está livre  para se expressar, compartilhar situações pessoais e revelar o impacto de  determinados temas em si. Tais atitudes dependem da sensibilidade do psicólogo e,  obviamente, precisam estar harmonizadas e bem sintonizadas com o aqui e agora  do grupo e suas necessidades terapêuticas. (Esse conceito é abordado aqui de  forma superficial, pois não é o foco deste trabalho. Há um conteúdo teórico que  norteia essa atitude de o psicólogo usar a si próprio como seu principal  instrumento16). Quero discutir aqui o fato de que essa postura pode gerar  ansiedades e receios ao psicólogo, principalmente, quando está diante de um grupo  de pessoas.

Ao expor aspectos pessoais para o grupo, o psicólogo também pode ser alvo de  sentimentos que vão ao encontro – positiva ou negativamente – das suas  necessidades e limitações enquanto pessoa que é. O psicólogo, mesmo ocupando  uma posição de autoridade, também precisará ser aceito e precisará sentir que faz  parte do grupo.  

Situações de rivalidade e ataques à figura do psicólogo não são incomuns e vão  evidenciar o modo como o psicólogo lida com situações de conflito e rejeição. O  psicólogo pode sentir-se impotente, ficando inseguro e ansioso quanto à sua  capacidade de acompanhar o grupo, o que pode levá-lo a uma postura de  passividade e timidez ou, até mesmo, a uma tentativa de dominação pelo uso da sua  posição de autoridade, assume uma posição de mestre e mentor ao qual o grupo  está subordinado, direcionando, intervindo, aconselhando, entre outros, fazendo  

 

16 Para mais aprofundamento sobre essa noção, consulte “O psicólogo é seu próprio instrumento” In:  POLSTER, Erving; POLSTER, Miriam. Gestalt-terapia integrada. São Paulo: Summus, 2001, p. 35 a  40.

com o grupo acredite que ele é o especialista que detém as respostas que todos  almejam e, portanto, que deve ser seguido e amado.

Independentemente de seu modo particular de trabalho e intervenção, o psicólogo pode nutrir expectativas, receios e ansiedades quanto à definição de seu papel no  grupo por ter que lidar, simultaneamente, com pessoas diferentes, que vivenciam  noções próprias em relação às figuras de autoridade. Há os clientes que tratam o  psicólogo como um doutor – aquele que possui o conhecimento aprofundado que  

poderá curá-lo - outros o tratam como um guru – um guia a quem devem seguir  cegamente - há clientes que vêem o psicólogo como alguém altamente suportivo e  compreensivo – alguém capaz de ouvir qualquer assunto, de qualquer forma e que  estará sempre pronto a compreender - enfim, cada cliente traz em seu imaginário o  modo como acredita que a relação terapêutica se dará.

Os membros sabem que o terapeuta é uma autoridade, alguém que exerce um  poder diferenciado e que não pode ser deposto. Eles, frequentemente, têm relações  antagônicas acerca da autoridade, como sentimentos de dependência, autonomia e  rebelião. Por outro lado, também podem apresentar expectativas irrealistas sobre o  terapeuta como um super-homem, usando essa sabedoria como um escudo para as  dificuldades existenciais (VINOGRADOV; YALOM, 1989, p.124).

Essas representações criam um cenário em que o psicólogo precisa atuar  simultaneamente com diferentes fantasias e projeções, ao passo que precisa constituir seu real papel. Apesar de também ser um membro e de fazer parte da  totalidade específica que constitui determinada dinâmica grupal, o psicólogo precisa  reconhecer e trabalhar com suas dúvidas, expectativas e inseguranças para que  possa desempenhar efetivamente o seu papel no grupo.

2.4. Coterapia

Ter um parceiro para compartilhar o papel de acompanhar um grupo como psicólogo não é uma exigência. Em seu consultório particular, o psicólogo pode, por  conveniência ou por necessidade, atender um grupo sem trabalhar com um  coterapeuta. Na graduação e especialização, porém, havia uma exigência das  instituições de que tal trabalho fosse desempenhado por dois psicólogos. Essa  exigência costumava gerar sentimentos conflitantes nos alunos; por um lado, a  possibilidade de receber apoio em trabalhar com alguém conhecido, mas também,  ansiedade sobre como a coterapia impactaria a relação afetiva anterior. Se, de um  lado, trabalhar com alguém com quem se tem forte amizade pode trazer segurança,  a possibilidade de discordar dessa pessoa, também pode não se expressar  facilmente. Ansiedade maior surgia, no entanto, quando um aluno não conseguia  formar a sua dupla de coterapia.

O trabalho terapêutico pode ser solitário, pois o psicólogo – por seu compromisso  ético – não pode externar livremente o que ocorre no setting; nesse sentido, ter um  coterapeuta pode ser confortador, uma ótima oportunidade para dividir ansiedades, inquietações, alegrias e emoções; além de também ser útil para “cobrir” o colega  caso haja algum problema de última hora.

“Entre eles é importante que haja uma grande homogeneidade de pontos de  

vista, que se sintam confortáveis um com o outro, que se conheçam  

profundamente e que não haja jogo de poder na condução do grupo. Os  

dois se apresentam como uma coisa só, um coterapeuta do outro, sem  

distinção. Os dois são terapeutas do grupo” (RIBEIRO, 1994, p.87).

Todavia, encontrar uma pessoa para estabelecer essa relação tão harmoniosa,  igualitária e complementar pode não ser fácil. Aspectos práticos, como  disponibilidade de tempo e local; aspectos conceituais e teóricos, como formas de  intervenção e; aspectos pessoais relacionados à forma de lidar com o outro fazem  parte das questões a serem avaliadas e (bastante) combinadas. Devido à  importância de fazer esses ajustes, pessoas que sempre trabalharam sozinhas, seja  por necessidade ou preferência, e outras que viveram situações conflituosas em  coterapia anterior podem experimentar grande expectativa e receios em ter que  dividir o “setting” grupal. Sentimentos de rivalidade, competição, inveja,  superioridade/inferioridade, dominação/submissão, entre outros, podem aparecer,  ainda que veladamente, minando a energia da coterapia e gerando impactos na  dinâmica grupal. Essas eventuais dificuldades no relacionamento entre os  coterapeutas é uma das principais críticas ao seu uso, conforme apontado por  Yalom (2006b, p. 349).

Também pode ser estranho para o psicólogo saber o momento certo para se  expressar sem destoar da comunicação de seu colega. Algumas vezes, os  psicólogos presentes no campo podem ter percepções diferentes e até conflitantes o  que pode gerar impasses e/ou dificultar a comunicação e o relacionamento. Como a  comunicação é essencial para o bom andamento da terapia, é imprescindível que os  psicólogos possam abordar honestamente tais questões.

O grupo também pode levar os psicólogos a viver algum nível de tensão por causa  de comparações. Os psicólogos podem passar a competir por atenção e carinho, por  tempo e espaço, ou por um papel específico diante do grupo, como: o mais  inteligente, o mais sensível, o mais compreensivo e assim por diante.

Dependendo da experiência e da autoconfiança, há também o receio de que o  colega possa julgar sua forma de trabalho e que seu desempenho não seja  aprovado. Ao saber que precisará trabalhar em coterapia, o psicólogo pode se sentir  inseguro sobre sua postura e suas intervenções no grupo, pode haver uma  ansiedade de ter que ser aprovado por seu colega, em última instância, a  expectativa de não poder errar.

2.5. Contrato e administração de situações específicas

Além das intervenções e experimentos, o psicólogo precisa dar conta de questões  práticas como aquelas que fazem parte do contrato terapêutico, sem o qual o grupo  não pode subsistir. Tais questões, às vezes, são novidades para o psicólogo de grupo, pois podem diferir bastante, daquelas presentes no enquadre individual. A  falta de experiência na elaboração e condução do contrato foi apresentada por  colegas como um fator gerador de ansiedade e receios.

Como discutido em outros itens deste trabalho, essa ansiedade é aumentada pelo  pouco contato que a maioria dos alunos de graduação e de outros cursos de pós graduação tem com a psicoterapia de grupo durante a formação. Em sua  dissertação de mestrado, PINHEIRO DA SILVA (2015, p.17) corrobora esse  pensamento, informando que não identifica uma atenção da psicologia, enquanto  classe, em promover uma divulgação da psicoterapia de grupo como uma  possibilidade de atendimento.

A responsabilidade do psicólogo para com o grupo é grande e única. Conforme  descrito por Yalom (2006b, p. 227), o psicólogo é responsável por definir o horário, o  lugar e a duração dos encontros; tem que selecionar os clientes; delimitar o número  de participantes; decidir se o grupo será aberto ou fechado; definir custos e normas  iniciais; enfim, ele tem uma função reguladora e regulamentadora sobre a vida do  grupo.

Apesar de o contrato ser discutido, revisado e validado com os membros do grupo (e  obedecer a critérios institucionais – quando o grupo for vinculado a alguma  instituição), não raramente o psicólogo se verá diante de eventos que ferem  aspectos acordados anteriormente. Tellegen (1984, p.77) chama atenção para a  função reguladora do psicólogo na demarcação das fronteiras contratuais em  relação ao grupo e à instituição (quando houver). Explica que, embora o contrato  seja acordado no início da terapia, ele é dinâmico, necessitando ser revisitado em  outros momentos da existência do grupo.

Situações como a criação de subgrupos, surgimento de bodes expiatórios,  interações fora da sessão, problemas persistentes com o pagamento, rotatividade  dos participantes, atrasos e ausências são fatos que podem ocorrer na vida de todos  os grupos. Em algum momento da vida do grupo, uma ou mais dessas situações  podem surgir. O psicólogo precisa estar atento a esses e quaisquer outros fatos que  possam ameaçar a estabilidade e a integridade do grupo e que, de acordo com a  situação, poderão exigir ações mais enérgicas.

Recordo que, tanto no período da graduação, quanto na pós-graduação, uma  situação que costumava trazer bastantes inquietações aos alunos era a formação  dos grupos, isto é, encontrar membros para a composição e/ou recomposição dos  grupos. Muitas vezes, havia clientes que podiam se encaixar em determinado grupo,  mas que não tinham disponibilidade de horário. Essa aflição existente na formação  de grupos novos ou na reconstituição de grupos após a saída de algum membro é  descrita por Yalom (2006b, p.247). O autor destaca que os terapeutas podem seguir  um caminho precipitado na seleção de novos membros, adotando um papel de ter  que “vender” o grupo para os novos candidatos.

Nos dias atuais, ao estabelecer o contrato, é também interessante que o psicólogo trate com o grupo sobre questoes ligadas ao uso de programas de mensagens por celular e redes sociais de modo a criarem suas próprias regras de convivência. Em  um dos grupos que atendi no regime de coterapia, havia uma forte interação dos  clientes fora da sessão por meio do uso de redes sociais. Muitas vezes, conteúdos  expostos e conversas trocadas via web se tornavam temas de sessões. “Até que  ponto essas interações devem ser estimuladas ou desencorajadas pelo psicólogo”? Essa resposta depende das características do psicólogo. A todo o momento, ele  precisa avaliar que nível de conforto o terreno precisa lhe oferecer para que consiga  realizar seu trabalho de modo pleno e ético diante do grupo.

Outra situação contratual interessante ocorrida nos grupos que atendi na  especialização referia-se aos valores pagos pelos clientes. Tais valores eram  definidos individualmente durante as pré-sessões de acordo com o valor que o  cliente informava ser viável. Por isso, havia no mesmo grupo pessoas que pagavam  três vezes mais do que outras, além do que, algumas pagavam por sessão e outras,  mensalmente. Essa peculiaridade era sabida pelos membros desde o início da  terapia, evitando qualquer clima de embaraço ao grupo. É importante que o  psicólogo consiga discutir o contrato levando em conta as necessidades do grupo e  as suas próprias necessidades. Isto é, que regras podem ser excluídas, quais  podem ser flexiblizadas e quais não podem ser negociadas. Se o psicólogo aceita  eliminar, flexibilizar ou manter uma regra com a qual não está confortável, não  conseguirá trabalhar de modo transparente e eficaz.

Durante as sessões de supervisão dos atendimentos na graduação e pós graduação, o gerenciamento do contrato grupal era um assunto recorrente e  costumava ser manifestado com insegurança pelos psicólogos. Não poderia ser  diferente, já que acontecimentos ligados ao contrato são situações recorrentes nas  sessões e, muitas vezes, ameaçam a estabilidade e integridade dos grupos.

O psicoterapeuta também pode se sentir ameaçado ao ter que lidar com a falta de  estabilidade. Constantes atrasos e faltas, alta rotatividade, problemas com o  pagamento, manejo de queixas dos outros membros sobre diferenças nos valores  pagos por cada membro, desistências e saídas inesperadas, ingresso de novos  membros e a possibilidade de ter que excluir membros do grupo eram temas que  geravam ansiedade e insegurança, sendo recorrentes nas supervisões.

Esses tipos de questionamentos podem gerar ansiedade, receios e expectativas  negativas no psicólogo, levando-o a acreditar que não terá condições de dar conta  da administração de tantos fatores complexos. Na tentativa de suprimir tais  experiências, o profissional pode acabar se afastando e desistindo da psicoterapia  de grupo.

III. EXPERIÊNCIA PESSOAL

“Sou humano, e nada que é humano me é estranho.” (TERENCE17, 1992 apud YALOM, 2006a, p. 36)

3.1 Experiências como aluna e psicóloga

Esses receios, expectativas, crenças, ansiedades e preconceitos sobre a  psicoterapia de grupo não me são estranhos, pois, muitos deles, também ecoavam  em mim. A seguir, falarei sobre como foi meu contato com essa modalidade de  psicoterapia e sobre como lidei com tais questões na posição de aluna, psicóloga e  cliente.

 17 TERENCE. Lady of Andros, Self-tormentor & Eunnuch, vol.1, trad. John Sargeant. Cambridge:  Harvard University Press, 1992.

O interesse por grupos estava presente desde a graduação. Na época em que  precisei escolher pela modalidade clínica em que faria meus estágios, embora já  houvesse um namoro com a Gestalt-Terapia, acabei optando por uma abordagem  terapêutica que tinha um foco psicanalítico porque, dentro do enquadre do curso, era  a única que possibilitava o atendimento grupal (e também com famílias e casais).  Assim, iniciei a experiência de ser psicóloga por meio da psicoterapia de grupo.

Como aluna e psicóloga iniciante (na fase dos atendimentos de estágio da  graduação) algumas das grandes preocupações e dúvidas que eu tinha versavam sobre a coterapia. Sempre considerei o “setting” terapêutico um lugar de bastante  intimidade, que deveria privilegiar e estimular contatos genuínos e, portanto, me  questionava se conseguiria encontrar alguém com quem estabeleceria essa relação  de forma coesa, eficaz e inteira. Esse receio era agravado pela falta de qualquer  experiência do tipo, além de estar fazendo uma modalidade de estágio em que o  conhecimento sobre os outros alunos era bem pequeno. As duplas foram formadas aleatoriamente e, infelizmente, minhas preocupações e fantasias se materializaram.

Um estudo realizado com 42 equipes de terapia revelou que as queixas mais  comuns em relação à coterapia estavam associadas a diferenças de orientação  teórica entre os profissionais (PAULSON et al,1976 apud YALOM, 2006b, p. 349). Não por acaso, minha primeira relação em coterapia foi marcada por drásticas  divergências teóricas e conceituais que influenciavam a visão e as intervenções de  cada psicólogo em relação aos atendimentos. O impacto da qualidade do  relacionamento entre a dupla de psicólogos ficou evidenciado pela dificuldade de  comunicação, pela falta de um direcionamento coerente dos atendimentos e,  finalmente, pela dissolução do grupo.

Além dos receios envolvendo a coterapia, também havia insegurança sobre como  montar os grupos, se a escolha dos membros tinha sido adequada, como garantir  que os membros não abandonariam a terapia, o que fazer se houvessem situações  difíceis de conduzir, enfim, muitas fantasias e incertezas. Apesar das dificuldades e  frustrações iniciais, continuei na busca por conhecer e atuar com a psicoterapia de  grupo. Essa busca levou-me a me matricular em uma pós-graduação/especialização  que me possibilitaria ter experiências práticas, embasadas numa teoria mais  profunda sobre esse tema e com um acompanhamento mais frequente. Nessa  etapa, realizava entrevistas individuais, nas quais, muitas vezes, encaminhava  clientes para a psicoterapia de grupo; recebia acompanhamento por meio de supervisões semanais, nas quais também pude acompanhar supervisões de outros  grupos, trocando experiência com psicólogos mais experientes e com neófitos (como  eu) e, principalmente, aprendia com os clientes do grupo nos atendimentos  semanais.

Pude acompanhar o desenvolvimento e amadurecimento de alguns grupos. A cada  novo atendimento, novo contato, os receios iam se esvaindo (ou dando lugar a  outros novos) e a crença nesse modelo de atendimento ia aumentando. Um desses  grupos, em especial, me proporcionou experiências muito intensas. A dinâmica era  marcada por muita exposição, disputas por espaço, confrontos, mas também, por  muito apoio, aceitação, coesão e “feedbacks” verdadeiros. Nesse grupo, pude  observar o poder da interação grupal como fator gerador de mudanças acentuadas e  rápidas na vida dos membros. Relembrando os rostos, as queixas iniciais e as  transformações, vejo que o grupo foi fundamental para o desabrochar de formas  criativas na vida de alguns membros.

A cliente citada no capítulo I, item 1.1, aquela com grave queixa de timidez, após  algumas sessões de terapia, contou ao grupo que foi capaz de participar de uma  peça teatral apresentada para cerca de 300 pessoas em sua comunidade religiosa.  Algum tempo depois, aceitara uma oportunidade de trabalho em que faria locução  para um programa semanal de rádio. Uma cliente que apresentava um quadro de  depressão com episódios de melancolia bastante longos e também crises de pânico  foi ganhando coragem para revelar ao grupo suas queixas em relação à timidez, ao  medo excessivo e sobre seus sentimentos de impotência. Alguns meses após a  experiência da psicoterapia de grupo, a cliente foi demonstrando outras  características, contava momentos em que tinha conseguido se expressar de  maneira firme no trabalho e com a família, além de ter iniciado um planejamento  conciso para montar seu próprio negócio e morar sozinha; passos que sempre quis  dar e que foram estimulados pelas atitudes de confronto e apoio constantes geradas  pelo grupo.

Apesar da insegurança inicial, dos receios e fantasias vivenciados por alguns  clientes, a experiência que adquiri com meus atendimentos e com os relatos dos  atendimentos de outros psicólogos demonstrou ganhos consideráveis aos membros por meio da participação da psicoterapia de grupo. Poder testemunhar a riqueza do  processo e as transformações na vida dos clientes é uma responsabilidade e um  privilégio.

Contudo, houve também momentos difíceis. A potência existente no grupo, capaz de  provocar melhoras e mudanças positivas, também se faz presente nos momentos de  tensão e estresse, amplificando as dificuldades. A seguir, quero compartilhar  algumas experiências que considero interessantes e que retratam alguns desses  momentos delicados.

A primeira formação de nosso grupo terapêutico18 contava com membros que  vinham se empenhando e participando ativamente do processo, apesar disso, fomos  surpreendidos por uma ruptura significativa. Em sessões seguidas, houve a saída de  três clientes do grupo. Em pouco tempo, o grupo que era composto por quatro  pessoas passou a ser um grupo de uma pessoa só19! Duas clientes informaram sobre a necessidade de terminar a terapia por haver novas atividades em suas  rotinas que coincidiriam com o horário do grupo: uma das clientes conseguira uma  oportunidade de emprego e a outra se inscrevera na faculdade. A terceira cliente, no  entanto, abandonou o grupo sem dar retorno. Sobre a desistência prematura de  clientes, Yalom (2006b, p. 268) aponta que em suas primeiras experiências como  psicólogo de grupo, sentia bastante preocupação com esse fenômeno e, de acordo  com sua pesquisa, constatou que se trata de um acontecimento comum que, muitas  vezes, independe da atuação do psicólogo. Seja como for, experimentar essas  saídas de modo tão repentino, me fizeram questionar sobre meu papel como  psicoterapeuta e minha capacidade de poder estar diante do grupo de modo  produtivo.

 18 Grupo atendido no Instituto de Gestalt-Terapia, iniciado no ano de 2010.

Esses acontecimentos súbitos exigiram uma adaptação rápida, pois representavam  mudanças no enquadre e na relação terapêutica estabelecida no grupo. Ao mesmo  tempo em que foi trabalhado o término da terapia com essas clientes, foi preciso dar  

bastante suporte ao cliente que permaneceu no grupo, além de prepará-lo para o  ingresso de novos membros. Imediatamente, esse cliente passou a trazer questões  relacionadas à sua auto expressão e ao modo como lidava com os outros.  Acreditava que seu comportamento, suas ideias, sua maneira de estar com o outro,  em geral, chocavam as pessoas e durante várias sessões relatou a crença de que  fora responsável pela saída dos outros membros devido ao seu comportamento  agressivo.

Sem dúvida, essas situações exigem atenção especial para o estado do grupo e  para o estado dos psicólogos, enquanto pessoas. O grupo de supervisão ofereceu  apoio a mim e à minha coterapeuta e nos deu sugestões de como lidar com esses  acontecimentos. Essa rede de suporte forneceu a serenidade necessária para  trabalhar essas questões com as pessoas que estavam saindo e com aquele que  permaneceu. Coincidência ou não, essas saídas ocorreram no final de ano, data que  para muitas pessoas costuma ser um momento de encerramento de certos ciclos e  abertura de outros. Nós, coterapeutas, preferimos aguardar a passagem desse  período, realizando as sessões do grupo com um único cliente. Logo no início do  ano, o grupo recebeu novos membros, totalizando cinco pessoas. Seu  desenvolvimento era bastante produtivo no sentido de apresentar coesão, aceitação  e feedbacks frequentes. No entanto, ainda assim, o grupo viveu novo processo de  encerramento, desta vez, em decorrência de quebras no contrato (altos índices de  absenteísmo).

Foi checado com os clientes o motivo de tantas faltas e, apesar das intervenções  pontuais que relembravam as normas de funcionamento do grupo acordadas no  contrato terapêutico com cada membro, foi necessário remover dois membros do  grupo. A notícia do desligamento gerou bastante ansiedade para mim, pois minha  expectativa era de que o grupo e, principalmente, os membros faltosos não  aceitariam facilmente tal decisão. De fato, esse atendimento foi bastante tenso, pois,  embora, os clientes soubessem que estavam infringindo normas do contrato e que a  consequência de tal atitude poderia culminar no afastamento definitivo, eles não  queriam deixar o grupo. Por sua vez, o restante do grupo também experimentou bastante ansiedade e sentimentos conflitantes: de um lado, concordavam com essa  medida e, de outro lado, gostariam que os membros permanecessem no grupo.

A retirada de um membro (e, neste caso, foram dois) pode interferir no sentimento  de coesão e integração. Além das fantasias e medos gerados pela saída de  membros, há, ainda, a insegurança sobre a nova formação (mesmo que não entre  um novo membro, a saída de pessoas quebra a formação anterior e produz um novo  arranjo). Ao retirar um membro do grupo, os outros membros podem ter sentimentos  de rejeição, rancor e abandono, mas também, podem interpretar que o psicólogo  segue e zela pelas regras contratuais acordadas por todos, agindo, portanto, para  garantir os interesses do próprio grupo (YALOM, 2006b, p. 269).

 19 De acordo com as normas da instituição responsável pela pós-graduação, os grupos poderiam ser  formados por até seis participantes, além de dois psicólogos.

Dada essa  complexidade, minha coterapeuta e eu discutimos e trabalhamos profundamente o  tema nas supervisões, procurando avaliar os ganhos e perdas que o grupo teria com  a permanência desses participantes ou com sua saída; além dos impactos aos  indivíduos diretamente envolvidos. Também levamos a discussão para o grupo a fim  de estimular o engajamento de todos nesse processo, inclusive, para que  observassem o cumprimento das regras que garantiam a sobrevivência e o bom  desenvolvimento do grupo. Em decorrência dessas reflexões, a retirada desses  membros foi realizada e, em nosso ponto de vista, não causaram prejuízos ao  crescimento do grupo.

Outra questão interessante na experiência com o grupo foi a necessidade de realizar  algumas sessões individuais com um dos membros. Essa possibilidade foi discutida  em conjunto com o grupo e analisada nas supervisões. Buscava-se, neste caso, o  alívio do cliente que se descrevia constantemente como sufocado e cheio de  questões urgentes. Esse cliente estava vivendo dificuldades em sua definição  sexual, bem como, impasses no casamento, problemas no trabalho e situações de  doenças graves, como AIDS e câncer em pessoas de seu convívio direto. O que  percebemos foi uma necessidade muito grande de falar – fato que já se expressava  no grupo. Após as sessões individuais realizadas pela dupla de psicólogos, houve  uma singela, mas perceptível, mudança. Nas sessões seguintes, o cliente teve mais  condições de ouvir empaticamente e participar das experiências trazidas pelos  outros membros do grupo sem buscar, continuamente, formas de manipular a  atenção do grupo para si.

De todas as situações emocionantes ou difíceis, talvez a que mais mobilizou minha energia, no sentido de gerar medos e expectativas, foi viver os términos dos grupos.  Tanto na graduação como na especialização, atendi grupos durante alguns meses e  outros por períodos superiores a um ano. O término desses grupos já era previsto desde o contrato inicial, pois coincidia com o encerramento de cada formação. A  vivência do encerramento de cada um deles, no entanto, foi experimentada de modo diferente. No grupo de terapia que acompanhei durante a especialização, a questão  do encerramento foi progressivamente trabalhada com sessões dedicadas a temas como separação, lutos, perdas e términos. Essa preparação foi importante para o  grupo e para mim, pois pudemos elaborar juntos e prestar atenção sobre esse  processo do fim do relacionamento.

Como psicóloga, senti um misto de orgulho e alegria, ao verificar os ganhos  apresentados pelos clientes desde as suas chegadas ao grupo, mas também, certo pesar por saber que não farei mais parte daquela história e que cada um seguirá o  seu caminho. “Dizer adeus a alguns pacientes é dar adeus a uma parte de nós”. (YALOM, 2006b, p. 306).

3.2 Experiências como cliente de um grupo de terapia

O grupo terapêutico do qual fiz parte surgiu por ideia e iniciativa de algumas alunas  da turma de pós-graduação. Após o encerramento do curso, o grupo de alunas  considerou que seria interessante termos a vivência da psicoterapia de grupo sob a  ótica do cliente. Essa proposta foi aceita pelos supervisores que passaram a ser os psicólogos do grupo.

Por já ter um considerável aporte de informações e vivências devido à atuação como  psicoterapeuta de grupo e por conhecer substancialmente os demais membros e os  psicoterapeutas do grupo, os receios e expectativas que vivenciei foram um pouco  diferentes daqueles expressos pelos clientes que atendi. Minhas maiores  inquietações relacionavam-se ao tempo para abordagem de certos temas, pois  éramos um grupo quinzenal composto de oito pessoas, além dos dois coterapeutas,  e ao fato de como lidaríamos no cotidiano com questões levantadas no momento da  terapia. Esse receio também foi compartilhado por outros colegas, por isso,  buscamos construir um contrato que fosse bem particular, próprio para aquela  configuração específica. Como se tratava de um grupo em que as pessoas se  conheciam previamente foi preciso definir conjuntamente algumas regras e alguns  pontos de atenção. Um desses pontos relacionava-se às interações fora do grupo e  à necessidade de compartilhá-las caso tivessem ligação com a terapia. Outro ponto  referia-se às interações com as demais pessoas de nosso convívio comum que  poderiam ser citadas em algum momento da terapia. (parentes de membros do  grupo que eram conhecidos pelos demais membros).

Ao participar do grupo como cliente, senti como que uma ampliação de fronteiras,  pois tive a oportunidade de vivenciar alguns acontecimentos similares aos ocorridos  nos grupos em que participei como psicóloga. Dois dos acontecimentos mais  marcantes para mim foram as entradas e saídas de pessoas, algo que mexeu com  minha capacidade de aceitação do novo e com o processo de se despedir de  alguém. Essa experiência me levou a exercer um novo papel, experimentando, por outro ponto de vista, a força dos fatores presentes no grupo. Percebi, realmente, o  suporte que vem dos psicólogos e a importância de atuarem com coesão entre si. A  interação com os outros membros também me levou a insights extraordinários,  capazes de produzir mudanças verdadeiras. O maior deles foi adquirir coragem para  pôr em prática planos que estavam no papel.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pelas vantagens oferecidas pela psicoterapia de grupo, a perspectiva do processo  grupal deveria ser mais enfatizada durante a formação do psicólogo. No entanto,  apesar dos benefícios já comprovados, como discutimos ao longo deste trabalho,  ainda há receios em relação à psicoterapia de grupo, não somente por parte dos  clientes, como também, dos profissionais da área. A existência de receios,  expectativas, fantasias, dúvidas, enfim, de ideias preconcebidas envolvendo a  psicoterapia de grupo observadas a partir do contato com clientes e colegas durante  os períodos da graduação (2004-2009) e da pós-graduação (2009-2012) norteou  este estudo. Segundo a bibliografia apresentada, tais preocupações não são  incomuns, já tendo sido alvo de pesquisas.

Sejam quais forem as raízes dessas preocupações, elas podem ser ampliadas pela  falta de conhecimento adequado e falta de um contato mais direto com essa forma  de atendimento terapêutico. Além desses fatores, as próprias dificuldades e  impasses vividos nos contatos sociais e as dificuldades para sustentar  relacionamentos interpessoais gratificantes podem gerar (no cliente ou no psicólogo)  desconfiança no processo de psicoterapia em grupo. Se há dificuldade de interação  e falta de confiança para com seus grupos sociais (a família, a escola, o trabalho,  entre outros.), há grande chance de que a pessoa manifeste a mesma descrença  para com o grupo terapêutico, pois esses grupos constituem uma importante  referência para o surgimento de outros relacionamentos.

Conforme exposto neste trabalho, a psicoterapia de grupo apresenta vantagens  como a possibilidade de alcançar um número maior de pessoas e de otimizar recursos. Ademais, na experiência de grupo, o cliente descobre que não está  sozinho em seu sofrimento, que outras pessoas também vivenciam sentimentos  como vergonha, ressentimento, arrependimentos, frustração e culpa. Essa “simples”  constatação pode levá-lo a ampliar seu olhar sobre si mesmo, ajudando-o a  desenvolver auto suporte e auto aceitação e, consequentemente, a melhorar sua  qualidade de vida. O cliente percebe que pode aprender com seu sofrimento e  também que pode influenciar positivamente o processo terapêutico de outra pessoa.  Essa vivência de se sentir útil é muito importante para o desenvolvimento de uma  boa autoestima, além disso, “entender a dor e fazer uso desse sinal da natureza” (PERLS, 1979, p. 205) ajuda o grupo a crescer na terapia e na vida.

Além do ato de altruísmo (em geral, presente na terapia) quando o grupo escolhe  dar voz e se aproximar de uma história específica, o cliente deixa um pouco em  suspenso suas próprias questões, o que torna possível a descoberta de outros  pontos de interesse e até de soluções ou novas formas para lidar com antigos  problemas. Isso não significa que o cliente deva negar suas questões e deixar de  viver seu sofrimento, pelo contrário, a sabedoria e a dinâmica existentes no grupo  como um organismo trazem uma nova forma de se relacionar com as questões. E  esse fluxo que, muitas vezes, está interrompido na vida da pessoa tende a ganhar  fluidez, trazendo novas perspectivas e possibilidades. A psicoterapia que extrapola o  ‘um a um’ beneficia-se desse poderoso instrumento presente no “setting” grupal que é a força das interações pessoais como disparadoras de mudanças.

A experiência terapêutica em grupo é particularmente rica, pois permite ao cliente  receber “feedbacks” nunca ouvidos e que podem ser utilizados no seu cotidiano. A  partir desses retornos, o cliente pode se dar conta dos resultados que determinadas  atitudes suas geram nas outras pessoas e compreender que esses resultados são,  muitas vezes, diferentes dos efeitos que ele esperava ou acreditava causar. Por  exemplo, um dos clientes do grupo costumava usar palavras pouco comuns e  rebuscadas. Ele acreditava que com tal comportamento ganharia o respeito e  admiração dos demais, no entanto, foi surpreendido quando o grupo relatou que o  discurso do cliente era entediante, gerava hostilidade e não gerava vontade de se  aproximar. A surpresa do cliente residia no fato de nunca ter ouvido tal coisa das  pessoas do seu convívio, o que não é difícil de acreditar, pois a maioria de nós não é  ensinada ou estimulada a prestar atenção em como nos sentimos em relação aos  comportamentos e atitudes alheios. E, mesmo quando podemos reconhecer nossas  reações, não temos o hábito de expressá-las para os outros. O “feedback” grupal  honesto, claro e respeitoso é uma importante ferramenta para que os membros se  deem conta dos seus pontos fortes, de suas potencialidades e de suas limitações no  contato social. Como decorrência, o indivíduo pode criar novos padrões de interação  e também assumir maior responsabilidade sobre suas atitudes.

Outra característica interessante dessa forma de psicoterapia, é que o grupo cria um  ambiente intermediário onde o cliente pode testar certos comportamentos e intuir, a  partir dos efeitos causados nos outros membros, aquilo que pode acontecer em sua  vida “real”. Ou seja, ele pode ensaiar certos comportamentos até que tenha  desenvolvido a confiança e o auto suporte necessários para ter aquela vivência no  seu mundo extra grupo.

Para que tudo isso aconteça, existe a figura do psicólogo como aquele que vai  demonstrar para as pessoas como um grupo terapêutico funciona, servindo como  um regulamentador e um modelo para as interações. O psicólogo deve estimular o  grupo a prestar atenção em si mesmo e no outro, facilitando a troca de “feedbacks”,  explicando sobre a importância dessas interações para o enriquecimento e  amadurecimento de todos. Naturalmente, não obstante o grupo como um todo possa  alcançar bons níveis de desenvolvimento e transformações, é importante considerar  as diferenças, limitações e potencialidades individuais; o ritmo de desenvolvimento  vai acompanhar o que é possível para cada um, naquele momento específico.

O psicólogo é alguém que está ao lado do grupo, acompanhando-o em seu  caminho, ora acolhendo, ora confrontando-o. Seu papel é essencial para emprestar  confiança no processo até que o cliente desenvolva sua própria confiança.  

Estar nessa posição é um privilégio, uma honra e também um grande desafio.  Significa estar diante de um cenário dinâmico que exige inteireza para viver, sentir,  afetar e ser afetado. Para além de toda teoria e técnica, o principal instrumento do  psicólogo é ele próprio e ele só conseguirá fazer isso se, antes de tudo, tiver  encontrado sua própria fé no processo.

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YALOM, I.D. Os desafios da terapia. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006a.  

__________. Psicoterapia de grupo: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed,  2006b.  

YONTEF, G. M. Processo, Diálogo e Awareness. São Paulo: Summus, 1998.  20 De acordo com a Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 6023.

Endereço para correspondência: Priscila Abdias da Silva Bolorini  

E-mail: priscilaabdias@gmail.com

Recebido em 24/08/2016

Aprovado em 24/08/2016

Revista IGT na Rede, v. 13, nº 24, 2016, p.134-172 DOI 10.5281/zenodo.15054360

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526