ARTIGO

O psicoterapeuta invisível: reflexões sobre a prática Gestáltica com ajustamentos autistas

The invisible psychotherapist: reflections about a gestaltic practice with  autist adjustments

Marina Nogueira de Barros

RESUMO

Consiste esta pesquisa bibliográfica em uma tentativa de ampliar os  conhecimentos sobre a Gestalt-terapia, trazendo o histórico desta abordagem  da Psicologia e os conceitos básicos utilizados pela mesma, como awareness,  figura-fundo, aqui-agora, relação dialógica, teoria de campo de Kurt Lewin,  teoria organísmica de Kurt Goldstein e Psicologia da Gestalt. Para assimilação  de como se dá a prática clínica através destes conceitos foi necessário revisar  e acrescentar referencial teórico acerca da compreensão da teoria do self  (funções id, ego e personalidade) e os ajustamentos que dela decorrem  (neuróticos, aflitivos e psicóticos), sendo nesta pesquisa aprofundado o  conhecimento dos ajustamentos psicóticos ou de criação como um  comprometimento da função Id, que é entendida como o fundo de vividos do  sistema self, o qual é espontâneo e não há controle sobre o mesmo e que  podem fazer muitas experiências parecerem sem sentido num dado momento.  Estes ajustamentos são divididos em ajustamentos de preenchimento de fundo, ajustamentos de articulação de fundo e ajustamentos de defesa contra a  demanda ou de isolamento (autismos). O presente estudo focaliza-se buscando revisar e acrescentar conhecimentos sobre os ajustamentos de  defesa contra a demanda ou isolamentos (ajustamentos autistas); compartilhar  o conhecimento que foi pesquisado bibliograficamente; e também compartilhar  a vivência do psicólogo e as implicações que este tipo de prática causa a estes  profissionais, visto que ainda é uma área restrita em produções científicas  dentro da referida abordagem e que necessita de mais embasamento teórico vivencial, inclusive para melhorar a prática dos Gestalt-terapeutas que têm  afinidade ou vivenciam esta área.  

Palavras-chave: Gestalt-terapia; Teoria do Self; Ajustamentos Psicóticos; Autismo.  

ABSTRACT

This review is an attempt to broaden the knowledge about Gestalt therapy,  bringing the history of this psychology approach and the basic concepts used by  it, as awareness, figure-ground, here and now, dialogical relationship, Kurt  Lewin field theory, Kurt Goldstein organismic theory and Gestalt Psychology. To  assimilate how is the clinical practice through these concepts was necessary to  review and add about the theoretical understanding of the self theory (id  functions, ego and personality) and adjustments resulting from it (neurotic,  distressing and psychotic), being depth in this search the knowledge of  psychotic or creation adjustments as a function impairment of the Id, which is  understood as the fund experienced of the system self, which is spontaneous  and there is no control over it and can make many experiments seem  meaningless in given time. These adjustments are divided into background fill  adjustments, background articulation and defense against demand or isolation  adjustments (autism). The present study focuses on seeking review and add

knowledge about the adjustments of defense against the demand or isolation  (autistic adjustments); share the practice that was bibliographically investigated,  and also share the experience of the psychologist and the implications that this  type of practice for these professionals, knowing that this is a restricted area in  scientific production within the same approach and requires more theoretical experiential, including to improve the practice of Gestalt therapists who have  affinity or experience in this area.

Keywords: Gestalt Therapy; Self Theory; Psychotic adjustments; Autism

1. INTRODUÇÃO

A Gestalt-terapia, fundada por Frederick e Laura Perls, entre outros, na década  de 1940, é uma abordagem fenomenológico-existencial da Psicologia que  ensina terapeutas e clientes o método fenomenológico de awareness que se  focaliza no processo (o que está acontecendo no aqui-agora) e tem como  objetivo tornar os clientes mais conscientes (aware) do que estão fazendo,  como estão fazendo, o que estão sentindo e assim, possibilitar a aceitação,  valorização e mudança (YONTEF, 1998).

A Gestalt-terapia desenvolve uma perspectiva unificadora do ser humano,  integrando ao mesmo tempo, as dimensões sensoriais, afetivas, intelectuais,  sociais e espirituais, favorecendo um contato autêntico com os outros e consigo  mesmo, um ajustamento criador do organismo ao meio, assim como uma  consciência dos mecanismos interiores que nos levam a condutas repetitivas  (GINGER & GINGER, 1995)

A Gestalt-terapia tem como bases filosóficas o Humanismo, Existencialismo e  Fenomenologia e é também fundamentada na Teoria de Campo (Kurt Lewin),  Teoria Organísmica (Kurt Goldstein) e a Psicologia da Gestalt. Trabalha-se,  tradicionalmente, com a noção das três clínicas gestálticas: Neurose, Psicose e Aflição (MÜLLER-GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO, 2012)

Ribeiro (1998) acrescenta que esta influência atingiu os primeiros criadores da  Gestalt-terapia que se formaram num clima permeado, primeiramente pelas  influências de Kurt Goldstein e indiretamente pela cultura européia continental  da época, pelos psicólogos da Gestalt.  

O presente trabalho abordará o tema relacionado à formação do Gestalt  terapeuta e o atendimento clínico com pessoas que fazem Ajustamentos  Psicóticos. Especificar-se-ão os ajustamentos de defesa contra a demanda (ou  ajustamentos autistas), trazendo como problema de pesquisa os  questionamentos acerca da formação do Gestalt terapeuta para trabalhar com  estas demandas e as implicações desta prática em sua vida como um todo.  

Esta pesquisa tem como objetivos: identificar como é a formação do psicólogo  clínico no Brasil de um modo geral; introduzir a noção de como se dá a prática  da Gestalt-terapia e suas bases teóricas; averiguar como o Gestalt-terapeuta  intervém nos ajustamentos psicóticos, mais especificamente os ajustamentos  de defesa contra a demanda - ajustamentos autistas; identificar as  consequências deste trabalho na vida do Gestalt terapeuta; e compreender a  importância do olhar especializado do Gestalt terapeuta com estas demandas.

A produção acerca do preparo pessoal e técnico do Gestalt terapeuta ainda é  um tema escasso, porém não menos importante visto que partimos do  pressuposto básico da implicação do psicoterapeuta no processo. Os  resultados desta pesquisa visam contribuir para a sociedade, ao meio  acadêmico, aos profissionais da área, principalmente à Gestalt terapia que ainda está em crescimento no que se refere à produção científica, o que  contribui diretamente às práticas clínicas realizadas por estes profissionais.  

2. FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA GESTALT-TERAPIA

Antes mesmo da profissão de Psicologia ser Regulamentada, fato que ocorreu  em 27 de agosto de 1962, a partir da Lei n° 4.119/62 e o parecer 403/62 que,  respectivamente regulamenta o exercício da profissão de psicólogo e que fixa o  currículo e a duração do curso, já havia profissionais atuando em vários  contextos, dentre eles, o hospital (HADDAD e COLS., 2006).  

O curso de formação em Psicologia cresceu significativamente desde a década  em que a profissão foi regulamentada, totalizando até o ano de 2006 em 320  cursos, enquanto que no início da década de 90 existiam apenas 102. Em  2004, havia 272 cursos, sendo 51 oferecidos por instituições públicas e 221 por  instituições privadas. (HADDAD e COLS., 2006).

Segundo os autores acima citados, a partir de uma pesquisa realizada pelo  IBOPE com 2.000 psicólogos, o Conselho Federal de Psicologia (CFP)  elaborou um perfil deste profissional que indicou que 46% deste total concluiu o  curso entre os anos de 1997 e 2003 e que a maioria das pessoas entrevistadas  (92,8%) é do sexo feminino.  

Ainda de acordo com o Perfil do Psicólogo, sobre as preferências por áreas e  especialidades da Psicologia, tanto em nível de atuação como na frequência a  cursos de pós-graduação, verificou-se que há o predomínio do  encaminhamento para a Psicologia Clinica e para a da Saúde, pois, mais de  60% das psicólogas esperam exercer sua profissão nessas duas  especialidades.

A Gestalt terapia, como abordagem da psicologia, foi fundada por Frederick  Perls, médico e judeu, com a ajuda de sua esposa Laura Perls, entre outros.  Tàrrega (2012) conta que o casal viu-se obrigado a fugir da Alemanha, com a  ascensão do nazismo em 1933, para a África do Sul. Lá, aconselhados por  Erich Fromm e Clara Thomson, resolveram mudar-se definitivamente para os  Estados Unidos.  

Inicialmente a Gestalt-terapia não era idealizada como uma teoria própria.  Laura e Fritz eram psicanalistas, e sua obra “Ego, fome e agressão” era  apenas uma releitura dos escritos de Freud. Esta obra teve influência do  filósofo alemão Salomão Friedlander, do sul-africano Jan Smuts. Outras  influências sobre vida são Max Reinhard, diretor de teatro e do movimento  Bauhaus Outras influências sobre vida de Perls e que o ajudaram na  construção do saber da Gestalt- terapia foram: Max Reinhard, diretor de teatro  e do movimento Bauhaus. A análise psicanalítica realizada em Berlim,  Frankfurt e Viena com Karen Horney, Happel Clara e Wilhelm  Reich;supervisões com Helen Deutsch, Fenichel Otto e Federn Pauloe o  trabalho em Frankfurt com o neuropsiquiatra Kurt Goldstein.

Em 1951, foi publicada a grande obra, Gestalt Therapy, uma reunião que  cercou um grupo de intelectuais, entre os quais estão Paul Goodman, Isadore  From, Paul Weisz, Shapiro Elliott e Eastman Sylvester (Perls, Goodmann e  Hefferline), ganhando grande impulso no início dos anos 60 por ser uma  corrente de pensamento e prática terapêutica afinada (em alguns dos seus  pressupostos) com os movimentos de contracultura, fenômeno histórico  efervescente nos EUA e na Europa nessa época.  

De acordo com Prestrelo (2001), Perls percorreu o país realizando workshops, divulgando seu trabalho:  

“Seus trabalhos em grupo pareciam propiciar “curas”  

milagrosas, dado a rapidez na resolução dos conflitos  

apresentados por seus participantes. Não se levava em conta  

sua vasta experiência profissional, seus 50 anos de prática  

clínica, as quatro análises vividas e seus 76 anos – que  

fundamentavam a incrível perspicácia clínica que se  

concretizava no exercício de seu trabalho” ( p.5)

De acordo com Prestrelo (2001), no Brasil, a Gestalt terapia chega em 1972  através dos conhecimentos adquiridos de workshops em Londres por Thèrése  Tellegen. A partir disto, Jean Clark Juliano, Walter Ferreira da Rosa Ribeiro,  Paulo Barros, Abel Guedes e Lílian Frazão começaram a formar um grupo  onde surgiu a necessidade de aprofundar os conteúdos trabalhados nos  workshops. Isto resultou no movimento de contracultura, rejeitando algumas  formas rígidas e sistematizadas de trabalho europeias. Devido a este  movimento, a Gestalt-terapia viu-se sem grande fundamentação teórica e  então os estudos se intensificaram.

Este autor traz também que em 1978, Walter Ribeiro, junto com outros  profissionais, de diferentes lugares do Brasil, criou em Brasília o primeiro grupo  de formação em Gestalt-Terapia, auxiliado pela terapeuta residente na  Califórnia, Maureen Miller.

A partir de então foram criados centros de formação, de especialização que se  expandiu pelo Brasil e então se publicou a primeira obra brasileira “Gestalt e  Grupos: Uma perspectiva sistêmica” de Thèrése Tellegen, seguida em 1985  pelo livro de Jorge Ponciano Ribeiro: “Gestalt-Terapia: Refazendo um  caminho”.  

Segundo Holanda & Karwowski (2004):  

“Com o crescimento dessa abordagem no país, surgiu, em  

1986, organizado pelo grupo do Rio e coordenado por  

Teresinha Mello, o I Encontro de Gestalt-terapeutas do Rio de  

Janeiro que, embora com um nome regional, contou com a  

presença de gestalt-terapeutas de todo o País. Tendo  

assumido essa magnitude, o segundo encontro foi, então,  

organizado pelo grupo de São Paulo, intitulado por seus  

organizadores II Encontro Nacional de Gestalt-terapia,  realizado em Caxambu (1989). Conferiu-se, assim, um status  

de encontro nacional ao primeiro encontro realizado no Rio de  

Janeiro. Passou-se, então, a repetir o encontro a cada dois  

anos: em Brasília (DF), em 1991; em Recife (PE), 1993; em  

Vitória (ES), em 1995; em Florianópolis (SC), em 1997; em  

Goiânia (GO), em 1999; em Fortaleza (CE), em 2001, e em  

Gramado (RS), em 2003”(p. 62).

Segundo Holanda & Karwowski (2004), os poucos dados históricos sobre a  Gestalt-terapia influenciam também na ideia de que ainda é considerada uma  teoria frágil no meio acadêmico da Psicologia, porém esta ideia vem se  modificando e uma das maiores formas para que essa teoria se fortaleça seja justamente intensificar a produção teórica acerca das práticas gestálticas em  diversos campos.  

Ribeiro (1985) mostra-nos que a Gestalt-terapia é uma abordagem Humanista,  Existencial-Fenomenológica, ou seja, sua visão de homem é permeada por  estas três filosofias, o que influencia diretamente a prática clínica e a maneira  que o profissional vê o mundo.

O humanismo é uma proposta que coloca o homem como o centro, dotado de  possibilidades e de uma tendência ao crescimento, fazendo com o que o  mesmo seja autor principal desta atualização e mudança (GINGER & GINGER,  1995)

Os referidos autores correlacionam o humanismo com o fazer gestáltico  quando afirmam que esta corrente filosófica recoloca o homem no centro do  estudo da Psicologia e assim, o tira do lugar de objeto de estudo apenas (como  faziam a psicanálise e o comportamentalismo). O humanismo é uma forma de  devolver ao homem sua dignidade em todos os aspectos, como a valorização  de seu corpo e suas sensações, respeito pela sua unicidade, considerando-o  um ser com direito de se desenvolver e se realizar, atendendo suas  necessidades, elaborando seus valores individuais e sociais.  

Outro ponto ressaltado pelos autores é que o humanismo tem uma visão  sistêmica, é contra qualquer categorização nosográfica, não trabalha com a  ideia de normal/patológico e causa/efeito. Logo, ao procurar enxergar o  indivíduo em seu desenvolvimento máximo, o humanismo se equipara com a  prática gestáltica, quando, por exemplo, Perls apud Ginger (1995, p.99) fala  que “A Gestalt-terapia é um método muito operante para ser reservado  unicamente aos doentes”. Ou seja, o humanismo e a Gestalt-terapia são visões  de mundo que consideram o homem como um sistema global inserido em  subsistemas com uma interdependência circular.  

O existencialismo traz o homem como um ser dotado de liberdade e  unicamente responsável por suas escolhas. Através desta liberdade  responsável, a pessoa vai à busca da construção de sua história de forma mais  implicada, encontrando sua essência e vivendo de uma maneira mais autêntica  consigo e com o mundo. Como ressalta Cardella (2002, p.35):

“o homem é o intérprete mais fiel de si mesmo, centro de sua  

própria liberdade e libertação, detentor do poder sobre si  

mesmo, ainda que momentaneamente, tenha perdido essa  

aptidão para autogovernar-se.”.  

Ginger & Ginger (1995) acrescentam que a Gestalt-terapia reteve alguns  conceitos do existencialismo como: a singularidade da experiência individual,  objetiva e subjetiva de cada existência humana; a auto compreensão para viver  e existir; a responsabilidade ativa e inexorável de cada indivíduo na construção  de seu “projeto existencial”. Ou seja, pode ser considerado existencial tudo  aquilo que diz respeito à forma como o indivíduo experiencia os fenômenos,  como ele os percebe, os assume e os direciona, sendo totalmente responsável  por suas atitudes. Cardella (2002) lembra que essa liberdade nas escolhas  pode ser vivida com angústia e inquietação, já que o indivíduo não pode  escolher tudo e está sempre renunciando a algo.  

Sendo assim, a prática gestáltica pode ser considerada existencial, pois está  sempre buscando enfatizar o processo de escolhas e renúncias do indivíduo,  em que o mesmo vai tomando consciência de sua autoria e responsabilidade  em seus feitos (CARDELLA, 2002). É também existencial a relação terapêutica,  

embasada no existencialismo “‘Dialógico Eu-Tu’ ou ‘Encontro existencial’1: esta  concepção ou atitude de relação articula-se a uma metodologia de trabalho que  forma, com ela, um todo coerente e indissociável” (YONTEF, 1986, p.6 apud  CARDELLA, 2002).  

A fenomenologia é uma corrente de pensamento considerada um marco na  filosofia e que pode ser entendida como um método de investigação da história  do conhecimento que propõe a volta “às coisas mesmas”, a partir da descrição  e da interrogação do fenômeno, isto é, do que é dado imediatamente  (ROTHSCHILD & CALAZANS, 1992).

Holanda (1998) afirma que a fenomenologia é uma tentativa de clarificar a  realidade humana, um retorno a essas coisas mesmas descobrindo-as tais  como se apresentam a si e aos sentidos.

A fenomenologia baseia-se inicialmente no pensamento de Husserl que faz da  mesma um método em busca da verdade, porém concluiu que o ser humano  percebe a verdade ao seu modo, ou seja, ele “percebe o percebido” (RODRIGUES, 2009). Holanda (1998, p.27) acrescenta que para Husserl a  fenomenologia é um modo de existir, de ser e estar no mundo, fazendo parte  do mesmo, tendo como primordial uma “contínua reflexão crítica, de re-pensar  o mundo e a realidade, pois afinal, o ser somente se completa no seu devir, no  seu crescer”.

A busca do fenômeno é dada através de uma postura chamada por Husserl de  “epoché” ou “redução fenomenológica”, que consiste na suspensão de juízo de  valores na busca dos significados, da essência da realidade e o que está por  

 1 Mais informações sobre o Existencialismo Dialógico de Martin Buber na p.17

detrás das mesmas (HOLANDA, 1998). Nesta linha de pensamento, Husserl  transcende a separação desta unidade entre o “pensar” e o “pensado” em algo  único a cada pessoa, ou seja, teremos várias formas de perceber a realidade.  

Husserl teve como seu discípulo sucessor Martin Heidegger, o qual afirmava  que o fenômeno é o que se mostra em si mesmo. Logo, para acessá-lo é  preciso “estar atento para o ente2por si mesmo de diversas maneiras,  seguindo sua via e modo de acesso”. Para Heidegger não há algo por detrás  do fenômeno. O que acontece é que o próprio tende a velar-se e para desvelá lo é necessário que nos guiemos de acordo como as coisas se apresentam de  forma natural e espontânea (STOCKINGER, 2007).

Para Ribeiro (1985), a fenomenologia descreve aquilo que se passa, o que se  mostra: ela é a descrição das formas de como se conhece algo. É a busca de  entendimento baseada no que é óbvio ou revelado pela situação e não na  interpretação do observador. A exploração fenomenológica objetiva uma  descrição cada vez mais clara e detalhada do que é, e não enfatizar “o que  seria”, “o que poderia ser”, “o que pode ser” e “o que foi”.

Segundo Müller-Granzotto & Müller-Granzotto, 2007 apud D’Acri, Lima, Orgler, 2007:  

“Fenomenologia é a disciplina, por meio da qual, pretendem  

esclarecer em que sentido a noção de awareness lança as  

bases para se compreender a totalidade (gestalt) formada por  

nosso psiquismo e por nossas formas de inserção material no  

mundo da vida. Tal totalidade, a sua vez, não é mais que o  

correlato daquilo que Edmund Husserl, fundador da  

fenomenologia, denominava de consciência transcendental. À  

diferença de que, mais ao estilo de Goldstein, os fundadores  

da Gestalt-terapia não consideravam tal consciência uma  

instância reflexiva, ideal. Eles a descreviam como a própria  

ocorrência empírica do campo organismo-meio, ocorrência  

essa à qual denominavam de sistema self e da qual a  

experiência psicoterapêutica é apenas uma variante (...)” (p.  

110). 

Para melhor compreensão do que foi referido acima, cabe aqui dois dos  conceitos-chave da Gestalt-terapia: awareness e aqui-agora.

O conceito de aqui-agora da Gestalt-terapia, que é utilizado como base, ou  seja, todo o processo terapêutico é focado no que o cliente está sentindo no  presente (sensações, sentimentos, pensamentos, intuições). Não são  descartadas informações passadas ou aspirações ao futuro, porém o foco é  como isto está ocorrendo naquele dado momento (RODRIGUES, 2009).

A awareness vem do termo em inglês aware e significa tomar consciência de  algo. Fukumitsu (2011) afirma que para a Gestalt-terapia, awareness é a   

2- tudo aquilo que falamos; tudo em que pensamos; tudo que entendemos; tudo em  relação ao que nos comportamos, mas também o que nós próprios somos e a maneira  como somos. É tudo aquilo que é; o que tem manifestação (STOCKINGER, 2007)

capacidade de integração daquilo que eu faço e a maneira que eu interajo,  sendo assim, são possíveis algumas zonas de awareness: cognitiva, sensório motora, emocional e energética. A ampliação da awareness se dá quando o  indivíduo está com estas zonas integradas e consegue ter a percepção do que  está experienciando no momento. Cardella (2002) acrescenta que o fluxo de  awareness acontece quando o indivíduo é capaz de assimilar o que é nutritivo e rejeitar o que é tóxico, o que resulta em crescimento segundo processos de  ajustamento criativo.

Perls, Hefferline e Goodman (1997) esclarecem que:

“A figura (gestalt) na awareness é uma percepção, imagem ou  

insights claros e vívidos; no comportamento motor, é o  

movimento elegante, vigoroso, que tem ritmo, que se completa  

etc. Em ambos os casos, a necessidade e energia do  

organismo e as possibilidades plausíveis do ambiente são  

incorporadas e unificadas na figura.” (p.45)  

A awareness é um processo fluido, que se modifica a todo instante,  proporcionando ao indivíduo um contato de boa qualidade e a capacidade de  “diferenciação eu-não-eu” (CARDELLA, 2002). “A Gestalt-terapia é  fenomenológica; seu objetivo é apenas awareness e sua metodologia é a  metodologia da awareness” (YONTEF, 1998, p.234 apud CARDELLA, 2002,  p.67)  

Giordane (2010, p.2) diz que a Gestalt-terapia é fenomenológica por ser  centrada na descrição subjetiva do sentimento (awareness) do indivíduo. Perls  et al., (1997) ratifica que a terapia gestáltica consiste  

“não tanto no ‘que’ está sendo experienciado, (...) mas a  

maneira ‘como’ o que está sendo relembrado é relembrado, ou  

(...) com que tom de voz, afeto, consideração para com a outra  

pessoa etc.”.  

O “como” precede o “porquê”, dando-se enfoque ao fenômeno que se  apresenta, ou seja, o que é escolhido como importante no aqui-agora é o que  será trabalhado naquele momento; sem consciência não há mundo e sem  mundo não há o nós. (GIORDANE, 2010; GINGER & GINGER, 1995).  

Ginger & Ginger (1995) ratificam que a Gestalt-terapia se utiliza dos conceitos  da fenomenologia também quando afirmam que o essencial é como a vivência  imediata é percebida e sentida corporalmente (aqui-agora); que a nossa  percepção de mundo e o meio em que estamos inseridos é “dominada por  fatores subjetivos irracionais”, que se torna diferente a cada olhar sobre o que é  olhado, tornando a experiência de cada um única e singular, não podendo ser  teorizada antecipadamente.  

O método de exploração na Gestalt-terapia é através do campo  fenomenológico. Perls et al.(1997) destaca que na psicoterapia

“instigamos as situações inacabadas na situação atual, e, por  

meio da experimentação atual com novas atitudes e novos  

materiais da experiência do dia-a-dia concreto, visamos uma  

integração melhor”.

Assim, o suporte do cliente se torna mais firme e a awareness fica mais  disponível, possibilitando que as escolhas sejam feitas com responsabilidade e  autenticidade. Fenomenologicamente, a mudança ocorre conhecendo e  aceitando-se quem se é e como se é. Ser o que “é” e não tentar ser o que “não  é”. O objetivo é aprender e usar este fluxo de awareness (GIORDANE, 2010).

Ribeiro (1985) aduz que:  

“Em termos de psicoterapia, tais reflexões nos levam a uma  

postura de paciência diante do fenômeno-cliente. Caso se  

preste atenção ao cliente como um todo, ele se auto-revela, ou  

melhor, ele, em si, é uma auto-revelação permanente. Eu tenho  

de me postar diante dele e, a partir dele, descrevê-lo  

compreensivamente para mim e para ele próprio. O fenômeno,  

enquanto essência que se revela, é o ponto de encontro da  

relação com. É aí que cliente e psicoterapeuta se fazem  

inteligíveis um para o outro, é aí que se encontram como  

totalidade”. (p.48)

Outra grande contribuição para a Gestalt-terapia é a visão holística de homem  em que o mesmo é considerado um ser “biopsicossocial”, sempre influenciado  e influenciador do meio. Ou seja, é sempre levado em consideração o ser como  um todo e o meio em que está inserido. Nesta linha de pensamento, a Gestalt terapia adota o pensamento dialógico de Martin Buber que acredita que na  situação terapêutica são importantes tanto o cliente, quanto o terapeuta,  acreditando que a relação estabelecida também faz parte do fenômeno que  ocorre no campo e é de serventia para o processo (FRAZÃO, 1997 – apresentação à edição brasileira do Gestalt-terapia de PERLS, HEFFERLINE E  GOODMANN).  

Moreira (2009) acrescenta:

“Ao contrário de buscar as causas ou os porquês, a abordagem  

gestáltica pretende captar como ocorre um dado fenômeno,  

tomando- o em sua totalidade e buscando detectar em função  

de quê se estrutura o todo, daí o termo gestalt, que significa  

configuração, estrutura, tema, relação estrutural ou todo  

significativo” (p. 5).

Buber (1974) apud Cardella (2002) afirma que o homem é um ser  fundamentalmente relacional e que esta relação acontece no “diálogo”, porém  a civilização moderna fomenta um narcisismo e isolamento do homem,  justamente por cada vez mais desvalorizar esta relação. O diálogo se dá no  “entre” e assim são possíveis estabelecer dois tipos de relação: EU-ISSO e EU TU

No princípio EU-ISSO o semelhante é considerado como um objeto (não  necessariamente pessoas, e também as coisas do mundo) ou meio para atingir  um fim, metas e objetivos. Estas relações são necessárias, e alternam-se com  as EU-ISSO, porém esta é uma relação direta, sem representações, sem  papeis pré-definidos, onde o outro não é valorizado naquilo que tem de único  (FUKUMITSU, 2011; CARDELLA, 2002). “[...] o homem não pode viver sem o  ISSO, mas aquele que vive somente com o ISSO não é homem” (BUBER,  1974, p.39 apud CARDELLA, 2002, p. 37).  

Já no princípio EU-TU o EU se realiza na relação com o TU. Ambos colaboram  para a construção desta relação em que não tem papeis definidos, é valorizada  a alteridade, a singularidade do outro, o que favorece uma profundidade,  reciprocidade na relação e a responsabilidade (habilidade de saber responder)  (CARDELLA, 2002; FUKUMITSU, 2011). “O mundo como experiência diz  respeito à palavra princípio EU-ISSO. A palavra princípio EU-TU fundamenta o  mundo da relação” (BUBER, 1974, p.6 apud FUKUMITSU, 2011, p.65).  

A relação entre o terapeuta e o cliente é o aspecto mais importante do  processo terapêutico. O diálogo existencial proposto por Buber é uma das  bases do fazer gestáltico e é uma manifestação da perspectiva existencial do  relacionamento. (YONTEF, 1998). A Gestalt-terapia valoriza esses princípios e  toma como objetivo o engajamento de cliente e terapeuta para que se possa  estabelecer um encontro EU-TU

Fukumitsu (2011) ressalta:  

“Concebo, pelos escritos de Buber, não ser possível  

compreender o TU sem o EU. Assim como o ISSO sem o EU.  

Falar e viver o EU é proferir o TU ou o ISSO. Para se viver o  

EU em relação, é preciso experimentar, estar aberto e saber  

que não estou na relação somente para explicá-la, mas, sim,  

para vivê-la no presente. Tudo o que é essencial pode ser  

vivido no presente, pois ao enfatizar o momento presente,  

entendendo que em qualquer encontro que eu esteja  

vivenciando, existirá algo que é diferente da soma total da  

minha experiência e da experiência da outra pessoa” ( p.65).  

Outra teoria utilizada como fundamento para a visão holística da Gestalt-terapia  é a Teoria Organísmica de Kurt Goldstein, de quem Perls foi assistente  no Instituto de Soldados Portadores de Lesões Cerebrais. Naquela ocasião,  estudavam as consequências comportamentais destas lesões a partir da  Psicologia da Gestalt de Wertheimer, Köhler e Koffka (MOREIRA, 2009).

A Teoria Organísmica propõe uma visão de homem como um todo unificado e  integrado, sem a separação mente-corpo, onde a busca pela organização é  natural ao organismo, ou seja, a auto regulação. Qualquer elemento deve ser  visto como parte do todo e qualquer alteração em uma das partes estará  afetando diretamente o todo (MOREIRA, 2009).

O homem tem as potencialidades que regulam seu próprio crescimento, porém  é influenciado pelo meio, de onde ele seleciona e retira influências para estas  potencialidades, assim como o meio também pode forçar a pessoa a se  adaptar a fatos estranhos à sua natureza (RIBEIRO, 1985).

Fukumitsu (2011) ratifica que nessa relação do organismo com o meio há  vinculações estabelecidas em que o organismo está em processo de  equalização (busca pelo equilíbrio) para se auto-realizar. A partir desta  premissa básica de busca pelo equilíbrio, o Gestalt-terapeuta procura auxiliar o  cliente na nitidez de suas figuras, suas necessidades, limites e possibilidades,  enxergando-o como um todo inteiro buscando a melhor forma de auto realização e a melhor maneira de equilibrar sua tensão e redistribuir suas  energias nesta relação com o meio. Neste sentido, Frazão (1992) apud  Fukumitsu (2011) afirma que:  

“(...) as queixas que o cliente traz representam aquilo que ele  

pode se dar conta no aqui-e-agora. Esta queixa é a figura; é

como a ponta de um “iceberg”. É preciso que eu observe  

atentamente a fim de compreender a relação entre esta  

figura/queixa e o fundo. É preciso que eu compreenda o  

sentido da queixa na totalidade da existência do cliente” (p.52)  

Ou seja, entendemos que o sintoma trazido pelo cliente é uma forma de  integração entre organismo-meio, é sua forma de se equilibrar e cabe ao  Gestalt-terapeuta compreender que tentar “retirar o sintoma precocemente sem  ter algo para colocá-lo no lugar é torná-lo ‘manco’, pois o sintoma também o  significa” (FUKUMITSU, 2011, p.53)

A Gestalt-terapia se utiliza também da Teoria de Campo que segundo Lewin  (1965) apud Yontef (1998) é

“O comportamento é uma função do campo, do qual ele é  

parte, ele não depende nem do passado e nem do futuro, mas  

do campo presente. Este campo presente tem uma  

determinada dimensão tempo, inclui o passado psicológico, o  

presente psicológico e o futuro psicológico, que constituem  

uma das dimensões do espaço de vida existindo num  

determinado momento.” (p.193)

Outra explicação é também a de Kofka (1975) apud Fukumitsu (2011):  

“O campo e o comportamento de um corpo são correlativos.  

Como o campo determina o comportamento dos corpos, esse  

comportamento pode ser usado como indicador das  

propriedades de campo” (p.50)

Na abordagem de campo da Gestalt-terapia tudo é visto como um vir a ser, ou  seja, nada é estático e tudo está propenso a mudar a cada instante, onde o  meio e os indivíduos são influenciadores e influenciados. O campo é a pessoa  no seu “espaço vital” - Rodrigues (2000) aduz que este conceito foi desenvolvido por Lewin (1965 e 1975); Fadiman e Frager (1979); e também  Ribeiro, (1985, p.94 em diante).

O conceito de campo enfatiza a relação que existe entre a pessoa e o meio,  logo o cliente é considerado um campo que abrange diversas necessidades e  valências. Psicoterapeutas são outra parte do campo também com suas  necessidades e valências. A relação terapêutica acontece quando os campos  interagem concomitantemente, sendo necessário saber as alterações que  ocorrem no mesmo (FUKUMITSU, 2011).  

A referida autora ressalta, citando Ribeiro (1985), que compreender o cliente  como campo é percebê-lo em sua totalidade e entender que ele faz parte de  um espaço vital. Este espaço vital é dividido em meio geográfico e meio  comportamental: o meio geográfico é caracterizado como fundo para  fenômenos acontecerem, ou seja, o meio comportamental (p.97-107). O meio  comportamental é mais abrangente, onde demonstra seus comportamentos,  seus processos internos e externos que geram tensão e demandam satisfação.  “O cliente revela-se como corpo de energia, força, movimento e direção”.

Logo, o objetivo da psicoterapia gestáltica correlacionada com a teoria de  Campo é proporcionar ao cliente equilíbrio e reestruturação de seu espaço  vital, através da compreensão de suas necessidades e a satisfação das  mesmas, com permeabilidade e fluidez entre o meio geográfico e o psicológico  (FUKUMITSU, 2011).  

Rodrigues (2007) apud D’acri et al (2007) adicionam que a Teoria de Campo é  de serventia também à prática clínica, onde se utilizam experimentos e/ou  trabalhos psicodramáticos, ajudando o cliente a traduzir questões afetivas,  inter-relacionais de uma forma mais precisa em que o mesmo consegue  expressar mais verdadeiramente aquilo que está sentindo e assim pode ser  mais bem ajudado pelo psicoterapeuta.  

A Gestalt-terapia é influenciada também pela Psicologia da Gestalt, que apesar  de nomes semelhantes, se diferem em vários aspectos. Esta teoria traz o  conceito de que a natureza humana é organizada em partes ou todos, e que a  mesma só pode ser compreendida através das correlações de ambos. (PERLS,  1985). “O todo é uma realidade diferente da soma de suas partes”.3 Perls et al (1997, p.52) acrescenta que

“tem de se respeitar a totalidade de fenômenos que surgem  

como todos unitários, e que estes só podem ser analiticamente  

divididos em pedaços ao preço da aniquilação daquilo que se  

pretendia estudar”.

 3 Frase enfatizada por Christian von Ehrenfels (1859-1932), que continuou os estudos  dos fundadores da escola de Psicologia da Gestalt, Kurt Koffka (1886-1941) e Wolfang  Köhler (1887-1967) (GINGER&GINGER,1995)

Terapeuta e cliente devem estar sempre atentos ao todo que emergem em  dadas situações. Olhar apenas para uma das partes faz com que a  compreensão do fenômeno não seja completa.  

A partir disto, a teoria da Gestalt tem o conceito de figura-fundo que trata da  questão de eleição de necessidades. Estamos a todo o momento elegendo  figuras a serem saciadas que tem por trás um fundo e de acordo com as  necessidades o fundo pode tornar-se figura e vice-versa. (RODRIGUES, 2009)

Na subjetividade da percepção a escolha pode ser consciente ou inconsciente  do que para aquela pessoa aparece como figura ou fundo. O processo de  formação de figura-fundo é dinâmico, o organismo seleciona e desenvolve  formas próprias de auto-conservação. Qualquer fenômeno observado nunca é  uma realidade objetiva em si. A figura depende do fundo sobre o qual aparece;  o fundo serve como uma estrutura ou moldura em que a figura está  enquadrada ou suspensa, e, por conseguinte, determina a figura (RIBEIRO,  1985). A partir disto Perls et al, 1997, afirma que:

“(...) como psicoterapeutas que se alimentam da Psicologia da  

Gestalt, investigamos a teoria e o método da awareness  

criativa, a formação figura-fundo como sendo o centro coerente  

dos discernimentos eficazes, mas dispersos, a respeito do  

‘inconsciente’ e da noção inadequada de ‘consciente’” ( p.53)

Ginger & Ginger (1995) acrescentam que:

“todo campo perceptivo se diferencia em um fundo e em uma  

forma. A forma é fechada, estruturada. É ela que o contorno  

parece pertencer. Não podemos distinguir a figura sem um  

fundo: a Gestalt-terapia se interessa por ambos, mas,  

sobretudo, por sua inter-relação.” (p.38)

Através deste conhecimento das formas, há a referida eleição de figuras  dominantes que naquele dado momento permite a satisfação de uma  necessidade e assim o fluxo não pára na alternância de figura e fundo.  

Para a Gestalt-terapia um bom fluxo desses ciclos de figura-fundo são  considerados estados de “boa saúde”, ou seja, a psicoterapia incentiva que a  pessoa faça a formação de formas flexíveis, adaptadas ao meio em que estão  inseridas, fazendo ajustamentos criativos permanentes. Sendo assim, a  Gestalt-terapia é considerada uma “arte da formação de boas formas” (GINGER & GINGER, 1995).  

Os autores concluem que “qualquer fenômeno observado nunca é uma  realidade objetiva em si, mas uma inter-relação global entre o próprio  fenômeno e seu meio momentâneo – portanto, o observador”.

Outro conceito chave na Gestalt-terapia é o Contato e suas funções: contato é  o limite entre a pessoa e o meio em que está inserida. A Gestalt-terapia se  utiliza muito destes conceitos, pois como vê o ser humano em sua totalidade, o

contato pode ser feito de diversas maneiras: juntamente com as funções de  contato (audição, tato, etc.) há possibilidades de superespecialização de  algumas funções e dificuldade em outras, sempre influenciadas e influenciando  o campo em que estão inseridas (RODRIGUES, 2009). “É através destas  funções que podemos estabelecer contato de boa qualidade, organizar boas  fugas, ou interromper e obstruir o contato” (CARDELLA, 2002).  

Fukumitsu (2011) afirma que é através do contato que a pessoa pode separar se e unir-se, lidar com o que é saudável ou tóxico nas suas singulares  experiências. Cardella (2002) acrescenta que o indivíduo vive na fronteira de  contato superando obstáculos, defendendo-se dos perigos, assimilando, ou  não, o novo, e assim, através deste movimento de aproximação e retração, o  indivíduo satisfaz suas necessidades.

Perls, Hefferline e Goodman (1997) afirmam que:

“Contato é o trabalho que resulta em assimilação e crescimento  

é a formação de uma figura de interesse contra um fundo ou  

contexto do campo organismo/ambiente. A figura (gestalt) na  

awareness é uma percepção, imagem ou insight claros e  

vívidos; no comportamento motor, é o movimento elegante,  

vigoroso, que tem ritmo, que se completa etc. em ambos os  

casos, a necessidade e energia do organismo e as  

possibilidades plausíveis do ambiente são incorporadas e  

unificadas na figura” (p.45)

Ainda segundo os autores acima:

“a psicologia estuda a operação da fronteira de contato no  

campo organismo/ambiente. [...] Quando dizemos “fronteira”  

pensamos em uma “fronteira entre”; mas a fronteira-de-contato,  

onde a experiência de lugar, não separa o organismo e seu  

ambiente; em vez disso limita o organismo, o contém e protege  

ao mesmo tempo em que contata o ambiente”. (p.43)

Cardella (2002) diz que o contato é considerado fundamental (além da  formação de gestalt e da awareness), pois é através deste que há o processo  de auto regulação organísmica e ajustamentos criativos, ou seja, é onde o  indivíduo se diferencia do semelhante, elege a figura emergente a ser  satisfeita, retrai-se na ameaça, depara-se com o desconhecido, encontra  suporte no conhecido, ou seja, está em constante alternância, crescendo ou se  auto preservando. Contato é “achar e fazer a solução vindoura” (PERLS et al,  1997).

O ajustamento criativo funcional, segundo Perls et al (1997) é a transição  sempre renovada entre a novidade e a rotina que resulta em assimilação e  crescimento. Logo a Gestalt-terapia estuda a interrupção, inibição ou outros  acidentes no decorrer do ajustamento criativo disfuncional, que mais adiante  chamaremos de ajustamentos neuróticos ou evitativos.

Ciornai (1995) apud Cardella (2002) ressalta que nem sempre o ajustamento  criativo leva a processos saudáveis e de crescimento. O indivíduo se ajusta  criativamente da melhor maneira que consegue no dado momento, mesmo  quando este ajustamento tem forma de sintoma e traz sofrimento para o  mesmo. A psicoterapia é de grande serventia para estes momentos.  

3. TEORIA DO SELF E GESTALT-TERAPIA

O self para a Gestalt-terapia é, segundo Perls et al (1997):

”O sistema de contatos em qualquer momento. Como tal o self  

é flexivelmente variado, porque varia com as necessidades  

orgânicas dominantes e os estímulos ambientais prementes  

[...]; o self é a fronteira de contato em funcionamento; sua  

atividade é formar figuras e fundos [...] É o artista da vida. É só  

um pequeno fator na interação total organismo/ambiente, mas  

desempenha o papel crucial de achar e fazer os significados  

por meio dos quais crescemos.” (p.49)

Yontef (1998) acrescenta que “não existe ‘núcleo’ ou ‘self’ separado de um  campo organismo/meio e nenhum meio humano sem os processos que  usualmente caracterizamos como internos”.

Ou seja, não há como pensar no self como uma unidade fixa e sem considerar  o meio em que o indivíduo está inserido. O self é o todo que a pessoa  representa num dado momento, com alternância de figuras e fundos e  ajustamentos criativos que estão se transformando a todo instante.  

Com isto, é possível compreender a noção de saúde/doença para a Gestalt terapia. Perls et al (1997) abordam sobre identificações e alienações do  sistema self. Quando a pessoa se identifica com o seu self em formação, não  impede seus excitamentos, não aliena aquilo que é organicamente seu e busca  o contato para a solução vindoura, pode-se considerá-la “psicologicamente  sadia”, conseguindo estar aware espontaneamente dos seus pensamentos,  percepções, sensações e ações.  

Já a noção de self “não sadio” é quando o indivíduo se aliena de seus próprios  excitamentos, tem identificações falsas com o self, gerando confusão e  sofrimento. Perls et al (1997) chama este sistema de identificações e  alienações de “ego”.  

A prática gestáltica se dá exatamente em ajudar a pessoa, treinando o ego com  as oscilações entre identificações e alienações, fazendo assim com que ela  sinta o controle do que está fazendo, percebendo, sentindo e agindo  espontaneamente.  

Perls et al (1997) afirma que o self é espontâneo e caracteriza essa  espontaneidade como o sentimento de estar agindo no organismo/ambiente não apenas como artesão ou artefato do mesmo, mas se utilizando do mesmo  como meio de crescimento.  

3.1 Funções do self

Müller-Granzotto & Müller-Granzotto (2007) afirmam que as funções do self (id,  ego e personalidade) são divididas didaticamente, porém são consideradas  como três pontos de vista diferentes acerca de determinada experiência sobre  o self em funcionamento, que não é ativo, nem passivo e não tem estruturas  fixas e estáveis. Fukumitsu (2011) afirma que para o self ser coeso é preciso  que estas três funções estejam em harmonia.  

Ginger & Ginger (1995) destacam que a cada etapa do sistema self, o mesmo  funciona de acordo com as figuras que emergem do fundo:

Pré-contato: é uma fase de sensações onde a percepção é sentida no corpo  que torna-se figura de acordo com o dado na fronteira de contato. Contato: funciona de acordo com a função ego, ou seja, é uma fase ativa em  que o organismo se depara com o meio. Diante do que se doa da função id (excitamentos) é possível que o self escolha ou rejeite o que se apresenta para  a fronteira de contato.  

Contato final: também chamado de contato pleno, onde organismo e meio  estão fundidos, a ação é unificada no aqui-agora e há coesão entre a  percepção, emoção e movimento.  

Pós-contato ou retração: é a fase final em que há a assimilação e o  crescimento, onde o self funciona na função personalidade integrando a  experiência com a vivência, estando novamente disponível para outras figuras  e consequentemente para outras ações.  

3.1.1 Função ego e Ajustamentos Neuróticos ou evitativos

A função ego – chamada também de função eu, ou função de ato4- é ativa e  deliberada, sensorialmente alerta e motoricamente agressiva. Perls et al (1997)  explicam que esta função é ativa, pois existe a sensação de ato sobre a  experiência, pois o “self está identificado com o interesse ativo selecionado, e  dá a impressão, a partir desse centro, de ser um agente extrínseco ao campo”.  

Perls et al (1997) afirmam que na verdade, por esta função ser a de  deslocamento no campo, a realidade não é necessariamente vivida com  espontaneidade, mas selecionada ou excluída de acordo com o que  deliberamos. Isso causa a sensação de usar e dominar, ao invés de descobrir e  inventar determinada experiência. Ginger & Ginger (1995) ressaltam que é da  

 4 MULLER-GRANZOTTO (2007)

própria responsabilidade da pessoa limitar ou aumentar o contato, manipulando  o meio e tomando atitudes de acordo com as necessidades.  

Müller-Granzotto & Müller-Granzotto (2007) acrescentam que cada deliberação  é a sinalização da existência de uma orientação que parte de um fundo de  excitamentos, mas que nem sempre se revela em sua totalidade e resta  sempre algo a descobrir, e a ação quer ser esta resposta.  

A referida deliberação pode ser tanto um ato de satisfação dos excitamentos no  campo, mas também uma alienação como mecanismo de evitação destes  excitamentos em detrimento de um arranjo físico-fisiológico ou sociocultural.  Neste momento é que o self faz a ação e assim, atinge o contato final.  

Os autores concluem que a função ego é a  

“vivência do contato em seu sentido mais estrito. Afinal, se o  

contato é a retomada de uma história segundo uma orientação  

inédita, porquanto é o ego quem descobre e inventa a  

diferença, é ele o agente mor do contato”.  

Determinados atos de deliberação se repetem habitualmente para apaziguar  situações inacabadas e os contatos espontâneos são esquecidos. A isso  damos o nome de ajustamentos neuróticos ou evitativos. “A neurose é a perda  das funções de ego para a fisiologia secundária, sob a forma de hábitos  inacessíveis”. (PERLS et al, 1997).

Por esse comprometimento da função ego, o indivíduo faz ajustamentos  neuróticos, pois seus excitamentos trazem a mensagem, na forma de  ansiedade, de perigo, ameaça e não pertencimento ao meio. Assim, o ego tem  parte de sua energia voltada para a repressão destes excitamentos, causando  assim uma interação disfuncional com o meio. O indivíduo não é neurótico,  mas está fazendo ajustamentos neuróticos (Idem).  

Müller-Granzotto & Müller-Granzotto (2007) destacam que para tentar  interromper este estado de ansiedade, a inibição reprimida assume as funções  do ego e assim formam-se os ajustamentos neuróticos: confluência, introjeção,  projeção, retroflexão e egotismo.

A confluência é uma forma de bloqueio do excitamento antes que o mesmo se  apresente na fronteira de contato, ou seja, a mesma fica dessensibilizada, pois  há um fundo ausente (interrupção do pós-contato) que não pode ser  correlacionado com o dado apresentado devido a tal bloqueio. Essa inibição  desenvolve uma atitude de paralisia muscular, recusa a tudo o que é novo e  prende-se a hábitos antigos. Sendo assim, o self está em um estado de vazio,  o que provoca uma alienação onde encontra possibilidades apenas no  semelhante, que lhe serve de modelo e que estas não são sentidas como suas.  

A satisfação possível na confluência é a diminuição da ansiedade e uma  espontaneidade aleatória quando “flui com” os semelhantes, trazendo

segurança. No ajustamento confluente o cliente pede ao terapeuta que seja  seu modelo, que lhe dê respostas àquilo que ele não consegue acessar em si  mesmo.  

Na introjeção o dado na fronteira de contato é figura de um fundo de ansiedade  e excitamentos inibidos. Assim, ocorre uma obstrução no pré-contato e a estratégia para evitar o contato com o excitamento seria substituí-lo por uma lei  simbólica estabelecida no meio social. Ou seja, o afeto é invertido e o meio  social oprime o excitamento na fronteira de contato que é resignado pelo  indivíduo. A satisfação possível na introjeção é o masoquismo. A demanda ao  terapeuta é de que o mesmo seja a lei.  

A projeção é uma forma de evitação onde o indivíduo, ao se deparar com o  dado na fronteira de contato, se desimplica do que está acontecendo e projeta  no semelhante as responsabilidades do dado. “A inibição reprimida fantasia o  confronto com as situações ansiogênicas, mas na ‘pele’ do semelhante” (Perls,  Hefferline e Goodman, 1997) A satisfação possível na projeção é que no  confronto com o excitamento é preenchido com fantasias. Demanda para o  terapeuta que o mesmo seja o réu.  

No ajustamento retroflexivo não há evitação da ansiedade, porém o conflito  entre o excitamento reprimido e a inibição represada é vivido intensamente e  assim há uma destruição do próprio self. A satisfação possível na retroflexão é  o sadismo ativo e demanda ao terapeuta cuidado.  

O egotismo é uma tentativa de interromper o contato final substituindo-o por  uma nova possibilidade. Há uma hipertrofia do ego e uma desvalorização do  meio, porém esta é uma forma de evitar frustração, confusão e o medo de ser  abandonado. A satisfação possível no egotismo é de vaidade e demanda que o  terapeuta o admire, seja seu fã.  

Perls, Hefferline e Goodman (1997) explica que a clínica gestáltica consiste  em:  

“[...] mudar as condições e proporcionar outros fundos de  

experiência até que o self descubra-e-invente a figura: ‘Eu  

estou evitando deliberadamente este excitamento e exercendo  

esta agressão’. Poderá então prosseguir de novo em direção a  

um ajustamento criativo espontâneo” (p.236).  

3.1.2 Função personalidade e Ajustamentos aflitivos

A função personalidade é caracterizada pelas representações que o indivíduo  faz das experiências de contato, ou seja, é uma réplica verbal do self pelo qual  tentamos explicar aquilo que somos através dos nossos comportamentos e  daquilo que vivemos (PERLS et al, 1997). Os excitamentos do ego são  projetados em um horizonte de futuro, que também é uma característica desta  função (MÜLLER-GRANZOTTO & MÜLLER-GRANZOTTO, 2007).

É através da função personalidade que o self desenvolve os valores éticos, a  vida moral, e os diversos modos de conhecimento, como, por exemplo, o  filosófico, científico e religioso. O self pode replicar-se e reproduzir-se a todo  instante, e na função personalidade há a consciência imaginária disto. A função  personalidade é constantemente invadida pelo não contato dos hábitos e  ultrapassada pela criação das funções de ego (MÜLLER-GRANZOTTO &  MÜLLER-GRANZOTTO, 2007).

Perls, Hefferline e Goodman (1997) acrescentam que quando o indivíduo faz  formas neuróticas, a função personalidade é recheada de conceitos errôneos  sobre si mesmo, como introjetos, ideais de ego, máscaras etc. Logo, quando o  indivíduo está em terapia, o mesmo passa a ter uma série de atitudes  compreendidas e vivencia isto em suas relações interpessoais. Como a função  personalidade é transparente e totalmente conhecida, pois o sistema foi  conhecido e compreendido, o indivíduo vivencia isto: “em terapia, é a estrutura  de todas as descobertas do tipo ‘ah, saquei! ’”.

Müller-Granzotto & Müller-Granzotto (2012) ratificam que a função  personalidade é também a forma que o indivíduo encontra de se espelhar no  outro social, onde se sente amparado, reconhecido e, ao mesmo tempo,  incumbido de responsabilidade, logo há uma visão antropológica desta função  de self:

“Ademais, a acolhida da ética aos nossos excitamentos e o  

espaço político para que possamos desempenhar nossos  

desejos são sempre tributários da presença de alguns  

representantes do outro social, como são os amigos, os  

terapeutas, e, inclusive, os inimigos. O que nos permite  

concluir, com base em PHG, que é apenas nos termos da  

função personalidade que a experiência do contato adquire um  

“sentido” ético-político e antropológico” (p.283)

Quando ocorre o comprometimento da função personalidade, o indivíduo faz  ajustamentos aflitivos. Perls et al (1997) não aprofundaram este conceito que  denominaram “misery”, mas iniciaram dizendo que o ajustamento aflitivo seria  uma falha no sistema espontâneo self, ocorrendo uma falha na experiência do contato, e assim o mesmo pára de produzir a função personalidade.  

O self não pára de funcionar, continua se ajustando criativamente, porém esta  forma ocorre nas situações em que se pode verificar um  

“sofrimento ético-político, [que] tem relação com a  

solidariedade, com os pedidos genuínos de inclusão, na forma  

da qual efetivamente atribuímos e reconhecemos o poder do  

semelhante para nos ajudar.” (MÜLLER-GRANZOTTO &  

MÜLLER-GRANZOTTO, 2009).

O ajustamento aflitivo se dá quando o indivíduo não sabe e nem encontra  maneiras de lidar com o dado na fronteira de contato, logo é preciso a ajuda do  semelhante para tal, ou seja, é tão-somente a vivência da impossibilidade da

identificação à determinada personalidade. Müller-Granzotto & Müller Granzotto (2012) citam algumas situações em que (frequentemente) isto pode  ocorrer: nos múltiplos conflitos sociais (econômicos, políticos, étnicos,  religiosos...), os acidentes, fatalidades, emergências, adoecimentos somáticos,  crises reativas, surto psicótico, as situações de exclusão social por conta das  violências de gênero e prisional, dos preconceitos e conflitos ideológicos e  subordinação ao totalitarismo do estado de exceção.  

Aqui, estamos chamando os ajustamentos aflitivos de sofrimento ético-político  e antropológico, porém, é importante “não confundirmos o sofrimento ético político e antropológico propriamente dito com os fenômenos que o possam  desencadear, àquelas situações que podem partir desta experiência”, mas que  deixa o indivíduo no lugar de precisar da ajuda do semelhante, pois sozinho  não está dando conta (MÜLLER-GRANZOTTO & MÜLLER-GRANZOTTO,  2009).  

A intervenção clínica nestes ajustamentos aflitivos é na direção de escutar e  tentar encontrar juntamente com o indivíduo qual a sua necessidade naquele  momento, mostrar e tentar ajudar o indivíduo a reconhecer no semelhante  alguém que pode lhe ajudar, acompanhar o processo de resgate da autonomia  para que possa fazer novos ajustamentos criadores (MÜLLER-GRANZOTTO &  MÜLLER-GRANZOTTO, 2009).

O fazer clínico neste momento não fica no lugar de assistência social, mas  como uma facilitação para que o indivíduo treine e amplie sua autonomia da  função de ego. Müller-Granzotto & Müller-Granzotto (2012) reafirmam que o  clínico é co-participante em uma nova forma de ajustamento criador da pessoa  que está em sofrimento, afinal, mais do que sofrer as consequências de uma  fatalidade ou da exclusão social, é genuinamente pedir ajuda ao semelhante.  “Ademais, a intervenção gestáltica nunca é normativa. Ela não visa “defender”  ou “criticar” uma ideologia especificamente. Trata-se de ajudar alguém a  compreender e fazer sua opção.” (MÜLLER-GRANZOTTO & MÜLLER GRANZOTTO, 2009).

3.1.3 Função Id e Ajustamentos Psicóticos ou de Criação Perls (1981) afirma que:

“[...] O psicótico tem uma camada de morte muito grande, e  

essa zona morta não consegue ser alimentada pela força vital.  

Uma coisa que sabemos ao certo, é que a energia vital, [...]  

energia biológica torna-se incontrolável no caso da psicose [...]  

o psicótico nem mesmo tenta lidar com as frustrações; ele  

simplesmente as nega, comportando-se como se elas não  

existissem” (p.20)

Para falarmos dos ajustamentos psicóticos ou ajustamentos de criação, é  necessário entender primordialmente a função Id, já que segundo Perls,

Hefferline e Goodman (1997) é nela que encontramos a gênese destes  ajustamentos.  

A função Id é entendida como o fundo de vividos do sistema self em que ficam  retidos, excitamentos orgânicos, situações passadas, inacabadas. O ambiente  é percebido de maneira vaga, ou seja, é o meio de contato da atualidade  material na fronteira de contato com a inatualidade temporal, podendo ser vista  como uma retenção ou uma repetição. A retenção é considerada quando são  retidas experiências como forma de hábito, sem conteúdo mais aprimorado. Já  a repetição é este hábito reeditado funcionando como orientação tácita da vida  atual. “Id então surge como sendo passivo, disperso e irracional; seus  conteúdos são alucinatórios e o corpo se agiganta enormemente” (PERLS et al,  1997, p. 187).

O id é um todo espontâneo em sobre o qual não temos controle sobre e que  nos torna impossibilitados de nos desligarmos do mundo, visto que é nele que  ficam as experiências “invisíveis”, que hoje podem não fazer sentido, mas  estão ali cravadas e imantadas à fronteira de contato a qualquer instante. Para  Müller-Granzotto & Müller-Granzotto, (2007)  

“A função id também inclui o fato de essas formas serem  

capazes de imprimir, às nossas experiências cotidianas, uma  

espécie de orientação intencional (awareness) que se  

sobrepõe ao nosso controle judicativo, como se fosse um  

excesso que nunca conseguimos deter ou controlar” (p.8).  

Mediante estas informações acerca da função Id, entende-se que os  ajustamentos de criação se dão por uma “aniquilação de parte da concretude  da experiência” (PERLS et al, 1997), ou seja, um comprometimento em uma  das funções elementares da função id. É também uma fixação do self, onde a  função ego não encontra meios de lidar com o dado na fronteira de contato  devido ao comprometimento, paralisação desta função (MÜLLER GRANZOTTO & MÜLLER-GRANZOTTO, 2012).  

Os autores explicam que esta “rigidez (fixação)” citada por Perls et al (1997) da  função id ocorre quando o indivíduo sente-se demandado de alguma forma (quando nós, como clínicos, por exemplo, dirigimos questões a ele a serem  respondidas); quando muitos excitamentos se doam; ou quando nada se doa.  O cliente precisa fixar-se em algum dado de realidade para poder suportar a  angústia que esta doação/não-doação de excitamentos (“presença ambígua de  excitamentos” ou awareness sensorial) acarreta a ele. É possível perceber esta  rigidez diante dos comportamentos genericamente descritos pela psiquiatria  clássica.  

Lavratti (2012) diz que Sérgio Buarque, em seu verbete no livro “Gestaltês”  afirma que a Gestalt-terapia se utiliza dos conceitos da psiquiatria clássica para  nomear os “sinais e sintomas” apresentados pelo cliente, porém estes “sinais e  sintomas” são vistos de forma autêntica e genuína, do campo da  intersubjetividade, mesmo que de forma ilógica e irracional. Acredita-se que

cada “psicose” é vivida de forma singular pelo indivíduo - até mesmo os surtos  psicóticos não acontecem da mesma forma com a mesma pessoa - que está  imerso em um contexto que deve ser levado em consideração. Evitar ou  ignorar estas criações é o mesmo que anular uma relação terapêutica criativa.

Esse comprometimento da função Id se dá de duas maneiras: os excitamentos  ou não são assimilados e, nesse sentido, retidos como fundo de vividos; ou,  uma vez assimilados, não se integram entre si, de modo a também não se  constituírem como fundo para os novos dados na fronteira de contato. Ou seja,  as experiências podem não ser abandonadas, ou então, quando retidas, não  há uma forma espontânea de se doarem e agirem como orientação intencional  (ou afetiva) para as demandas na fronteira de contato. (MÜLLER-GRANZOTTO  & MÜLLER-GRANZOTTO, 2007).

As causas do comprometimento da função id ainda são muito estudadas,  porém existem hipóteses como aponta Lavratti (2012): origem genética, consequências de uma má oxigenação do córtex cerebral no momento do  parto, algum vírus que possa ultrapassar a barreira hematoencefálica, o uso  abusivo de substâncias psicoativas, pela ausência ou presença ostensiva de  um cuidador ou pela falta de um limitador no campo como parâmetro de  criação de fronteira de inserção com o semelhante.  

Mesmo com este comprometimento da função id, o self não pára de funcionar.  Ou seja, quando isto acontece, o sistema self cria algo diante do dado na  fronteira de contato correlacionado com aquilo que ele não pôde reter ou  espontaneamente responder à demanda. Essa criação vem para substituir os  excitamentos que diante da demanda, ou não havia retenção no fundo de  vividos, ou foi retido de maneira falha ou desarticulada. É neste momento que o  indivíduo delira, alucina ou se ausenta totalmente diante da demanda na  fronteira de contato. Müller-Granzotto & Müller-Granzotto (2012) ratificam que  “a psicose é uma resposta social às demandas por excitamento em ocasiões  em que eles não vêm ou vêm em excesso”.

Os ajustamentos de criação podem ser divididos de três formas: ajustamentos  de preenchimento de fundo, ajustamentos de articulação de fundo e  ajustamentos de defesa contra a demanda ou isolamento (autismos).

3.1.3.1 Ajustamentos de Preenchimento de fundo

Nestes ajustamentos os excitamentos não são retidos no fundo de vividos, logo  o sistema self precisa preencher este vazio de excitamentos, ocasionando os  sintomas melhor explicados abaixo.  

Müller-Granzotto & Müller-Granzotto (2012) explicam que nestes ajustamentos  o indivíduo não tenta aniquilar o dado na fronteira de contato, porém ele  responde à demanda com uma criação, neste caso, as alucinações (auditivas,  visuais, cinestésicas e verbais) que não têm qualquer êxito social, pois são  extremamente bizarras. Estas alucinações são formas que os indivíduos

encontram na realidade de substituir o excitamento que não se doou ou uma  forma de preencher o fundo com fragmentos de realidade, para ficar no lugar  dos excitamentos.

Lavratti (2012) acrescenta:

“O que não está retido aqui; o não disponível tem relação com  

os hábitos de linguagem, com as formas retidas a partir das  

vivências de contato instituídas pela linguagem,  

especificamente pelas vivências culturais em que se busca  

levar, para o campo simbólico, os excitamentos primitivos  

originalmente vividos de maneira intuitiva. A maneira como  

simbolizamos e nomeamos nossas vivências de  

intercorporalidade primária. Parece não haver uma  

possibilidade de estabelecer códigos consensuais de  

linguagem acerca daquilo que é vivenciado com o semelhante”

(p.64)

As alucinações, do ponto de vista dos que a observam, são consideradas  bizarras, pois não fazem sentido e não tem conexão com a realidade, porém  esta percepção em nada ajuda o processo clínico, pois desmerece aquilo que o  indivíduo está vivenciando e nem sempre o mesmo quer abandonar estas  alucinações. Ou seja, as alucinações também cumprem uma função social,  pois é a forma que o indivíduo encontrou para responder às demandas, mesmo  com a ausência dos excitamentos e assim, simular aos demandantes que os  excitamentos existem.  

Müller-Granzotto & Müller-Granzotto (2012) acrescentam que a intervenção  clínica com os ajustamentos de preenchimento é primeiramente não demandar  nada do cliente. Outro ponto importante é acolher os conteúdos alucinatórios e  usá-los a serviço do processo terapêutico, como uma espécie de “jogo”, uma  “atividade” onde se estabelece uma forma de socialização entre terapeuta e  cliente. É importante ressaltar que a alucinação trazida pelo cliente é um indício  da autonomia de sua função de ato, a qual deve ser protegida e ampliada, na  medida do possível, na condição de um “jogo” social viável.

A partir desta socialização é possível estabelecer-se o vínculo cliente terapeuta, e abre-se o espaço para escuta e identificações das demandas  direcionadas ao cliente. Assim, é de extrema importância tentar neutralizar  estas demandas sendo uma forma eficaz a consolidação da rede social com a  família para que a mesma possa ajudar na diminuição destas demandas e  aprenda a usar estratégias para lidar com a inclusão das alucinações de uma  forma mais lúdica.  

Quando estas estratégias são utilizadas de forma eficaz, cria-se a possibilidade  de dar validade à função eu no cliente, ampliando a contratualidade social dos  ajustes por ela produzidos e deixando de ter um caráter meramente  alucinatório. (LAVRATTI, 2012).

3.1.3.2 Ajustamentos de articulação de fundo

Müller-Granzotto & Müller-Granzotto (2012) afirmam que nestes ajustamentos  não há ausência de excitamentos diante das demandas. A hipótese é que os  excitamentos estão disponíveis, porém de forma excessiva e desarticulada, ou  seja, o fundo de vividos não se apresenta de forma articulada e integrada com  o dado na fronteira de contato. A abundância de excitamentos é tanta, que há  várias possibilidades de resposta ao demandante, não havendo a possibilidade  de reconhecer uma dominância, fazendo com que pareça que existem vários  fundos de vividos, ao invés de um só. A função de ato não consegue decidir-se  por um excitamento, nem tampouco ser passiva e deixar-se levar por um  destes. Assim, a função de ato não tem trégua de excitamentos disponíveis e  quer, mais uma vez, fixar-se na realidade:

“A realidade, nesse sentido, é utilizada como se ela mesma  

fosse um objeto de desejo, ou essa totalidade indeterminada  

que ultrapassa os objetos da realidade. Ou, ainda, a função de  

ato articula os objetos da realidade entre si, como se essa  

articulação fizesse as vezes da indeterminação que caracteriza  

os objetos de desejo. Porém, como tal articulação não  

consegue transcender a esfera dos objetos da realidade, não  

há indeterminação de fato. Não há lugar para a dúvida, para a  

curiosidade ou interesse do interlocutor. Tudo fica  

estreitamente determinado pelo uso que a função de ato faz  

dos objetos da realidade, como se o desejo não existisse”

(p.195)

Lavratti (2012) relata que nos ajustamentos de articulação o indivíduo acredita  que as fantasias são a realidade ou que a realidade é a sua fantasia. Sendo  assim, a função de ato estabelece duas estratégias de organização diferentes:  as alienações em contrapartida, as identificações.  

a) Ocorre a alienação quando há o descolamento dos atos sociais ou  demandas (aos quais os excitamentos foram atribuidos) em favor de  alguém ou de alguma coisa concreta na realidade social

A função de ato pode fragmentar o dado de maneira delirante em múltiplas  partes como uma forma de poder atribuir a cada uma delas os múltiplos co dados que se apresentaram. Neste caso, apresenta-se o “delírio dissociativo”,  ou despersonificação;  

Pode também buscar unificá-los, junto ao dado que se apresenta enquanto um  semelhante ameaçador, Neste sentido, deve ser excluído “delírio associativo”,  ou paranóia.

b) Ocorre a identificação quando a função de ato (eu) pode então  “identificar-se” com os atos sociais - demandas aos quais atribuiu os  excitamentos, sendo divididas em Identificação negativa: a função de ato  apresenta-se como um objeto morto, busca uma identificação a um ato que representa a morte e, por extensão, a impossibilidade de ser atingido  por um excitamento, por exemplo, a melancolia;

Identificação positiva: a função de ato (ego) intenciona, nos atos sociais, uma  sorte de ampliação ao infinito do sistema, o que lhe permite sustentar todos os  excitamentos, como por exemplo, os casos de mania.  

Müller-Granzotto & Müller-Granzotto (2012) sugerem que a intervenção nos  ajustamentos onde há alienação e dissociação delirante seja de mostrar ao  cliente que ele tem um espaço favorável e possui diversas alternativas para  poder continuar caminhando e buscando novas formas de alienar seus  

excitamentos, sabendo que ele pode substituir as alienações por outras mais  cabíveis a determinado momento. Assim, ele pode amenizar a angústia que  sente diante da excessiva doação de excitamentos à fronteira de contato e  tentar colocar limite para que esta doação seja, no mínimo, suportável.  

Já na intervenção onde há alienação com delírio associativo ou  despersonificação cabe ao terapeuta mostrar ao cliente que o seu delírio é  importante para poder, mais adiante, o cliente conseguir conhecer o que lhe  ameaça e trabalhar com isto de uma forma mais unificada, facilitando para que  o terapeuta possa caracterizar para seu cliente o valor da representação social  deste delírio. Assim, o cliente começa a saber mais de si e pode encontrar  soluções para suas construções.  

Na intervenção onde há identificação negativa o terapeuta intervém de maneira  que o cliente possa fazer o “luto” das experiências que ele julga ter fracassado,  dos atos que não se articularam para ele como um todo de sentido. O cliente  precisa despedir-se dessas experiências para assim, a função de ato tornar-se  disponível a novos dados e excitamentos, mesmo que desarticulados.  

Já a intervenção onde há identificação positiva lida com limites: como o cliente  não é capaz naquele momento de se impor metas cabe ao terapeuta tentar  pontuar até onde vão os limites do próprio cliente em relação à terapia e aos  laços sociais, para que o cliente possa discriminar quais atos lhe dão maior ou  menor identidade social, ou seja, oferecer limites concretos às investidas  estabelecidas pela função de ato no cliente.  

3.1.3.3. Ajustamentos de defesa contra a demanda ou isolamento  (autismos)

Estes ajustamentos são muito frequentes nas pessoas diagnosticadas com  autismo. O campo social em que a pessoa está inserida está diretamente  ligado ao fato da mesma precisar fazer estes tipos de ajustamentos. O que  talvez explique por que, em determinados momentos, o embotamento afetivo, a  agressividade inespecífica (sem motivação aparente), a forma pueril  (hebefrênica) de lidar com afetos e pensamentos, ou o comportamento autista,  sem qualquer tipo de interação social, tornem-se mais freqüentes do que em  outros momentos.

Entende-se que a gênese dos autismos está no momento em que o indivíduo  se defende da demanda por excitamento, pois o fundo de vividos não se  apresenta diante de determinadas demandas, principalmente àquelas  correlacionadas com afeto propostas pelo meio social. Ou seja, a função de ato  (que produz ajustamentos de isolamento) não encontra na função id excitamentos para responder ao demandante, e assim, tenta afastá-lo.  

Müller-Granzotto & Müller-Granzotto (2012) afirmam:  

“Nossa hipótese está apoiada na observação do  

comportamento dos nossos consulentes, principalmente  

daqueles diagnosticados como autistas. Eles parecem não ter  

a sua disposição hábitos relativos às vivências primitivas de  

interação com o meio. Tudo se passa como se os hábitos  

motores – por meio dos quais retomamos, mais do que os atos  

compartilhados na atualidade da situação, uma espécie de  

cumplicidade em torno de algo indeterminado que aqueles atos  

estariam - não se apresentasse entre nós. Ou ainda, é como se  

os gestos desempenhados pelos sujeitos de atos na  

concretude no agora não visassem uma dimensão atual. Nesse  

sentindo, eles parecem não “esperar” algo inédito, tampouco  

vibrar com a repetição” (p.154).

Os autores seguem explicando que as pessoas que fazem estes ajustamentos  lidam com os sentimentos de uma forma que parece algo aprendido para a  socialização ocorrer e não necessariamente algo que esteja realmente sendo  sentido. Ou seja, os sentimentos não vêm acompanhados de afeto, mas como  uma forma que aquela pessoa aprendeu que “deve ser” para determinadas  situações.

Outra característica comum, advinda do que foi explicado acima, é a  dificuldade em entender as metáforas, as “entrelinhas”, nas “segundas  intenções” no meio social do que é dirigido a estas pessoas. O indivíduo que  faz ajustamentos autistas geralmente não consegue operar com o nível  subjetivo, justamente por não haver a referida doação de excitamentos pelas  demandas de afeto.  

Quando o sistema self identifica a inexistência de excitamentos, como os  exemplos citados acima, ainda assim ele continua a criar, porém neste caso, a  criação se dá como uma defesa para que a demanda por afeto se afaste o  mais depressa possível.

Alguns exemplos destas reações de defesa contra a demanda são os sintomas  descritos pela psiquiatria clássica tais como: a falta de resposta e interesse  pelas pessoas, contato visual exíguo, as expressões faciais empobrecidas,  diminuição de comportamentos não-verbais, dificuldade de iniciar ou manter  uma conversa, padrões restritos, repetitivos e estereotipados do  comportamento (agitação ou torção das mãos ou dedos, ou movimentos  corporais complexos), obsessão por partes de objetos, ausência de ações variadas, espontâneas e imaginárias ou ações de imitação social apropriadas  para o nível de desenvolvimento etc. (DSM-IV, 2002).

Apesar desta dificuldade de estabelecer relações sociais por meio de afetos, as  pessoas que se defendem da demanda, conseguem estabelecer estas  relações por meio de “inteligência social”, ou seja, eles conseguem desenvolver  a função personalidade e conseguem ter uma vida onde se responsabilizam pelo que fazem, assumem determinados papéis sociais, pelos quais  desenvolvem sentimentos de orgulho, desprezo etc., como por exemplo, os  sujeitos diagnosticados com autismo de Asperger5. São sujeitos perfeitamente  bem integrados aos diversos contextos em que o objeto de troca é algum  conteúdo semântico determinado, como uma regra prudencial, uma regra  jurídica, um valor estético, moral, um pensamento ou qualquer forma de  representação social que não tenha conotação afetiva.  

Os autores ressaltam a importância de saber distinguir a diferença entre  sentimentos e afetos: os sentimentos sempre caracterizam comportamentos  claramente definidos no âmbito de cada cultura, e é da ordem dos nossos  conteúdos (semânticos, naturais, morais etc.). Já os afetos referem-se àquilo  que, juntamente com os sentimentos, acusam a co-presença daquilo que não  está claro, do não sentido, dos sentimentos e pensamentos inexplicáveis, ou  seja, assumem um caráter inatual e que não tem correlação com o presente da  relação. Os afetos são o indício de um hábito se repetindo, uma forma que  ocorreu no passado e hoje está inacabada, sendo necessária a repetição da  mesma pelo sistema self.

Nos casos de Autismo de Kanner, há de fato o desenvolvimento da função  personalidade, pois neste caso, a função de ato se defende contra a demanda,  não apenas àquelas que estão correlacionadas com o afeto, como também não  desenvolve a “inteligência social” e por conseqüência as relações sociais. A  função de ato restringe toda e qualquer demanda na fronteira de contato, o que  torna a pessoa isolada quase que totalmente, na forma de um mutismo.

A intervenção nos ajustamentos de isolamento é primordialmente saber que  favorecer o processo de socialização não é o objetivo principal. Outra  intervenção é reconhecer os sintomas e as formas de defesa e a partir disto,  identificar as possibilidades de aprendizado que possibilitam o desenvolvimento  de personalidades.

Esta identificação de demandas vai desde o clínico se observar até ao meio  social em que seu cliente está inserido. Ou seja, é necessário identificar onde  estão as principais demandas de afeto para aquele cliente (rotina familiar, no  trabalho, na escola e na própria relação terapêutica) e tentar neutralizá-las ao  máximo, para que assim, ele não se isole. A intervenção se dá, com muita  sutileza, no sentido de orientar os familiares e pessoas próximas para que os  mesmos consigam também identificar as demandas que geram o isolamento.

 5 Mais informações sobre os tipos e características do Autismo no capítulo 4.

Cabe ao terapeuta entender que a partir disto, a pessoa tem mais chances de  “responder” às demandas, porém não necessariamente de um fundo de vividos  (afeto), mas adquirir uma linguagem pedagogicamente aprendida e adaptada à  determinada situação, mas sem valor emocional. Os sujeitos autistas poderão  adquirir informações, aprender expedientes sociais e exprimir valores e  sentimentos.  

Quando se fala em “linguagem pedagógica” é para ressaltar a importância de  que o trabalho clínico aconteça no mesmo nível do sócio educador, pedagogo  ou do acompanhante terapêutico. Estando neste lugar, o clínico coloca-se entre  os ajustamentos autistas e as demandas sociais, facilitando uma comunicação  objetiva, plena de objetos, que aconteça no nível das coisas e das palavras,  apoiando o cliente nas atividades em que poderão fazer este sujeito assumir  valores e papéis sociais, ou seja, o Gestalt-terapeuta facilitará para a  construção da função personalidade deste sujeito.

O clínico deve evitar ao máximo demandar algo ao cliente, sendo necessário  não demonstrar ter esperanças de rendimento, expectativas para o  crescimento do cliente, ou ao contrário disto, mostrar-se frustrado ou  decepcionado quando algo no processo terapêutico não vai como planejado, e  nem ao menos, comemorar quando há de fato algum avanço nos processos de  aprendizagem. Isto pode ser escutado pelo autista como demandas por  excitamentos, ou seja, causaria o afastamento e prejudicaria o processo de  inclusão pedagógica.  

Até mesmo nos casos de autismo mais severo, como os de Kanner, observa-se  uma boa aceitação no processo de inclusão pedagógica. Com estas  intervenções, o terapeuta colabora para a ampliação da função de ato nos  ajustamentos autistas, sendo assim, o autista responde a partir de algo que foi  aprendido e produzido pedagogicamente na forma de linguagem, ao invés de  responder às demandas com excitamentos que não se apresentam do fundo  de vividos.  

Diante disto, acredita-se que é de extrema importância, não apenas aos  psicoterapeutas, mas aos que lidam diretamente com as pessoas que fazem  ajustamentos de isolamento, que saibam diferenciar afetos de sentimentos,  pois na nossa visão, os ajustamentos de isolamento não devem ser negados,  mas salvaguardados, pois assim há a possibilidade do autista desenvolver sua  “inteligência social” e não precisar se afastar dos demandantes. Os  profissionais, sabendo desta diferença, e procurando não demandar afetos, os  processos educacionais e as relações sociais tendem a ter mais ampliação e  fluidez.  

4. AUTISMO: PSIQUIATRIA CLÁSSICA

A palavra autismo é derivada do grego “autos”, que significa “voltar-se a si  mesmo”. O primeiro estudioso a utilizar este termo foi Eugen Bleuer (1911) quando quis descrever uma das características da esquizofrenia caracterizada  pelo isolamento social (SILVA, 2012, p.159).  

A autora continua descrevendo a história do autismo, relatando que em 1943,  Leo Kanner descreveu, pela primeira vez, 11 casos do que  

denominou distúrbios autísticos do contato afetivo. Nesses 11 primeiros casos,  Kanner percebeu que estas pessoas apresentavam dificuldade em se  relacionar socialmente desde o início da vida, tendo respostas incomuns ao  ambiente tais como: movimentos motores estereotipados, ecolalia (eco na  linguagem), resistências a mudanças, entre outros, além de apego à rotina e  preferência por objetos inanimados em detrimento das pessoas.  

Durante os anos 50 e 60 várias teorias foram elaboradas sobre as possíveis  causas do autismo, e a mais comum era a relação do autismo com “mães frias”  ou “mães geladeiras“, também elaborada por Kanner, onde demonstrava que  estas mães apresentavam certa dificuldade em viver afetivamente com o filho:  mantinham um contato frio, mecanizado e obsessivo, apesar do alto grau de  desenvolvimento intelectual.  

Entretanto, esta crença foi abandonada pela maioria dos países, inclusive pelo  próprio Kanner, e outra teoria veio à tona: o autismo seria um transtorno  cerebral, com início na infância, podendo atingir quaisquer pessoas de classes  e níveis sociais, étnico-raciais. As pesquisas neurocientíficas e genéticas  atestam que o autismo possui causa biológica.  

Silva (2012) acrescenta:  

“Em 1944, Hans Asperger publicou em sua tese de doutorado  

informações que atualmente enquadram-se na síndrome de  

Asperger e cunhou o termo “psicopatia autística” devido a  

capacidade das crianças estudadas em discorrer sobre  

determinado tema minuciosamente. Nesta tese, o autor  

descreveu um transtorno da personalidade que incluía “falta de  

empatia, baixa capacidade de fazer amizades, hiperfoco em  

interesse especial e dificuldade de coordenação motora” ( p.  

160).  

Outra contribuição de grande importância foi da pesquisadora Lorna Wing, que  foi a primeira pessoa a descrever a tríade de sintomas:  

sociabilidade/comunicação/linguagem e padrão alterado de comportamento.  Em 1978, Michael Rutter definiu o autismo baseado em quatro critérios:  

1) atraso e desvio sociais não só como função de retardo mental; 2) problemas de comunicação, novamente, não só em função de retardo  mental associado;  

3) comportamentos incomuns, tais como movimentos estereotipados e  maneirismos; e

4) início antes dos 30 meses de idade.

A partir desta visão, os estudos caminharam nesta direção e pela primeira vez  o autismo entrou no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais  (DSM-III), em 1980b (KLIN, 2006, p.1)

Silva (2012) acrescenta que até 1980 o autismo ainda era considerado uma  categoria da esquizofrenia, ou psicose infantil. A partir deste ano, o autismo  passou a ser considerado um distúrbio do desenvolvimento, o que  proporcionou grandes avanços na ciência com denominações corretas e  critérios específicos.  

No Brasil, o autismo conta com a Associação de Amigos do Autista (AMA),  fundada em agosto de 1983, por um grupo de pais que tinham filhos autistas e  buscavam acolher outros pais, informar e capacitar famílias e profissionais de  todo o país. Desde então a associação realiza encontros, investe em formação  profissional e é referência para muitos brasileiros com o transtorno e suas  famílias. Atualmente vários locais do país têm suas associações, que formam a  ABRA (Associação Brasileira de Autismo) e lutam juntos pelos direitos das  pessoas com autismo em todo o Brasil (SILVA, 2012).

O autismo é uma doença que acomete 1 a 5 casos a cada 10.000 pessoas,  sendo de 2 a 3 homens, para 1 mulher. O diagnóstico é realizado por volta dos  três anos de idade do indivíduo, embora estudos já comecem a identificar  traços para realização de um diagnóstico precoce por volta dos 18 meses de  vida (ASSUMPÇÃO & PIMENTEL, 2000).  

De acordo com Nikolov, Jonker e Scahill (2006), este transtorno, também  chamado de “espectro do autismo” é parte de um grupo de condições definidas  como transtornos invasivos do desenvolvimento (TIDs). Este transtorno  apresenta diversos comprometimentos em várias áreas de funcionamento do  indivíduo e vem acompanhado, geralmente, de um retardo mental.  

Os autores ressaltam que este transtorno é caracterizado pelo DSM-IV e o  CID-10, ambos manuais de psiquiatria. De acordo com os mesmos, há os  seguintes tipos de autismo: transtorno autista, transtorno de Rett, transtorno  desintegrativo da infância, transtorno de Asperger e TID – Sem Outra  Especificação (TID-SOE). No CID-10, eles recebem títulos similares, ainda que  não idênticos. O CID-10 inclui também outras duas categorias: Autismo Atípico  e Transtorno Hiperativo Associado com Retardo Mental e Movimentos  Estereotipados.

O transtorno autista é caracterizado, segundo o DSM-IV-TR (299.00) como um  comprometimento qualitativo da interação social, relativo ao contato visual,  expressão facial e gestos, assim como fracasso em desenvolver  relacionamentos apropriados. Outra característica é a ausência de  reciprocidade emocional, atraso ou ausência total na linguagem falada,  padrões restritos e repetitivos de comportamento.

O transtorno de Asperger (299.08) tem características similares com as acima  citadas e também é caracterizado por insistente preocupação com um ou mais padrões estereotipados e restritos de interesse anormal, em intensidade ou  foco. Não existe um atraso, em geral, na linguagem, nem atraso no  desenvolvimento cognitivo ou habilidades de auto cuidado próprios da idade.

O transtorno de Rett (299.80) é caracterizado por um desenvolvimento normal  pré-natal e perinatal, desenvolvimento psicomotor normal até os cinco meses  de vida. A partir disto, há uma desaceleração do crescimento cefálico, perda  das habilidades manuais voluntárias anteriormente adquiridas, perda do  envolvimento social, incoordenação da marcha dos movimentos do tronco,  linguagem expressiva ou receptiva severamente comprometidas com severo  retardo psicomotor.

O transtorno desintegrativo da infância (299.10) é caracterizado pelo  desenvolvimento aparentemente normal nos primeiros dois anos de vida  próprios da idade, porém a partir disto, começam as perdas das habilidades já  adquiridas como linguagem expressiva, habilidades sociais, controle  esfincteriano, jogos e habilidades motoras. Há o comprometimento qualitativo  da interação social e da comunicação (a criança não consegue responder ao  relacionamentos sociais, fracassa em manter ou iniciar uma conversa, usa a  linguagem de forma estereotipada e repetitiva e perde a habilidade de brincar  de jogos de faz-de-conta).  

O Manual Diagnóstico e Estatístico dos Distúrbios Mentais (4ª edição) é uma  classificação categórica que divide os transtornos mentais em tipos, baseados  em grupos de critérios com características definidas. Utilizando-se a  nomenclatura padrão para definir os transtornos e fornecer instruções  codificadas precisas para diagnósticos, o DSM-IV facilita o diagnóstico, o  tratamento e as análises estatísticas dos transtornos mentais. Este manual é  uma listagem dos códigos do DSM-IV para todas as categorias de transtornos  mentais reconhecidas da Associação Americana da Psiquiatria (APA). O  autismo pode ser diagnosticado a partir de alguns critérios:

A. Um total de seis (ou mais) itens de (1), (2), e (3), com pelo menos dois de  (1), e um de cada de (2) e (3).  

1. Marcante lesão na interação social, manifestada por pelo menos dois dos  seguintes itens:  

a) destacada diminuição no uso de comportamentos não-verbais múltiplos, tais  como contato ocular, expressão facial, postura corporal e gestos para lidar com  a interação social. Silva (2012) acrescenta que as crianças não costumam  atender ao chamado das pessoas, sempre olhando com o canto dos olhos. Os  pais podem vir a pensar que a criança tem problemas auditivos.  

b) dificuldade em desenvolver relações de companheirismo apropriadas para o  nível de comportamento. Os autistas são crianças mais isoladas, pois têm  dificuldade em participar de jogos de interação, ou brincadeiras de roda. São  crianças com hipersensibilidade a determinados sons, o que torna certos ruídos  ou barulhos como algo insuportável. Tapam os ouvidos, gritam e choram.

Muitas vezes apresentam comportamento de muita “birra”, podendo ser  agressivos e violentos ou apresentando comportamento de autoagressão, se  mordendo e batendo-se (SILVA, 2012).  

c) Falta de procura espontânea em dividir satisfações, interesses ou  realizações com outras pessoas, por exemplo: dificuldades em mostrar, trazer  ou apontar objetos de interesse. As crianças autistas, muitas vezes,  apresentam dificuldades em compartilhar momentos, ou por não se  interessarem ou por não apontarem esses compartilhamentos. Silva (2012)  ressalta que as mães mostram brinquedos e as crianças não olham, ou não  costumam trazer brinquedos para brincar.  

d) ausência de reciprocidade social ou emocional. Silva (2012) explica que a  pessoa com autismo tem dificuldade em demonstrar suas emoções como é  esperado, muitas vezes até inadequado. O autista usa formas alternativas de  expressão e cabe a nós ajudá-los e a compreender esta forma de se  expressar. Às vezes, uma criança com autismo pode expressar sua gratidão  com uma pedrinha e manifestar seu amor com um pequeno toque nas mãos e  isto pode ser muito para ele.  

2. Marcante lesão na comunicação, manifestada por pelo menos um dos  seguintes itens:  

a) atraso ou ausência total de desenvolvimento da linguagem oral, sem  ocorrência de tentativas de compensação através de modos alternativos de  comunicação, tais como gestos ou mímicas. É comum usarem as pessoas  como instrumentos ou ferramentas para pegar ou abrir algo para elas.  

b) em indivíduos com fala normal, destacada diminuição da habilidade de  iniciar ou manter uma conversa com outras pessoas.  

c) ausência de ações variadas, espontâneas e imaginárias ou ações de  imitação social apropriadas para o nível de desenvolvimento. Silva (2012) ressalta que à medida que a criança começa a falar, elas  apresentam ecolalia, ou seja, repetem várias vezes alguma palavra ou frase  que escutaram da mãe, na escola ou de um desenho animado.  

3. Padrões restritos, repetitivos e estereotipados de comportamento, interesses  e atividades, manifestados por pelo menos um dos seguintes itens:  

a) Obsessão por um ou mais padrões estereotipados e restritos de interesse  que seja anormal tanto em intensidade quanto em foco.  

b) Fidelidade aparentemente inflexível a rotinas ou rituais não funcionais  específicos.  

c) Hábitos motores estereotipados e repetitivos, por exemplo: agitação ou  torção das mãos ou dedos, ou movimentos corporais complexos.

d) Obsessão por partes de objetos.  

Silva (2012) destaca que este padrão é notado desde muito cedo. As crianças  podem apresentar movimentos repetitivos com as mãos, cabeça, tronco ou  girar objetos (rodinhas, peões, pratos) e ficar olhando fixamente. Um  comportamento comum entre os autistas é abanar as mãos e o antebraço na  altura dos ombros como se tivessem imitando um pássaro voando é, este  comportamento é denominado flapping.

B. Atraso ou funcionamento anormal em pelo menos uma das seguintes áreas,  com início antes dos três anos de idade:

1. Interação social.

2. Linguagem usada na comunicação social.

3. Ação simbólica ou imaginária.  

Silva (2012) acrescenta que o diagnóstico deve ser realizado por um  profissional que tenha conhecimento no assunto e que entenda sobre  desenvolvimento infantil. É necessário estar atento a todos os detalhes da  história de vida daquele indivíduo, até antes mesmo de sua concepção.  

Nesta avaliação o profissional tem que saber como a mãe descobriu que  estava grávida, se fez o pré-natal, como foram as condições da gravidez e as  do feto durante este período. A autora explica que as condições da formação  da criança no ventre da mãe dependem de vários fatores, tais como  fecundação, formação do zigoto, desenvolvimento do feto, características que  podem levar a consequências como desenvolvimento do autismo, más formações e problemas genéticos.  

Outro ponto que a autora destaca é em relação às condições do parto, se  ocorreu tudo como esperado ou quais foram as intercorrências neste momento.  Além das informações de peso, estatura e o perímetro cefálico.  

Após estas fases, o profissional passa a investigar como foi o primeiro ano de  vida da criança: amamentação (houve dificuldades de sucção?), sono (dormia  por muitas ou poucas horas?), apresentava hábitos alimentares restritos,  quando sentou, engatinhou, andou, falou as primeiras palavras. A partir do  segundo ano de vida, o profissional investiga as habilidades sociais (a criança  consegue compartilhar os momentos vividos, interage com outras pessoas ao  seu redor?) e motoras. Em seguida, entre os 3 e 4 anos de idade, observa-se  como foi o ingresso à escola, como a criança brinca e lida com os demais  colegas e com seu mundo. E assim, em cada fase do desenvolvimento, é  preciso ter uma riqueza de detalhes, pois cada um deles é muito importante  para que o profissional dê o diagnóstico preciso.  

Outro ponto importante a ser investigado é como são as relações familiares do  paciente, o histórico clínico dos pais e problemas hereditários. A autora destaca  que o profissional deve ter conhecimento sobre a tríade de base alterada do  funcionamento mental autístico (disfunção na socialização + comunicação + comportamento) e estar atento caso haja sintomas em uma destas  características.  

Recebido o diagnóstico, paciente, família e profissionais têm um leque de  possibilidades. O diagnóstico é encarado com dificuldade, pois os pais  recebem a notícia de algo que não tem cura, porém apresenta tratamento.  Silva (2012) destaca que os tratamentos para este distúrbio têm se mostrado  bastantes eficazes, pois novas portas se abrem em que profissionais de  diversas áreas trabalham em prol da melhora do paciente.  

A Associação de Amigos do Autista (AMA) traz de uma forma bem clara os  principais tratamentos:  

Intervenções psicoeducacionais, orientação familiar, desenvolvimento da  linguagem e/ou comunicação. O ideal é que uma equipe multidisciplinar avalie  e proponha um programa de intervenção. Dentre alguns profissionais que  podem ser necessários podemos citar: psiquiatra, psicólogo, fonoaudiólogo,  terapeuta ocupacional, fisioterapeuta e educador físico.  

Silva (2012) ressalta que o acompanhamento psicoterápico é de grande  importância no que se refere à “reprogramação” do cérebro por meio de novos  estímulos, criando novos caminhos entre os neurônios. Isto ocorre através de  técnicas para modificação de comportamento, trazendo ao indivíduo novos  aprendizados, novas memorizações e novas adaptações. Por isso, é muito  importante que o diagnóstico seja precoce e que a criança comece a fazer o  tratamento o quanto antes, pois quanto mais nova, mais maleável é seu  cérebro e sua capacidade de modificação.  

A autora acrescenta que as possibilidades de tratamento são inúmeras e  variam – para os que têm retardo mental grave - desde o aprendizado das  atividades diárias (tomar banho, alimentação, ir ao banheiro) até o treino de  sutilezas sociais, como entender ironias – para aqueles que apresentam  apenas alguns traços do espectro autista.  

Em todas estas possibilidades o foco é tentar diminuir as limitações da pessoa  autista e resgatar o afeto e as emoções que foram impedidas de emergir.  Os métodos de intervenção mais conhecidos e mais utilizados para promover o  desenvolvido da pessoa com autismo e que possuem comprovação científica  de eficácia são:

TEACCH (Treatment and Education of Autistic and Related Communication  Handcapped Children) é um programa estruturado que combina diferentes  materiais visuais para organizar o ambiente físico através de rotinas e sistemas  de trabalho, de forma a tornar o ambiente mais compreensível, esse método  visa à independência e ao aprendizado.

PECS (Picture Exchange Communication System) é um método que se utiliza  figuras e adesivos para facilitar a comunicação e compreensão ao estabelecer  uma associação entre a atividade/símbolo.

ABA (Applied Behavior Analysis), ou seja, analise comportamental aplicada que  se embasa na aplicação dos princípios fundamentais da teoria do aprendizado  baseado no condicionamento operante e reforçadores para incrementar  comportamentos socialmente significativos, reduzir comportamentos  indesejáveis e desenvolver habilidades.

Medicações: O uso do medicamento deve ser prescrito pelo médico, e é  indicado quando existe alguma comorbidade neurológica e/ou psiquiátrica e  quando os sintomas interferem no cotidiano. Porém, vale ressaltar que até o  momento não existe uma medicação específica para o tratamento de autismo.  É importante o médico informar sobre o que se espera da medicação, qual o  prazo esperado para que se percebam os efeitos, bem como os possíveis  efeitos colaterais.

Por ser um distúrbio crônico, é necessário que os profissionais estejam sempre  atentos ao uso de medicamentos, pois o tratamento acontecerá por longos  períodos e o paciente deve ser monitorado sempre. Além disto, Silva (2012)  aduz que o médico deve informar aos pais os motivos de sua prescrição, seus  benefícios e os efeitos colaterais. A autora informa que os medicamentos  Risperidona e Aripiprazol têm sido amplamente estudados e foram aprovados  pelo FDA (Food and Drug Administration, órgão responsável pelo controle de  alimentos e remédios nos EUA) para serem utilizados em crianças a partir de 5  anos de idade com sintomas causados pelo espectro autista.  

Silva (2012) ressalta que o tratamento medicamentoso é muito importante, pois  atenua sintomas como comportamentos repetitivos, estereotipias, desatenção,  irritabilidade, hiperatividade, impulsividade, alterações do sono. Com a melhora  

destes sintomas, os tratamentos acima citados com diversas especialidades  têm mais eficácia, pois deixam a pessoa mais focada e disposta ao  aprendizado.  

Outro ponto indispensável é lembrar que o tratamento farmacológico só terá  sua eficácia se feito conjuntamente com o tratamento psicológico,  psicopedagógico, entre outros (ASSUMPÇÃO & PIMENTEL, 2000).  

Silva (2012) resume o que foi dito acima, acrescentando que há 10  mandamentos para o bom desenvolvimento da pessoa autista:

1. Tratamento individualizado: a criança precisa ter um acompanhamento  criterioso e personalizado dentro de todas as especialidades de  atendimento, pois cada criança tem sua forma e tempo de aprender.  

2. Currículo adaptado: é importante que as crianças sejam inseridas em  escolas regulares para que haja estímulo da socialização, porém estas  atividades devem ser adaptadas para que a criança esteja sempre o  mais confortável possível.

3. Hiperinvestimento em comunicação: o investimento nesta área tem  que ser constante e traz qualidades positivas para a criança, ajudando  no seu desenvolvimento, pois a mesma aprenderá, no seu ritmo, a  entender a si mesma e ao próximo.  

4. Ensino sistematizado e estruturado: os professores devem ser  orientados e de acordo com a dificuldade da criança, o ensino deve  ser estruturado e baseado em técnicas cientificamente comprovadas.  

5. Engajamento: os especialistas orientam que a criança, além das horas  diárias na escola, deve passar por mais quatro horas diárias em  treinamentos e estimulação do desenvolvimento, tanto pelos pais,  quanto por profissionais de diversas áreas já citadas acima.  

6. Práticas adequadas para o desenvolvimento: a família deve contar  com uma rede de profissionais capacitados que disponham de todos  os recursos relacionados à socialização, aquisição de linguagem,  comunicação e adequação de comportamentos para garantir o bom  desenvolvimento da criança.  

7. Contato com crianças não autistas: é importante que a criança tenha  modelos típicos para aprender a imitar, pois isto propicia estimulações  diferenciadas daquelas obtidas em terapia.  

8. Atividades físicas: são importantes para desenvolver a motricidade e  coordenação motora de maneira adequada, além de serem uma forma  de estimular a socialização  

9. Envolvimento familiar: A família deve estar engajada no tratamento da  criança, visto que sem isso, tudo o que for feito não será realizado  com êxito. A família é parte fundamental antes de qualquer outro  tratamento.  

10. Psicoeducação familiar: a família é responsável também por parte do  tratamento no que se refere à participação e na busca de  

conhecimentos em como ajudar e potencializar o efeito do tratamento  realizado pelos outros profissionais. A família ajuda a multiplicar os  ganhos da criança em tratamento, o que acarretará melhor  

desenvolvimento da mesma.  

5. REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA EM GESTALT-TERAPIA  

O interesse em desenvolver esta pesquisa surgiu diante das dificuldades  encontradas no trabalho com pessoas autistas em uma instituição que atende pessoas (crianças, adolescentes, adultos e idosos) com necessidades  especiais de vários tipos.  

Dentre estas necessidades especiais, a que mais capturou foi o trabalho com o  autismo. Até então, nunca havia tido contato mais próximo com pessoas  autistas e o que mais causava impacto era o fato destas pessoas parecerem  viver em um mundo paralelo, de se posicionarem diante do mundo a sua volta  de uma forma tão peculiar e imprevisível. Porém surge o questionamento: que  pessoa é previsível ou, se vista de perto, não é, no mínimo, extremamente  peculiar e misteriosa? Quais dos comportamentos humanos são algo realmente  encaixado dentro dos ditos “padrões da normalidade”? A resposta mais fácil de  ser dada é: claro que todo ser humano é único e um eterno vir-a-ser, logo pode  esperar-se tudo dele.  

Falando dessa maneira, julga-se simples, mas no trabalho com autismo  identifica-se que isso é muito mais profundo. É estar diante de uma pessoa e,  na maioria das vezes, não saber o que fazer, por onde começar, como  estabelecer um vínculo. E o sentimento que emergente e primeiro é: calma. Um  dia de cada vez, um atendimento a seu tempo, um minuto (que pode demorar  bastante para passar) pode ser precioso.  

Percebe-se que no trabalho com autismo aquilo que se aprende na faculdade,  desde o primeiro dia, talvez, seja executado da forma mais intensa e genuína.  Ter calma, segurar a ansiedade por respostas, esperar o tempo do cliente,  acompanhá-lo sem falar nada, acolher, e vivenciar o encontro terapêutico das  mais diversas maneiras possíveis – essas sim não se encontram nos livros,  nem nas aulas, nem nas pesquisas: ela simplesmente vai acontecer.

Juntamente com isto, algo que chama bastante atenção era a falta de  pesquisas publicadas em Gestalt-terapia sobre o tema. Logo, trabalhar com  pessoas diagnosticadas com autismo a partir da visão da Gestalt-terapia  tornou-se uma dificuldade e um desafio ainda maior, pois não havia  embasamento teórico diverso e necessário para tal.  

Mesmo com estas dificuldades, algo que hoje é possível identificar e que  funcionou como norte nos atendimentos foi o que Perls (1997) apud Ribeiro  (2010) em seu texto ‘Da dificuldade de “conversão” à mentalidade gestáltica’  ressalta quando explica que a Gestalt-terapia é “a abordagem original, não  deturpada e natural da vida”. Ou seja, por mais que não houvesse um vasto  aporte teórico ou manual de como se dá a prática gestáltica com autismos,  ainda assim era possível fazer Gestalt-terapia. Pois a mesma é natural a todos.  

A partir disso, foi possível (re)conhecer e (re)experienciar que a pessoa não se  resume a um diagnóstico fechado e que está a todo momento fazendo  ajustamentos criativos que sejam possíveis em cada experiência e assim, está  em contínua busca por sua melhor forma no mundo. Como já referido acima,  Perls (1997) confirma quando ressalta que “A Gestalt-terapia é um método  muito operante para ser reservado unicamente aos doentes”. Ou seja, o  humanismo e a Gestalt-terapia são visões de mundo que consideram o homem como um sistema global inserido em subsistemas com uma interdependência  circular. Estas pessoas categorizadas pelos manuais de psiquiatria clássica se  encaixam nos sintomas que ali são especificados, porém cada uma a seu  tempo, forma e momento existencial.  

As estereotipias e o diagnóstico antes dos três anos de idade são algumas das  características que as pessoas começam a apresentar e que fazem os  profissionais darem o famigerado diagnóstico de Autismo.  

Sim, o diagnóstico ainda é algo muito difícil para a família. Apesar da  divulgação dos conhecimentos sobre este transtorno, identificam-se nas  famílias que recebem o diagnóstico, relatos como “meu mundo caiu”, “eu queria  morrer”, “meu filho não é normal”, “o que eu fiz de errado?”, “não sei como lidar  com meu filho”, “tenho fé que um dia ele vai ser curado”, “demorei muito tempo  para aceitar”, “hoje sou conformada”, “meu filho é minha vida”.

Na referida instituição, estes eram alguns dos relatos, dados principalmente  pelas mães, que eram 90% dos acompanhantes das crianças. Essas mães  eram peças fundamentais durante os atendimentos, pois pelo fato de lidarem  diariamente com seus filhos, conseguiam expressar de forma ímpar o que cada  gesto, olhar, choro, grito, significava. Com isto, era possível perceber que  entender e interagir com uma pessoa autista não é um “bicho de sete cabeças”,  mas sim um exercício de enxergar novas perspectivas de interação que são  totalmente diferentes das que se está acostumada. É preciso entregar-se à  relação, sentir o que vem dela e assim, atuar, seguir em frente.  

Trabalhar com estas mães, era também de grande aprendizado pessoal, pois  era inevitável encontrar os atravessamentos de ser mãe de uma criança  totalmente diferente do que um dia foi idealizado, ver mães cansadas,  sobrecarregadas, muitas vezes sem muitas condições financeiras e que não  tinham ajuda de outras pessoas para criarem seus filhos. E assim, via-se de  tudo: mães impacientes, mães amorosas, mães permissivas, mães agressivas  – tudo misturado em uma mãe só.  

Estes atravessamentos reverberavam no trabalho como um todo: ausência de  motivação para trabalhar, fracasso e frustração. Outras vezes aquele trabalho  se tornava fantástico, motivador e promissor. O fato de não ter tanta  experiência clínica, trabalhar com autistas faz o mundo se apresentar de outra  forma e percebe-se a sensação de que a partir daquele momento trabalhar  com qualquer pessoa torna-se mais viável, devido ao fortalecimento pessoal e  profissional que esta experiência gerou.  

Olhando para trás, e revivendo muitos momentos escrevendo este trabalho,  percebe-se com mais clareza o quanto esta experiência foi rica. Compreende se que as falhas são inevitáveis e que com as pesquisas realizadas até o  momento presente, identifica-se o quanto é possível agir de formas mais  completas e diversas.

Esta prática continua sendo muito desafiadora e enriquecedora, percebendo-se  as limitações de forma mais clara e a escolha deliberada por não trabalhar  mais com este público. Vê-se que o compartilhamento destes sentimentos e  vivências é algo que não foi encontrado na literatura e que dificultou o início da  prática com ajustamentos autistas. Conversar com colegas – não só da mesma  área, mas também pedagogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos,  médicos, - tornou-se uma maneira muito rica de entender que as dificuldades  eram sentidas por outras profissionais e que o fato de ser iniciante e recém formada não significava falta de aptidão e que as barreiras existiam  independentes do tempo de experiência, mas sim diante de cada novo cliente  que chegava aos consultórios destes profissionais.  

Tudo isto se torna fundo diante daquilo que emerge da relação e do campo  estabelecidos entre terapeuta e cliente.  

Por ter esta visão de ser humano, é que falar-se-á de Autistas e sim de  pessoas que fazem ajustamentos autistas, pois a pessoa é dotada de limites e  possibilidades que vão muito além de um diagnóstico. Os ajustamentos são  apenas parte de um indivíduo.  

Ratifica-se esta visão com o que Ginger & Ginger (1995) explicam, acima  citado: Para a Gestalt-terapia um bom fluxo dos ciclos de figura-fundo são  considerados estados de “boa saúde”, ou seja, a psicoterapia incentiva que a  pessoa faça a formação de formas flexíveis, adaptadas ao meio em que estão  inseridas, fazendo ajustamentos criativos permanentes. Sendo assim, a  Gestalt-terapia é considerada uma “arte da formação de boas formas” (GINGER & GINGER, 1995).  

A expectativa enquanto psicoterapeuta é estar diante de um cliente que fale de  suas demandas, que se reclame, chore, reaja de diversas maneiras, porém  lidar com pessoas que fazem estes ajustamentos foi, na maioria das vezes, um  sentimento de invisibilidade, pois estas pessoas reagem e estão no mundo de  outra forma. Isto divergia com as expectativas próprias, pois não havia o  retorno esperado do trabalho. Essa sensação de invisibilidade era comum até  mesmo porque uma das características mais fundamentais do autismo é reagir  contra a demanda, então sempre que era demandado algo, a sensação de ser  invisível se apresentava.

Quando o atendimento iniciava ou terminava, por exemplo, pedia-se para que  os clientes tirassem os sapatos para ficarem mais a vontade na sala. Esse ato  tão simples era encarado de diversas maneiras por cada um deles: uns  atendiam ao pedido, outros choravam, outros tiravam o sapato, mas só  andavam na ponta dos pés. Outros choravam e relutavam para ir embora da  sala e fugiam quando eu dizia que o tempo da sessão havia acabado. Estas  ainda são consideradas reações, mas para muitos nenhum comando ou  proposta de trabalho era atendida.

Nos casos de maior comprometimento, como por exemplo, de uma garota de  13 anos, diagnosticada com autismo clássico de Kanner, a qual entrava na sala, não falava, não se interessava por nada, balançava-se de um lado para o  outro e algumas vezes gemia. Naquele atendimento não havia interação  alguma de forma direta. O trabalho com ela era puramente sensorial, onde ela  poderia experimentar contato com o mundo através de seus sentidos, porém,  ainda assim as respostas eram poucas. Sem dúvida, este era um caso  cansativo, desafiador e frustrante.  

Por mais frustrante que sejam estes relatos, não há algo que tenha gerado  mais aprendizado de que o tempo no atendimento gestáltico é sempre  composto pelo que o cliente consegue fazer no momento e o que o campo  pode influenciar também. A Gestalt-terapia adota o pensamento dialógico de  Martin Buber que ratifica o que foi relatado, pois este pensamento traz a teoria  de que na situação terapêutica são importantes tanto o cliente, quanto o  terapeuta, acreditando que a relação estabelecida também faz parte do  fenômeno que ocorre no campo e é de serventia para o processo.  

Trabalhar com o fato de que os ajustamentos autistas são caracterizados por  uma dificuldade de retenção de dados no fundo de vividos antes era algo  inimaginável. Isso gerou uma demora maior para assimilar que isso seria  possível. Porém, com os estudos e a experiência percebeu-se teoria gestáltica  sobre os ajustamentos de defesa contra a demanda faz todo o sentido.  

Müller-Granzotto e Müller-Granzotto (2012) ratificam que a gênese dos  autismos está no momento em que o indivíduo se defende da demanda por  excitamento, pois o fundo de vividos não se apresenta diante de determinadas  demandas, principalmente àquelas correlacionadas com afeto propostas pelo  meio social. Ou seja, a função de ato (que produz ajustamentos de isolamento)  não encontra na função id excitamentos para responder ao demandante, e  assim, tenta afastá-lo.  

Demanda. Isso é algo que inevitavelmente um psicoterapeuta (talvez, ainda  mais, quando se é recém-formada) apresenta em grande quantidade.  Demanda para que o trabalho seja excelente, com efeito, e que traga respostas  ao mundo profissional e pessoal.  

Esta é a primeira lição básica diante de uma pessoa que faz ajustamentos  autistas. Müller-Granzotto e Müller-Granzotto (2012) exemplificam: O clínico  não deve demandar de forma alguma,  

Ela vai se defender de toda e qualquer demanda que venha em sua direção e  que não possa ser respondida. Gritos, autoagressões, agressões contra o  psicoterapeuta, fala descontrolada, ausência de fala e outras inúmeras reações  contra a demanda era o que mais provocava a vontade de desistir dos  atendimentos. Difícil mais uma vez entender que qualquer demanda, por mais  simples que fosse, teria que ser eliminada. Mas o que seria essa demanda?  Como um psicoterapeuta consegue não demandar?  

Esse foi e continua sendo o maior exercício. O que fazer então diante de uma  pessoa “autista”? Estudar, pesquisar e principalmente fazer a psicoterapia pessoal, pois se atender uma pessoa que faça interrupções de contato através  de ajustamentos de evitação é um desafio, atender pessoas que não tem  dados retidos no fundo de vividos e reagem diante de suas demandas é mais  desafiador ainda.  

O trabalho com estas pessoas é procurar estar, primeiramente, visível para as  demandas pessoais, para depois conseguir estar “não-demandante” e assim,  começar a estabelecer um vínculo nestes atendimentos. Tornar-se invisível ao  outro foi a maneira mais genuína encontrada de estar mais próxima e assim  tornar-se presente, um pouco a cada dia: ganhar um abraço, ter a resposta a  uma pergunta e poder experimentar as formas mais imagináveis de interação.  É estar atento e disposto a fazer os ajustamentos mais criativos possíveis.  

Alguns casos marcantes a referida atuação mostram o quanto eram variáveis  as formas dos meus clientes se mostrarem no mundo e de responderem às  demandas, na medida do possível, do atendimento.

M., 6 anos se machucava muito, quando contrariado jogava todas as cadeiras  da sala no chão, fazia bastante barulho, gritava agudamente, era quase  ensurdecedor. Com o tempo, passou a gostar de carinho, se aproximava para  receber um cafuné. Apresentou várias formas de estereotipia: no início colocava a mão na boca e no olho; batia com a cabeça no chão e depois  chorava de dor. Era acompanhado pela mãe e pelo pai: ficava muito mais  calmo quando o pai ia com ele. A mãe era muito impaciente: ficava agitado em  sua presença.

Neste caso, entende-se a estereotipia como uma defesa contra a demanda,  pois estar em uma sala com uma pessoa (psicoterapeuta) inicialmente  desconhecida que o chamava para entrar na sala (afastando-o do pai ou da  mãe), falava com ele e estava por perto quando ele tentava se auto agredir, era  algo que não estava retido em seu fundo de vividos (função id), ou seja, não  havia resposta. Logo, o que se apresentava na fronteira de contato era  justamente o ato de afastar a demanda. Com o passar do tempo, M. já não  sentia a necessidade de se defender contra essas demandas.

Outras demandas percebidas eram as da mãe. O fato de M. ser muito agitado  e não obedecer aos comandos dela deixava-a bastante irritada, em alguns  momentos gritava e o pegava no braço com força. Logo, M. apresentava mais  comportamentos repetitivos e estereotipias, inclusive nos atendimentos, ao  contrário de quando o pai o acompanhava. O garoto ficava visivelmente mais  calmo, pois o pai o deixava mais livre, correndo na quadra de esportes e por  toda a instituição; respeitava o seu tempo e o chamava pelo nome com  paciência. M. parecia não precisar se defender contra essas demandas.  

Em ambos os casos, a intervenção adotada era a de tentar neutralizar ao  máximo estas demandas. Nos atendimentos era esperado o tempo do cliente  para que partisse dele qualquer demanda por atividade. Com isso, ele  conseguiu ficar mais a vontade e estabelecer um vínculo mais próximo. Em  algumas sessões se aproximava e colocava a mão na cabeça pedindo carinho, outras inventando uma brincadeira de entrar e sair de baixo da mesa, sempre  partindo dele o convite para a minha entrada no jogo.

Já a intervenção com os pais se deu na direção de escutá-los e tentar  conscientizá-los de que nem sempre os filhos atenderiam suas demandas e  que seus comportamentos e atitudes refletiriam diretamente na evolução e  crescimento do filho. Através disto, é possível identificar o que é demanda para  o cliente e tentar neutralizá-las juntamente com os pais.  

L., 5 anos, gostava de carinho; se aproximava e virava de costas pra receber  carinho nas mãos; respondia quando pedia-se abraço; gostava de carros e  tudo que tinha rodas; ficava horas concentrado nos movimentos repetitivos dos  brinquedos. Andava na ponta dos pés sempre, mesmo sem ter nenhum  comprometimento físico. A mãe era muito afetuosa e interessada nos  atendimentos e progresso do filho.  

Neste caso, identificava-se que L. não precisava se defender e afastar a  demanda quando era relacionada a contato físico. Uma hipótese seria  compatível com o que os autores Müller-Granzotto e Müller-Granzotto (2012)  expõe sobre as pessoas que fazem ajustamentos autistas em relação aos  sentimentos: muitas vezes o sentimento é mais utilizado como uma maneira de  se inserir socialmente do que uma forma sentida de fato, ou seja, como o  indivíduo aprendeu que “deve ser” em determinadas situações.  

Foi possível perceber que uma defesa contra a demanda poderia ser quando L.  experimentava colocar os pés no chão totalmente. Quando isto era proposto, L.  mostrava-se inquieto e voltava a andar na ponta dos pés. Como ele não  apresentava dificuldades com o contato físico de outras formas, as  intervenções eram bastante sensoriais, onde era proposto a L. o contato com  diferentes texturas e sons diversos.  

A., 7 anos, era calmo e chorava por 30 minutos seguidos no atendimento e só  se acalmava nos últimos minutos do atendimento. Ficou agressivo no meio:  batia nos colegas, me olhava e ria, me sentia manipulada. A mãe era muito  permissiva, não conseguia dar ordens e ela mesma admitia isso, falou que  todas as pessoas chamavam sua atenção, pois não tinha pulso firme com o  filho.  

Um exemplo desta aproximação, foi quando, ao entrar na sala, A. pegava no  meu pé, indicando para eu tirar os sapatos. Ele tirava os dele, eu os meus e eu  esperava ele me convidar para o setting terapêutico. Os atendimentos  aconteciam em uma sala onde contava-se com uma rampa, bolas, brinquedos,  túnel de pano, espelho e tapete de borracha. Quando A. chegava muito agitado  e ficava correndo de um lado pro outro da sala, a atitude era de brincar  sozinha, mas sem demandar a presença dele. Quando era de seu interesse ele  se aproximava e assim se mostrava disponível para ter uma companhia na  brincadeira.

Certo dia a intervenção foi de deixá-lo livre e não demandar nada. Ele correu  por toda a instituição, gerando insegurança, pois estava-se responsável por  sua integridade física e pelo que os outros iam pensar, porém ao mesmo tempo  entendia-se que aquilo era importante para a relação cliente-terapeuta. Depois  disso, ele vinha aos atendimentos mais disposto próximo fisicamente.  

Os sentimentos e sensações durante estes atendimentos eram os mais  variados possíveis: cobrança pessoal e dos pais por uma melhora no quadro  de seus filhos. A responsabilidade era muito grande, pois muitos se auto  agrediam e durante o tempo do atendimento a responsabilidade por sua  integridade física é do psicoterapeuta, dentro do possível. Diante disto, cada  atendimento gerava várias formas de sentimentos e sensações. Quando havia  interação, por mínima que fosse, havia a sensação de satisfação e motivação.  Em alguns momentos o sentimento era de não querer nunca mais voltar para o trabalho e que ele de nada servia. Outras vezes sentia-se que se houvesse paciência, as coisas iriam acontecer ao seu tempo. Olhando para trás, hoje é  possível enxergar que era uma verdadeira “montanha russa” de emoções, pois  em alguns minutos havia felicidade com o trabalho, outras, frustração total.  

Foi possível aprender que, principalmente através dos autores Müller-Granzotto  e Müller-Granzotto, o trabalho com autismo é muito no sentido pedagógico:  Quando se fala em “linguagem pedagógica” é para ressaltar que a importância  do trabalho clínico deve acontecer no mesmo nível do sócio educador,  pedagogo ou do acompanhante terapêutico. Estando neste lugar, o clínico  coloca-se entre os ajustamentos autistas e as demandas sociais, facilitando  uma comunicação objetiva, plena de objetos, que aconteça no nível das coisas  e das palavras, apoiando o cliente nas atividades em que poderão fazer este  sujeito assumir valores e papeis sociais, ou seja, o Gestalt-terapeuta facilitará  para a construção da função personalidade deste sujeito.

Diante desta forma de intervenção, muitas vezes havia o sentimento de ser uma pedagoga, e não uma psicóloga. Este era um questionamento frequente,  pois não me havia a sensação de estar atuando naquilo que era esperado.  

6. CONCLUSÃO

O trabalho com pessoas que fazem ajustamentos de defesa contra a demanda já é por si só desafiador. Deparar-se com um mundo ainda mais diferente do  habitual, onde afetos são considerados ameaças ou simplesmente não  apresentam resposta e precisam ser afastados, torna o trabalho com este  público uma nova forma de enxergar o mundo.  

No trabalho com autismos, um olhar de um apenas segundo do cliente para o  psicoterapeuta equivale a uma ótima evolução de um trabalho de meses; Um  convite para entrar na brincadeira que o cliente construiu equivale a um ganho  

imenso, dando fim à sensação de ser invisível como muitas vezes é sentida  nos atendimentos.

Ou seja, para trabalhar com estes ajustamentos o psicoterapeuta precisa estar  preparado teórico e pessoalmente, para conseguir identificar as demandas que  o cliente, psicoterapeuta, família e sociedade apresentam, tentando assim  neutralizá-las na medida do possível e tentar proporcionar aos indivíduos que  fazem ajustamentos de isolamento um mundo mais tranquilo de ser vivido e  menos demandante daquilo que não tem resposta.  

Sendo a Gestalt-terapia uma abordagem relativamente nova e com um  passado focado em práticas e experimentos, a mesma foi por um tempo uma  abordagem com certas limitações bibliográficas, porém o cenário atual vem  colocando este passado em seu devido lugar.  

Por isso, é de extrema importância identificar que muitas demandas como o  Autismo, o qual fica cada vez mais conhecido e presente no cotidiano dos consultórios e da vida de um modo geral, necessita de mais produção  acadêmica no intuito de fortalecer a prática clínica, a comunidade acadêmica e  consequentemente a sociedade de um modo geral.  

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YONTEF, G.M. Processo, diálogo e awareness: ensaios em Gestalt  terapia. São Paulo: Summus, 1998 

Endereço para correspondência:

Marina Nogueira de Barros

E-mail: marinanbarros@gmail.com

Recebido em 17/04/2014

Aprovado em 03/09/2014

NOTAS

Psicóloga formada pela UNAMA desde janeiro/11 e especialista em Psicologia  Clínica com ênfase em Gestalt Terapia pelo Centro de Capacitação em Gestalt  Terapia (CCGT) desde fevereiro/13. Além do trabalho no consultório, já atuou  como psicóloga clínica em uma instituição de pessoas com necessidades  especiais e realizou atendimento clínico domiciliar a idosos e pacientes  acamados. O consultório particular fica em Belém-Pa e atende crianças,  adolescentes e adultos.

Revista IGT na Rede, v. 11, nº 20, 2014, p.193-241 DOI 10.5281/zenodo.15048363

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526