ARTIGO

Gestalt-Terapia de Grupo: o que é isso?

Group Gestalt Therapy: what is it?

Fábio Costa Fadel

Márcia Estarque Pinheiro (Orientadora)

RESUMO

O objetivo desta monografia é alcançar um entendimento básico do que seja a  Gestalt-terapia de grupo. Para tanto, aprofunda os conceitos acerca de grupo e  de psicoterapia de grupo, e apresenta a seguir a produção de artigos em  português publicados entre 2009 e 2013 em revistas indexadas nas bases  BVS, SciELO e PePSIC que contenham os descritores Gestalt-terapia e grupo. O material de apoio é mais amplo, e inclui livros, dicionários, além do sítio de  pesquisa Google e conhecimentos pessoais.

Palavras-chave: Gestalt-terapia de grupo; Gestalt-terapia; grupo; psicoterapia  de grupo; psicoterapeuta de grupo.

ABSTRACT  

The purpose of this monograph is to achieve a basic understanding of what the  group of Gestalt therapy . Therefore , deepens the concepts about group and  group psychotherapy , and offer the following production Portuguese articles  published between 2009 and 2013 in journals indexed in the VHL , SciELO and  PePSIC containing the Gestalt therapy and group descriptors . The collateral is  broader , and includes books , dictionaries , besides Google search site and  personal

Keywords: Group of Gestalt therapy; Gestalt-therapy; group; group  psychotherapy; group psychotherapist.

Apresentação

Nesta monografia para conclusão de curso em especialização clínica procurei  elaborar um estudo inicial sobre a Gestalt-terapia1de grupo e sua ação  terapêutica. É a sequência de um interesse pelo tema relação, já examinado  em monografia de graduação (FADEL, 2006), na qual investiguei o poder do  afeto, invisível gerador de mudanças, no contexto das relações entre homens e  animais: se antes a relação abordada foi a interespecífica, agora será a  intragrupal.

Tendo o grupo como foco, a Gestalt-terapia é a lente de observação. Desde a  graduação, fui cativado pelo seu olhar existencial, sistêmico, holístico,  relacional, fenomenológico, humanista e filosófico, que não enfatiza a doença,  mas a existência. Foi por não acreditar no enfoque patologia-cura que desisti  da profissão de veterinário.

Através dos atendimentos clínicos com casais e famílias, entendidos como  grupos primários, pessoas que convivem íntima e regularmente, desenvolvi a  compreensão sistêmica dos fenômenos.

Todos os grupos podem ser vistos no contexto das relações interpessoais, que  são canais invisíveis por onde circulam afetos. A experiência relacional também  ocorre na psicoterapia individual, mas esta carece de um terceiro, exterior, que  

olhe para essa relação. Exceto pelo papel do supervisor, que interage apenas  com o psicólogo, essa relação só pode ser vista de dentro pelos que dela  participam.

Em uma psicoterapia individual podemos ser vistos pelo psicólogo, quando  escuta o relato de nossa questão, e quando observa nossas alterações e  expressões, diretamente, daquilo que lembramos, imaginamos, contamos. Mas  em uma terapia com grupo podemos prescindir desse esforço de trazer  passado ou futuro para elaboração: o momento psicoterapêutico é também o  resultado da interação imediata entre os membros, com todo o colorido  vivencial que isso aporta.

Quando cliente em uma psicoterapia individual, pude participar de workshops de final de semana com cerca de outras vinte pessoas. Era também uma  psicoterapia individual, só que feita na presença do grupo, cuja ênfase permanecia sendo introspecção, mas diante de uma plateia. A presença de terceiros trazia situações imprevistas, fazendo emergir alguns fenômenos no  aqui e agora, e também aprendíamos por observação, ―fazendo terapia  silenciosa‖, como disse Fritz Perls. Comparados com a terapia individual, esses  workshops tinham mais calor e combustão espontânea, sendo mais vivencial,  embora ainda não relacional.

Cheguei a uma terceira terapia como cliente, desta vez de grupo, com encontros semanais, conduzida por duas psicólogas. O grupo revelou-se ele  

1Será utilizada a forma ―Gestalt-terapia‖ com ―G‖ maiúsculo por se tratar de palavra estrangeira  assim grafada.

mesmo terapêutico2, embora ao psicólogo coordenador coubesse garantir a  permanência do encontro, sem deter o monopólio da cura3. Há algo que só ele pareceu fazer: oferecer e cuidar do ambiente, espaço físico e temporal do  encontro, bem como da efetividade da técnica. Ele foi mais um maestro do que  um músico virtuoso. E mais klinikós4do que herbarium5. Para além dele se  apresentava o grupo em sua expansividade de vida não contida nem domada.  O grupo, no qual se incluía o psicólogo, era maior e diferente daquilo que o  psicólogo planejasse fazer com ele, desdobrando sempre novas possibilidades  relacionais, estas, sim, terapêuticas e não as técnicas se as houvesse fora das  relações.

Ao longo desse período como cliente de psicoterapia, também atuei enquanto  psicólogo com indivíduos e grupos, experimentando o desafio que é conduzir  grupos e a necessidade de uma formação teórica que oriente o profissional em  suas decisões do momento. É muito difícil fazer um bom trabalho grupal  baseado em intuição na medida em que é necessário manter uma coerência  sistemática das ações e decisões terapêuticas. Não seria produtivo mudar o  referencial a cada sessão, fazendo ensaios e experiências para ver o que  funciona. Mesmo dentro do referencial gestáltico existem várias formas de se  conduzir grupo, como veremos adiante, sem falar nas configurações de outras  correntes teóricas. Para o trabalho com grupos é preciso ter um mapa e uma  bússola, para haver condição (e ainda não a garantia) de saber aonde se quer  chegar e de como fazer para isso.

Coordenei grupos psicoterapêuticos no Sistema Único de Saúde (SUS) como  psicólogo concursado de prefeituras municipais, podendo dizer que, em geral,  as mulheres compunham mais de dois terços dos pacientes6; os grupos  apresentavam cerca de dez pessoas; tinham a duração média entre uma hora  e uma hora e meia, com frequência semanal, sem prazo para encerrar; eram  grupos abertos, com entrada e saída de participantes. Pude constatar que os  grupos, passando o tempo, assumiam como objetivo a sua perpetuação,  tendendo a não ser psicoterapêuticos. Procurei problematizar a questão com  colegas e coordenação, concluindo que ―grupos de encontro‖, também  chamados, com sutis diferenças, ―grupos de acolhida‖ ou ―grupos para falar‖,  seriam mais adequados por sua maior flexibilidade de formato e conteúdo,  parecendo ser a demanda de grande parte das pessoas que procuravam o  serviço no ambulatório de saúde mental.  

 

2Do grego therapeutês: ―que cuida, trata, cura doentes‖. E therapeía ―cuidado, tratamento de  doentes‖. Do latim therapia. (Verbete. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa) 3 Medicina é em latim a ―arte de curar‖. (idem)

4 Do grego kline, ―leito‖; klino, “inclinar ou curvar‖; klinikós, ―que diz respeito ao leito‖, pelo latim  clinìcus. A clínica ou klinike era o inclinar-se do médico sobre o doente acamado para ouvir o  que ele sussurrava. ―Clínica‖ do latim clinìcus é também ―conjunto de cliente‖ – e cliente é um  indivíduo dependente. (Verbete. Dicionário Médico Stedman e Novíssimo Dicionário latino

português).

5Latim herbarìum,ìi ―obra que trata de botânica‖; livro em que se reuniam descrições e  ilustrações de plantas, com indicações sobre suas propriedades medicinais. (Verbete.  Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa)

6 Há uma discussão sobre a distinção entre os termos ―paciente‖, ―cliente‖ ou ―usuário‖.  Contudo, este trabalho monográfico usará indistintamente um ou outro.

Devo reconhecer que os dias mais espontâneos e acolhedores eram aqueles  em que se festejava o aniversário de alguém. Não deixava de haver, para o  psicólogo, certo conflito metodológico com essa invasão do ―profano‖ no  ambiente ―sagrado‖ da psicoterapia. Conflito que era expressão de uma  ―pureza‖ (ou, por que não, preconceito) do modelo terapêutico, mas que fez  surgir a reflexão acima exposta que indicava a conveniência de outro formato  de grupo, mais aberto, que promovesse a convivência. Este existe no trabalho de ―ambulatório ampliado‖, uma experiência vigorosa que antecedeu o  surgimento dos CAPS em alguns municípios. Atualmente, ao que parece, quem  ocupa o espaço do grupo de acolhida é a Terapia Comunitária, criada pelo  brasileiro Adalberto de Paula Barreto, modelo que desde 2008 integra a Política  Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do Departamento de  Atenção Básica do Ministério da Saúde7.

Durante o tempo em que o conflito metodológico entre ―psicoterapia pura‖ e  ―grupo de acolhida‖ ganhava força dentro de mim, houve o risco, nem sempre  evitado, de querer forçar o usuário do serviço público de psicologia a entrar no  modelo psicoterapêutico pré-definido na cabeça do profissional para abordar questões intra e intersubjetivas que exigiriam do usuário disposição e insight nem sempre disponíveis. Porque a dor que traziam, sendo de solidão e  rejeição, pedia cuidados de pele ferida, cujo tratamento não haveria de ser  invasivo, como seria o colocar em questão o modus operandi das relações do  usuário, mas, por outro lado, promover essas relações ali mesmo e facilitando  que o grupo as promovesse: se alguém trazia uma queixa, como síndrome do  pânico, por exemplo, os membros do grupo viam nessa ocasião a oportunidade  de descobrir em si recursos para ajudar os outros. Nem sempre ortodoxos.

O encontro pode ser terapêutico desde o início, se for dada permissão às  pessoas de estarem juntas, ainda que às vezes problematizando esse desejo  de encontro e permanência. No grupo pode haver um elixir terapêutico que  harmonize os afetos, amenize as dores, amplie os horizontes da vida, um  aroma que vem do outro e vai para o outro. Esse ―elixir‖, e ―aroma‖, invisível  gerador de mudança, é um tema cujo estudo nos leva da técnica para além  dela, perpassando a poesia, a literatura, a filosofia e a arte, o corpo, a música,  a dança e a transcendência.

Introdução

O homem, ser de relação, vivencia grupos desde o início de sua história,  quando foram necessários dois gametas para a formação de um embrião.  

Um casal faz planos para o filho por nascer, que durante a gestação recebe  influências do ambiente externo e do estado emocional da mãe, como o som  de uma música ou a batida rítmica do coração materno.  

 7 Disponível em < http://www.ensp.fiocruz.br/portal-ensp/informe/site/materia/detalhe/14465>,  acessado em 13 out 2014.

O desenvolvimento infanto-juvenil, especialmente a transformação cognitiva, foi  estudado em detalhes por Jean Piaget, Lev Vigotsky e outros. As mudanças  que marcam ―ciclos de vida‖, do nascer ao envelhecer, foram observadas por  Erik Erikson e Joan Erikson; o processo de morrer, por Elizabeth Kübler-Ross.

Dentre tantos aspectos relevantes para o desenvolvimento humano,  destacamos nessa monografia a visão existencialista do homem como um ser  de relação, um ser-no-mundo e um ser-para.

Para escrever esse trabalho, restringimos o aspecto relacional ao escopo da  Gestalt-terapia de grupo, aproveitando-nos das já descritas experiências como  cliente de grupos e como psicólogo concursado de prefeituras municipais por  cerca de seis anos, onde atendi todos os públicos, em arranjo individual,  familiar e grupal, quer em ambulatório ou em CAPS (Centro de Atenção  Psicossocial).

Serão apresentados conceitos sobre grupo, segundo sua etimologia e história;  pelo ponto de vista do autor existencialista Jean-Paul Sartre; e conforme a  Gestalt-terapia. Em seguida, será feita uma distinção entre três tipos de  psicoterapia, empregando-se como auxílio as preposições em, de e do (psicoterapia em / de / do grupo). Depois, apresentaremos uma revisão  bibliográfica de publicações ocorridas nos últimos cinco anos (2009 e 2013). Ao  longo do texto alguns livros e mesmo artigos mais antigos são citados como  material de apoio.

Se fizermos uma tentativa de esquadrinhar na literatura não científica  ilustrações de psicoterapia de grupo, logo perceberemos que ou bem  encontramos o tema psicoterapia (individual) ou grupos (não  psicoterapêuticos).

No primeiro caso, conta-nos Nise da Silveira (SILVEIRA, 1998) o que é, para  ela, a primeira história de psicoterapia que se tem registro: a relação entre a  divindade Tot, o deus egípcio da sabedoria, e Tefnut, filha de Rá, o grande  deus sol.

Tot, na forma de macaco, é enviado por Rá para acalmar sua filha Tefnut, na  forma de leoa, e trazê-la de volta à casa paterna. Sujeita a grandes cóleras, é capaz de emitir fogo pelos olhos, pela boca e pelo nariz.

Tot, então, encontra Tefnut no deserto da Núbia, em um estado de fúria  devastadora. Fala-lhe tranquilamente. Conta-lhe que o tempo está esplêndido  no Egito, mas que todos ficaram tristes depois que ela partiu. E a leoa, de juba  flamejante, dorso cor de sangue e olhos chispantes, batia no solo com a cauda,  levantando grandes nuvens de poeira que obscureciam o deserto. Tot, porém,  prossegue em sua fala mansa, contando-lhe fábulas. A leoa acaba se  comovendo e suas lágrimas caem como chuva torrencial. Metamorfoseia-se  em gata, a divindade Bastet, e condescende em voltar à pátria, onde é  recebida com efusivas manifestações de alegria.

Semelhante história é aquela de Buda Shakiamuni quando encontra  Angulimala (GYATSO, 2014): este, acreditando que tirar a vida das pessoas  deixá-lo-ia mais forte, é pacificado quando encontra o Buda que o deixa  paralisado por não ter medo nem ódio no coração, convertendo Angulimala em  discípulo, depois de mostrar-lhe a ignorância na qual se baseava seu  comportamento.

Há o inspirador trabalho de Monty Roberts, retratado no livro ―O homem que  ouve cavalos‖ (2001), inspiração para o filme ―O encantador de cavalos‖, em  que ele usa com os equinos a sua linguagem selvagem (de olhar e dar as  costas), sem violência, para amansar e curar traumas desses animais – um  processo emocionante que em nada fica a dever a Tot. Mas são animais, e seu  método é o comportamental. Merece destaque o romance de Irvin D. Yalom, Quando Nietzsche chorou (2012): embora ficção, é um curso completo de psicoterapia.

Na sétima arte, o ator Robin Williams interpreta um terapeuta individual no filme  Gênio Indomável (1997), com Matt Damon. Do Brasil, tivemos o filme ―Divã‖ (2009), protagonizado por Lilia Cabral. E também quatro episódios da séria ―A  Grande Família‖, da Rede Globo, intitulados ―Psicoterapia: uma visão  humorada com ‗A Grande Família‘‖.

Ainda falando em série televisiva, a GNT apresentou ―Sessão de terapia‖ (2013), dirigida por Selton Mello, na qual um psicanalista, conquanto receba  casais, não atende grupos.

A maioria dos filmes que retratam terapia com grupo deixa a impressão de  apresentar grupos temáticos de autoajuda, no modelo dos Alcoólicos Anônimos, enfatizando a tolerância, o respeito, a escuta e a partilha.  

Com isso, sente-se falta da psicoterapia de grupo ser representada na arte e  na literatura. Encontrou-se uma paródia em vídeo na internet, chamada ―Nunca  se sábado – terapia de grupo‖.

Como justificativa da importância de investigar a Gestalt-terapia de grupo,  temos dois níveis.

Em um primeiro, mais pessoal e microssistêmico8(ALVES, 1997; MARTINS e  SZYMANSKI, 2004) propomos a necessidade de segurança que o profissional  

 8 Definido como um padrão de atividades, papéis e relações interpessoais experienciais pela  pessoa em desenvolvimento num dado ambiente com características físicas e materiais  específicas. Segundo a Ecologia do Desenvolvimento Humano de Urie Bronfenbrenner,  microssistema pode ser definido como o ambiente onde a pessoa em desenvolvimento  estabelece relações face a face estáveis e significativas. Neste sistema, é fundamental que as  relações estabelecidas tenham como características: reciprocidade (o que um indivíduo faz  dentro do contexto de relação influencia o outro, e vice-versa), equilíbrio de poder (onde quem  tem o domínio da relação passa gradualmente este poder para a pessoa em desenvolvimento,  dentro de suas capacidades e necessidades) e afeto (que pontua o estabelecimento e  perpetuação de sentimentos – de preferência positivos – no decorrer do processo), permitindo

precisa ter sobre o que está fazendo e assim aumentar no cliente a confiança  no processo de terapia grupal para com isso permitir a ambos, profissional e  cliente, o reconhecimento de estarem no caminho esperado e proposto pela  psicoterapia de grupo.

Em um segundo nível, mais amplo e macrossistêmico9(ALVES, 1997; MARTINS  e SZYMANSKI, 2004), teríamos a psicoterapia de grupo como instância  fundamental para lidar com a crise de identidade resultante do contexto sócio histórico de nossa era hipermoderna:

―Época de soberania da sociedade de mercado e de consumo, com  

os consequentes efeitos de devastação das tramas vinculares,  

reclusão individualista, crescente vivência de desamparo e  

privatização do sofrimento psíquico‖. (FÉRNANDEZ, 2006, p. XIII)

E a Gestalt-terapia de grupo ainda surge como resposta à crescente demanda  pelo dispositivo grupal nas instituições públicas de saúde, aplicado tantas  vezes de modo acrítico e quase amador devido à insuficiente formação dos  profissionais que atuam nessas instituições.

A experiência das psicoterapias em grupo desponta como proposta para a  criação de um ser no mundo congruente10, livre e responsável, desenvolvendo  seu self11autêntico no lugar do falso self12. É a conclusão a que chegou Fritz  Perls para propor ―eliminar totalmente as sessões individuais, exceto nos casos  de emergência‖ (Terapia de Grupo versus Terapia Individual In: STEVENS,  1977, p.29). Ele chega a criticar até os workshops e propor a formação das  comunidades ou Gestalt-kibutzim.  

O objetivo geral da monografia é alcançar um entendimento básico do que  seja a Gestalt-terapia de grupo. Quanto aos objetivos específicos almejamos  apresentar a evolução da palavra grupo; a seguir, obter um retrato, sempre  parcial, de como se faz Gestalt-terapia de grupo no Brasil, através da revisão  bibliográfica; e, por fim, evidenciar aspectos conhecidos de Gestalt-terapia que  estejam em destaque ou ausentes na literatura encontrada.

A metodologia empregada foi a busca na internet por artigos em português  publicados entre 2009 e 2013 (últimos cinco anos), com os descritores Gestalt terapia e grupo, na base de dados da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS)13 para  

 

em conjunto vivências efetivas destas relações também em um sentido fenomenológico  (internalizado).

9Abrange os sistemas de valores e crenças que permeiam a existência das diversas culturas, e  que são vivenciados e assimilados no decorrer do processo de desenvolvimento; influência dos  aspectos sócio-econômico-culturais.

10 Termo emprestado de Carl Rogers, ou maduro para Fritz Perls.

11 ―Em gestalt-terapia‖, diz Fritz, ―nós escrevemos self com ‗s‘ minúsculo (...) e significa apenas  si mesmo, por melhor ou pior que seja, doente ou sadio, e nada mais‖ (PERLS – Gestalt terapia explicada, p. 110).

12 Diz Fritz em Gestalt-terapia explicada (p.38) que ―onde algumas pessoas têm um self, a  maioria das pessoas têm um vazio, pois estão muito preocupadas em parecer isto ou aquilo‖. 13 BVS - http://regional.bvsalud.org/php/index.php, lançada em 1998 pelo Centro Latino  Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (ainda conhecido por BIREME,

elaboração do capítulo Desenvolvimento. Dois artigos foram obtidos mediante  pagamento ao SCIELO, sendo que um deles enquadrava-se no critério  temporal de ter sido publicado nos últimos cinco anos. Secundariamente, como  material de apoio, especialmente para a Introdução, fez-se uma busca no  Google, além de livros, dicionários e material de conhecimento pessoal.

Nos artigos, as palavras-chave deveriam estar ou no título, ou no resumo, ou  nas palavras-chave. Para os livros, era esperado achar os mesmos descritores  no título da capa ou de um capítulo, sendo encontrados os de Jorge Ponciano  Ribeiro: ―Gestalt-terapia: o processo grupal – uma abordagem fenomenológica  da teoria do campo e holística‖ e o de Therese Tellegen: ―Gestalt e grupos:  uma perspectiva sistêmica‖, ambos da Editora Summus. E também um capítulo  no livro ―Isto é Gestalt‖, de John Stevens, o ―Terapia de grupo versus terapia  individual‖ sobre o trabalho com grupos pelo fundador da Gestalt-terapia. Não  foram citados os livros de Afonso Henrique Lisboa da Fonseca: ―Grupo:  fugacidade, ritmo e forma – processo de grupo e facilitação na psicologia  humanista‖, da Editora Ágora, nem o de Irving D. Yalom: ―Psicoterapia de grupo‖, da Artmed, cuja obra é referência no Brasil para o trabalho com grupos,  por não tratarem de Gestalt-terapia de grupo. Alguns livros estão parcialmente disponíveis on-line de forma gratuita.

O capítulo ―Desenvolvimento‖, a seguir, aborda as questões de ―o que é grupo‖ e ―o que é psicoterapia de grupo‖ antes de apresentar a revisão da literatura  publicada nos últimos cinco anos no Brasil sobre Gestalt-terapia de grupo.  

Por fim, o capítulo com as Considerações Finais, e também um anexo sobre o  termo ―ubuntu‖, alcunha de Nelson Mandela, além do apêndice com uma  poesia de José Régio.

1 – O que é grupo?

1.1 – Grupo, segundo uma visão histórica e semântica14 ou etimológica15 Eis um esquema do que será apresentado nesta primeira parte do capítulo um:

 

acróstico da outrora Biblioteca Regional de Medicina), um centro especializado da Organização  Pan-Americana da Saúde - OPAS, estabelecido no Brasil desde 1967, inclui importantes fontes  de informação como Lilacs (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde),  Medline (Medical Literature Analysis and Retrieval System Online, base de dados bibliográficos  da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos), PEPSIC (Periódicos Eletrônicos de  Psicologia, que segue o modelo SciELO, um projeto da FAPESP-BIREME-CNPq), entre outros.

14 Ciência que estuda a evolução do significado das palavras e de outros símbolos que servem  à comunicação humana; do francês e grego: ―que indica, que significa‖ (Verbete. Dicionário  eletrônico Houaiss da língua portuguesa).

15 Estudo da origem e da evolução das palavras (idem).

(Figura 1 – etimologia de ―grupo‖ – FERNÁNDEZ, 2006, p.19)

FERNÁNDEZ (2006, p. 17) expõe significados atribuídos ao longo do tempo à  palavra ―grupo‖ em português e espanhol ou groupe em francês, cuja origem é  o italiano gruppo ou groppo, surgido no Renascimento (entre séc. XIV e XVII),  

durante o trânsito entre o social – com referências a Deus, ao senhor, à fé – e o  individual – com alusões a ciência, ao livre mercado – referindo-se a um  conjunto de pessoas esculpidas ou pintadas chamado groppo scultorico, forma  artística de escultura própria do Renascimento, que vem ganhar volume ao se  separar dos prédios medievais e novo sentido quando observada em conjunto  com outras esculturas em vez de isoladamente.

Exemplos de groppo scultorico, a partir da mostra ―Esplendores do Vaticano‖,  vista no Brasil em 2013:

Figura 2 – exemplo de groppo scultorico – (em escala de cinza) - ―Martírio de São Paulo‖ do  Cibório de Sixto IV - (1471 – 1484) de Paolo Romano (1415 – 1470),  

feito de resina e pó de mármore, original do século V. Disponível em  

http://arsmediaevalis.com.br/2012/09/20/exposicao-esplendores-do-vaticano-comeca-nesta sexta-feira-em-sao-paulo/, ou em http://guia.uol.com.br/album/2012/09/20/veja-itens-da exposicao-esplendores-do-vaticano-em-sao-paulo.htm#fotoNav=14, e também disponível em  http://www.acatolica.com/2013/01/e-o-vaticano-continua-entre-nos.html, acessados em 09 mar  2014.

Figura 3 – exemplo de groppo scultorico – (em escala de cinza) – ―A Crucificação de São  Pedro‖ do Cibório de Sixto IV, de Paolo Romano.

Disponível em http://www.acatolica.com/2013/01/e-o-vaticano-continua-entre-nos.html,  acessado em 09 mar 2014.

Groppo assume o significado de conjunto de pessoas no século XVIII,  momento de constituição da subjetividade moderna, do processo de nucleação  da família, o grupo íntimo por excelência (FERNÁNDEZ, 2006, p. 22). Antes  significava nó, derivado do antigo provençal, o atual sul da França, grop. A  figuração nó remete não só ao maior volume, mas também à coesão (afetiva)  necessária para fazer um grupo e não um amontoado de pessoas, ao que  Sartre chamaria série (PERDIGÃO, 1995, p.205).

Por sua vez, grop é derivado do alemão Kruppa com significado de massa  arredondada ou círculo, remetendo à distribuição circular das pessoas em  grupo, como nos lendários Cavaleiros da Távola Redonda. Porém, ―o mero  

sentar-se em círculo não determina igualdades hierárquicas nem atenua os  jogos de poder. (...) pareceriam ter muito mais peso os intercâmbios (...) de  olhares que a distribuição espacial escolhida possibilita‖. (FERNÁNDEZ, 2006,  p. 21). Lembremo-nos do Panóptico, de Erwing Goffman, uma organização  também circular, porém de controle, onde o poder de vigiar e punir estão centrados naquele que tudo vê, mas não é visto.

Semelhante evolução etimológica está no Dicionário eletrônico Houaiss da  língua portuguesa: do italiano gruppo (nó, conjunto, reunião), derivado do  lombardo16 kruppa, equivalente ao frâncico17 kruppa, (massa arredondada).

A propósito deste item, considerar que:

 

16relativo a um povo germânico que em 568 invadiu, colonizou e formou um reino no vale do rio  Pó na Itália. (Verbete. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa). 17povo germânico que invadiu a Gália ou França nos séculos III e IV. (Verbete. Dicionário  eletrônico Houaiss da língua portuguesa).

―quando se apela para a história da palavra para defender um dos  

seus sentidos, o que se faz é um jogo retórico, cujo valor é o valor  

que tem o jogo retórico, que pode ser muito grande. Mas não se  

fornece nenhuma garantia de que o sentido da palavra é o que se diz  

que é18.‖

Anzieu (apud FERNÁNDEZ, 2006, p.18) destaca que até o momento do  Renascimento as línguas antigas não dispunham de termo para designar uma  associação de poucas pessoas que compartilham um objetivo: ―é possível  pensarmos que até então os pequenos coletivos humanos não teriam adquirido  relevância suficiente para fazer parte das representações do mundo social em  que viviam‖ (idem, p. 19), predominando o coletivo mais amplo.  

De acordo com FERNÁNDEZ (2006, p. 17), os séculos XVII e XVIII dirigem  suas indagações ao indivíduo, principalmente com Descartes. O século XIX  investiga o ser da sociedade, sobretudo com Durkheim e Marx. Mas é no  século XX que surgem as questões referentes ao grupo, geralmente entendido  como um conjunto restrito de pessoas, intermediário ou mediador entre a  sociedade e o indivíduo.  

O que daria nó, fazendo surgir a coesão grupal? Ou, nas palavras de  Fernández (2006, p. 20), ―que enodamentos-desenodamentos se organizam  dentro de um conjunto reduzido de pessoas?‖.

O que dá nó em uma família? A carne e o sangue. O que é a carne, o sangue?  A herança, algo que permanece e foi transmitido, dando ao membro da família  um nome que ele conserva e o insere nessa permanência e nessa comunidade  que o antecede. A vida está garantida nesse nome de família que permanece.

Precisa ser a carne e o sangue? Um membro pode ser adotado, recebe como  herança o direito de pertencer permanentemente. Aliás, se tiver o sangue e não  for acolhido, não deu nó: são os filhos abandonados. Por que não dá nó?  Como na epígrafe: ―tempo ou oportunidade não determinam a intimidade,  apenas a disposição‖.  

Por que alguém não se dispõe a dar nó? Talvez não se acredite capaz, mas  inábil. Acredita-se sozinho. Talvez não queira dar o nó por não desejar as  consequências desse nó. Ficar ligado. Pertencer ao outro. E o outro pertencer  a si. Isto daria medo e levaria a fugir da possibilidade de fracassar, para não ser rotulado como incapaz de formar laços.  

Mas por que se realizaria a solidão que se teme? Porque assim parece que  optou-se livremente, e alguma dignidade resta, a dignidade de ter escolhido,  ainda que arrogante, como se depreende lendo ―Cântico Negro‖, poema de José Régio, em anexo. Ou porque a pessoa não teve a oportunidade de  desenvolver o senso de intimidade e de confiança, de liberdade e igualdade,  necessários para estabelecer vínculos.

18Disponível em http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/palavreado/etimologias acessado em 09  mar 2014.

O que dá nó em uma família? Talvez, quando o casal escolha montar uma  família, ela seja o projeto em si, as pessoas se encontram para essa finalidade  e livremente se colocam na condição para execução desse projeto: a de que  um precisa do outro para concretizá-lo. E para que montar uma família? Para  ter laços, para formar nó, e fica eleito que este será o nó mais forte que será  dado na vida. Para que? Para estar com alguém, e ser com esse alguém. Não  apenas estar com alguém, mas com alguém que precisa de nós. Viver no  desejo do outro, pois quem não se percebe necessário ao outro sente a  iminência de ser descartado e esquecido, sente raiva e tristeza, ainda que esse  outro seja um animal de estimação.

Conforme tradição encontrada no Antigo Testamento, ter um filho é uma forma  de vencer a morte e de ser abençoado com aqueles que cuidarão do ancião; o  filho é a esperança de uma promessa de vida, de sobreviver nas gerações  seguintes. Por isso – e não querendo polemizar – a visão religiosa se opõe ao  aborto por entender que o filho não é maldição, mas promessa. Os povos  antigos depositavam esperança nos filhos, ―os filhos são a benção / herança do  Senhor, o fruto do ventre é uma recompensa / uma dádiva! Como flechas na  mão de um guerreiro são os filhos de um casal de esposos jovens‖ (Salmo 126,  3-4).

Somos seres de relação, desde a infância em íntima dependência dos adultos,  cujo tempo de vinculação excede o dos outros animais que em poucas horas  de nascidos já ficam de pé e conseguem andar para longe da genitora. É na  prolongada relação inicial do bebê com seus genitores que o homem se torna  um ser disponível para a cultura.

Para Max Pagès (apud TELLEGEN p. 19-20) relação é:

―a realidade afetiva primeira, originária e imediata (...) que funda  

todas as relações vividas, está na base dos laços grupais (e por isso)  

não precisa ser explicada ou construída, mas des-coberta pelo grupo.  

É um processo que mobiliza angústias profundas e faz surgir  

estruturas defensivas que, no decorrer da vida do grupo se modificam  

e – espera-se – tornam-se menos rígidas e restritivas, podendo,  

eventualmente, se superar.‖

Relação vem do latim ―ação de dar em retorno‖ (Verbete. Dicionário Houaiss) e  expressa fazer laços, que seria um ―nó facilmente desatável‖ (idem) entre  pessoas que formam o grupo.  

A família costuma ser chamada de ―grupo primário‖, e Jorge Ponciano Ribeiro  (1994, p.33) afirma que todo grupo terapêutico deve se transformar em um  grupo primário:

―caracterizado por uma cooperação face a face (sendo) o resultado  

de uma fusão íntima (...) de tal modo que a meta e a finalidade do  

grupo são a vida em comum, objetivos comuns e um sentido de  

pertencimento, com um sentimento de simpatia e identidade.‖

Nisto, Ribeiro não teria a concordância de Bleger (2003), psicanalista, para  quem é antiterapêutico o grupo (operativo) construir como finalidade a  existência em si mesmo, considerando o enrijecimento advindo desse esforço:  a meta deve ser, para Bleger, o aprendizado grupal e não uma vida em  comum.

Os T Group ou grupos-T de Kurt Lewin eram normalmente de um tamanho  entre oito e doze participantes (LIMA, 2011, p. 221), mesmo número de  pessoas em um grupo primário para Ribeiro (1994, p.33). Comparando com a  família moderna de, em geral, duas a quatro pessoas, propor um grupo com  oito a doze é criar uma situação nova para o cliente.

Relação e religião mostram uma ação de retorno, respectivamente, uma  ligação com o horizontal mundano da relação com pessoas e o vertical celeste da origem e do fim da vida. A dimensão teísta está ausente na maior parte das  abordagens psicoterapêuticas, a despeito da afirmação buberiana de que ―as  linhas de todas as relações, se prolongadas, entrecruzam-se no Tu Eterno‖ e  ―O Tu Eterno é aquele que não pode tornar-se Isso‖ (BUBER apud BELLO,  texto não publicado). Esse ―Tu Eterno‖, diríamos, é o Amor, ―um aspecto da  saúde que é inseparável da tomada de consciência e da espontaneidade‖ nas palavras de Claudio Naranjo a seguir:

―É possível que as pessoas precisem conhecer e aceitar sua raiva  

antes de transcender a ambivalência infantil que faz parte da  

condição neurótica, porém penso que a teoria e a prática da  

psicoterapia teriam muito a ganhar com um relacionamento explícito  

do amor como um aspecto da saúde que é inseparável da tomada de  

consciência e da espontaneidade.‖ (NARANJO, 2005, p.98)

O amor existe nas dimensões de amor por si mesmo, amor pelos outros, amor  pelo divino e pela criação.

1.2 – Grupo, segundo a fenomenologia19 

Considerando a obra de Edmund Husserl, autor da fenomenologia, como extensa e complexa, passível de entendimento errôneo, e divergente conforme  a fase de seus escritos, a descrição a seguir se baseia nos verbetes ―fenômeno‖ e ―fenomenologia‖ do dicionário filosófico de Abbagnano (2007).

Fenômeno (Verbete. ABAGGNANO, 2007) é uma representação que o sujeito  tem do objeto, é o objeto como aparece ao homem, sem ser ilusório ou  enganoso, mas não é o objeto em si mesmo. Para Husserl, essa aparência  guarda relação com a essência, aquilo que o objeto realmente é, de forma que  é possível ao homem atingir um conhecimento do objeto enquanto tal. O objeto  transcende a consciência (intencional) e está presente ―em carne e osso‖.

 19 Há autores que questionam se a Gestalt-terapia pode ser, de fato, fenomenológica, ou se  apenas recebeu contribuições da fenomenologia.Para aprofundamento, sugerimos a leitura de  COSTA, Cristiane de Figueiredo – Fenomenologia: uma discussão acerca da articulação entre  Husserl e Gestalt-terapia. Revista IGT na Rede, v. 7, n° 13, 2010. P. 423-463.

A fenomenologia é a descrição do fenômeno, daquilo que aparece, sem  construções distanciadas da realidade, mas a partir das coisas mesmas como  elas aparecem (―ir às coisas mesmas‖). Ela suprime o dualismo entre ser e parecer, preservando a diferença entre eles: o ser do fenômeno existe ainda  que não se nos revele.

Através da redução transforma os fenômenos em essências, cujo exemplo  mais famoso é o da mesa, que pode ser maior ou menor, mais leve ou mais  pesada, mais alta ou mais baixa, mantendo algumas características que a  fazem sempre mesa.

Descrever um grupo pelo método fenomenológico supõe a existência de uma  essência ―grupo‖ que exceda qualquer descrição que se faça dele. Supõe  também alguém a observá-la, e uma descrição imediata – não no sentido de  instantaneamente, mas de não mediada ou sem intermediários.

A ideia de grupo pode permanecer ainda que ele deixe de existir, e nesse  sentido a fenomenologia de Husserl, para alguns autores, se aproxima de um  idealismo.

Parece-nos difícil, nesse momento, apresentar um conceito para grupo  segundo a fenomenologia.

Outro conceito importante para a fenomenologia é o de ―coisa em si‖, que  Abbagnano (verbete, 2007) define como ―o que a coisa é, independente da sua  relação com o homem‖, estando além do conhecimento humano. Opostamente,  Ribeiro (1994, p.49-50) afirma que a coisa em si é ―a coisa tal qual a vemos e  tocamos‖ e o em si da coisa é que seria ―o seu invisível, o seu mistério, a  significação que damos a ela‖, comparando ―a coisa em si‖ com a figura e o  ―em si da coisa‖ com o fundo.

A fenomenologia, como se vê, é um método investigativo, com hipóteses a  posteriori, formuladas depois da observação do fenômeno, não cabendo,  portanto, esperar uma descrição hermética do constructo20 ―grupo‖ para a  fenomenologia, mas tratar das condições de produção desse saber acerca do  grupo. É mais factível estudar o conceito grupo em algum autor que usou o  método fenomenológico, como a seguir com Jean-Paul Sartre, do que esperar  um conceito pronto para a fenomenologia.

1.3 – Grupo, segundo Jean-Paul Sartre (1905-1980)21 

 20 Ou ―construto‖: construção puramente mental, criada a partir de elementos mais simples,  para ser parte de uma teoria; objeto de percepção ou pensamento formado pela combinação  de impressões passadas e presentes. (Verbete. Dicionário eletrônico Houaiss da língua  portuguesa).

21 Jean-Paul Sartre é citado por ter sido um filósofo que difundiu a fenomenologia, e por  apresentar uma teoria acerca de grupos. Não se pretende apresentá-lo como autor de  referência para o trabalho de Gestalt-terapia com grupos: muito ao contrário, como se verá.

Para esse autor, grupo é uma experiência de ―nós-objeto‖ que se verifica  quando eu e outro(s) somos vistos por um terceiro excluído de nossa relação  que nos apreende como um todo. O terceiro excluído descobre fins comuns  nas ações dos indivíduos de uma coletividade por ele unificada de fora (PERDIGÃO, 1995, p.208-211). Um exemplo: duas pessoas estão tirando  fotografias uma da outra, alguém chega e identifica ali um grupo. Ele se  oferece para tirar fotografia das duas pessoas juntas, sendo que uma quarta  pessoa identifica um grupo naquele trio, e todos podem ainda se alternar no  papel daquele que fotografa os demais.

No grupo sartreano, as liberdades se associam, agregam esforços e lutam  juntas para transformar uma situação, com vistas a um fim comum. Suas  condições preliminares são: estar em um campo comum, existir um ou mais  terceiros excluídos que o captam de fora como um todo, haver um perigo a ser  combatido ou uma escassez a ser rechaçada, ter a urgência de um fim comum,  a crença de que a solução está no grupal e contar com o ímpeto de todos (PERDIGÃO, 1995, p. 212-213).  

Para Sartre, os próprios membros do grupo criam o grupo (PERDIGÃO, 1995,  p. 213), é uma união de interioridades, cada membro unifica os demais, o papel  de terceiro unificador circula entre os membros do grupo. É possível unificar os  outros em um todo objetivo, mas jamais poderia me captar a mim como um  integrado em um todo já feito.

Entendemos que Sartre resolve a antinomia do indivíduo x sociedade  superando a relação binária entre o indivíduo e o todo para uma relação  ternária: o indivíduo, o todo e o terceiro mediador. Já não existem ―outros‖, mas  vários ―eu mesmo‖: a razão dialética sartreana defende que o todo se encontra  em cada parte que interioriza esse todo. Sartre não atinge a visão buberiana da  relação Eu-Tu, e sua peça teatral ―Entre quatro paredes‖, produtora da  famigerada assertiva ―o inferno são os outros‖, expressa aonde se pode chegar  nas relações para ele, sempre baseadas em conflito: ser escravo do outro, que  é nosso juiz e nosso senhor, para servir ao projeto desse outro – ou fazer o  projeto do outro servir aos nossos fins (PERDIGÃO, 1995, p. 146).  

Críticas ao modelo de Sartre diriam que sua visão do ser humano é utilitarista,  coisificando as pessoas, como no modelo de senhor-escravo da dialética de  Hegel. Sartre não acreditaria na possibilidade de relação Eu-Tu como Martin  Buber, mas Eu-Isso, como que invertendo a crença psicanalítica (Isso-Tu) onde  só o paciente é sujeito. As implicações das crenças sartreanas para nosso  trabalho em Gestalt-terapia, no qual predomina a relação dialógica em vez da  dialética, são de ordem ética, estética e metodológica.

1.4 – Grupo, segundo a Gestalt-terapia

Uma contribuição do Gestaltismo para a teoria acerca dos grupos foi a ideia de  que o todo é diferente da soma das partes: portanto, o grupo não seria a soma  dos indivíduos, e a sociedade não seria a soma dos grupos. No entanto, aquela visão de grupo, como mediador entre o indivíduo e a sociedade, é a recorrente  nos textos.

Na década de 1930 surge a Dinâmica de Grupo nos Estados Unidos, trazendo  a figura do Coordenador de Grupo e a Teoria de Campo, teoria física que Kurt  Lewin transpôs para a realidade humana. Sobre o conceito de ―campo‖, para  Lima (2011, p. 219-220):

―tinha a utilidade de circunscrever e demarcar as fronteiras a serem  

consideradas em um estudo específico (sendo que) a noção de  

contexto (o campo onde se dão os fenômenos a serem estudados) é  

fundamental para aqueles que pretendem atuar no modelo de Lewin‖.  

Quanto aos tipos de campo, RIBEIRO (1994, p.63-64) explica haver o  geográfico, o psicológico e o comportamental. Campo geográfico é aquele  ainda não significado, é a realidade em si: uma praia, uma rosa. É o grupo em  seus primeiros momentos: um conjunto de pessoas em uma sala. As emoções  surgem mais por fruto das experiências anteriores do que da realidade  presente. Os membros são figura, as necessidades individuais vêm primeiro  que as do grupo, que é fundo. Já o campo psicológico é o que recebe uma  significação a partir das emoções que afetam um relacionamento presente,  aqui e agora. E o campo comportamental é o que decorre dos anteriores: em  função de afetos (em um grupo) surge um tipo de comportamento. Seguindo a vertente organísmica de Kurt Goldstein, a Gestalt-terapia vê o  grupo como um sistema que age como um todo, e o que afeta uma parte afeta  o todo (RIBEIRO, 1994, p. 71-72). Essa metáfora do grupo como unidade  organísmica pode ser vista em texto de dois mil anos, a primeira carta de São  Paulo aos Coríntios, capítulo 12, versículo 12 e seguintes, onde o autor se  refere ao grupo de pessoas batizadas como sendo um corpo e ―não obstante,  tem muitos membros, mas todos os membros do corpo, apesar de serem  muitos, formam um só corpo (...) Se um membro sofre, todos os membros compartilham o seu sofrimento‖ (Bíblia de Jerusalém, 1992, p. 2163).

O grupo é comparado no Gestaltismo de Goldstein a um organismo dotado do  princípio da autorregulação, que é um ―instinto grupal (...) que fareja seu  crescimento, seu caminho, seu alimento e os persegue‖, um espaço em que a  pessoa encontra oportunidade de se regular com o ambiente para satisfazer  suas necessidades de nutrição e eliminar suas tensões (RIBEIRO, 1994, p. 11).

As manifestações do grupo devem ser vistas, segundo Ribeiro (1994, p. 16),  como uma unidade biopsicossocioespiritual, que adoece quando perde ou  afrouxa os laços dessa unidade.

O grupo é o espaço vital, expressão de Kurt Lewin que significa:

―o universo do psicológico (campo psicológico), é o todo da realidade  

psicológica, contém a totalidade dos fatos possíveis (campo  

geográfico), capazes de determinar o comportamento do indivíduo  

(campo comportamental); inclui tudo o que é necessário à  

compreensão do comportamento concreto de um ser humano  

individual em um dado meio psicológico e em um determinado tempo.  

O comportamento é função do espaço vital (que é o próprio grupo e o campo psicológico).‖ (HALL e LINDSEY, 1971, p. 238 apud RIBEIRO,  

1994, p. 69). (parêntesis nossos).

Grupos convivem com dois medos básicos, conforme Ribeiro (1994, p. 43): o  de perdas (sobre o equilíbrio atingido) e o do novo (de enfrentar a mudança de  quando os antigos parâmetros não são mais válidos e os novos ainda não são  suficientes). Algo semelhante, no indivíduo, Fritz Perls chamou impasse  existencial: ―uma situação onde o apoio ambiental não está disponível e o  paciente é, ou acredita ser, incapaz de lidar sozinho com a vida‖ (PERLS apud  STEVENS, 1977, p. 34).

Parece que na opinião de Lima (2011, p. 226) não é suficiente o modelo  organísmico, pois ―só podemos compreender qualquer modelo teórico ou  prático de trabalho com grupos, se nos respaldarmos na Teoria dos Sistemas,  principalmente a partir da segunda cibernética e da definição de sistemas  abertos‖. Importante registrar que sistemas comportam subsistemas, ou seja,  um grupo possui subgrupos com vida própria, e em dado momento cada  individuo pode ser visto como um subsistema do grupo. Quanto à função do  coordenador de grupo, Lima (2011, p. 226) conclui que:

―deixa de ser a de trabalhar os membros individualmente, mesmo que  

dentro do grupo, mas passar a considerar os fenômenos grupais  

como indicativos do momento do grupo e buscar uma compreensão  

do grupo como um todo (...) e do uso de técnicas que levem a um  

modelo de intervenção sistêmico.‖

2 – O que é psicoterapia de grupo?

A Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) define psicoterapia de grupo como ―forma  de terapia da qual dois ou mais pacientes participam sob a orientação de um  ou mais psicoterapeutas, com o propósito de tratar distúrbios emocionais,  desajustamentos sociais e estados psicóticos‖22.

Vejamos essa definição em partes.

Terapia é o tratamento e o cuidado de doentes (Verbete. Dicionário Houaiss).  Como visto à página 10, vem do latim therapia, pelo grego therapeía, e significa  cuidado e tratamento de doentes. Terapeuta é, portanto, aquele que cuida e  trata. Não sabemos se existe correlato grego para o latim medicus (médico)  que significa ―aquilo ou aquele que cura‖, mas percebe-se que terapeuta e  médico possuem significado semelhante.

Psico, do grego psykhé, tem o sentido de alma e do ponto de vista etimológico  significa respiração, sopro vital, vida. Ela se afasta do homem no momento de  sua morte, é o que sobra para a outra vida, uma vez que morreram com o  corpo o thymós (sentir), o phrén (entendimento) e o nóos (entendimento e  espírito). A psykhé é uma imagem pálida ou simulacro do falecido, uma sombra  

 22 Disponível em Descritores em Ciências da Saúde, (http://decs.bvsalud.org/), acessado 09  mar 2014.

sem entendimento, abúlica e apática. Conduzida por Hermes até a barca de  Caronte e atravessando a porta guardada pelo cão de três cabeças Cérbero, a  psique enfrentava o julgamento e passava a ocupar um dos três  compartimentos: Campos Elísios, Érebro ou Tártaro. Do Érebro as almas  mergulham no Tártaro para os tormentos permanentes ou sobem para os  Campos Elísios, de onde poderão partir para reencarnação ou metempsicose  (BRANDÃO, 2000, p.144-146 e 317-318).

Paciente vem do latim patiéns ou patiéntis, aquele que suporta, que resiste,  que sofre, que sente paixão (do latim passividade, sofrimento) (Verbete.  Dicionário Houaiss). O entendimento kantiano define paixão como ―inclinação  emocional violenta, capaz de dominar completamente a conduta humana e  afastá-la da desejável capacidade de autonomia e escolha racional‖. Paixão  seria um sentimento, gosto ou sofrimentos intensos que chegam a ofuscar a  razão. Conduz a pessoa para um estado ao qual ela permanece a despeito de  sofrer com ele.

Psicoterapeuta refere-se àquele que trata de distúrbios emocionais,  comportamentais ou da personalidade, com base na comunicação verbal e não  verbal com o paciente, em contraste com os tratamentos que utilizam medidas  químicas e físicas (Verbete. Dicionário Médico Stedman).

Um ou mais psicoterapeutas faz menção à coterapia. O trecho a seguir,  retirado de uma conferência entre psicanalistas, é excelente como material de  reflexão:

―Castellar (Carlos Castellar): o interessante é que estamos caindo  

num momento do nosso diálogo em que se estabelecem loas à  

coterapia. É importante para o desenvolvimento do trabalho, cria  

situações ricas de conhecimento, mas ainda há pouco, enquanto o  

microfone estava desligado o Py (Luiz Alberto Py) perguntava: ―quem  

está fazendo coterapia?‖ E nenhum de nós quatro está trabalhando  

com ela. Isso é um dado importante. Na realidade, o que acontece é  

que a coterapia implica uma divisão dos proventos, e naturalmente  

isso reduz o que cada terapeuta ganharia com seu grupo. A solução  

seria o aumento de pacientes do grupo em coterapia. Haveria então  

uma soma maior a ser dividida. Essa é uma das razões pelas quais  

não adotamos a coterapia como prática; outra, também importante, é  

que a maioria das pessoas que trabalham em grupoterapia não tem

experiência em coterapia e ficam naturalmente um tanto receosas de  

iniciar esse tipo de trabalho. Outro aspecto é que, no correr dos anos,  

a coterapia tem sido muito mais utilizada com fins didáticos, como um  

fator de formação de grupoterapia, do que realmente no trabalho  

formal de terapia de grupo. No entanto, vemos aqui nesse nosso  

encontro que estamos todos de acordo que ela é útil, que facilita o  

trabalho; e apesar de termos participado por tanto tempo de  

instituições formadoras de grupoterapeutas, até mesmo nessas  

instituições a nossa posição não tem sido muito enfática, nesse  

particular. Isso é um detalhe importante e que merecia uma reflexão  

maior.‖ (PY, p. 142, 1987).

Podemos pensar se a baixa adesão ao modelo de coterapia seria a  repercussão de uma cultura individualista sobre as escolhas do psicólogo para trabalhar sozinho.

Tratar distúrbios remete à cura e à história da psiquiatria desde Pinel e o seu  tratamento moral. Tratar significa lidar com, relacionar-se, debater, manter  conversação, embora o significado que prevaleça atualmente em uso seja o de debelar: anular ação ou efeito de algo considerado maléfico, extinguir, reprimir (Verbete. Dicionário Houaiss). E distúrbio é algo que atrapalha, perturba e  confunde: para a medicina, distúrbio seria o mau funcionamento da máquina  humana.

Pelo viés humanista-existencial, uma expressão mais conveniente para tratamento seria ―contato‖ que promove afeto gerador de vida, capaz de  resgatar o self autêntico na medida em que se percebe o falso-self. Contato é  ―o processo básico do relacionamento" (YONTEF, 1998, p.237) e ―a porta de  entrada para as relações e consequência óbvia para o diálogo, em que se dá o  real processo de psicoterapia‖ (OLIVEIRA FILHO, 2011, p. 277).  

É oportuno resgatar a origem grega do conceito de clínica como visto na  página 10: inclinar-se (para ouvir o sussurro do doente acamado e  enfraquecido). Em latim, clínica é o conjunto de clientes, que são indivíduos  dependentes. Afinal, a klinika que fazemos recebe clientes (nessa acepção) ou  paciente (conforme página 34)? Sabe-se que no Sistema Único de Saúde  (SUS) não é nem um nem outro: são chamados ―usuários‖ de um serviço  prestado.

Na opinião de Oliveira Filho (2011) a Gestalt-terapia se aproxima, mas  ultrapassa o conceito clássico de clínica onde o médico se inclinaria sobre o  paciente acamado e passivo: agora o cliente é o protagonista e vai até o  consultório.  

Ainda nessa linha de atualizar o conceito de clínica, aquele inclinar-se para  ouvir o murmúrio pode assumir o sentido de escuta atenta, inclinada ao desejo e à voz do coração que o paciente não sabe inicialmente ouvir sem ajuda, e  denota interesse pelo outro, já sendo um primeiro fator terapêutico e também moderador do furor curandis (ímpeto curativo) que desprezaria o que o sujeito tem a dizer sobre si.

Há quem prefira aproximar o conceito de clínica ao grego klinamen: criador de  diferença.

2.1 – Três tipos de psicoterapia de grupo  

O terapeuta de grupo poderá adotar predominantemente um dos diversos estilos para seu trabalho, havendo a possibilidade de em uma mesma sessão  acontecerem arranjos que se enquadrariam em estilos diferentes. A seguir,  uma distinção dos tipos de terapia feita através do uso de diferentes  preposições: terapia em grupo, do grupo e de grupo, conforme o autor desta monografia melhor compreendeu. Pois os autores encontrados divergem  ligeiramente: enquanto esta monografia tende a aproximar a Gestalt-terapia à  terapia de grupo, Domingues (2012, p. 313) afirma, a partir da terminologia de  Ponciano Ribeiro, que ―a metodologia científica do IGT23 é a terapia do grupo‖.  Isso apesar de seu artigo ser intitulado ―terapia de grupo...‖, resultado de uma  indefinição terminológica. Nem por isso se pretende, nesta monografia, padronizar a nomenclatura.

A primeira configuração lógica (e não cronológica) de trabalho com grupos vem  a ser a terapia (individual) em grupo, ou uma terapia individual com o grupo  assistindo, dando apoio com a mera presença como uma plateia apoia os  atores no palco (RIBEIRO, 1994, p.80-81). Era o modelo de Fritz Perls: a  pessoa fala seu assunto e o terapeuta trabalha com ele enquanto o grupo  assiste silenciosamente, passando a seguir para o trabalho com outro membro  do grupo. As relações entre os membros não são analisadas, nem o grupo em  si.

Fritz fala de seus workshops: ―o que eu estou fazendo é uma terapia individual  em contexto de grupo, mas não se limita a isto‖ (PERLS, 1977, p. 105). Ele não  se refere à Gestalt-terapia de grupo com encontros semanais, mas a workshops que podiam durar cinco semanas, antes de concluir que tanto um  quanto outro são obsoletos e decidir ―dar início ao primeiro Gestalt-kibutz‖, em  que haveria permanentemente cerca de trinta pessoas (idem, p.106):

―Nos meus workshops de Gestalt, quem sentir necessidade, pode  

trabalhar comigo. Estou disponível, mas não forço nada. Uma díade é  

desenvolvida, temporariamente, entre o paciente e eu, mas o resto do  

grupo é totalmente envolvido, embora raramente como participantes  

ativos. Na maioria das vezes, eles agem como uma plateia, que é  

estimulada pelo encontro a fazer um pouco de autoterapia silenciosa  

(...). Em contraste com o tipo usual de encontros grupais, eu carrego  

o peso da sessão, ou fazendo terapia individual, ou conduzindo  

experimentos coletivos. Frequentemente interfiro quando o grupo  

começa a fazer o jogo de opinar ou interpretar, ou a ter interações  

meramente verbais sem substrato experiencial; mas mantenho-me  

fora quando algo genuíno ocorre‖. (PERLS, 1975, p. 35-36)24 

Boris (1993/94, p. 48-49) afirma que o modelo de psicoterapia grupal de Perls  foi utilizado especialmente em seus últimos dez anos de vida, na década de 60.  Era um trabalho um-a-um com:

―o psicoterapeuta no centro e os demais participantes como mera  

plateia (modelo da cadeira quente ou hot seat). (...) os trabalhos  

começavam com uma manifestação de trabalhar por parte de um  

participante, e se encerravam com prováveis feedbacks dos demais  

membros grupais‖.  

Yontef (apud BORIS, 1993/94, p. 48-49 e 60) critica esse modelo ―menos por  sua efetividade e mais por sua restrita abrangência‖, por se tratar de uma  perspectiva individualista centrada no psicoterapeuta, comparando esse   23 Instituto de Gestalt-terapia e Atendimento Familiar.

24 Também citado em TELLEGEN, 1984, p. 51-52.

modelo de relação com os raios de uma roda, na qual o psicoterapeuta é o eixo  e toda interação passa por ele.

Lima (2011, p. 225) expõe como contradição o modo diretivo e fragmentador do  todo de Perls atuar nas décadas de 60 e 70 e os novos conceitos de campo,  sistema e interações que embasavam a abordagem gestáltica. Segundo essa  autora, Fritz Perls trouxe:

―Uma proposta prática de atuação no grupo onde o psicoterapeuta  

exercia um papel bastante centralizador e, valendo-se de técnicas,  

principalmente dentro do estilo hot-seat, trabalhava os membros  

individualmente. Ou seja, ao mesmo tempo em que as propostas para

o trabalho com grupos já começavam a situar-se dentro de um novo  

campo conceitual, levando em conta conceitos como o de campo,  

sistema, interações e transformações, a postura e as intervenções do  

terapeuta, levando-se em consideração o modo como Perls atuava e  

treinava novos terapeutas, era sem dúvida bastante incongruente  

com este viés teórico. Perls destacava que os membros do grupo  

eram permanentemente influenciáveis uns pelos outros, compondo  

uma nova configuração a cada momento, mas ele atuava ainda de  

um foco bastante diretivo e fragmentador do todo grupal‖.

Nas palavras de Ribeiro (2007a, p. 3), a abordagem gestáltica:

―desloca-se de uma perspectiva tradicional acerca da subjetividade,  

que concebe o indivíduo como passível de ser entendido em si  

mesmo (intrassubjetividade) para uma perspectiva que contempla as  

interações grupais e seus processos (intersubjetividade ou inter

existência)‖.

As técnicas empregadas no começo da Gestalt-terapia de grupo por Fritz Perls  eram resumidamente a hot seat e seu complemento, a cadeira vazia. Nas  palavras dele, em Gestalt-terapia explicada (1977, p. 110):

‖Eu uso seis instrumentos para poder funcionar. Um é a minha  

habilidade; outro é o lenço de papel. E há o lugar quente (hot  

seat). É para aí que vocês estão convidados se quiserem trabalhar  

comigo. E há a cadeira vazia que trará consigo um bocado da  

personalidade de vocês e de outros – vamos chamar assim, por  

enquanto – encontros interpessoais. Então há os meus cigarros (e) o  

meu cinzeiro”. (grifos meus)

Terapia do grupo25 é uma segunda forma de trabalho possível com grupos, na  qual o grupo todo é visto como cliente, a unidade de tratamento, e as  colocações individuais são vistas como ressonância da matriz grupal ou  inconsciente grupal (não confundir com o junguiano inconsciente coletivo). Em  outras palavras: o grupo é a figura e os membros são o fundo (RIBEIRO, 1994,  p. 67).

 25 Tomo a liberdade de indicar a aparente necessidade de correção no livro de Jorge Ponciano  Ribeiro (1994) que registra ―terapia de grupo‖ na página 81, impedindo a distinção do que  nomeia na página anterior da mesma forma.

Essa abordagem foi própria da psicanálise dos grupos, que buscava a  aprovação das Sociedades Psicanalíticas e não conhecia constructo para outra  prática que não fosse a individual (FERNÁNDEZ, 2006, pag. 99).  

Ribeiro (1994, p. 54) assegura que em seu trabalho atende o grupo como ―uma  unidade de referência‖, um todo sem partes nem relações internas dignas de  trabalho: ―minha tendência é trabalhar o grupo como um todo e entender  qualquer coisa que ocorra no grupo como algo que pertença à matriz grupal‖,  fazendo uma leitura de influência lewiniana ao se referir à matriz: um elemento  permanente (em oposição ao elemento transitório chamado processo), uma  realidade invisível, semelhante a conceitos como inconsciente grupal,  atmosfera de grupo, mentalidade de grupo (idem, p.34) ou interação sincrética para Bleger (2003). A matriz é construída pelo sistema de comunicação, ou  seja, tudo o que acontece no grupo pelo corpo (postura, roupa, perfume) e  pelas palavras e, embora elemento permanente, não é imutável.

Segundo Ribeiro (1994), ela pode ser percebida após cerca de dezesseis horas  de grupo, quando normas, valores e uma cultura grupal estão delineados e a  eles o grupo recorre para saber o que fazer em casos de dúvida (RIBEIRO,  1994, p. 34-36. Ver também VIEGAS, 2009, p. 18).

O conceito de matriz implica que trabalhar um membro do grupo seria trabalhar  todos e cada um (RIBEIRO, 1994, p. 39). Nesse modelo, o terapeuta ―está  sempre à cata do sintoma do grupo e não do sintoma das pessoas que o  compõem‖ (idem, p.81). Por outro lado, se um indivíduo experimenta  sensações que são apenas suas haverá um hiato entre ele e a matriz, havendo  conflito na fronteira de contato (idem, p. 35).

Foulkes inspira o trabalho dos citados Jorge Ponciano Ribeiro e Therese  Tellegen, como veremos a seguir. Siegmund Heinrich Foulkes, psicanalista  inglês e fundador da Psicoterapia de Grupo Analítica, buscou uma concepção  de psicoterapia de grupo que não simplesmente transferisse conceitos e  procedimentos da psicanálise individual para a situação de grupo. Fez uso do  conceito de campo de Lewin e do conceito de figura e fundo da psicologia da  Gestalt. ―Nesse sentido‖, diz Tellegen (1984, p. 19), ―as suas obras tornaram-se  importantes para mim‖. E Ribeiro afirma ser um discípulo de Foulkes, ter feito  sua tese de doutorado sobre a obra dele, e então ―aprendido com ele a ver, no  método fenomenológico, um grande instrumento de trabalho, que ele intuíra  pela Teoria do Campo de Lewin e da Teoria Holística Organísmica de  Goldstein. Daí para a Gestalt Terapia (sic) foi apenas uma passagem‖  (RIBEIRO, 2007b, p.74).

Foulkes (apud RIBEIRO, 2007b, p.66) apresenta diversos aspectos da  resistência em grupo, dentre eles o ―processo psicológico‖ (fundo) e ―processo  orgânico‖ (figura). Ribeiro (2007b, p.66) acrescenta que ―estamos habituados,  em análise de grupo, a lidar com resistência psíquica, mas não com resistência  orgânica ou corporal‖, esclarecendo que:

―um processo de resistência psíquica forte é frequentemente seguido  

de manifestações somáticas, como alteração da respiração, batidas cardíacas etc. Tais reações psicossomáticas ou neurovegetais (sic)

são expressão de um sofrimento psíquico forte‖. (RIBEIRO, 2007, p.  

66)

Quanto ao conceito de totalidade, Ribeiro (2007b, p. 67) considera que grupo e  paciente se revezam como figura e fundo e que: ―qualquer acontecimento no  grupo, ainda que ele pareça envolver um ou dois membros, tem uma  configuração tal que envolve todo o grupo‖. Para Foulkes, o aqui e agora  "significa sublinhar o valor da experiência direta na situação terapêutica, e que  isso é uma característica fundamental comum às psicoterapias existenciais"  (idem, p.68).  

Foulkes (apud RIBEIRO, 2007b, p. 69) considera ser necessário, primeiro, uma  clara consciência do "que" e só após passar ao "como", aceitando as muitas  interpretações que surgem no grupo como necessárias para fazer cada um ver  e concordar com tais perguntas. Por fim, aparece o "porque", mas não qualquer  porque, senão um porque agora, porque deste modo, porque através dele ou  dela. É, portanto, uma interpretação direta, baseada no aqui e agora, centrada  no visível, na figura, no fenômeno, de pouca especulação26.

Para Ribeiro (2007b, p. 69-70) a palavra do paciente não é o bastante para  explicar o mecanismo de resistência, sendo necessário observar as formas  não-verbais. O ponto certo de informação é o paciente e seu corpo. Se o  terapeuta trabalha um subsistema qualquer, e nele promove insight ou  fechamento de Gestalt, isto leva harmonia aos demais subsistemas e ao grupo  como um todo. "Quem não resiste não se cura" (idem, p. 70), afirma ao assumir  que a resistência nasce da sabedoria do organismo pela necessidade de se  defender de um suposto mal maior. Se não houver resistência talvez não haja  autocrítica, autoestima, capacidade de discriminação.

Terapia de grupo é a terceira configuração de trabalho com grupos. Possui fundamentos na crença existencialista segundo a qual o homem se revela nas  suas relações com o outro. Essa configuração não secundariza o grupo como  na terapia em grupo, nem dilui o paciente no grupo como na terapia do grupo.  Como diz Ribeiro (2007a, p. 4):

―O homem se revela nas relações que trava no mundo, tanto naquilo  

que faz e empreende, quanto no trato com o outro. Viver significa  

participar de um entrelaçamento, uma rede imbricada que origina o  

tecido de relações no mundo. Viver é, fundamentalmente, ‗conviver‘.

O conviver implica em vários modos e possibilidades. Atração e  

repulsão, aproximação e afastamento, contato e retraimento, simpatia  

e antipatia, concordância e discordância, todas essas formas são  

modalidades ou possibilidades do convívio humano. Entretanto, a  

convivência cotidiana é guiada por diferentes possibilidades de  

convivência: aquela que não reconhece o outro em suas  

possibilidades existenciárias (inautenticidade) e aquela que afirma e  

observa tal condição (autenticidade)‖.

 26 No sentido de "estudo teórico, baseado predominantemente no raciocínio abstrato" (Verbete.  Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa).

Na opinião do autor desta monografia, a antinomia entre indivíduo e sociedade  aparece, respectivamente, nas abordagens de ―terapia (individual feita) em grupo‖ e de ―terapia do grupo‖ (como um todo unitário), como será visto mais  adiante. A ser superado com uma teoria que inclua as relações (como na  terapia de grupo), promovendo uma ―cultura do encontro‖, na expressão usada  pelo papa Francisco em sua visita ao Rio de Janeiro pela Jornada Mundial da  Juventude em 2013.

Boris (1993/94, p. 49), por sua vez, chama de ―processo de grupo gestáltico‖ à  sua forma de fazer psicoterapia de grupo, em que ―o trabalho de awareness se  concentra, alternadamente, no relacionamento no grupo e no grupo como-um todo‖, sendo que, neste modelo, ―integrando princípios e práticas da Gestalt terapia e da dinâmica de grupo‖:

―o líder grupal atenta tanto ao desenvolvimento individual no grupo  

quanto ao desenvolvimento do grupo enquanto sistema social. Assim,  

o grupo já não é percebido apenas como um conglomerado de  

indivíduos, mas numa perspectiva em que o espaço grupal se torna  

um potente meio psicossocial que afeta significativamente os  

comportamentos, sentimentos e atitudes individuais e, por sua vez, é  

profundamente afetado pelos determinantes individuais. Este modelo  

baseia-se no pressuposto de que o desenvolvimento do potencial  

criativo individual depende de um sistema social saudável (...); outro  

pressuposto é o de que (...) os grupos (...) atravessam estágios de  

desenvolvimento comportamental (...): dependência, (...) contra  

dependência, interdependência‖. (BORIS, 1993/94, p. 49). [grifo meu]

Uma analogia possível é a de que a terapia individual em grupo é o trabalho  com o subsistema que é um paciente; a terapia do grupo é a atividade com o  sistema como um todo; e a terapia de grupo é o trabalho com os múltiplos  subsistemas e suas relações e com o sistema total de uma vez.

Aqueles ―estágios de desenvolvimento‖ que fala Boris, acima, são  necessidades básicas que as pessoas trazem para os grupos. A dependência é  ―a necessidade de se afiliar ou de pertencer e estabelecer a própria identidade,  a do líder e a do processo grupal‖. A contradependência é a ―necessidade de  autonomia, que mobiliza o participante do grupo a testar os limites de  autoridade e controle‖. Finalmente, a interdependência surge pela  ―necessidade de afeição e intimidade, que mobiliza os membros do grupo a se  relacionarem efetivamente uns com os outros‖ (BORIS, 1993/94, p.51). Seriam  necessários um ou dois anos de convivência para que um grupo se mantenha  funcionando nesse terceiro estágio (idem, p. 52).  

Com esse trabalho, almeja-se ao ―tratamento da consciência individual e coletiva, e da construção de um sentimento comunitário‖ (BORIS, 1993/94, p. 52), ―favorecendo a aprendizagem sobre o que significa ser um participante  grupal‖ pela ênfase no trabalho tanto com o indivíduo como com as relações e  com o grupo, recebendo influências de Bion (psicanálise), Berne (análise  transacional), Whitaker e Lieberman, Yalom, Astrachan (psicoterapia de grupo  e teoria dos sistemas) (idem, p. 50). Seria uma ―nova proposta incorporadora  tanto de estratégias de mudança psicológica e de crescimento pessoal

(psicoterapia) quanto de estratégias de aprendizagem (pedagogia) (...) destes  participantes sobre seus processos intrapessoais, interpessoais e grupais‖  (idem, p. 61).

Há de se ressaltar que este artigo de Boris, aparentemente inovador, é de vinte  anos atrás e está incluído aqui porque no capítulo seguinte somente estarão  artigos dos últimos cinco anos.

3 – Gestalt-terapia de grupo: uma revisão bibliográfica

Passemos agora ao objetivo específico de procurar compreender como está  sendo praticada a Gestalt-terapia de grupo no Brasil, através da leitura de  artigos, considerando-os em ordem cronológica decrescente.

Domingues (2012, p. 308) observa que o psicoterapeuta de grupo ―não precisa  ser uma presença marcante‖, no sentido de que os membros do grupo  interagem entre si sem necessidade constante de direcionamento.

Machado et al (2011, p. 101) pondera que seu papel de psicoterapeuta de  grupo foi de escutar, observar e relatar os fenômenos produzidos no grupo de  nove mulheres, entre 20 e 56 anos de idade, que se reuniam semanalmente  por noventa minutos em um total de dez encontros, tendo utilizado ―expressão  gráfica, uso da fantasia, música e metáforas, que possibilitaram o contato com  conteúdos emocionais‖ (p. 106). Estabelece a importância de um ―ambiente  acolhedor‖ e de ―um contrato (...) contendo algumas regras‖ no momento inicial,  quando realizaram uma ―dinâmica de apresentação‖ para cada participante se  apresentar através do desenho de uma flor (p. 106-107). Em cada um dos  encontros ―era feito o resgate da semana‖ e então ―elaborados experimentos‖  que permitiriam melhor compreensão de si e do seu mundo (p. 107). O trabalho  se desenvolveu em coterapia (p. 112).

Quadros (2011, p. 207) apresenta um trabalho em comunidade, entendida como um grupo natural, ampliando a noção do trabalho em consultório.

―A clínica não pode ser entendida como uma ação sobre o indivíduo  

desconectado de seu contexto. Porém, não podemos partir do  

pressuposto de que quando nos referimos à comunidade, estamos  

diante de um conceito fechado, criado por nós a partir de um olhar de  

cima para baixo‖.

Refere à motivação do profissional em ―buscar as pessoas, conhecer as  pessoas e promover um espaço possível para a emoção sutil, para o contorno  de cada vida, o resgate da história pessoal e para grifar a pergunta: ―Quem sou  eu?‖(p. 207), cuja resposta se volta primeiramente para ―a demarcação dos  nossos territórios‖, a saber, ―como é o meu corpo, o que ele pode fazer, que  coisas eu gosto e não gosto‖ (p. 208), bem como ―meu nome, meu corpo, meu  rosto, minhas preferências‖ (p. 209). Entende que ―eu existo como pessoa, pois  estou sendo visto por alguém e isto também me permite vê-lo‖ (p. 208). E, por  fim, vincula o ―quem sou eu‖ ao ―quem somos nós, numa dinâmica de figura e fundo‖ (p. 211). A estratégia mais utilizada para o trabalho com a comunidade  ―foi a do trabalho com grupos, pois acreditamos que o grupo fortalece vínculos  e facilita a expressão‖ (p. 213), o ―expressar-se além das palavras‖ (p. 212),  empregando outras formas de expressão como ―material artístico, trabalhos  corporais e música‖ (p. 213) para que o ser humano ―amplie a consciência de si  mesmo e possa reconhecer potencialidades através da fluência do sentir a  partir do vivido‖ (p. 214).

Vieira et al (2010) conta de um grupo fenomenológico-existencial de apoio  para mulheres obesas chamado ―Mais ação e menos gordura‖, baseado em  recursos da Gestalt-terapia e da linha psicodramatista (p. 31), com encontros  semanais de três horas de duração pelo período de um ano, tendo empregado  técnicas de relaxamento e exercícios de contato em si mesmo e no outro, além  de representações teatrais e trabalhos manuais. Este grupo esteve ligado a  uma universidade no estado de São Paulo, e desenvolveu os aspectos da  transformação no corpo das participantes (corporeidade e fronteiras de contato)  e nas relações do indivíduo com o ambiente físico e social (p. 30). A ideia de  trabalhar com a abordagem fenomenológica ―surgiu justamente porque só a  mudança do comportamento (diante do alimento, na abordagem  comportamental anteriormente empregada) não mudava a forma de ver-se e  colocar-se no mundo: o ser magro teria que ser uma escolha de ser-no-mundo‖  (p. 35).

Havia um planejamento, com cinco diferentes temas alternados para cada  encontro, abrangendo os campos do eu-com-eu, eu-com-tu, eu-com-nós27: a  tomada de consciência do próprio corpo; o relacionamento pessoal e  interpessoal; as emoções; a expressão pessoal; o desenvolvimento de  habilidades manuais (pintura), teóricas (um tema) ou instrumentais (dançar). A  Gestalt-terapia é empregada na atividade de entrar em contato com o próprio  corpo. Citando Zinker (2001, p. 97) dizem que:

―o contato é a consciência da diferença na fronteira entre organismo e  

ambiente; é marcado pela energia de excitação, maior presença ou  

atenção e intencionalidade que medeia aquilo que cruza a fronteira e  

rejeita aquilo que não é assimilável‖. (VIEIRA et al, 2010, p. 37)

Vieira et al (2010) defende a opção pela Gestalt-terapia por ser ―uma terapia de  concentração, do aqui e agora‖ (p. 36), pois ―um dos encontros tinha por  objetivo situar o sujeito no seu próprio corpo‖, tendo sido escolhidos ―alguns  exercícios de contato‖ a princípio para com o próprio sujeito e posteriormente  promovidos com o outro (p. 37), ―seguindo a ideia de Polster e Polster (2001) de que só há crescimento através do contato‖. Transcrevo o exercício como  descrito na página 37:

―Um dos exercícios propostos consistia em que a pessoa, com os  

olhos fechados, tocasse todo o seu corpo, passando por cada traço,  

reentrância, contorno e observasse a textura, a temperatura, a  

consistência de cada parte, iniciando pela cabeça; depois, perceber  

qual a sensação de cada toque, nas mãos como na própria parte  

 27 Ou intrapessoal, interpessoal, grupal.

tocada. Esse exercício estendia-se pelo pescoço, ombros, braços,  

mãos, tórax, abdômen, quadril, coxas, pernas e pés. Induzíamos o  

percurso para a sequência da mudança da parte a ser tocada,  

lentamente, buscando a percepção total de si mesmo. A pergunta  

‗como esse corpo está sendo percebido, ouvido, sentido?‘ era  

repetida durante a vivência. Em seguida era feito um alongamento  

suave dos músculos do pescoço, braços, mãos, coluna e pernas, sem  

nenhum esforço, buscando um relaxamento completo como se  

espreguiçar ao acordar. Após o encerramento abríamos o círculo  

para troca de experiências entre os membros‖.

Neste momento do texto, as autoras citam a teoria reichiana através de  Spangenberg (VIEIRA et al, 2010, p. 37). Inúmeras referências são feitas à  teoria existencialista e fenomenológica, por exemplo: ―para aprender a  relacionar-se, em primeiro lugar, é preciso entender que, para ser, é preciso  ser-com, ser-para no mundo a sua volta‖, citando Polster e Polster (2001).

Quanto à ação das coordenadoras do grupo, diz o texto que exercitaram a  capacidade de observação, descartaram pensamentos existentes a priori sobre  os fenômenos observados; discutiam as ocorrências de cada encontro,  trabalharam as impressões deixadas e prepararam relatórios (p. 40).

Farah (2009) se propõe uma ―revisão bibliográfica acerca do atendimento de  grupo e as relações estabelecidas entre os seus membros‖ (p. 303). Antes, tal  qual esta monografia, faz uma sistematização de conceitos pertinentes ao  tema, como grupo, awareness, contato, mecanismos neuróticos. Ao fim,  apresenta o grupo que atendeu em coterapia, com supervisão, durante  cinquenta e duas sessões de uma hora e meia cada, formado por três  membros, mulheres entre vinte e trinta anos de idade (p. 321). Destaca o  primeiro dia de apresentação pessoal e do contrato, que previa: avisar as  faltas, importância de se despedirem caso decidissem sair do grupo e o tempo  previsto de um ano para o trabalho. Ressalta, ao longo do artigo, a importância  da confidencialidade no grupo como forma de criar confiança e a ―necessidade  de pertencer‖ (p. 318). Afirma que ―a terapia de grupo tem como objetivo  explorar a forma que cada um se coloca no mundo‖, observando como a  pessoa ―tenta transformar (o grupo) no que ela realmente deseja‖ (p. 320).  Pontua como elemento curativo a experiência bem sucedida no grupo:

―Muitos dos membros, que chegam para a terapia de grupo,  

apresentam um histórico grupal pobre, sendo que eles, dificilmente,  

sentem-se valorizados em grupos aos quais pertencem e para eles só  

o fato de poderem ter uma experiência de grupo bem sucedida, pode  

ser curativa‖. (p. 320)

Entendem por ―bem-sucedida‖ a experiência de ser aceito pelos outros  membros (p.318), ―encontrando apoio e suporte para falar e trabalhar situações  desagradáveis‖ (p.325), havendo acolhimento por parte dos terapeutas e dos  outros membros de forma ―que a pessoa possa se sentir respeitada e ouvida‖  (p.325). Considera que o grupo ―acolhia-se bem‖ (p.323), pois permitia que  qualquer membro estendesse sua fala quando tinha necessidade. Registra,  sem nomear, o fenômeno da emulação, em que um membro sente-se  estimulado a mudar seu comportamento considerando o sucesso obtido por outro membro (p.324). ―O compartilhamento de experiências‖, conclui, em tom  pessoal, ―é o grande diferencial da terapia de grupo‖ (p.326).

Para a autora, ―o terapeuta é um observador‖ (p. 307) das ―formas peculiares  dos membros de interagir com o mundo (que vão sendo reveladas) à medida  que o grupo vai acontecendo‖ e das ―propriedades desenvolvidas pelas  relações estabelecidas entre os seus membros, que promovem o caráter  terapêutico a esse tipo de atendimento‖ (p. 304).

Quanto ao terapeuta-observador, ele é ―investigador (que) vai observar  nuances diferentes de um mesmo objeto, focando o que mais lhe chama  atenção, de acordo com as suas motivações pessoais‖ (p. 307). Ou, quando a  autora cita Yontef (1998, p. 190): ―o indivíduo é definido, num dado momento,  apenas pelo campo do qual faz parte, e o campo só pode ser definido pela  experiência, ou do ponto de vista de alguém‖: no contexto do artigo, diríamos  que esse alguém é plural, não é apenas o terapeuta, mas o grupo e seus  outros membros. Segundo a autora, o terapeuta observa, foca, recorta, analisa,  pretende conhecer, percebe, sente, de acordo com suas motivações, crenças,  experiências, expectativas, história, cultura, necessidades, treinamento. O  terapeuta-observador também determina as dimensões em que o grupo está  socialmente inserido, distinguindo entre o que pertence e o que está fora (p.  308).  

Esse papel ativo de terapeuta-observador é defendido por Farah (p. 309-310)  ao argumentar que:

―é justamente por essa interferência externa do ponto de vista do  

observador, que a fenomenologia propõe que o terapeuta favoreça  

que o cliente entre em contato com ele mesmo no momento presente  

(aqui e agora) propiciando que ele torne-se mais aware, mais  

consciente de suas sensações e sentimentos e que o próprio cliente  

possa ser observador de si mesmo. (...) O melhor observador de cada  

um é si mesmo, pois só o próprio indivíduo é quem vai poder saber  

ao certo o que experimentou, e assim pode descrever, através da fala  

ou expressão corporal, o que sentiu‖.

Uma das ações sugeridas ao terapeuta (p. 318) é ―deixar bem clara a  importância de manter confidencial tudo que é exposto no grupo‖ como forma  de tornar menos perigosa a exposição da intimidade.

Farah (p. 319) cita Yalom e os três estágios de um grupo: orientação, conflito,  desenvolvimento da coesão. À medida que os membros ―passam a falar de  suas experiências mais pessoais, afetivas e menos intelectuais‖, ficando mais  no aqui e agora, ―oferecendo feedbacks mais construtivos‖, o grupo está mais  autodirigido e a participação do terapeuta é menor. Ao terapeuta caberia,  sempre, ―o cuidado de acolher e validar sentimentos de maneira que a pessoa  possa se sentir respeitada e ouvida‖ (p. 325). Há uma descrição sobre a ação  das psicólogas (p. 322-3):

―pouco a pouco, nós terapeutas fomos incentivando as trocas, à  

medida que perguntávamos para as outras duas (participantes) o que as tocam sobre o relato da companheira. (...) pedíamos para relatar o  

que elas estavam sentindo, no momento presente, sobre o que a  

outra participante estava trazendo e como as tocava. (...)  

Observamos (...) que as participantes não estavam acostumadas a  

prestarem atenção aos seus sentimentos e sensações e muito menos  

a falar sobre eles (e) optamos em realizar alguns experimentos e  

vivências‖. (grifo nosso)

Convém registrar que a autora afirma ter sido ―espectadora e participante‖ (p.  325). Participante estaria para figura, assim como espectadora, ilustrado na  citação a seguir, para fundo:

―quando um membro do grupo consegue compartilhar uma  

experiência capaz de mostrar a outro membro que ele não é o único a  

passar por aquilo; pois, por mais que um terapeuta diga que o  

paciente não é o único, que outras pessoas já passaram por essa  

situação, é muito diferente (permitir o relato pessoal de outra  

pessoa)‖. (p. 326).

Viegas (2009) é extensivo na comparação entre o Gestalt-terapeuta de grupo e  o ―líder servidor‖, estilo de liderança abordado em livro de Hunter, O monge e o  executivo (2006). Considera a autoridade e o poder que o psicoterapeuta tem  para influenciar pessoas, ressalvando que ―o saber encontra-se no cliente e  não no terapeuta‖ (p.403). Entre os inúmeros conceitos que aprofunda,  destacamos a distinção que faz entre a empatia, que pode ser mero  sentimento, e a inclusão dialógica, em que o terapeuta empático considera o  outro e a si mesmo durante a relação. Assevera que ―o objetivo do Gestalt terapeuta não está associado a uma conquista exterior a qual o grupo precisa  alcançar‖, como seria o grupo operativo de Pichón-Rivière, ―mas criar um  ambiente propício para que cada membro do grupo se autodescubra‖ (p.406).  Cita Hycner e Jacobs (1997) para quem ―a confirmação está no cerne de  qualquer abordagem dialógica‖ (p.407), sendo sua ausência associada às  psicopatologias. Confirmando um pensamento já considerado nesta monografia  (p. 41) por Domingues (2012, p. 308), de que o psicoterapeuta não precisa ter  uma presença sempre marcante, diz que ―o Gestalt-terapeuta não pode ocupar  os espaços que deveriam ser dos componentes do grupo; caso contrário, ele  perde contato com o movimento desse grupo‖ (p.411).

Cardoso (2009) relata a gênese de seus ―grupos terapêuticos‖, com  metodologia ―fundamentada nos pressupostos da abordagem gestáltica‖  (CARDOSO, p.125), tendo origem nos ―grupos de espera para os pacientes  que compareciam ao Centro de Saúde para controle da glicemia e/ou pressão  arterial‖ (p.130) depois da adesão espontânea dos pacientes ―mesmo nos dias  em que não estava agendada sua consulta médica‖ (p.130-131). Perfil dos  membros: ―pessoas simples, com mais de 40 anos, diabéticas e/ou  hipertensas, frequentadoras do PSF (Programa Saúde da Família)‖ (p.131) do  município de Vespasiano, Minas Gerais. Quanto aos grupos em si, ―eram  temáticos, com cerca de sessenta minutos de duração, sem continuidade entre  eles, com composição flutuante, mistos quanto à patologia e ao sexo, com  tema previamente definido e esgotado em cada encontro‖ (p.131). Tinham  como objetivo:

―oferecer um espaço onde as pessoas pudessem expressar  

livremente suas experiências em relação ao tema proposto,  

buscando-se facilitar a comunicação, ampliar a conscientização das  

pessoas assistidas sobres suas experiências e resgatar a  

responsabilidade delas e não apenas em relação à doença e ao  

tratamento, mas também em relação à sua vida de modo geral. Em  

outras palavras, buscava-se trabalhar a vivência de seus membros a  

partir do material emergente, enfocando o aspecto emocional, as  

crenças e ações de cada pessoa, tendo também conotação  

pedagógica, na medida em que, ocasionalmente, eram difundidas  

informações‖. (p.131)

Para Cardoso (p.129) um Gestalt-terapeuta de grupo procura, mais que tudo,  ―observar, descrever e compreender a rede de relações entre as partes que o  compõem‖, as influências entre cada participante, a interação entre os  estímulos e a reflexão que se tem deles.

Considerações Finais

Os sete artigos encontrados estavam em publicações do estado do Rio de  Janeiro: seis na Revista IGT na Rede e um na revista de psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

O material científico analisado evidenciou que o ―contrato‖ é utilizado no  trabalho com Gestalt-terapia de grupo, contendo regras sobre  confidencialidade, faltas, saída do grupo, tempo total de trabalho.

A quantidade de sessões citada foi 10, 52 e 58, conforme o artigo. E a duração  máxima de cada encontro era 1 ½ hora e 3 horas.

Quanto ao número de membros, soubemos de nove mulheres em um grupo e  três mulheres em outro.

Houve menção ao uso da coterapia no atendimento aos grupos, bem como no  processo de formação do profissional nas instituições de ensino. Também foi  feita alusão ao recurso da supervisão. Mas não ocorreu a discussão desses  dois dispositivos. Por exemplo: verificar a influência da diferença de estilos ou  de papéis entre os psicólogos; avaliar a comunicação dos psicoterapeutas  entre si e seus efeitos sobre o grupo; como aplicar supervisão para  coterapeutas.

A fenomenologia e o processo dialógico foram as principais referências teóricas  mencionadas.

Fez-se alusão ao Gestaltismo e à teoria organísmica de Kurt Goldstein, à  Teoria de Campo de Kurt Lewin, à noção de empatia de Carl Rogers, à  liberdade e à responsabilidade do ser no mundo do Existencialismo (Heidegger  é frequentemente citado), à Nietsche.

Os autores mais citados foram Yontef para Gestalt-terapia e Jorge Ponciano  Ribeiro para Gestalt-terapia de grupos. Além deles: Yalom, Zinker, Polster e  Polster, Hycner e Jacobs, Foulkes, Spangenberg.

Os autores dos artigos, em geral, fazem uso das linhas psicodramatista e  reichiana. E trabalham o corpo, embasados no conceito de fronteira de contato.

A questão dos honorários ficou ausente, possivelmente porque os serviços  prestados fossem gratuitos ou sem remuneração para o profissional, uma vez  que ocorreram frequentemente em institutos de formação ou no Sistema Único  de Saúde.

Encontrou-se uma ênfase na espontaneidade como fator terapêutico, ou seja: o grupo como espaço para falar, ouvir, experimentar, sentir, expressar. Em minha  experiência, notei que a ênfase para falar aparece junto com: o silêncio sentido  

como constrangedor; a confusão entre ―terapia pela fala‖ e ―terapia para falar‖  de forma catártica; o psicólogo preocupado com que todos tenham tempo igual  para falar. Cabe dizer que essa espontaneidade contrasta com Fritz Perls  realçando suas habilidades e atitudes, o seu saber fazer terapia, onde ele era o  centro, e não o cliente em sua espontaneidade.

Notamos o silêncio acerca de diversos instrumentos e conceitos importantes à  Gestalt-terapia, como as influências orientais que Fritz Perls recebeu,  notadamente o zen budismo; o trabalho com sonhos; a expressão ―ajustamento  criativo‖.

Não foram encontradas dissertações de mestrado nem teses de doutorado sobre o tema estudado.

Percebemos um tom questionador a Fritz e nenhuma referência a Laura Perls ou Esalen.

A Teoria de Sistemas não foi aprofundada, a despeito de atualmente ser  considerada um importante referencial para a Gestalt-terapia. Diante dessa  lacuna, eu trouxe um autor que para mim é especial: Urie Bonfenbrenner e sua  teoria da Ecologia do Desenvolvimento Humano.

Quanto a uma teoria ou filosofia sobre grupos, os artigos apresentaram um  pouco de Kurt Lewin. O que eu trouxe foi a reflexão de Jean-Paul Sartre, ainda  que discutível.

Refletindo sobre os objetivos de cada uma das três formas de fazer Gestalt terapia com grupo (em, do, de grupo), inclino-me para a Gestalt-terapia de grupo, promotora de relações e de encontros presenciais. Considero que a  Gestalt-terapia (individual) em grupo obtém um alcance mais profundo e  focado, na qual o cliente pode esperar início, meio e fim de uma ação  terapêutica em torno de sua questão emergente. Por não ter experiência com a Gestalt-terapia do grupo, posso apenas supor que seja promovida uma

identidade e união entre os membros por conta de evidenciar um inconsciente  grupal comum.

Acredito que a meta da Gestalt-terapia de grupo seja tornar a pessoa  consciente dos seus falsos-selves para que descubra e viva de acordo com  quem ela é verdadeiramente (ver NARANJO, 2005, p.96), tarefa que se inicia e  é verificada prontamento ali, no grupo, e depois mais facilmente em ambiente  não controlado.

Nesse aspecto, o grupo divide com o psicólogo, se não a responsabilidade, ao  menos a força de promover mudanças. Há um risco de que tal situação sirva  de desculpa do profissional para perder a condução e direção que cabem somente a ele no trabalho terapêutico.

Para o cliente pode ser estimulante e desafiador experimentar relações  ampliadas no grupo, como as que geralmente ele tem em família, com pai, mãe, irmãos e parentes mais distantes.

Além disso, um trabalho com grupos favorece ao cliente do Sistema Único de  Saúde estar com alguém cuja origem sociocultural seja semelhante a sua, uma  vez que na realidade brasileira o profissional costuma vir de classe diferente daquela do paciente.

Certa vez, ouvi uma pessoa dizer que ―é bom participar no grupo porque  estamos juntos com pessoas que buscam a mesma coisa‖.

Mas, por outro lado, alguns clientes apresentam resistência em compartilhar  suas histórias com outros membros, como observado em experiência pessoal  no SUS, em que usuários recusavam atendimento em grupo para aguardarem atendimento individual e sigiloso. Argumentavam que ninguém os compreendia  e depositavam no profissional, ―doutor que estudou‖, as esperanças de  acolhimento. Acrescente-se a esse motivo o imaginário social do modelo  médico de consultas individuais, e o que se vê são pessoas participando por  pouco tempo em sessões grupais, inviabilizando os grupos fechados.

Perguntamo-nos qual seria a influência do tamanho da sala sobre as pessoas,  e a distância mínima confortável entre elas. Se uma pesquisa indicasse o  tamanho mais comum dos consultórios, poderíamos concluir sobre o número  máximo de participantes encontrado em cada grupo. Ou concluir qual espaço  físico é minimamente necessário para os participantes sentirem-se confortáveis  em permanecer nos grupos por longo tempo.

Acreditamos que as sessões devam durar uma hora e trinta minutos, talvez um  pouco mais, se o grupo for grande, com mais de dez pessoas. Um tempo  menor, como de uma hora ou hora e quinze minutos, vimos ser estabelecida  uma pressão do tempo, gerando ansiedade, disputa e pressa para falar  primeiro.

Quando em ambulatório público do SUS e diante da exigência para atender  grupos por uma hora, podemos limitar o número de membros entre seis e oito,

estando isso mais ao nosso alcance que o trabalho em coterapia. Também não  é aconselhável incluir pacientes além do número ideal imaginando que alguns  irão sair, pois o profissional acabará criando a sua profecia autorrealizadora.

Um critério que recomendamos é o de respeitar o impacto causado pela  entrada e saída de membros, que se estende para várias sessões antes e  depois do evento. Sendo observado que algum membro atual tem algo a  trabalhar naquela configuração grupal, é prudente adiar a entrada de um novo  participante, pois o arranjo será desfeito. Quanto ao novo membro, sempre é recomendável uma ou mais entrevistas individuais antecedentes à sua entrada,  para prepará-lo para a dinâmica grupal e prever o surgimento de temas,  simpatias ou antipatias entre os participantes, a mudança na dinâmica e nos  papéis de cada um, a reação do grupo no curto e médio prazos. Já vimos um  grupo psicoterapêutico ser extinto após, e por causa, da entrada de novos  membros.

Como última reflexão: Freud afirma que o terapeuta é ele próprio o remédio28.  Nesse sentido, questionaríamos se a psicoterapia pode ir além dos efeitos  cientificamente comprovados de um medicamento e englobar o que é próprio  dos placebos, a sugestão. Mas nossa reflexão será outra: ou ―o médico é ele  próprio o remédio‖ (exógeno), como afirma Freud, ou o organismo tem uma  tendência autorreguladora (endógena), segundo Goldstein e Rogers.

Nossa visão sistêmica permite considerarmos ambas as hipóteses e pensar que o psicólogo é observador-participante, respectivamente fora e dentro da  situação em um só instante, agindo como catalisador das reações  autorreguladoras do sujeito.

O exame do conjunto dos dados expostos leva-nos a considerar que as  publicações sobre Gestalt-terapia de grupo feitas no Brasil distinguem-se mais  como relatórios que como pesquisas, mesmo quando vinculadas aos serviços  de saúde pública ou de formação (governo, universidades, institutos de  especialização).

Isso nos faz lembrar que Fritz, em vez de sistematizar sua teoria, preferia agir e  trabalhar para a mudança de estado daqueles que o procuravam com esse  intuito.

A conclusão a que chego é a de que devemos trabalhar na formação do nosso  próprio ser. A prioridade é vencer nossos falsos-selves, estando aptos a ajudar  os que buscam a verdade sobre si mesmos.

O alerta que fica é no sentido de aprofundar na teoria e nas marcas do  fundador: as formas de resistência, o zen-budismo, a formação de  comunidades. Ao menos para saber que, ao optar por outros caminhos, não  será por negligência, imperícia ou imprudência, mas por se apresentar como o  

 28 Remédio inclui medicamento e também qualquer cuidado e recurso terapêutico como um  banho quente, massagem, repouso, psicoterapia, acupuntura.

caminho adiante. Afinal, o caminho se faz caminhando, é o caminhante, como  diz a filosofia taoista que influenciou o fundador.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Artigos

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Monografia

FADEL, Fábio Costa. Investigando a relação entre homens e animais. Monografia de graduação. UERJ, dez. 2006. Orientadora: Heliana Conde.

Vídeos e Filmes

Divã. Direção: José de Alvarenga, 2009.

Encantador de Cavalos. Direção: Robert Redford, 1998.

Gênio Indomável (Good Will Hunting). Direção: Gus Van Sant, 1997.

Nunca Se Sábado - Terapia de Grupo. Disponível em  

<http://www.youtube.com/watch?v=ruWpZmW_IFs>, acesso em 9 set 2013.

Psicoterapia: Uma visão humorada com a "A Grande Familia" - Cap.1 - disponível em:<http://www.youtube.com/watch?v=E1hBBBVZSBk>, acesso em: 25 maio 2013.

Psicoterapia: Uma visão humorada com a "A Grande Familia" - Cap.2 – disponível em http://www.youtube.com/watch?v=bSUe0CC2mNY, acessado em 25 maio 2013.

Psicoterapia: Uma visão humorada com a "A Grande Familia" - Cap.3 – disponível em http://www.youtube.com/watch?v=NcDOBD-fxns, acessado em  25 maio 2013.

Psicoterapia: Uma visão humorada com a "A Grande Familia" - Cap.4 – disponível em  

http://www.youtube.com/watch?v=mPyCA8NAMSc&feature=relmfu, acessado  em 25 maio 2013.

Sessão de terapia. Direção: Selton Mello. GNT. 1ª temporada, 2013.

Bibliografia

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Endereço para correspondência

Fábio Costa Fadel

E-mail: fabiofadel@yahoo.com.br

Recebido em: 19/04/2015

Aprovado em: 03/06/2015

NOTAS

FADE, Fabio Costa: Monografia de Especialização em Psicologia Clínica – Gestalt-Terapia (Indivíduo, Grupo, Família). Instituto de Gestalt-Terapia e  Atendimento Familiar.

PINHEIRO, Márcia Estarque: (orientadora) - Psicóloga, especialista em  psicologia clínica, especialista em atendimento de casal e família na  abordagem sistêmica (I.P.U.B. - U.F.R.J.), Gestalt-Terapeuta com experiência  em atendimento clínico desde 1992, coordenadora do curso de Especialização  em Psicologia clínica - Gestalt-Terapia (Indivíduo, Grupo e Família) sócia  fundadora do IGT.

APÊNDICE

Ubuntu

Em 2013 morreu Nelson Mandela, conhecido líder sul-africano que mereceu,  entre outras, a alcunha de Ubuntu, palavra intraduzível para o português. O  próprio Mandela responde o que significa, em vídeo disponível em  <http://www.ubuntumission.org/video/what-is-ubuntu-2/>.

Nas palavras de Leonardo Boff, ubuntu é:

―um conceito alheio à nossa cultura individualista: o ubuntu que quer  

dizer: ―eu só posso ser eu através de você e com você‖. Portanto,  

sem um laço permanente que liga todos com todos, a sociedade  

estará, como na nossa, sob risco de dilaceração e de conflitos sem  

fim.

Deverá figurar nos manuais escolares de todo mundo esta afirmação  

humaníssima de Mandela: ―Eu lutei contra a dominação dos brancos  

e lutei contra a dominação dos negros. Eu cultivei a esperança do  

ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas  

vivem juntas e em harmonia e têm oportunidades iguais. É um ideal  

pelo qual eu espero viver e alcançar. Mas, se preciso for, é um ideal  

pelo qual estou disposto a morrer‖.29 

Enquanto nossa cultura discute se um grupo é formado por vários indivíduos  lado a lado ou é um todo indivisível. No dialeto xhosa de Mandela as crianças  

 29 Disponível em http://www.jb.com.br/leonardo-boff/noticias/2013/12/08/o-significado-de mandela-para-o-futuro-da-humanidade/, acessado em 08.12.2013. Ver também  http://www.youtube.com/watch?v=7C6vxC4G0CI#t=8, acessado em 07.12.2013.

afirmam uma irmandade no coletivo que, sem dúvida, foi determinante para  Mandela encontrar sua política conciliatória:

―Um antropólogo fez uma brincadeira com crianças de uma tribo  

africana. Ele colocou um cesto cheio de frutas junto a uma árvore e  

disse para as crianças que o primeiro que chegasse junto à árvore  

ganharia todas as frutas. Dado o sinal, todas as crianças saíram ao  

mesmo tempo e de mãos dadas! Então sentaram-se juntas para  

aproveitar da recompensa. Quando o antropólogo perguntou por que  

elas haviam agido dessa forma, sabendo que um entre eles poderia  

ter todos os frutos para si, eles responderam: Ubuntu, como um de  

nós pode ser feliz se todos os outros estiverem tristes? UBUNTU na  

cultura Xhosa significa: ‗Eu sou porque nós somos‘‖.30 

O que mais se aproximaria em nossa literatura está na obra de Alexandre  Dumas, Os Três Mosqueteiros, no lema ―um por todos e todos por um‖. Qual o caminho a nossa filosofia percorreu para ignorar sinônimo para ubuntu?  Talvez ela deva sua origem à cultura individualista nascida a partir de Renée  Descartes (1596-1640) no século XVII: de indivíduo para um simples indivíduos ou vários eus, como diria Sartre, sem atingir a identidade que é pertencer ao  nós.

Na mesma linha de coletividade está a alcunha Madiba para Nelson Mandela:

―Madiba – esse é o nome do clã ao qual pertence Mandela. O nome  

do clã é muito mais importante que um sobrenome uma vez que se  

refere ao ancestral do qual uma pessoa descende. Madiba foi o nome  

de um chefe Tembu que governou no Transkei no século 18. É  

considerado muito educado usar o nome do clã de alguém‖. (tradução  

livre31 do sítio eletrônico oficial de Mandela)

Percebe-se que para a identidade pessoal de Mandela sempre há referência ao  outro e toda a história dos seus ancestrais tribais, enquanto que em nossa  cultura muitos não têm a família ampliada ou sequer a nuclear como referência. Seus vários nomes por si só e desconsiderando seus significados já criam uma  diferença para conosco. Se muito, recebemos um apelido, circunscrito a um  contexto muito reduzido de amigos ou colegas, normalmente fazendo  referência a uma situação que aconteceu nesse grupo, assaz das vezes  cômica e leviana. Temos um só nome a acentuar nossa cultura individualista e  fechada a diferenças. Outros nomes viram piada.  

Fontes:

http://ourpangea.wordpress.com/2012/09/13/ubuntu-i-am-who-i-am-because-of who-we-all-are/

 30 Disponível em http://www.flickr.com/photos/ginaarteiranaoparaquieta/9740184576/, acessado  em 08.12.2013.

31 Madiba – This is the name of the clan of which Mr Mandela is a member. A clan name is  much more important than a surname as it refers to the ancestor from which a person is  descended. Madiba was the name of a Thembu chief who ruled in the Transkei in the 18th  century. It is considered very polite to use someone‘s clan nam.

http://www.ubuntero.com.br/2013/12/r-i-p-nelson-rolihlahla-mandela/ http://desmesura.org/nubes/mandela-en-nombre-de-la-libertad-ubuntu

http://www.sowetanlive.co.za/incoming/2011/10/05/ubuntu-abused-for-various ends

http://fengshuitotalint.com/crecimiento-personal/ubuntu-para-la-reconciliacion-y la-paz/

ANEXO 

Cântico Negro 

―Vem por aqui‖ — dizem-me alguns com os olhos doces 

Estendendo-me os braços, e seguros 

De que seria bom que eu os ouvisse 

Quando me dizem: "vem por aqui!" 

Eu olho-os com olhos lassos, 

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) 

E cruzo os braços, 

E nunca vou por ali... 

A minha glória é esta: 

Criar desumanidades! 

Não acompanhar ninguém. 

— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade 

Com que rasguei o ventre à minha mãe 

Não, não vou por aí! Só vou por onde 

Me levam meus próprios passos... 

Se ao que busco saber nenhum de vós responde 

Por que me repetis: "vem por aqui!"? 

Prefiro escorregar nos becos lamacentos, 

Redemoinhar aos ventos, 

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, 

A ir por aí... 

Se vim ao mundo, foi 

Só para desflorar florestas virgens, 

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! 

O mais que faço não vale nada. 

Como, pois, sereis vós 

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem 

Para eu derrubar os meus obstáculos?... 

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, 

E vós amais o que é fácil! 

Eu amo o Longe e a Miragem, 

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas, 

Tendes jardins, tendes canteiros, 

Tendes pátria, tendes tetos, 

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios... 

Eu tenho a minha Loucura! 

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, 

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios... 

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém! 

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; 

Mas eu, que nunca principio nem acabo, 

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções, 

Ninguém me peça definições! 

Ninguém me diga: "vem por aqui"! 

A minha vida é um vendaval que se soltou, 

É uma onda que se alevantou, 

É um átomo a mais que se animou... 

Não sei por onde vou, 

Não sei para onde vou 

Sei que não vou por aí 

José Régio 

José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em  Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante  mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista  "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e  crítico, foi, no entanto, como poeta que primeiramente se impôs e a mais larga  audiência que depois atingiu. Com o livro de estreia — "Poemas de Deus e do  Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a  desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o  espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de  todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da  sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos. 

Disponível emhttp://www.luso

poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=1005, ou em  http://www.releituras.com/jregio_cantico.asp acessado em 6 julho 2013.

Queira ouvir a declamação de Cântico Negro de José Régio, interpretado por  João Villaret, em http://www.youtube.com/watch?v=qKyWRJZnu2o e a  interpretada por Maria Bethânia, disponível em  

http://www.youtube.com/watch?v=XV_iXZFPBCk, acessado em 30 nov 2013 e  a por Paulo Gracindo disponível em  

http://www.youtube.com/watch?v=LkYkp3ZsmJQ, acessado em 30 nov 2013.

Revista IGT na Rede, v. 12, nº 22, 2015, p.196-239 DOI 10.5281/zenodo.15048614

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526