ARTIGO

A Família e o Desenvolvimento Infantil sob a Ótica

da Gestalt-Terapia1 

The Family and Child Development in the Optical Gestalt Therapy

Thalita Rodrigues Silva

Cristina Silva Gontijo

 

1 Trabalho de Conclusão de Curso apresentado em 2015 ao curso de Psicologia da Universidade do  Estado de Minas Gerais (UEMG) Unidade Divinópolis como requisito parcial para obtenção de título  de Bacharel em Psicologia.

RESUMO

Sob a ótica da Gestalt-terapia, este artigo tem o objetivo de explorar como o  ambiente familiar influencia no desenvolvimento da criança de zero a três anos,  partindo-se da hipótese de que é no ambiente familiar onde ocorrem as primeiras  relações e interações da criança, sendo estas de suma importância para o  desenvolvimento infantil. Para tal, foi-se necessário a compreensão de conceitos  essenciais à abordagem como ajustamento criativo; funcionamento saudável e não  saudável e funções de contato, bem como a compreensão de homem para a Gestalt  como um ser de totalidade. Foi observado que há poucos autores no Brasil e no  exterior que se dedicam a um trabalho de psicoterapia com crianças na abordagem  gestáltica. Utilizou-se o método de revisão sistemática, tipo de pesquisa que emprega como fonte de dados a literatura sobre determinado assunto. Também foram utilizados artigos encontrados nos últimos dez anos. Após a compreensão dos  conceitos, Pôde-se concluir que as famílias não têm noção de sua influência para o  desenvolvimento pleno da criança e de que o desenvolvimento não ocorre somente  por automatismos, e sim pelo investimento afetivo que a família dispõe à criança.

Palavra-chave: Desenvolvimento infantil; Gestalt-terapia; Ambiente familiar. ABSTRACT

From the perspective of Gestalt therapy, this article aims to explore how the family  environment influences the development of zero children to three years, starting from  the hypothesis that it is the family environment where there the first relationship and  child interactions , which are very important for child development. To this end,  understanding of essential concepts to approach as creative adjustment if it was  necessary; healthy and unhealthy working and contact functions, and understanding  man for Gestalt as a being of all. It was observed that there are few authors in Brazil  and abroad that are dedicated to a psychotherapeutic work with children in the  gestalt approach. We used the systematic review method, type of research that  employs as a data source literature on a given subject. Also we have been used  items found in the last ten years. After understanding the concepts, it could be  concluded that families are not aware of their influence to the full development of the  child and that the development does not occur only by automatism, but the emotional  investment that the family has a child.

Keywords: Child development; Gestalt therapy; Familiar environment.

1 - INTRODUÇÃO

As primeiras experiências da criança acontecem dentro do seio familiar. É a família  que lhe concede um nome, que determina a classe social e genética, gerando os  primeiros sentimentos acerca desta família. Não é de se estranhar que o ditado  popular “educação vem de berço” se tornou tão usual, já que é no ambiente familiar  que se inicia a formação psíquica, moral, social e espiritual da criança formando sua  identidade.

Atualmente, verificam-se dificuldades encontradas pelas famílias em educar suas  crianças, não sabendo agir diante dos impasses da educação em uma sociedade  que está em constantes mudanças, exigindo sucessivas atualizações para aprender  novos conhecimentos e lidar com a nova realidade em que a sociedade e a criança se encontram. Em um mundo em que a violência é exibida diariamente pela mídia e  em que há uma contradição nas regras sociais e diferentes valores, as famílias se  sentem confusas na tarefa de educar, pois se veem diante de tantas informações  diferentes e muitas vezes controversas a respeito da educação. Surgem, assim, pais com dificuldades de se identificarem como pais e mães, ou seja, não se veem como  pais para realizarem esta tarefa essencial para o crescimento e desenvolvimento da  criança. Um exemplo disso são pais que se infantilizam diante de seus filhos.

Esta pesquisa tem como objetivo realizar uma revisão sistemática intencional, consultando obras existentes na área da Gestalt-terapia, tais como livros, periódicos e revistas acerca do desenvolvimento nos primeiros três anos de vida e a influência  da família para o desenvolvimento da criança, pois é nesta faixa etária que a criança  está imersa principalmente no ambiente familiar. De acordo com o Observatório do  PNE (2013), o Brasil conta com 27, 9% de crianças de zero a três anos que  frequentam as creches. O indicador é calculado com base nos dados da Pesquisa  Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), tendo como meta para 2024 atingir  50% desta população.

A terceirização dos cuidados das crianças se dá sobretudo pelas famílias cujas  mães estão cada vez mais inseridas no mercado de trabalho, não dedicando  integralmente aos cuidados dos filhos. Há também outros fatores contribuintes para  o aumento da procura por creches, como a valorização da Educação Infantil nos  últimos tempos, com o apoio do governo, através de políticas públicas, pensando na  educação em saúde e em prevenção, levando em consideração a importância da  primeira infância para o desenvolvimento da criança. Esta nova cultura que se está  inserindo no Brasil é importante, pois, na escola, a criança receberá uma  estimulação adequada para o seu desenvolvimento, em que muitas vezes a família não sabe como estimular a criança, gerando um atraso no desenvolvimento. No  entanto, estão esquecendo o quanto a família também é importante para o processo  de desenvolvimento da criança, tendo em vista que tanto a falta quanto o excesso de estimulação da família influenciam no desenvolvimento da criança, no ambiente  familiar, na relação entre filhos e pais e entre os próprios pais na formação  psicossocial da criança, e esta se dá essencialmente pelo afeto.

A família, geralmente, não tem consciência da influência que causa na formação  integral da criança. Diante disto, é essencial abrirmos um espaço de reflexão sobre  como a família influencia na educação e no desenvolvimento psicológico das  crianças. Por isto, este trabalho propõe aprofundar nos aspectos do  desenvolvimento infantil tendo como base a perspectiva gestáltica e sua visão de  homem como um ser em totalidade, como um ser de relações. É importante discutir  o assunto sob a ótica da Gestalt, pois ela ressalta que a família é como uma  totalidade, sendo composta por vários todos, em que um depende do outro, um  influencia e é influenciado pelo outro e o comportamento de um membro da família  afeta todos os outros membros.  

De acordo com o D’Acri, Lima e Orgler (2007), Fritz Perls conceitua Gestalt como  uma palavra alemã que não há uma tradução compatível em outra língua. Uma  Gestalt é uma forma, uma configuração, o modo particular de organização das  partes individuais que entram em uma composição. O princípio da Psicologia da  Gestalt é de que a natureza humana é estabelecida em partes ou em todos, que é  vivenciada pelo indivíduo nestas condições e que só pode ser compreendida como  uma função das partes ou de todas das quais é composta.

Utilizou-se a proposta de revisão sistemática de Sampaio e Mancini (2007), para as  autoras, revisão sistemática é um tipo de pesquisa que utiliza como fonte de dados a  literatura sobre determinado assunto. Os artigos foram encontrados em sites de  pesquisa e se referem ao Scielo e à Bireme – Biblioteca Virtual em Saúde, através  da utilização das palavras-chave: “Gestalt-terapia”, “desenvolvimento infantil”,  “ambiente familiar”, que culminaram no resultado de oito artigos. Como critério de  seleção, utilizaram-se, como descritores, somente artigos da língua portuguesa e  obras publicadas entre os anos de 2005 e 2015, ou seja, são publicações acerca do  assunto estudado que foram divulgadas nos últimos 10 anos.

Foram utilizados artigos da revista periódica da Gestalt-terapia, passando pelo  seguinte processo: no dia 20 de agosto de 2015, e cada revista a partir da  publicação do ano de 2005, contando, no total de 21 edições, com duas publicações  a cada ano, sendo que a segunda revista do ano de 2015 ainda não foi publicada.  Destas 21 edições, foram selecionados nove artigos que se relacionam com a  proposta deste artigo: Gestalt-terapia, família, psicoterapia infantil e desenvolvimento  infantil. Os livros utilizados foram pesquisados na Biblioteca da UEMG Unidade  Divinópolis, e outros foram sugeridos e disponibilizados pelos professores da  Universidade.  

2 - GESTALT-TERAPIA: VISÃO DE HOMEM E DE MUNDO

A Gestalt-terapia surgiu a partir de 1946, com Frederick Perls, que enfatiza a relação  de contato, contexto, figura e fundo, em que tudo depende das relações. Por isso, é  importante discutir o desenvolvimento infantil sob a ótica da Gestalt-terapia, pois  esta leva em conta o contexto da criança e sua influência para a mesma. O homem  é constituído como um ser social. Desta forma, ele influencia e é influenciado. “A  Gestalt-terapia é uma síntese coerente de várias correntes filosóficas, metodológicas e terapêuticas, formando uma verdadeira filosofia existencial, uma forma particular  de conceber as relações do ser vivo com o mundo” (D’ACRI; LIMA; ORGLER, 2007,  p. 131).

De acordo com Antony (2009), a Gestalt-terapia é uma abordagem baseada em  princípios “holísticos-organísmicos-existenciais” em que considera o campo  organismo e ambiente como uma unidade inseparável para entender sobre qualquer  comportamento, personalidade ou distúrbio psicológico. Deve-se analisar o contexto  total da criança, o seu ambiente de relações, social, cultural, familiar e escolar, nos  quais estão inseridas as fronteiras de contato, ou seja, o que é vivenciado entre a  criança e o outro e a experiência subjetiva da criança.

Chiodini e Shiegle (2009 apud NUNES; RODRIGUES, 2010) dizem que esta  abordagem tem uma concepção de homem como uma totalidade biopsicossocial,  um ser em potencial, consciente, responsável, particular e com formas próprias que  se constrói no contato, sendo, ainda, um ser livre e dotado de escolhas. Portanto, esta compreende o desenvolvimento como uma implicação na forma que a pessoa  estabelece o contato nas relações durante sua vida.  

“Perceber o ser humano como uma totalidade significa compreendê-lo para  

além de suas características isoladas, articulando-as não só a outras  

características do seu ser total, como também a totalidade do contexto mais  

amplo do qual ele faz parte. Assim, a criança tal como a encaramos é  

percebida como um ser total ou global, o que implica considerar uma  

inevitável vinculação, reciprocidade e retroalimentação entre fatores  

emocionais, cognitivos, orgânicos, comportamentais, sociais, históricos,  

culturais, geográficos e espirituais. A organização destes elementos  

interdependentes é regida por uma força que visa sempre à busca de  

equilíbrio. Assim, o que ocorre em uma parte sempre afeta as outras, e, por  

conseguinte, a totalidade do indivíduo” (AGUIAR, 2014, p. 41).

Antony (2009) ressalta que, de acordo com os princípios gestálticos, se está sempre  buscando amar e ser amado, satisfazer as necessidades, ser confirmado, alcançar  objetivos, realizar desejos; estamos envolvidos em uma relação de intersubjetividade e inseridos em um campo, buscando sempre a autorrealização existencial. A  Gestalt-terapia focaliza a unidade “criança-outro-mundo” em que um influencia o  outro em uma relação mútua, na qual não ocorrem acontecimentos externos  separados de fenômenos internos. A criança é uma “parte-figura-sintoma” que  aponta a família como um todo disfuncional que está dentro de um todo maior, que é  a sociedade. “Criança doente emocionalmente é família adoecida em suas relações.  Família doente é sociedade doente em seus sistemas de valores, crenças, comportamentos e interações” (ANTONY, 2009, p. 3).

“A identidade é uma questão de com o que eu me identifico e em que campo eu me  encontro” (WHEELER, 2002, p. 73 apud ANTONY, 2009, p. 7), ou seja, para saber  quem sou, é preciso saber onde estou.  

“O ser humano visto pela Gestalt-terapia é essencialmente relacional. O ser  

humano cresce e desenvolve-se ao longo do tempo na e a partir da relação:  

nós existimos a partir da relação, e não há outra forma de constituirmos, a  

não ser na relação. É na interação ininterrupta com o mundo, desde o momento do nascimento até o fim de sua vida, que o ser humano  

diferencia-se, transforma-se e desenvolve-se como uma pessoa com  

características próprias” (AGUIAR, 2014, p. 43, grifos do autor).

Sendo o humano um ser relacional, este se encontra em relação por toda a sua vida. Portanto, a possibilidade de transformação também o acompanha durante toda a  vida. O homem é um ser de potencialidades, que podem ser atualizadas a todo  momento; ele nunca estará acabado, “ele não é isso ou aquilo de forma definitiva,  mas está sendo neste momento algo que pode vir a ser outra coisa no momento  seguinte; o homem é um constante vir a ser, um ser em processo” (AGUIAR, 2014,  p. 44). Ou seja, não se diz que a criança é teimosa, e sim que a criança está teimosa. Entende-se a teimosia como uma característica momentânea do campo  criança-meio com muitas possibilidades de reconfiguração, dependendo da  mudança de qualquer uma das partes e/ou das relações estabelecidas entre elas.  

Pode-se pensar, também, que, além de o ser humano ser transformado pelo meio,  ele influencia e modifica o meio. Um exemplo disso é a criança recém-nascida, que, ao chegar a sua casa, modifica completamente a organização desta,  desequilibrando o campo e demandando uma nova configuração. Tanto o bebê  quanto qualquer outra pessoa usarão aquilo que têm no momento da melhor forma  possível, para tornar esse meio algo melhor para si.  

3 - DESENVOLVIMENTO NOS TRÊS PRIMEIROS ANOS DE VIDA

O desenvolvimento humano foi didaticamente demarcado por períodos, segundo  Papalia, Olds e Feldman (2010), para o conhecimento das etapas do  desenvolvimento humano, de acordo com a faixa etária da criança, para saber o que  esperar de seu desenvolvimento físico e cognitivo. Portanto, lembrando-se que a  criança é um ser social, devendo considerar sua classe social, econômica, cultural,  religiosa, etc., que influenciará na forma de estar no mundo, bem como o  desenvolvimento da criança.  

Ressalta-se sobre o desenvolvimento da criança, nos três primeiros anos de vida,  pois é nesta idade em que a criança está imersa, principalmente no ambiente  familiar, “sendo a família a primeira forma de contato da criança com o mundo” (BARBOSA, 2011, p. 9), e muitas delas ainda não estão na escola, predominando  uma influência maior da família pelo fato de a criança estar, em boa parte do tempo,  em contato com este ambiente.

“Dentro de uma perspectiva gestáltica, apesar de não ser de modo algum  

determinante do desenvolvimento posterior, o primeiro ano de vida também  

pode ser considerado como um período relevante para o desenvolvimento,  

uma vez que o campo relacional da criança ainda se encontra bastante  

reduzido, estando assim sujeita a influências de poucas pessoas, e sua  

capacidade de discriminação daquilo que é oferecido pelo mundo na forma  

de introjeções ainda é incipiente, fazendo com que esse momento de  

apresentação inicial do mundo do bebê seja um momento mais suscetível  

para o estabelecimento de introjeções pouco facilitadoras para seu  

processo de desenvolvimento”. (AGUIAR, 2014, p. 31).

Do nascimento ao 1º mês, o bebê cresce, aumenta o peso e desenvolve os sentidos  rapidamente, dorme muito e tem comportamento reflexo, começa o processo visual  e o estágio sensório-motor, pode aprender por condicionamento ou por hábito,  direciona sua atenção a estímulos novos. Comunica-se através do choro  (expressando emoções negativas) e reconhece sons que ouviu do útero. O bebê  modifica o ambiente familiar e as relações. Há uma diferenciação de gênero por  parte dos pais (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2010).

O ser humano nasce totalmente dependente do outro e vai adquirindo recursos para  poder escolher o que ele precisa do outro e decidir de que jeito ele irá buscar. O  bebê começa a ser afetado pela família desde a gestação. Então, é a partir da  história que precede a criança que se percebe a forma como a família irá recebê-lo e  encaminhá-lo para o mundo. O bebê nunca será totalmente da forma como foi  imaginado, e a maneira como a família irá lidar com esta diferença influenciará nas  primeiras relações estabelecidas com ele. A forma como a família irá lidar com o  bebê será de crucial importância para o seu desenvolvimento. Por isso, o meio  familiar é essencial para o desenvolvimento inicial do ser humano. O bebê nasce  totalmente dependente e necessitará do adulto para suprir suas necessidades e  apresentar-lhe o mundo (AGUIAR, 2014).

Do 1º ao 6º mês, o bebê já tem controle de cabeça, engatinha e pega objetos, tem  noção de profundidade, consegue diferenciar emoções, repete comportamentos  agradáveis, coordena informação sensorial, emite sons e reconhece palavras  usuais, sorri em resposta, desenvolve confiança básica, demonstra interesse por  outros bebês e começa a controlar o ambiente (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2010).  

Do 6º ao 12º mês, o bebê senta sem apoio, fica em pé, começa a andar, desenvolve  a memória e as funções cognitivas superiores (planejamento, julgamento,  capacidade para resolver problemas), consegue diferenciar objetos, realiza ações  aprendidas, reconhece sons da língua de origem, pronuncia suas primeiras palavras,  demonstra emoções, estabelece apegos, e os pais começam a disciplinar e orientar  os filhos (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2010).

Segundo Aguiar (2014), é a partir da introjeção que o bebê, nos primeiros dois anos  de vida, construirá o conhecimento de si mesmo e do mundo. Aquilo que lhe é  apresentado é tido como única forma de perceber o mundo, o que pode e o que não  pode, fazendo com que a criança não se sinta perdida e insegura. Ela precisa de  noções claras, seguras e constantes sobre o meio, as coisas, as pessoas e de como  interagir com o mundo. Isto lhe dará a sensação de cuidado, proteção e segurança.  

Nestes primeiros anos de vida, o bebê ainda não tem uma distinção do que é  verdade ou não, ainda não possui crítica, acreditando em tudo o que o outro fala  sobre ele. Portanto, a família deve ter uma atenção redobrada para o que se diz ao  bebê para ele não introjetar percepções negativas sobre si mesmo e não prejudicar  o desenvolvimento de sua autoestima e seu contato com o mundo (AGUIAR, 2014).

Do 12º ao 18º mês, a criança anda bem, constrói uma torre de blocos, procura  objetos onde viu pela última vez, entende que há consequências, ação e reação,  começa a desenvolver empatia e a autoconsciência de que fez algo errado, por  exemplo (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2010).

À medida que a criança vai crescendo, vai percebendo que as pessoas não pensam  como ela e que não querem o que ela quer. Começa a desenvolver capacidade de  discriminação daquilo que é dela e daquilo que é do outro. Com este processo, a  criança desenvolve a capacidade de questionar introjeções vindas de seu ambiente,  escolher, recusar, perceber-se como outro, que não tem de fazer tudo que o outro  quer que ela faça; tem mais autonomia para perceber e satisfazer suas próprias  necessidades de modo que possa se diferenciar como uma pessoa singular (AGUIAR, 2014).  

Aguiar (2014) cita dois tipos de discriminação. Na discriminação reativa, que ocorre  no primeiro ano de vida, o bebê tende a recusar tudo que vem de fora, que é  desconhecido e não é percebido como uma necessidade; o bebê começa a dizer  não cuspindo a comida, recusa-se a usar o vaso sanitário e a emprestar o brinquedo  e toma o brinquedo do outro para satisfazer sua necessidade naquele momento, por  exemplo. O bebê começa a experimentar o prazer de fazer escolhas. A  discriminação criativa ocorre à medida que a criança vai crescendo e percebendo  que as coisas que o mundo oferece podem ser importantes para ela, mas não  totalmente do jeito que elas se apresentam. Então, a criança começa a negociar,  aceitando até certo ponto, não recusando por inteiro, transformando o que vem do  meio para satisfazer suas necessidades.  

Do 18º ao 30º mês, começa o estágio pré-operacional. A criança consegue subir  escadas e rabiscar, utiliza representações mentais e símbolos – a permanência do  objeto é alcançada –, consegue formar conceitos e categorias, lembra-se de  episódios e eventos ocorridos, começa a formar frases e sentenças de acordo com  as regras de linguagem e a se autoavaliar sentindo vergonha, culpa, inveja, empatia,  deseja ter mais autonomia, se reconhece no espelho, usa pronomes na primeira  pessoa e desenvolve consciência de gênero e se torna agressiva para disputar  brinquedos e espaço (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2010).

De acordo com Oliveira (2010), é a partir das relações que estabelecem com a  realidade em que vivem, com as pessoas que precisam se relacionar no dia a dia e  com o ambiente familiar que a criança passa a compreender o mundo. O processo  de desenvolvimento também está relacionado ao contexto do qual a criança faz  parte. É através das relações familiares que a criança vai constituindo sua  autoimagem.  

Do 30º ao 36º mês, a criança tem a primeira dentição completa, consegue pular sem  sair do lugar, consegue contar, conhece as cores, reconhece semelhanças e explica  relações causais, aprende novas palavras todos os dias, pode falar até mil palavras,  usa o tempo verbal no passado, desenvolve a percepção e reconhecimento das  

intenções e emoções de outras pessoas, demonstrando interesse por estas e, principalmente, por outras crianças, consegue se descrever, verbaliza mais e se  torna menos agressiva (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2010).

De acordo com Aguiar (2014), a interação entre a criança e o mundo se dá através  de sete funções de contato (visão, audição, tato, paladar, olfato, linguagem e  movimento corporal). É através delas que a criança experiencia o contato com o  mundo. É fundamental deixar com que a criança explore o mundo de diversas  maneiras: olhando, tocando, cheirando, ouvindo, degustando, movimentando e  falando. Quanto mais a criança usar e desenvolver todas as funções de contato,  maior a possibilidade de estabelecer um contato saudável com o mundo e consigo  mesma, garantindo mais opções de ajustamento criativo no mundo. Isso acontece  naturalmente se o ambiente da criança for estimulante.

A família deve participar dessa etapa do desenvolvimento da criança na medida  adequada, sem proteger demais ou de menos, de acordo com a idade e  possibilidades dela. A família deve valorizar suas potencialidades, permitir que ela  faça escolhas e mostrar que as escolhas têm consequências, ajudando a lidar com  seus fracassos e a aceitar os erros.

O limite é outro fator fundamental para o desenvolvimento, pois ele permite que a  criança perceba até onde pode ir e quando começam o espaço e o direito do outro.  O que pensa a família sobre limite? Como agem? O que se pode perceber na  atualidade é que a família oferece limite às crianças de maneira pouco satisfatória,  sufocando-as com sua superproteção ou deixando-as tão livres que estas se sentem  perdidas. Muitas famílias pensam que, superprotegendo as crianças e mantendo-as  dentro de uma redoma, estas estarão protegidas do mundo que as cercam, e livres  de sofrimento, porém estão impossibilitando-as de viverem suas próprias  experiências e frustrações, formando, assim, possivelmente, pessoas  despreparadas para lidar com as adversidades da vida.

Por outro lado, hoje em dia, mantêm-se contradições e há muitas restrições dos  adultos: “Não toque nisso, fique quieto(a), fique calado(a)”. Tudo em prol das  etiquetas e das boas maneiras, o que acaba restringindo as possibilidades da  criança de se expressar livremente. O terapeuta irá, então, restaurar essas funções  de contato para o pleno funcionamento desses canais de contato com o mundo.  

Do ponto de vista da Gestalt, a criança não é um ser inacabado e o adulto, acabado.  O desenvolvimento não se organiza como fases que almejam um objetivo final. É como um percurso, um caminho feito através de momentos únicos. O desenvolvimento passa por vários ajustamentos criativos que geram uma  ininterrupta reconfiguração do self, aqui entendido como “si mesmo, personalidade  de alguém, a natureza-base de alguém” (D’ACRI; LIMA; ORGLER, 2007, p. 193).

Antony (2009) define ajustamentos criativos como um processo ativo que o individuo  tem com o ambiente buscando satisfazer as necessidades de acordo com as suas  possibilidades.

“O ajustamento criativo representa o processo dinâmico e ativo de  

engajamento do indivíduo com o ambiente em busca de resolver situações  

e assim restaurar a harmonia, o equilíbrio, a saúde do organismo. Ocorre  

por meio da autorregulação (processo espontâneo e inato do organismo)  

que visa à satisfação das necessidades primordiais do momento,  

considerando as possibilidades ambientais. No entanto, nem sempre o meio  

atende às necessidades primárias da criança que para se autorregular  

modifica a necessidade original realizando um ajustamento criativo coerente  

com as possibilidades do meio de supri-la”. (ANTONY, 2009, p. 6).

Assim sendo, pode-se dizer que o processo de desenvolvimento é único, pois cada  indivíduo se organiza através das relações que estabelece, das experiências que  vive e das circunstâncias que tem de tratar, tornando sua configuração final única.

4 - FUNCIONAMENTO SAUDÁVEL E NÃO SAUDÁVEL E SUA MANIFESTAÇÃO  NA FAMÍLIA  

Os pais são os principais educadores de seus filhos, conforme o Estatuto da Criança  e do Adolescente:  

“Art. 4º. É dever da família [...] assegurar, com absoluta prioridade, a  

efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à  

educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade,  

ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.”

“Art. 22. Aos pais incumbe o dever de sustento, guarda e educação dos  

filhos menores, cabendo-lhes ainda, no interesse destes, a obrigação de  

cumprir e fazer cumprir as determinações judiciais”. (BRASIL, 2010, p. 11 e  

16).

Lino (2009) considera a família como uma instituição responsável pelos afetos, sentimentos e amor, uma construção social, um espaço necessário para garantir a  sobrevivência, o desenvolvimento e a proteção integral dos demais membros da  família, independentemente do arranjo e das formas de estruturação.

Hoje em dia, com as novas modalidades familiares e novos arranjos familiares  (recasamentos, casamentos homossexuais, adoção, crianças sendo criadas pelos  avôs, mães/pais solteiros), a definição de família saudável não compactua com o  modelo anterior de família nuclear (pai, mãe e filho). O que caracteriza um  funcionamento saudável não são os elementos que compõem a família, e sim como  eles se configuram, quais os seus lugares e suas funções na dinâmica familiar. “Não  importa tanto quem são as pessoas, mas como elas se relacionam entre si e com a  criança, e o que essa criança precisa realizar no sentido de obter satisfação para  suas necessidades dentro desse contexto” (AGUIAR, 2014, p. 95).  

Para Pratta e Santos (2007), a família exerce um papel essencial para o processo de  amadurecimento e desenvolvimento biopsicossocial dos indivíduos. A função  biológica exercida pela família está em garantir a sobrevivência, ofertando os  cuidados necessários para o desenvolvimento adequado do bebê. A função  psicológica está em proporcionar afeto para garantir a sobrevivência emocional da  criança; oferecer apoio para as ansiedades e conflitos existenciais durante seu desenvolvimento, auxiliando-a na superação das crises; criar um ambiente  adequado, possibilitando a aprendizagem e contribuindo, assim, para o  desenvolvimento cognitivo. A função social está em perpassar valores através da  convivência com o outro para a atuação na sociedade, influenciando nas tomadas  de decisões e atitudes em todas as fases da vida.

Sob o ponto de vista da Gestalt-terapia, a família é uma totalidade composta por  outras totalidades; as pessoas nelas inseridas estão o tempo todo interagindo uns  com os outros e afetando-os, buscando a melhor forma de autorregulação possível.  O comportamento de cada membro da família está relacionado e depende do  comportamento de todos os membros. Estes se influenciam mutuamente, reagem e  respondem às expectativas e necessidades do outro em busca de um equilíbrio.  

Costa e Dias (2005) acreditam que a família auxilia no processo da criança e que,  muitas vezes, a criança é quem denuncia a disfuncionalidade familiar. Acreditam,  ainda, que a família pode colaborar e manter o sintoma da criança e colocam em  

dúvida a psicoterapia infantil quando não se faz um trabalho conjunto com a família.  A família está o tempo todo se reconfigurando, de acordo com as necessidades e  desequilíbrios que surgem. Por exemplo, com o nascimento do segundo filho e dificuldades financeiras, dentre outros, a família como um todo se adapta à nova  realidade, fazendo ajustamentos criativos. Algumas famílias conseguem lidar de  formas saudáveis, e outras buscarão formas pouco satisfatórias, afetando o  funcionamento saudável de um ou mais membros da família a favor da manutenção  da dinâmica familiar.

Atualmente, há muitas informações que chegam e mudam rapidamente, e a criança  sente necessidade de se adaptar a esta realidade. As necessidades e cobranças  podem prejudicar o desenvolvimento saudável da criança; conflitos existentes na  família, na escola ou em outros campos podem causar adoecimento. A criança adoece na tentativa de informar que algo não vai bem e se ajustando ao meio da  melhor maneira possível.

Diante disto, surge a necessidade de cuidar do emocional da criança para que ela  tenha um desenvolvimento saudável, e a psicoterapia infantil irá auxiliá-la na escolha  de seu próprio caminho, possibilitando à criança desenvolver estratégias saudáveis  para interagir com o meio e consigo mesma (LIMA; LIMA, 2015).

Saúde é a capacidade de lidar com qualquer situação de forma satisfatória (D’ACRI;  LIMA; ORGLER, 2007), “é viver experimentando e integrando todas as possíveis  formas de manifestação do nosso ser. É um movimento constante de busca de  novidades nutritivas no campo organismo/ambiente” (ANTONY, 2010, p. 81).

Antony (2007) define a doença como bloqueios de contato que se tornam  mecanismos de defesa.

“Doença significa interrupções ou bloqueios do contato que constituem  

mecanismos de defesa que inibe a consciência de sentimentos,  

pensamentos, comportamentos que geram dor, sofrimento, ansiedade e ameaçam a relação com as figuras parentais significativas” (ANTONY,  

2007, p. 6).

Assim, sob uma perspectiva gestáltica, a pessoa está saudável quando se relaciona  com o meio de forma criativa, atendendo as suas necessidades e, ao mesmo tempo, respeitando o outro. Já o funcionamento não saudável é quando a pessoa apresenta  

padrões cristalizados e repetitivos ao se relacionar com o meio, ou seja, utiliza-se dos mesmos recursos para lidar com as situações com as quais se depara,  respondendo ao mundo de uma única forma.

Segundo Aguiar (2014), se a escolha inicial se torna incômoda e pouco satisfatória,  é preciso revê-la e se ajustar para uma melhor forma que atende as suas  necessidades naquele momento. No funcionamento não saudável, a pessoa não  consegue enxergar outras possibilidades a não ser a que ele já vem apresentando  repetidamente. Neste caso, o gestaltista irá ajudá-la a encontrar saídas e novas  formas de se relacionar com o mundo.

Há famílias com um funcionamento não tão saudável; há aquelas em que estão  todos tão individualizados, que não pensam no outro membro da família, mas  somente em si mesmo; e há, também, aquelas que estão tão misturadas, e todos  têm de fazer tudo para o outro, para agradar o outro acima de qualquer coisa.  Nesses tipos de famílias, não há lugar para trocas, pois, no primeiro caso, a  diferença é tão grande que eles não toleram as especificidades do outro e, no  segundo, a diferença não tem lugar. Portanto, não há possibilidade de trocas.

Do ponto de vista clínico, o terapeuta deve proporcionar a diferenciação entre seus  membros, trabalhando com essas famílias para uma melhor aceitação das  diferenças e para a aceitação do outro como ele se apresenta. Ou, conforme o outro  tipo de família, onde todos estão individualizados, o terapeuta deve proporcionar um  espaço de trocas e momentos de diálogos, para que os membros da família possam  trocar experiências, ver o ponto de vista do outro e sentir-se tocado pelo outro,  proporcionando, assim, uma maior proximidade e união da família.

O funcionamento não saudável pode ser detectado por meio do uso dos  mecanismos de evitação de contato. Na literatura da Gestalt, foram encontrados  nove mecanismos: confluência, deflexão, dessensibilização, egotismo, fixação,  introjeção, proflexão, projeção e retroflexão (AGUIAR, 2014; ANTONY, 2007; ANTONY; RIBEIRO, 2005; D’ACRI; LIMA; ORGLER, 2007). Estes são formas de o  indivíduo lidar com o mundo e consigo mesmo, evitando, em determinados momentos, um contato pleno com o outro (AGUIAR, 2014).  

Na confluência, a criança não consegue se discriminar do outro, não gosta de ficar  sozinha e não possui opinião própria. Na deflexão, a criança se apresenta desligada,  apática ou agressiva, chamando a atenção para um sentimento para esconder outro. Na dessensibilização, a criança se torna fria diante de um contato e perde o  interesse por novas sensações. No egotismo, a criança não aceita a opinião dos  outros e quer ser o centro das atenções com reações emocionais intensas e  vulneráveis. Na fixação, a criança fica fixada a coisas, ideias e emoções, sendo incapaz de explorar outras situações e se apegando exageradamente a pessoas. Na introjeção, a criança tem dificuldade em fazer escolhas e pede permissão para tudo,  convocando aprovação do outro. Na proflexão, a criança faz com os outros aquilo  que gostaria que fizessem com ela, como mecanismo de compensação,  manipulando-os para receber aquilo que quer e agindo sempre para receber algo em  troca. Na projeção, a criança aponta no outro algo dela, que não consegue aceitar  ou perceber em si mesma. E, para finalizar, na retroflexão, sem saber como se  expressar, a criança se volta para o seu corpo, como, por exemplo, ao roer unha,  comer ou masturbar excessivamente, arrancar os cabelos, etc. (AGUIAR, 2014; ANTONY, 2007; ANTONY; RIBEIRO, 2005; D’ACRI; LIMA; ORGLER, 2007).

Para D’Acri, Lima e Orgler (2007), é por meio dos ciclos de contato que nos  tornamos presença para nós mesmos.

“Fluímos, sentimos, somos conscientes, nos movimentamos, agimos,  

fazemos contato, nos satisfazemos e nos retiramos para um novo ciclo.  

Fixamo-nos, dessensibilizamo-nos, defletimos, introjetamos, projetamos,  

profletimos, retrofletimos, egotizamos, confluímos. Cada ponto marca às  

vezes um novo ciclo. Esse é o jogo da vida; os ciclos de contato registram  

nosso caminhar e por meio deles nos tornamos presença para nós mesmos  

(D’ACRI; LIMA; ORGLER, 2007, p. 44-45).

O papel da família para o desenvolvimento infantil é o de confirmação do ser  humano em sua individualidade, proporcionando a diferenciação do outro, a  independência e a autonomia, porém mantendo a harmonia, a conexão e a união  entre os membros da família. Esta seria uma definição de família saudável,  respeitando os limites de seus membros e acolhendo e negociando suas diferenças.

A criança, com medo de perder o amor do outro, acaba se deixando de lado, agindo  como o outro quer que ela seja, não sendo ela mesma. Ao não ser confirmada, a  criança adoece, não desenvolve autoconfiança, dificultando seu contato com o  mundo, e se cristaliza em uma única forma de ser por meio do sintoma (BARBOSA,  2011).

Segundo Aguiar (2014), confirmar significa ajudar a criança a construir um forte  senso de eu, com autoestima elevada e confiança para lidar com suas necessidades  de acordo com as necessidades do meio. Confirmar todos os sentimentos, como a  raiva, e necessidades da criança, mesmo que estes não sejam agradáveis para a  família. É papel da família ajudar a criança a encontrar formas satisfatórias e  adequadas para expressá-la. Confirmar não é meramente elogiar por elogiar, e sim o reconhecimento justo daquilo que a criança pode ser naquele momento,  apontando todo o seu potencial de vir a ser em outro momento.  

5 - O MOMENTO DIAGNÓSTICO E IMPLICAÇÕES PSICOTERAPÊUTICAS

Sabe-se que a criança se constitui como outro através da relação. Portanto, é  preciso levar em consideração suas experiências de vida e seus sintomas e resgatar  sua história relacional para entender melhor sobre as relações estabelecidas pela  criança. Sabendo que a família faz parte das questões existenciais da criança, bem como dos sintomas, é necessário realizar entrevistas com os pais e/ou toda pessoa  que representa um campo expressivo no contexto da criança, que convivem mais  com ela (por exemplo, um(a) tio(a), os avós, a babá, um vizinho, etc.) para verificar  bloqueios e falhas nesse contato.

De acordo com Aguiar (2014), quando uma criança chega com uma queixa em  psicoterapia, considera-se como um sinal de que a criança, como um todo, em sua  relação com o mundo, não se encontra na forma mais satisfatória, ou seja,

“não focalizamos o sintoma como um problema em si que precisa ser  

resolvido, mas como uma forma criativa alcançada pela criança, com os  

recursos que dispõe, de assinalar suas dificuldades de interação com o  

meio do qual faz parte naquele momento”. (AGUIAR, 2014, p. 49).  

É preciso compreender como essa parte se relaciona com o todo para identificar  qual é a melhor intervenção para a criança estabelecer uma relação mais satisfatória  com o mundo e não mais ser preciso se expressar através do sintoma.

O sintoma, para a Gestalt-terapia, tem a função de autorregulação da criança. A  criança vai se autorregular na interação com o mundo da melhor forma possível, de  acordo com suas possibilidades naquele momento, desenvolvendo, assim, o  sintoma, que, mesmo sendo pouco satisfatório para ela e para o campo, ainda é o  melhor para aquele ambiente.

O sintoma vem para apontar como anda a interação familiar e para mostrar aos  familiares que a criança não é como eles esperam que ela seja. Aguiar (2014)  explica isto ao dar exemplos de crianças que defecam na calça e possuem  familiares com mania de limpeza ou de crianças que estão com dificuldade de  aprendizagem e possuem familiares intelectualizados. Ou seja, a criança traz o  sintoma como uma forma de mudar o seu meio para algo mais assimilável. A  manifestação pela via do sintoma é uma tentativa de equilíbrio. Então, a intenção  não é acabar com o sintoma de imediato, e sim ajudar a criança a construir outras  formas mais satisfatórias de se relacionar com o mundo.  

Às vezes, as famílias responsabilizam as crianças por um desequilíbrio que ocorre  na dinâmica familiar e que, na maioria das vezes, não é percebido pelas famílias como relacionado a elas. Por isso, é necessário fazer um trabalho associado às  famílias (AGUIAR, 2014). Na orientação à família, é necessária a conscientização de  conflitos pessoais não resolvidos para reconfigurar a dinâmica familiar e facilitar no  processo psicoterapêutico da criança.

De acordo com Aguiar (2014), para diagnosticar, é preciso ter em mente tais  questões:

“Que tipo de relações essa criança veio estabelecendo ao longo de sua  

existência? Quais foram as implicações de tais relações para seu processo  

de autorregulação organísmica? Quais os elementos presentes em seu  

campo relacional que a impedem ou dificultam de construir e/ou escolher  

novas formas de satisfação? [...] Para que ela precisa se comportar ou se  

relacionar de tal forma dentro de tais contextos a fim de manter seu equilíbrio e de que elementos estariam concorrendo para isso? [...] Que tipo de exigência, restrição, a criança encontra em determinado contexto que precise agir de determinada forma para se autorregular?” (AGUIAR, 2014,  p. 54-55).

Uma compreensão diagnóstica sob a ótica da Gestalt se dá através de uma  metodologia fenomenológica de investigação por meio da observação atenta de tudo  que é trazido, seguida pela descrição detalhada de tudo o que foi observado, utilizando-se de categorias diagnósticas (temas, relações, funções de contato2,  mecanismos de evitação de contato, situações inacabadas3 e auto-suporte4) e as  articulando (AGUIAR, 2014).

Aguiar (2014) aponta que ao observar como os responsáveis se relacionam entre si  e com a psicoterapia, dará ao terapeuta uma base de suas possibilidades para uma  intervenção.

“Além de considerar aquilo que os responsáveis trazem como tema [...],  

observar como esses adultos se relacionam entre si e com o psicoterapeuta

[...], como utilizam suas funções de contato [...] e quais os mecanismos de  

evitação de contato presentes nessas relações [...], assim como eles  

articulam o que trazem para a primeira sessão com o motivo “principal” da  

consulta – a criança – [...] é de fundamental importância não só para nossa  

compreensão acerca do que se passa com a criança e a família em questão,  como já nos dá uma base de suas possibilidades de acolhimento de  

devoluções e intervenções vindas do psicoterapeuta num momento posterior  do processo”. (AGUIAR, 2014, p. 44).

O trabalho da compreensão diagnóstica é baseado no que o terapeuta observa: os  movimentos, os gestos, expressões, postura, o tema geral das atividades que a  criança realizou, o tema mais investido pela criança e os temas que se repetem.  Como a criança percebe a si mesma.

2“A função de contato é a abertura por meio dos sentidos para vivenciar as trocas com o mundo”  (D’ACRI; LIMA; OGLER, 2007, p. 202).

3 “[...] o nome mais adequado para a Gestalt incompleta [...], ou seja, quando a premência de uma  situação assume a dominância. [...] As interrupções no fluxo natural de formação das figuras tornam se situações inacabadas, que dão lugar à aparição dos comportamentos neuróticos e psicóticos” (D’ACRI; LIMA; OGLER, 2007, p. 202).

4 O bebê, “À medida que vai desenvolvendo seu autossuporte, se diferencia e distancia daquilo que  lhe dera suporte inicialmente (receber pronto do meio), direcionando-se para uma autossuficiência (um apoio ancorado mais em si e menos no meio)” (D’ACRI; LIMA; OGLER, 2007, p. 29).

Como a criança usa os mecanismos de  evitação de contato, se escuta e olha o terapeuta, etc. Se a criança faz uso da  fantasia, como brincar de faz de conta. Observar a sequência da sessão, como a  criança inicia e finaliza a sessão. Se a criança possui habilidade para fazer escolhas,  como realiza suas escolhas. Se a criança faz uso da criatividade, se cria algo. Se a  criança é curiosa e explora o ambiente e faz perguntas ao terapeuta. Se a criança se  responsabiliza por seus atos. Como a criança reage às intervenções do terapeuta; se tapa os ouvido, se sai correndo, etc. Como a criança reage a limites e  frustrações; seu grau de tolerância. Como a criança se relaciona com o terapeuta, e  qual o tipo de vínculo estabelecido com ele. Observar o uso das funções de contato,  se a criança se permite tocar coisas e pessoas, como é a sua escuta, se “escuta” o  terapeuta e a família, como explora visualmente o ambiente e se tem contato visual  com as pessoas. Observar a sua linguagem, o modo como se expressa, se fala  baixo, alto, se faz voz de bebê, etc. Como a criança usa o espaço físico, se percorre  todo o espaço, se corre, se pula ou se fica em um só canto, quieta, etc. (AGUIAR,  2014).

De acordo com Aguiar (2014), o método fenomenológico se caracteriza pelo uso de  uma linguagem descritiva, possibilitando que a criança, através das intervenções  descritivas do psicoterapeuta, construa, gradativamente, o significado do material  que traz para a sessão terapêutica, sem a interferência de qualquer a priori do  terapeuta, seja ele de caráter teórico ou oriundo de seus próprios valores. Para que  isto ocorra, é fundamental que o terapeuta mantenha suas crenças, seus valores e  suas necessidades “entre parênteses”, implicando em uma suspensão de seu juízo  de valor tanto na compreensão quanto na condução de qualquer situação  terapêutica.

Para Santos (2015), o terapeuta estará avaliando o cliente durante todo o processo,  e a avaliação estará sempre em construção. Entretanto, é imprescindível, para o  manejo da psicoterapia infantil, uma avaliação inicial para uma melhor compreensão  da situação. O atendimento infantil coloca o terapeuta em contato com outros  profissionais, como neurologista, psiquiatra, pediatra, professor, etc., e a avaliação  proporcionará ao terapeuta subsídios para responder, de forma integrada e  consistente, ao que está acontecendo com a criança, contribuindo para o diálogo  com a família e outros profissionais. Em uma avaliação psicológica infantil sob a  ótica da Gestalt, o terapeuta não foca somente no sintoma, mas em como os contextos familiar, escolar e social estão implicados no sintoma da criança.  

“Portanto, nosso papel em uma avaliação psicológica infantil passa por  

compreender essa criança que chega, sem pré-conceitos, ou talvez fosse  

melhor dizer, nos dando conta de nossos pré-conceitos. Observando não só  

as dificuldades que a criança e sua família têm, mas também suas  

potencialidades. Intervindo, oferecendo recursos para que nossos clientes  

possam se dar conta de seu funcionamento, e seus pais, de suas  

implicações. Desta forma, a avaliação não só servirá para orientar nosso  

manejo clínico, mas para a conscientização da criança e de sua família  

sobre sua forma de estar no mundo, abrindo caminho para o processo  

psicoterapêutico “.(SANTOS, 2015, p. 20).

O processo terapêutico com crianças sob a ótica da Gestalt tem, como propósito,  promover, de forma saudável, o desenvolvimento da criança, ampliando suas  fronteiras de contato e proporcionando mais possibilidades de ser e estar no mundo,  através de recursos lúdicos para ajudar na expressão e comunicação da criança no  espaço terapêutico.  

Soares (2011) pensa a Gestalt-terapia como uma antropologia da criança, pois se  investe na restauração da habilidade em falar e produzir suas histórias, afirmando  seus potenciais e reconhecendo suas impotências em um constante  desenvolvimento de possibilidades.  

Na Gestalt-terapia, percebe-se a relação terapêutica como um fenômeno de  interação que facilitará o surgimento de formas mais saudáveis e satisfatórias com o meio. É através da relação que se constitui o ser humano, e é através desta que há  uma possibilidade de reconstrução do ser humano.

É importante deixar claro, para a família, em que consiste o trabalho da terapia, o  que pode ser feito, para não deixá-la criar expectativas fantasiosas sobre a criança e  sobre o tratamento. Além do estabelecimento do vínculo com a criança, é  imprescindível o fortalecimento de vínculos com a família, para que estes  mantenham a criança em tratamento e tenham confiança para que deixem trabalhar  com eles também.

“De acordo com nossa perspectiva holística e autorregulada de família, toda  

e qualquer alteração em uma das partes, oriunda de elementos internos ou  

externos à família, promove um momentâneo desequilíbrio, alterando a  

dinâmica familiar e demandando assim uma reconfiguração que muitas  

vezes precisa do auxílio do psicoterapeuta para concretizar-se de forma  

satisfatória, sob pena de culminar com a interrupção do processo  

terapêutico” (AGUIAR, 2014, p. 245).

Segundo Cavanellas (2007), é preciso estar atento para não reforçar o sentimento  de culpa e fracasso da família em relação à criança, pois, ao estar aberto para as  famílias, é possível perceber um desamparo trazido pela falta de tempo, de atenção,  de respeito, de cuidado, de amor.

Outro ponto importante que Aguiar (2014) destaca é que não existem “mocinhos e  bandidos”, mas são pessoas com dificuldades. Culpar a família não ajuda no  processo terapêutico; é preciso ajudar as crianças a lidar com a família que elas  possuem e não com a família que gostariam de ter.

“Vamos passar pela vida da criança; não vamos adotá-la, levá-la para casa  

ou protegê-la de todos os males. Nossa tarefa é ajudá-la a reunir recursos  

para lidar de forma mais satisfatória com seu contexto e assim ter  

possibilidades de realizar ajustamentos criativos mais funcionais”. (AGUIAR,  

2014, p. 144).

O terapeuta deve confirmar a criança, ou seja, servir como um espelho para  descrever a criança e confirmar suas potencialidades, para que ela possa saber o  que consegue e o que ainda não consegue. Isto proporcionará à criança aceitação e  reconhecimento por aquilo que ela é. Torna-se essencial para o processo a  aceitação do terapeuta, pois esta é a diferença da relação terapêutica de outras  relações da criança, já que, muitas vezes, a família, ao levá-la para a terapia, quer que o terapeuta modifique a criança, o que faz com que a criança não se sinta aceita  pela família, gerando mais sofrimento. Para que a criança possa compreender e  saber lidar com seus sentimentos e suas necessidades, precisa ser aceita,  carecendo de permissão e de ajuda do meio (AGUIAR, 2014).

Segundo Lima e Lima (2015), ao permitir que a criança seja ela mesma, esvaziando se de julgamentos e preconceitos, e ao brincar com ela, expressará seu mundo,  tomará consciência de si e buscará meios que possibilitarão um desenvolvimento  saudável da sua totalidade. O recurso lúdico no trabalho com crianças é um meio  facilitador da expressão e da linguagem. É nesse mundo que ela se comunica e expressa suas emoções. É através do brincar que formará um vínculo de confiança  entre o terapeuta e a criança; e o brincar facilitará o caminho de encontro com a  criança e o seu mundo.

O brincar é uma ferramenta essencial para o processo terapêutico com a criança,  pois irá revelar como a criança está no mundo, como reage às diversas situações; a  brincadeira possibilita à criança experienciar, organizar-se, construir normas, criar e  recriar o seu mundo (OLIVEIRA, 2010). De acordo com Lima e Lima (2015), na  brincadeira, a criança expressa seus medos, angústias, fantasias, emoções e sentimentos, e muitos adultos não percebem. A família precisa deixar que a criança  brinque, bem como ter adultos que brinquem com ela e proporcionar espaços para  que a criança viva sua infância, seja ouvida e amada e viva seu mundo de fantasias.

É necessário estabelecer limites no espaço terapêutico para que a criança possa ter  frustrações e aprender a lidar com elas de forma satisfatória e criativa.  

“Essa talvez seja uma das experiências mais emblemáticas e bonitas da  

psicoterapia: possibilitar que a criança dê solução à seguinte questão: como  

eu posso manipular criativamente o meio para suprir minha necessidade  

através de caminhos satisfatórios?” (AGUIAR, 2014, p. 229).

Segundo Oliveira (2010), as famílias precisam, muitas vezes, de mais ajuda do que  a criança, tornando a demanda da criança secundária diante da necessidade das  famílias de uma escuta e um direcionamento. Procurar um psicólogo é admitir que  algo não vai bem com a criança e com a família, gerando medos, expectativas e  fantasias neste primeiro contato com o psicólogo.

Durante o processo terapêutico com a criança, é necessário acompanhar a família,  ouvi-la, tirar dúvidas, orientá-la, informá-la, conversar a respeito da criança e do que  pode estar afetando-a, possibilitando à família a tomada de consciência para  trabalhar suas atitudes em relação as suas crianças e melhorando a interação entre  eles e também questionando a respeito da responsabilidade deles sobre a criança,  bem como facilitar a comunicação entre os membros da família. Diante de famílias disfuncionais, sem saber o que fazer e como lidar com a situação, o terapeuta irá  mostrar-lhes possibilidades, recursos e alternativas para lidarem com suas crianças,  de acordo com suas possibilidades, “ajudando a encontrar o seu caminho e a  desenvolver os seus recursos” (AGUIAR, 2014, p. 247) e trabalhando, assim, a  responsabilidade e liberdade de escolha.

6 - CONCLUSÃO

Após a realização da pesquisa de revisão sistemática, percebeu-se que, embora  existam alguns estudos sobre esse tema, ainda são poucos os materiais disponíveis  sobre a temática da influência da família para o desenvolvimento infantil de zero a  três anos sob a ótica da Gestalt, necessitando mais pesquisas sobre a temática. Por  mais que se discuta a importância dos três primeiros anos da criança, a psicoterapia  infantil não atinge as crianças desta idade e suas famílias. Geralmente, após a inserção nas creches é que os educadores detectam o “problema” e realizam o  encaminhamento.

O comprometimento no desenvolvimento da criança ocorre devido à atual situação  em que as famílias se encontram, com pouco tempo para se dedicarem  afetivamente a elas, atribuindo à creche a tarefa de cuidar de suas crianças – a  função da creche mudou, não é mais um local para depositar as crianças enquanto  as mães trabalham; sua função é educar e estimular o desenvolvimento da criança.  E, levando em consideração o índice crescente da inserção na creche da criança de  zero a três anos, conforme foi verificado, os dados da PNAD apontam que, em 2025,  crianças de zero a três anos que frequentam as creches irão atingir 50% da  população. É pertinente pensar na inserção do psicólogo nas creches, considerando a prevenção, para que a atuação do psicólogo possa chegar antes mesmo de se  instalar “um problema”, intervindo não só com as crianças, mas atuando junto às  famílias e à escola.  

Pode-se afirmar que o desenvolvimento não ocorre por automatismos, pela  passagem do tempo ou pelos efeitos maturacionais, e sim pelo investimento afetivo de que a família dispõe para a criança, pois o ser humano é um ser de relações que  são construídas com outro humano, através do afeto. Portanto, o desenvolvimento  pleno da criança está intimamente ligado ao afeto que a família proporcionará a ela.  

Intervir na criança é pensar na humanização, que se inicia até mesmo no cuidado  com a gestante, como, por exemplo, o pré-natal, o curso de gestante, que inclui a  participação do pai, o parto humanizado, tendo um olhar mais cuidadoso com a  gestante e com o bebê, evitando-se, assim, problemas gestacionais e complicações  no parto, fatores estes primordial para o desenvolvimento saudável da criança.

No funcionamento saudável, a criança irá usar da criatividade e flexibilidade, recriando novas formas para lidar com o seu ambiente. É a forma fluida e  espontânea de estar no mundo, possibilitando contatos satisfatórios e discriminando  dos contatos tóxicos. Em contrapartida, no funcionamento não saudável, a criança  terá um contato empobrecido com o mundo devido à sua rigidez, inibição e  cristalização. E a psicoterapia auxiliará a criança a desenvolver estratégias  saudáveis para lidar com o seu ambiente, encontrando novas formas de interagir  com o meio.

A Gestalt-terapia oferece uma visão mais ampla do ser humano e, em especial, da  criança, enxergando-a como ativa no mundo, um ser que modifica o que está ao seu  redor. A Gestalt-terapia reconhece e salienta a importância da família para o  desenvolvimento da criança, tendo a função de auxiliá-la e confirmá-la. É importante,  para a resolutividade da terapia, não focar somente na criança; é preciso que haja  uma mudança na relação entre a família e a criança e nas atitudes da família no  ambiente familiar.

A pesquisa proporcionou uma experiência pessoal e profissional, um  aperfeiçoamento no atendimento infantil, com um olhar mais aguçado e amplo sobre a família, de modo que se tenha um olhar mais cuidadoso para a criança e sua família, meio no qual ela estabelece seus primeiros contatos, sendo estes essenciais  para a existência humana.

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NOTAS

Thalita Rodrigues Silva: Aluna do curso de graduação em Psicologia da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) Unidade Divinópolis. Dezembro/2015.

Cristina Silva Gontijo: Co-Autora (orientadora): Professora responsável pela orientação do Trabalho de Conclusão de Curso. Mestre em Educação.

Endereço para correspondência

Thalita Rodrigues Silva

E-mail: rds.thalita@gmail.com

Cristina Silva Gontijo

E-mail: cristfloresta@yahoo.com.br

Recebido em: 03/05/2016

Aprovado em: 12/10/2016

Revista IGT na Rede, v. 13, nº 24, 2016, p.15-36 DOI 10.5281/zenodo.15054331

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526