ARTIGO

Arteterapia Gestáltica e suas relações com o processo criativo Gestalt Art Therapy and its relationship to the creative process Mariane Coimbra Silva, Eduardo Moura de Carvalho, Rafaela Dias de Lima

RESUMO:

O presente trabalho tem por objetivo abordar as relações entre Arteterapia  gestáltica e processo criativo. Por meio de uma ampla pesquisa bibliográfica,  pretende-se abarcar de forma geral o que é criatividade, como o processo  criativo relaciona-se com o funcionamento do sujeito e a importância desses  conceitos na Arteterapia sob o enfoque da abordagem gestáltica.

Palavras chave: Arteterapia, Gestalt-Terapia, processo criativo

ABSTRATCT:

This work aims to explore the relationship between Gestalt Art Therapy and  creative process. Through an extensive literature review, it is intended to  encompass generally what creativity is, how the creative process relates to the  operation of the subject and the importance of these concepts in art therapy  with a focus on the gestalt approach.

Keywords: Art Therapy, Gestalt-Therapy, creative process

“A arte baseia-se na vida, porém, não como matéria, mas  

como forma. Sendo a arte um produto direto do  

pensamento, é do pensamento que se serve como  

matéria; a forma vai buscá-la à vida. A obra de arte é um  

pensamento tornado vida: um desejo realizado em si  

mesmo. Como realizado tem que usar a forma da vida,  

que é essencialmente a realização; como realizado em si  

mesmo tem que tirar de si a matéria com que realiza”.

 Fernando Pessoa  

 (Prosa, de Ricardo Reis).

“Arte é afirmação de vida, em que pese isto aos mórbidos.  

Afirmação de ida nesse sentido que a vida é soma de  

todas as suas grandezas e podridões: um profundo silo  

onde se misturam alimentos e excrementos, e do qual o  

artista extrai a sua ração diária de energias, sonhos e  

perplexidades: a sua vitalidade inconsciente”.

 

 Vinícius de Moraes

 (Arte e síntese).  

INTRODUÇÃO

As relações entre Arte, processo criativo e Psicologia podem ser percebidas  nas obras de diferentes teóricos da área. Freud, por exemplo, abordou a arte  enquanto manifestação do mecanismo de sublimação, processo pelo qual os  impulsos sexuais são reprimidos e expressos por meio de conteúdos não sexuais. O trabalho artístico, para ele, seria uma das maneiras de expressão  da subjetividade, de “revelação” de conteúdos inconscientes de uma maneira  socialmente aceitável.

Outros exemplos de psicanalistas que também se interessaram pela temática  da arte e suas relações com as questões psíquicas são Winicott e Jung.  Winnicott afirmava que a vida cultural humana, na qual a arte se encontra, é o  equivalente adulto dos fenômenos transicionais da criança. A arte estaria  arrolada ao brincar, atividade na qual o sujeito relaciona subjetividade e  objetividade, realidade externa e interna. Segundo ele, a experiência lúdica  seria mais importante que os produtos da brincadeira ou da arte, configurando se uma terapia em si. No mesmo sentido, Jung também abordou o valor  artístico em si e utilizou produções de seus pacientes nas sessões. Segundo  Philippini (1995, apud Bilbao & Cury, 2005), a arte-terapia converge com a  premissa junguiana de que o homem orienta-se em função de símbolos, na  medida em que facilita o contato, compreensão e transformação dos símbolos  por meio do processo criativo. Assim, a arte teria um papel estruturante na vida  do sujeito (Bilbao & Cury, 2005).

Na perspectiva Humanista, Carl Rogers e Maslow também falam sobre a  relação entre capacidade criativa e saúde. Para Rogers (1961), “a causa  principal da criatividade parece ser a mesma tendência que descobrimos a um  nível profundo como a força criativa da psicoterapia – a tendência do homem  para se realizar a si próprio” (Rogers, 1961, apud Ciornai, 1994. p. 11).  Maslow, por outro lado, entende a criatividade num sentido semelhante,  entretanto não restringe a capacidade criativa às pessoas saudáveis. Para ele, as experiências criativas, artísticas, fazem parte de um processo de  individuação e de crescimento pessoal.  

Em Gestalt-Terapia, o sujeito é compreendido como um sistema aberto, em  constante desenvolvimento e crescimento em função de trocas criativas com o  ambiente; ou seja, ele é um ser relacional que interage com o mundo. As  funções de contato, mecanismos que o indivíduo dispõe para se relacionar com  o campo, são sempre criativas na medida em que lidam com o novo. Ao longo  desses processos de contato o indivíduo vai respondendo às informações,  sensações e percepções decorrentes das trocas com o sistema, e isso é  chamado de auto-regulação organísmica. Os ajustamentos que o sujeito precisa fazer para experimentar o mundo são sempre criativos porque se  referem a uma assimilação constante entre o novo e o já conhecido (Ciornai,  1994).

No presente trabalho abordaremos o conceito de criatividade e seus  desdobramentos no campo de interface entre Gestalt-Terapia e Arteterapia. A  partir de uma extensa pesquisa bibliográfica e de uma entrevista semi estruturada, realizada por Skype, com uma profissional da área, pretendemos  conhecer e compreender como a capacidade criativa relaciona-se com a  saúde, e como a arte pode ser abarcada no contexto psicoterápico, servindo  como importante recurso para esse processo.  

CRIATIVIDADE E PROCESSO CRIATIVO EM GESTALT-TERAPIA

A Gestalt-Terapia, bem como a Arteterapia, têm fundamentos ancorados em  processos de criação e, portanto, ao falarmos de tais abordagens e suas  interconexões, faz-se necessário compreender melhor o que é criatividade e  processo criativo e quais são suas implicações para as referidas abordagens e  suas práticas.  

Partimos aqui da Gestalt-Terapia, que concebe o indivíduo como um sistema  aberto, capaz de crescer e se desenvolver através de intercâmbio criativo com  o ambiente, como dito acima. Para essa escola, o indivíduo é visto não em  isolamento, mas sempre como parte de um campo ou sistema, entendido,  portanto, enquanto ser relacional (Ciornai, 1994). O indivíduo, lançado no  mundo, tem como parâmetro sua relação com o ambiente e pode, a partir de  critérios próprios, interagir de forma pessoal, de modo a ser criativo e com isso  se desenvolver. Por outro lado, ele pode alienar-se de si e de seus critérios e  se manter em uma posição impessoal, de modo a agir no mundo de forma pouco criativa, o que certamente dificulta qualquer crescimento. Portanto, “O  processo criativo começa com a compreensão do que existe ali: a essência, a  clareza e o impacto do que está à nossa volta.” (Zinker, 2007, p.35).

A compreensão, a tomada de consciência ou a awareness da complexidade da  relação eu-ambiente é fundamental no processo criativo. Porém, Zinker (2007)  nos faz atentar para o fato de que “A criatividade não é somente a concepção,  

é o ato em si, a realização do que é urgente, do que exige ser anunciado”  (p.15). A criatividade consiste, portanto, em: conceber a realidade e o meu  critério próprio diante dela e em adição, dar uma resposta. A resposta em geral  implica em uma ação, em fazer ou colocar algo de novo, mas não um algo  qualquer, e sim algo que diga respeito a uma exigência pessoal, a uma  indagação interna diante da realidade que inspira e pede por expiração.  

Para a Gestalt-Terapia, o instrumental do qual o indivíduo dispõe para ir ao  encontro com a realidade, sentir, avaliar, selecionar e responder ao que está a  sua volta são as funções de contato, sendo que todo contato é criativo, pois lida com o novo (Ciornai, 1994). Todo contato implica em mudança, e ao lidar  com a realidade como tal, o indivíduo se depara invariavelmente com situações  e contextos novos que invariavelmente implicam em uma nova concepção.  Ciornai ressaltou durante a entrevista o quanto a palavra “contato” é essencial  em Gestalt-Terapia. Segundo ela, ”o contato com o desconhecido, o aqui e  agora das nossas relações, sempre trazem um ingrediente do novo, e nos  permite vislumbrar outras dimensões”. Esta nova concepção tem a potência de  gerar novidades em si e tem a potência de, a partir de ações, gerar novidades  no ambiente. Podemos dizer, neste sentido, que a criatividade é uma  concepção que em ato, diante da realidade dada, coloca algo de novo na  realidade.  

Ainda que digamos que a criatividade instaura uma novidade, há uma ligação  intrínseca desse novo com algo de histórico. Esta afirmação parte do sentido  de que toda criação está vinculada a um criador, e este está atrelado ao seu  contexto, às suas vivências e enfim às suas urgências mais atuais. Neste  sentido, tudo que é colocado enquanto novidade tem algo de próprio daquele  que a coloca, e este, no momento em que cria, de certo modo coloca em sua  criação as consequências de sua história experiencial. Deste modo, ainda que  seja uma matéria nova e objetiva, toda obra criada traz consigo marcas  históricas de seu criador. Com isto, ficamos diante do caráter interconstitutivo  de sujeito e objeto: na medida em que o homem é formado pelo ambiente  externo, este também o forma.

Pensando nisso, quem cria não passa imune àquilo que foi criado. Na medida  em que faz um desenho, uma música, uma pintura, por exemplo, o indivíduo  fica diante de uma realidade nova, recém-colocada e no mínimo é convidado  por essa novidade a se indagar sobre ela. Segundo Ciornai, em entrevista  realizada,

“as pessoas que desenhavam e criavam, afirmavam: eu  

sou o artista, estou controlando o que está acontecendo  

aqui neste papel. A Arteterapia traz esta possibilidade ao  

paciente, que pode passar a se sentir um cidadão/artista,  

ao mesmo tempo em que propicia uma comunicação  

intersubjetiva muito eficaz entre ele e o arteterapeuta,  

entre ele e os outros”.

Enquanto criador, essa nova realidade materializada tem a potência de gerar  ressonâncias ainda mais próprias, na medida em que diz respeito a algo do  artista. Tais ressonâncias podem ser, portanto, positivas e/ou negativas, e  estas, como veremos mais adiante, podem dizer muito sobre si.  

Esse encontro entre produtor e produzido se dá primordialmente enquanto uma  experiência estética, que é descrita por Alvim (2007) partindo do pensamento  de Mikel Dufrenne como “o ato de o sujeito exprimir o objeto tornado estético  para si, buscando recriá-lo e situá-lo num plano de sentido que é para a  consciência.” (p.138). É desta experiência estética que o Gestalt-terapeuta  poderá partir para acompanhar seu cliente em um processo de elucidação,  conscientização ou de awareness de sua vivência enquanto eu ambiente/criador-criação. Nesse sentido, durante a entrevista, Ciornai enfatiza  que  

“a pessoa vai encontrar nas suas produções respostas ou  

reflexões, o que propiciará insights através das suas  

próprias produções. O Gestalt-terapeuta/Arteterapeuta  

não deve trabalhar no sentido de interpretar o trabalho do  

cliente, mas deve procurar fazer com que ele possa  

desvelar e reencontrar nos seus trabalhos os significados  

que sejam relevantes (...) ao se posicionar como um  

facilitador, um acompanhante do processo”.

Durante os processos de criação, bem como nos processos de vida, estão  presentes fantasias, ideias, desejos, pensamentos, angústias, dentre outras  experiências vividas pela pessoa. São estas que propiciarão experiências das  mais diversas no processo de criar, podendo interferir de modo a propiciar ou a  inibir a criação. Neste sentido Zinker (2007) vai dizer que, no processo criativo,  bem como quando estamos apaixonados, entramos em contato com nossa  doçura, com nossos anseios, com a profundidade de nosso bem-querer.  Ousamos dizer que, em adição, podemos entrar em contato com nossos limites  e medos, os quais estão presentes também nas vivências apaixonadas. O  amor é então uma espécie de tensão criativa e, o que Zinker (2007) vai nos  alertar é que permanecer com essa tensão é uma tarefa extremamente difícil,  principalmente em nossa sociedade que vende prazeres enlatados para a  satisfação de consumos imediatos, o que corta o processo em sua raiz.

Por fim, segundo Arieti, (1976. p. 5 apud. Ciornai, 1994),

“O processo criativo vai além dos modos usuais de lidar  

consigo mesmo ou com o meio... Traz um desejável  

alargamento da experiência humana... Criatividade é um  

dos meios básicos pelos quais o ser humano se liberta  

dos grilhões não apenas de suas respostas já  

condicionadas, mas também de suas escolhas habituais.”  

(p.10).

ARTETERAPIA

Ao buscarmos uma definição para Arteterapia que explicitasse os principais  aspectos necessários a um entendimento do conceito, elegemos a seguinte:

“Arteterapia é o termo que designa a utilização de  

recursos artísticos em contextos terapêuticos. [...] é uma  

definição ampla, pois pressupõe que o processo do fazer  

artístico tem o potencial de cura quando o cliente é  

acompanhado pelo arte-terapeuta experiente, que com  

ele constrói uma relação que facilita a ampliação da  

consciência e do auto conhecimento, possibilitando  

mudanças.” (Ciornai, 2004, p. 7)

Partindo disso, podemos inferir que a Arteterapia está diretamente relacionada  ao uso de atividades de cunho artístico como recurso terapêutico, sendo capaz  de propiciar uma expansão do self, da consciência. “É uma abordagem  processual na qual tanto o fazer da arte quanto o processo de elaboração e  reflexão sobre o que é produzido, é visto como tendo potencialmente valor  terapêutico” (Ciornai, 2004, p.6).

O uso terapêutico das artes é conhecido desde o início dos tempos, contudo é  após a Primeira Guerra Mundial que a Arteterapia começa a se constituir como  profissão, dando seus primeiros passos em busca de colecionar um arcabouço  

teórico de conhecimento e consolidar seu campo de atuação. Durante o  período pós-guerra muitos questionamentos acerca da ciência, da noção de  verdade e da concepção de ser humano emergiram, ocasionando uma  mudança de paradigmas, que contribuíram para a construção de novos  conhecimentos. De acordo com Ciornai (2004) a chegada de novos conceitos e  a teorizações acerca do homem se configurou como crucial nesse sentido, e  por volta dos anos 50 é possível falar no surgimento da Arteterapia a partir da  perspectiva da Arte-Educação, que tinha como objetivo exercitar a criatividade  e a linguagem artística buscando o desenvolvimento de diversas  potencialidades.

A história da Arteterapia no Brasil tem início na década de 20/30 com a atuação  do médico psiquiatra e crítico de arte Dr. Osório César e da médica psiquiátrica  Junguiana Dra. Nise da Silveira. Começaram a utilizar a arte como recurso  terapêutico ao desenvolver trabalhos e oficinas de artes com os internos dos hospitais onde trabalhavam. Segundo Ciornai (2004) é a partir da década de  60, com Hanna Yaxa Kwiatkowska, que retorna ao Brasil com formação em  Arteterapia e passa a oferecer cursos, que a área realmente começa a se  definir como campo de conhecimento e atuação.

A partir de então, a Arteterapia vai se constituindo como um campo abrangente  que possibilita a interseção entre práticas de diferentes abordagens  psicológicas e artísticas, propiciando que diversos profissionais façam uso de  recursos artísticos no setting terapêutico. É importante ressaltar que a  Arteterapia não se limita apenas a uma união de conhecimentos de Arte e  Psicologia, envolvendo outros conhecimentos que em conjunto definem a área  e a atuação do arteterapeuta.

O ato de realizar alguma modalidade artística se configurará, nesse sentido, como um recurso valioso que pode ajudar na intensificação do contato – com o  mundo e com o outro, além de incentivar a experimentação, permitir o  despertar de novas habilidades e propiciar uma ampliação das possibilidades.  Segundo Ciornai, em entrevista realizada, “na Arteterapia nasce não só o que o  indivíduo expressa, mas também o que imagina, pensa e vislumbra”. Afirma  ainda, que “a criatividade é muito enfatizada na Gestalt-Terapia”. E é por isso  que o processo criativo assume um papel tão importante, por permitir uma  ampliação da individualidade e o desenvolvimento de potenciais oferecendo  uma oportunidade de crescimento e mudança. Nesse sentido, citamos como  referência a descrição do trabalho de Arteterapia pela American Association of  Art Therapy, exposta por Ciornai (2004):  

“[...] por meio do criar em arte e do refletir sobre os  

processos e trabalhos artísticos resultantes, pessoas  

podem ampliar o conhecimento de si e dos outros,  

aumentar sua auto-estima, lidar melhor com sintomas,  

estresse e experiências traumáticas, desenvolver  

recursos físicos, cognitivos e desfrutar do prazer  

vitalizador do fazer artístico. Arteterapeutas são  

profissionais com treinamento tanto em arte como em  

terapia. Tem conhecimento sobre desenvolvimento  

humano, teorias psicológicas, prática clínica, tradições  

espirituais, multiculturais e artísticas e sobre o potencial  

curativo da arte” (American Association of Art Therapy  

apud Ciornai, 2004, p. 8)  

 

Ainda de acordo com Ciornai, em entrevista realizada “o terapeuta é chamado  a intervenções criativas e o cliente é levado a ter uma interação criativa com a  vida, com os outros, com o mundo”. Nesse sentido, o terapeuta deve se  posicionar como um guia, um facilitador, sempre estimulando e/ou sugerindo  experimentos que levem a descoberta do desconhecido, de novos caminhos.  Com relação ainda, à atuação do arteterapeuta gestáltico, é essencial que  tenha uma vivência na arte, uma familiaridade com o universo simbólico e  confie sempre no processo criativo do outro.

ARTE TERAPIA E GESTALT-TERAPIA

Ao explorarmos o campo da Gestalt-Terapia, encontramos alguns autores que  falaram sobre suas experiências utilizando Arte e Gestalt, o que nos leva a  identificar uma proximidade da Gestalt-Terapia com as Artes desde o seu  surgimento. Como citado por Ciornai durante a entrevista, Fritz Perls, Laura  Perls, entre outros, se posicionaram como precursores ao conceberem a  Gestalt-Terapia como uma abordagem calcada tanto em valores estéticos  quanto em ideias psicológicas. A partir de então, passou-se a se atentar para a  ressignificação da realidade que a arte permite, e sua contribuição para o  encontro de significados e a criação de insight. Nesse sentido, assim como a  Gestalt-Terapia, a Arteterapia fundamenta-se nas abordagens fenomenológica  e existencialista, e coerente com isso, buscará trabalhar o reconhecimento da  plasticidade na forma, a fim de estimular o indivíduo a encontrar os significados relevantes, possibilitando mudanças.

O conteúdo relacional é o cerne da conexão entre Arteterapia e Gestalt Terapia. O teor terapêutico do uso da arte é afirmado justamente no processo  de que a realidade convida, provoca o indivíduo em determinados pontos, a  partir dos quais ele vai expressar sua subjetividade objetivamente. Assim, a  partir da materialidade objetivada, vai ser novamente provocado e convidado a  olhar e a significar, a dar sentido.

Segundo Rhyne (1993),  

“Em qualquer criação artística as imagens explícitas são o  

seu conteúdo mais óbvio, mas a mensagem total pode não  

ser captada sem considerar-se o contexto total das  

imagens – o estilo no qual foram representadas, o  

relacionamento entre as figuras, a escolha da ênfase na  

representação e, com bastante frequência, aquilo que foi  

deixado fora do quadro. Não posso fornecer nenhuma  

estrutura confiável para interpretar arte; há demasiadas  

variáveis nas experiências individuais, culturais e  

psicológicas do criador. Para dar sentido a todas essas  

mensagens, temos sempre de considerar a gama mais  

vasta possível de aspectos da expressão.” (p. 142 e 143).

Podemos compreender então, que na criação, bem como no ambiente, há  inúmeras variáveis, inúmeros fatores que quando associados formam o objeto  da arte ou a realidade total. Olhar para as partes sem considerar o contexto  total seria perder de vista o sentido original e profundo da arte e da vida, pois  na medida em que se olha para o todo, para a relação entre as provocações  que se apresentam como figura em relação com aquelas que se formam como  fundo, as partes tomam um sentido coerente. Por outro lado, quando se olha  para as partes separadas, elas podem até ter certo sentido, mas elas não  alcançam a complexidade característica de uma arte ou da vida. Esta  característica que diz respeito ao fato de que o todo é maior que a soma das partes[1], é uma característica tanto da Gestalt-Terapia quanto da Arteterapia. Ademais, a relação entre figura-fundo também é uma característica importante  que possibilita o olhar para o todo da experiência, além de identificar pontos e  questões que estão mais em evidência em detrimento de outros, a partir da  experiência do indivíduo. Ciornai, em entrevista realizada, ressalta que uma  das principais contribuições da Psicologia da Gestalt à Arteterapia compreende  a ênfase que a primeira atribui à linguagem da forma e ao conceito de figura  fundo, e a concepção da percepção como subjetiva e intencional.

Olhando de longe, parece ser tudo muito fácil, dado em um movimento  simétrico em que a pessoa simplesmente pega alguns instrumentos e de  repente cria alguma forma de arte, mas o que Rhyne (1993) vai dizer é que “personalidades diferentes descobrem quais meios de arte parecem ser mais  naturais para elas.” (p.145). Há, portanto, uma grande utilidade da arte, porém há ainda muitas dificuldades com determinadas pessoas que se encaixam no  conceito de neurose para a Gestalt-Terapia, que segundo Alvim (2007), “é  fixação, repetição, perda da capacidade criativa, da disposição para a  improvisação, para o novo. Tentativa de controle, de agarrar-se ao conhecido,  medo do desconhecido.” Essas pessoas certamente encontrarão maior  dificuldade na Arteterapia, tal como em suas relações com o ambiente em geral  em suas vidas.  

“Quando a qualidade de contato é pobre, as figuras que  

aparecem em nossa “awareness” são fracas, nebulosas,  

indefinidas ou opacas, e a pessoa se sente confusa,  

infeliz, ansiosa, angustiada, deprimida. O contato precisa  

ser intensificado e a energia deve ser trazida para a  

experiência, a fim de facilitar novas percepções, “insghts”  

e compreensões, que eventualmente levarão a  

reconfigurações e novas aberturas em nosso mundo  

interno. (Ciornai, 1994, p.13).

Neste sentido, quando a pessoa coloca algo de novo na realidade, ou algo é  dado na realidade enquanto novidade, ela se perde, se fragmenta e tem  reações, em geral, negativas. O trabalho do terapeuta que utiliza a Gestalt Terapia consiste, portanto, em trabalhar nesse movimento de trazer de volta  para a experiência pessoal do indivíduo, procurando fazer com que o mesmo  se dê conta de sua percepção da realidade, do que ela provoca em si, de como  ele provoca coisas na realidade, a fim de propiciar um melhor contato e uma  abertura do indivíduo. Neste sentido,

“Processos artísticos, assim como outros processos  

experienciais, podem ser um recurso valioso para ajudar a  

intensificação do contato, que tem raízes em funções tais  

como ver, cheirar, sentir, mover. Falar não é uma avenida direta de contato com nossas realidades internas ou  

nosso ambiente; apenas nomeia e às vezes ajuda a  

organizar o que contatuamos com os sentidos”. (Ciornai,  

1994, p.14)

Como somos indissociáveis de nosso meio, toda expressão que imprimimos à  realidade nos caracteriza, e tudo o que nos toca é usado de algum modo para  nos expressarmos. Quanto a isso, Rhyne (1993) diz que,

“A forma como percebemos visualmente está diretamente  

relacionada à forma como pensamos e sentimos; a  

correlação torna-se aparente quando representamos  

nossas percepções com materiais artísticos. As figuras  

centrais que representamos emergem de um fundo difuso  

e nos dão pistas do que é central em nossa vida. A forma  

como usamos linhas, formas e cores em relação umas às  

outras e ao espaço em que as colocamos indica-nos algo  

sobre como organizamos os padrões de nossa vida. A  

estrutura ou a falta dela em nossas formas está  

relacionada ao nosso comportamento nas situações em  

que vivemos”.

Zinker (2007) vem firmar qual seria o papel do terapeuta que trabalha com  Arteterapia neste cenário:

“No processo criativo, o terapeuta permite que o paciente  

se uma a ele numa aventura em que ambos podem  

desempenhar constantemente todos os papéis desse  

enredo conflituoso. O terapeuta ajuda o cliente a ser um  

experimentador, um professor e um modificador ativo, ao  

mesmo tempo em que matem uma atitude compreensiva  

e respeitosa em relação à postura atual daquela pessoa.  

É nesse processo rítmico de trocas e exploração ativa da  

vida interior do cliente que sua estrutura geral começa a  

mudar.” p.34.

Com isto, conflui o pensamento de Ciornai (1995), para quem “A relação da  Gestalt-Terapia com criatividade se estende também à concepção gestáltica de  funcionamento saudável, que em todos os escritos básicos da abordagem, é  equacionada ao funcionamento criativo” (p.1). Segundo Zinker, 2007, a Gestalt Terapia é uma espécie de permissão para que as pessoas experimentem e  brinquem com as mais belas possibilidades de suas vidas.

CONCLUSÃO

A sociedade e os moldes nos quais ela vem se estruturando tem priorizado a  alienação dos indivíduos, que com isto perdem aquilo que pode se chamar de processo criativo. As pessoas, em sua ânsia por respostas e soluções  imediatas, em geral, não se propõem a elaborar suas vivencias, abandonando se a modelos construídos por outros sujeitos ou instituições. Nestes moldes de  submissão, o novo não é assimilado de forma crítica e não há criatividade, há  apenas atividade; falta espaço para a experienciação, e os indivíduos agem  apenas nos âmbitos da repetição e reprodução. Segundo Zinker (2007)  exposições limitadas ao mundo e às suas possíveis experiências dão pouco  espaço para a criatividade.  

Por meio desse trabalho, percebemos que a psicoterapia aliada à Arteterapia apresenta-se como uma interessante possibilidade de resgate dessa  capacidade criativa. A utilização de processos artísticos demonstra uma  “flexibilização” nos métodos tradicionais de trabalho clínico, possibilitando ao  cliente novas formas de apreensão da realidade. A Arteterapia Gestáltica  trabalha com processos de expressão e transformação o tempo todo, onde a  arte posiciona-se como um método que pode ser utilizado como recurso  terapêutico, possibilitando que cada indivíduo experiencie o processo criativo e  se torne mais consciente de si mesmo enquanto ser-no mundo. Essa maneira não convencional pode gerar sensações de surpresa, deslumbramento e até  mesmo de vergonha e estranhamento em relação ao seu produto artístico, mas  permite que o paciente entre em contato com sua realidade de forma intensa e  por um meio menos habitual do que a expressão verbal, por exemplo.  

É importante ressaltar que a terapia criativa, assim como outras psicoterapias, não extirpa conflitos, problemas, medos, angústias tal como o faz o cirurgião  que remove tumores, mas permite que a pessoa entre em contato com  energias imobilizadas a partir de seus conflitos. Ciornai, durante a entrevista  mencionou que “na Arte Terapia é possível trabalhar de uma forma indolor com  coisas bastante profundas, e não só com a expressão de sentimentos e  sensações, mas com novas possibilidades, com visualizações de processos de  cura, com visualizações de novos caminhos na vida”. Acreditamos que a tentativa da Arteterapia Gestáltica é justamente deixar nas mãos da pessoa a  liberdade que lhe é característica, fazer com que ela própria perceba como  interage com seu meio, formando-se a partir da realidade e contribuindo com a  formação da realidade de forma a interferir no todo, e de certo modo, também  formá-lo. Sob a ótica de ambas as abordagens aqui mencionadas, o ser  humano é entendido como alguém que criativamente, busca se adaptar ao  meio; e as diferenças passam a ser então valorizadas à medida que cada  pessoa é única e tem uma maneira original de ser, sentir, ressignificar, se  expressar e construir novas possibilidades.

O presente trabalho apresentou uma revisão bibliográfica abrangente acerca  do tema. A partir dessas conclusões, afirmamos a relevância do assunto para a  área de Gestalt-terapia e propomos que novas pesquisas sejam feitas, no  sentido de conhecer e compreender como essas duas realidades convergem  na prática clínica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVIM, M.B. (2007). Experiência estética e corporeidade: fragmentos de  um diálogo entre Gestalt-Terapia, arte e fenomenologia. Estudos e  pesquisas em psicologia, UERJ, RJ, v. 7, n. 1, p. 138-146, abr. 2007.

BILBAO, G. G. L.; CURY, V. E. (2005) O Artista e Sua Arte: Um Estudo  Fenomenológico, 2005. Disponível em <  

http://www.scielo.br/pdf/paideia/v16n33/12.pdf> Acesso em 28 nov. 2012.

CIORNAI, S; DINIZ,L. Arteterapia no Brasil. Artigo traduzido e extraído da  Revista “Arteterapia - Papeles de arteterapia y educación artísticas para la  inclusión social”, Vol 3/2008, pg. 13-16, ISSN:1886/6190. Uma publicação da  Universidad Complutense de Madrid.

CIORNAI, S. (1994). Arte terapia Gestáltica: Um caminho para a expanção  da consciência. In: Revista de Gestalt nº 3, publicação do Departamento de  Gestalt Terapia do Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo. 1994.

CIORNAI, S. (1995). Relação entre criatividade e saúde na Gestalt Terapia.  Palestra apresentada no I Encontro Goiano de Gestalt-terapia. In: Revista  do ITGT (Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-terapia). nº 1,  Goiânia, 1995. 

CIORNAI, S. (2004). Percursos em arteterapia: arteterapia gestáltica, arte  em psicoterapia, supervisão em arteterapia. São Paulo: Summus, 2004.

RHYNE. J. (1993). Arte e Gestalt: Padrões que convergem. São Paulo:  Summus, 1993. 

ZINKER, J. (2007). Processo Criativo em Gestalt-terapia. São Paulo:  Summus, 2007. 

Endereço para correspondência: 

Mariane Coimbra Silva 

E-mail: marianecoimbrasilva@gmail.com 

Eduardo Moura de Carvalho 

E-mail: eduardovmc@hotmail.com 

Rafaela Dias de Lima

E-mail: rafaelinhadias10@yahoo.com.br 

Recebido em: 07/05/2013 

Aprovado em: 10/07/2013

ANEXOS

ENTREVISTA COM A PSICÓLOGA GESTALT-TERAPEUTA

Entrevistada: Selma Ciornai

Local: Entrevista realizada via Skype

Data: 01 de dezembro de 2012

Observação: A entrevista não foi transcrita na íntegra, visto que foi realizada  por dois grupos simultaneamente. Optamos por transcrever os trechos  relacionados com a temática explorada no presente trabalho.

Entrevistador: Quais foram os fatores que te motivaram a eleger a Arte  Terapia gestáltica como campo de atuação?  

Entrevistada: Meu caminho é diferente. Eu fui primeiro para área de Belas  Artes e Arte-Educação. Eu sempre gostei de trabalhar com poesia, artes  plásticas, sempre fui uma pessoa muito criativa e gostei das artes. Mas eu  achei o trabalho de ateliê, um trabalho muito solitário. O que eu gostei mais de  fazer foi trabalhar com pessoas. Na época que eu saí do Brasil, em 69, fui para  Israel e lá eu entrei no departamento de Sociologia, Arte e Educação; e foi  quando eu percebi que eu gostava muito mais de trabalhar com adolescentes e  crianças do que ficar sozinha no ateliê fazendo esculturas e coisas do gênero.  Daí, como eu estava trabalhando com adolescentes “barra pesada”, quase  marginais, numa região muito pobre de Israel, percebi que eu precisava  entender um pouco mais de Psicologia, e não só de Sociologia e Arte. Foi aí  que eu comecei a me interessar pelas artes e busquei um curso de Arte  Terapia, porque eu achei que este curso combinava as duas coisas: Psicologia  e Arte. Fiz um ano do curso em Israel, depois voltei para o Brasil; trabalhei no  Rio de Janeiro quase um ano no CAPS Leblon, com crianças vulneráveis.  Nisso me candidatei para fazer o mestrado em Arte Terapia nos EUA e ganhei  uma bolsa da Capes para ir. E lá, ao mesmo tempo em que fazia formação em  Arte Terapia, comecei o doutorado em Psicologia e a formação em Gestalt Terapia porque senti necessidade de entender a dinâmica das pessoas de uma  maneira mais profunda e me encantei muito com esta abordagem. Este foi o  meu percurso, diferente do das outras, cheguei por último na Psicologia.

Entrevistador: Como funciona a atuação do arte-terapeuta gestáltico  (intervenções, prática da terapia, dinâmica)?

Entrevistada: A afinidade da Arte Terapia com as artes está desde o seu início  porque nomes como Fritz Pelrs, Laura Perls e Paul Goodman estiveram  envolvidos com disciplinas artísticas como literatura, música, dança e teatro.  Na abordagem gestáltica, funcionamento saudável é equivalente/equacionado  a funcionamento criativo. A criatividade é muito enfatizada na Gestalt-Terapia.  O terapeuta é chamado à intervenções criativas e o cliente é levado a ter uma  interação criativa com a vida, com os outros, com o mundo e justamente quando este fluxo de criatividade é bloqueado/travado aparecem as  dificuldades, aparecem as dificuldade de contato. Tanto que a própria palavra  “contato” é essencial em Gestalt-Terapia... É o contato com o novo, porque o  contato com o velho não é contato. O aqui e agora das nossas relações  sempre trazem um ingrediente do novo; quando você só projeta o velho na  situação atual você está perdendo uma dimensão importante. Então, eu acho  que uma das coisas importantes, é que já na abordagem gestáltica aparece  uma afinidade muito grande com a criatividade. A palavra criatividade remete  ao ajustamento criativo, a awareness. Muitos termos da própria Gestalt-Terapia  referenciam a questão da criatividade. Nos anos 80, tinha uma artista plástica  chamada Janie Rhyne; ela foi fazer uns workshops com o Fritz e como ela não  tinha dinheiro pra pagar ele propôs que ela fizesse ateliês de arte com os alunos durante o workshop como retribuição por estar participando de forma  gratuita. Isso porque o Fritz já tinha todo um gosto pela arte. Ela, Janie Rhyne,  criou o que podemos chamar de experiência de arte gestáltica; não é  exatamente Gestalt-Terapia, mas é um trabalho de arte voltado para o  autoconhecimento, voltado para o contato positivo entre pessoas. Nesse  sentido, ela teria o trabalho de arte voltado para o autoconhecimento e para  uma comunicação eficaz entre as pessoas. Depois disso, ela foi fazer o  doutorado em Psicologia e ai emergiu a Arte Terapia gestáltica. Ela não foi a  única precursora, o Joseph Zinker também escreveu o livro sobre processos  criativos em Arte Terapia, ressaltando a importância da criatividade na vida. O  último capítulo inclusive, fala sobre a experiência com recursos artísticos. Eu  falei um pouco disso para entendermos como foi o começo. Se formos  ver/analisar os fundamentos da Gestalt-Terapia, temos o existencialismo que  tem a ver com a fé na pessoa de poder fazer suas próprias escolhas na vida,  criar seus próprios caminhos. A Arte Terapia gestáltica também tem essa  fundamentação existencialista, ao enfatizar que a pessoa vai encontrar nas  suas produções respostas ou reflexões, que ela pode ter insights através das  suas próprias produções. Não trabalhamos no sentido de interpretar o trabalho  do cliente, mas procuramos fazer com que ele possa desvelar e reencontrar  nos seus trabalhos os significados que sejam relevantes. O gestalt-terapeuta  nunca vai dizer “isso representa/significa isso”... Pelo contrário, o gestalt terapeuta vai sugerir que as próprias pessoas tragam/encontrem os seus  significados: “O que você vê ai? O que isso significa pra você? Quando você  olha pra isso o que vê? Associa a quê?”. Então, vai estimular que o próprio  criador/paciente possa encontrar nos seus trabalhos os significados que lhe  sejam relevantes. Da mesma maneira, a abordagem fenomenológica, que  também caracteriza a Gestalt-Terapia também está presente na Arte Terapia  gestáltica, visto que não cabe ao terapeuta interpretar o trabalho dos clientes,  mas percebê-lo como um fenômeno, procurando entender como é o estilo da  linha, com que espaço, construções, temas e cores; procurando descrever ao  máximo o que está vendo e junto com o cliente procurar extrair os significados.  A Arte Terapia gestáltica tal como a Gestalt-Terapia tem uma fundamentação  existencial fenomenológica. E da mesma maneira, que em Gestalt-Terapia  você presta atenção na linguagem, nos gestos, no tom de voz, nas palavras  usadas... Em Arte Terapia você tem que aprender mais a linguagem da forma,  a linguagem visual... Quem quer trabalhar com Arte Terapia gestáltica tem que se familiarizar com a linguagem da forma, com a sintaxe e léxico da linguagem  da forma; que direções, que movimentos, que tipo de composições... Tem que  se tornar um profissional que sabe prestar atenção na linguagem da forma e  não só no conteúdo... Têm arte-terapeutas que não são psicoterapeutas,  apenas trabalham em ateliês terapêuticos. Nestes ateliês: por exemplo, um  ateliê de Arte Terapia em um hospital psiquiátrico ou em uma instituição de  idosos e/ou de saúde, a pessoa vem para participar de uma ou duas horas de  ateliê de Arte Terapia; é um tipo de trabalho interdisciplinar, a pessoa não é  atendida só pelo arte-terapeuta, esta é uma das muitas atividades realizadas  ao longo do dia. Em outro tipo de trabalho, que eu chamo de arte-psicoterapia,  que é mais restrito a psicólogos, as pessoas vêm ao consultório do terapeuta e  a Arte Terapia é um dos instrumentos que este terapeuta tem/usa. Por  exemplo, no meu consultório, tenho uma parte da sala que têm duas cadeiras e  uma outra parte que tem uma mesa, um armário com materiais; e dependendo  do dia, dependendo do tema, eu posso convidar o cliente a estar  experimentando os materiais e a estar expressando aquilo que ele está me  dizendo e sentindo por meio da forma. Porque muitas vezes, aquilo que as  pessoas sentem não pode ser facilmente traduzido pela linguagem das  palavras. Muitas vezes, o cliente está falando de uma angústia, de uma  dificuldade, e eu posso sugerir que ele trate/expresse isso na arte, e muitas  vezes o trabalho na arte vai trazer informações que a linguagem da fala por si  só não traz. Quem trabalha com Arte Terapia em psicoterapia, sabe que é um  recurso que você pode usar e que não necessariamente precisa ser usado todo  o tempo. Eu, como psicoterapeuta, uso Arte Terapia, mas também sou gestalt terapeuta e uso outras coisas. Já quem trabalha em ateliê de Arte Terapia sabe  que o cliente vem naquele horário com o objetivo de realizar uma atividade...  Então, é uma atividade em grupo e que tem um cunho expressivo e vai  depender muito do tipo de trabalho, se é individual ou em grupo, com criança,  adulto ou idoso... A Arte Terapia se adéqua a várias populações, desde  crianças a idosos, e a vários settings: contextos educacionais, de saúde,  prisionais, psicoterápicos... Vai depender muito se esta sendo realizada com  pessoas com maior comprometimento ou com pessoas que estão bem e só  querem se conhecer mais...

Entrevistador: Quais são as principais diferenças entre a Gestalt-Terapia e a  Arte Terapia gestáltica?

Entrevistada: Diferenças, eu não diria diferenças... A Arte Terapia gestáltica é  uma das aplicações/áreas da Gestalt-Terapia. O gestalt-terapeuta pode querer  ou não trabalhar com arte. Se quiser é uma especialização; quer dizer, você  não necessariamente precisa se tornar um arte-terapeuta, mas você pode usar  elementos da Arte-terapia gestáltica no seu trabalho. Se quiser passar por uma  formação, aí é outra coisa... Por exemplo, posso usar elementos do  Psicodrama sem ser uma psicodramatista. Não diria que existem diferenças,  diria que o arte-terapeuta gestáltico trabalha sempre com algum tipo de  material plástico, com a expressão artística, enquanto o gestalt-terapeuta nem  sempre... Você pode ser um gestalt-terapeuta que gosta de trabalhar com arte  de vez em quando, ou você pode fazer um curso de aperfeiçoamento ou até de especialização em Arte-terapia. O grau que você quer se aprofundar nisso vai  depender de pessoa para pessoa. A questão é que não basta ser terapeuta e  gostar de trabalhar com desenho para ser arte-terapeuta, mas você pode fazer  algum curso mais breve para utilizar alguns recursos...

Entrevistador: Em sua opinião, quais são as principais contribuições da  Gestalt-Terapia à Arte Terapia?

Entrevistada: Eu acho que a principal contribuição, não é nem da Gestalt Terapia, é da Psicologia da Gestalt e está na ênfase que esta dá a linguagem  da forma – na valorização e importância da forma – no conceito de figura  fundo, na percepção que é subjetiva e intencional, nunca se configurando como  objetiva. Mas acho que a psicologia da forma/gestalt trouxe a ênfase na  importância da linguagem da forma, e a partir disso, passamos a poder olhar  cada forma relacionada com o fundo; e esta é uma contribuição muito  importante. Por exemplo, o livro do Rudolf, que é um dos desenvolvimentos  mais recentes da Psicologia da Gestalt, é lido e estudado em todos os cursos  de Arte Terapia, mesmo nos que não sejam de linha gestáltica. Porque essa  ênfase na importância de observar a fenomenologia da linguagem da forma, ao  olhar uma pintura, ao olhar quais os tipos de traços; de formas, se são formas  retilíneas, côncavas; se os traços são retos, se redondos; se os movimentos  são dinâmicos ou se é uma pintura mais estática; se a direção é para cima,  para baixo, para os lados... Olhar qual o tipo de composição, se é uma  composição centrada ou se é uma composição em que as partes são  relacionadas, ou se as partes não tem interação... São várias categorias para  se aprender a olhar a linguagem da forma, olhar se é uma linha tremida, se é  uma linha que se interrompe toda hora, se é uma linha feita que nem quando  se está trabalhando com lápis e borracha, que vai se fazendo e vai apagando...  Se é um tipo de trabalho que privilegia a preocupação com a perfeição e  exatidão ou se é mais espontâneo ou solto? Tudo isso vai falando da pessoa...  Se é uma pessoa que tem preocupação em ultrapassar o contorno ou não, se  os movimentos são curtos e indecisos ou largos e espontâneos... Tudo isso  traz informação sobre a linguagem da forma...

Entrevistador: A partir de sua experiência clínica, como você entende - sob o  olhar da Arte Terapia gestáltica o processo dialético entre saúde e doença  (relação saúde- doença para a Arte Terapia)?

Entrevistada: Na Gestalt-Terapia doença é sempre visto como algum  travamento de energia, a doença tem a ver com bloqueio de energia, com  alguma fragilidade. De alguma forma a energia de vida fica contida,  bloqueada... Na Arte Terapia conseguimos trabalhar de uma forma indolor com  coisas bastante profundas, e não só com a expressão de sentimentos e  sensações, mas você também vai trabalhar com novas possibilidades, com  visualizações de processos de cura, com visualizações de novos caminhos na  vida. Na Arte Terapia nasce não só o que você expressa, mas também o que  você imagina, pensa, vislumbra. E você pode simbolicamente queimar coisas  que estão te fazendo mal, repor essas coisas com novos elementos. Você trabalha com processos de expressão e transformação o tempo todo de uma  forma não tão dolorosa. O processo de Arte Terapia é leve, ademais o fato que  você está trabalhando com o novo, porque criar novas formas é sempre o  oposto do processo entrópico – que é o processo que nos leva a morte, uma  vez que vai se diferenciando cada vez mais do processo criativo, tal processo é  o oposto do processo gestáltico. Em hospitais, em settings de saúde, a Arte  Terapia é muito importante, primeiro para humanizar o contexto, porque  deixamos de olhar o cliente apenas como paciente; e no momento em que ele  está criando, está entrando em contato com o seu lado omisso... Da mesma  forma, as pessoas que desenhavam, criavam, afirmavam: “eu sou o artista,  estou controlando o que está acontecendo aqui neste papel”. A Arte Terapia  traz esta possibilidade de o paciente poder se sentir um cidadão/artista,  propicia uma comunicação intersubjetiva muito eficaz, entre ele e o  arteterapeuta, ou com os outros. Traz a possibilidade de visualizar e simbolizar  a cura, esperança, o que deseja...

Entrevistador: Outro ponto de investigação de nossa pesquisa é melhor  conhecer os trabalhos de psicoterapia com grupos na abordagem gestáltica.  

Entrevistada: É bastante legal o trabalho com grupos, pois a partir do  momento que cada um faz um trabalho de arte, isso ajuda muito a se  estabelecer a comunicação com as pessoas. Quando você pede para cada um  do grupo fazer/confeccionar uma imagem acerca “de como está se sentindo  hoje” e compartilhar com o grupo, isto facilita a comunicação grupal, gera  identificações, facilita a estabelecimento do vínculo grupal. O trabalho pode ser  em duplas, trios... Trabalha a inclusão e o trabalho grupal por meio da arte.  Este trabalho grupal pode envolver os familiares, os cuidadores, enfermeiras,  pessoas que trabalham com pessoas.

Entrevistador: Para você, o que é essencial ao arte-terapeuta gestáltico?  

Entrevistada: Acredito que o que seja essencial a todo arte-terapeuta é a  familiaridade com o trabalho de arte. Não dá para trabalhar com Arte Terapia  sem ter a prática de pôr a mão na tinta, no pincel. Você tem que ter uma prática  de arte, senão você vai estar submetendo os outros a algo que você não  vivencia e experimenta. Eu acho que o arte-terapeuta deve ter uma vivência na  arte, uma familiaridade com o universo simbólico. Já ao gestalt-terapeuta  propriamente dito, o importante é ter a confiança no processo criativo do outro,  é não dar/entregar “tudo de bandeja”, é se posicionar como um facilitador, um  acompanhante do processo. Na verdade quem tem que encontrar as soluções  é o cliente e não a gente. Então, eu acho que o que é essencial e  verdadeiramente importante, tanto para o gestalt-terapeuta quanto para o arte terapeuta gestáltico, é a capacidade de estabelecer bons vínculos, é a relação,  a relação terapêutica...

Entrevistador: Em sua opinião, quais as dificuldades e limitações da área,  levando em consideração que não são tantos profissionais que utilizam a Arte  Terapia no contexto clínico ou em outra área da Psicologia?

Entrevistada: O importante é as pessoas não ficarem sozinhas, hoje várias  associações estão sendo criadas e é importante buscar, pois elas têm lutado  para alcançar seu reconhecimento. As pessoas têm que se organizar e estudar  para apresentar a Arte-terapia de uma maneira séria e competente, realizar  pesquisas e estar se unindo em prol de reivindicar o reconhecimento dessa  área de atuação.

Entrevistador: Gostaria de fazer mais algum comentário ou abordar alguma  questão antes de finalizarmos?

Entrevistada: Eu acho que como eu falei antes, a Arte Terapia e a Gestalt Terapia tem uma integração muito bonita, porque a Gestalt-Terapia enfatiza  muito a importância da criatividade na vida. Enfatiza também, a existência das  outras linguagens, o não usar só a linguagem verbal, mas também a dos  gestos, a dramatização. A própria ênfase que a Gestalt-Terapia dá no valor do  experimento, nos mostra que são abordagens muito complementares. O  gestalt-terapeuta não precisa se formar como arte-terapeuta, mas a medida  que puder fazer algum curso e integrar algo da Arte Terapia ao seu trabalho, a  margem de recursos que terá vai ser mais rica e o seu trabalho poderá ficar  bem mais interessante.

Revista IGT na Rede, v. 10, nº 18, 2013, p.18-36 DOI 10.5281/zenodo.15042746

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526


[1] Tal afirmação remete às leis da Gestalt, formuladas pelos psicólogos gestaltistas alemães no início do  século XX