ARTIGO

A luta de uma mulher contra a dependência química: Um olhar  da Gestalt-terapia

The struggle of a woman against addiction: A look at Gestalt-therapy

Aline Fagundes Silva

Alexandre Carbonera

Josiane Aparecida F. de A. Prado

RESUMO:

O presente estudo foi realizado a partir da junção do Trabalho de Conclusão de  Curso (TCC) da graduação em Psicologia da Universidade do Vale do Itajaí  (UNIVALI) e da disciplina eletiva de Gestalt-terapia. Nesta disciplina, em uma  das avaliações, deveria ser escolhido um tema para ser discutido sob o  enfoque dos conceitos da Gestalt-terapia, de preferência a partir de uma  vivência prática realizada durante a graduação. O tema escolhido foi a  dependência química, que será relatado e discutido a partir da experiência de  uma das participantes do TCC, com o olhar da Gestalt-terapia. Esta mulher se  encontrava em tratamento para dependência de Substâncias Psicoativas (SPA)  em uma Comunidade Terapêutica (CT) exclusiva para mulheres. Os termos  trabalhados foram figura-fundo, parte-todo, awareness, ajustamento criativo e  contato.

Palavras-chave: Gestalt-terapia; Dependência química; Mulher.

ABSTRACT:

The present study was carried out from the junction of the Completion of  Course Work (TCC) of undergraduate psychology course from the University of  Vale do Itajaí (UNIVALI) and the elective Gestalt Therapy subject. In this  subject, in one of its analysis, a topic should be chosen and discussed,  considering the focus of the concepts of Gestalt therapy, preferably from a  practical experience experienced during the graduation period. The theme  chosen was the chemical dependency, and this topic will be reported and  discussed based on the experience of one of the members of the Completion of  Course Work, taking into consideration the vision of Gestalt therapy. This  woman was in treatment for addiction to psychoactive substances (PS) in a  Therapeutic Community (TC) exclusively for women. The terms worked were  figure-ground, part-whole, awareness, creative adjustment and contact. 

Keywords: Gestalt therapy; chemical dependency; Woman.

Gosto de pensar no processo de  

vida de cada pessoa como um  

riacho que começa em algum  

lugar secreto e serpenteia até  

um mar ainda desconhecido.  

Janie Rhyne  

INTRODUÇÃO

Este estudo surgiu da junção do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da  graduação em Psicologia da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) e da  disciplina eletiva de Gestalt-Terapia. O TCC1está cadastrado no Comitê de  Ética da Universidade sob o parecer número 264/11.

O TCC teve como objetivo proporcionar as mulheres que estavam residindo na  CT, um espaço de escuta aos seus anseios e exposição dos seus  pensamentos sobre temas que consideravam essenciais em suas vidas, como  a família, religiosidade, educação, trabalho e lazer. A pesquisa constitui-se em  qualitativa exploratória, sendo utilizado como instrumentos uma entrevista  semiestruturada inicial, seguida de uma intervenção baseada em um grupo  focal, que consistiu na exibição e discussão de sete filmes cinematográficos, e  uma entrevista semiestruturada final. Para a análise dos dados foi utilizado a  Análise de Conteúdo. Os resultados apontaram que esta estratégia teve a  capacidade de motivar as participantes a continuar o tratamento, bem como  possibilitaram o resgate de acontecimentos passados e a resignificação destes  no presente. Além disto, ficou evidente que os encontros foram além das  exibições dos filmes, e que o simples fato de os pesquisadores estarem lá já  era de grande importância para as residentes.

A disciplina eletiva de Gestalt-terapia constou de um simpósio no qual deveria  ser realizada a articulação teórica da abordagem e um tema estudado durante  a graduação. O recorte deste texto será sobre uma das mulheres participantes  do TCC, a quem chamaremos de Íris2.

DEPENDÊNCIA EM SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS

A dependência em substâncias psicoativas (SPA) se constitui em um dos  maiores problemas de saúde, segurança e assistência social da atualidade.  Portanto, buscar uma maior compreensão deste fenômeno é um grande  desafio para os profissionais de diversas áreas de conhecimento, poder  

 1 Trabalho de Iniciação Científica intitulado “Psicologia e cinema: um encontro possível no tratamento de mulheres dependentes em substâncias psicoativas?”. 2012.

2Nome fictício

público, instituições religiosas, sistema educacional, enfim, a toda sociedade.  Este fenômeno repercute na forma de acidentes de trânsito, violência  doméstica, doenças sexualmente transmissíveis (principalmente em mulheres),  desemprego, furtos, transtornos psicológicos, morte, entre outras.

A grande maioria de dependentes em SPA são homens, mas dentro deste  cenário, nota-se nas últimas décadas um aumento considerável do consumo de  SPA entre as mulheres (WOLLE e ZILBERMAN, 2012), fato que atualmente  pode ser amparado quando comparado o I Levantamento domiciliar sobre o  consumo de SPA de 2001 (CARLINI, GALDURÓZ, NOTO e NAPPO, 2002),  com o II Levantamento de 2005 (CARLINI, GALDURÓZ, SILVA, NOTO,  FONSECA, et al. 2006), onde resultados apontaram um aumento de  dependência e consumo na maioria das SPA entre as mulheres. Outro dado  que o segundo levantamento traz, é que a utilização de substâncias entre  adolescentes de ambos os sexos praticamente se equivale, o que pode  acarretar um número maior de dependentes de SPA mulheres num futuro  próximo.

Alguns tipos de tratamento disponíveis para os dependentes são a  desintoxicação, as estratégias medicamentosas, os grupos de autoajuda, a  redução de danos, os tratamentos psicossociais e as internações de longo  prazo, estas últimas realizadas principalmente pelas Comunidades  Terapêuticas (CT) (DE BON e KESSLER, 2008). Algo que estes tratamentos  têm em comum é seu baixo índice de eficácia, visto que a maioria das pessoas  que começam o tratamento o abandona e/ou recaem após o término (RIBEIRO  e LARANJEIRA, 2012).

GESTALT-TERAPIA

.A Gestalt-terapia tem como seu precursor Frederick Salomon Perls que propôs  a criação desta abordagem. Perls utilizou conceitos de outras áreas filosóficas  e metodológicas (GINGER, GINGER, 1995), estando entre elas o Humanismo,  Existencialismo, Fenomenologia, Psicologia da Gestalt, Teoria de Campo,  Teoria Organísmica Holística, Zen Budismo e outras religiões orientais. Seu  estilo inconformista e rebelde moldaram os pressupostos teóricos e a prática  clínica desta abordagem, e, além destes aspectos, outros elementos da vida de  Perls influenciaram o desenvolvimento desta teoria, como por exemplo, sua  formação médica, a experiência psiquiátrica e psicanalítica, participação em  aulas de teatro, as leituras, a curiosidade, a sensibilidade aguçada e o fazer  profissional (PIMENTEL, 2003).  

A Gestalt-terapia promove a ideia do homem como centro, com seu valor  positivo, com capacidade de se autogerir e regular, valorizando o ser humano e  suas potencialidades (RIBEIRO, 1985). Para o mesmo autor a Gestalt-terapia  busca trabalhar o que o Homem tem de positivo no momento em que está  experienciando, e que ele, o Homem, é responsável por suas escolhas e  decisões de mudança, visto que cada instante é uma possibilidade nova que se  apresenta. 

Os princípios da Gestalt-terapia reforçam a ideia de que estamos sempre  inseridos em um campo, e envolvidos em uma relação de intersubjetividade na busca do ato de amar e ser amado, ser reconhecido, solucionar problemas,  alcançar objetivos e metas, realizar desejos, satisfazer as necessidades, tendo  como intuito principal a autorrealização existencial. 

A vida naturalmente traz obstáculos as realizações pretendidas, e algumas  destas intempéries podem paralisar o ser humano, prejudicando seu  crescimento, gerando frustrações que podem evoluir para transtornos  psicológicos (NUNES, 2008). Nesse sentido, a Gestalt-terapia se apresenta  como uma abordagem que pode fazer o Homem retomar seu crescimento e  fechar suas gestalten. Para tanto esta abordagem trabalha com alguns termos,  que representam a maneira como esta abordagem entende o ser humano e  suas relações, sendo alguns deles Figura-fundo, Parte-todo, Contato,  Awareness e Ajustamento Criativo.  

Figura-fundo são indivisíveis, ou seja, um não existe sem o outro. Fazem parte  de um processo dinâmico, pois o que é figura em dado momento, pode  posteriormente, voltar ao fundo. Portanto, falar em figura-fundo é falar em  reciprocidade, em algo onde observador e objeto observado se incluem e se  confundem, tornando-se interdependentes de tal maneira que não se pode  afirmar que um é causa do outro, “conquanto talvez se possa dizer que um é  ocasião para que o outro emerja de uma totalidade circunstante” (RIBEIRO,  2006, p. 123)  

O conceito de Parte-todo é fundamental para a compreensão da Psicologia da  Gestalt (RIBEIRO, 1985), tendo influenciado a gestalt-terapia. Ribeiro (1985) destaca que quando o indivíduo se depara com algo, a sua percepção a capta  como um todo, e a seguir, é percebido suas partes, o que o autor afirma que o  todo é anterior às suas partes, e atualiza a essência da coisa no instante que  está inteiro e completo. Dessa maneira, o todo e parte se referem a percepção  de estruturação da experiência humana, e no que diz respeito a percepção,  esta vem sempre estruturada, e ao introduzir um novo elemento leva a  percepção de uma nova estrutura (RIBEIRO, 1985).

Contato é um termo imensamente rico e complexo, e seu universo é o da  totalidade, pois ele inclui tudo, pois tudo está em relação, e para que seja  possível existir uma relação é imprescindível que haja o contato (RIBEIRO,  1997). Para Polster e Polster (2001), os seres humanos fazem contato de  forma reiterada e disfunções neste sentido podem levar o homem ao  isolamento, ocasionando um mal estar pessoal e envenenando o seu espírito.  Os mesmos autores afirmam que somente pelo Contato é que a percepção de  nossas identidades pode se desenvolver plenamente, e que em cada encontro  criamos um novo “eu”, portanto, eu e você criamos o nós. Ainda ressaltam que  o Contato pode se dar no encontro com seres animados e inanimados, e até  mesmo nas memórias e recordações o Contato está presente. Desse modo, a  Gestalt-terapia trabalha pelo Contato mais satisfatório do indivíduo consigo  mesmo, com suas necessidades organísmicas, com o outro e com a vida,  procurando um sentido mais pleno de ser e estar no mundo (NUNES, 2008).

Awareness é um modo contínuo para que a pessoa se mantenha atualizado  acerca de si mesmo. É um processo contínuo que está disponível em todos os  momentos, como um rio subterrâneo que está disponível a fim de que a pessoa  possa se renovar e revitalizar, sendo que focalizar a awareness mantém a  pessoa mais cônscia de si, ampliando e intensificando o aqui agora da terapia.  A cada awareness a pessoa chega mais próxima de articular os temas de sua  vida, bem como as expressões destes temas. Para Yonteff (1998), awareness é um processo pelo qual a pessoa está em contato com o meio e consigo  mesmo, e que necessita de que a pessoa conheça o ambiente, tenha  responsabilidade pelas escolhas, autoconhecimento, autoaceitação e a  capacidade de contato.

O Ajustamento Criativo foi utilizado por Perls para descrever a origem do  contato que o sujeito mantém na fronteira do campo ambiente/organismo,  visando a autorregulação em diversas situações. A criatividade diz respeito a  capacidade do homem se orientar em novas circunstâncias, o que possibilita a  mudança e consequente transformação. Para Perls, Hefferline e Goodman  (1997), todo contato é ajustamento criativo do organismo ao ambiente, sendo o  papel ativo do sujeito essencial e urgente, visto a dinamicidade e variedade do  ambiente, portanto o contato aware na fronteira entre o organismo e este  ambiente é condição para que aconteça um ajustamento criativo saudável  (D’ÁCRI, LIMA e ORGLER, 2007). Para os mesmos autores, o ajustamento  criativo é como um processo pelo qual o sujeito mantém sua sobrevivência e  crescimento, suas necessidades psicossociais e físicas e seu próprio  desenvolvimento, operando sem parar ativa e responsavelmente.

A partir do enfoque teórico da Gestalt-terapia podemos compreender melhor o  ser humano, seus sofrimentos, suas angústias, mas principalmente suas  potencialidades diante do que se apresenta, e este trabalho busca uma  compreensão da luta de Íris contra a dependência em SPA, com o olhar da  Gestalt-terapia e seus termos.

ÍRIS

Íris tinha 38 anos na época do estudo, solteira, ensino fundamental incompleto,  trabalhou como profissional do sexo desde os 16 anos, a mesma idade em que  começou a usar SPA, dentre estas o álcool, cocaína e crack. Mãe biológica de  

sete filhos, sendo que destes, cinco ela perdeu o poder familiar devido à negligência advinda da dependência em SPA, e os dois filhos mais novos (um  de sete e outro de nove anos), ela perdeu a guarda, que no momento estavam  com um irmão.

A infância e adolescência de Íris foram marcadas por violência doméstica e  alcoolismo do padrasto, como podemos constatar em suas próprias palavras na discussão de um dos filmes:  

Por eu ter uma vida, sei lá, sofrida, por droga dentro de casa, álcool,  meu padrasto era um policial alcoólatra. Então daí assim, muita coisa me fez eu me afastar, porque ele pregava uma coisa dentro de  casa né, e ele era policial. Policial tinha que andar dentro do  caminho, então a gente sempre tinha aquela visão dele, um policial,  uma pessoa que defendia as pessoas, né! E como ele chegava e  espancava a minha mãe! Minha mãe ia pro hospital com a cabeça  rachada e ainda tinha que dizer que escorregou no banheiro. Então  daí eu comecei a pegar muita raiva, muita coisa assim que ele fazia  e não assumia, aí comecei a criticar muito, isso aí só fez eu me  afastar da minha família.

Estes fatos compõem partes da vida desta mulher que tornam compreensíveis que a figura dependência emerja e se mantenha. Neste sentido, Ribeiro (2006)  ressalta que figura e fundo formam uma relação de complementaridade, de tal  modo que, na relação parte-todo, um não pode ser concebido sem o outro.

A figura da dependência em SPA acompanha a vida de Íris durante muito  tempo, e nem mesmo a perda de cinco filhos, os riscos a que se expunha ao  ser profissional do sexo, agravado pelo uso de SPA, aumentando os riscos de  gravidez e/ou contrair doenças sexualmente transmissíveis, entre outros, são  motivos suficientes para que ela tenha outros desejos que não usar estas substâncias. Para Müller-Granzotto e Müller-Granzotto (2012), os dependentes alienam-se em substitutos aos objetos (neste caso as drogas),  independentemente das consequências sociais que esta alienação possa  acarretar, e são pessoas moldadas as poucas e fugazes possibilidades  fornecidas aqueles que desistiram de ocupar um lugar social ou de operar com  os próprios desejos, o que pode significar até mesmo fazer do corpo (entendido  como tátil, imagético e discursivo) mercadoria sem valor subjetivo.

Para Ribeiro (2006), somos movidos por desejos, e para Íris só existia o desejo  pela droga, um desejo intenso que a fez perder/prejudicar o contato consigo e  com o mundo, e percebe-se que em certos momentos a pessoa pode estar em contato e não perceber isto, o que o leva a sentir a estranha sensação de estar  perdido, sendo que isto ocorre pela pessoa não ter acesso a essência da  sensação, e esse movimento afasta o sujeito dele mesmo, levando a perda do  equilíbrio do próprio organismo.  

Na dependência as funções de contato, como olhar, falar, tocar, ouvir, mover se, cheirar e provar, estão comprometidas (física e psicologicamente),  alterando assim a relação desta pessoa com o mundo e consigo, e  consequentemente moldando desejos relacionados as SPA (conseguir e usar  SPA). Polster e Polster (2001) expõem que o desejo é uma função de  orientação, que dirige, mobiliza, canaliza e foca, sendo o desejo um radar para  o futuro. O futuro, portanto, para Íris, tinha nome: Dependência em SPA.

Para o dependente, na maioria dos casos, somente é possível uma mudança  de atitude (o que passa por ter outros desejos), a partir de eventos traumáticos,  como por exemplo, os relacionados a risco de vida iminente. Para Íris nem  mesmo levar sete facadas com seu filho no colo foi motivo para que parasse de  usar SPA, e isto mostra o poder que estas substâncias têm sobre as pessoas.

Muitos dependentes não têm a oportunidade de buscar auxílio e morrem, como  Íris desabafa:

Ainda bem que Deus permite que a gente passe por certos lugares  para se renovar de novo, porque muita gente não tem esta chance  que a gente teve. A B. quase não teve esta chance, eu também não,  nós já fomos esfaqueadas, já estivemos a beira da morte. Então  assim ó, lá fora a gente vê muita gente do nosso grupinho, que  andava perto, que hoje em dia não existe mais. Deus, não teve nem  chance de dizer: meu filho te amo, porque a pessoa já se foi há  muito tempo, entendeu, às vezes quem sabe uma palavra, “meu filho  eu te amo”, podia dar até uma ajuda para aquela pessoa, um  incentivo, um negócio, mas não deu tempo.

A vida de Íris começou a se modificar quando aceitou o tratamento em uma CT,  e segunda ela, isto ocorreu quando estava na iminência de perder o poder  familiar dos seus dois filhos mais novos. Quando chegou à CT Íris estava extremamente debilitada física, psicológica e socialmente, como ela expõe:  “Estava destruída, tombada (...)”. Após o início do tratamento o contato  (consigo mesma e com o mundo) de Íris com a realidade sofreu drásticas  mudanças, e a partir de então consegue se tornar awareness da sua trajetória,  reconhecendo que seu estilo de vida anterior a colocava em situação de risco,  e fazia com que ela perdesse o vínculo com pessoas que amava.

Esta awareness possibilita vários ajustamentos criativos, resultando no surgimento de novos desejos que começam a se concretizar, como reaver a  guarda de seus dois filhos, ter outra profissão, retomar os estudos, ter uma  casa, reaver o vínculo com sua mãe, servir a Deus, entre outros. Estas  mudanças irão provavelmente repercutir na vida de seus filhos, de sua mãe,  enfim, das pessoas próximas a Íris, e isto se cristaliza em suas palavras:

- (...) eu fui em casa e o guri ainda disse, o mãe, nós já temos um  beliche, mas nós não temos colchão, a tia dá a televisão.  

- Daí eu disse: tá filho, e dai?  

- Será que a senhora lá onde a mãe tá não arruma colchão para nós  dormir na cama?Porque cama nós temos, televisão também, e dai ta  tudo bem.  

- Daí eu disse: não filho, agora não vai ser mais assim, porque antes  a nossa vida era assim entendeu?Tinha televisão, tinha cama, tava  tudo bem. Comia ali uma marmita, mas agora não, eu já disse para  ele, agora vai ter que ser diferente, tem que ter um fogão, geladeira,  ali né, o principal para fazer a comida, arrumar a mesa para nós  comer.  

- Ele disse: A é mãe, então nós vamos demorar muito!  

- Não filho, não vai demorar muito.

Como já exposto, o fundo está diretamente relacionado à figura que  emerge, e percebe-se que quando Íris modifica algumas partes de sua vida, o todo se transforma, alterando o fundo, possibilitando que novas  figuras surjam. Suas palavras refletem isto:

Mas assim sabe, eu vejo uma grande volta, sabe, na minha vida,  porque eu, assim né, quando eu vim pra cá eu pensei né, vocês  ainda pegaram, eu tava feia, acabada, meu Deus, eu tava destruída,  eu tava dopada mesmo, né, como diziam lá fora, eu tava tombada.  Então assim, eu não via muita solução pra mim, sabe, eu não via  mesmo, e com o passar do tempo, com o passar das oportunidades, eu começo a ver uma renovação sabe, e uma luz bem grande lá no  final do túnel. E o final já tá bem próximo. Então assim, pra mim isso  é muito importante, seja o que eu fizer, que eu pegue serviço que  seja varrer uma rua, pra mim hoje em dia é muito, vai ser muito  valorizado, porque é uma chance que tão me dando (...)

Percebe-se também que a relação parte-todo é modificada, pois quando as  partes se alteram o todo muda, e isto é compreensível, pois ao interagir com o  todo, cada parte é superada ao ser afetada pelas outras partes que estão a se  modificar pela relação entre elas, fazendo o todo superar a soma das partes  que o compõe, transcendendo-as (NUNES, 2008).

CONCLUSÃO

Íris completou o tratamento na CT em Dezembro de 2011, e atualmente  trabalha como cozinheira em uma residência e complementa sua renda com a  venda de artesanatos que ela mesma produz. Concluiu o Ensino Médio,  recuperou a guarda dos dois filhos, e com seu labor está mobiliando a casa  onde residem. Novos sonhos, novos desejos, novas possibilidades, que  transformam a vida das pessoas e as fazem mais felizes, e que podem  encontrar na Gestalt-terapia um aliado, acolhendo, ouvindo, dividindo. Os  profissionais que se embasam na Gestalt-terapia podem perceber o Ser  Humano como alguém que está em constante mudança, é livre, tem a  responsabilidade de construir a si mesmo e esta sempre evoluindo, o que os  qualifica para acolher e aceitar o que existe de mais fantástico e complexo no  universo, como uma abordagem capaz de compreender e aceitar o que existe  de mais fantástico e complexo no universo: o ser humano como ele é, e no que  ele pode tornar-se.

Por fim, a atividade proposta na disciplina de Gestalt-terapia que resultou neste  trabalho, propiciou não somente a troca de experiências entre os alunos e a  professora, mas também intensas discussões e articulações teóricas com a  abordagem, possibilitando um maior aprendizado da mesma.

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Endereço para correspondência:

Aline Fagundes Silva

E-mail: aline_fagu@hotmail.com

Alexandre Carbonera

E-mail: alexandrecarbonera@gmail.com

Revista IGT na Rede, v. 11, nº 21, 2014. p. 297 – 307. Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526

307

SILVA, Aline Fagundes, CARBONERA, Alexandre, PRADO, Josiane Aparecida F. de A. - A luta  de uma mulher contra a dependência química: Um olhar da Gestalt-terapia

Josiane Aparecida F. de A. Prado

E-mail:iprado@univali.br

Recebido em: 28/12/2013

Aprovado em: 10/12/2014

NOTAS

Aline Fagundes Silva – Psicóloga, Graduada pela Universidade do Vale do  Itajaí – UNIVALI. Aluna do 2º ano de Especialização em Psicologia Clínica do  Instituto de Psicologia Clínica Gestáltica Granzotto.

Alexandre Carbonera – Psicólogo, Graduado pela Universidade do Vale do  Itajaí – UNIVALI. Aluno do 2º ano de Especialização em Psicologia Clínica no  Instituto de Psicologia Clínica Gestáltica Granzotto.

Josiane Aparecida F. de A. Prado – Psicóloga, Mestre em Psicologia,  Professora da Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI.

Revista IGT na Rede, v. 11, nº 21, 2014, p.297-307 DOI 10.5281/zenodo.15048423

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526