ARTIGO

A Gestalt-terapia e as relações de poder: um diálogo possível The Gestalt-therapy and the power relationships: a possible dialog Israel Ferraz de Souza

RESUMO

A noção de indivíduo e sociedade está correlacionada de tal forma que se torna  impossível ensaiar qualquer aproximação sem a consideração de ambos.  Assim como a teoria do self da Gestalt-Terapia propõe uma análise não  dicotomizada entre o organismo e seu ambiente, a proposta foucaultiana de  análise das relações sociais enquanto relações de poder possibilita a  concepção de como os corpos são influenciados pela rede de poder e também  a influenciam. O estabelecimento de uma intersecção entre os estratégicos  dispositivos biopolíticos e o dinâmico sistema self permite a problematização da  maneira pela qual a produção do saber, da noção de outro social e de indivíduo  se dá nas relações de poder. A neurose aparece como uma forma de  ajustamento político, tanto de submissão, quanto de resistência ao biopoder; a  proposta de intervenção gestal-terapêutica surge como possibilidade de  acolhimento dos “contradiscursos” que se dão no sistema self e,  consequentemente, nas relações de poder.

Palavra-chave: Gestalt-Terapia; self; relações de poder; outro social; neurose.

ABSTRACT

The notion of individual and society are correlated such that it becomes  impossible to seek any approach without the consideration of both. Just as the  theory of self in Gestalt-Therapy proposes a non-dichotomized analysis  between the organism and its environment, the foucauldian proposal of analysis  of social relations as power relationships enables the conception of how bodies  are influenced by the power network and also influence it. The establishment of  an intersection between the strategic biopolitical devices and the dynamic  system self allows the problematization of the way through which the production  of knowledge, the notion of the social other and of the individual arises in the  power relationships. Neurosis appears as a form of political adjustment of both  submission and resistance to the biopower; the gestalt-therapeutic proposal of  intervention emerges as a possibility of giving shelter to the “counter discourses” that occur in the system self and therefore in the power  relationships. 

 

Keywords: Gestalt-Therapy; self; power relationships; social other; neurosis.

1 – INTRODUÇÃO

É indispensável, sempre que se ensaia qualquer aproximação da concepção  de indivíduo, para que a totalidade do que é visado não se restrinja à abstração  empírica atual, partir da concepção não dicotomizada do que aparece como  figura (indivíduo aqui e agora) sendo sustentado por um fundo de vivências  intersubjetivas passadas que cria a possibilidade da emergência da figura.

Por esse motivo a Gestalt-Terapia enquanto uma proposta clínica trabalha com  o conceito de um sistema self que considera a primazia relacional do  organismo e seu ambiente, o que permite a concepção abstrata de indivíduo  em sua espontaneidade processual sempre engajada na totalidade da  experiência transcendental do campo “organismo-ambiente”.

A proposta de Foucault (2008) de analisar todas as relações sociais, os  saberes constituídos e até a própria concepção de indivíduo a partir da  perspectiva do poder enquanto ação abre a possibilidade de um diálogo entre a  compreensão clínica gestalt-terapêutica e sua percepção das relações de  poder que perpassam a rede social.

Apesar dessa possibilidade de diálogo, este ainda é pouco explorado na  Gestalt-Terapia talvez pelas incongruências teóricas que um encontro, sem os  necessários ajustes, entre a genealogia foucaultiana e a fenomenologia  gestáltica poderia acarretar; a construção deste cenário mostra-se, portanto,  como uma possibilidade válida e enriquecedora no que diz respeito à  ampliação da compreensão da dinâmica indivíduo-sociedade.

Este artigo se propõe a ser uma revisão bibliográfica de autores e obras que  viabilizam a exploração da possibilidade de um diálogo coerente, para que a  intersecção entre a compreensão gestalt-terapêutica da teoria do self com a  noção das relações intersubjetivas enquanto relações de poder na rede social  

seja possível a partir de uma perspectiva fenomenológica. Para que esse  objetivo seja atingido pretende-se problematizar as relações de poder com a  produção do saber e com a produção da noção de indivíduo; considerar a  biopolítica e sua relação com o aliciamento do outro social; o próprio processo  de reificação do outro social à noção de indivíduo; a neurose como um  ajustamento de articulação política e a proposta gestalt-terapêutica de  acolhimento do que, tanto na dimensão macro (rede social), quanto na  dimensão micro (sistema self) aparece enquanto “contradiscurso”, “estranho”.

2 – GESTALT-TERAPIA E A TEORIA DO SELF: UMA BREVE REVISÃO  TEÓRICA

2.1 – Noção de campo organismo-ambiente como uma totalidade

O conceito de figura/fundo de Rubin do qual a Gestalt-Terapia se serviu  entende “figura” como o dado material que, no ato de visar, aparece como uma  unidade de sentido; e “fundo” como a ocorrência intuitiva de um campo de

presença de perfis sustentadores da unidade de sentido que não são  experimentados materialmente (MULLER-GRANZOTTO e MULLER GRANZOTTO, 2007). Quando visualizo um cubo, por exemplo, caso a figura  pudesse ser dada de maneira desconectada de seu fundo, teria apenas o dado  atual; ou seja, a percepção visual de uma superfície retangular ou, no máximo,  de três superfícies retangulares articuladas; porém, junto com a percepção  meramente visual, co-dados inatuais, ou seja, dados retidos de outras  experiências se doam de maneira a me permitir formar uma unidade presuntiva  e, mesmo sem poder ver suas seis faces ao mesmo tempo, posso intuir o cubo  em sua totalidade.

Toda investigação, independentemente de qual seja o objeto, deve partir da  premissa de que a unidade de sentido formada por aquilo que é visado não se  resume puramente à informação empírica atual, mas a uma infinidade de co dados inatuais que, mesmo não aparecendo na atualidade, possibilitam que o  objeto-todo não seja reduzido a uma de suas partes (ao que se vê). Por esse  motivo (PERLS et al., 1997) atentam-se à divisão neurótica entre indivíduo e  sociedade e apontam a necessidade de que toda análise biológica, psicológica  ou sociológica considere a primazia relacional do organismo e seu ambiente  formando algo uno que chamam de “campo organismo-ambiente”. Em um  exemplo simplificado, quando se martela o dedo, o dedo dolorido obviamente  não é meramente organismo, mas um todo dinâmico atual resultado da  interação indissociável do organismo (dedo) e ambiente (martelo).

A verdade é que nas aproximações científicas em que se tem o organismo  como figura como, por exemplo, nas clínicas psicológicas de maneira geral,  pode-se tornar tentador perder a awareness do que de ambiental se tem como  fundo na constituição do organismo enquanto tal. Da mesma forma, nas  aproximações científicas em que se tem o social como figura como, por  exemplo, na sociologia, pode-se tornar tentador perder a awareness do que de  “individual” se tem como fundo na constituição da sociedade enquanto tal.

Ora, em uma investigação gestáltica não reducionista não poderia ser  diferente; seja ela uma análise do campo organismo-ambiente ou do campo  indivíduo-sociedade não se pode perder de vista a existência, não de duas  unidades em relação, embora possa ser considerada a partir de dois pontos de  vista diferentes, mas de uma configuração indivisível.

Entende-se, sob a orientação dos criadores da Gestalt-Terapia Perls et. al.  (1997, p. 48), que contato é “achar e fazer a solução vindoura”; ou seja, toda a  experiência de contato é um ajustamento criativo, uma totalidade processual  em que uma figura de interesse é formada/elegida sustentada pelo fundo  campo organismo-ambiente ou campo de presença que engloba um horizonte  de passado (achar), um horizonte atual (fazer) e um horizonte de futuro  (solução vindoura). A fronteira de contato seria o “onde-quando” o contato  acontece, ou seja, na interação de orientação espaço-temporal que se dá no  campo organismo-ambiente.

É importante, para podermos articular a interação organismo-ambiente e a  análise da dimensão social e da dimensão individual que aqui pretendemos  apresentar sob uma perspectiva não dicotomizada, ou seja, gestáltica,  entendermos o que Perls et al. (1997) vislumbraram quando criaram a teoria do  self sob uma orientação fenomenológica.

2.2 – Teoria do self

O sistema self que aqui se apresenta não está reduzido ao organismo; é  justamente a unidade sintética do campo organismo-ambiente, o sistema de  contatos, “a fronteira de contato em funcionamento; sua atividade é formar  figuras e fundos” (PERLS et al., 1997, p. 49). Este, orientado pela  compreensão fenomenológica de Husserl, não se resume a uma relação  indissociável entre um organismo e um ambiente físicos/naturais (atuais), mas  envolve a consideração de uma dimensão “transcendental” (inatual) do campo  organismo-ambiente.  

O sistema self é visto “como a função de contatar o presente transiente  concreto” (PERLS et al., 1997, p. 177). É um processo temporal e existe onde  quer que haja uma interação de fronteira; e os autores Müller-Granzotto e  Müller-Granzotto (2007) entendem que é graças à apreensão da temporalidade  imanente aos processos intencionais que se pode compreender o fundamento  dinâmico das totalidades de experiência enquanto estruturas unificadas em  constante transformação nas experiências de contato.

O sistema self é um processo espontâneo que não é abarcado pela  consciência estabelecida de si próprio, pois um “si próprio” particular para o  sistema self é apenas uma abstração (PERLS et al., 1997); o que se entende  como “Eu” é apenas uma parcialidade de uma configuração maior. Embora  seja eu quem “acho” e “faço a solução vindoura”, quando o contato acontece,  os co-dados que se doam como “solução vindoura” e como o que “acho” são  campo, dados públicos, generalidades, inatualidades que só parecem se  individualizar na atualização metabólica desse pretenso eu; essa atualização  de uma generalidade em uma particularidade é pura abstração de um  complexo processo de assimilação e crescimento que nunca deixa de  acontecer no campo organismo-ambiente. Este campo organismo-ambiente  onde se articula o sistema self não se resume, portanto, a um domínio  puramente físico, mas o transcende a ponto de a noção de “consciência  transcendental” de Husserl e a noção de self serem vistas pelos autores  (PERLS et al., 1997; MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO, 2007)  como equivalentes.  

O self é, portanto, a espontaneidade de nós mesmos sempre engajados na  totalidade da experiência campo organismo-ambiente. Nele podemos nos  experimentar de três formas: como seres anônimos (na awareness sensorial),  como indivíduos (na awareness motora) e como realidades objetivas (na  awareness reflexiva) (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO, 2007,  2012a).

Essas três formas de aproximação da totalidade experiencial são vistas como  estruturas parciais, funções em constante dinamismo no presente transiente.

A função id é a dimensão sensitiva; abarca aquilo que não se representa como  conteúdo, mas como hábito. É um fundo de excitamentos, “sentimentos  incipientes que conectam o organismo e o ambiente” (PERLS et al., 1997, p.  184). É por meio desta função que se podem atualizar as formas retidas das  experiências anteriores no aqui e agora. Apresenta-se como uma generalidade  indeterminada e impessoal que não comporta interpretações, pois só se  inscreve como uma ausência, um vazio co-presente. É a integração sensorial  do sistema self no campo organismo-ambiente (MÜLLER-GRANZOTTO e  MÜLLER-GRANZOTTO, 2007).

A função ego é a que lida com as identificações e alienações do que se  apresenta como possibilidade. É considerando esta função que se tem a  impressão de que existe um agente essencial extrínseco ao campo; o que só  acontece quando se considera abstratamente o ego como dimensão  introspectiva, estática e destacada das outras duas funções do self (PERLS et  al., 1997). Tomando um exemplo de Perls (2002), a função dos pulmões é a  troca de gases entre o organismo e o ambiente; embora tanto os pulmões  quanto os gases sejam concretos, a função é abstrata (o que não atenua sua  realidade). Da mesma forma o ego (que é insubstancial) é a função “ato” do  sistema self; e, enquanto vivência de contato, quando descobre por meio de  um ato de consciência a diferença entre o agente e o meio, é o próprio “ego  quem descobre e inventa a diferença” (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER GRANZOTTO, 2007, p. 218).

“A função personalidade é o sistema de atitudes adotadas nas relações  interpessoais” (PERLS et al., 1997, p. 187); é a função capaz de representar as  vivências de contato e, a partir destas representações, lograr uma identidade  objetiva. Como essas representações sempre se engendram na relação, é uma  generalidade determinada que vale intersubjetivamente. É a integração  linguisticamente representada do sistema self no campo organismo-ambiente  (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO, 2007); a “réplica verbal do  self” (PERLS et al., 1997, p. 188). É essa dimensão que abarca os valores  morais e éticos, os conhecimentos científicos, a linguagem; ou seja, tudo o que  pode ser representado reflexivamente diz respeito a essa função do self.

O sistema self é, portanto, uma dinâmica configuração criadora sempre aqui e  agora que abarca horizontes inatuais; ou seja, o dado atual (figura) sempre em  processo de transcendência pela atualização dos co-dados (fundo). Sua  indivisibilidade é anterior à dicotomia organismo/ambiente; por isso, a unidade  interna desta totalidade subjetiva não se restringe à noção de psiquismo  (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO, 2007).

Mas qual seria a gênese dos elementos de que a função id e personalidade se  “nutrem”? Por que motivo o sistema self pode atualizar, no corpo de atos (ego),  formas/hábitos (id) e conteúdos/saberes (personalidade)?

Se fosse possível analisar a relação do organismo vinculado a um ambiente  que abrangesse somente objetos, poderia se tornar tentador entender o  processo de transcendência do movimento de ajustamento criador desse  organismo como fruto das doações inatuais de suas próprias vivências  individuais dissolvidas no presente transiente. Acontece que as relações são  sempre entre semelhantes e a ação, conforme a concepção de ação de Arendt  (2010, p. 26), com a qual concordamos, “[...] não pode sequer ser imaginada  fora da sociedade dos homens”. Logo, mesmo que não haja duas pessoas  engajadas na atualidade, o próprio fundo que se atualiza na relação traz os  rastros e os saberes produzidos nas relações intersubjetivas passadas e coloca  em suspenso a individualidade desses fundos. A esse respeito, Foucault (2008,  p. 34) coloca que o que tentamos reunir sob a forma de uma identidade  individual “é apenas uma paródia: o plural a habita”.

Os processos que suprem tanto a função personalidade quanto a função id  são, portanto, intersubjetivos. Nessa intersubjetividade da experiência, quando  a situação “A” dá lugar à situação “B”, a “aura” - que segundo o conceito de  Benjamin (2012a) seria um “tecido fino” de espaço e tempo de aparição única  que, quando se desfaz, perde sua totalidade - da primeira situação aqui e  agora é destruída. Forma e conteúdo da situação A se desprendem; o que é  retido da experiência como forma retorna à função id enquanto hábitos  sensomotores ou linguageiros, como uma forma de orientação autônoma,  desencadeando o efeito de excitamento. Não tem um “sentido” justamente por  ser o que resta do desligamento deste; é uma espécie de “falta” que, ao se  atualizar é sentida como uma presença. O que é retido da experiência como  conteúdo retorna à função personalidade enquanto dados linguísticos  relacionados à cultura, protocolos sociais, identidades, valores e tudo mais que  tenha sentido linguisticamente exprimível como a verdade do “outro social”  (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO, 2007, 2012a).

3 - IDEIAS FOUCAULTIANAS A RESPEITO DAS RELAÇÕES DE PODER SOB A LUZ DA TEORIA DO SELF

3.1 – As relações intersubjetivas enquanto relações de poder

Com a compreensão de que a dinamização do sistema self se dá nas relações  intersubjetivas, abordemos como essas relações poderiam ser entendidas sob  um ponto de vista político.

Para Foucault (2008), todas as relações são sempre relações de poder. Este  não é algo que se possui, mas que se exerce; não é um objeto que se  concentra nas mãos de uma pessoa ou de uma instituição, mas se dá na  função dinâmica do encontro de heterogeneidades; não se aplica aos  indivíduos como se fossem alvos inertes, mas passa por eles como centros de  transmissão envolvendo-os em uma espécie de teia social, uma rede fluida por  onde a multiplicidade das relações de força escoa. Arendt (2010) igualmente só  admite a existência do poder quando os homens agem juntos e entende que ele desaparece assim que se dispersam. Logo, para que o poder exista só é  necessário que haja convivência contínua entre os homens.

É importante ressaltar que essa rede de relações, proposta por Foucault  (2008), na qual o poder se exerce, não é um desencadeamento que tem sua  gênese no aparelho do estado, na lógica capitalista ou nas infra e  superestruturas sociais. Ou seja, não existe um centro específico do qual  emana todo o poder. Pelo contrário, o poder é exercido de forma muito mais  sutil, ramificada e ambígua do que se possa parecer, já que cada sujeito  sempre opera certo poder e, por isso, o veicula na rede.

Como qualquer ação se dá entre seres capazes de reação, esta, além de ser  uma resposta, é sempre outra ação que segue seu curso na rede, afetando os  que nela se articulam (ARENDT, 2010). Há, portanto, a necessidade de uma  análise ascendente do poder; ou seja, de como este se dá nas extremidades,  onde as intenções são pontuais. Nessas relações capilares é que acontece o  chamado processo de “sobredeterminação funcional”, no qual “cada efeito,  positivo ou negativo, desejado ou não, estabelece uma relação de ressonância  ou de contradição com os outros, e exige uma rearticulação, um reajustamento  dos elementos heterogêneos que surgem dispersamente” (FOUCAULT, 2008,  p. 245).

Essa espécie de governo de ninguém (anônimo), ainda assim evidencia certa  generalização de algumas lógicas sociais que traria a noção de um suposto  interesse único. Este não denunciaria, entretanto, a existência de uma mão  invisível que teria toda a rede de poder sob controle (invenção que advém mais  de uma perplexidade mental do que de qualquer experiência real); mas  demonstraria como, pela transmissão que se dá nas relações de força, os  interesses se impõem e transitam, reificando-se em “inter-esses”. Ou seja, o  poder, na forma como aqui apresentamos, não deixa de governar por ter  perdido sua personalidade (ARENDT, 2010; FOUCAULT, 2008).

3.2 – As relações de poder e a produção do saber

Não há verdade sem poder assim como não há saber neutro. Todo saber é  político e toda produção de verdade se dá nas relações de poder (FOUCAULT,  2008). Quando se olha para o passado, ou melhor, para o que foi contado dele,  Benjamin (2012b) denuncia a tendência que os historiadores têm de reconstruir  os eventos a partir da ótica do vencedor e de silenciar a dos vencidos. Isso  aconteceria porque os “detentores do poder” seriam os sucessores dos  vencedores de outrora.

O discurso científico é um dos que mais se investe de uma suposta  neutralidade na busca da verdade; segundo Foucault (2008) o cientista  produtor da verdade toma os cuidados necessários para que o seu  “desaparecimento” na estrutura de conhecimento seja possível. Contudo, o  cientista, ao produzir qualquer saber, não pode desnudar-se de suas pulsões  (função id) e dos saberes pré-concebidos (função personalidade) ambos  politicamente (intersubjetivamente) engendrados.

Ao analisarmos discursos científicos de saberes como o da medicina e da  psiquiatria que, ao longo da história, tem produzido a verdade da doença e da  loucura, é importante verificar que, enquanto prática, eles estiveram sempre  vinculados “a uma série de instituições, de exigências econômicas imediatas e  de urgências políticas de regulamentações sociais” (FOUCAULT, 2008, p. 1).  Por motivos como esse Foucault (2008, p. 118) “interroga as relações entre as  estruturas econômicas e políticas de nossa sociedade e o conhecimento, não  em seus conteúdos falsos ou verdadeiros, mas em suas funções de poder saber”.

O saber da psiquiatria sobre os “transtornos mentais”, por exemplo, tem sido  produzido através de inúmeras pesquisas científicas, direta ou indiretamente  vinculadas à indústria farmacêutica, que têm estudado os transtornos mentais e  comprovado a eficácia do tratamento farmacológico de cada um deles. A  medicalização dos sentimentos, principalmente dos “negativos” (tristeza, por  exemplo), entretanto, além de possibilitar o estabelecimento de um rentável  mercado consumidor, denuncia a estratégia de reparação das “máquinas  quebradas” para que possam voltar o mais rápido possível a cumprir o seu  papel social (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO, 2012a).

Benjamin (1987) aborda, de maneira indireta, a questão de o saber ser sempre  político quando ressalta que o escritor burguês, mesmo sem perceber, trabalha  a serviço de certos interesses de classe; da mesma forma, o escritor  progressista teria sua atividade orientada pelo que fosse útil ao proletariado.

Embora se deva reconhecer, segundo Arendt (2010), a impossibilidade da  apreensão da verdade como algo dado e desvelado, mas sempre como algo  comprometido com a realidade política na qual foi concebida, Foucault (2008)  se atenta ao fato de que a verdade é sempre deste mundo e que cada  sociedade gera seu regime de verdade, acolhe determinados tipos de  discursos e os faz funcionar como verdadeiros; ou seja, já que o homem não  pode encontrar uma verdade anterior às implicações relacionais da ação e do  discurso, pode, ao menos, conhecer uma verdade construída na ação (poder) e  no discurso (saber) (FOUCAULT, 2008; ARENDT, 2010).  

Impõe-se uma necessidade de migração das questões sobre “o que” e “por  que” para a questão de “como” determinada verdade veio a existir; “no lugar do  conceito do Ser, encontramos o conceito de Processo” (ARENDT, 2010, p.  370).  

As verdades políticas que se apresentam como possibilidades socialmente  funcionais são os dados de realidade a partir dos quais se constituem a função  personalidade (FOUCAULT, 2008; MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER GRANZOTTO, 2012a). Ninguém, em seu isolamento, produz valores ou se  importa com eles (ARENDT, 2010). Os dados sociais formam, portanto, uma  configuração valorativa à qual nos alienamos no intuito de nos definirmos como  seres sociais, lograr uma identidade e um lugar social. Esse processo nos  possibilita o confortável sentimento de pertencimento, dá um “chão”, ampara, reconhece e incumbe responsabilidades ao que se aliena (MÜLLER GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO, 2007, 2012a, 2012b). É só por meio  desse espaço de convivência (político/intersubjetivo) que se pode estabelecer a  realidade tanto do mundo circundante, quanto do “si-mesmo próprio”, de uma  suposta individualidade (ARENDT, 2010).

3.3 – A noção de indivíduo como produção do poder e do saber

É comum considerar o poder, principalmente o que reflete os ideais  capitalistas, como algo que descaracteriza e massifica, de forma que a  “singularidade anterior” ou “essência” de cada indivíduo seria de alguma forma  dominada e sufocada. Foucault (2008, p. 161-162) acredita que “o indivíduo,  com suas características, sua identidade, fixado a si mesmo, é o produto de  uma relação de poder que se exerce sobre os corpos, multiplicidades,  movimentos, desejos, forças”.

Arendt (2010), assim como Foucault (2008), traz a noção de uma “teia social”  de onde a percepção de individualidade se tornaria possível. Ela nos atenta ao  fato de que quando nos perguntam “quem” alguém é, acabamos por apresentar  uma descrição das características que a pessoa compartilha com seus  semelhantes; descrevemos um personagem.

Os autores da teoria do self (PERLS et al., 1997) buscam a análise de um  sistema não dicotomizado em que a ideia de um indivíduo anterior se  dissolveria na implicação da totalidade da experiência transcendental do campo  organismo-ambiente. A noção que temos de nós mesmos é sempre uma  abstração parcial encontrada e produzida pela função ato (ego) na atualidade  das relações de poder e disponibilizada à dimensão reflexiva do self (função  personalidade) como a representação linguística do outro social assimilado à  noção de “eu mesmo” (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO,  2007, 2012a).

Arendt (2010, p. 233) diz que “tanto o conteúdo específico como o significado  geral da ação e do discurso podem assumir várias formas de reificação”. Assim  sendo, a função personalidade pode ser vista como uma espécie de reificação  da ação e do discurso.

A atualidade da ação assim como a do discurso, que nada mais é que uma  forma de ação que faz uso de códigos linguísticos, nunca se dão no  isolamento. É por meio da qualidade reveladora da ação (poder) e do discurso  (saber), sempre no “espaço-entre”, que o “quem” (o agente) vai se desvelando  (FOUCAUL, 2008; ARENDT, 2010). O agente nunca conhece de antemão a  quem revela, pois essa identidade individual “está tão indissoluvelmente  vinculada ao fluxo vivo do agir e do falar que só pode ser representada e  ‘reificada’ mediante uma espécie de repetição” (ARENDT, 2010, p. 234).

Nas relações políticas, de acordo com Foucault (2008), se dá o nascimento de  tudo aquilo que existe e tem valor para nós; na raiz do que conhecemos e  somos está o poder. Portanto, da mesma forma que não há saber desconectado das relações de poder, não há individualidade que não seja  social, ou subjetividade que não seja intersubjetiva, sendo assim, politicamente  engendrada.

3.4 – O biopoder e o aliciamento do outro social

Se há relações de força é porque essas relações não são unilaterais, ou seja,  envolvem inúmeras vontades e intenções conflitantes (ARENDT, 2010).  Existem divergências e lutas dentro da própria rede de poder (FOUCAULT,  2008). Mas se o exercício do poder se resumisse a acidentes aleatórios ou  descontinuidades provenientes das tensões nas relações díspares, viveríamos  apenas em um entremeado de emergências sociais caóticas. Ao contrário, a  teia social dinamiza-se em mecanismos de exercício de poder de forma a  atingir uma generalização de determinadas formas disciplinares de controle  que visam à produção/utilização de comportamentos e discursos claramente  econômica e politicamente “nutritivos”. Ou seja, embora as tensões sejam  resultado do encontro de interesses divergentes, ainda assim, parece que a  forma como as relações sociais se articulam acabam se mostrando, segundo  Benjamim (1987), comprometidas com as relações de produção ou, de acordo  com Müller-Granzotto (e MÜLLER-GRANZOTTO, 2012a), alienadas no  produtivismo consumista.

Essa biopolítica, ou seja, o controle que a sociedade capitalista investiu nos  corpos não se dá porque o poder está concentrado em uma instituição, classe  ou pessoa (FOUCAULT, 2008); pelo contrário, o poder está tão “des concentrado” que, na busca de um lugar social, os corpos acabam por se  sujeitar a interesses de um outro: o “outro social”. Essas sujeições, que se dão  nas relações de poder, acabam por denunciar a forma com que esses padrões  sociais aparentemente se cristalizam. Ora, mas quem seria esse outro social?  Poderia ele ser comparado a uma mão invisível na história, conceito acolhido  por Benjamim (1987, 2012a, 2012b), no entanto tão criticado por Foucault  (2008; ARENDT, 2010)?

Se entendermos a função personalidade como sempre socialmente  determinada, portanto, valendo intersubjetivamente como um “espelho social”,  pode-se dizer que a definição de outro social é análoga à de função  personalidade (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO, 2012b). As  relações de força, possibilitadas pela própria rede de poder, são as ações que  viabilizam a criação de uma função personalidade de validade intersubjetiva, ou  seja, a própria existência do outro social; este não como uma generalidade  estática de orientação das relações sociais, mas como generalidade dinâmica  que condiciona e é condicionado por elas; tanto abrange o processo de  “sobredeterminação funcional”, quanto viabiliza o “preenchimento estratégico”  nas próximas relações de poder (FOUCAULT, 2008; MÜLLER-GRANZOTTO e  MÜLLER-GRANZOTTO, 2012b).

Isso só é possível porque a biopolítica não se limita à sua função repressiva.  Se ela tivesse como estratégia agir somente por meio da censura, da exclusão,  do recalque; se fosse um “Super-ego” que se impusesse somente de forma  proibitiva, seria muito frágil. O que faz com que o poder enquanto disciplina seja aceito e se regulamente através da rede social é o fato de que ele não se  restringe a dizer não, mas produz coisas, discursos, proporciona prazer e  também viabiliza efeitos positivos tanto ao nível do saber quanto ao nível do  desejo (FOUCAULT, 2008).

O biopoder, portanto, é uma realidade estratégica que não tem interesse em  expulsar os homens da vida social ou de impedi-los de exercitar suas  atividades, mas sim de geri-las; controlar os corpos em suas ações,  aperfeiçoando-os e potencializando suas capacidades para utilizá-los ao  máximo (FOUCAULT, 2008). Benjamin (2012b, p. 15) já havia denunciado a  estratégia de aliciamento do outro social, que para ele era mera ferramenta  cruel voltada aos interesses da burguesia, ao dizer que “nada corrompeu mais  as classes trabalhadoras alemãs do que a ideia de que elas estavam  integradas na corrente dominante”.

Quanto mais os indivíduos se veem inseridos nos mecanismos de poder  disciplinares (alienados ao outro social), por deverem a própria condição de  indivíduos à biopolítica, menor é a capacidade de ações espontâneas (desvios,  resistência ou revolta) e maior sua docilidade e utilidade econômica e política.  Isso posto, a biopolítica não é somente a ação de reprimir os comportamentos,  mas a de produzi-los e normalizá-los; não tem o objetivo de descaracterizar o  indivíduo, mas justamente de o fabricar e se apresentar como possibilidade de  articulação dos hábitos, representações e desejos do indivíduo sempre  socialmente engendrados, comprometidos, portanto, com os interesses do  outro social (FOUCAULT, 2008; ARENDT, 2010; MÜLLER-GRANZOTTO e  MÜLLER-GRANZOTTO, 2012b).

3.5 – O outro social e sua reificação à noção de “eu mesmo”

Foucault aproveitou a noção do panopticon para explicar a forma com que os  mecanismos do poder disciplinar penetram nos corpos e nos comportamentos.  O panopticon, construção de estrutura circular e visível na periferia com uma  torre central que tudo vê, que poderia ser usado em prisões, hospícios,  escolas, etc., foi visto como uma inovação disciplinar. O objetivo era que nem  houvesse a necessidade de punição, mas que as pessoas sequer pudessem  “agir mal” de tão mergulhadas num “campo de visibilidade total em que a  opinião dos outros, o olhar dos outros, o discurso dos outros os impediria de  fazer o mal nocivo” (FOUCALT, 2008, p. 215-216). Acabava que o olhar  constante fazia com que cada prisioneiro, louco ou aluno “internalizasse” a  disciplina ou, a partir de uma perspectiva mais fenomenológica, se identificasse  com ela a ponto de observar a si mesmo; desse modo, cada um exerce a  vigilância sobre e contra si mesmo.

O olhar invisível exercido através da “internalização”, como no exemplo do  panopticon, interessa muito aos dispositivos disciplinares biopolíticos, segundo  Foucault (2008), pois permite que a disciplina seja articulada de maneira  contínua, com um custo relativamente baixo e suprime a possibilidade de  revoluções; o corpo (prisioneiro, louco ou aluno) que adquiriu a visão de quem olha já não pode mais reconhecê-la somente no outro, pois o outro social agora  é também “eu mesmo”.

É a disciplina biopolítica, sempre no “espaço-entre”, que produz o que “inter essa” (FOUCAUL, 2008; ARENDT, 2010). Não há como responsabilizar  alguém por uma emergência que sempre se produz no interstício; e são essas  estratégias anônimas que fazem com que não haja diferença de natureza entre  o poder exercido por um simples policial e pelo primeiro ministro (FOUCAULT,  2008).

Por meio dessa discreta reificação do outro social à noção do eu mesmo não é  mais somente o outro que quer que eu me aliene ao produtivismo consumista;  sou eu que entendo que tenho o direito de ser feliz e “livremente” decido me  alienar ao que me aparece como possibilidade. Para isso me disciplino,  administro meu tempo e meus comportamentos para que possa ser  socialmente bem sucedido, ou seja, estar satisfatoriamente apto a produzir e a  consumir (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO, 2012a). O  próprio “lugar social” se torna um bem de consumo; o status, a admiração  pública satisfazem as novas necessidades do corpo, são consumidos pela  vaidade assim como o alimento é consumido pela fome (ARENDT, 2010).

4 – NEUROSE COMO UM AJUSTAMENTO DE ARTICULAÇÃO POLÍTICA

As repercussões das relações de poder no sistema self são muitas. Entende-se  que nos ajustamentos de articulação política, onde a vulnerabilidade se  encontra na função ato (ego), diante da demanda por alienação do outro social  o self pode se ajustar de maneira antissocial – suprimindo o outro social  (função personalidade) e dando voz ao excitamento (função id) que se atualiza  enquanto hábito claramente confrontador ao outro demandante; pode se  ajustar de maneira banal – se omitindo tanto do que se apresenta enquanto  excitamento (id) quanto da demanda do outro social (personalidade), por  exemplo, nas adicções; ou pode se ajustar de maneira evitativa (neurose) – inibindo o que se apresenta enquanto hábito (id) em favor das representações  sociais/demandas do outro social (personalidade) (MÜLLER-GRANZOTTO e  MÜLLER-GRANZOTTO, 2007, 2012a). O que nos interessa nesse caso são os  ajustamentos evitativos, pois são eles que permitem que o poder transite  “fluidamente” pela rede social e que seus mecanismos biopolíticos se  consolidem.

4.1 – Evitação como forma de sujeição aos mecanismos  disciplinares

Os hábitos (id), assim como as representações (personalidade), são sempre de  valência intersubjetiva; ou seja, as ações dos corpos de atos (ego) estão  sempre apoiadas na transitividade dos hábitos sociais. A partir da vivência dos  processos de imitação e aprendizagem, as ações podem herdar dos hábitos  compartilhados intersubjetivamente uma orientação afetiva (id). Deve-se ficar  claro, portanto, que a neurose não descreve uma pessoa, um comportamento individual ou uma identidade (ninguém é neurótico a não ser em uma “rel-ação”  em que a evitação seja demandada) (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER GRANZOTTO, 2012a). A neurose é um ajustamento, uma forma de lidar com a  ambiguidade social, a ação de se evitar algo (hábito socialmente engendrado)  em favor da manutenção de um laço social (representação socialmente  engendrada) e, como coloca Arendt (2010, p. 235), a “ação jamais é possível  no isolamento”.

A neurose é a perda das funções de ato (ego) para uma fisiologia secundária  (id); “é a evitação do excitamento espontâneo e a limitação das excitações”  (PERLS et al., 1997, p.235). A neurose aparece sempre como uma forma de  apego a um evento ou eventos passados; de forma que a inibição deliberada  (ego) de um hábito (id), ao se repetir, acaba tornando-se ela própria, um hábito,  a saber, uma inibição reprimida (id). Independentemente da gênese de um  hábito inibitório (evento passado) estar aparentemente desconectada do evento  atual, esse hábito não se apresenta desvinculado da demanda atual por  alienação à verdade do outro social. (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER GRANZOTTO, 2007, 2012a).

As relações heterogêneas não nos permitem o reconhecimento/reencontro de  nós mesmos como totalidades coerentes, mas “introduzem” suas ambiguidades  no sistema self. A história, enquanto sequência de encontros ambíguos,  “dividirá nossos sentimentos; dramatizará nossos instintos; multiplicará nosso  corpo e o oporá a si mesmo [...] É que o saber não é feito para compreender,  ele é feito para cortar” (FOUCAULT, 2008, p. 27-28).

A ambiguidade dos múltiplos elementos distintos, que nenhum poder de  síntese domina, sempre presente nas relações de poder, faz com que a luta  não seja, de forma imediata, entre o proletariado e a burguesia, por exemplo. A  luta se dá em toda relação de poder e é o que constitui a noção de indivíduo.  Na neurose, a noção de indivíduo, que é forjada no conflito, produz a  impressão de algo que Foucault (2008, p. 257) chama de “sub-indivíduos” ao  descrever que “existe sempre algo em nós que luta contra outra coisa em nós”.  Analisando essa afirmação pode-se dizer que há sempre algo na função  personalidade que é conflitante com algo na função id e essa é a origem de  toda a ambiguidade neurótica (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER GRANZOTTO, 2012a).

No contexto das relações de poder, a sujeição (inibição deliberada do que se  apresenta como excitamento/hábito em favor da fruição dos mecanismos  disciplinares encarnados pelo outro social: o “corte do saber”) enquanto  escolha da função ato é uma forma de ajustamento socialmente funcional e  não pode ser considerada ainda neurose, embora não deixe de ser uma  evitação. O que acontece é que, ao se repetir, a própria sujeição deliberada  aos mecanismos disciplinares torna-se uma fisiologia secundária e começa a  se apresentar como hábito (concorrente à autonomia da função ato dividindo a  ação individual na atualidade). Ou seja, a função ato perde para a função id a  capacidade de decidir quando é pertinente se sujeitar. A disciplina enquanto  forma de orientação anônima não é mais uma escolha da minha individualidade enquanto ato (ego), nem do outro social (personalidade), mas de “outrem” (id),  e acaba, quando demandada, impedindo que o hábito espontâneo se atualize;  o que chega para a função ato é apenas o resultado desse conflito: a  ansiedade; e é somente com esse resultado da sujeição habitual em detrimento  ao hábito espontâneo que a função ato pode operar (PERLS et al., 1997;  FOUCAULT, 2008; MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO, 2012a).

4.2 – A cristalização da forma de sujeição como tentativa de  resistência ao biopoder

A noção de outro social enquanto função personalidade está continuamente se  atualizando em cada relação de poder pelo processo de sobredeterminação  funcional. Isso faz com que a própria ação de se sujeitar aos interesses do  outro social, para continuar sendo formas de ajustamento funcionais, tenha de  ser constantemente atualizada. Como já vimos que o ajustamento neurótico é  não só uma forma de apego ao passado, mas um apego ao estilo de manter-se  apegado, ele aparece também como uma forma sôfrega de resistência à  demanda atual por alienação. O sujeito que se apresenta desorientado,  dividido, inseguro, incapaz ou até doente diante do envolvimento em um laço  social conflituoso na atualidade das relações de poder, tenta, embora muitas  vezes inconscientemente, manipular os sujeitos que encarnam o outro social  na relação a assumirem a responsabilidade/culpa pela sua ansiedade  (FOUCAULT, 2008; MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO,  2012a).

Todos esses acontecimentos se inscrevem nos corpos envolvidos na situação  conflituosa. Assim como Foucault (2008) coloca a história (sequência de  ambíguas relações de poder) como algo que marca, divide e arruína o corpo  (lugar de dissociação da noção eu), a ansiedade (atualização corporal da  ambiguidade) que transita pelos corpos por meio da manipulação é o que os  faz sofrer (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO, 2012a).  

Entende-se que a partir do momento em que o sofrimento – decorrente da ação  em um laço social ambíguo e da internalização dessa ambiguidade no sistema  self – apresenta-se com uma função/utilidade manipulatória, ou seja, traz a  possibilidade de suspensão temporária do peso das demandas do outro social  por alienação, deve-se compreender a neurose também como uma forma de  rebeldia, embora não efetiva (pois não consegue remover o outro social de sua  posição de poder), ainda assim criativa (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER GRANZOTTO, 2012a).

As queixas neuróticas são sempre direcionadas a um “outro” que não conseguem satisfazer ou suportar. Sempre se queixam de personagens (pai,  mãe, filhos, chefes, cônjuges, inclusive o “outro-ele-próprio”) que encarnam os  interesses do outro social. Essa estratégia de transferência da ansiedade  causada pela ambiguidade instaura uma espécie de jogo manipulatório onde os  envolvidos na relação se veem enredados em um grande teatro e nele “atuam”  como se, agindo assim, a existência da ambiguidade pudesse ser desconsiderada (FOUCAULT, 2008; MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER GRANZOTTO, 2012a).

Acontece que, como Foucault (2008) coloca, a neurose é um dentre os muitos  fenômenos já apropriados pelos mecanismos biopolíticos de controle. Não  demora muito para o sujeito que manipula, atua e realmente sofre por conta  desses conflitos (a ponto de conseguir suspender temporariamente a demanda  do outro social) ser submetido a uma série de dispositivos de saber científicos  e religiosos, por exemplo, que em última análise logram reinseri-lo na lógica  que o adoeceu (realiená-lo aos interesses do outro social) (FOUCAULT, 2008;  MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO, 2012a).

Quando o ajustamento evitavivo, enquanto forma sôfrega de resistência, não  surte efeito e o sujeito é forçado a se submeter a dispositivos de saber aos  quais não necessariamente se identifica, entende-se que este já não faz um  ajustamento de articulação política, mas está em sofrimento político (MÜLLER GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO, 2012b).

5 – O GESTALT-TERAPEUTA COMO POSSIBILIDADE DE ACOLHIMENTO  DOS “CONTRADISCURSOS” NO SISTEMA SELF

Foucault faz uma comparação entre o que ele chama de intelectual universal e  o específico. O intelectual universal seria aquele que se vê no “direito de falar  enquanto dono de verdade e de justiça” (FOUCAULT, 2008, p. 8); o escritor  genial que direciona seu olhar claro, objetivo e neutro à obscura coletividade  proletariada, por exemplo, e entende “que é portador de significações e de  valores em que todos podem se reconhecer” (FOUCUALT, 2008, p. 11). O  intelectual específico seria aquele que não se contenta em ficar atrás da  “caneta” e seu engajamento o permite “uma consciência muito mais concreta e  imediata das lutas” (FOUCAULT, 2008, p. 9); este não se propõe a aconselhar  o proletariado ao que fazer; oferece apenas os instrumentos de análise, por  entender que a “aura” da verdade está apenas no calor das relações de poder;  portanto, “cabe àqueles que se batem e se debatem encontrar, eles mesmos, o  projeto, as táticas, os alvos de que necessitam” (FOUCAULT, 2008, p. 151).

Foucault, ao repensar o papel do intelectual, entende que ele não deva ser o  porta-voz ou o “veículo” da verdade, mas somente aquele que cria  oportunidades para que os contradiscursos sejam ouvidos (FOUCAULT, 2008;  MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO, 2012b).

Embora seja improvável que um gestalt-terapeuta, consciente das  repercussões das relações de poder no sistema self, queira se intitular um  intelectual específico (até pela conotação de saber/poder que a palavra  “intelectual” traz) existe certa semelhança entre a postura do intelectual  específico em relação à comunidade em que está engajado e a postura do  gestalt-terapeuta em relação ao seu consulente.

Diante de tudo o que já foi discutido, já não faz mais sentido que o terapeuta  gestáltico realize uma clínica enquanto administração de um saber (klinikós)  impondo, assim como o intelectual universal de Foucault (2008), qualquer  sentido ou verdade a respeito do que trouxe o consulente à terapia; não se  propõe, como em muitas psicoterapias, a estabelecer uma prática sugestiva e  reabilitadora orientada por metas ou ideais (MÜLLER-GRANZOTTO e  MÜLLER-GRANZOTTO, 2012a).

Também não faz mais sentido que o terapeuta desenvolva um trabalho com um  enfoque na “cura” ou na eliminação do sofrimento, pois por trás do ideal de vida  sã e sem sofrimento está uma forte demanda de alienação no produtivismo  consumista. O ideal introduz uma “falta” que impele à alienação das vidas,  incluindo do próprio sofrimento, em interesses alheios; esses mecanismos,  longe de preencherem a falta que introduzem, acabam apenas se  retroalimentando no sofrimento que geram (MÜLLER-GRANZOTTO e  MÜLLER-GRANZOTTO, 2012a). Ou seja, a demanda por felicidade e a  disseminação da infelicidade “são alguns dos mais persuasivos sintomas de  que já começamos a viver em uma sociedade de trabalho que não tem  suficiente trabalho para mantê-la contente” (ARENDT, 2010, p. 166).  

A teoria do self permite a identificação de pelo menos três formas de se  aproximar de uma experiência intersubjetiva: uma dimensão antropológica  (personalidade), que abarca os recursos sociais que se doam à experiência;  uma dimensão ética (id), que leva em consideração uma gênese de orientação  afetiva que também se doa à experiência; e uma dimensão política (ego) que  diz respeito à própria atualização das dimensões anteriores no ato que se  circunscreve nas relações de poder. Embora essas dimensões sejam  inseparáveis, pois são apenas três pontos de vista diferentes de uma mesma  experiência, não há uma síntese harmoniosa entre elas; ou seja, as dimensões  implicam uma indivisão sem síntese e, justamente por isso, o sistema self não  é estático, mas se dinamiza, ajustando-se criativamente a cada experiência de  contato (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO, 2012a).

Entende-se que a mera internalização dos mecanismos disciplinares no  sistema self não faz com que os elementos inibidos ou reprimidos  desapareçam; a disciplina só os tira o direito de cidadania social, embora sejam  socialmente engendrados. A biopolítica cria, transforma e dá lugar social aos  elementos da função id segundo seus critérios de adequação/utilidade político econômica. Há, segundo Arendt (2010), uma pré-indisposição da rede social  em abrigar o irrelevante. Porém, a pertinência de que os excitamentos  espontâneos tenham “voz” no sistema self, assim como a de que os  contradiscursos sejam ouvidos na sociedade em que foram gerados – semelhante à legitimidade que Arendt (2010; BENJAMIN, 2012a) dão à fruição  artística comprometida, não com uma utilidade política, mas apenas com o  gozo do ritual – se exprime na possibilidade de um self mais integrado à sua  impossibilidade de síntese e a possibilidade de uma sociedade mais implicada  à impossibilidade de um discurso legitimamente único.

Segundo o princípio de utilidade enquanto meio para um fim que, por também  ser meio para outro fim, movimenta a teia social em prol da retroalimentação de  uma falta introduzida pela própria busca de preenchimento da falta anterior,  não há lugar para a atualidade enquanto fim, mas sempre somente enquanto  meio. O fenômeno de um self integrado à sua realidade de indivisão sem  síntese encontra-se totalmente fora da categoria de meios e fins e poderia ser  visto, assim como na fruição da expressão artística, como uma das poucas  atualidades sociais cujo fim está em si mesmo; uma vez que “os meios de  alcançar o fim já seriam o fim; e esse “fim”, por sua vez, não pode ser  considerado como meio em outro contexto, pois nada há de mais elevado a  atingir que essa própria atualidade” (ARENDT, 2010, p. 258).  

A proposta da Gestalt-terapia está, portanto, em uma postura ética de clínica  enquanto autorização/acolhimento daquilo que, no discurso e na ação, causa  desvio ou estranhamento (clinamen); aquilo que, muitas vezes, é inibido por ser  considerado socialmente irrelevante. É a prática de se permitir tanto o  terapeuta quanto o consulente a transcender, ir mais além, ao que já é sabido.  Deve poder acolher, por exemplo, “a rebeldia implícita às ações manipulatórias  dos sujeitos que se apresentam divididos entre atender à demanda social e  defender-se de algo que eles próprios parecem ignorar a respeito de si ou do  meio em que estão inseridos” (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER GRANZOTTO, 2012a, p. 186).

Não interessa ao terapeuta gestáltico determinar se o ajustamento neurótico é  um fenômeno de características individuais ou sociais; o objeto de interesse é o  laço social conflituoso. Somente por meio da pontuação das relações de poder  que vão se estabelecendo no campo “terapeuta-consulente” – que é a única  vivência cuja “aura”, por ser atual, existe – o consulente pode se apropriar  daquilo que produziu na relação, da forma como vive o poder, da função e do  estilo de suas ações de enfrentamento ao outro social; e, assim, ampliar suas  formas em prol de um retorno à autonomia deliberativa quanto à conveniência  do exercício do poder ou da sujeição a ele (MÜLLER-GRANZOTTO e  MÜLLER-GRANZOTTO, 2012a).

Foucault conta que sonha com o intelectual que derrubaria as evidências e as  universalidades; que se engajaria sempre descompromissado de qualquer  finalidade fixa; um intelectual:

“[...] que localiza e indica nas inércias e coações do  

presente os pontos fracos, as brechas, as linhas de força;  

que sem cessar se desloca, não sabe exatamente onde  

estará ou o que pensará amanhã, por estar muito atento  

ao presente; que contribui, no lugar em que está, de  

passagem, a colocar a questão da revolução, se ela vale  

a pena e qual (quero dizer qual revolução e qual pena)”

(FOUCAULT, 2008, p. 242).

O terapeuta, portanto, deve se implicar na relação, considerando a primazia da  experiência clínica em detrimento às suas “pré-concepções” teóricas, “o que envolve submeter suas concepções a uma espécie de capacidade de  autorregulação que a própria experiência imporia” (MÜLLER-GRANZOTTO e  MÜLLER-GRANZOTTO, 2012a, p. 181). Ele deve privilegiar a emergência da  espontaneidade criativa, provocá-la e, mesmo sem saber até onde essa  “permissividade” os levará, ou o porquê de ela acontecer assim, deve se  submeter à condição que estabelece de tal maneira que, no fim das contas,  não haja nenhum saber dado a não ser o de que todos os saberes devem  poder estar sendo sempre recriados (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER GRANZOTTO, 2012a).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante de tudo que foi exposto entende-se que é indispensável a consideração  do sistema self segundo a primazia relacional de transcendência espaço temporal no campo organismo-ambiente, relacionando-o – em sua totalidade  sempre de valência intersubjetiva – com as relações de poder que permeiam a  teia social.

A análise do poder, não como algo que se possui, mas como ação que se dá  sempre no interstício de qualquer relação e que transita pela rede social  produzindo, tanto os discursos que valem como verdade, quanto o próprio  indivíduo segundo critérios de utilidade político-econômica, permite-nos  compreender como, através da internalização da ambiguidade sempre  presente nas relações de poder no sistema self, podemos testemunhar a  neurose como um ajustamento criativo de articulação política. Embora as  heterogeneidades existam, a biopolítica – que somente é “localizável” por meio  da encarnação do outro social nas relações de poder – se estabelece como se  pudesse produzir somente o relevante, preenchendo estrategicamente tanto os  excitamentos espontâneos (analisando a experiência a partir da perspectiva do  sistema self), quanto as ações espontâneas (analisando a experiência a partir  da perspectiva da rede social), de forma a reificá-los em coisa útil (utilizando-os  como meio para atingir fins outros).

Há, portanto, na proposta do gestalt-terapeuta uma postura ética de  acolhimento ao que é socialmente estranho ou irrelevante como possibilidade  de integração do sistema self à sua totalidade de indivisão sem síntese  enquanto fim em si mesmo. Esse experimento descompromissado de  suspensão das lógicas biopolíticas, ainda assim, atento às relações de poder  que possam se estabelecer entre o terapeuta e consulente acaba por  possibilitar uma ampliação das formas no que diz respeito a um retorno à  autonomia deliberativa quanto à conveniência do exercício do poder ou da  sujeição a ele. O fato da vivência gestáltica enquanto fim em si mesmo ter  resultados posteriores não retira a legitimidade atual da experiência  descompromissada, assim como um possível valor atribuído a uma obra de  arte, posterior à sua execução, não retira a legitimidade da fruição,  comprometida apenas com o gozo do ritual, que a produziu.

Finalmente, articular a teoria do self com as relações de poder que se dão na  sociedade é tarefa complexa e delicada. O diálogo estabelecido neste trabalho  logra contribuir para uma compreensão não dicotomizada da noção de  indivíduo-sociedade ao problematizar a intersecção da compreensão gestalt terapêutica da teoria do self com a noção das relações intersubjetivas enquanto  relações de poder; mas não se propõe, em nenhum momento, a esgotar as  possibilidades abertas por essa intersecção. Pesquisas futuras deverão ampliar  as inúmeras possibilidades de aproximação das relações de poder e suas  repercussões no sistema self.

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Endereço para Correspondência:

Israel Ferraz de Souza

E-mail: israelferraz@gmail.com

Recebido em: 16/04/2014

Aprovado em: 29/08/2014

NOTAS

Psicólogo pela Universidade Católica Dom Bosco (2010); Pós-graduado em  Sociologia pela Universidade Gama Filho (2013); Gestalt-Terapeuta e  especialista clínico pelo Instituto MÜller-Granzotto (2013).

Revista IGT na Rede, v. 11, nº 20, 2014, p.84-104 DOI 10.5281/zenodo.15048331

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526