ARTIGO

Diálogos, marcas e conexões: o método em Teoria Ator-Rede Dialogues, marks and connections: the method in Actor-Network Theory Gustavo Borges de Oliveira

RESUMO

O presente artigo pretende discutir a experiência de pesquisar com o referencial metodológico da Teoria Ator-Rede. Essa ferramenta metodológica  utilizada foge do modo de pensamento do realismo euro-americano. O método  foi utilizado na prática de pesquisa com o intuito de descrever a multiplicidade presente na favela de Santa Marta, que a fazia “favela modelo” nos anos de 2013 e 2014. Esse método é baseado nas idéias de Bruno Laour, John Law,  Annemarie Mol e Donna Haraway. Esse método é performado pelo encontro de  humanos e não-humanos.

Palavra-chave: Metodo; Teoria Ator-Rede; Multiplicidade.

ABSTRACT

This article discusses the experience of research with methodological  framework of Actor-Network Theory. This methodological tool used escapes the  modern western way of thinking. The method was used in the research practice  in order to describe the present multiplicity in the slum of Santa Marta, which  was "slum model" in the years 2013 and 2014. This method is based on Bruno  Laour ideas, John Law, Annemarie mol and Donna Haraway. This method is  performs by the meeting of humans and non humans.

Keyword: Method; Actor-Network Theory; Multiplicity.

Introdução

Este artigo consiste em apresentar o método que utilizei durante a minha  pesquisa de mestrado. Na minha dissertação mapeie as práticas que compõem  os diferentes Santa Marta. A ferramenta metodológica utilizada foge do modo  de pensamento moderno ocidental. Nela descrevo as múltiplas práticas que  fazem o Santa Marta ser considerado favela “modelo”. Nesse texto aponto  quem são os meus aliados, quais conexões foram feitas entre as leituras do  grupo de pesquisa e o que foi encontrado em campo. Utilizo, como referencial  teórico, autores dos estudos Ciência Tecnologia Sociedade (CTS) e da Teoria  Ator-Rede (TAR). Posteriormente, apresentarei o que são ambos.

Este artigo é divido em três partes: na primeira, busco fazer uma explanação do que é o realismo euro-americano, por ser um pensamento dominante nas  chamadas ciências sociais, incluindo a psicologia. A principal questão do  realismo euro-americano é a crença na existência de uma única realidade,  coerente, lá fora, longe do sujeito. Nesta perspectiva, o sujeito conhece a  realidade, mas não a influencia, ele não se afeta. Acredito ser importante falar  sobre o realismo euro-americano para deixar bem claro que o caminho seguido  neste trabalho vai no sentido contrário a ele. Na segunda parte, faço uma breve  apresentação do que são os estudos CTS, para que o leitor conheça o campo  de trabalho dos autores que eu utilizo e de onde surgiu a TAR. Apresento,  ainda, a importância do trabalho da Annemarie Mol que utiliza a TAR dando uma guinada à prática, diferente do modo mais tradicional de a TAR se situar  no campo. Em seguida, mostro o método utilizado por Mol para lidar com a  multiplicidade. Destacando preferencialmente o conceito de conexão parcial, o  qual ajuda a evitar que a multiplicidade se confunda com o relativismo.  

Por fim, mostro a integração de um mundo múltiplo, onde tudo é situado e as  relações entre os seres são parcialmente conectadas. Um simples objeto se  tornará algo extremamente complexo, com efeitos surpreendentes, conectado  a uma rede com diversas camadas. No fim desta leitura, é possível ter  conhecido e sintonizado diferentes realidades.

Realismo euro-americano  

Os pesquisadores de métodos das ciências sociais passaram o último século  trabalhando com a suposição de que o mundo é corretamente entendido como  um conjunto bastante específico, determinado e mais ou menos identificável. É  o que Law denomina realismo euro-americano (LAW, 2003a; 2004a). Desse  modo, tais pesquisadores buscavam métodos que assegurassem qualidade e  precisão na representação do mundo.  

O principal ponto do realismo euro-americano é a concepção de que há uma  realidade lá fora, independente de nós e de nossas ações. Essa suposição  gera outras consequências: (MORAES, 2010)

a) A realidade lá fora é anterior a nós, isto é, o real sempre precede  

qualquer tentativa de conhecê-lo;

b) O real é preciso, delimitado e definido.

c) A realidade lá fora é uma só, única. Uma só realidade, passível  

de ser conhecida de muitas perspectivas. Estas diferentes  

perspectivas são, isso é importante, diferentes modos de  

conhecer algo que é único. O mundo lá fora permanece o  

mesmo, a despeito de ser conhecido de muitos modos  

(MORAES, 2010, p.32).

Dessa forma, para o realismo euro-americano, o real pode ser conhecido por  um sujeito de conhecimento, capaz de abordar o real sem com ele se misturar,  garantindo que o resultado de seu conhecimento seja preciso, delimitado,  definido, anterior e independente de qualquer intervenção (MORAES, 2010).  Parte-se do pressuposto que existe uma única realidade, apesar de  perspectivas diferentes sobre ela. Para Law, a literatura dos mundos sociais,  nesse caso, funciona assim: embora possamos viver em vários mundos  sociais, vivemos em uma única realidade natural ou material.

Law (2003a; 2004a), todavia, faz parte do grupo de estudiosos que entendem  que o mundo é fluido, indefinível e múltiplo. Para ele, existem diferentes  realidades, não necessariamente consistentes e que, portanto, os métodos  precisam nos ajudar a conhecer e lidar com o mundo em sua fluidez e  multiplicidade. Assim, precisamos reinventar as práticas e, consequentemente,  as políticas, para lidarmos com a bagunça do mundo.

Assim, para o realismo euro-americano, o Santa Marta seria único e existiriam  diferentes pontos de vista a respeito dele. O ponto de vista do turista, do  policial, dos moradores e do pesquisador seriam diferentes. O último, ao ir a  campo, não se afetaria e o resultado de sua pesquisa seria o mesmo,  independente de sua intervenção. Porém, não foi exatamente isso que  experimentei em minha relação com esse campo. Vi e vivi não apenas um  Santa Marta, mas muitos e são a eles que me refiro nesse trabalho.  

Portanto, escrevi sobre o realismo euro-americano com intuito de mostrar o  oposto do caminho do qual este artigo segue. Quero deixar claro o que conta  como realidade para mim. A filósofa Annemarie Mol (2002), em seu livro The  Body Multiple, contraria o realismo euro-americano e eu sigo pelo caminho  dela, utilizando o seu método em minha pesquisa.  

Mol e a Multiplicidade  

Annemarie Mol é médica e filósofa, além de ser uma importante autora dos  estudos de Ciência, Tecnologia e Sociedade (estudos CTS). Os estudos CTS é  um campo que surgiu nos anos 80, em que reuniu autores de diferentes áreas  do conhecimento e locais. Nos trabalhos produzidos por esses autores, os três  domínios que nomeiam esse campo de estudos não são separados e  desarticulados, mas sim co-produzidos através de associações heterogêneas  que articulam humanos e não humanos. Isso significa que a ciência, a tecnologia e a sociedade são pensadas juntas. No campo dos estudos CTS, o  social não é considerado como algo dado, definido de antemão. Ele é efeito de  certos arranjos ou associações que reúnem elementos muito diferentes  (MORAES; ARENDT, 2013).

O princípio básico dos estudos CTS é que o conhecimento científico e  tecnologias não evoluem no vazio. Em vez disso, eles participam de um mundo  social, sendo colocados em forma, moldados simultaneamente. Algumas  dessas implicações são incontestáveis. Quem vai negar a importância social da  informática e que ela não é moldada pelas implicações econômicas e sociais?  Outras são menos óbvias. Como é o conteúdo do conhecimento científico? A  prática científica ajuda a produzir os objetos que descreve e explica? Muitos  estudiosos dos CTS diriam que sim para a última pergunta. Mas como é óbvio,  todos, em maior ou menor grau, contrariam tanto o senso comum como  versões de filósofos sábios (LAW, 2004a). Os estudos CTS tornam disponível  um argumento muito forte sobre a construção social de todas as formas de  conhecimento e desconstrói a segurança das formas científicas. Neles,  nenhuma perspectiva interna é privilegiada. Todas as fronteiras internas e  externas do conhecimento são teorizadas como movimentos de poder e não  como movimentos em direção à verdade.  

Não posso deixar de registrar aqui que as duas principais autoras que eu utilizo  como referência são feministas: Annemarie Mol e Donna Haraway. Os  trabalhos das feministas foram de grande importância para o campo dos  estudos CTS. Muitos anos atrás, quando Latour e Steve Woolgar descreveram  o laboratório como uma cozinha, em vez de um lugar de crânios da ciência,  lembraram o movimento feminista. Donna Haraway mostrou como que a  ideologia da família nuclear foi literalmente materializada nas gaiolas utilizadas  em pesquisas com primatas. Devido às preocupações das feministas CTS, os  estudos CTS sofreram algumas mudanças. Durante os primeiros anos da  segunda onda de pesquisas feministas, elas lutaram pela inclusão da ação  política, poesia e arte nas pesquisas em ciências sociais. Elas incluíram a arte  e estética como algo importante ao se fazer estudos CTS. Nos anos 1980,  antes dos estudos da ciência trazerem para análise os não-humanos, as  feministas citavam o mundo natural. Isso era feito com o intuito de chamar  atenção para as práticas de citação. Elas citavam diferentes não-humanos,  como por exemplo, árvores, aranhas e gatos. Elas também aprenderam a citar  conversas umas das outras. Ao fazerem isso, elas perceberam que era algo  interessante e podia ser uma ação subversiva. Os trabalhos das feministas  CTS vão se caracterizar ao pensarem na forma como se está sendo feita a  ciência e o que isso promove. Elas vão pensar no efeito que isso gera no  mundo (BAUCHSPIES; BELLACASA, 2009). Como no exemplo da citação,  elas chamam atenção para a forma como o texto está sendo performado. A  forma como o texto é performado gera efeitos.

Nem todos os autores utilizados aqui são da tradição da TAR, como é o caso  da Donna Haraway. Os estudos pós-teoria ator-rede devem muito a Haraway  (LAW, 2004b). Os autores da TAR começaram nos estudos CTS. O principal  argumento desses autores é que o conhecimento é um produto social. Ele é produto ou efeito de uma rede de materiais heterogêneos. O conhecimento,  para esses autores, sempre assume formas materiais. Ele aparece em artigos,  livros, falas em apresentações ou conferências (LAW, 2003b).

Para Mol (2010), a Teoria Ator-Rede não define os termos “teoria”, “ator” e  “rede”. Ela brinca com eles e não faz buscar uma coerência. Vou entrar na  brincadeira da Mol e fazer uma breve explanação do que seriam esses termos. Depois, aponto a importância dos trabalhos da Mol para essa teoria.

Responder o que é um ator é algo complexo. Uma coisa qualquer como uma  porta seria um ator? A TAR não é muito sensível a essa pergunta pois não se  questiona o que pode ser um ator. O interesse da TAR vai se dar em mudar nossa compreensão e sintonizar com realidades diferentes. A TAR não  pergunta aos atores de onde as atividades deles vêm, mas sim para onde seus  efeitos vão, incluindo os efeitos mais surpreendentes (MOL, 2010).

Um ator nunca atua sozinho. Ele atua em relação com outros atores, conectado  a eles. Isso significa que sempre se atua sobre eles. Atuar e ser atuado vão  juntos. Mais ainda, um ator-atuado não tem o controle. Atuar não é dominar,  posto que os resultados do que se está fazendo são inesperados  frequentemente (LAW; MOL, 2009).

No Santa Marta, para o bonde (um ator não humano) funcionar, depende da  atuação de um operador, de uma equipe de manutenção, que faz reparos  semanalmente, e da energia elétrica. Mas mesmo o operador trabalhando  normalmente, a equipe de manutenção fazendo seu trabalho e sem a favela  apresentar problemas com energia elétrica, o bonde, frequentemente, não  funciona. Muitas vezes, no meio da descida, ele para e o operador precisa  tentar resolver algum problema. O operador é outro ator. Nem sempre ele  consegue resolver o imprevisto do mal funcionamento. Algumas vezes, é  preciso que o bonde fique parado até que a equipe de manutenção consiga  fazer os devidos reparos. Para um desatento, parece que o operador tem pleno  controle do bonde, que faz tudo sozinho, mas se o bonde não colaborar, o  operador não faz seu trabalho. Presenciei esse ocorrido em junho de 2014,  durante o lançamento da campanha “linha de frente1”, no campinho, no Pico do  Santa Marta. Subi normalmente pelo bondinho. Na volta, ele demorou muito  para chegar à última estação. Na descida do segundo bonde, responsável por  deixar os moradores na parte baixa da favela, ele parou várias vezes. No final,  o operador parecia já estar cansado de tentar fazê-lo funcionar. Para Melo  (2006), vivemos em um mundo repleto de objetos, coisas que fazem parte das  relações que temos com outros elementos que povoam o mundo. Os objetos  não são intermediários, eles próprios produzem efeitos.

Para Mol (2010), um ator age, mas qual a intensidade dessa ação? Podemos,  de fato, pensar num ator como algo ou alguém isolado? Pode ser que um ator  seja celebrado como um herói, mas ele só parece tão forte porque a atividade  de muitos outros são atribuídas a ele. Um ator separado, ao ser destacado, só  o é pelas atividades de todos os atores associados envolvidos. Um  

estrategista, por exemplo, pode ser inventivo, mas ninguém age sozinho.

Despret (2012), uma importante autora dos estudos CTS, em seus textos sobre  a etologia, acrescenta diversas camadas. Uma questão que ao ser observada  

1 Foi uma campanha realizada pela ONG Justiça Global, que conta a história das pessoas que  lutam pelos direitos humanos. Nesse dia, foi exibido o vídeos com a história de pessoas que  lutam pelos direitos humanos. Mais informações sobre essa campanha podem ser obtidas no  site < http://www.linhadefrente.org/ > acessado dia 27/10/2014.

superficialmente parece ser simples, ela deixa altamente complexa. Na TAR,  lições sobre o que poderia ser um ator surgem cada vez que novos casos são  considerados. A questão não é purificar o repertório, mas sim enriquecê-lo,  adicionar camadas e possibilidades. Não é possível determinar o que é feito  para ser um ator na TAR. Ela não define o que é um ator; em vez disso, ela  brinca com ele (MOL, 2010).

Para a TAR, tudo que existe é constituído de redes. As coisas existem graças  às suas relações. Podemos exemplificar o peixe, que é constituído pela água  em que ele nada, sua temperatura, o seu pH, o plâncton e outros animais  menores que ele come e assim por diante. Mas o peixe também se relaciona  com carne, porque compete nos mercados de alimentos. Os atores dependem  dos outros ao seu redor, mas não significa que eles são causados apenas por  essa proximidade. A causalidade tende a assumir uma forma determinista. Explicações causais não costumam deixar claro como aquilo foi originado. Por  outro lado, em uma rede, os atores são levados a agir pela sua própria  capacidade de se relacionar com o que está entorno deles. Se a rede em torno  deles vacila, eles podem vacilar também. Se eles não estão sendo colocados  em cena, não conseguem fazer tudo sozinhos. Eles param de trabalhar (MOL,  2010). Observando camadas mais superficiais da rede, no exemplo do bonde,  ela é composta pelos atores da equipe de manutenção, operador, sistema de  energia elétrica. Se algum desses elementos da rede falhar, o bonde não  funciona, eles precisam trabalhar em conjunto.  

A TAR surge com a associação de atores, formando, assim, uma rede em que  todos eles são construídos “atores” e a associação permite a cada um deles  agir. Eles são colocados em cena, habilitados, adaptados por seus associados,  colocando em cena2 a realidade. Como os atores vêm participar em diferentes  “redes”, discursos, lógicas, modos de ordenação, práticas, as coisas ficam  complexas. Os atores começam a variar de rede e, com isso, o discurso, a  lógica e o modo de ordenar variam (MOL, 2010). Com a criação do plano  inclinado, o acesso às partes mais altas da favela ficou mais fácil. Antes, para  se chegar ao pico, só era possível com algum veículo automotor, por uma rua  extremamente íngreme, a Oswaldo Seabra, ou encarando os 788 degraus.  Com a entrada em cena desse novo ator, a vida das pessoas que moravam  nas partes mais altas da favela modificou muito. Antes do bondinho existir,  crianças ficavam na parte baixa do morro ajudando os mais velhos a carregar  as sacolas escada acima, em troca de alguns trocados. Com o bondinho  funcionando, os adultos não precisavam mais das crianças ajudando nisso.

As atividades têm efeitos complexos e frequentemente imprevisíveis. As redes  que interferem e produzem montagens também conduzem a surpresas. O que  explica o que emerge é difícil de saber, porque as montagens, como os atores,  são criativas. Produzem efeitos novos e fazem coisas novas (LAW; MOL,  

2009).

Estar conectado e ser heterogêneo não são o suficiente para se falar em rede.  

2 Utilizei a expressão “colocando em cena” como forma de traduzir o termo “enacting”.

Depende do tipo de ação que está fluindo de uma coisa para outra. Em inglês,  a TAR é chamada de actor net work. Esse termo fica mais claro na palavra  “network”, pois há a net, a rede, e o work, o trabalho. Deveríamos dizer  “worknet”, pois o foco na TAR é na prática. Ela está preocupada com o  trabalho, com o movimento, com o fluxo e com as mudanças que devem ser  enfatizadas nas pesquisas. Pelo nome, parece que estamos nos referindo à  internet ou algo parecido. (LATOUR 2006).

Segundo Mol (2010), Michel Callon afirma que a TAR não é uma teoria. Isso é  verdade por vários motivos: o social e o físico são estudados juntos, em  trabalho da TAR; não há tentativa de tirar conclusões de vários estudos juntos,  em um quadro explicativo abrangente; não há uma tentativa para caçar provas,  em vez disso, o objetivo é traçar os efeitos. Os efeitos que são rastreados são  principalmente os inesperados. Isso é facilitado chamando todas as entidades,  atores. O que os atores fazem é de uma forma ou de outra surpreendente. Isso  implica que a TAR não doma o mundo teoricamente, ou sugere que os eventos  possam ser previsíveis. Muita pesquisa é feita e as surpresas nunca são  banidas, em vez disso, elas são atendidas.  

Para Mol (2010), a TAR pode ser chamada de teoria se um trabalho dela  alterar radicalmente o termo teoria. Para ela ser uma teoria, é preciso que os  estudiosos ajudem a sintonizar o mundo para se ver e ouvir, sentir e saborear,  para de fato apreciá-lo. A TAR é um modo de se envolver com o mundo, que  ajuda na obtenção de sentido do que está acontecendo, no que merece  preocupação ou cuidado, raiva ou amor ou simplesmente atenção. A força da  TAR está em sua adaptabilidade ou sensibilidade. Ela ajuda a contar casos,  desenhar contrastes, transformar perguntas e colocá-las de cabeça para baixo,  focar no inesperado, adicionar sensibilidade, propor novos termos, mudar a  história de um contexto para o outro; além de tudo isso, ser um amante da  realidade. Com a TAR, lidamos de forma diferente com o mundo, criamos o  hábito de observar como diversas realidades são performadas por diferentes  redes. Nela, vamos sendo afetados por coisas diversas. Assim, as nossas  percepções e sensibilidades se focam mais na dinâmica das coisas, nas  transformações, na performance e não no que é regular, no que está  estabilizado.

A TAR defende a ideia de que os seres humanos estabelecem uma rede social,  não só porque interagem com seres humanos, mas também com outros  materiais. O social não se deve só pelas pessoas, mas também pelas máquinas, animais, arquiteturas, laboratórios... A TAR permite verificar uma  multiplicidade de matérias heterogêneas conectadas em uma rede de múltiplas  entradas sempre em movimento, aberta a novos elementos que podem se  conectar de maneira inédita e inesperada. Todos os fenômenos são feitos  dessa rede, que mescla simetricamente pessoas e objetos, dados da natureza  e dados da sociedade, oferecendo-lhes igual tratamento (MELO 2006). A TAR  é uma teoria não moderna. Isso significa que ela não separa natureza e cultura,  humanos e não-humanos, nem tenta explicar níveis inferiores tomando como  referência os níveis superiores. O homem é híbrido, construído por uma série  de coisas, uma rede de relações heterogêneas, e a sociedade não passa de  associações.

Nessa teoria, os não-humanos são de fundamental importância. Os humanos  criam objetos interferindo sobre eles, mas estes objetos também modificam a  forma de viver do ser e de estar no mundo dos homens. Durante a nossa vida,  na nossa relação com eles, ocorrem parcerias em que humanos e não humanos tornam-se híbridos sócio-técnicos, misturando as qualidades do  mundo físico com as do mundo mental. Nossa vida não transcorreria isolada da  ação dos objetos sobre nós. Para Melo (2006), nós não os submetemos, não é  o pesquisador que o domina, eles têm agência, são ativos.

A TAR é uma família disparatada de instrumentos material semióticos  

e métodos de análise que tratam tudo nos mundos natural e social  

como efeitos continuamente gerados por redes de relações. Ela não  

é propriamente uma teoria, mas um conjunto de procedimentos  

sensíveis à complexidade desta rede de relações que contam  

histórias interessantes sobre elas e sobre o que nelas interfere. Ela  

visa estudá-las, explorá-las, descrevê-las e acompanhar a produção  

ou remodelação de todo o tipo de atores – o que inclui objetos,  

sujeitos, seres humanos, máquinas, animais, “natureza”, ideias,  

organizações, desigualdades, escalas ou arranjos geográficos. Neste  

sentido, nada tem realidade ou forma fora da articulação destas  

relações (ARENDT; MORAES, 2013, p.315)

Law (2007, 2009) procurou então mostrar como a história da TAR  

pode ser contada através de uma sucessão de narrativas  

empiricamente fundamentadas. Não caberia aqui entrar no detalhe  

das histórias contadas por Law (histórias de casos da engenharia,

filosofia das ciências, biologia, estudos científicos, que exploram  

vínculos estranhos e surpreendentes entre barcos, bacilos, moluscos  

ou textos científicos), mas registrar, em todos os casos, a atenção  

dada à arquitetura dos sistemas, à materialidade heterogênea das  

relações, à sua precariedade no tempo e no espaço, à  

indiferença dos pesquisadores quanto à verdade ou não do que  

está sendo investigado, mas a uma decisiva ênfase naquilo que  

é produzido pela prática, no interesse pela circulação destas  

produções e pela importância dada ao estudo exemplar de casos  

particulares (ARENDT; MORAES, 2013,p.315).

Para Arendt; Moraes (2013), nos anos 90 do século passado, a TAR buscou  explorar a lógica das configurações que poderia levar a uma relativa  estabilidade. Esse pensamento era contrário ao da sociologia, que sempre  procurou os porquês. Em grande parte das pesquisas empreendidas pela TAR, o que estava em jogo era como os objetos chegavam a se estabilizarem e se  tornarem duráveis, em determinadas redes.

Os trabalhos de Mol são contribuições importantes para repensar a pesquisa  em psicologia social. Um desses fatos é que eles convocam as pesquisas em  ciências sociais a darem uma guinada na prática. Isto significa que a autora  propõe que nós investiguemos as práticas cotidianas; no caso dela, são as  práticas cotidianas de viver com aterosclerose nos membros inferiores,  diabetes, anemia, etc. Para ela, a realidade não é algo dado de antemão, mas  o efeito das práticas que fazem existir realidades. As realidades são múltiplas,  heterogêneas, articulam atores humanos e não-humanos. Como conseqüência,  conhecer não é representar o real, mas interferir nas práticas em que elas  formam realidades (ARENDT; MORAES, 2013).

No trabalho de Mol, a TAR entra em uma fase performativa e dá uma virada na  prática. Nele, emergem novos conceitos e novas preocupações. São  necessárias novas estratégias metodológicas para lidar com o distribuído,  múltiplo, o não casual, o caótico, que abrem uma perspectiva até então  inusitada na TAR: se os pesquisadores fazem, criam as realidades que  investigam, se são as práticas dos atores que colocam o mundo em cena,  torna-se possível interferir nessa criação e formar outros mundos (ARENDT;  MORAES, 2013).

Para Arendt; Moraes (2013) nos trabalhos mais recentes de Mol, ela se  dedicou a estudar a maneira de como se desdobra o tratamento de doentes  com diabetes. Ela estava interessada em descrever como se articulavam: os  pacientes, enfermeiros, médicos, dispositivos técnicos, substâncias químicas,  entre outros atores, no hospital e no cotidiano dos pacientes. Ela acompanhou  o que faziam esses atores, ao se articularem entre si, e quais as  consequências dessas articulações no cotidiano dos pacientes. O interesse  não se dava na descrição desse fazer, mas principalmente na maneira como a  realidade era “performada” pelos atores, como eles se uniam para manipular e  colocar em cena tal realidade. Os trabalhos de Mol se caracterizam por um  mergulho nas práticas médicas.

O interesse dela não é focado em questões epistemológicas. Ela não deseja  utilizar a filosofia para estabelecer as condições de um conhecimento  verdadeiro. A pergunta dela não é “como encontrar a verdade”, mas sim “como  os objetos são manejados na prática”. Com esse deslocamento, ela pretende  que a filosofia do conhecimento adquira um interesse etnográfico (ARENDT;  MORAES, 2013).

Para Arendt; Moraes (2013), Mol propõe que passemos de uma investigação  epistemológica da realidade, cujo viés, em última instância, seria conhecer uma  realidade já dada, para uma pesquisa praxiográfica. Isso significa que apenas  nas práticas os objetos são feitos, só em ação que alguma coisa é, que alguma  coisa passa a existir. O pesquisador que for investigar as práticas de diabetes  ou aterosclerose jamais se afasta das práticas nas quais as doenças são feitas.  O trabalho de Mol consiste em analisar os modos como a doença vai sendo produzida e ordenada em arranjos múltiplos e heterogêneos. Com isso o que  passa a interessar ao pesquisador é investigar conexões parciais e locais entre  as realidades e objetos.

No seu livro “The Body Multiple”, Mol vai trabalhar em um hospital, na Holanda,  para saber como os médicos e pacientes lidam com aterosclerose dos  membros inferiores. A pergunta de Mol é o que é a aterosclerose dos membros  inferiores (LAW, 2004a). Para responder a essa pergunta, ela vai precisar  mergulhar no mundo da multiplicidade de realidades (MOL, 2002).

Nesse seu livro, a multiplicidade ganha contornos cada vez mais complicados.  Ela se embrenhou no labirinto das práticas de um hospital, acompanhando as  formas como aterosclerose de membros inferiores era abordada nos diferentes  espaços de tratamento disponibilizado. Ela queria verificar como o paciente  era recebido no consultório clínico, como a doença era concebida no setor de  patologia, no centro cirúrgico, no laboratório, setor de nutrição e como eram  avaliados os tratamentos preventivos, as intervenções cirúrgicas e as análises  de tecido. Qual a importância de acompanhar tais práticas? Mol responde: este  livro trata-se de um exercício de filosofia empírica, parte de uma narrativa  filosófica (ARENDT; MORAES, 2013).

Mol descreve, pelo menos, cinco lugares onde a aterosclerose dos membros  inferiores acontece, mas ela poderia encontrar mais. Ela escreve, por exemplo,  uma alternativa não invasiva de tratamento de claudicação intermitente3. Ela  também visita o departamento de hematologia, onde há investigação sobre a  formação da placa que conduz a estenose da perda lúmen. Há vários locais e  cada um com seu próprio método de aglutinação, seu próprio conjunto de  artesanato e práticas relacionadas com a saúde. Precisamos aceitar que cada  um desses conjuntos de métodos produz sua própria versão de aterosclerose,  e que existem múltiplas ateroscleroses. Mas ao falar sobre isso com os  profissionais, eles falam sobre um único objeto ou à cerca de um conjunto de  objetos e processos que se encaixam em um conjunto para produzir uma única  realidade (LAW, 2004a).

Essa visão dos profissionais coloca em cena a versão do realismo euro americano, em que a realidade da aterosclerose está lá fora, feita  anteriormente e independente da intervenção médica. Eles supõem que vão  abordar a mesma realidade. Com certeza, às vezes, tudo funciona sem  problemas. Dor no pé, exame clínico, angiografia, doppler, intervenção  cirúrgica e patológica, tudo se encaixa para produzir uma única aterosclerose  coordenada (LAW, 2004a).

Outras vezes, os profissionais são confrontados com realidades mal  coordenadas. As contradições são importantes para a prática diária da  medicina. A maior preocupação do médico está em o que fazer. Em um mundo  ideal, todas as indicações se somam e se encaixam. Mas como o mundo não é  perfeito, muitas vezes, os envolvidos têm que trabalhar de forma a agir em face  de indicações contraditórias. Os profissionais médicos precisam trabalhar com  várias verdades possíveis (LAW, 2004a).

Os médicos do hospital onde Mol trabalhou tentaram diagnosticar e tratar a  aterosclerose dos membros inferiores com pelo menos meia dúzia de métodos  e agenciamentos. A relação entre eles, às vezes, soa incerta, vaga, difícil,  contraditória. Mol chama isso de “problema da diferença”. Nós não estamos  lidando com diferentes e, possivelmente, perspectivas falhas sobre o mesmo objeto. Pelo contrário, estamos lidando com diferentes objetos produzidos em  diferentes agenciamentos de método. Esses objetos se sobrepõem sim, mas  não são os mesmos. Diferentes realidades estão sendo criadas e ajustadas  mutuamente de modo que podem ser relacionadas com maior ou menor  dificuldade (LAW, 2004a).

Existem diferentes ateroscleroses, no hospital; mas, apesar das diferenças,  

3 Claudicação intermitente é uma sensação de câimbra presente ao fazer exercícios físicos.  Uma das suas causas pode ser aterosclerose, doença pesquisada por Mol.

 elas estão conectadas. A aterosclerose é colocada em cena mais que uma, menos que muitas. O corpo é múltiplo e não fragmentado. Mesmo que ele seja  múltiplo, ele também se encaixa. A pergunta então é como isso é feito (MOL,  2002).

Se atendermos às práticas, tendemos a descobrir a multiplicidade. Um ponto  importante é descobrirmos a multiplicidade e não o pluralismo. A diferença  entre plural e múltiplo, é que o primeiro é uma aterosclerose em várias versões;  o segundo é que em cada tipo específico de articulação se faz uma  aterosclerose diferente. Então não há uma aterosclerose em várias versões, e  sim em cada versão performada uma aterosclerose. Essa é uma diferença  muito sutil, mas é muito importante, porque se pode correr o risco de conferir  uma certa estaticidade ao objeto e parecer que somos nós que vemos o objeto  de maneira diferente. Mas, na verdade, são as práticas que fazem um outro  objeto. A ausência de singularidade não significa que a realidade é  fragmentada. Implica em algo muito mais complexo: diferentes realidades se  sobrepõem e interferem umas nas outras. Suas relações parcialmente  coordenadas são complexas e confusas (LAW, 2004a).

O termo aterosclerose é um mecanismo de coordenação operacional em  conjunto com as várias distribuições. Ele preenche os limites entre os locais em  que a doença é distribuída. Assim, ajuda a impedir que a distribuição se torne a  pluralização de uma doença, objetos separados e independentes. Quando nós  visitamos um hospital (ou qualquer outro lugar), estamos em um mundo  fracionário. Um mundo em que os corpos, organizações ou máquinas são mais  do que um e menos do que muitos. Em algum lugar no meio (LAW, 2004a).

John Law e Annemarie Mol (2009), encontram a multiplicidade ao estudarem a  ovelha de Cumbria. Eles dizem que, ao desemaranhar as práticas que uma  ovelha figura, ela é atuada de uma forma ou de outra, não descobrimos uma  ovelha unificada e coerente; pelo contrário, encontramos uma “ovelha múltipla”.  Isso acontece porque em cada prática se produz uma ovelha ligeiramente  diferente. Por isso, é multiplicidade, não uma pluralidade. Há complexas e intrincadas relações entre as diversas versões de uma ovelha. As histórias das  diferentes versões das ovelhas de Cumbria, em março de 2001, ao mesmo  tempo incluem e excluem cada uma das outras.

Conexões parciais  

No texto “O ator-atuado: a ovelha da Cumbria de 2001”, Mol e Law (2009)  trabalham com a questão da multiplicidade. Lá, eles vão defini-la como algo  que é mais de um e menos do que muitos. Após essa definição, há uma nota  de rodapé que fala sobre a noção de conexões parciais, citando a feminista Strathern4. Law faz a mesma coisa no terceiro capítulo do seu livro  “AfterMethod”. Após falar sobre a multiplicidade, escreve um texto apontando a  importância das conexões parciais. Essa noção ajuda esclarecer a  multiplicidade. O ser nunca está sozinho, está sempre em conectado  parcialmente, mas isso não é definitivo. Haraway, no seu texto “Saberes  localizados”, desenvolve essa questão. Conexão parcial é toda uma situação  que me constitui, porque não é totalizante nem totalitária. A partir dessas  situações eu sou constituído. Isso não significa que conexão parcial seja algo  que acontece apenas dentro de uma pessoa, é algo muito mais amplo que  isso. Nessa noção você trabalha com várias disciplinas ao mesmo tempo. Por  exemplo, no Santa Marta, eu estava conectado parcialmente com a arquitetura  da favela, com o bondinho e com as pessoas que colaboraram com a “minha”5 pesquisa.

Mol, em “The BodyMultiple”, diz que pretende relacionar seu texto aos  trabalhos de Donna Haraway, pois é importante importar textos de outros  campos para se poder dizer coisas novas. Eles não vêm de uma disciplina  clara, são interdisciplinares, de um campo um pouco indisciplinado. Um fluxo  de teoria em movimento através das fronteiras. Os limites das disciplinas  Natureza e Cultura e Teoria e Política. Relacionar-se com os trabalhos de  Haraway é uma boa maneira de dar a este texto um lugar nesse espaço não  disciplinar e fluido (MOL, 2002).  

No geral, nada é definido, apenas no particular. Assim como os médicos do  hospital, nós encontramos a singularidade, nós a fazemos. A singularidade é  muito específica, muito local e inclui a multiplicidade. Haraway diz que nós  produzimos saberes que estão localizados em algum lugar, em nossas práticas  e nossos corpos. Nós estamos sujeitos a uma rede de material semiótico  densa. Isto é, estamos presos a um conjunto de relações que simultaneamente  tem a ver com os significados e materiais. Estão em nossa carne, nas nossas  versões de visão, nas relações de poder que nos atravessam e são articuladas  por nós (LAW, 2004a).

Conexão, para Haraway, supõe um movimento de parte de ambas as partes  conectadas, no caso do conhecimento o sujeito e o objeto. Saberes localizados  requerem que os objetos sejam pensados enquanto agentes sobre o saber e  não como entidades passivas sobre a qual um sujeito produtor de saber  elabora seu discurso. Haraway critica a noção de objetividade baseada na  distância radical do discurso entre sujeito e objeto (SILVA, 2009).

Haraway critica também o relativismo, que, para ela, é uma maneira de não  estar em lugar algum, mas se alegando estar em toda parte. Como alternativa  a esse relativismo, ela propõe conexões parciais, que são saberes parciais,  localizáveis, apoiados na possibilidade de redes de conexão (HARAWAY,  1995). “Nas ideologias de objetividade, o relativismo é o perfeito gêmeo invertido da totalização; ambos negam interesse na posição, na corporificação  e na perspectiva parcial; ambos tornam impossível ver bem” (HARAWAY,  1995, p.24).

4 Marylin Strathern fala de conexões parciais entre diferentes pessoas, grupo de pessoas,  além de algo ainda mais complicado: conexões parciais dentro de uma pessoa. O argumento  não é que temos identidades individuais. Strathern observa que a Strathern-antropóloga não  é a mesma que a Strathern-feminista. Elas escrevem de maneiras diferentes, em  circunstâncias diferentes, para diferentes audiências. Ao mesmo tempo elas não são  separadas uma da outra. Strathern-feminista está inclusa na Strathern-antropóloga. O  argumento de Strathern é informado tanto pela sua leitura e exposição a figuras de cultura da  Nova Guiné quanto pelos debates contemporâneos de política de identidades (LAW, 2004a)

5 Escrevi minha entre aspas, pois, apesar de o trabalho só contar com o meu nome, é fruto de  um coletivo.

Haraway critica o olhar supostamente neutro da ciência. Ela fala que, nesse  olhar, há vários não marcados6: noção de branco, ocidental, euro-americano.  Dentro desse neutro, pressupõe várias coisas que não estão sendo expressas.  Como uma forma de contrapor essa neutralidade, ela propõe a utilização do  conhecimento situado, tanto corporal quanto politicamente. O olhar é mais que  percebido, ele é produzido.  

O objeto e objetividade de que ela fala vêm da idéia de definições de fronteiras,  em que redesenhar as fronteiras tem a ver com as negociações que você faz,  com quem você está se conectando. Ela descreve que, quando escrevemos,  devemos situar de onde estamos escrevendo, com quem estamos negociando,  qual o nosso ponto de vista e assim colocar de forma pessoal e o pessoal se  torna político.

A objetividade de Haraway não parece querer dizer "independente de  

gênero". O que ela espera para a ciência é uma objetividade sensível  

ao poder. Sendo gênero um fator estruturante de diferenças na  

sociedade, a objetividade na ciência deve requerer não  

independência, mas sim sensibilidade às relações de gênero. Uma  

ciência independente de gênero seria desejada, deste ponto de vista,  

em uma sociedade sem relações hierárquicas de gênero (SILVA,  

2009, p.88).

Objetividade é mostrar quem fala, e quem escreveu deve informar seus  leitores, para que compreendam o caráter parcial do conhecimento produzido  por ela. A parcialidade não significa a falta de objetividade, mas a objetividade  local. Ela busca construir não apenas novas teorias, mas novas práticas  críticas para a produção científica (SILVA, 2009).  

Haraway (1995) fala sobre a relação entre os corpos e as linguagens. Ela diz  que eles precisam ser marcados, pois o mundo acadêmico é todo codificado,  como uma batalha em que é preciso permanecer no jogo do conhecimento e  do poder. Por isso, a importância de explicitarmos as marcas7 de nosso texto.  

Como pesquisadores, temos que assumir a dimensão política dos textos que  construímos. Para Haraway (1995), todo conhecimento é marcado, porque o  pesquisador está inserido em um cenário de relações, onde ele opera. O texto  nos faz ver que o pesquisador é um ator, nessas associações. Nesse  momento, a heterogeneidade e o sincretismo são de extrema importância, pois  esse sujeito é político e ele está produzindo um mundo ali. Entre os extremos,  existe a construção de um mundo comum. São as marcas partilhadas, tecidas  nos encontros com os outros, sejam os humanos ou não-humanos. As relações  nas quais o pesquisador se constitui precisam estar no texto, por isso produzir  conhecimento se torna algo político.

A resposta de Law,et al. (2013), à provocadora pergunta de Haraway, no texto  “Saberes Localizados”, (“com o sangue de quem foram feitos os meus olhos?”) se daria localmente, com aqueles com quem se faz a pesquisa, naquele local  onde o pesquisador esteve. Para ele, a produção de conhecimento se daria no  

6Haraway (1995) se refere à categoria de não marcado como a uma ideia de uma ciência  universal, pura e não política. Para ela, isso não existe: todo conhecimento é marcado, é  político.

7 As marcas que Haraway fala é uma dimensão política que o pesquisador precisa colocar no  texto, em qual cenário de relações ele está inserido.

encontro com o outro, no processo de transformação causado pelo mesmo. No  embalo de Law, respondo à pergunta: meus olhos foram construídos nos  encontros com meus colegas de grupo de pesquisa, nas dúvidas que eu tirava  com o meu orientador durante as aulas, nos cafezinhos e almoços da UERJ.  No Santa Marta, moradores, atuantes em causas sociais, foram de muita  importância, pela disposição em responder às minhas dúvidas e até indicar  livros. Citando os não-humanos que me auxiliaram e estiveram comigo, o  principal foi o Santa Marta, em seus labirintos de ruas, arquitetura original e  toda sua história. Meu velho notebook me permitiu carregá-lo para os mais  variados lugares, sem parar de funcionar. Meu celular me permitiu tirar as  fotos, anotar contatos e informações. Com a resposta dessa pergunta,  pretendo situar meus leitores, para saberem de que local eu falo, quais  conexões me permitiram produzir este conhecimento, pois, para Haraway, o  conhecimento é algo marcado, ele se dá através de conexões parciais e foi  através delas que eu escrevi esta dissertação. Assim, este é um texto  encarnado, que pulsa através das batidas dos dedos, no teclado do  computador, tanto quanto no pedalar das subidas ao Santa Marta e,  principalmente, na emoção do vivido e do sentido a cada cena testemunhada, a  cada palavra escrita, a cada conexão realizada.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUCHSPIES, W, K; BELLACASA, M, P. de La. Feminist science and  technology studies: A patchwork of moving subjectivities. An interview  with Geoffrey Bowker, Sandra Harding, Anne Marie Mol, SusanLeigh Star and  BanuSubramaniam. subjectivity 28, p. 334-344,2009.

DESPRET, V. Que diraient lês animaux, si... on leur posait les bonnes  questions ? Paris: Empêcheurs de penserenrond, 2012.(coll. La découverte).

HARAWAY, D. Saberes Localizados: a questão da ciência para o  feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, Campinas  v.5, p.7-41, 1995.

LATOUR, B. Como terminar uma tese de sociologia: pequeno diálogo  entre um aluno e seu professor (um tanto socrático). Cadernos de Campo,  São Paulo, n14/15, 2006.

LAW, J. After method: Mess in social science research. London: Routledge,  2004a.

______. ANT ResourceAlphabetical List.Version 2.2, 2004b. Disponível em:  <http://www.lancaster.ac.uk/fass/centres/css/ant/ant-a.htm>. Acesso em: 21 jul.  2016.  

______. Making a mess with method.2003a. Disponível em:  <http://www.heterogeneities.net/publications/Law2006MakingaMesswithMethod .pdf>Acesso em: 20 jul. 2016.

______. Notes on the theory of actor network: ordering, strategy and  heterogeneity 2003 b. Disponível em:  

<http://faculty.georgetown.edu/irvinem/theory/Law-Notes-on-ANT.pdf >. Acesso em: 20 jul. 2016.  

LAW, J., MOL, A. (2009) El actor-actuado: La oveja de laCumbriaen 2001.  

Política y Sociedad, Norteamérica, 45. Documento eletrônico. Disponível em:  <http://revistas.ucm.es/index.php/POSO/article/view/23110>. Acessoem: 20 jul.  2016.  

LAW, J. et al. Modes of Syncretism: notes on non-coherence. 2013.  Documento eletrônico. Disponível em:  

<http://www.cresc.ac.uk/medialibrary/workingpapers/wp119.pdf >. Acesso em:  20 jul. 2016.

MELO, M de F A de Q e. Voando Com a Pipa: Esboço para uma psicologia  social do brinquedo à luz das idéias de Bruno Latour. 2006. 410 f. Tese  (Doutorado) - Curso de Psicologia, Uerj, Rio de Janeiro/ São João Del Rei,  2006.

MORAES, M. et al. Pesquisar COM: política ontológica e deficiência visual. In: MORAES, M. et al. Exercícios de Ver e Não Ver: Arte e Pesquisa Com  Pessoas Com Deficiência Visual. Rio de Janeiro: Nau, 2010. p. 26-51

MORAES, M. O.;ARENDT, R. J. J. Contribuições das investigações de  Annemarie Mol para a psicologia social.Psicol. estud., v.18, n.2, p. 313-321,  2013. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722013000200012>. Data de acesso: 20. Jul. 2016.

MOL, A. Actor-network theory: sensitive terms and enduring tensions. Documento eletrônico. 2010. Disponível em:<

http://dare.uva.nl/document/2/90295>. Data de acesso: 20. jul. 2016.  

______. The body multiple: ontology in medical practice. Durham, NC: Duke  University, 2002

SILVA, M. R.Refigurando Monstros: a perspectiva parcial de Donna  Haraway como critica da ciencia. 2009. Dissertaçao (Mestrado em  Biomedicina). Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2009. 

NOTAS

Gustavo Borges de Oliveira: Doutorando em Psicologia Social pela UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – RJ.

Endereço para correspondência:

Gustavo Borges de Oliveira

E-mail: Oliveira.gustavo22@yahoo.com.br

Recebido em: 29/07/2016

Aprovado em: 06/02/2017

Revista IGT na Rede, v. 13, nº 25, 2016, p.186-202 DOI 10.5281/zenodo.15054400

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526