ARTIGO

Um Estudo Fenomenológico sobre as primeiras sessões do aten dimento individual na clínica social do IGT

A Phenomenological Study on the first sessions of individual care in clinical  social IGT

Edna Correia da Silva Luciano de Oliveira1 

Márcia Estarque Pinheiro (Orientadora)2.

1- Psicóloga, especializanda do Curso de Especialização em Psicologia Clínica – Gestalt-terapia (Indivíduo, Grupo e Família) – do IGT. Artigo escrito para a obtenção do título de Especialista.

2- Psicóloga, Gestalt-terapeuta, especialista em Psicologia Clínica (CFP) e em atendimento de casal  e família na abordagem sistêmica (UFRJ), coordenadora pedagógica do Curso de Especialização em  Psicologia Clínica – Gestalt-terapia (Indivíduo, Grupo e Família) – e sócia fundadora do IGT.

RESUMO

O presente artigo é uma reflexão sobre as primeiras sessões do atendimento indivi dual, realizadas na Clínica Social do Instituto de Gestalt-terapia e Atendimento Fami liar (CS-IGT), no Rio de Janeiro, utilizando o método fenomenológico de Amedeo  Giorgi.Ele descreve a vivência relacional terapeuta-cliente, quanto à formação do  vínculo, privilegiando o ponto de vista do psicólogo.O estudo adotou, como amostra gem, a relação de uma psicóloga com dois clientes, para aplicação do referido mé todo. Os resultados expressaram a articulação dos constituintes essenciais da expe riência, tal como vivida pelos participantes deste estudo.

Palavras - chave: Método Fenomenológico; primeiras sessões;atendimento indivi dual; clínica social; Gestalt-terapia.

ABSTRACT

This article is a reflection on first individual attending sessions in the Social Clinics of  the Institute of Gestalt Therapy and Familiar Care in Rio de Janeiro, using the phe nomenological method of Amedeo Giorgi. It describes the therapist-client relational  experience in terms of bond formation, giving priority to the therapist’s point-of-view.  The relationship between a psychologist and two clients was used as sample. The  results express the articulation of the essential experience constituents, as felt by the  participants. 

Keywords: Phenomenological method; first sessions; individual care; clinical social  worker; Gestalt Therapy.

INTRODUÇÃO

O interesse pelo tema– “Um estudo fenomenológico sobre as primeiras sessões do  atendimento individual na Clínica Social do IGT”3– surgiu no início do módulo 1E do Curso de Especialização em Psicologia Clínica – Gestalt-terapia (Indivíduo, Grupo e  Família), ministrado nesse instituto. Naquele momento, a intenção era investigar o  processo terapêutico, a partir das primeiras entrevistas. Durante a leitura da biblio grafia do curso, algumas afirmações mobilizaram a autora, como, por exemplo: “A  entrevista é o instrumento mais poderoso do psicólogo – o mais indispensável de  todos os que possam ser colocados ao seu alcance” (TAVARES, 2012, p. 25). A  primeira entrevista, porém, “é a porta de entrada, o ‘cartão de visita’ do terapeuta  para seus clientes [no IGT]” (ESTARQUE PINHEIRO, 2012, p. 138).  

É natural que estas afirmações instiguem a curiosidade e apontem para a relevância  do desenvolvimento de habilidades profissionais, em estabelecer vínculos com os  clientes e avaliar suas dificuldades, no sentido de acolhê-los e propiciar-lhes o me lhor encaminhamento possível. Contudo, para estudar esses vínculos, no IGT, onde  as primeiras entrevistas nem sempre são realizadas pelo psicólogo que acompanha rá o cliente no processo terapêutico, decidiu-se trabalhar com as primeiras sessões  do atendimento individual.

JUSTIFICATIVA

O diferencial deste estudo é o ousado paradigma de investigação, em Psicologia, que propõe resgatar a vivência relacional terapeuta-cliente, nos atendimentos indivi duais. Reflete-se a idéia de pensar de forma mais aprofundada as primeiras sessões  do atendimento individual, quanto à sua importância para a formação do vínculo.

O interesse paralelo nas primeiras entrevistas da CS-IGT justifica-se por suas inter faces com as primeiras sessões do atendimento individual propriamente dito.Outro  aspecto relevante é o comprometimento ético e político do psicólogo, com o acesso,  o acolhimento, o atendimento e o encaminhamento das pessoas que buscam seus serviços. Tudo isso o move e o inquieta, uma vez que não existe “a” forma ou fôrma,  mas infinitas possibilidades de encontro, como ocorre com o espectador, ao con templar uma obra de arte.O filósofo Edgar Morin, ao definir “obra de arte”, assim ex pressou o conceito de universalidade, na catarse do espectador: “As obras de ar te universais são aquelas que detêm originalmente, ou que acumulam em  si, possibilidades infinitas de projeção-identificação” (MORIN, 1969, p. 15-23).

A contribuição deste artigo, que se baseia em respostas dos psicólogos a questões  levantadas pela autora e na análise de relatórios de atendimento individual,é a apli cação de um modo de descrever a psicoterapia, privilegiando o ponto de vista do  psicólogo, que a vive, pensa e sente o que é um terreno fértil para a teoria e a práti ca gestálticas, considerando-se o fato de que a autora teve dificuldades em encon-

 

3- Ao longo deste artigo será utilizada a sigla IGT para o Instituto de Gestalt-terapia e Atendimento  Familiar e CS-IGT para a Clínica Social do IGT.

trar pesquisas que busquem compreender a relação terapêutica. Portanto, este tra balho é inovador, no âmbito do conhecimento atual em Psicologia.

OBJETIVO

A ideia principal é fazer um breve estudo das primeiras sessões do atendimento in dividual,na CS-IGT, sob o crivo da Gestalt-terapia, buscando contextualizar e inves tigar como esses encontros iniciais podem implicar o psicólogo e o cliente, na psico terapia. Ou seja, delinear o que se passa durante estes primeiros atendimentos, na  

relação intersubjetiva de terapeuta e cliente, que impulsiona a implicação no proces so de transformação pessoal. Portanto, as metas a alcançar, neste estudo, dizem  respeito à questão de como as primeiras sessões podem facilitar o processo tera pêutico.  

METODOLOGIA

Para atingir tal objetivo, fez-se uma breve análise qualitativa das respostas dos psi cólogos e dos relatórios das primeiras sessões de atendimento individual realizados  pelos alunos da Turma 14 de Especialização em Psicologia Clínica: Gestalt-terapia  (Indivíduo, Grupo e Família) – EIGT-14.Escolheu-se essa turma por estar em fase de  término do curso, o que favorece o acesso a seus relatórios, naturalmente atuais,  beneficiando uma acurada pesquisa. Tal análise apoiou-se no método fenomenoló gico a seguir definido (GIORGI e SOUSA, 2010, p. 124):

O método fenomenológico tem como objetivo estudar fenômenos intencio

nais e não indivíduos. O investigador concentra-se no estudo de como um  

determinado fenômeno é vivido por diferentes sujeitos, procura os aspectos  invariantes e tenta alcançar uma estrutura de significado psicológico. Em úl

tima instância, o que sobressai nos resultados finais é a síntese de signifi

cados psicológicos sobre o fenômeno de estudo da investigação, não a ex

periência individual dos sujeitos.

Esta escolha deu-se por ser tal metodologia coerente com a Gestalt-terapia.  Como critério de inclusão, é preciso que as descrições e os relatórios avaliados se  refiram a pessoas em processo psicoterapêutico (individual), que tenham sido aten didas por psicólogos alunos da EIGT-14, na CS-IGT.

Os seguintes aspectos do processo terapêutico são considerados: ∙ Contrato burocrático.

∙ Vínculo.

∙ Frequência.

∙ Comprometimento.

Tais aspectos serão mais devidamente contextualizados, no desenvolvimento deste  artigo.  

A análise dos dados, à luz da Fenomenologia, envolve não apenas as pessoas ava liadas, mas também o avaliador. O código de vivências do avaliador será, portanto, um filtro essencial e interferente nos resultados do processo. Cabe lembrar que a autora também vivenciou, como aluna do Curso de Especialização em Psicologia  Clínica – Gestalt-terapia (Indivíduo, Grupo e Família),os atendimentos individuais e a produção de relatórios. Além de avaliar tais aspectos nos relatórios enviados ao  Banco de Dados do IGT, formulou questões aos psicólogos colaboradores, para ob ter suas impressões e esclarecer eventuais dúvidas, caso surgissem, ao longo do  trabalho.  

Ao refletir sobre a importância das primeira sessões, o psicólogo que elege a Ges talt-terapia é levado a avançar, em termos de concepção e postura terapêutica, ao  cerne das propostas desta abordagem.Conforme descreve Perls (1977, p. 9):  

“Nós” não existe, mas é composto de Eu e Tu; é uma fronteira sempre mó

vel onde duas pessoas se encontram. E, quando há encontro, então eu me  transformo e você também se transforma.

Embora se analisem as descrições e os registros dos atendimentos individuais e su as práticas, no contexto das primeiras sessões, ressalta-se que as intervenções dos  psicólogos não podem ser pensadas fora do contexto institucional.

PROPOSTA DA CS- IGT

Apresenta-se, sucintamente, a CS-IGT, com suas ações, seus objetivos e suas di versas modalidades de atendimento. Contudo, priorizar-se-á o atendimento individu al, que se inicia após as primeiras entrevistas, ou seja, quando o cliente chega à “segunda porta”, naquele encontro referente ao início do tratamento – as primeiras  

sessões, tema central e essencial deste trabalho.

O IGT é um centro de ensino e pesquisa, na área do desenvolvimento humano, com  ênfase no atendimento psicológico individual, de grupos, casais e famílias, ao públi co em geral. Destina-se à formação de psicólogos, na abordagem gestáltica, e ofe rece cursos de extensão e palestras gratuitas, além de pós-graduação em Psicologia  Clínica.

Um dos pilares do IGT, a CS-IGT, consiste num espaço de aprimoramento profissio nal para psicólogos em formação, na prática gestáltica, que permite oferecer à popu lação serviços terapêuticos de qualidade. Os clientes da CS-IGT, geralmente, procu ram a instituição por não disporem de recursos financeiros para consultórios particu lares e obedecem a uma fila de espera. São, assim, informados sobre a natureza da  

clínica-escola, tendo seu atendimento psicológico agendado e realizado por psicólo go em exercício.

Os alunos do Curso de Especialização em Psicologia Clínica – Gestalt-terapia (Indi víduo, Grupo e Família) – iniciam os atendimentos no módulo 1E, os quais se esten dem aos módulos 2E e 3E, em diversas modalidades: primeiras entrevistas, atendi mento individual e de grupos, de adultos, casais e famílias. Os direcionados a crian ças e adolescentes são realizados pelos alunos do Curso de Atendimento Infantil na  

Abordagem Gestáltica, a partir do segundo módulo do seu curso. A terapia na CS IGT pode ser, portanto, retratada como uma alternativa de oferta, a famílias, casais, pessoas e comunidades, de um envolvimento ativo na construção ou na reconstru ção de sua realidade, numa “ecologia do virtual, do possível”, na expressão de Sch nitman (1966, p. 132), que oferece a cada cliente a capacidade de autogestão da  vida:[...] uma prática social que oferece a famílias, casais, pessoas ou comunidades  uma oportunidade para envolver-se ativamente na construção de sua própria reali dade existencial [...], emergindo numa ecologia do virtual, do possível [...], e nos pro cessos [nos quais] pessoas e famílias, ao construírem suas possibilidades, se re constroem a si mesmas.  

No entanto, como afirmam Moreira, Neves e Romagnoli (2007, p. 619), apud Espírito Santo (2012), a clínica social

[...] não se refere somente ao atendimento das camadas pobres da popula

ção, nem diz respeito apenas aos novos espaços de atuação em que os  

psicólogos se estão inserindo. É, antes de tudo, a clínica de qualquer lugar,  

de qualquer público, que insiste em combater a massificação, cada vez  

mais presente, e buscar, cada vez mais, a invenção, na singularidade de  

cada cliente, na particularidade de cada inserção profissional [o grifo é da  

autora].

Divulga-se o trabalho do IGT por cartazes, anexados em ônibus e campi universitá rios, bem como por informações disponíveis na internet, em cursos de extensão e  palestras gratuitas quinzenais, ou por indicação de clientes (PINTO, 2013). Durante as três semanas iniciais do módulo 1E, a turma de especialização é infor mada sobre os procedimentos administrativos referentes a preenchimento de fichas e relatórios, organização de arquivos e envio de tais informações ao banco de dados  da instituição. A seguir, permite-se que os alunos realizem primeiras entrevistas de  avaliação e, após essa etapa, os supervisores os autorizam, cada um, a iniciar o a tendimento de um cliente (individual).  

Após a primeira entrevista de avaliação, o cliente enfrentará, até o início da terapia,  a fila de espera. As fichas de cadastro são dispostas nessa fila, conforme a data da  primeira entrevista e, desse modo, a seleção dos clientes obedecerá à sequência  estabelecida. Ao selecionar-se a ficha do cliente que se pretende atender, devem-se  registrar, em local apropriado, as tentativas de contato, com data e combinação feita.  Caso não seja possível falar com o cliente por telefone, a orientação é que se solici

te, à equipe da fila de espera4, que envie correspondência, o que deverá constar na  ficha respectiva.

Ao falar com o cliente por telefone, o psicólogo que irá iniciar o atendimento indivi dual identifica-se e informa que sua ficha se encontrava na fila de espera, confirma  se esteve presente na primeira entrevista de avaliação e indaga de seu interesse atual em dar início à terapia. É importante que o psicólogo confirme com o cliente o  horário disponível para o atendimento e verifique se o acordo financeiro será manti do. Tudo combinado agenda-se o início do atendimento e o psicólogo relembra ao  cliente que aquela sessão será paga.

 

4A equipe de psicólogos que organiza a fila de espera é encarregada também de organizar o arquivo  morto, com as fichas inativas, identificadas por código numérico, para eventual emprego futuro. Ela  atualiza as informações de dados dos clientes, no banco de dados geral.

Todos os atendimentos (individuais e de grupos de adultos, casais e famílias) reali zados na CS-IGT são supervisionados pelos coordenadores Marcelo Pinheiro e  Márcia Estarque Pinheiro. A supervisão dos atendimentos a crianças e adolescen tes, individuais e de grupos, cabe ao psicólogo Marcelo Pinheiro, de forma sistemáti ca, mas esses últimos não constituem matéria do presente artigo.  

Figura 1 - Fluxograma resumido da CS-IGT

Em linhas gerais, o funcionamento da CS-IGT configura rotina que se desdobra a  partir da chegada do cliente, com sua “queixa”. Entende-se aqui por “queixa” o que  traz o cliente para o atendimento. As pessoas buscam ajuda porque estão vivendo  questões e problemas que surgiram naquele momento, como algo que chegou ao  limite e precisa de cuidado. Ou, ainda, estão passando por alguma fase difícil, que  demanda orientação, para reencontrarem seu equilíbrio interior. O futuro cliente, in

teressado em receber apoio psicológico, liga para o instituto, sendo atendido por  uma recepcionista (não psicóloga)5, que acessará o banco de dados. Criará, então,  uma ficha de cadastro, com nome, data de nascimento, endereço, telefone, e-mail,  profissão, o que está buscando, como soube do IGT. Ele passará a ser identificado  por um código numérico, para facilitar a localização de suas informações.  

Tais informações mapearão o perfil do cliente e o encaminhamento adequado, se  Clínica Social ou Convênio6. Caso a opção seja “Clínica Social”, será agendado um  horário para a primeira entrevista, não cobrada, com um psicólogo, especializando em Psicologia Clínica, para até no máximo 15 dias após essa primeira ligação. Se  tiver sido indicado “Convênio”, o cliente aguardará a ligação de um psicólogo cadas trado, para combinar o valor da consulta e o local de atendimento que lhe seja mais  próximo. Os profissionais da CS-IGT têm acesso a uma agenda, para confirmar, por  telefone, a presença do cliente, em dia e horário marcados. Resumidamente, o flu xograma acima apresenta a rotina de funcionamento da CS-IGT, para o atendimento  individual, que é o enfoque deste artigo.

 

5- A recepcionista faz o cadastro e agenda a primeira entrevista, segundo a disponibilidade de horá rios dos psicólogos.

6- Convênio de divulgação firmado entre o IGT e o psicólogo, para atendimento à faixa de clientes  que podem pagar a terapia, a preço de mercado.

AS PRIMEIRAS ENTREVISTAS NO IGT

A primeira entrevista de avaliação estende-se por cinquenta minutos. É o encontro  entre duas pessoas e assume o status de um diálogo, no qual o entrevistado se a presenta, com suas queixas e aspirações. Como diz Silveira (1997, p. 12):  

As primeiras entrevistas são momentos de conhecimento e escolha mútua,  em que o cliente se apresenta pelos seus motivos, queixas, questões e his

tória de vida familiar, e o terapeuta se mostra pelo seu estilo pessoal, sua

indumentária, seu escritório de atendimento e suas formas de intervir [...],  

momentos de acolhimento e preparação para o vínculo que começa a se fa

zer.

Ressalta-se que, na CS-IGT, a primeira entrevista de avaliação é realizada por um  psicólogo que não necessariamente dará continuidade ao processo de atendimento  psicológico, porém esta preparação é fundamental para criar vínculos com o cliente,  tanto para o profissional quanto para a instituição. Após esse momento, seguir-se-á  um período de espera, até o início do atendimento. A consistência desses vínculos é  importante para dar suporte a este intervalo, garantindo ao cliente que ele de fato  será atendido.

A primeira entrevista ajuda a dar contorno à indicação terapêutica. É nela que se  estabelece a proposta de atendimento (individual, infantil, de adolescente, grupo,  casal e família), avaliam-se as motivações de quem recorre à terapia, considerando  a situação em que a pessoa está inserida: vida familiar, afetiva, religiosa, social, tra

tamentos que fez ou faz, medicação, escolaridade e profissão. Também se definem  um acordo financeiro e os horários disponíveis, bem como as dificuldades que o cli ente vivencia em relação a esses temas, permitindo uma compreensão provisória do  processo de ser do cliente, o que ele revela e como revela.  

Estarque Pinheiro (2007, p. 144), fundamentada em sua experiência na CS-IGT,  considera que:  

para o melhor aproveitamento da primeira entrevista, é fundamental que o  

terapeuta tenha clareza de seu objetivo naquele momento. É uma entrevista  inicial de atendimento individual, de casal, de família ou é uma entrevista de  

avaliação e encaminhamento?

E continua:

[...] É importante que o objetivo daquele encontro fique bem explicitado  

também para seu cliente. Por exemplo, em casos de avaliação em uma ins

tituição, é fundamental que isso seja clarificado para o cliente, de forma a  que ele não se sinta frustrado ao final da sessão em suas expectativas de  início de atendimento imediato, quando não há previsão de atendê-lo pron

tamente.

Na dinâmica das primeiras entrevistas de avaliação da CS-IGT, percebe-se a ten dência dos clientes para a escolha da terapia individual7. No entanto, dada a grande  procura dessa modalidade, a CS-IGT reserva-se o direito de encaminhar para o a tendimento individual apenas os que apresentem maior nível de agressividade, de pressão, desorientação no tempo e no espaço, situações mais severas e graves,  como risco de suicídio, na avaliação do psicólogo que realiza a primeira entrevista8.  

Os demais clientes são encaminhados para atendimento psicológico de grupo,  quando o foco é o cliente que busca terapia. Caso haja recusa para o encaminha mento dado, o cliente recebe uma lista de telefones de outras instituições, onde po de buscar o atendimento individual, e sua ficha é encaminhada para o arquivo morto do IGT. Se, em outra oportunidade, decidir experimentar o atendimento em grupo,  apenas precisa entrar em contato com o instituto, informando seu código, que sua  ficha será encaminhada para a fila de espera desta modalidade de atendimento.

A primeira entrevista antecede a primeira sessão do atendimento psicológico indivi dual, isto é, existe um limiar, uma segunda porta, totalmente distinta, entre as duas.  É nesta última que se dá o início dos processos terapêuticos do IGT, principal objeto  deste trabalho.

INICIO DO ATENDIMENTO INDIVIDUAL

A primeira sessão do atendimento individual é o encontro inicial entre terapeuta e  cliente, em que buscarão desenvolver um vínculo mais prolongado. Para esta ses são, o psicólogo deverá ter: Ficha Cadastral do Cliente, Folha de Registro de Paga mento e Frequência e duas vias do Contrato de Atendimento Individual, as quais  serão preenchidas e assinadas por cliente e psicólogo, uma delas ficando com o cli ente e a outra no IGT, anexada à ficha de controle de frequência9.  

Durante esse encontro, o psicólogo acompanhará o cliente, escutando suas motiva ções e trabalhando as questões que emergem na cena terapêutica, desenvolverá um vínculo de suporte e estabelecerá as “regras” da relação. Nesse contexto, am bos discutirão aspectos do contrato, bem como realizarão sua assinatura.  

O Contrato tem por objetivo proteger a relação terapêutica, uma vez que apresenta  as regras de funcionamento da terapia, isto é, horário, honorários, faltas, desmarca ções e outras.

A esse propósito, registra Silveira (1997, p. 13):  

Considero aquilo que chamamos de contrato terapêutico como muito impor

tante para o desenrolar do processo. O maior índice de desistência na psi

coterapia é devido a mal-entendidos no contrato. Penso, então, no papel do  

terapeuta, no sentido de passar as informações de forma clara para que o  cliente saiba o que nessa relação ele pode receber, com o que ele pode  

contar, até onde pode ir, e decidir se aceita ou não as condições. Se por um  

 

7As demais modalidades – infantil, de grupo, de casal e de família – não são tratadas neste artigo.  Indicam-se, como referências, os trabalhos de Espírito Santo (2012) e Pinto (2013).  8 Ver, sobre este assunto, Pinto (2013).

9- Ver documentos citados, como anexos, em Pinto (2013).

lado quem estabelece as regras do contrato é o terapeuta, cabe ao cliente  

manifestar a sua opinião. Essa é mais uma oportunidade de verificar como o  

cliente se relaciona com as propostas do terapeuta.

As primeiras sessões direcionam e estruturam o trabalho terapêutico e o contrato  torna-se imprescindível,agregando segurança e credibilidade ao processo. Zin ker(2007, p. 93) comenta:  

Como uma obra de arte, a sessão terapêutica é desengonçada quando não  tem estrutura e direção. Pode ser dinâmica e vibrante, mas, sem organiza

ção, fica difícil para o cliente assimilar seus ganhos e ‘levá-los para casa’.

UM ESTUDO FENOMENOLÓGICO DAS PRIMEIRAS SESSÕES DO ATENDI MENTO INDIVIDUAL NO IGT

Apresenta-se aqui o momento empírico: a pesquisa  

propriamente dita. Far-se-á uso da metodologia feno

menológica para investigar as implicações dos psicólo

gos da EIGT-14 e de seus clientes, submetidos ao pro

cesso terapêutico na modalidade individual, a fim de  

conhecer-se a relação entre eles, no processo. A rigor,  

investiga-se como psicólogos e clientes vivenciam a  

terapia, a partir da primeira sessão.  

A investigação qualitativa é de base humanista e parte  

do princípio de que, individual e coletivamente, recria

se o mundo em que se vive, sendo todos responsáveis  

por ele. É uma investigação que produz conhecimento  

em três dimensões: a do outro, a do fenômeno e a re

flexiva, isto é, não apenas em níveis do investigador e do sujeito, como também no  plano da relação entre eles.

A pesquisa fenomenológica, segundo Giorgi, lida com o significado da vivência para  o sujeito, ou seja, com o modo subjetivo de a pessoa olhar a realidade, e permite  formular novos conhecimentos. Dois aspectos fundamentais a compõem: a descri ção e o significado da experiência. Nesse sentido, o pesquisador busca a essência  do vivido pelo sujeito e o significado que vai além de seu discurso explícito, com um  olhar mais intenso para a realidade que ele experimenta e descreve.A esse propósi to, verifica-se em Giorgi e Sousa (2010, p. 161):

Dá-se preferência a uma abordagem holística em que os componentes da  

experiência possam emergir da narrativa dos participantes, sem serem, pre

viamente, definidos pelo investigador. Por este motivo se recorre ao método  fenomenológico. Este permitirá aceder aos significados atribuídos pelos  próprios participantes à sua experiência [...], indo mais além dos benefícios,  

conhecer e clarificar os processos psicológicos associados a este fenôme

no, os constituintes da experiência e quais as relações entre eles. O método  

fenomenológico [...] procura permanecer tão fiel quanto possível ao fenô

meno em estudo, ao contexto no qual ele aparece no mundo e à forma co

mo é percepcionado e vivido pelos participantes da experiência.

O método original de Giorgi, considerado por ele “uma aproximação modificada de  Husserl”, é apresentado e discutido no Capítulo 5 de sua tese (GIORGI, 2009, p.  128-130). Os passos concretos do método10, em tradução livre, são os seguintes: 1. Leitura do todo, para captar o sentido.

2. Determinação das unidades significativas.

3. Transformação das expressões de atitude natural dos participantes em expres sões fenomenologicamente perceptíveis.

Giorgi e Sousa (2010, p. 85 e seg.) acrescentam um quarto passo, conclusivo. Eis  os quatro passos do método, no qual se baseia este trabalho, para a análise feno menológica:

1. Estabelecer o Sentido Geral: leitura do todo, para que se possa obter uma  visão geral da experiência vivida.

2. Determinação das Partes: com a visão do todo, o pesquisador relê o texto,  destacando pontos específicos focados no objeto da pesquisa e dividindo as descri ções em unidades de significado psicológico.

3. Transformação das Unidades de Significado em Expressões de Caráter Psi cológico (CP): com as unidades de significado delineadas, o pesquisador irá expres sar sua compreensão psicológica, a respeito de cada uma delas. Esse aspecto é  revelador do fenômeno considerado.

4. Determinação da Estrutura Geral de Significados Psicológicos: é o resultado  efetivo da pesquisa, adquirido a partir da comparação das sínteses específicas,  transformando-as em um estado consistente da estrutura do vivido, respeitada a ex periência do sujeito.

PARTICIPANTES DO ESTUDO

Este trabalho utilizou, como instrumento de pesquisa, para captar a estrutura do vi vido, as respostas a questões que foram propostas pela autora aos psicólogos da  EIGT-14, bem como seus relatórios de atendimento individual, no sentido de bem  qualificar a relação terapêutica.  

Convidados os nove psicólogos dessa turma a participar do estudo, foi possível cole tar informações de seis deles (cinco mulheres e um homem). Constituiu-se a amos tra intencional com pessoas que viveram o processo terapêutico individual, isto é,  com 18 clientes (13 mulheres e cinco homens), cujos atendimentos ocorreram entre  setembro de 2010 e setembro de 2013.

Aplicaram-se, então, basicamente, dois critérios para seleção dos clientes a adotar  para a elaboração inicial do trabalho: em primeiro lugar, os de inclusão; e, em se gundo, os de exclusão. Consideraram-se critérios de inclusão: contrato burocráti co,vínculo, frequência e comprometimento.E, como critérios de exclusão, o não  comparecimento às três primeiras sessões do atendimento individual e a participa ção em outra modalidade de atendimento, que não a individual.Após a aplicação  destes critérios, a amostragem de clientes ficou reduzida a 12.

CARACTERIZAÇÃO GERAL DOS CLIENTES  

 

10- “The Concrete Steps of the Method: 1. Read for sense of the whole. 2. Determination of meaning  units.3.Transformation of participant’s natural attitude expressions into phenomenologically sensitive  expressions.”

Os doze clientes selecionados (sete mulheres e cinco homens) variavam entre 30 e  59 anos de idade e, em sua maioria, possuíam grau de instrução superior. Havia  pelo menos dois/duas “desempregados/as” e uma “advogada/aposentada”, dois  “funcionários públicos” e um “militar”. Os demais tinham profissões várias, como “fo

noaudióloga”, “atriz/bailarina”, “psicóloga” e “administradora/tele operadora”. Quanto  às queixas, oito dos doze clientes revelaram “depressão”. Dos “dados de convivên cia”, como “vida afetiva”, “vida familiar” e “religião”, chama a atenção a predominân cia de “solteiros/as”, em número de cinco, para quatro “divorciados/as” e apenas três  “casados/as”, bem como o fato de que a metade (seis em doze) declarou morar com  a “mãe” ou com os “pais”, apesar da elevada faixa de idade; uma disse residir com a  “tia”, dois com “mulher/esposa e filhos”, duas com “companheiro e filho” e somente  um “sozinho”. Quanto à religião, um revelou-se “católico”, enquanto “evangélicos” e  “espíritas” empataram: três a três. Houve ainda um que se declarou “budista” e outro  “sem religião”, além de três que nada responderam sobre a questão.

A autora formulou duas perguntas básicas aos psicólogos da EIGT-14, com vistas a  bem qualificar a relação terapêutica:

1. Como você descreveria sua implicação com o cliente, nas primeiras sessões  de atendimento individual, na CS- IGT?  

2. Quanto esta implicação serviu – ou não – para seu desenvolvimento pessoal  e profissional?

Entende-se por “implicação” a “ligação”, isto é,a “relação” entre os sujeitos, psicólo go e cliente. Em outras palavras, deseja-se explorar, do ponto de vista do terapeuta, a seguinte questão: “o que é que vem do ‘outro’que me atinge, que me alcança e  altera minha disposição em face daquela pessoa que está diante de mim?”. Quer-se saber, portanto, principalmente, como se dá a relação terapeuta-cliente, que estímu los poderiam ocorrer, de parte a parte, de modo a favorecer o desenvolvimento pes soal e profissional do terapeuta.

Dialogando com a literatura, conclui-se que fenômeno e cliente somente se concreti zam quando observados, ou seja, dentro do campo relacional do sujeito que obser va. A esse propósito, vale a pena recordar a afirmação de Ribeiro (2006, p. 121):

O cliente é um fenômeno, uma aparência pura e simples, e este é o primeiro  e talvez o mais importante momento no e do processo terapêutico

[...] Cabe a ele, primeiramente, o desvendar para si do mistério de sua tota

lidade, depois para o terapeuta.

Na interação acima referida,da autora com os psicólogos da EIGT-14, obstáculos  tiveram que ser superados,devido ao desencontro de agendas ou à inadequação de  relatórios, tendo em vista o tema que se propunha. Além disso, havia prazos a cum prir, para atendimento das exigências curriculares. Desse modo, eliminados descri ções e relatórios que não chegaram a tempo ou não se coadunavam ao estudo em  andamento, chegou-se à decisão de adotar a relação de uma psicóloga, que se de nominará PSI-1, com dois clientes, que passarão a ser chamados A e B, para apre sentação dos quatro passos do método de Giorgi, em forma de amostragem. Para  este estudo, foram utilizados todos os relatórios produzidos por PSI-1.

Empregando o método de Giorgi, detalham-se os três primeiros passos aplicados  aos clientes A e B, respectivamente, nas tabelas de 1 a 4, a seguir.

Tabela 1 – Desenvolvimento dos três primeiros passos (cliente A) Resposta de PSI-1 a questões levantadas pela autora

Sentido geral

Determinação das partes

Expressões de caráter psicoló gico

Estrutura

geral de sig

nificados  

psicológicos

Psicóloga 1 (PSI-1): As primeiras sessões com o cliente A foram de bom entendimento,  com entrosamento e aceitação, criando-se  vínculo e afeto; isto foi importante para meu  futuro trabalho fora do IGT: ganhei experiência  e segurança.

PSI-1 manifesta satisfação com o cliente, enfatizando sentimentos  positivos, emergentes, nos primeiros  contatos. Realça a importância do  vínculo e do afeto criados. Entende  que ganhou experiência e seguran ça para o exercício da profissão.

Percebe a criação de vínculo afetivo. Ganha  experiência e segu

rança para o exercício  da profissão.

Vínculo. Experiên cia. Segurança.

Tabela 2 – Desenvolvimento dos três primeiros passos (cliente A)  Descrições extraídas dos relatórios

A mobilização interna foi positiva, pois o clien te precisa de ajuda e está disponível. Desper ta curiosidade e expectativa e também inquie tação.

Afirma que se mobilizou internamen te pelo fato de seu cliente buscar  ajuda e apresentar-se disponível,  refletindo com isso curiosidade,  expectativa e inquietação.

A relação terapeuta cliente desperta curio sa expectativa e in

quietação.

Expectativa. Am bivalência.

Atendimento inicial satisfatório. O cliente mostrou-se esforçado, por aproveitar o espaço  terapêutico. A mobilização interna é de curio sidade e no sentido de eu estar atenta para  não adiantar-me, mas permanecer junto ao  cliente.

Informa que o cliente mostra-se esforçado e aproveitando o espaço  terapêutico. Reitera sua curiosidade  e diz-se atenta para acompanhar o  cliente, evitando distanciar-se dele.

Expressa o fortaleci mento do vínculo  

afetivo pelo cuidado e  respeito ao cliente.

Vínculo. Cuidado.

O atendimento continuou sendo bem avaliado, pois o cliente foi-se apropriando mais de seu  modo de ser.

Vivencia como terapeuta o amadu recimento do cliente quanto ao seu  modo de ser.

Reconhece que o

cliente apresenta  

maior consciência  

sobre seu modo de  ser.

Vínculo.

Agora estou mais tranquila com ele, embora, às vezes, tenha dificuldade de entender o  caminho que ele quer percorrer. Em outras  sessões, a mobilização interna foi de impotên cia ou o atendimento cansativo.

Percebe-se mais tranquila, mas menciona dificuldades no processo.  Cansaço e desconforto são experi mentados no atendimento, devido a  algumas indefinições do cliente.

Sente-se confortável, apesar de dificuldades  no processo. Contudo,  mantém-se compro metida na relação.

Ambivalência.

Comprometimen to.

Passei a ter mais tolerância, apesar de senti mentos negativos, intrigantes, pois o cliente  tropeça sempre na mesma pedra. Apesar de  tudo, no geral, o atendimento foi satisfatório,  

pois o cliente mostrou-se aberto, embora  confuso, mas disponível para outros encon tros.

Apesar de perceber e incomodar-se com os tropeços repetitivos do  cliente, adota posição de maior tolerância. Contudo, em termos  gerais, considera satisfatório o  atendimento, devido à abertura e  disponibilidade do cliente.

Maior tolerância,

apesar das dificulda des. Abertura e dispo nibilidade do cliente  são elogiadas.

Vínculo. Cuidado. Reconhecimento.  Ambivalência.

Atendimento tranquilo e com bons resultados. O cliente ficou agradecido e espera ser cha mado em breve. Disse, ainda, que é chato  olhar e contar a história de novo para outro  terapeuta. Mobilização interna triste, pela  despedida.

Avalia o atendimento como tranquilo e exitoso. Refere o agradecimento e  a expectativa do cliente, que teme  retomar a terapia com outro psicólo go. Também afirma que ficou triste  pelo fim do processo.

Terapeuta e cliente revelam mútuo vínculo  afetivo no processo de  despedida.

Vínculo. Ambiva lência.

O processo terapêutico teve duração de qua tro meses. Temas desenvolvidos: depressão,  limites, relacionamentos, responsabilidades de  escolha, culpa. O processo foi interrompido  pelo fim da especialização. O encaminhamen to do cliente foi “lista de espera”.

Sintetiza a duração, os temas traba lhados, o motivo da interrupção da  terapia, bem como o encaminha mento dado ao cliente.

Apresenta a síntese da terapia e seus  

limites.

Síntese. Limites. Contrato burocrá tico.

A avaliação foi excelente. Atribuo o bom resul tado à disponibilidade, persistência e confian ça do cliente, bem como à minha responsabi lidade na condução.

Acentua o êxito do tratamento, que atribui não só à atuação do cliente,  mas também à própria condução.

Reconhece o êxito da terapia bem como o  vínculo afetivo estabe lecido na relação.

Êxito. Vínculo.

Contrato burocrá tico.

Apresenta, ainda, a extensão dos limites.

No ultimo encontro, surgiram elementos no vos, pois o cliente disponibilizou mais dias e  horários para dar continuidade ao tratamento.

Menciona os elementos surgidos no último encontro.

Percebe interesse do cliente em estender o  tratamento.

Vínculo. Contrato burocrático.

Enfatizo minha satisfação pelo esforço e pela perseverança do cliente no processo de tera pia, assim como por sua vontade sincera de  compartilhar experiências.

Ao novamente acentuar as virtudes do cliente no processo, revela ter  percebido sua sinceridade no intuito  de trocar experiências.

Reitera a satisfação do processo terapêuti co pelo envolvimento  do cliente.

Entrega. Vínculo.

O cliente demonstrou satisfação e agradeci mento, afirmando que a terapia lhe fez muito  bem. Estive mobilizada positivamente, com  sentimento de tristeza pela culminação do  processo e, ao mesmo tempo, satisfeita com o  trabalho. Palavra: crescimento.

Relata que o cliente está satisfeito e agradecido com o tratamento, e  consciente do bem que este lhe  causou. Diz-se triste pelo fim da  terapia, mas satisfeita. Com a pala vra “crescimento”, resume o proces so.

Realça a satisfação do cliente e a própria  

mobilização.

Vínculo. Consci

ência. Crescimen to. Ambivalência.

Tabela 3 - Desenvolvimento dos três primeiros passos (cliente B)  Respostas de PSI-1 a questões levantadas pela autora

Sentido geral

Determinação das partes

Expressões de caráter psicoló gico

Estrutura

geral de sig

nificados  

psicológicos

PSI-1: Meu primeiro atendimento à cliente B foi difícil e eu não sabia como lidar com sua  personalidade, pois ela falava forte, dizia ser  

espírita e queixava-se de tudo. Foi difícil. Ela é  diferente do cliente A.

PSI-1 fala de suas dificuldades no inicio do atendimento. Experimenta  impotência ao lidar com a cliente e  com os temas que emergiram. Faz  comparações com o cliente A.

Sente-se impotente, diante da cliente e dos  temas. Dificuldades  acentuam-se pela  

comparação com A.

Impotência. Com parações.

Começou a faltar e o orientador disse que não poderia continuar a terapia; isto me ajudou a  conhecer minha falta de fronteiras: eu estava  deixando a cliente atuar sem limites, como eu mesma em relação às regras do IGT, ao não  poder desvinculá-la, por suas muitas faltas,  pois ela já estava “fora”.

Menciona a implicação do contrato terapêutico realizado com o instituto,  no sentido de obedecer às regras.  Reconhece positivamente o papel  do orientador e identifica-se com as  atitudes da cliente, evidenciando a  falta de limites de ambas.

Implica-se com o

contrato terapêutico.  Valora o papel do  

orientador. Identifica se com a falta de  

limites da cliente.

Contrato burocrá tico. Importância  do orientador.  

Identificação da  

falta de limites.

Tabela 4 - Desenvolvimento dos três primeiros passos (cliente B)  Descrições extraídas dos relatórios

Por vezes, a cliente era pontual. Falamos a respeito do contrato terapêutico, esclarecendo  cada ponto, procurando clarear as regras.  Recebi o pagamento do mês e, em comum  acordo, assinamos.

Observa a pontualidade eventual da cliente, procede à leitura e à discus são do contrato terapêutico e regis tra o pagamento no decorrer da  sessão.

Manifesta comprome timento com o contra to terapêutico.

Comprometimen to. Contrato buro crático.

A relação terapêutica com a cliente foi de bom entendimento. O que me cansou foi ouvir a  cliente falar do câncer de várias pessoas  próximas a ela.

Valora o entendimento com a clien te. Revela-se cansada de ouvir as  queixas sobre câncer de pessoas  próximas.

Reconhece a relação terapêutica, mas  

declara-se cansada e  afetada pelo histórico  familiar da cliente.

Processo terapêu tico. Ambivalência.

Fiz perguntas para esclarecimento de dúvidas, o que contribuiu para abrir canais de comuni cação, permitindo que o processo terapêutico  ocorresse com tranquilidade, uma vez que a  cliente sentiu-se à vontade para falar dos seus  sentimentos.

Expressa sentimentos positivos com o início do vínculo, facilitando o  processo terapêutico.

Sente-se tranquila

com o inicio de forma ção do vínculo e com  o fortalecimento do  processo terapêutico.

Vínculo. Processo terapêutico.

Num dos atendimentos, a cliente chegou uma hora adiantada e ficou conversando com a  secretária. Fiquei um pouco confusa, porque  não soube o que falar sobre o que senti na quele momento.

Sente-se intrigada porque a cliente chegou cedo e ficou conversando  com a recepcionista. E também  confusa, por não conseguir expres sar seu sentimento.

O adiantamento e a conversa da cliente  com a recepcionista  intrigam PSI-1. Ela  

então não consegue  lidar com esta situa ção.

Impotência. Inse gurança. Ambiva lência.

Minha mobilização interna foi grande, pois o fato de a cliente falar da história triste da  saúde do ex-marido e da situação emocional  dela mexeu comigo. Chamou minha atenção o

Admite-se afetada pelos temas familiares da cliente e por sua insta bilidade emocional. Percebe que B  não consegue libertar-se do luto,

Manifesta afetação

pelos problemas da  cliente. Identifica que suas crenças bloquei

Vínculo. Identifica ção de crenças.

fato de que a cliente até hoje sofre a perda das mortes familiares. Ela diz que “não sabe  enterrar seus mortos”.

pela morte dos familiares.

am a capacidade de ver a morte como fato  natural.

Houve muitos momentos de colocar-me afir mativamente, pois minha mobilização interna  levava-me a tomar uma atitude ativa com  relação à cliente, que falava muito alto e  usava na sua fala muita raiva, palavrões e  expressões explosivas.

Relata que o comportamento agres sivo manifestado pela cliente reper cutiu em sua postura e surgiu a  necessidade de uma presença mais  ativa.

Reconhece a agressi vidade da cliente e  

reage, afirmativamen te, tomando atitude  ativa em relação a  

isso.

Agressividade.

Ajustamento  

criativo.

Planejei estar disponível para o atendimento, observando melhor o contato com a cliente,  para perceber que atitude minha a provoca.

Coloca-se a serviço da cliente como instrumento para seu crescimento  pessoal.

Exercita sua capaci dade de crescer e  

humanizar-se.

Disponibilidade.

Crescimento  

profissional.

A cliente trouxe, em algumas sessões, senti mentos negativos, quanto ao passado com a  mãe. Falava rápido, sem parar. Senti-me  desconfortável, pois ela não disse nada de  sua participação, mas colocava todas as  culpas na mãe.

Expressa desconforto pelos conflitos da cliente com sua mãe e por sua  fala acelerada, bem como pelo fato  de a cliente não assumir culpa, que  transfere sempre para sua mãe.

Sente-se desconfortá vel com os conflitos da  cliente com a mãe, no  passado, e com o fato  

de que ela se exime  de responsabilidade.

Desconforto.

Responsabilidade.

A cliente expressou cansaço das situações vividas no passado e disse não ter clareza se  estão ou não resolvidas dentro dela.

Avalia que a cliente sente-se cansa da das situações passadas, das  quais não sabe se está livre de fato.

Identifica cansaço e incerteza da cliente,  quanto à solução de  problemas passados.

Cansaço. Incerte za. Situações  

inacabadas.

No decorrer do processo, passou a existir maior vínculo de confiança e transparência.  Contudo, a relação não é fácil, uma vez que envolve a família.

Amplia percepção e compreensão sobre o vínculo que, aos poucos, se  estabelece. Sente dificuldade de  trabalhar com “família”.

Percebe o fortaleci

mento do vínculo e a  dificuldade no tema  “família”.

Autopercepção.

Vínculo.

Após justificar a ausência em duas sessões, apresentou-se animada, pela possibilidade de  trabalhar como cuidadora, por indicação de  um conhecido. Disse que naquele momento  sentia-se mais encorajada para enfrentar a  vida e fazer mudanças.

Observa a frequência da cliente na terapia e a animação por esta reve lada, pela possibilidade de cuidar de  outra pessoa.

Exerce controle da

frequência da cliente e  identifica sua pré

disposição para mu danças.

Frequência tera

pêutica. Mudan

ças.

B declarou que considera esse trabalho ho nesto e de grande lição para sua vida, pois  encontrou uma pessoa muito fragilizada, em  quem poderia se espelhar. Para mim foi um  momento muito profundo: a cliente falou coi sas importantes, com as quais me identifiquei.  Ela disse que para dar um passo precisamos  de muito esforço e perseverança. Meu senti mento foi de alegria pelo progresso e pelo  encontro com a cliente.

Mostra como a cliente valora o novo trabalho de cuidadora, que conside ra verdadeira lição para si própria.  Identifica-se com as trocas e refle xões da cliente. Sente-se enérgica e  alegre, pelo fortalecimento do conta to e do vínculo.

Entende e aprecia a subjetividade da clien te, gratificada pelo  

fortalecimento do  

contato e do vínculo.

Subjetividade.

Contato. Vínculo.

Afirmei que as coisas mudam quando se sai da zona de conforto e que é preciso ter atitude  e boa motivação. Apesar de eu não estar bem  de saúde, o encontro foi muito bom, senti a  cliente aberta para oportunidades de entrosa mento com as pessoas e o mundo exterior.  Senti que ela estava receptiva para o diálogo.

Exorta a cliente a manter atitude e motivação. Utiliza oportunidades  para o amadurecimento da relação.  Avalia positivamente o encontro.  Observa a abertura da cliente para a  comunicação.

Encoraja a cliente à perseverança. Obser va maior disponibili dade para o diálogo,  por parte da cliente.

Atitude. Diálogo.

Ela chegou à conclusão de que nós é que damos solução a nossos problemas, quando  nos damos conta de que fazemos parte deles,  e que nossa atitude tem consequência, que o  outro a nosso lado influencia em nós com  suas atitudes e vice-versa.

Revela que a cliente inicia uma tomada de consciência sobre as  influências recíprocas de pessoas  próximas, para solução de seus  problemas.

Identifica movimento de autoconsciência da  cliente, para enfrentar  problemas.

Processo terapêu tico.

A cliente está surpresa, pois encontrou uma pessoa para cuidar e, ao mesmo tempo,  percebeu que também precisará de mais  ajuda psicológica.

Vê a surpresa da cliente por ter sido indicada para cuidar de alguém,  bem como sua percepção de que  também ela precisa de ajuda.

Percebe a tomada de consciência da cliente,  quanto à necessidade  de ajuda.

Cuidado.

A cliente está com pensamentos e atitudes positivas, reconhecendo aos poucos seu  potencial. Eu a tenho acompanhado com  muito respeito e me esforçando para estar  presente, sempre observando suas atitudes.

Observa o crescimento e a tomada de consciência da cliente. Revela o  acompanhamento cuidadoso e  respeitoso de seu progresso.

Revela zelo pelo

acompanhamento e  identifica o crescimen to consciente da  

cliente.

Zelo. Crescimento.

Fiz perguntas sobre seu trabalho e sua saúde. Respondeu que anda muito preocupada com  a saúde, por não ter bom prognóstico e, além  disso, muitas mágoas.

Busca mapear a situação da cliente e obtém resposta clara sobre seu  estado, revelando responsabilidade  e assumindo mágoas e preocupa ções.

O sentimento de

responsabilidade da  cliente com a saúde e  consigo própria torna se mais claro.

Responsabilidade.

A cliente expressou-se com clareza e maior entendimento. Existe um vínculo melhor de  confiança.

Reafirma evolução da cliente na terapia. Sente fortalecimento de  vínculo e confiança.

Expressa a evolução da terapia e o fortale cimento do vínculo e

Evolução. Vínculo.

da confiança.

Coloquei-me no lugar de sofrimento da cliente. Demonstrei interesse de que ela se cuide e  deixe de preocupar-se com tantas coisas, que  primeiro veja e peça a Deus para dar-lhe um  coração perdoador. Ela respondeu que perdo ar também é pregado no espiritismo.

Demonstra empatia e cuidado com a situação de vida da cliente. Apela à  religiosidade, sugerindo-lhe pedir a  Deus um coração que perdoe,  obtendo resposta de que também o  espiritismo ensina o perdão.

Assume o sofrimento da cliente. Sugere  

pedir a Deus senti

mentos de perdão.  

Recebe resposta de  crença no espiritismo.

Empatia. Perdão. Crença.

A avaliação como um todo foi muito boa, apesar de ser doloroso ver a cliente chorar de  impotência e não conseguir libertar-se da  mágoa.

Classifica como “muito bom” o atendimento à cliente, embora  lamente a impotência e a dificuldade  desta em livrar-se da mágoa.

Avalia como “muito bom” o processo.  

Lamenta dificuldades  ainda presentes.

Avaliação do

processo.

A terapia teve duração de seis meses. Encer rou-se devido à incompatibilidade de horários.  O encaminhamento foi o arquivo morto. Resul tados atribuídos: o comparecimento da cliente  às sessões foi regular e seu investimento para  superar as dificuldades foi muito bom.

Faz um balanço final da terapia, de sua duração, da razão de seu encer ramento e do encaminhamento feito.  Sintetiza os resultados: regular  comparecimento e esforço da cliente  para superar-se.

Faz a síntese do

processo. Compare cimento regular. Muito  bom investimento para  superar dificuldades.

Síntese. Frequên cia. Investimento.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

A partir da análise das descrições, foi possível perceber quatro unidades de sentido  semelhantes que, implicitamente, estão contidas na descrição geral feita por PSI-1, na relação com seus clientes A e B:

∙ Importância do vínculo;

∙ Implicação com o contrato burocrático;

∙ Crescimento pessoal versus ambivalência; e

∙ Processo terapêutico.

Importa acrescentar que, embora comuns às várias estruturas, estes constituintes  essenciais podem manifestar-se de forma distinta, mas, ainda assim, como elemen tos-chaves, componentes fundamentais da estrutura do fenômeno.

Estrutura da Experiência de PSI-1

PSI-1 é psicóloga especializanda da EIGT 14. Descreve como exitosa sua implicação com os clien tes, nas primeiras sessões de atendimento individual, na CS-IGT, e considera que esta implicação foi  válida para seu desenvolvimento pessoal e profissional. Ressalta a importância do vínculo e do afeto criados com o cliente A, no início do atendimento, e fala de suas dificuldades com a cliente B, expe rimentando sentimentos de impotência, cansaço e desconforto, ao lidar com os temas trazidos por  ela, que compara desfavoravelmente ao outro cliente.  

Menciona sua implicação com o contrato burocrático, valorando a importância do orientador, em  quem reconhece competência para guiá-la, no tocante a experiências no setting terapêutico, permi tindo-lhe identificar seus limites e padrões cognitivos, emocionais e comportamentais, e tornando-a,  gradualmente, mais consciente destes. Também se refere ao contrato burocrático, no estabeleci mento de regras a serem cumpridas, em termos de pontualidade, frequência, honorários e compro metimento com a relação.  

PSI-1, de alguma forma, mesmo que implícita, reconhece a relação intersubjetiva estabelecida, nes tes primeiros atendimentos, com seus clientes, o que a impulsiona a uma transformação pessoal e  profissional. No estabelecimento de vínculo com o cliente A, assume ganhos de experiência e segu rança para o exercício da profissão. Contudo, menciona dificuldades no processo, devido a algumas  indefinições do cliente. Apresenta, ainda, dificuldades para ajustar-se aos temas que emergiram na  cena terapêutica com a cliente B (crises familiares, instabilidade emocional, doenças, perdas e mor tes de pessoas próximas, crenças, além do comportamento agressivo manifestado pela cliente), uma  vez que emoções negativas atingiram-na e repercutiram em sua postura, surgindo a necessidade de  uma presença mais ativa de sua parte. Em meio a essa ambivalência, a terapeuta colocou-se a ser viço dos clientes, como estímulo ao próprio crescimento.

PSI-1 promove a valoração do processo terapêutico, demonstrando empatia e cuidado com a situa ção de vida dos clientes. Com relação ao cliente A, acentua suas virtudes e revela ter percebido sua  sinceridade, no intuito de trocar experiências. Exorta a cliente B a manter atitude e motivação. Utiliza  oportunidades para o amadurecimento da relação com ambos os clientes, com o compromisso de  avaliar e encerrar o processo.

IMPORTÂNCIA DO VÍNCULO

A implicação de PSI-1,no cenário terapêutico,mostrou-se bastante positiva, de modo  geral. Ao descrever suas vivências, ela fala de um vínculo de proximidade, satisfa ção, disponibilidade, cuidado, comprometimento e expectativa com o cliente A. Am bos estabelecem claramente um vínculo construtivo: ela narra experiências de ama bilidade e expressa o constante fortalecimento desse vínculo afetivo, além de cuida do e respeito em relação ao cliente:

[...] As primeiras sessões com cliente A foram de bom entendimento, com  

entrosamento e aceitação, criando-se vínculo e afeto.

[...] Atendimento tranquilo e com bons resultados.

Fala, também, de sentimentos de impotência, insegurança e desconforto com a cli ente B, dificuldades estas que se acentuam quando faz comparação entre os dois  clientes.  

[...] Meu primeiro atendimento à cliente B foi difícil e eu não sabia como lidar  

com sua personalidade, pois ela falava forte, dizia ser espírita e queixava-se  de tudo. Foi difícil. [...] Ela é diferente do cliente A.

[...] No decorrer do processo, passou a existir maior vínculo de confiança e  

transparência.

IMPLICAÇÃO COM O CONTRATO BUROCRÁTICO

PSI-1 implica-se com o contrato burocrático e valora o papel do orientador, identifi cando-se com a falta de limites da cliente B.

[...] Começou a faltar e o orientador disse que não poderia continuar com a  

terapia. Isto me ajudou a conhecer minha falta de fronteiras.  

[...] Eu estava deixando a cliente atuar sem limites, como eu mesma em re

lação às regras do IGT, ao não poder desvinculá-la, por suas muitas faltas.

Em relação ao cliente A, relata o êxito do contrato burocrático:

[...] O processo foi interrompido pelo fim da especialização. O encaminha

mento do cliente foi “lista de espera”.

[...] A avaliação foi excelente. Atribuo o bom resultado à disponibilidade,  

persistência e confiança do cliente, bem como à minha responsabilidade na  

condução.  

CRESCIMENTO PROFISSIONAL VERSUS AMBIVALÊNCIA

PSI-1 manifesta satisfação com o cliente A, enfatizando sentimentos positivos no  tocante aos primeiros encontros, reconhecendo-os como oportunidades de cresci mento profissional:

“[...] Isto foi importante para meu futuro trabalho fora do IGT: ganhei experi

ência e segurança.”

E, simultaneamente, faz menção a sentimentos de cansaço e desconforto experi mentados nos atendimentos com A:

[...] Passei a ter mais tolerância, apesar de sentimentos negativos, intrigan

tes, pois o cliente tropeça sempre na mesma pedra.

[...] Às vezes tenho dificuldade de entender o caminho que ele quer percor

rer [...].Em outras, a mobilização interna foi de impotência ou o atendimento  

cansativo.

Nos encontros com a cliente B, a psicóloga desenvolve sentimentos de ambivalên cia, pois esta mostrava-se angustiada e relatava situações do passado, perdas e mortes. Então, preponderavam a instabilidade e a agressividade de B, afetando dire tamente a psicóloga, que assume não saber lidar com esses temas conflitantes, tra tados entre referências a valores espirituais.

[...] Houve muitos momentos de colocar-me afirmativamente, pois minha  

mobilização interna levava-me a tomar uma atitude ativa com relação à cli

ente, que falava muito alto e usava na sua fala muita raiva, palavrões e ex

pressões explosivas. [...] Num dos atendimentos, a cliente chegou uma hora  

adiantada e ficou conversando com a secretária. Fiquei um pouco confusa,  porque não soube o que falar sobre o que senti naquele momento.

[...] Coloquei-me no lugar de sofrimento da cliente. Demonstrei interesse de

que ela se cuide e deixe de preocupar-se com tantas coisas. Que primeiro  veja e peça a Deus para dar-lhe um coração perdoador. Ela respondeu que  perdoar também é pregado no espiritismo.

Pode-se deduzir que houve crescimento pessoal da psicóloga, numa condição em  que o ser humano não pode controlar todas as circunstâncias nas quais se sente  envolvido, apesar da liberdade de escolher a resposta que deve dar. Observa-se,  assim, que a psicóloga, em meio à reconhecida ambivalência, colocou-se a serviço  da cliente, promovendo o próprio equilíbrio e crescimento:  

[...] Minha mobilização interna foi grande, pois o fato de a cliente falar da  

história triste da saúde do ex-marido e da situação emocional dela mexeu  

comigo. [...].Ela diz que “não sabe enterrar seus mortos”.

[...] Planejei estar disponível para o atendimento, observando melhor o con

tato com a cliente, para perceber que atitude minha a provoca.

PROCESSO TERAPÊUTICO

PSI-1 avalia e reconhece o êxito do processo terapêutico e confirma a importância  do vínculo formado com seus clientes.Zinker (2007, p. 20) manifesta-se acerca des se vínculo tão peculiar que se estabelece entre terapeuta e cliente, ressaltando a  humanidade do primeiro, em forma de afeto, e promovendo a confiança recíproca,  base de todo o processo terapêutico. No processo, esta relação é o referencial para  integrar novos significados, ampliando o vínculo. Em seus relatos,PSI-1acentua as  virtudes do cliente A:

[...] Enfatizo minha satisfação pelo esforço e pela perseverança do cliente  

no processo de terapia, assim como por sua vontade sincera de comparti

lhar experiências.

[...] Atendimento tranquilo e com bons resultados. O cliente ficou agradecido  

e espera ser chamado em breve. Disse, ainda, que é chato olhar e contar a  

história de novo para outro terapeuta. Mobilização interna triste, pela des

pedida.

Sobre B, observa a evolução do processo e classifica-o como “muito bom”, ao fazer  o balanço da terapia:

[...] Ela [a cliente B] chegou à conclusão de que nós mesmos é que damos  

solução a nossos problemas, quando nos damos conta de que fazemos par

te deles, percebendo que nossa atitude tem consequência, que o outro a  nosso lado influencia em nós com suas atitudes e vice-versa.

[...]A terapia teve duração de seis meses. Encerrou-se devido à incompatibi

lidade de horários. O encaminhamento foi o arquivo morto. Resultados atri

buídos: o comparecimento de B às sessões foi regular e seu investimento  

para superar as dificuldades foi muito bom.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste trabalho,em que se apresenta a questão das primeiras sessões do atendimen to individual na CS-IGT,por meio da relação intersubjetiva de PSI-1 com seus clien tes, reflete-se a fertilidade que identifica o trabalho em Psicoterapia e a amplitude de  solicitações e possibilidades a que está submetido o psicólogo.O uso do método fe nomenológico de Giorgi permitiu que os resultados expressassem a articulação dos  constituintes essenciais da experiência, tal como vivida pelos participantes.

Algumas respostas podem ser destacadas no processo terapêutico, como resultado deste estudo fenomenológico, acerca da vivência e da eficácia da terapia. Em pri meiro lugar, ressalta a importância da formação do vínculo e do estabelecimento de  regras claras no contrato burocrático,com sua extensão e seus limites.

No tocante ao fenômeno, o psicólogo é um facilitador do processo relacional. Daí a  importância de desenvolver o dom da escuta amorosa, que permitirá ao cliente ou vir-se, com maior acuidade, na medida em que, escutando a si mesmo, ele se re descobre na relação com o outro, tornando-se, ambos, um fenômeno vivo.Por outro lado, em algumas circunstâncias, desejos transformam-se em necessidades, “que rer”confunde-se com “poder” e, assim, perde-se a perspectiva dos limites. Terapeuta  e cliente, imersos no mesmo processo, não distinguirão se o que emerge vem de  necessidades genuínas e transformadoras ou de deslizes de direção do processo e, então, perdem-se os papéis. Neste momento é que se torna fundamental a figura do  supervisor.

Outro aspecto relevante é a presença paradoxal de PSI-1,na categoria “crescimento  pessoal versus ambivalência”. Levanta-se a hipótese de que a intencionalidade  construída em relação ao que se espera no processo seja contraditada pela experi ência efetiva do contato. Daí a necessidade de calibrar, clarificar, o ritmo das inter venções realizadas e de esperar um pouco mais a resposta do cliente, sem muitas  explicações. E, também,de olhar com cuidado para a relação, buscando dialogar  com as diferenças e até mesmo dividir com o outro o caminho que gostaria de se guir, uma vez que estar presente no tempo e no espaço demanda encontros diver sos e não há receitas para esses encontros, sempre únicos, singulares.

Desse modo, revela-se a construção do significado de algo que não se conhece,  mas que ressoa na experiência presente, transformando a própria maneira de ser no-mundo, fato que se percebe, nitidamente, quando a psicóloga se coloca a servi ço dos clientes, exercitando sua capacidade de crescer e humanizar-se. É um traba lho de extrema delicadeza e de grande amplitude.

O presente artigo trata, portanto, de capturara vivência real do psicólogo, uma vez  que, usualmente, os estudos na área tendem a tratar da fundamentação filosófica,  técnica ou teórica de cada abordagem e raros investem no modo como o psicólogo  percebe seu desenvolvimento, no decorrer do processo terapêutico.

Considero,finalmente, que este breve estudo é apenas o início de uma reflexão, uma  vez que o tema explorado é amplo e o que se apresenta, no momento, é uma pe quena amostragem.

Agradeço, aqui, em primeiro lugar, à Supervisora Márcia, que exerceu, com profici ência, a orientação necessária para a conclusão deste trabalho. Também agradeço,  com empenho, aos colaboradores da EIGT-14, de modo especial a PSI-1, por sua  pertinácia e extrema dedicação profissional, sem o que este trabalho não se teria  realizado. Estendo ainda estes agradecimentos àqueles que, anonimamente, me  estimularam a perseverar na pesquisa, o que permitiu a abertura de espaços, a  promoção de encontros e a atualização de possibilidades.

Ao final do processo,constato a riqueza do método fenomenológico, aplicado ao pro cesso terapêutico, dando-lhe sustentação e sentido. E também o quanto os psicólo gos construímos conhecimentos,no exercício de nossa profissão. Enquanto especia lista em Gestalt-terapia, mais uma vez ressalto esta Ciência, que transmite vida, téc nica, arte, postura. Neste caminho, tenho rastreado pistas, com curiosidade, toman do como referências minhas escolhas e o diálogo com o outro. É bom olhar o trajeto  

até aqui e melhor ainda é saber que se está trilhando um caminho que tem coração.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 - ESPÍRITO SANTO, Luís Carlos Bandeira, Reflexões de uma Práxis Fenomeno lógica e Transformadora em Psicoterapia de Base Gestáltica – atuação de um  gestalt-terapeuta em formação. Monografia do curso Especialização em psicologia  clínica – Gestaltterapia[sic] (Indivíduo, Grupo e Família), Biblioteca do IGT - IGT, Rio  de Janeiro, 2012.

2 - ESTARQUE PINHEIRO, Márcia E. A Primeira Entrevista em Psicoterapia. IGT  na Rede, Rio de Janeiro, RJ, 4.7, 31 ago. 2007. Disponível em: http://www.igt.psc.br  /revistas/seer/ojs/viewarticle.php?=169. Acesso em: 23 jul. 2012.

3 - GIORGI, Amedeo; SOUSA, Daniel. Método Fenomenológico de Investigação  em Psicologia. Lisboa: Fim de Século, 2010.

4 - ___________. The Descriptive Phenomenological Method in Psychology – a  modified Husserlian approach. Pittsburgh, Pennsylvania: Duquesne University  Press, 2009.

5 - MORIN, Edgar. Um Terceiro Problema. In:______. Cultura de Massas no Sécu lo XX. 2. ed. Rio de Janeiro, RJ: Forense, 1969. Cap. 1, p. 15-23.

6 - PERLS, Frederick S. Gestalt-terapiaExplicada. Compilação e edição da obra  original de John O. Stevens – tradução de George Schlesinger. São Paulo: Summus,  1977. 

7 - PINTO, Ana Paula Cavalcante. O Perfil da Clínica Social do IGT: da primeira  entrevista ao início do tratamento. IGT na Rede, vol. 10, no19, Rio de Janeiro,  2013.

8 - RIBEIRO, Jorge Ponciano. Vade-mécum de Gestalt-terapia: conceitos básicos.  São Paulo: Summus, 2006.

9 - SCHNITMAN, D. Fried (org.) Novos Paradigmas, Cultura e Subjetividade.  Porto. Alegre: Artes Médicas, 1996. 294 págs. ISBN 85-7307-167-2. Sumário. 

10 - SILVEIRA, Teresinha Mello. A Gestalt no Contexto da Psicoterapia: teoria e me todologia aplicadas a um caso clínico. In: Presença: Revista Vita de Gestalt terapia. 1997, ano 3, n. 4, pp. 9-27. 

11 - TAVARES, Marcelo. A entrevista estruturada para o DSM-IV. In: BASTOS, Adri ana. Curso preparatório para o concurso da Prefeitura de Nova Iguaçu: capítulo  8, módulo IV – Estratégias específicas em entrevista. Nova Iguaçu, RJ, 2012.

12 - ZINKER, J. Processo Criativo em Gestalt-terapia. M.S.M. Netto, Trad. São  Paulo: Summus, 2007.

Endereço para correspondência Edna Correia da Silva Luciano de Oliveira E-mail: ednalucianodeoliveirapsi@gmail.com

Márcia Estarque Pinheiro

E-mail: marcia@igt.psc.br

Revista IGT na Rede, v. 11, nº 20, 2014, p.171-192 DOI 10.5281/zenodo.15048361

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526