ARTIGO

Os Conflitos na Fronteira de Contato entre Pais e Filhos  Adolescentes

Conflicts on the Border of Contact Between Parents and their  Adolescent’s Son

Rosimere Viana Barbosa da Silva

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo propor uma discussão teórica acerca dos  conflitos na relação entre os pais e filhos adolescentes, identificar quais os  aspectos que dificultam essa relação, quando os conflitos se instalam e quais  os ajustamentos criativos utilizados. São apresentadas as concepções da  adolescência, os principais conceitos, a relação saúde e doença em Gestalt terapia, e a relação entre pais e filhos na visão da Gestalt-terapia. O  adolescente e seus pais nesse momento de transformação passam por  flutuações que consistem em aceitação e negação diante das mudanças físicas  e psíquicas. É uma fase confusa e ambivalente, marcada por conflitos, que vai  requerer dos pais e adolescentes novas posturas.  

Palavras-chave: Adolescência; Interrupção de Contato; Conflitos; Gestalt Terapia.

ABSTRACT  

This paper aims to propose a theoretical discussion about the conflict in the  relationship between parents and teens understand what aspects that hinder  this relationship, when conflicts arise and what creative adjustments used.  Conceptions of adolescence are presented, key concepts, health and disease in  relation to Gestalt therapy and the relationship between parents and children in  sight of Gestalt therapy. The teenagers and their parents in this time of  transformation undergo fluctuations which consist of acceptance and denial in  the face of physical and psychological changes. It is a confused and ambivalent  phase, marked by conflicts, which will require parents and adolescents new  positions.  

Keywords: Adolescence; Interruption of Contact; Conflict; Gestalt Therapy.

Introdução

A família, no decorrer da evolução histórica, passou por várias transformações.  Novas configurações familiares levam os pais a assumirem novos papéis, gerando assim contradições tais como pais mais liberais e outros que  permanecem numa postura tirana em relação aos filhos.  

Mesmo diante das transformações no meio familiar, a relação dos pais com os  filhos na adolescência ainda é uma questão não resolvida e com a qual os pais  encontram dificuldade. A adolescência, por ser um momento de transformação  

física e emocional, por apresentar uma vivência do luto do corpo, do luto dos  pais da infância, onde espaços ficam restritos e a sensação de lugar sem  saída, leva os adolescentes a um embate com seus pais, deixando  comprometido o contato entre eles.

Hoje muito se fala de família, da nova configuração familiar e da desvalorização  ou não dessa instituição, mas pouco se fala das dificuldades encontradas pelos  pais e filhos na busca desta integração, que acabam resultando na interrupção de contato. A proposta deste estudo sobre o referido tema tem como objetivo auxiliá-los na condução de uma constante e criativa reflexão, deste encontro  tão especial entre pais e filhos, e é endereçado aos adolescentes que estão  passando por esta fase, aos pais, assim como aos terapeutas.

A partir dos conceitos da Gestalt-terapia: contato, bloqueios de contato,  ajustamento criativo, fronteira de contato, funcionamento saudável e não  saudável, pode-se compreender como os conflitos vividos nessa relação  podem ser decorrentes de interrupções do contato e, ao mesmo tempo,  favorecer o surgimento indesejável, porém, às vezes, necessárias, dessas  interrupções.

Este artigo propõe uma discussão sobre alguns aspectos da relação dos pais  com os filhos na adolescência. Para tal, propomos algumas concepções de  adolescência, o adolescente em si, seu corpo, sua mente, e a relação  adolescente e família Tem por objetivo identificar quais os aspectos que  dificultam essa relação, quando os conflitos se instalam e quais os  ajustamentos criativos utilizados nesta relação.

I - Adolescência e a relação entre pais e filhos

Adolescência é sinônimo de mudança. Focar essa temática é meramente um  exercício didático. O primeiro momento de mudança que determina esse novo  tempo é a puberdade. Outeiral (1994) compreende como um processo  biológico, que tem seu início entre 9 e 14 anos, caracterizando-se por mudanças corporais e hormonais.  

A adolescência, para este autor, também é um fenômeno psicológico e social.  Sendo psicossocial, ela terá um desabrochar de acordo com o ambiente vivido  pelo adolescente, tais como: contexto social, econômico e cultural.

Outeiral (1994) define a palavra adolescência como sendo “olescer” (crescer),  significando o processo de crescimento vivido pelo indivíduo, e “adolescer”, que se origina da palavra adoecer. Esses dois significados levam à reflexão sobre o  momento da vida do adolescente. Assim, entendemos adolescência, por um  lado, como uma aptidão para crescer no sentido físico e psíquico e, por outro,  uma condição de adoecer - em termos de sofrimento emocional- com base nas  transformações biológicas e mentais que perpassam essa etapa.

É na fase inicial dos 9 anos aos 14 anos que acontecem as transformações  corporais e as alterações psíquicas. A adolescência média vai de 14 a 16 anos,  e é marcada por questões da sexualidade. De acordo com o autor, passam de  uma bissexualidade para uma heterossexualidade. A adolescência final vai de  17 aos 20 anos: manifestando como elementos característicos o  estabelecimento de novos vínculos com os pais, a definição profissional, a  aceitação do novo corpo e das mudanças psíquicas para o mundo adulto (OUTEIRAL, 1994).

O adolescente, nesse momento de transformação e aceitação do novo corpo, assiste e sofre passivamente todas essas transformações, criando uma intensa  ansiedade. Vive a perda do corpo infantil, com uma mente ainda infantil e um  corpo que vai se tornando o de um adulto. Muitas vezes, esse corpo aparece  totalmente diferente do corpo idealizado. Há nesta fase a tendência a refugiar se internamente (OUTEIRAL, 1994).

O adolescente, para lidar com o corpo não idealizado, passa por um processo  de identificação grupal, se submetendo a uma aceitação ou rejeição por parte  do grupo, que o leva a processos de ajustamento, de adaptação, de afastamento ou isolamento social (OUTEIRAL, 1994).

Para Aberastury & Knobel (1988), além do luto pelo corpo, o adolescente  vivencia o luto pela identidade infantil e o luto pelos pais da infância. De acordo  com estes autores, pode-se compreender essa identidade infantil como a fase  onde a criança vivencia um vínculo de dependência dos seus pais. A criança,  diferentemente do adolescente, passa a ter os pais como o seu referencial, ela  vai se organizar a partir de uma identificação com os pais, já os adolescentes  partem para os grupos e seus pares. Nesta fase, a questão dependência independência passa a assumir um papel central, caracterizando-se a  adolescência pela tendência em direção a uma maior independência.

Quando o adolescente se sente capaz de fazer sua inclusão no mundo com  seu corpo novo, assumindo e aceitando a imagem que tem do seu corpo, muda  também sua identidade, mas ainda vive um momento de adaptação.  

Vão acontecer, nesse período, momentos de flutuações entre dependência e  independência. São nesses momentos que dizemos que o adolescente não  sabe se é criança ou adulto, vive momentos de extrema dependência dos pais  e outros em que se coloca como uma pessoa capaz de tomar suas próprias  decisões. Aqui os pais também vão vivenciar essas flutuações, por vezes vão querer ter a sua criança de volta e em outras vão exigir uma postura adulta  desse ser em transformação.

A adolescência é uma fase de contradições, confusa, ambivalente, dolorosa,  marcada por conflitos com o meio familiar e social, que vai exigir novas  posturas, cuja elaboração demanda tempo para o adolescente. Ele vai precisar  se refugiar internamente para enfrentar o futuro (ABERASTURY & KNOBEL,  1988). Esse refúgio é aquele momento em que o adolescente faz uma opção  pelo isolamento, para refletir e vivenciar a separação dos pais. Este refúgio  poderá facilitar-lhe o entendimento enquanto um novo ser

II - Os principais conceitos e a concepção de saúde e doença na Gestalt terapia

Aqui apresenta-se os conceitos de contato e saúde em Gestalt-terapia,  bloqueios de contato como sintoma, ajustamento criativo, fronteira de contato e  funcionamento saudável e não saudável em Gestalt-terapia.

O conceito de contato é fundamental no arcabouço vocabular da Gestalt terapia. Contatar é sinônimo de vida, de existência plena. Assim, “contato é  saúde, saúde é contato. Qualquer interrupção do contato implica uma perda da  saúde” (RIBEIRO, 2006, p.36).

Saúde em Gestalt-terapia, não é simplesmente ausência de doença, e sim algo  mais complexo e holístico. Saúde pode ser explicitada como „a forma de se  estabelecer contato‟. O contato vai ser nutritivo quando o indivíduo diante do  „novo‟ consegue realizar uma boa assimilação com o meio (D‟Acri, 2007).

Ainda falando de saúde como processo, o contato pleno pode ser entendido  como um modo de favorecer uma relação saudável entre pais e adolescentes.  Ribeiro (1997, p. 13) fala das nuances que a palavra contato traz para o  encontro pleno: contato não é apenas estar com, “contato é função do campo e  obedece às leis que regem o campo”. “A vivência do contato depende da  experiência do campo, cuja qualidade altera a experiência imediata vivida pelo  sujeito em um momento dado”.

Partindo do pensamento de Ribeiro (1997), uma relação só subsiste a partir do  momento em que enxergo o outro, que estou plenamente inserido nesta  vivência, pronto a viver o encontro. Um encontro só se torna um contato  quando as coisas começam a existir. Esse existir não vai acontecer enquanto  não percebo e estou pleno na relação com o outro.

Ribeiro (1997), ainda reforça que, por meio do contato, podemos pensar a  nossa existência e a do outro, nos ver de modo separado no mundo e como  existimos e funcionamos na relação com o outro.

Para o autor, pensar em contato é pensar em crescimento, e para que isso  aconteça, deve-se deixar levar pelo fluxo do encontro com o outro e permitir que isso seja um gerador de mudanças. Em contraponto, o não fluir, o  desajuste na relação é uma interrupção de contato.

A interrupção de contato vai estabelecer-se na fronteira de contato, que é o  lugar onde o encontro organismo/meio acontece. De acordo com o contato  estabelecido na fronteira é que vamos perceber como o organismo foi  modificado, “se unindo ou se separando” (SILVEIRA, 2007, p. 116).

O bloqueio do contato pode ser percebido como um sintoma, e também como  uma necessidade de autorregulação. Sob esse aspecto, Ribeiro (2006) aponta  que o bloqueio existe como uma maneira da pessoa se autorregular e se autoajustar diante do que tem como possibilidades, mesmo que essas não  sejam alternativas mais adequadas. O bloqueio pode funcionar como uma das  únicas alternativas disponíveis para a pessoa manter um contato tolerável, no  aqui e agora.

Os bloqueios e resistências aparecem como um único modo momentâneo da  pessoa agir. O sintoma mostra uma perda de confiança em seu potencial  criativo e, só após serem cuidadas, conseguirão se ajustar criativamente e se  colocar novamente na vida de forma saudável (RIBEIRO, 2006).

O ser humano é um ser que vive em relação e é na relação com o outro que o  ajustamento acontece, pois

“(...) o ajustamento criativo é o processo pelo qual o corpo-pessoa,  

usando sua espontaneidade instintiva, encontra em si, no meio  

ambiente, ou em ambos, soluções disponíveis, às vezes  

aparentemente não claras, de se autorregular” (RIBEIRO, 2006,  

p. 79).  

O ajustamento criativo acontece na fronteira de contato e visa sua  autorregulação diante de situações diversas. O organismo para se ajustar de  forma saudável, vai em busca de uma autorregulação transformadora e  necessita descobrir estratégias adaptativas adequadas para o bom  funcionamento. Para que isso ocorra, o indivíduo precisa de um contato aware  (consciente) na fronteira.

Awareness é “uma forma de experienciar, é o processo de estar em contato  vigilante com o evento mais importante do campo indivíduo/ambiente, com total  apoio sensório motor, emocional, cognitivo e energético” (YONTEF, 1998, p.  215).

Contudo, se isso não acontece, o ciclo de autorregulação fica interrompido e o  indivíduo em desequilíbrio, sem condições de atender às suas necessidades. É  pelo ajustamento criativo que a pessoa se mantém ativa e buscando um modo mais saudável de estar no mundo (MENDONÇA, 2007).

O ajustamento criativo se dá quando utilizamos recursos antigos, disponíveis  pelo organismo, ou novos, encontrados no contato corpo-meio-ambiente,  proporcionando um modo de viver sem adoecimento (RIBEIRO, 2006).

A relação dos pais com seus filhos adolescentes vai adoecer, quando ambos,  por não conseguirem, diante do novo, se ajustar criativamente, buscam  maneiras de lidar com suas dificuldades de forma não saudável, interrompem o  contato pleno, como diz Ribeiro (1997), e deixam comprometido o fluir da  relação.

Para Frazão (1999)  

Funcionamento não saudável é um fenômeno interativo, que ocorre na  

fronteira de contato, e que se refere à inabilidade e ou impossibilidade  

de se relacionar criativamente com o ambiente, relacionando-se ao  

invés disso através de padrões cristalizados e repetitivos, através dos  

quais a expressão de necessidades e sentimentos é distorcida ou  

suprimida, com vistas a manter a relação com o outro, por mais  

artificial ou inautêntica que uma relação desse tipo possa parecer (p.  

30).

Como as necessidades dos adolescentes são diferentes daquelas da infância,  estas, portanto, podem rivalizar com a manutenção da relação com o outro.  Frazão (1999) explica que quando isso ocorre o indivíduo vai tentar se ajustar,  mas se as tentativas falharem, então haverá o conflito.  

Com base na minha vivência como psicoterapeuta no atendimento de  adolescentes, o conflito vivido por eles na relação com os pais acontece  quando falta uma relação dialógica, quando em um dado momento, um deixa  de olhar para o outro. Os pais estabelecem as prioridades, determinam o que  devem fazer, mensuram o quão deve ser alto seu desempenho intelectual e  são incompreensíveis com as falhas e com o insucesso dentro do esperado por  eles. “Já os adolescentes, por falta de repertório e de maturidade, entram num  embate com seus pais, numa postura de autoafirmação que resulta na  interrupção de contato na relação.”

Portanto, para garantir esta relação entre pais e filhos é preciso do diálogo.  Numa relação dialógica entre pais e filhos, é preciso que verdadeiramente  aconteça um encontro pleno, onde a “presença” seja inevitável neste encontro.  É necessário aceitação de ambos e uma reciprocidade como o grande marco  da relação (BUBER, 2012).

Os pais, para manterem uma relação dialógica com seus filhos, precisam romper a barreira do medo da fase desconhecida, do medo de perder o filho  criança e do medo de não estarem mais no controle.

É importante não se ter reservas e estar aberto um para o outro, encontrar um  ao outro como pessoa e estabelecer uma relação mútua, verdadeira e ativa,  considerar a pessoa como o foco exclusivo da sua atenção, assim se tem o  “diálogo genuíno” (HYCNER, 1995).

A relação dialógica não é entendida como uma simples conversa, é um estar  com o outro de forma plena, é olhar, perceber e procurar entender quais são as  necessidades do outro. Quando isso acontece, a relação vai ser saudável, as  próprias dificuldades do adolescente em lidar com as suas mudanças, como se auto afirmar na relação e de mostrar a sua independização, serão minimizadas,  pois se sentirá como participante dessa relação pais e filhos.

No atendimento clínico percebo como os pais tem dificuldade de compreender  o crescimento do filho. A mudança corporal vivida pelo adolescente é algo  marcante nesse processo, e eles podem não ter mais a mesma liberdade  diante dos pais, podem sentir-se invadidos, pois, vivenciam um corpo novo. Já  para os pais, acostumados a ver o filho sem roupa, não entendem como uma  invasão.

De acordo com Hycner (1995), quando a ênfase dos pais é dada de acordo  com as suas necessidades individuais, o relacional fica subjugado, cria uma  separação onde um não vai compreender o outro.

Aqui, pode-se também fazer uma referência ao conceito de saúde e doença em  Gestalt-terapia, a saúde é compreendida a partir de uma totalidade, e a doença  como uma incapacidade momentânea de se autorregular. Os pais e filhos  apresentam, nesta fase, dificuldades de se ajustarem diante de todas as  mudanças que ocorrem na adolescência. Esta relação se vê muitas vezes  adoecida, mas não adoece por inteiro: a totalidade da relação é comprometida,  mas apenas uma parte adoece.

A inter-relação saudável dos pais e adolescentes se dá quando o ajustamento  criativo acontece de forma criativa na fronteira de contato, atendendo às  necessidades de cada um. O funcionamento saudável:

“[...] é um fenômeno interativo, que ocorre na fronteira de contato e

que se refere à habilidade de se relacionar criativamente com o  

ambiente como indivíduo único, com vistas à expressão e  

atendimento de necessidades, mantendo, ao mesmo tempo, uma  

relação respeitosa com o outro em sua unicidade” (FRAZÃO,  

1999, p. 29).

Fernandes (2013, p. 39) reforça estas reflexões e aponta-nos, do ponto de vista  familiar, que

“[...] as famílias saudáveis apresentam fronteiras flexíveis, selecionam  

contatos nutritivos e alienam aqueles que podem ser tóxicos, seus  

membros interagem com mais ou menos apego ou soltura  

dependendo das necessidades e circunstâncias”.

A adolescência é compreendida e rotulada pelos pais como um problema,  muitos antes de iniciarem esse processo, juntamente com seus filhos, de tal  forma que já esperam que essa fase seja difícil e, na verdade, esses  adolescentes estão vivendo uma transposição, em que se tornarão adultos  conscientes na sociedade, e, neste momento, voltarão aos seus pais. “Posso,  ainda, reforçar a importância do ambiente familiar favorável e compreensivo ao  momento do adolescente, com o objetivo de manter uma relação saudável.”

III - A adolescência e a relação entre pais e filhos na visão da Gestalt terapia

A passagem da infância para a adolescência é muito incompreendida pelos  pais. Segundo Pinheiro (2013), o adolescente já é grande o bastante para fazer  várias coisas, mas não tem idade para realizar outras que normalmente eles  gostariam. A dualidade vivida pelo adolescente entre o amadurecimento do  corpo e o psicológico leva a uma inquietação e instabilidade emocional que, consequentemente, leva a conflitos no relacionamento com os pais. À luz da  Gestalt-terapia, Mirabela (2013) fala que o adolescente vive uma crise de  adaptação, a variação do seu estado de ânimo e intensas mudanças em seu  emocional se dá diante da necessidade de encontrar seu lugar no mundo. Esse  novo papel, agora adolescente, num movimento de crescimento, requer  escolhas que terão impacto em toda a sua vida, gerando angústia e  insegurança.

Mirabela (2013) elucida também a respeito do corpo infantil. Como já apresentado, o adolescente vivencia as mudanças e passa a lidar com um  corpo que não obedece a seus controles, passa a ter desejos, necessidades e  emoções antes desconhecidos.  

Durante a infância, a criança vive sob proteção dos pais e estes buscam supri la em tudo. Quando estas crianças se vêem adolescentes, querem tomar suas  próprias decisões e se afastar dos pais como forma de se colocarem como um  

ser-no-mundo. E os pais sofrem com a perda da criança que estava sob  controle e acabam por ter dificuldade em entender e aceitar esse novo ser  adolescente.

Mirabela (2013) cita duas posturas comumente adotadas pelos pais de  adolescentes, que pode-se aqui classificar como fatores de interrupção de  contato na relação dos pais com os filhos: a) controle excessivo do filho, os  pais se sentem inseguros quanto ao que o filho está se tornando e se sentem impotentes; b) A outra postura é a de abandono ou indiferença, negação da  responsabilidade, ocorre normalmente diante da dificuldade em acompanhar os  filhos.

Mirabela (2013, p. 24) afirma a respeito:

“[...] esses pais muitas vezes negam que foram adolescentes,

deixando fora da fronteira de contato as experiências vividas nessa  

época, dificultando seu acesso aos recursos necessários para o  

desenvolvimento de um autossuporte que pudesse favorecê-los na  

comunicação com os filhos”.

Uma das tarefas centrais do adolescente vivida na relação com os pais é a  independização, que muitos compreendem como uma ruptura com a família. A  independização é a transformação de vínculos infantis de relacionamento por  um mais maduro e independente. É um processo doloroso para os pais e  adolescentes. O adolescente precisa desvalorizar os pais, para assim se  afastar e sentir que não perde muito, e os pais passarão por uma dura prova  com essa conduta, mas é necessário aceitar e entender essa postura para que  seus filhos possam construir uma visão própria dos mesmos (OUTEIRAL,  1994).

A independização em Gestalt-terapia pode ser vista como um ajustamento  criativo. O filho passa de uma fase infantil para uma em que ainda não se  reconhece, necessita aqui criar meios para dar conta de um processo de  transformação que ainda desconhece. Precisa se afastar dos pais e se  aproximar de seus pares em busca da sua própria identidade. O modo como os  pais acabam por se adaptarem às mudanças dos filhos, de tentarem vivenciar  o afastamento e o funcionamento do adolescente também pode ser um  ajustamento criativo para lidar com o novo.

O grupo familiar do adolescente como um todo adoece. Os pais, com seu  discurso voltado para o passado, se vêem de frente com o adolescente que só  fala do futuro e mantém um crescente desempenho físico, enquanto os pais  sentem o peso da idade (OUTEIRAL, 1994).

O autor ainda aponta outra questão importante que traz implicações para essa  relação, a projeção que os pais fazem das suas fantasias sobre seus filhos  crianças, e estes se assustam com os adolescentes que buscam a  independização e seguem novos caminhos, antes não escolhidos por seus  pais. A situação de oposição aos pais é um dos momentos de construção da  sua identidade. Ao opor-se, o adolescente afirma a si próprio enquanto sujeito  único e singular.

Esse processo que estabelece novos vínculos com a família e com a  sociedade, passando de uma esfera infantil para um modelo adulto, é uma  tarefa básica vivida pelo adolescente (OUTEIRAL, 1994).

O luto vivido pelos adolescentes dos pais da infância é algo também vivenciado  pelos pais. Eles precisam fazer o luto pelo corpo do filho pequeno, da sua  identidade de criança e da sua dependência infantil. Os pais têm que se  desprender do filho criança e aprender a lidar com o filho adulto, se os pais não  se dão conta de suas dificuldades, esse momento torna-se ainda mais  doloroso. Os pais precisam aprender a fazer renúncias, assimilar a proximidade  do envelhecimento, da morte, abandonar a imagem idealizada de si mesmos e  aceitar a capacidade de seu filho de tomar decisões e ser capaz de alcançar  suas próprias conquistas (ABERASTURY & KNOBEL, 1988).

O processo de mudança naturalmente vivido pelo adolescente também pode  ser entendido como um modo de se ajustar criativamente. Ele precisa dar conta  de uma transformação corporal, passando de um corpo infantil para um corpo  adulto, construir sua própria identidade frente às expectativas de seus pais e  lidar com pais que ainda se comportam como pais da infância. Esse  ajustamento é que vai permitir que o adolescente se adapte à sua nova  identidade e perceba como se colocar no mundo novo.

Em um dado momento – na relação pais e filhos adolescentes – perde-se a  capacidade de manter um contato pleno e de compreensão da existência um  do outro, dando lugar aos conflitos. Pode-se, ainda, acrescentar que nesta  relação o contato está empobrecido. A relação pede um contato de qualidade para que se propicie uma interação indivíduo/ambiente nutritiva e que  possibilite mudanças no seu campo relacional (FRAZÃO, 1999).

Os pais têm dificuldades de perceber que ao longo do desenvolvimento as  necessidades desses filhos se tornam mais complexas e exigem um modo  diferente de agir dos pais da infância. Os recursos disponíveis para o  adolescente na forma de autorregulação podem ser entendidos pelos pais  como rebeldia e desobediência. A autorregulação organísmica, aqui, acontece  de forma não saudável por meio dos bloqueios de contato.  

Considerações finais

O presente trabalho perpassou pelas mudanças vividas pelo adolescente, sua  postura diante do novo e o momento de um desabrochar de sua maturidade.  Ressaltou que os pais também, embora dotados de mais conhecimento e  maturidade, se perdem diante desse enfrentamento.

O primeiro momento de dificuldade enfrentado pelo adolescente e pelos pais é  a mudança do corpo. Os adolescentes vivenciam o luto do corpo, não  entendem como lidar com tantas mudanças, saem de um lugar outrora de  proteção e conforto e se deparam com um “quem sou eu”. Os pais, em  contrapartida, que detinham o controle sob aquela criança, passam a vivenciar  o luto do filho da infância.

É nesse momento confuso e ambivalente que os conflitos se instalam. A  capacidade de manter um contato pleno e da compreensão, um do outro, se  perde; o contato deixa de ser nutritivo, pois os pais temem a perda do filho  criança.  

As necessidades dos filhos mudam e exigem dos pais uma nova postura, um  ajustamento para lidar com esse ser que quer se individualizar, se reconhecer enquanto pessoa capaz de fazer escolhas e começar a decidir o seu futuro de um vir a ser adulto. É entendido que os adolescentes, na fase inicial, ainda não  

têm condições de seguirem sozinhos, por isso – a ambivalência (entre  dependência e independência) nessa fase é tão citada – precisam de apoio e orientação. Os pais, nesse momento, encontram dificuldades para fazer esse  ajustamento, ainda não conseguem perceber e ou aceitar as mudanças, tentam  continuar no mesmo lugar dos pais da infância. Os adolescentes, então, vão  precisar se afastar desses pais em busca de sua independização, como explica  Outeiral (1994), precisam transformar os vínculos infantis de relacionamentos  por um mais maduro e independente.

Aqui os bloqueios de contato vão acontecer como um sintoma. Os pais  necessitam se autorregular para a nova relação, mas agem de forma não  saudável. Não conseguem olhar para o adolescente e ver suas novas  necessidades e dificuldades, se preocupam em não perder o controle, temem o  ser adulto que surge. Continuam querendo apenas determinar, fazer as escolhas no lugar do adolescente e mostrar o que é mais importante em sua visão, não percebem que esse é o momento de olhar para o outro que busca  construir sua própria identidade.

Os pais encontram dificuldade de estabelecerem uma relação dialógica com  seus filhos adolescentes. No dialógico, que é onde se institui um contato pleno,  os pais conseguem perceber, compreender, valorizar, aceitar e confirmar as necessidades e experiências vivenciadas pelos filhos. Através dessas atitudes,  serão capazes de se colocar no lugar dos filhos, deixando de lado suas  próprias opiniões, experiências e valores, para entrar no mundo particular de  vivências e assim, compreender as necessidades dos filhos. Nesse contexto  relacional, pais e filhos se comunicam sem reservas, com a confiança de serem  compreendidos e respeitados um pelo outro. Desse modo, o contato e a troca  de experiências e de ideias entre eles se torna plena, contribuindo para que um  aprenda com o outro, o que favorece o enriquecimento e o crescimento da  relação e das partes envolvidas.  

Posso, então, afirmar que os fatores que levam pais e filhos a não conseguirem  estabelecer um contato pleno e dialógico entre eles estão relacionados à  interrupção da expressão aberta de sentimentos e ideias, projetando um no  outro as dificuldades e necessidades particulares de cada um, exigindo que o  outro (pai e filho) seja ou faça exatamente como é esperado ou desejado.

A esse respeito, abre-se um fértil horizonte de pesquisas sobre a luta de poder  existente entre pais e filhos adolescentes; os pais querem impor suas ideias e  valores, os filhos querem o direito de ser eles mesmos, diferentes de seus pais,  ou descobrir suas verdadeiras identidades por meio da oposição a eles.

Portanto, diante dessa discussão teórico-clínica levantada anteriormente,  percebo que ainda há muito a ser estudado em Gestalt-terapia sobre a relação  entre pais e filhos adolescentes, e sugiro que sejam realizadas novas  pesquisas acerca desse tema.

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Endereço para correspondência

Rosimere Viana Barbosa da Silva

E-mail: rosimereviana16@gmail.com

Recebido em: 04/03/2014

Aprovado em: 14/05/2015

NOTA

Rosimere Viana Barbosa da Silva:  

Psicóloga clínica, atendimento de crianças, adolescentes e adultos. Psicóloga  da Secretaria Municipal de Educação de Luziânia. Especialista em Gestalt  Terapia pelo Instituto de Gestalt-Terapia de Brasília – IGTB.

Revista IGT na Rede, v. 12, nº 22, 2015, p.53-66 DOI 10.5281/zenodo.15048595

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526