ARTIGO

Gadamer: Um Projeto Metodológico Para Gestalt-Terapia Gadamer: A Project Methodology for Gestalt Therapy

Ananias Queiroga Oliveira Filho

RESUMO

O presente trabalho propôs-se a evidenciar uma relação entre a teoria do  filósofo alemão Hans-Georg Gadamer e sua pertinência como aporte  metodológico para Gestalt-Terapia. Fez-se um estudo da Gestalt-Terapia tendo  por base a concepção do seu fundador Fritz Perls, onde foram explicitados os  seus principais conceitos e preceitos a partir de uma análise crítica delineada  de maneira a ressaltar a estrutura do escopo teórico e metodológico. Traça-se um paralelo entre conceitos fundamentais de Gadamer, e como estes podem  ser de grande utilidade para o gestalt-terapeuta, propiciando a este uma melhor  compreensão da experiência no processo de psicoterapia.

Palavra-chave: Gestalt-Terapia; Gadamer; Metodologia.  

ABSTRACT

This study aimed to demonstrate a relationship between the theory of the  German philosopher Hans-Georg Gadamer and its relevance as a  methodological approach to Gestalt Therapy. There was a study of Gestalt  Therapy based on the design of its founder Fritz Perls, which were explained  the main concepts and precepts from a critical analysis outlined in order to  emphasize the structure of the theoretical and methodological scope. Draws a  parallel between fundamental concepts of Gadamer, and how these can be of  great benefit to the gestalt therapist, providing a better understanding of this  experience in the psychotherapy process.

Keywords: Gestalt Therapy; Gadamer, Methodology.

INTRODUÇÃO

A gestalt-terapia (GT) é uma abordagem clínica que compreende um  arcabouço técnico e de conceitos específicos em sua concepção teórica e  prática. A GT tem como fundador Fritz Perls; este autor concebeu, a princípio, o que seriam correções ou melhoras da teoria psicanalítica, mas ao não ter o  reconhecimento de suas teses pela comunidade psicanalítica, inclusive do  próprio Freud, Perls decide constituir uma nova linha de psicoterapia  (WALLERSTEIN GOMES, 2001). Ademais, ressalte-se que as proposições de  Perls ainda como psicanalista, não se enquadravam no arcabouço  psicanalítico. Tomando por base aquelas idéias começa a construção da GT,  que tem como principais alicerces epistemológicos a Psicologia da Gestalt, o  Existencialismo e a Fenomenologia (RIBEIRO, 1985).

Nesse sentido, o presente artigo tem como figura analisar e propor uma nova  base metodológica para a GT de maneira que, neste trabalho, ocorre um ponto  de cisão entre a concepção aqui delineada e o comumente aceito em GT (RIBEIRO, 1985; ANDRADE, 2007; PEREIRA, 2008; FERREIRA, 2009). Neste  texto defende-se, portanto, que em seu escopo, a GT sofre por precariedade  metodológica como propõem Oliveira Filho (2010) e Holanda (2008) em seus  estudos.  

Oliveira Filho e Wallerstein Gomes (2012) alertam que as matizes da  fenomenologia utilizada como base metodológica na GT, mais especificamente  as concepções de Heidegger e Husserl, apresentam em aspectos centrais uma  clara contradição com os pressupostos da GT. Não é cerne do presente artigo  aprofundar nesse tema, por isso recomenda-se a leitura da reflexão teórica  proposta por Oliveira Filho e Wallerstein Gomes (2012).

Segundo Popper (2001), o método é o instrumento que viabiliza o  entendimento e apreensão produtiva e ativa do conhecimento, para tanto, é  necessário se utilizar de uma metodologia coerente com o arcabouço teórico e  os objetivos determinados, estabelecendo e conferindo a um estudo ou a uma  prática os aspectos consistentes que permitam o uso e a elaboração de  saberes dinâmicos de forma válida.

O cerne deste trabalho, visa discutir e debater a propriedade da  Fenomenologia do Diálogo de Gadamer como arcabouço metodológico em GT.  Na busca não das razões, mas das questões que permitam no processo o  desvelar das intenções, este denota, porquanto, ter em sua estrutura dar aporte  mais adequado as contingências surgentes no setting clínico, onde são  envolvidos por meio dos diálogos os discursos de cliente e terapeuta; donde se  encontram o “que é?” de cada um e dão inicio ao processo de “como é?” de  uma relação. Ademais de elaborar proposições coerentes com a problemática  abordada e questionamentos levantado como forma de construção de uma  base de conhecimento mesmo com a convicção que nada aqui será tratado  como resposta certa ou fim de um caminho.

A idéia basilar é iniciar, ou melhor, reiniciar uma longa caminhada que não se  verte em respostas débeis e superficiais, sobretudo tem função de ser mais um  ponto, mesmo que mínimo, de reflexão desta empreitada que é construir  conhecimento.  

GESTALT-TERAPIA

A definição acerca do que é clínica, ultrapassa os limites de sua origem bem  como de sua definição clássica. A clínica tem uma prática e uma definição mais  amplas, onde clinicar é a ação de cuidar e de estar ao lado - ação essa não só  vinculada ao médico e nem só direcionada a um enfermo e sim ao individuo à  procura de uma melhor condição de vida (DUTRA, 2004).

O entendimento acima explicitado denota uma relevância ímpar à clínica, em  um mundo onde a realidade não é mais a das patologias ou crises em suas  concepções clássicas (BAUMAN, 2001). Ao invés destas, temos pessoas em  estados de conflitos e mudanças perenes em busca de auto-compreensão,  sem se enquadrarem em concepções nosográficas antiquadas e pré estabelecidas e sem levar em consideração o eu de cada ser.  

A fim de compreender essa realidade, a GT apresenta uma visão perspicaz e  capaz de ajudar a empreender essa tarefa (ANDRADE, 2007; ZINKER, 2001) e  ainda traz em si a proposta de que não há relação estática onde se estabeleça  uma relação de figura/fundo entre emoção e razão. Exemplifica-se este  entendimento, a partir das colocações de Robine (2003); em seu artigo o autor  enfoca a criatividade, esta ligada à emoção e ao rigor metodológico - e este por  sua vez ligado à razão, evidenciando o caráter dinâmico e processual dessa  relação. Robine (2003) portanto, relaciona esses dois construtos, que são tidos  por muitos como princípios contrastantes.

De certa maneira pode-se exemplifica esse entendimento e sentido nos versos  de Fernando Pessoa “O Binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo.  O que há é pouca gente para dar por isso”, pois há na razão um conteúdo  inegavelmente emocional e na emoção um conteúdo racional (DAMÁSIO,  2004). A beleza está no racional, tal qual o conhecimento está nas artes,  podendo assim entender que um método pode trazer a tona singularidades e  não só normatização.

Há de se buscar a apreensão dos conteúdos dos fenômenos presentes com  base nessa relação de influência mútua entre emoção e razão explicitando aqui  uma relação de polaridade, que é uma força motriz do ajustamento criativo  (ANTONY, 2009). O ajustamento criativo é entendido como processo em que o indivíduo, dentro das possibilidades apresentadas em dado momento da  existência, há de construir a resposta mais criativa possível (WALLERSTEIN  GOMES, 2001).

A visão de mundo e de ser no mundo que a GT traz em si, são princípios e  conceitos de grande complexidade, mas que se adequam ao dinamismo  vivenciado na contemporaneidade - uma modernidade liquida no conceito de  Bauman (2001). As pessoas enfrentam uma dificuldade em se descobrir ou de  desvelar-se sem as muletas sociais impositivas, tais como estereótipos, rótulos,  normas e regras imutáveis (BAUMAN, 2001). Na realidade atual de grande  volatilidade, as pessoas têm de buscar em si mesmas os seus parâmetros e  bases constitutivas, o que provoca um sentimento de não ser e de não estar (BAUMAN, 2001). Esta é a condição ideal do ser humano em uma visão de GT,  que é de ser em busca e estar na busca, de modo que o parâmetro humano  deve ser a sua intencionalidade mediada pelo processo de diálogo com o  mundo, ou seja,: um ser de estar em/nas relações (SAFRA, 2006).  

A GT apresenta em seu arcabouço fundamentos necessários não para abarcar  a compreensão do ser no mundo, mas para ajudar no auto-entendimento e a  elaboração da intenção própria e particular de cada um. Conseguir construir ou  discernir a intencionalidade singular como coloca Robine (2003), é a figura  norteadora fundamental para um processo de autonomia e auto-compreensão  no qual a psicoterapia pode exercer um papel de facilitadora nesta ação de  auto-conhecimento de atualização contínua (DUTRA, 2008).

A GT trabalha com base na idéia de contato, que Yontef (1998, p. 237) define:  "o contato é o processo básico do relacionamento. Ele proporciona a  verificação da diferença entre o self e o outro". O contato é a porta de entrada  para as relações e como conseqüência óbvia para o diálogo. Onde se dá o real  processo de psicoterapia e se estabelece a verdade, aqui compreendida como  qualquer fato ou situação que abra caminhos e possibilidades na psicoterapia.  

“Contato significa estar unido por meio da percepção, a  

alguém ou a algo fora de si mesmo. Posso estar contigo  

unicamente se estou seguro de que tu és, não eu, de que  

existimos como entes separados um do outro.” (PERLS,

1973, p.38)

Como já argüia Perls (1977) a GT é terapia do óbvio, pois sua dinâmica ocorre  no que é desvelado como fenômeno do agora, não sendo objetivo interpretar  as causas, já que esta seria uma atitude de cunho pessoal e individualista  acerca do “o que é?”. O terapeuta tem que ter como foco o cliente e estar com  ele na relação em busca da compreensão “o como é?” e o diálogo tem que ser  estabelecido em grau de confiança mútua.

A construção de um campo perceptivo confiável é fundamental em um  ambiente psicoterápico, pois a noção de percepção do campo sensorial norteia  a elaboração e forma em que se apresenta ao ser humano, e em conseqüência  é como se estabelece o contato material em que se dá o estado awareness. O  estado awareness é que produz a intencionalidade organísmica, ou melhor, ela é a intencionalidade organísmica, que vai trazer respostas ponderadas no  passado gerando abertura para o futuro (POLSTER & POLSTER, 2001).  

Perls define: “a abordagem gestaltista [...] tenta compreender a existência de  qualquer evento através do modo como ocorre, [...] procura entender o vir-a-ser  pelo como, não o por quê” (PERLS, 1980, pp. 29-30). Esta compreensão torna se uma ferramenta útil e poderosa em uma atualidade com extrema força e  rapidez de transformação.

UM PROJETO METODOLÓGICO PARA GESTALT-TERAPIA

“Méthodos, no sentido antigo, significa sempre a totalidade do  

estudo de um campo de questões e de problemas. Neste  

sentido, o método já não é um instrumento para objetivar e  

definir algo, senão que é para participar das coisas de que nos  

ocupamos. Este significado de “método” pressupõe que nos  

encontramos já dentro do jogo e não em um ponto de vista  

neutro.” (GADAMER, 1995, p.34)

A hermenêutica é o campo da filosofia direcionado ao propósito interpretativo  do discurso pertinente a um grupo, sociedade ou contexto histórico  determinado (STEIN, 2004; DOMINGUES, 2008). O termo foi cunhado por  Aristóteles, como título em Peri Hermeneia, um tratado acerca de nexo  relacional entre juízo e proposição (STEIN, 2004; GADAMER, 1999). Mas é  com Schleiermacher ao afirmar que a “hermenêutica é a arte de evitar o mal entendido” (GADAMER, 1999, p.255).  

Gadamer (2003) ao explicitar a relevância do processo compreensivo  possibilitado pela hermenêutica, coloca que:

“A aparição de uma tomada de consciência histórica é,  

possivelmente, a mais importante revolução por que passamos  

desde o surgimento da época moderna. O seu alcance  

espiritual ultrapassa, provavelmente, aquele que  

reconhecemos às realizações da natureza, as quais  

transformaram, de uma forma bem visível, a face do nosso  

planeta. A consciência histórica que caracteriza o homem atual  

é um privilégio, talvez mesmo um fardo tal como nenhum outro  

que tenha sido imposto a algumas gerações anteriores.” ( p.  

17)

Gadamer (1999), bem define que o processo de desvelamento da realidade se  dá com a vivência e sua conseqüência primeira - a aprendizagem - e elucida os  sistemas e as relações experienciadas por uma pessoa, o que constitui-se em  tarefa complexa e difícil, todavia necessária para compreensão do self e do  mundo que o cerca.

“O verdadeiro acontecer só se torna possível, na medida em  

que a palavra que chega a nós a partir da tradição, e à qual  

temos de escutar, nos alcança de verdade, e o faz como se  

falasse a nós e se referisse a nós mesmos.” (GADAMER, 1999,  

p. 465-466).

Gadamer (2004) estrutura a fenomenológica de sua hermenêutica quando  explicita a linguagem como fato imediato das e nas relações. O homem é um  ser em relação e deve portanto ser compreendido a partir do fenômeno  primeiro das relações: a linguagem através do diálogo, pois esta permite a  compreensão do ser por ele mesmo por meio de sua pessoalidade na relação  com o outro (GADAMER, 1999).

“Todas as formas da comunidade de vida humana são formas  

de comunidade lingüística, e mais ainda, formam linguagem.  

Pois a linguagem é por sua essência a linguagem da  

conversação. Somente adquire sua realidade na realização do  

mútuo entendimento. É por isso que ela não é um simples meio  

de entendimento.” (GADAMER, 1999, p. 450).

Empreender uma interpretação hermenêutica fenomenológica não pressupõe  um principio estático de juízo de valor prévio, pelo contrário: estabelece uma  dinâmica basilar de relação com o outro pelo meio do que há de comum. A  apreensão de si e do outro ocorre através das singularidades e esta forma de  desvelamento só se torna válida quando permeada e voltada pela linguagem  do diálogo (GADAMER, 1999).

Os preceitos de GADAMER (1999; 2004) se apresentam como fonte consistente e convergente para e com a base metodológica da GT. Como  forma de demonstrar este entendimento, hão de ser apresentados conceitos  fundamentais e de como eles se relacionam com a GT.

DIALOGANDO POR PRÉ-CONCEITOS

“Aquele que se crê seguro na sua falta de preconceitos, porque  

se apóia na objetividade de seu procedimento e nega seu  

próprio condicionamento histórico, experimenta o poder dos  

preconceitos que o dominam incontroladamente como uma vis  

a tergo. Aquele que não quer conscientizar-se dos preconceitos  

que o dominam acaba considerando erroneamente o que vem  

a se mostrar sob eles.” (GADAMER, 1999, p. 532)

O processo terapêutico em GT se dá por via do diálogo travado no âmbito  intersubjetivo entre cliente e terapeuta. Como propõe Gadamer (2004) só assim  pode-se estabelecer um campo perceptual baseado na mútua compreensão,  onde a partir das bases pré-compreensivas dos sujeitos do diálogo, possibilita-

se uma comunicação com raízes em um entendimento recíproco na relação  dual.

Gadamer (1996) pontua que em uma relação dialógica somente é possível ter  uma comunicação onde haja compreensão efetiva de signos, significados e  significantes com base nas histórias prévias e por conseguinte nos pré conceitos. Conclui Gadamer (1999, p. 272): “A compreensão somente alcança  sua verdadeira possibilidade, quando as opiniões prévias, com as quais ela  inicia, não são arbitrárias”.

“Na medida em que compreendemos, estamos incluídos num acontecer da  verdade e quando queremos saber o que temos que crer, parece-nos que  chegamos demasiado tarde” (GADAMER, 1999, p. 494). Ademais, o que há de  comunalidade significativa entre os “EUs” é o fato de viverem, e em vivendo  estarem imersos em cultura - esta inevitavelmente promotora de pré-conceitos - e por mais antitéticas que sejam ou possam parecer os desígnios culturais de  cada pessoa, estes convergem como função basilar de tornarem os seus  elementos conteúdo formador do subjetivo.

A função acima explicitada na visão é o que constitui a natureza humana e é  corroborado em diversos estudos, a ver: Gould (1999), Bahktin (2005), Darwin  (2002), Givón (2001), Habermas (1988), Dejours (2005), Robine (2006) e Perls  (1980). Todos esses autores defendem que o ser humano, enquanto espécie, constitui sua especificidade através da sua relação com o outro. Porquanto não  existe essência interna que nos defina ou nos diferencie de outras espécies em  grau qualitativo. Há na verdade a condição elementar do ser humano em se  relacionar com o mundo em meio as relações com o outro, estas sempre indo  na direção de se fazer entender no e pelo outro (GADAMER, 2004).

Domingues (2008, p. 04) diz:

“Os preconceitos, próprios das diferenças e fronteiras do  

humano temporal, e não os conceitos desencarnados,  

apresentam-se como um efeito de uma consciência já sempre  

habitada pela relação, podendo aí contrariar-se a redução a um  

ser isolado.”

A fala não dialógica só vem a dizer “do eu” o que vai dizer “do meu” e está  inserido e surge no diálogo ou ao que Gadamer (2004, 401) bem conclui: “A  partir do diálogo que nós somos”, tendo “o nós” um grande significado na  formação da intencionalidade, aqui entendida como “verdade minha”.

A fala monológica acaba por fornecer as convicções das razões do “eu” e mais  brilhantemente já definia Schopenhauer (2000) em sua obra “A Arte de Ter  Razão –‘ ter razão é diferente de estar com a verdade’”. Ora, assume-se aqui o  preconceito não como fator restritivo de um diálogo (BRESSOLIN, 2008;  GADAMER, 2004), mas como elemento base para a existência do diálogo, pois  só a apreensão do outro e de mim mesmo, configura a alteridade e a partir do que se tem em comum, antes mesmo que se estabeleça uma relação de  contato direta. Sendo assim, o preconceito é o pilar fundamental de uma  relação entre cliente e terapeuta, porquanto, funda-se no preconceito a  premissa que estabelece a constituição do movimento de reciprocidade e  afetação própria da relação psicoterápica em GT.

“O que, sob a idéia de uma autoconstrução absoluta da razão,  

se apresenta como um preconceito limitador, é parte integrante  

na verdade, da própria realidade histórica. Se se quer fazer  

justiça ao modo de ser finito e histórico do homem, é  

necessário levar a cabo uma drástica reabilitação do conceito  

do preconceito e reconhecer que existem preconceitos  

legítimos.” (GADAMER, 1999, p. 416)

Não se fala aqui de preconceito como julgamento e sim de história de vida  pertencente a cada pessoa e que a acompanha em qualquer espaço ou tempo  em que esteja. A dimensão dialógica da relação terapêutica se cria em meio ao  que cada um já era e se desenvolve em meio ao que cada um pode vir a ser.  Observa Hycner (1997, p. 29): "Entende-se por dialógico o contexto relacional  total em que a singularidade de cada pessoa é valorizada"

“porque nós somos conduzidos por aquilo que nos é familiar,  

porque há acordo, é que nós podemos interessar-nos pelo  

outro, receber o que é estranho e, daí, prolongar e enriquecer a  

nossa experiência do mundo.” (GADAMER, 1996, p. 43)

O preconceito em Gadamer (1999) é a carga de que cada um traz consigo de  sua história experienciada em seu mundo de e nas relações. Sendo assim, o  preconceito é uma forma de construção de um contato com base em elementos  comuns que geram um processo empático de identificação entre terapeuta e  cliente, fundamental para se estabelecer e desenvolver um processo em  psicoterapia na GT. Discernir o que há de si do outro na relação terapêutica, se  torna viável quando experiencia-se o que dos dois na relação.

QUESTÃO: O Caminho da Verdade

“O questionar é mais uma paixão do que uma ação” (GADAMER, 1999, p. 390)

Gadamer (1999) é taxativo ao afirmar que qualquer experiência é precedia de  uma questão, pois esta em suas palavras é “a estrutura lógica para da  abertura” (1999, p. 533). O homem se faz movimento ao se questionar e  questionando o mundo. As questões se dão no diálogo de forma a evitar a oclusão de possibilidades - o que tanto caracteriza a eminência do devir que  viabiliza o homem enquanto ser no mundo. Assim, a questão só toma sua  função de abertura quando ela propicia ao questionado uma reflexão  engendrada na abertura de possibilidades (que surgem como respostas) e ao  se abrir para questionar-se quanto o que há de si (intencionalidade) em cada uma das possibilidades. Ademais, o diálogo depende concomitantemente da  abertura tácita do questionador, pois nessa reciprocidade de direção se dá a  afetação mutua e ocorre o processo onde se origina no “o que é?” e tem  continuidade no “como é?” (GADAMER, 1999):

“O sentido da questão, que leva a uma resposta que possa ser  

operativa, constitui o princípio da abertura no que concerne ao  

ser da questão – o que é? e do discurso – como é? A  

hermenêutica filosófica, precisamente, procura reafirmar este  

sentido, vendo nele uma ilustração da vida da própria  

interpretação.” (DOMINGUEZ, 2008, p. 07)

A GT tem como especificidade a visão da terapia como processo de “buscar”  ou “criar” verdades. Cancelo (1991) argutamente define verdade como tudo  que abre caminhos e possibilidades, sendo assim a GT não é um caminho  delimitado. A verdade em GT, ademais, só é uma possibilidade em meio à  disponibilidade de abertura trazida pelo cerne da questão, viabilizando a  viagem por caminhos vários sempre a procura da verdade, que nada mais é do  que encontrarmos a nós mesmos através do mundo.

“O conceito de horizonte deve aqui ser retido porque ele  

exprime a elevada amplitude de visão que deve ter quem  

compreende. Adquirir um horizonte significa aprender sempre a  

ver além do que está próximo, demasiado próximo, não para  

afastar o olhar, mas para melhor ver, num conjunto mais vasto  

e em proporções mais justas.” (GADAMER, 1996, p. 327)

Gadamer (1996) expõe acima a importância da percepção do todo em sua  amplitude e complexidade, porquanto dar-se dessa maneira a formação do  movimento de angústia assegurado no horizonte incerto, mas que constitui em  elemento primeiro para a elaboração ou encontro da intencionalidade velada,  ou seja, a intencionalidade é constituída na relação dialógica, essa concepção  apresenta maior convergência com as bases epistemológicas da atuação do  psicoterapeuta em GT, pois estabelece ênfase na relação que acontece  naquele momento, ressalve-se que a ênfase está na relação dialógica  vivenciada e não no contexto sócio cultural no qual está inserido o cliente. O  desvelamento da intencionalidade se dá na interpretação. Gadamer (1993)  alerta que a interpretação não ocorre na afirmação, mas na pergunta:

“E uma idéia é especulativa, quando a relação que nela é  

enunciada não se deixa pensar como a atribuição inequívoca  

de uma determinação a um sujeito, de uma propriedade à coisa  

dada, mas que tem de ser pensada como uma relação  

especular, na qual o próprio espelhar não é nada mais do que  

a pura aparência do refletido, tal como o um é o um do outro e  

o outro é o outro do um.” (GADAMER, 1999, p. 470)

Gadamer (1996) propõe o axioma: “A partir do diálogo que nós somos” (p. 401)  e ainda na mesma direção coloca que “porque nós somos conduzidos por  aquilo que nos é familiar, porque há acordo, é que nós podemos interessar-nos  pelo outro, receber o que é estranho e, daí, prolongar e enriquecer a nossa  experiência do mundo” (p. 43).

“Descobrindo sua experiência como sente, move, quando entra  

em contato e permite que o vazio exista, com o tempo  

descobre-se que o escuro cederá lugar para a luz e do vazio  

surge um mundo vivo. O indivíduo ao ver, tocar, sentir em sua  

viagem, o vazio que agora é fértil, começa a responder  

emocionalmente ao que percebe de forma transformada, com  

vitalidade e criatividade.” (PERLS, 1982, p.75)

O homem, portanto, passa a entender e a se configurar como centro de suas  possibilidades. O parâmetro humano deve ser a construção de sua  intencionalidade, esta entendida como capacidade de discernimento,  convergindo assim com o conceito de Insight defendido por Kofka (1975). A  laboração da intencionalidade é mediada pelo processo de diálogo com o  mundo, ou seja, um ser de estar em/nas relações: “Estas pessoas aqui vão-se  embora a dizer que nós somos amigos uns dos outros – porque eu estou entre  vós – mas o que é um amigo é o que nós ainda não fomos capazes de  descobrir.” (GADAMER, 1996, p. 223)

Gadamer (2004) ao estabelecer a premissa do diálogo e da experiência na  questão, esta como talante para abertura do ser no mundo, fornece um vetor  de apreensão do processo clínico em GT. Pode-se ter com isso um  mapeamento adequado do setting existente no qual reside a relação entre  terapeuta e cliente. Não há de se pensar no como enquanto jornada puramente  externa do cliente até aquele momento, mas sim um como originários de um o  quê postulado na relação terapêutica e não de uma história exclusivamente  anterior ao encontro. A viagem do ser em terapia pode então ter seu trajeto  aclarado imerso também na experiência do diálogo em psicoterapia, o que é  ponto fundamental para o processo de psicoterapia em GT, como pontua  Ribeiro (1995).  

PSICOTERAPEUTA: O Intérprete

“a verdade em Gadamer não é um método, mas simplesmente  

aquilo que acontece no diálogo. Atos de interpretação são  

diálogos, uma conversação constante, dentro da tradição. O  

interprete projeta o significado provisional, mas estes são  

desarranjados e re-definidos quando os próprios preconceitos  

do intérprete são questionados pelo horizonte do texto ou pelo  

parceiro do diálogo” (LAWN, 2007, p.13).

Gadamer (1996) defende que o intérprete não se faz pela elaboração de  sentenças definitivas - o interpretar acontece no momento da pergunta, ou seja,  quando se abrem e está aberto as possibilidades que provém da verdade  intencional de cada pessoa. O homem não vive em constância inerte, a  constante do homem é a capacidade de reinventar, e assim sendo, de  interpretar e reinterpretar a ele e ao seu mundo.

Intérprete não é uma posição pré-definida, e sim inerente a qualquer diálogo, o  que não determina o desígnio de eqüidade completa no processo de relação  dialógica. Acerca do tema Gadamer (1996) explicita:

“a autoridade não se outorga, adquire-se, e tem de ser  

adquirida se a ela se quer apelar. Repousa sobre o  

reconhecimento e, portanto, sobre uma ação da razão mesma  

que, tornando-se consciente de seus próprios limites, atribui ao  

outro uma perspectiva mais acertada.” (p. 393)

Fica evidente que Gadamer (1996) não dispõe sobre uma relação  hierarquizada, todavia desenvolve sua conceituação de uma relação desigual  onde as posições não são tomadas por verdade justificada no mero fato do  “quem disse”, mas sim na perspectiva de construção e interpretação dentro da  relação onde será pronunciado por meio de questões - não de afirmações  reducionistas - o processo no qual tende sempre a produzir um resultante e  que será a verdade daquele diálogo para a partir daí produzir uma autoridade.

O terapeuta em GT é um facilitador desse processo dialógico onde o resultante  que se busca é a retomada da autoridade do cliente sobre si mesmo em suas  vivências. O psicoterapeuta deve se portar como intérprete, assumindo a  desigualdade da relação, mas nunca de se posicionando como fonte superior  de verdades para que possa, na relação em psicoterapia, ser um  acompanhante facilitador no processo de interpretação e conseqüentes  reinvenções e apropriações do cliente.

Perls (1979) coloca a importância do papel do terapeuta como aporte e não  devendo ser uma escora - o cliente tem que estar envolto em uma relação de  segurança e nunca de dependência. Não cabe ao gestalt-terapeuta focalizar o  caminho da relação em técnicas e experimentos, pois aí estará tendo uma  postura como investigativa e policialesca de enforcar o “por quê?” No dizer de  Perls (1977), o uso de técnica deve ser empregado em casos extremos, por se  configurar em um “truque.” O autor ainda se refere à mediocridade dos  profissionais por fazerem uso demasiado de técnicas, o que acaba por  paralisar o amadurecer do outro por ser sabotado pela criação de muletas de  fácil acesso.  

A proposta de Gadamer (1996) para o intérprete possibilita um entendimento  claro do psicoterapeuta em GT como um questionador, que acompanha o  cliente em sua jornada. Não se trata aqui de dar um direcionamento; ademais como expõe Gadamer: “aqui encontramo-nos permanentemente sob a ameaça  de nos apropriarmos do outro na compreensão e, com isso, ignorar a sua  alteridade” (2004, p.396).  

Mas questionando, com isso, como ser ao mesmo tempo disponível e  possibilitando ao cliente a abertura ao que há de vir bem como o lugar de  condutor no processo de auto-compreensão.  

Segundo Gadamer, o compreender é acontecimento.

“A consciência exposta aos efeitos da história sabe da abertura  

do acontecer do sentido. A coisa da tradição nunca aparece na  

luz da eternidade. Mas, contra a dialética hegeliana que  

desemboca no saber absoluto do todo, a Hermenêutica de  

Gadamer afirma energicamente a finitude do acontecimento  

lingüístico. A Hermenêutica é uma dialética que sempre se  

mantém inacabada. O movimento de explicitação e de  

especulação nunca se conclui.” (RABUSKE, 1994, p. 45)

Assim como já afirmara Perls (1980) que o homem é sempre um ser  inacabado, Gadamer também define que o processo interpretativo não finda, mas se refaz continuamente - pensamento esse que converge com as palavras  da eminente gestalt-terapeuta Patrícia Wallerstein Gomes, que em aula averba  que o processo clínico em GT não possui fechamento, mas há sim des-fecho,  entendido como reabertura e por conseguinte, novos questionamentos.

Compor uma estrutura acerca de um método tomando aqui como base o  conceito de Gadamer (1995), não é tarefa simples, porém é um caminho  deverás imprescindível para uma apropriação adequada da teoria e prática  pertinente a GT. Como aqui ilustrado, Gadamer em sua obra acabou por  produzir um vasto manancial de grande pertinência e relevância a GT, ainda  pouco explorado e/ou estudado, podendo estes estudos ser uma fonte  consistente para um aprimoramento do exercício psicoterapêutico em GT.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Acredita-se ter explanado de forma coerente e consistente a concepção de  Gadamer e suas possibilidades e pertinência para a prática da GT, bem como  para a laboração de um método mais convergente com as premissas e os  objetivos que norteiam GT enquanto psicoterapia e forma de compreender o  estar nas relações do mundo.

Ao longo dos estudos e pesquisas para elaboração deste trabalho, resultou-se uma reflexão na qual se constatou que a GT não carece de bases teóricas.  Ademais, existe uma clara falta de articulação de todo o completo corpo conceitual. Este fato não decorre da falta de embasamento e sim da  necessidade de mais estudos e trabalhos não só voltados para uma mera  

releitura ilustrativa: os estudos em GT devem demandar acerca de caminhos e  possibilidades.

O trabalho aqui apresentado não se apresenta como resposta ou conclusão  acerca de um novo modelo metodológico para a GT; o objetivo se ateve em  elaborar questões e propor possíveis caminhos. Caminhos que ainda devem  

ser explorados para que possam assumir contornos de uma viagem a ser  seguida.

Aceita-se e ressalta-se aqui como fundamento primeiro para o desenvolvimento  homem na visão da GT os princípios do questionar e problematizar - princípios  estes já defendidos respectivamente por Gadamer (2000) e Popper (2001),  assim como os dínamos que impulsionam o movimento de atualização e  construção do conhecimento e que permeiam também a noção de relação  dialógica defendida pela GT bem como a sua visão do homem como ser de e  em processo.

Contudo, o presente artigo apresenta uma possibilidade consistente acerca da viabilidade de um projeto metodológico, a partir da concepção de diálogo e  Hermenêutica propostas por Gadamer, que pode fornecer uma articulação  dinâmica coerente e válida entre a prática clínica da GT e seu arcabouço  teórico.  

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Endereço para correspondência:

Ananias Queiroga Oliveira Filho

E-mail: ananiasqueiroga@bol.com.br

Recebido em: 10/08/2013

Aprovado em: 09/09/2014

NOTAS

Ananias Queiroga Oliveira Filho é Psicólogo, Mestre em Psicologia Cognitiva  (UFPE) e Doutorando em Avaliação Psicológica (USF/SP).

Revista IGT na Rede, v. 11, nº 20, 2014, p.67-83 DOI 10.5281/zenodo.15048325

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526