ARTIGO

“Bullying”: a violência na escola contemporânea sob o enfoque  da abordagem Gestáltica

“Bullying”: violence in contemporary school with a focus on gestalt  approach

Eduardo Cremer

RESUMO

Esse trabalho trata de uma questão que aparece essencialmente no espaço  escolar, o bullying. O tema é desenvolvido sob o olhar da Gestalt-terapia e  contextualizado com a sugestão de que a escola é somente mais um cenário  pós-moderno em que há um incremento da violência, estilo de vida que assola  nossa sociedade. Por fim, há uma avaliação de como a estrutura escolar pode  contribuir para a reprodução desse modelo social e uma discussão acerca das  relações estabelecidas entre os atores que compõem o espaço escolar.  

Palavras-chave: Bullying; Escola; Professor; Aluno; Desenvolvimento Integral; Relação.

ABSTRACT

This work is about a question that appears mainly in the school environment:  bullying. The theme is developed from the perspective of Gestalt therapy and  contextualized with the suggestion that the school is just another postmodern  scenario in which there is an increase in violence, a lifestyle that is plaguing our  

society. Finally, there is an assessment of how the school structure may  contribute to the reproduction of this social model and a discussion of the  relationship between the actors in the school environment.

Keywords: Bullying; School; Teacher; Student; Integral development; Relationship.

Introdução  

“Quando quiseram disseminar a virtude ilustre por todo o reino,

os antigos primeiro ordenaram bem seus próprios Estados.

Querendo ordenar bem seus Estados, primeiro regularam bem suas

famílias.

Querendo regular suas famílias, primeiro cultivaram suas pessoas.

Querendo cultivar suas pessoas, primeiro emendaram seus corações.

Querendo emendar seus corações, primeiro buscaram ser sinceros  

em seus pensamentos.”1 

Muito se fala hoje em dia sobre os episódios de violência escolar, tanto entre  os alunos, como entre aluno e professor e, ainda, em última instância, dos  alunos depredando a estrutura escolar. Os casos vão se multiplicando e  passou a se tornar necessário que se pense sobre o assunto, sob pena da  escola se perder em sua função educativa, já que os agentes escolares  acabam não conseguindo atuar de forma produtiva com os alunos.

Vemos em nossa sociedade um crescimento gradativo das relações violentas e  o ambiente escolar, pertencendo a esse cenário, vem sendo sensibilizado por  esse estilo relacional. Atos agressivos vêm se repetindo nesse espaço e se  tornando cada dia mais comuns assim como no cotidiano da cidade. As  relações contemporâneas estão um pouco distantes de formatos de cidadania,  respeito ao outro e de valorização dos contatos confirmadores, abrindo espaço  para modos de vida calcados em agressões.

Os próprios modos de produção e, como diz Bauman (2001), a compressão do  tempo e do espaço promovem formas de existir que não colaboram com uma  convivência saudável entre as pessoas. A questão temporal se traduz pela  ampla velocidade com que as trocas acontecem e as relações se desenvolvem.  Calcada principalmente na evolução tecnológica, muitas tarefas do cotidiano  foram facilitadas, o que traria mais conforto à sociedade. Paradoxalmente, o  que vemos é que todos têm cada vez menos tempo para as obrigações do dia  a dia, concorrendo para um estresse maior no cumprimento das mesmas.  Nesse esquema, a maioria das pessoas está sempre funcionando no limite, o  que ocasiona pouca disponibilidade para o outro e para demandas que não são  de interesse próprio.

A estrutura capitalista também vai ao encontro desse formato exacerbando a  competição por espaço, emprego e benefícios, contribuindo para um maior  individualismo. Além disso, a falta de diversas garantias, tais como, emprego,  saúde e segurança, e o foco no consumo são itens que estão muito presentes  na atualidade e participam, em algum nível, da construção de um cenário social  que se destaca pela agressividade, já que cada um precisa brigar – e, em  alguns casos, literalmente se trata de uma disputa física - para sobreviver.

Sendo assim, a escola, como instituição submetida a essas influências, pode  acabar reproduzindo em seu interior comportamentos violentos, já que sua  

 

1[Confúcio (551-479 a.c.), apud Veiga (1997)]

população faz parte desse contexto social. Um dos estilos de violência que tem  se repetido muito e vem ganhando espaço, principalmente na mídia, é o  bullying2, tema principal desse trabalho. Esse fenômeno se trata de um  comportamento violento e repetitivo entre pares escolares e tem sido alvo de  inúmeras discussões atualmente, sobretudo depois que ganhou um nome e  passou, também por isso, a ser divulgado. Por se tratar de um trabalho de base  gestáltica, não me limito a abordar o fenômeno somente a partir dessa  definição e me esforçarei para descrevê-lo de maneira mais fenomenológica,  assim como fazemos com os diagnósticos em geral.

Ao avaliar a forma como o bullying acontece percebemos se tratar de uma  questão multifatorial, portanto, não vamos encontrar soluções observando-o  muito de perto, ou seja, não encontraremos saídas ou resolveremos a questão  atuando e olhando somente para o ato em si. Com o foco na agressão e,  muitas vezes, só punindo o agressor não ampliamos o olhar e não desfazemos,  assim, o ciclo estabelecido. Então, avalio a temática trazendo para o cenário  outras questões que podem atravessá-la como a família dos envolvidos no ato  e a forma como se estrutura a escola contemporânea e a nossa sociedade.

Esse tema novo, pelo menos do ponto de vista da mídia e das pesquisas, tem  produzido situações preocupantes nas escolas. Alunos que sofrem esse tipo de  violência tem tido dificuldade em frequentar a escola, apresentam sintomas  físicos de mal-estar e podem até mesmo cometer suicídio. A própria novidade  do tema é algo que pode ser questionado, já que é possível que esse  comportamento possa ter existido em outras épocas também.

Essa é só uma das discussões que se apresentam sobre o tema, já que outras  também emergem à medida que desenvolvo este trabalho. Um exemplo é o  debate a respeito da posição que deve ser ocupada pelos professores numa  situação de bullying, se faz parte do seu trabalho uma preparação para  reconhecer e intervir. Essa é uma das interrogações que trabalho mais de perto  me posicionando, mas outras foram suscitadas ao longo do processo e acho  por bem citá-las no final, mesmo sem uma posição definida a respeito.  

Portanto, aqui, já antecipo que esse trabalho se propõe a produzir abertura  para novas perguntas e, não necessariamente, objetiva uma resolução fechada  de procedimentos e modos de agir. Mesmo porque, trata-se de uma  contribuição da psicologia e, mais especificamente, da Gestalt-terapia para a  área da educação e, como uma produção interdisciplinar, se beneficiaria muito  da participação teórico-experiencial de pedagogos e agentes escolares. Sem  dúvida esse contato enriqueceria muito essa produção, trazendo novas  possibilidades para o tema.

De outra maneira poderia cair na armadilha de criar teorias somente a partir da  minha área de conhecimento, correndo o risco de desenvolver teses que se  afastam das possibilidades de resolução dos problemas educacionais. Então,  apesar de achar importante a avaliação do lado psicológico e emocional dos   

2 Esse termo será devidamente definido e discutido no Capítulo 2 deste trabalho.

alunos, precisamos de contato com a área que lida direto com tal questão, sob  pena de produzirmos ideias que não se alinham a realidade escolar. Por isso,  para o desenvolvimento do trabalho, proponho questões e resoluções que  servem a discussão e não a um fechamento. Também por isso e a título de  ilustração, entrevisto três professores coletando alguns dados mais reais sobre  o cotidiano escolar e sobre o tema desenvolvido no trabalho.

Outro ponto a se destacar é que me valho de uma perspectiva de campo e, por  isso, não penso no bullying como um problema que apareceu nas escolas sem  relação com o cenário em que se engendra, da mesma maneira acredito que  seu diagnóstico precisa ser feito dentro da mesma postura teórica. Então,  quando estiver falando da ocorrência desse fenômeno parto do princípio que,  de fato, foi verificado com a contribuição das partes envolvidas, observando de  maneira mais ampla o que ocorreu e não ficando somente com o olhar sobre  uma das partes, quando, por exemplo, ocorre ao se escolher como única  solução para o caso a punição do agressor.

Ao longo do trabalho, também me utilizo do argumento de que o cuidado maior  com o desenvolvimento integral dos alunos pode ter relação direta com a  diminuição da violência escolar. Entendendo por desenvolvimento integral a  relação de integração dos aspectos cognitivo, afetivo e comportamental, já que,  a partir do enfoque gestáltico, esse sujeito em formação é considerado como  uma totalidade. Em alguns momentos em que falo de maneira separada de um  dos campos é para dar relevância a algum tema, mas todos os campos  coexistem sempre. Essa ideia se baseia nos resultados obtidos por uma  pesquisa realizada por Fante (2005) encontrada no livro que utilizei como fonte  para esse trabalho. Essa pesquisa-intervenção intitulada “Programa Educar  para a Paz” é composta de algumas fases que explico mais à frente.

Utilizo-me dos resultados dessa pesquisa como fonte de ideias para pensar  numa saída para essa questão, mas não coloco meus argumentos como  caminho a ser seguido obrigatoriamente para um resultado exato, como não  aconteceria em momento nenhum se tratando de uma questão humana. A  própria Fante (2005) adverte que a ação proposta por ela após a realização  pesquisa não produzirá os mesmos efeitos sempre e que qualquer trabalho  nessa direção deve levar em consideração a realidade de cada escola.

Além disso, me valho de experiência pessoal para identificar três itens  importantes do trabalho: o sofrimento que o bullying causa, a estrutura escolar  contemporânea e a violência em nossa sociedade. O primeiro ponto advém de  meu trabalho como psicoterapeuta, que me demonstrou em atendimentos o  quão deletério é o bullying para o posterior desenvolvimento de uma pessoa.  Em pelo menos três casos os clientes se queixavam do que tinham sofrido na  escola e de como esses fatos ainda os perturbavam em sua vida atual, mesmo  que 30 anos depois do ocorrido, como em uma das situações.

A segunda experiência fica por conta das observações que pude fazer a  respeito da estrutura escolar contemporânea quando trabalhei em uma  instituição por sete anos e meio. Pode ser somente uma experiência, mas de fato via o quanto as características de nossa sociedade atual, atravessavam  aquela instituição de ensino causando sofrimento em seus alunos. Por último, a  violência que se espalha por todo o nosso tecido social é citada pela mera  constatação do nosso cotidiano, principalmente na cidade do Rio de Janeiro. Para a construção desse trabalho - que ainda conta com três entrevistas com  professores – dividirei em três partes teóricas para melhor entendimento. Na  primeira discorro sobre as características pós-modernas, época em que  vivemos segundo alguns teóricos, ampliando o olhar para os itens que mais me  interessam aqui. Dentro disso ainda especifico como as relações humanas se  apresentam nesse cenário.

Na segunda parte me detenho mais nas definições objetivas e características  do bullying, passando por um breve histórico do fenômeno incluindo a  discussão a respeito do nome utilizado para significar o assédio moral escolar.  Depois de delimitar os atores envolvidos, trabalho a questão observando um  período específico, o de maior ocorrência de bullying, do 6º ao 9° ano do  ensino fundamental3. Ainda nesse capítulo destaco as consequências  emocionais dos envolvidos no ato e, por fim, analiso a relação que as famílias  dos alunos envolvidos têm com a ocorrência deste.

No terceiro e último capítulo teórico coloco todos os itens anteriores no interior  da escola e avalio como essas características se cruzam produzindo ou, pelo  menos, contribuindo para o aparecimento de atos violentos entre os alunos. Na  primeira parte caracterizo a estrutura escolar e o que seus professores fazem  em seu trabalho, depois discuto as relações entre os diversos atores lá  presentes e na última parte levanto a possibilidade de uma formação mais  integral que inclua, por exemplo, atenção ao campo emocional na formação  escolar, como forma de ação preventiva para os atos de violência e,  posteriormente, no campo social mais amplo.

Na última parte do trabalho apresento as informações recolhidas nos  depoimentos obtidos em três entrevistas realizadas com professores que  atuam na faixa escolar abordada neste trabalho, fazendo-o a luz de todas as  construções teóricas que levantei anteriormente. Os depoimentos tiveram como  objetivo observar como três professores tratam a questão do desenvolvimento  mais integral, com destaque para o campo emocional, trazendo para o foco  suas opiniões e informações sobre o assunto.

Desenvolvo o trabalho sempre tendo como norte a ideia de que, assim como a  violência, o bullying é uma questão de causas multifatoriais, portanto, para  entendermos e pensarmos sobre essa questão necessitamos da participação  de diversos campos e instâncias que atravessam o fenômeno. Assim, passo  por algumas etapas de construção esperando no fim produzir mais  compreensão do fenômeno, bem como novas questões para discussão que  componham novos pensamentos, podendo construir pontes com outros  campos de conhecimento.

 3 A nomenclatura anterior desse período escolar que era de 5ª a 8ª do ensino fundamental, foi  modificada recentemente para 6° ao 9º ano do ensino fundamental.

1 - Contexto social atual

“Não se pretende que o último herói da  

modernidade para a geração de 68, Ernesto  

Guevara, seja um ideal utópico para os  

jovens, mas uma estampa numa t-shirt da  

Forum de Tufik Dusek.” (OUTEIRAL, 2005,  

p. 92)

1.1 - As influências pós-modernas no cenário social

Para poder compreender melhor o tema que será discutido nesse trabalho faz se necessário a explicitação e descrição do cenário em que se engendra.  Como esse trabalho tem como fundamentação a Gestalt-terapia, também não  faria sentido avaliar algum construto em figura destacado de seu fundo  correlato. Avaliando a figura isolada, corremos o risco de investigar a questão  ignorando sua relação com as características contemporâneas, portanto,  adotando uma postura que não conta com o fundo para compor a questão,  podemos até mesmo ficar longe de uma solução possível para o problema.  Agindo dessa maneira, perdemos uma parte importante do fenômeno, tornando  difícil de avaliar como se construiu o bullying, foco desse trabalho.

O caminho percorrido será o de trazer as características do mundo atual tendo  como base alguns fatores que caracterizam a pós-modernidade, avaliando  como influenciam as relações humanas e, principalmente, como nossa  sociedade desenvolve uma postura que tende à agressão, à violência e à  exclusão, terminando por compreender como a escola se insere num cenário  como este. Aqui se faz necessário um esclarecimento: ao lado das descrições  pós-modernas trarei mais a frente o entendimento e posicionamento gestáltico  para determinadas questões, já que é a linha de pensamento que norteará o  trabalho.

Então, vamos começar pela compreensão do que seja a definição de pós modernidade. Iniciando pelo nome, já se apresenta uma pequena discussão,  alguns autores chamam nossa época, entre outros nomes possíveis, de  modernidade tardia ou, ainda, de hipermodernidade avaliando que não  estamos em outra época, mas num tempo de exacerbação das características  modernas. Seria como se ainda tivéssemos as características do que se  convencionou chamar tempos modernos, só que com uma intensificação das  mesmas. Para Birman (2006) esse ponto de vista tem raízes europeias e a  ideia de pós-modernidade se alinha mais com estudos e teóricos norte americanos e indicando uma ruptura e começo de outra fase da humanidade.

Além disso, ainda temos a discussão dessa passagem quando falamos de  Brasil, porque as características modernas e alguns de seus grandes  momentos marcantes (Revolução Francesa, Revolução Industrial), se dão  todos fora de nosso país, cabendo a discussão se em algum momento tivemos  a instauração dessa fase em todos os seus nuances. Sendo assim, como  passaríamos de uma à outra sem termos a fase inicial? O que de fato é  verdade é que acabamos sempre a reboque de certas transformações econômico-político-sociais, muitas das quais, talvez, não estejamos  preparados.

A parte do que pode ser um embate teórico que traz em seu bojo uma disputa  para medir quem tem mais importância no cenário mundial, quem domina e dá  as cartas em tais épocas e se temos tais e quais fases em nosso país, vamos  

gestalticamente nos preocupar não com o nome dado, mas sim em como  vivemos hoje, principalmente em nosso país. Opto por me referir a nossa  época como pós-modernidade por preferência pessoal e para nos guiar  enquanto conjunto de características contemporâneas, que passo a destacar a  partir de agora iniciando com o trecho abaixo:

“É interessante, agora, explicitar algumas das características da pós

modernidade: velocidade, banalização, cultura do descartável,  

fragmentação, globalização, mundo de imagens, virtualidade,  

simulacro, des-subjetivação, des-historicização, dês-territorialização  

etc. Não se trata, é evidente, de tomar a pós-modernidade como  

encarnação do mal: ela é um momento de passagem e como tal, de  

inevitável turbulência. Não sei, ao certo, se ela existe realmente como  

momento histórico e cultural ou se é apenas uma criação intelectual,  

mas é interessante e útil que façamos, a partir dessas ideias, um  

exercício de compreensão desse mal-estar na cultura, parodiando o  

criador da psicanálise.” (OUTEIRAL, 2005, p. 77)  

Temos ainda a compressão tempo-espaço, a globalização, a privatização do  espaço público, o neoliberalismo, a objetificação do ser humano e a distância  entre as pessoas, fragilizando os laços entre as mesmas. Essas características  atravessam todo o tecido social tocando tudo que se encontra nele. Então,  família, artes, relações sociais, valores, escola e até processos psíquicos, entre  outros, estão sujeitos a esse modo de funcionamento. Quanto a esse último  item, por exemplo, pode-se dizer que “passamos das histéricas de Freud, de  uma época repressora, para a falta de limites pós-moderna, com suas  tendências anti-sociais e transtornos de pânico”. (OUTEIRAL, 2005, p.71)  

Esses e outros itens se interligam num todo, sem dúvida, mas como temos um  trabalho mais direcionado às relações que se estabelecem na escola brasileira  contemporânea, suas consequências emocionais e como os professores  podem agir diante disso, destacarei a objetificação do ser humano e a  fragilidade das relações atuais como suas possíveis consequências. Ainda  dentro dessa perspectiva escolar, encontramos outra característica atual  marcante, mas que não se define muito como pós-moderna: a ênfase ao  conhecimento racional, especialmente demarcado pelo pensamento positivista  da ciência ocidental. Esse é outro ponto importante para o desenvolvimento  desse trabalho, já que outras partes do desenvolvimento humano ficam alijadas  do ambiente escolar em prol desta última.

1.2 - As relações humanas: um olhar Buberiano

Para definir como as pessoas se relacionam atualmente numa sociedade dita  pós-moderna lançarei mão de uma teoria bem conhecida da Gestalt-terapia  que, para mim, é muito apropriada para discorrer sobre tal tema. Trata-se da  teoria relacional formulada por Martim Buber, que avalia os relacionamos em  dois níveis: o modelo Eu-Tu e o modelo Eu-Isso. Vou me deter um pouco nas  definições e opiniões pertinentes a esse respeito porque é uma leitura que vai  permear o resto do trabalho.

Buber (1974) define que os dois tipos de relação se diferenciam enquanto  intenção da palavra-princípio Eu. No caso da existência da relação Eu-Tu o Eu  estabelece uma relação de troca, de igualdade de possibilidades,  reconhecendo o outro como sujeito em toda a sua alteridade. Em outras  palavras estabelece uma relação genuína em que toda diferença está incluída.  

Nas relações que se estabelecem como Eu-Isso o Eu aparece como egótico,  que toma consciência de si, mas não do outro. O outro é só algo que ele  precisa para interesse próprio e não dos dois, portanto, não se estabelece uma  relação de mão dupla. O outro é tratado como um objeto para uso, a relação  fica monopolizada só por um lado, enquanto parece não existir ninguém do  outro lado, já que este, não seria confirmado.

O que nos interessa aqui não é identificar um modelo de relação como melhor  que o outro, até porque os dois têm sua pertinência de acordo com o momento.  O que é importante ressaltar, portanto, é que o estilo de relação Eu-Isso, longe  de ser ruim ou negativo a priori, se torna uma questão a ser avaliada quando  temos a cristalização dessa posição se estabelecendo em nossa sociedade.  Buber (1974), inclusive, avalia que a humanidade caminha, ao longo da  história, aumentando progressivamente o mundo do Isso.

Avaliando as características pós-modernas percebemos o quanto a relação Eu Isso se alinha com a época em que nos encontramos. As relações são frágeis  e a objetificação do ser humano está presente na maioria das cenas. Dentro  disso, a dialogicidade e a confirmação do outro se encontram em segundo  plano, provocando toda sorte de problemas emocionais, psíquicos e até físicos.  Esse processo acaba limitando o desenvolvimento social e a produção de  cidadãos que se interessam pelo bem estar social, estilos de relação em que o  Eu se confirma na presença de um Tu, modelo relacional que produz laços  mais fortes entre as pessoas.

Observando nosso cotidiano, percebemos a predominância de diversas  dificuldades relacionais e, mesmo que não exista homem que esteja totalmente  em um dos polos dos dois estilos de relação, o que vemos de fato é uma  preponderância do estilo Eu-Isso, não colaborando para relações genuínas  entre as pessoas e em último grau, chegando até mesmo à violência. Esse  esquema pode ser também a explicação para outra característica muito  marcante dos tempos pós-modernos: o consumismo. Essa questão não será  abordada aqui, mas é interessante o raciocínio de que ter objetos se torna mais  interessante, em algumas vezes, do que a satisfação vivencial de cultivar uma relação autêntica no formato Eu-Tu entre as pessoas, algo, sem dúvida, mais  trabalhoso que estabelecer o mesmo tipo de relação com um objeto.  

1.3 - As relações humanas na contemporaneidade

Discorrido sobre as principais características que vão contextualizar o que  pretendo, vejamos como as relações são encenadas com esse pano de fundo  e o que elas têm a ver com o bullying, tema desse trabalho. No mundo de hoje  observamos que a predominância da relação objetificante Eu-Isso possibilita  uma tendência a categorizar e a separar as pessoas entre bons e ruins,  normais e anormais, quem alcança o sucesso e quem é fracassado. Esse  sistema bipolar já esteve montado de forma velada, mas atualmente parece  estar dito, algo que se comprova em diversas situações. Num exemplo de estilo  de relação que não reconhece o outro como potência, mesmo que apresente  algumas diferenças quanto a norma estabelecida, está o que ocorre nas  escolas que, em sua maioria, só valorizam um tipo de desempenho: as notas.  

Na escola contemporânea vemos ainda como a cultura do winner/loser já foi  importada dos Estados Unidos. Não que não existisse antes, mas até mesmo a  nomenclatura passou a ser usada e com frequência ouvem-se frases como:  “preciso ter tal objeto para ser popular”, algo muito comum e aparente na  cultura norte-americana. Como se o reconhecimento e confirmação do Eu  pudesse vir através de ações calculadas ou influências compradas, e não de  relações autênticas, característica essencial do estilo relacional objetificante  encontrado preferencialmente na pós-modernidade.

Com a instauração dessa bipolaridade as pessoas precisam encontrar seu  grupo e, aparentemente, só existem essas duas opções. Nesse ponto o  esquema se torna perverso e aprisiona seus participantes, já que, se só  existem essas duas formas de viver, além disso, os grupos opostos precisam  estar interligados para que um possa se definir pelo outro. Nas palavras de  Veiga (1997, p.26) o fodão “precisa do merda para existir, porque é nessa  dialética que as pessoas vão achar sua identidade”.

Além de um precisar do outro para existir é comum a preocupação em não  trocar de lugar, já que se você não é um vencedor, você é um perdedor. Com  isso se estabelece uma relação de encaixe entre os participantes de cada  grupo e todos começam a viver regidos por essa lógica, perpetuando esse  jogo. Então, numa relação de agressão, por exemplo, não é só o agressor o  responsável, o agredido também participa e em muitas vezes concorda com o  que sofre. Em outras situações, em que o agredido se sinta com mais poder,  poderá ocupar também a posição de agressor, repetindo um comportamento  com outro que ele mesmo sofre em outra cena.

Por isso, em algumas oportunidades, uma pessoa pode apresentar os dois  polos dessa configuração e cada um vai aparecer mais conforme varia o  contexto. Mais importante do que avaliar quem é o agressor e quem é o agredido, é investigar a incorporação e propagação de um comportamento que  divide o mundo em duas instâncias. Precisamos estar atentos a forma como as  pessoas se comportam e colocar em questão esse jogo para tentar algo  diferente e não, somente, procurar culpados.

Nesse ponto vale fazer um adendo mais específico em como se desenvolvem  as relações em nosso país, principalmente aquelas em que se estabelece uma  assimetria de poder. Nas relações em que isso acontece a parte que tem o  poder em determinado contexto, não raro, abusa dele diante de quem não o  possui naquele momento. É comum em nossa sociedade, por exemplo, o  abuso de poder sobre os menos favorecidos economicamente, o que sempre  se traduz em agressão, senão física pelo menos moral e psicológica.

Ocorre como na seguinte situação hipotética: um magistrado público destrata  ou impede que um policial exerça sua função sobre ele. Este último vai abordar  um funcionário médio de uma empresa com uma justificativa qualquer para  conseguir algum retorno. O funcionário chega a empresa e destrata seu  subordinado imediato, que pode tratar mal um entregador atrasado ou um  faxineiro estabanado, que por fim, na maioria das vezes, só tem a família para  continuar o ciclo, sendo os filhos, alvos frequentes por estarem subordinados  aos pais, dependendo destes para sustentá-los nos mais diversos campos da  vida. Esses movimentos parecem ser replicados o tempo todo, de inúmeras  formas e com personagens diferentes em nosso país. Isso parece tão antigo e  tão cultural que se não estivermos aware4de nossa relação com o outro,  repetimos a ação e participamos da sequência descrita acima, principalmente  porque o outro, com menos possibilidades, espera de nós reação compatível.

Acho que o entendimento dessa dinâmica é importante principalmente para  entendermos o bullying, porque me parece uma repetição dessa descrição  entre os mais jovens no ambiente de convivência preferencial na idade deles, a  escola. Isso pode acontecer porque, como ressalta Robine (2006, p.77-78),  “nossas necessidades e desejos não se dão apartados do mundo, são  influenciados pelo contexto.” Temos um fundo de possibilidades e elegemos  figuras que são mais pertinentes de acordo com o contexto, estas se destacam  do meio de acordo com o princípio da dominância, que representa a tendência  de uma tensão forte que prevalece no campo.

Quando as figuras que sobressaem do fundo têm uma sucessão natural,  significa que estamos aware de nossas necessidades que são possíveis em  cada momento. Se isso não ocorre dessa maneira a figura cristaliza e o  indivíduo começa a repetir algum comportamento de forma automática. Algo  parecido ocorre com a forma como nosso meio está constituído, se temos um  padrão de funcionamento social fixado e repetido pela maioria, o sujeito pode  facilmente ser capturado e funcionar da mesma forma sem estar aware da  escolha que fez.

 

4Termo em inglês que não encontra uma tradução exata para o português, mas é,  aproximadamente, estar consciente de algo de maneira plena.

A cristalização de um modo de funcionamento social é explicada por Robine  (2006) como uma confluência patológica com o fundo, que ocorre com o  estabelecimento de um par figura-fundo fixado. Com isso, concluí-se que  quanto mais aware estamos de nossa vivência, menos confluente com o fundo  estamos e, de maneira oposta, estando mais confluentes, nos arriscamos mais  a tomar decisões automáticas que vão na mesma direção do pensamento  social hegemônico. Pensando dessa forma, em uma sociedade consumista,  superficial e violenta, podemos auferir que uma vivência predominantemente  confluente patológica vai replicar tais valores por todo tecido social, abrindo  espaço para toda sorte de problemas relacionais.

Os problemas que encontramos no processo de socialização hoje em dia como  hostilidade, agressões e preconceitos, parece ser consequência da  predominância desse universo Eu-Isso no cenário social. O preconceito,  exemplo de relação objetificante, está intimamente relacionado com o processo  de normalização social, que se traduz por uma sociedade que busca  uniformidade entre seus componentes, separando-os em normais e anormais.  Com isso, a diferença é encarada como anormal, como erro, por não  corresponder a ideologia dominante. Isso produz um desconforto em quem se  depara com uma possível “anormalidade” no outro ou em si mesmo, sendo que  no segundo caso o desconforto é de tal ordem que o sujeito pode projetar suas  frustrações e possíveis sentimentos de raiva.

“É então um mecanismo por meio do qual o sujeito procura livrar-se  

dos impulsos que ele não admite como seus, por ter introjetado os  

valores autoritários da cultura, e que, embora lhe pertençam os atribui  

– de maneira fantasiosa – ao outro.”(ANTUNES e ZUIN, 2008, p.8)

Então, um projeta no outro algo que não reconhece como seu e, como vimos  anteriormente, o outro, por estar submetido à mesma “lei”, introjeta muitas  dessas atribuições, encaixando-se nessa dinâmica. Esse estilo de relação é o  cenário que se alinha de maneira justa com o bullying e mais a frente, já de  posse de suas definições e descrições, vamos perceber isso. A partir do  contexto percebemos que não existe um problema escolar isolado, como se  fosse uma nova moda ou um novo vírus, mas somente um alinhamento aos  mecanismos relacionais que essa sociedade possui. O trabalho pretende  seguir essa linha, “questionar o sentido social dos fenômenos singulares  encontrados”. (ANTUNES e ZUIN, 2008, p.11)

A violência e uma de suas modalidades, o bullying, apresentam-se como  questão transversal e multifatorial, e tentarei uma compreensão que respeite  esse caminho. Assim precisamos estar atentos ao que é considerado violência  em nossa cultura, manter sob perspectiva sempre o contexto espaço-temporal  em que vivemos e tratar a questão como pública e não privada, como se  estivesse inserida num lugar isoladamente. Mesmo porque, sua prevenção e  possível resolução vão passar por aí.

Precisamos levar ao entendimento de que qualquer questão relacionada a  violência que se produz no meio social, como o bullying o é, deve ser um problema de todos, principalmente em nossa sociedade porque esta promove a  exclusão do diferente, a não confirmação dos “fora do padrão” em sua  existência e seu tratamento como inferiores. E “quando a diversidade não é  acolhida, a desigualdade é legitimada” (CHALITA, 2008, p.128). A imersão  nesse sistema é tão grande que o oprimido em uma relação, busca ser  opressor em outra, como única saída.

No trecho abaixo, Fante (2005, p.69) destaca características percebidas por ela  em um ambiente escolar que são facilmente associadas ao nosso dia a dia nos  espaços sociais:

“Raramente se via uma atitude solidária espontânea entre alunos.  

Acreditamos que o egoísmo, a falta de habilidade para negociar a  

satisfação de seus desejos, a falta de atividades interativas entre eles  

e de opções de lazer determinavam toda essa rebeldia e toda essa  

agressividade que, não encontrando outra via de expressão, eram  

deslocadas para o comportamento violento, manifestado  

especialmente contra os mais frágeis.”  

Se no lugar de „alunos‟, no trecho acima, estivesse qualquer outro  representante de nossa sociedade, a sentença se aplicaria da mesma forma. E  onde os alunos, aprendizes por definição, iriam apreender essa atitude  solidária? Não a vemos em muitos lugares, já que a regra é exatamente a falta  de negociação para realização dos desejos e a substituição do diálogo pela  violência.

A violência se apresenta multifacetada e não só em agressões físicas, crimes e  homicídios, está presente em relações familiares, relações de gênero, na  escola e em outros aspectos da vida social, sob formas que não deixam  marcas físicas, tais como: humilhações, exclusão, ameaças, desrespeito,  indiferença e omissão para com o outro. É bom que se diga também que a  agressão que marca nossa sociedade é diferente do que entendemos  gestalticamente como agressividade, que denota a energia e a vontade de  viver, de tirar do mundo o que é possível e necessário para construção da  nossa vida. Dentro do que entendemos sobre isso, a ideia não é alcançar  objetivos sem ética ou prejudicando alguém física, emocional ou  materialmente, como seria o caso da agressão, mas alcançar o objetivo  incluindo o outro nas negociações dos desejos.

Esse clima social pautado pela agressão ao outro, ou seu tratamento como  Isso, além de estar intimamente ligado às características pós-modernas, ainda  encontra um respaldo bem contundente no estilo de Estado em que vivemos  hoje: o Estado Capitalista Neoliberal. Sem muitas garantias do Estado  convivemos com uma desigualdade social grande em que uma massa de  pessoas se encontra na pobreza e desempregada, o que também se trata de  um tipo de violência. Pessoas que não são confirmadas em sua existência por  não ter o mínimo necessário para a sobrevivência. Isso aumenta os níveis de agressão e competitividade que, pela situação limite que essa estrutura impõe,  transforma a competição em violência pura. Violência essa que, muitas vezes,  serve exatamente para que se confirme a existência de quem a pratica através  do medo que este provoca em sua vítima.

Essa dinâmica pós-moderna associada ao sistema capitalista, principal sistema  econômico do ocidente, potencializa esse ciclo. Dentre suas características,  podemos destacar a competição como o principal item que influencia a  convivência conflituosa entre as pessoas. Possuindo essa ética o outro passa a  ser considerado um inimigo das suas pretensões, o que afasta a convivência  mais solidária e faz surgir um estilo de vencer a qualquer preço que impõe  sofrimentos de toda a ordem para os envolvidos. Socialmente regidos por esse  esquema, claramente encontraremos na escola consequências disso também,  mas num ambiente em que seus componentes não têm força para rechaçar  essa ideia e nem estão aware em que tipo de sociedade estão inseridos.  

De posse de todas essas descrições e caracterizações do contexto em que  vivemos, observando que se distingue pelo estilo de relação Eu-Isso, tipo de  relação que facilita a agressão, e com as características pós-modernas de  nosso mundo atual, parece-me mais fácil entender como o fenômeno do  bullying ocorre nas nossas escolas. Além disso, podemos identificar mais  facilmente que tipo de escola temos hoje e porque encontra tantas dificuldades  no relacionamento com o aluno.

Enfim, esse é o cenário em que as relações contemporâneas se engendram, a  meu ver. A partir dessa contextualização vamos desenvolver a parte mais  específica do trabalho que diz respeito ao bullying, mas sempre nos remetendo  ao modo de funcionamento acima, já que, de outra maneira, correríamos o  risco de dissertar sobre uma questão pontual que parece ter sido desenvolvida  a partir de uma geração espontânea, sem vínculo nenhum com o lugar em que  se insere e nem com o mundo do qual participa.

2 - Bullying: o assédio moral escolar

“Filhos são como bolas de boliche. Você dá uma direção, mas  

quando você tem que soltá-los só resta torcer para que não caiam na  

canaleta.” (Mike Kyle, personagem da série Eu, a Patroa e as  

Crianças)  

2.1 - Definições, histórico e formas do fenômeno

Os estudos no Brasil sobre violência escolar são recentes e em sua maioria  datam de 1980. Além do bullying, objeto de estudo deste trabalho, a conduta  antissocial e o distúrbio de conduta também começaram a ser avaliados mais  de perto. Portanto, o interesse por atos violentos na escola começou a  aparecer há pouco tempo, motivado pela ocorrência de episódios que estavam  ligados principalmente a depredações ao patrimônio da escola, além de  problemas de relacionamento entre professor-aluno e aluno-aluno.

Comparando com o início dos estudos sobre violência na Europa registra-se  certo atraso que não se traduz em incompetência ou descaso. Da mesma  maneira que a história da educação brasileira é mais nova que a europeia, o surgimento dos problemas e seu posterior estudo também chegam depois por  aqui. O interesse sobre o tema também só surgiu a partir de algumas tragédias  ocorridas em diversos países no mundo, já que algumas mortes ocorreram em  

decorrência do problema, ou por vingança de uma vítima ou por suicídio de  uma vítima de agressão.

Entrando mais especificamente no histórico do bullying encontramos os  primeiros estudos posteriores a 1970. Segundo Chalita (2008), as primeiras  pesquisas datam de 1972 e 1973 na Escandinávia, iniciadas depois de alguns  problemas graves incluindo suicídios de alunos. Os dois primeiros países a se  preocupar com tal fenômeno foram a Noruega e a Suécia, sendo que desde  essa época a detecção se mostrava difícil por se tratar de um comportamento  que, na maioria das vezes, é dissimulado. O instrumental de pesquisa se  tornou mais efetivo depois que se conseguiu diferenciar em sua construção o  fenômeno de uma simples brincadeira, principalmente porque o estudo precisa  ser feito através de pesquisas escritas, já que a maioria que sofre com essa  situação não informa o ocorrido por vergonha ou por medo. Depois que um  instrumento de aferição foi elaborado e afinado tornou-se mais fácil identificar o  fenômeno e a preocupação com os atos de agressão na escola passou a se  espalhar pela Europa e pelo mundo.

Essas pesquisas constataram que o maior índice de ocorrência de bullying se  encontrava nos anos de 6º a 9º do fundamental e que entre os países há uma  média de 35% de alunos envolvidos em atos dessa natureza, independente do  

papel que ocupam na ação. Definirei os atores envolvidos um pouco mais a  frente. Essas porcentagens chamaram atenção para o problema e os estudos  evoluíram. No Brasil, os primeiros estudos com o nome de bullying apareceram  na década de 1990 e a primeira pesquisa extensa realizada, bastante  referenciada em diversos trabalhos sobre o tema, foi a da ABRAPIA, concluída  em 2003.

O estudo teve início em 2002 e foi concluído em 2003 resultando na produção  de um livro escrito por Lopes Neto e Saavedra. Foi elaborado um questionário  adaptado de Dan Olweus (1989) e aplicado nas turmas de 6º ao 9º ano. Este  foi aplicado nas escolas em todos os alunos de um turno ao mesmo tempo e  sem lhes dar informações sobre o que era bullying. O trabalho foi aplicado em  9 escolas da rede pública e 2 escolas particulares do Rio de Janeiro,  totalizando 7.757 alunos.

Esse trabalho detectou nas escolas do Rio de Janeiro um índice de 40,5% de  alunos envolvidos em atos de bullying, portanto um índice superior aos  encontrados pelo mundo. Em outros trabalhos as estimativas chegaram até  mesmo a 45% e 49% de reconhecimento de participação dos alunos. Com  base nisso, se justifica a observação acurada das relações nas escolas  brasileiras, já que esses dados significam que algo funciona mal nas mesmas  e, possivelmente, em nossa sociedade.

O fenômeno, como já citado, começou a ser estudado na Noruega e foi  definido pela palavra inglesa bullying, designando um conjunto de agressões que se caracteriza por uma diferença de poder entre os participantes. “Bully” é  traduzido como adjetivo por tirano e brutal, e como verbo, por bravatear,  ameaçar, intimidar. No Brasil não há palavra que defina todas essas ideias,  mas alguns países encontraram suas próprias expressões tais como  harcèlement quotidien na França, prepotenza na Itália, ijime no Japão, acoso y  amenaza entre escolares na Espanha e até em Portugal pela expressão maus tratos entre pares. Alguns autores do nosso país colocaram como violência  moral e para mim, particularmente, o termo mais próximo do que ocorre  poderia ser assédio moral escolar. Esta última se alinha mais com o correlato  francês e de outra definição brasileira, comportamento prepotente agressivo.  (LOPES NETO, 2005, p.13)

Esse levantamento me parece importante porque precisamos ter cuidado ao  importar nomes sob pena de levar junto às elaborações e resoluções propostas  em outro país de cultura e organizações sociais distintas. Além disso, as  pessoas que têm contato com o nome pela primeira vez não entendem o que  ele quer dizer. Chama atenção como esses eventos vêm se repetindo no  Brasil, claro que é importante olhar para outras culturas e avaliar o que tem  sido feito, mas em alguns momentos, parece uma certa preguiça nossa a  importação de pacotes fechados de diagnósticos e, obviamente, seu  “tratamento” correlato. Por isso, terminamos por adotar nomes estranhos de  difícil acesso como bullying ou Síndrome de Burnout, que é o estresse laboral  crônico.

Junto a isso, criar um nome para um fenômeno social é um processo bastante  delicado, do mesmo modo como facilita sua compreensão e desenvolvimento  teórico, traz sempre na mesma moeda a expansão de seu diagnóstico  provocando „epidemias‟ que não estão em consonância com a realidade, algo  que não contribui para possíveis soluções. Isso pode acontecer porque a  formulação de um nome e sua descrição correlata cai no senso comum de uma  maneira que este passa a contaminar o olhar de quem avalia produzindo  diagnósticos em escalas muito maiores do que se apresentam de fato.  Principalmente porque é difícil, em certas situações, separar o que é  brincadeira do que é um caso de bullying efetivamente. Somente a descrição  fria de um diagnóstico não dá conta de avaliar com exatidão a realidade e para  nos aproximarmos de tal acerto, só avaliando cada situação com seus  participantes, sendo feito necessariamente de forma singular. Portanto, nos  aproximamos mais de uma observação correta ao conseguir a descrição do  ocorrido pelas partes envolvidas em determinada situação.

Mesmo assim temos que dar importância ao surgimento dessas classificações  por nomes para divulgação de campanhas, de pesquisas e para a troca de  informações ser precisa sobre o fenômeno abordado. Portanto, não é a  importação do nome em si ou de existir uma classificação que vai fazer com  que não ajamos com uma postura gestáltica-fenomenológica, mas sim a forma  que damos a isso. Então, tendo um nome, que sabemos possuir algumas  características, não significa que iremos tratar a questão de forma mecânica e  positivista, sem poder avaliar as singularidades e o contexto em que se  encontra.

Acerca disso falamos em bullying para falar sobre algo já nomeado e famoso  nos espaços públicos, mas também não deixemos de lado nosso raciocínio de  assédio ou violência moral escolar, instituição que é mais um espaço social  abarcado pela estrutura caótica e violenta da nossa sociedade. Também não  deixemos nos levar por diagnósticos apartados do contexto, nem pelo  tradicional olhar psiquiátrico que precisa de síndromes descritas para  desenvolver um tipo de tratamento universal. A proposta positivista traz em seu bojo uma ilusão eterna de tentar controlar aspectos naturais e sociais através  de dados estatísticos e de uma pretensa instituição do que é anormal e do que  está na média, na norma, sendo taxado de normal. Esse ponto é interessante  porque a existência do bullying se dá sustentada, muitas vezes, por essa lógica  de agressão e exclusão do diferente, algo que a ciência faz quando institui o  anormal.

Dessa forma a ciência emerge como saber principal, objetificando o homem e  as relações, fazendo com que uma grande parte da compreensão dos eventos  sociais se perca, tornando-os sem sentido e alienando o observador de muitos  

aspectos processuais importantes. Então, a compreensão do assédio moral  escolar não se beneficia ao adotar a visão de que „surgiu‟ o bullying nas nossas  escolas como se fosse uma tendência natural. A negação de que se trata de  algo natural é o raciocínio que vai nortear esse trabalho na forma de tratar a  questão. A partir de um olhar amplo irei investigar as influências que  perpassam esse tipo de assédio moral.

Nesse momento passo às definições buscando sempre não cair na  sistematização de descrições soltas e inúteis. Fante (2005, p. 21) diz que  “bullying é uma forma de violência velada, que ocorre por meio de  comportamentos cruéis, intimidadores e repetitivos, prolongadamente contra  uma mesma vítima”. Lopes Neto e Saavedra (2003, p. 17) ainda completam  que este “ocorre sem motivação evidente e é adotado por um ou mais  estudantes contra outro(s), causando dor e angústia. É executada dentro de  uma relação desigual de poder, tornando possível a intimidação da vítima”. É  importante notar que sempre há uma assimetria de poder entre agressor e  vítima. O primeiro tem mais possibilidades de estar no mundo, tem uma boa  autoestima, é mais forte, extrovertido, tem muitos amigos e é admirado; já o  segundo, encontra-se limitado no espaço escolar, com uma autoestima baixa,  de forma geral é tímido, tem poucos amigos e vergonha de si mesmo. Outra  característica importante é que a vítima de tal ato sofre repetidas vezes o  assédio de pessoas diferentes e não se acha em condições de responder ou se  defender. Não raro se acha merecedor daquilo e acaba excluído das relações  escolares.

Outro ponto a se destacar é que o bullying pode ocorrer em qualquer tipo de  escola, pública ou particular, das cidades ou do campo e de municípios  pequenos ou grandes. Isso demonstra se tratar de uma questão ampla e não  de algo isolado e específico de tal segmento de sociedade. Quando um  fenômeno se apresenta tão ramificado, realmente, nos leva a crer que nossa  leitura quanto à pertinência a um contexto maior e quanto à repetição de um modo de funcionamento hegemônico pelo qual passa nossa sociedade, está  próxima de ser correta.

Essas definições também são importantes na medida em que há uma confusão  grande entre o assédio moral escolar e uma simples brincadeira por parte de  quem avalia e pode intervir, como é o caso dos professores. Isso é importante  porque no segundo caso não há sofrimento nem angústia em nenhuma das  partes envolvidas, já no outro comportamento há muita dor presente, portanto,  o que nos interessa é o estilo de relação que é desigual e que, através e por  causa disso, é agressiva. Abaixo estão algumas frases coletadas por Fante  (2005), em que alunos vitimados por esse estilo de relação expressam sua dor.  Pelas frases destacadas dá para perceber que brincadeira parece ter uma  consequência diferente:

“-..., sempre sou ameaçada...Por isso tenho muito medo.”

“-..., quero mudar de escola...Algumas colegas estão me impedindo de ter  amizades, acho isso desumano...”

“- Minha vida na escola é muito triste...”

“- Na aula de educação física, dizem que sou baixa e frágil, então não sirvo  para nada...”

“-..., quando lembro que tenho que ir pra escola,...Morro de medo..., por isso  tenho dor de cabeça e de estômago quase todos os dias...”

Através dessas frases percebe-se uma tristeza grande e, em alguns  momentos, de falta de apoio e desesperança de alguns alunos. Mesmo assim,  ainda conseguimos colher no livro da mesma autora dois exemplos que  destoam um pouco dos depoimentos acima:

“-..., dizem que vão me bater. Na saída, quase todos me ofendem, mesmo  assim vou para casa alegre,...”

“- Sou muito fracote, às vezes me discriminam, falam que sou „japonês‟, que  sou „tolo‟, mas tudo bem. Tenho uma professora boa e gosto dela...”  

Nesses dois últimos exemplos, o estilo de relação é o mesmo dos encontrados  nas outras frases, somente o final, ou a forma como o aluno lidou com a  situação, é diferente. Isso é importante para esse estudo porque se apreende  que temos que avaliar e estudar os construtos teóricos, mas não perder de  vista que cada situação é singular e que para qualquer intervenção temos que  estar de posse da observação individual dos fenômenos também. Abre-se aqui  uma questão importante, qual a diferença entre os adolescentes que sofrem  com essa situação e os que a suportam de forma mais tranquila?  

De qualquer maneira os que sofrem mais com isso podem ter as piores  reações, como o suicídio ou a „destruição‟ da escola. Nesse último caso, a  agressão é dirigida a toda a escola, por esse motivo é que em algumas  situações limite, em que isso envolve o uso de arma de fogo, muitas pessoas  são atingidas, até mesmo quem não convivia diretamente com o agressor,  denotando o interesse em destruir a instituição, localizada como fonte de  sofrimento, algo diferente de uma vingança pontual.

Como vemos, a identificação do que é bullying e do que é brincadeira fica difícil  através de protocolos e de um olhar externo, sem a compreensão a partir do  ponto de vista dos envolvidos. De fato a linha que separa os dois é muito  tênue, até mesmo porque gozação ou brincadeiras baseadas em diferenças  físicas ou comportamentais parecem sempre terem existido. A diferença que  pode haver em relação ao passado é que, em grande parte das vezes, mesmo  o alvo das brincadeiras era incluído na comunidade escolar, por todos, por  algum grupo da escola ou teriam um suporte externo. Então, uma possível  vítima de brincadeiras poderia ser amiga do autor do ato sem problemas. O que acontece hoje é que o alvo do assédio é excluído, não confirmado em  sua existência, o que na perspectiva relacional seria o Isso. Essa posição na  relação faz com que seu ocupante não esteja em igualdade de possibilidades,  é como se fosse um objeto, passa por um processo de desumanização, por  isso vai servir para o autor das agressões para um interesse próprio, só um  lado se beneficia e o outro não é incluído na relação. A primeira vista parece  que o alvo é confirmado na relação porque pelo menos é digno de uma  agressão, mas o que acontece na realidade é que o agredido não é alvo do  ódio do assediador, mas sim de um interesse de uso. O ódio só aparece nas  relações Eu-Tu, nas relações de bullying o que ocorre é uma completa  indiferença pelo outro.

Esse comportamento aparece muito como impulso de uma atitude  preconceituosa em que os alunos que fogem da norma, ou seja, que escapam  da média física, social ou econômica da população escolar, são discriminados.  Esse movimento chama nossa atenção para que por um momento pensemos  na sociedade em que vivemos e comparemos as atitudes. Em nossa sociedade  as minorias e os diferentes, ou considerados anormais, são discriminados ou  excluídos? Aparentemente sim, já que vemos o quanto deficientes físicos são  excluídos dos processos sociais de trabalho e de circulação, bem como são  discriminados ou menos valorizados os componentes das classes sociais  inferiores, portanto vemos como há uma repetição de modos de ser.

Voltando a fazer o nosso vai e vem entre caracterizações e a compreensão do  fenômeno, falarei agora um pouco das descrições que são importantes também  para a compreensão do trabalho. O bullying apresenta alguns atores com  participações bem demarcadas e com características que se repetem.  Novamente digo que minha intenção aqui não é identificar culpados ou vítimas  numa relação, mas colocar alguns termos que auxiliam em determinadas  partes do trabalho.  

Então, numa relação de assédio moral escolar, encontramos os seguintes  personagens: o autor, o alvo e as testemunhas. Essas três instâncias se  encontram interligadas para que uma situação de bullying ocorra. O autor de  forma geral é impulsivo, agressivo, geralmente mais forte que seu alvo, quer  dominar e controlar, humilhar e intimidar, causando danos emocionais, físicos  ou materiais ao outro. Através desse comportamento obtém ganhos sociais e  materiais. Podem adotar comportamentos antissociais que vão ficando mais  complexos ao longo de seu crescimento. Também podem vir de famílias que  favorecem esse tipo de conduta, assunto que tratarei mais de perto em outra parte do trabalho. De qualquer forma, como colocam Lopes Neto e Saavedra  (2003), esse sujeito é forjado por influências subjetivas, familiares, escolares e  sociais, assim como os demais indivíduos envolvidos nesse cenário. Isso  influencia tanto na visão desses personagens, que muitos deles, como aferido  em pesquisa desses mesmos autores, não reconhecem o que fazem como  agressão, e sim como brincadeira.

Lopes Neto (2005) define que o alvo é um aluno exposto de forma repetida e  durante algum tempo às ações negativas perpetradas por um ou mais alunos.  Em geral não dispõe de recursos para reagir, é tímido, inseguro, frágil, tem  poucos amigos e não tem esperança em sua vida. Tem baixa autoestima e,  não raro, como dito anteriormente, se acha merecedor de maus-tratos. Pode  ser ainda passivo, retraído e infeliz. É muito comum ter uma característica  física que pode ser usada para inferiorizá-lo, não se vestir como os outros e  não ter habilidade em esportes, que no caso da nossa cultura trata-se quase  sempre de futebol. Quando seu sofrimento não é cuidado, não recebendo  nenhum suporte, só lhes restam três opções: sair do colégio, aguentar calado  até o limite do suportável ou passar a agressor.

Sobre essa última possibilidade cabe aqui dizer que muitos alvos que sofrem  em algumas situações, são autores em outra, corroborando a tese de que a  única saída para a dor de quem é vítima de um comportamento agressivo é  passar, ele mesmo, a agredir também. A saída não é vista como uma  reformulação das relações, mas sim em passar para a parte que parece ser  mais favorecida dentro dessa lógica de funcionamento.

No caso das testemunhas, mesmo parecendo que não, elas se tornam  extremamente importantes como legitimadoras do processo. Sua presença  durante a ação garante um dos ganhos do autor, que é o reconhecimento  social de seus pares. Outra consequência de sua participação é que torna mais  difícil ainda uma possível reação do alvo, já que diante de muitas pessoas este  se sente mais pressionado, fato que se soma com todos os problemas  pessoais que o agredido já enfrenta. Essa massa de pessoas não age de forma  direta no bullying, mas também não faz nada para evitá-lo ou denunciá-lo. Isso  acontece porque a maioria tem simpatia pelo autor, concordando com suas  atitudes, mas também está relacionado ao medo de se levantar contra e se  transformar na próxima vítima. Os que concordam se tornam potenciais  agressores.

Além dos personagens ainda temos a classificação do bullying em direto e  indireto. O primeiro ocorre no entre, ou seja, na relação que se estabelece num  dado momento através de agressões físicas e verbais contra o alvo que está  presente. O indireto trata-se da disseminação de histórias desagradáveis e  vexaminosas, normalmente caluniosas, a respeito do alvo. Essa difamação  hoje em dia tem o apoio da internet, que é uma ferramenta poderosa e rápida  para tal objetivo.

Novamente nos deparamos nesse ponto com outro nome e o alarde de alguns  autores sobre algo novo, o cyberbullying. Aqui temos outra demarcação de caminhos diferentes, algumas pessoas se ocupam disso como um novo  fenômeno, quando se trata apenas do mesmo processo ocorrendo de forma  coerente com nosso mundo atual. A tecnologia está muito presente em nossas  vidas, trazendo rapidez na circulação de informações, portanto, parece óbvio  que ela fará parte de tudo, até mesmo servir de veículo para agressões.

Por fim, como levantado nas pesquisas, ainda temos um diferencial quanto a  participação dos gêneros. O modelo de bullying direto é mais praticado pelos  meninos, principalmente com agressões físicas, e o indireto mais por meninas,  apesar do contexto atual também estar modificando isso, já que temos uma  planificação e uma igualdade de condições e ações cada vez maior entre os  gêneros.

Na apreensão desses conceitos é importante destacar que estão aí para  mapear algumas situações, mas nunca cristalizar as posições. Também lancei  mão dos conceitos autor/alvo em lugar de agressor/vítima, fato que concordo  com os autores consultados por entender que se trata de um encaixe entre os  participantes, que respeitam uma lógica de funcionamento em que todos  acabam compartilhando e sendo responsáveis. Portanto, não se trata de  encontrar culpados, acusar alguém ou repreender algum dos lados para  resolver a questão. Esse comportamento só procura como saída a punição,  que novamente repete e reforça as relações sociais que predominam hoje em  dia.

Como aferido em pesquisa, a maior incidência do problema é entre o 6º e o 9°  anos escolares, fato que torna ainda mais claro, pelo menos para mim, a  necessidade dos agentes da educação em se sensibilizarem com essas  questões que permeiam a convivência em sala de aula e em outros espaços do  colégio, já que essa fase é marcada pelo início da independência do  adolescente e importante momento de construção de identidade. O  entendimento dessas condições e dos problemas decorrentes da convivência  entre os alunos nessa fase importante de suas vidas, tendo como perspectiva  de fundo todas as características de nossa sociedade, pode facilitar o contato  com os alunos e a possibilidade de resolução de quaisquer atos de agressão.

Aliado a isso a percepção de que o bullying está ocorrendo precisa estar bem  afinada, já que os alvos de agressão têm imensa dificuldade em fazer queixa  do que sofrem, visto que não têm estrutura para sustentar isso e, por medo e  

vergonha, não pedem ajuda. Por isso, numa situação em que o aluno que está  sofrendo esse tipo de assédio consegue vencer suas limitações e denuncia  seus agressores, a equipe escolar precisa estar bem preparada para acolhê-lo,  reconhecer o problema e tomar as medidas cabíveis. Quando esse aluno  consegue reclamar e não é acolhido ou sua queixa é subestimada, a situação  dele piora muito, já que percebe que não tem apoio ou não o merece, provocando seu isolamento ou uma reação agressiva. É importante ressaltar  que esse acolhimento inclui o agressor, para que ele também tenha espaço  para se dar conta do que faz, tendo oportunidade de elaborar a questão.

Os profissionais da educação – e aqui enquadro todos os funcionários desde  coordenadores e professores, mais técnicos, até inspetores e faxineiros – precisam desse discernimento tanto para atender os alunos envolvidos a  contento, como para fechar as portas para possíveis enquadres psiquiátricos  desse tipo:  

“...quadros graves de bullying podem estar diretamente  

ligados a transtornos comportamentais graves, como  

transtornos disruptivos[...], transtorno de déficit de  

atenção/hiperatividade, transtorno bipolar do humor,  

depressão infantil e fobia escolar. Nesses casos a  

avaliação neuropsiquiátrica é indicada...” (TEIXEIRA,  

2006, p. 13)

Esse tipo de abordagem se mostra superficial e muito fechada, não permitindo  discussões que podem elaborar a situação. Uma intervenção diferenciada pode  acolher os alunos envolvidos e os profissionais da educação devem estar  preparados, atentos, para identificar as situações e intervir de forma mais  humana. Esse processo não é fácil nesses casos, sobretudo porque a  agressão, na maioria das vezes, é sutil e não deixa marcas visíveis.

Isso é relevante principalmente porque a já citada pesquisa da ABRAPIA  (2003) identificou que aqui no Brasil a maioria das ocorrências de assédio  moral ocorre dentro das salas de aula, ou seja, lugar onde a autoridade na  maior parte do tempo é o professor. Portanto, ao menos o conhecimento do  professor a respeito do assunto é de suma importância para, não só evitar,  como intervir nas relações em que ocorre esse tipo de comportamento.

A escola precisa detectar qual é a melhor forma de intervenção para trabalhar  essas questões e não seguir modelos prontos, mas de fato, acho que não seria  produtivo seguir exemplos, como descreve Fante (2005, p. 30), de escolas em  outros países que ao constatar o aumento da violência em seus espaços,  tornaram-no alvo de controle extremo com câmeras espalhadas por todo o  espaço, detectores de metal nas entradas e um sistema punitivo que não abre  espaço para reflexões. Esse comportamento de polícia com os estudantes não  mexe na questão central e tenta agir de forma tardia, ou seja, na repressão e  não na prevenção, que evitaria as possíveis agressões.

A parte do que poderia se tornar uma discussão se é papel da escola mediar  ou intervir nessa situação, Lopes Neto (2005, p. 3) nos lembra muito bem que  os alunos devem ter resguardados seus direitos ao respeito e à dignidade,  sendo a educação entendida como um meio de prover o pleno  desenvolvimento da pessoa e seu preparo para o exercício da cidadania.  Essas ideias estão presentes na Constituição da República Federativa do  Brasil e no Estatuto da Criança e do Adolescente, por exemplo. A partir disso  concluímos que, do ponto de vista legal, a escola precisa garantir um bom  ambiente para o desenvolvimento de seus alunos, algo bastante coerente, já  que a violência acaba por imobilizar as pessoas.

2.2 - O bullying nas turmas de 6º ao 9º ano do ensino fundamental  

Como já foi citado, temos a maior ocorrência de bullying nesse segmento do  ensino fundamental, o que nos permite pensar em algumas possíveis causas  para esse dado estatístico. Observamos que na faixa etária abarcada por esse  período escolar, mais ou menos de 10 a 15 anos, temos uma grande  diversidade de fases adolescentes, principalmente nos dois primeiros anos do  período, tornando a questão mais complexa. Na realidade a maior incidência é  nessa fase, provavelmente, pela existência da própria diversidade.

Essa época acaba sendo muito complicada para os adolescentes, pois é a fase  em que começam a substituir os vínculos primários familiares pelas relações  sociais com os grupos de amigos. Além disso, é nessa época que o  adolescente começa a perder o corpo infantil para algo que ainda não conhece  bem e que no fim das contas é só uma preparação/transição para a próxima  fase que vai estabilizar o crescimento do corpo e como será daí para frente.  Por esse exemplo percebe-se que fica complicado gerenciar as diferenças, já  que cada uma chega a determinada fase em momentos distintos, às vezes sem  condições psíquicas de atualizar o que acontece e com mudanças físicas que  podem parecer aberrações.

Como se já não bastasse tudo isso, segundo Outeiral (2005, p. 74) desde a  década de 1970, a adolescência vem chegando cada vez mais cedo e hoje em  dia acontece antes da puberdade. Entendendo aqui, que adolescência se trata  do desenvolvimento psíquico e do comportamento e a puberdade do  crescimento e mudanças fisiológicas. Portanto, assuntos como o namoro, por  exemplo, muitas vezes é vivido pelos adolescentes antes deles se tornarem  púberes, aumentando a confusão. De qualquer maneira esse processo  apresenta tantas formas quantos forem os sujeitos observados, já que cada um  vive o processo de forma singular e em tempos diferentes. Isso deixa o  ambiente confuso pela diversidade de fases compreendida entre os 10 e os 12  anos. Esses indivíduos todos confinados num mesmo local dão uma dimensão  do que pode ocorrer quando a regra é não compreender nem incluir as  diferenças.

Com a existência de preconceito e a exclusão proporcionada por tal atitude o  bullying surge de maneira marcante, algo muito diferente de uma inocente  brincadeira, que também pode acontecer em função da própria diversidade. Só  que o primeiro se presta a agredir o outro com o objetivo de, rebaixando-o,  poder sobressair em relação aos outros estudantes. Nessa relação um usa o  outro como ponte para um objetivo particular, o que se constitui como benefício  unilateral remetendo a objetificação da relação Eu-Isso. Na segunda atitude a  diferença, que de fato existe, pode suscitar algumas situações lúdicas, mas  nesse caso o outro é tratado como Tu, sendo incluído com toda a sua  diferença, que sem dúvida é algo que chama atenção.

Além disso, ainda temos sob perspectiva uma organização cultural que tem se  distinguido pela violência. Como vemos em nosso cotidiano, ocorrem brigas por  todos os motivos fúteis possíveis, por isso, dissemos que o estilo de relação

Eu-Isso tem predominado em nossa sociedade, o que se configura numa  dificuldade relacional. Esse tipo de relação em que o Isso se presentifica  parece ter se tornado a base existencial de nossa vivência, provocando todas  as dificuldades que assistimos no contato com o outro. Como nos diz Von  Zuben (1974, p. LIV): “Se o homem não pode viver sem o Isso, não se pode  esquecer que aquele que vive só com o Isso não é homem.”

De fato estamos diante de uma estrutura caótica e todos são - em maior ou  menor grau, direta ou indiretamente - vítimas da violência. Mesmo assim, os  autores das agressões escolhem fazê-lo, escolhem repetir esse modo de  operar predominante. Se os adultos são sensibilizados por essa estrutura  parece óbvio que os alunos pertencentes à faixa etária predominante nas  turmas de 6º ao 9º ano também o serão, e com o agravante de terem menos  possibilidades psíquicas de digerir tal situação. Por isso é tão importante que  se traga o tema à luz das discussões na própria escola para que possamos  ampliar a consciência de todos para esses atos, já que através desse  movimento temos mais chances dos envolvidos estarem aware do contexto ao  qual pertencem para poderem fazer uma escolha mais saudável. Até que essa  tentativa se faça, os autores repetem movimentos deletérios para todos sem  estar muito consciente de suas ações.

Na tentativa de cuidar dessa situação surgem contribuições de muitos saberes.  Temos, por exemplo, um artigo do Jornal de Pediatria (2005, p. 1) em que  Lopes Neto alerta os pediatras da “prevalência de bullying entre os estudantes”  e da importância da “atuação na prevenção, diagnóstico e tratamento dos  possíveis danos à saúde e ao desenvolvimento...”. Nesse contato entre  disciplinas é muito importante que tenhamos cuidado com os termos  „tratamento‟ e „diagnóstico‟ principalmente no que diz respeito à lógica de  funcionamento da medicina. O diagnóstico se aproxima muito de uma  classificação nosológica que, como já vimos, não traz abertura para produção  de alternativas, acaba rotulando e fechando a questão para o tratamento  específico que algum manual propõe. Esse modelo também se torna muito  pesado para lidar com a questão que envolve os adolescentes desse período  escolar, já que propõe nomes e classificações que passam a ideia de que os  envolvidos possuem um problema.

Os rumos que esse trabalho de base gestáltica propõe vão em outra direção,  procurando observar como essas relações se desenvolvem e como podem ser  trabalhadas tendo como ponto de partida a própria experiência dos envolvidos.  Esse ponto de vista, fazendo justiça ao jornal citado anteriormente, é o que  permeia tal trabalho também, mas o uso de palavras consagradas que dão  outras direções para questões psicossociais, acaba sendo arriscado e  podemos cair em propostas que são tão excludentes como o próprio bullying.

Voltando um pouco para a avaliação dos dados, em pesquisa da ABRAPIA  (2003) foi detectado que no segmento destacado a maior incidência de bullying  é nos dois primeiros anos, que é o período inicial de construção da  independência dos adolescentes. É nessa época que a maioria dos jovens se  lançam de seus espaços familiares para construir novas identificações em seu meio social, que nessa idade trata-se preferencialmente do ambiente escolar.  Também foi aferido que nesse período escolar participam do assédio moral  60% de meninos e 40% de meninas, que a maioria dos alvos sofre agressões  várias vezes por semana e que a maioria dos autores não foi advertido de que  essa conduta não poderia se repetir.

O primeiro dado é importante porque esse período de afastamento da família  se dá de uma forma menos turbulenta quando o jovem possui uma autoestima  equilibrada facilitando, dessa forma, a consciência de quais são suas  necessidades, seus limites e fronteiras para lidar com o outro. De forma geral,  nessa época, isso não está garantido, já que ainda é uma fase de construção  da personalidade, tornando o processo mais complicado. É fácil perceber a  relação da ocorrência de bullying com a fase de construção de personalidade  pela pesquisa da ABRAPIA (2003), já que esta aferiu que sua incidência vai  diminuindo conforme os alunos vão progredindo nas séries escolares, o que  nos leva a concluir que, conforme os alunos vão ficando mais velhos, mais  estrutura têm para lidar com as situações sociais, possivelmente apresentando  uma autoestima mais equilibrada.

Outro ponto importante é que o 6º ano é uma série extremamente delicada do  ponto de vista da adaptação. A maioria das crianças que saem do 5º ano,  último ano do primeiro segmento do fundamental, quando vão para o 6º ano,  mudando de colégio ou não, via de regra, vão para colégios muito maiores  onde aumenta o número de professores - não mais as tias do primário - e o  estudante perde sua identidade, já que as turmas são maiores e muitos  professores não conseguem conhecer todos os seus alunos. Como diz  Sanches (2005, p. 85): sair da 4ª série para a 5ª série é enfrentar o  desconhecido. Fazendo as substituições na nomenclatura das séries de 4ª  para 5º ano e de 5ª para 6º, esse é o resumo do que acontece e, em algumas  vezes, as crianças/adolescentes não estão preparados para esse  enfrentamento, nem as escolas para lidarem com isso.

Contudo isso, o bullying, de fato, precisa de estudos principalmente quando  nos damos conta de que se trata de um acontecimento universal do ponto de  vista escolar na contemporaneidade, já que ocorre sem distinguir região, classe  social ou localização. Além disso, o participante agredido na relação, como dito  anteriormente, tem muita dificuldade em denunciar seu agressor ou fazer  queixa a quem é de direito, fato que se traduz em dados quando nos  referenciamos novamente pela pesquisa da ABRAPIA (2003). Na quantificação  da busca por ajuda dos alunos-alvo, quase metade dos alunos não procurou  por ajuda de nenhum tipo. As justificativas passam por medo do autor, medo da  indiferença da pessoa a quem procurou, de achar que é merecedor da  agressão e por último algo próprio da idade, a vergonha de estar admitindo  fragilidade precisando da ajuda dos adultos.

Além do envolvido não denunciar, quem está em volta não consegue ver o  fenômeno com clareza, tornando difícil uma interrupção por parte de  professores ou outros profissionais da educação. Num período onde crianças  se misturam com adolescentes, mais estruturados em termos psíquicos, a escola precisa de cuidado para criar um ambiente saudável em que os alunos  possam se sentir acolhidos e pertencentes a um grupo que os aceite como são.  Como destaca Zagury (2000, p. 27), “a sociabilidade [do adolescente] é maior,  embora a insegurança seja muito grande. Há uma busca de identidade, para a  qual o jovem precisa de um tempo, pois acarreta angústia, dificuldades de  relacionamento, confusão e medo”.  

Essa mistura coloca em contato estágios de desenvolvimento diferenciados  principalmente no que diz respeito à comparação entre meninos e meninas,  uma vez que estas têm um salto de crescimento na fase de 6º e 7º anos que  tornam o ambiente ainda mais diverso. Dificulta ainda mais a vivência dessa  

época o fato de que as mudanças corporais são muito radicais e em algumas  situações, estranhas. A descrição abaixo dá uma boa dimensão do que  acontece nessa fase e porque o adolescente oscila tanto entre segurança e  insegurança.

“É fácil compreender o quanto esses anos são difíceis  

para os jovens. O difícil é conviver com tanta contradição.  

Sentem-se imortais, fortes, capazes de tudo. Momentos  

depois acham-se feios, desengonçados, deselegantes.  

Espinhas e cravos acabam com a pele, há pouco

deliciosamente perfeita, suave, agradável ao tato... A  

beleza e a integridade física assumem aqui talvez seu  

momento mais proeminente. Em nenhuma outra fase da  

vida é tão importante ser forte, belo, desejável.”(ZAGURY,  

2000, p. 29)  

A partir dessas informações nota-se o quanto esse ambiente é bastante  favorável a ocorrência de bullying, já que uma das características desse  fenômeno é ocorrer através do preconceito contra o diferente. Como vimos,  essa fase escolar que enfoco é a que possui maior diversidade de estilos de  personalidade e aparência física e, portanto, uma fase que apresenta muita  diferença entre os alunos. Esse quadro ainda é agravado quando pensamos no  contexto social em que estamos inseridos, já que podemos perceber uma  dificuldade geral de lidar com essas diferenças. De certa maneira pessoas  diferentes, que escapam da norma, incomodam e acabam excluídas da cena  social.

Ainda sobre esse campo da diversidade encontrada nessa etapa do colégio,  vemos surgir uma assimetria de poder entre os alunos. Alguns alunos se  apresentam mais articulados e seguros quanto a sua autoestima, podendo  mobilizar por isso, um grupo que o legitime. Esse tipo de aluno pode  desenvolver uma relação com o outro que o diminua, como é o caso do  bullying. Nesse caso o autor, mais influente, vai “escolher” um alvo que tenha  uma capacidade diametralmente oposta em termos de poder na escola. Um  aluno pode se tornar alvo por ter algumas características físicas,  comportamentais ou emocionais que podem torná-lo vulnerável às ações dos  autores e dificultar a sua aceitação pelo grupo. (LOPES NETO, 2005, p. 7) O “escolher” encontra-se entre aspas porque se trata de um encaixe entre os dois  pólos opostos desse movimento em que um precisa do outro.

Essas diferenças produzem uma relação em que um lado tem mais poder de  atuar que o outro, propiciando o surgimento da relação assediosa autor-alvo.  Essa falta de habilidade relacional gera um abuso de poder por parte do autor,  já que este não consegue lidar de forma ética com essa diferença. Novamente  se pensarmos de forma mais ampla encontramos também em nossa sociedade  uma atração por esse estilo de relação. Como já exemplifiquei anteriormente,  muitas pessoas que possuem mais poder em nossa sociedade têm por hábito  se utilizar disso para obter vantagens ou só mesmo para diminuir o outro, pelo  simples prazer de fazê-lo. Esse estilo de relação, representado pelo formato  Eu-Isso, é repetido em diversos espaços sociais, sendo a escola um deles.  Relacionando o bullying com assimetria de poder temos a seguinte definição:

“...a definição de bullying é compreendida como um  

subconjunto de comportamentos agressivos, sendo  

caracterizado por sua natureza repetitiva e por  

desequilíbrio de poder. [...]O desequilíbrio de poder  

caracteriza-se pelo fato de que a vítima não consegue se  

defender com facilidade, devido a inúmeros fatores: por  

ser de menor estatura ou força física; por estar em  

minoria; por apresentar pouca habilidade de defesa; pela  

falta de assertividade e pouca flexibilidade psicológica  

perante o autor ou aos autores dos ataques.” (FANTE,  

2005, p. 28)  

Mesmo com todos esses pontos contextualizados e colocados como um  encaixe relacional entre os participantes não tenho a intenção de retirar a  responsabilidade de ambas as partes no processo. Insisto na contextualização,  como já disse antes, tão somente para não parecer que temos um problema  desconexo ou isolado de nosso cotidiano. Portanto, tenho claro que o ato do  assédio moral escolar é realizado de forma consciente pelo autor, muito  embora sua awareness do que faz e do que participa em termos mais amplos  seja superficial.

Como coloquei antes, a diferença entre os alunos é um dos motores que  propiciam o surgimento do bullying e esta se estabelece produzindo como alvo,  principalmente, os que não são “normais”. Esse grupo é o dos jovens que  escapam à norma, ou seja, à média social na qual está inserido. Os motivos  variados que fazem o alvo entrar nesse grupo podem ser: peso excessivo ou  peso muito baixo, ser muito alto ou muito baixo, ter o nariz ou a orelha grandes  ou de formato pouco encontrado, além de diferenças culturais, religiosas ou  etno-culturais entre outros.

Friamente essas “anormalidades” são apenas dados estatísticos, que apontam  para uma característica pouco encontrada em determinada amostragem  cultural. Só que isso determina muitas dificuldades relacionais chegando até à  violência em alguns casos, como se uma pessoa diferente incomodasse a ponto de ter que ser eliminada, ou como se fosse um depositário de projeções  frustradas de quem o agride. Se em nossa sociedade percebemos essa  dificuldade entre adultos já construídos do ponto de vista de sua autoestima, na  escola isso se torna mais complexo, porque quem agride, em algumas  situações, não percebe direito as consequências de seus atos e, o alvo,  encontra-se em dificuldade maior porque não consegue se livrar do sofrimento  em que vive.

Nessa situação complicada, em que o alvo acaba se tornando um objeto para  quem o persegue, o aluno não só não consegue se libertar dessa posição  como acaba dependendo da mesma. Assim como qualquer pessoa, o jovem  precisa se desenvolver nas relações e um aluno vítima desse tipo de assédio  também precisa, então, para ele, essa relação em que é agredido é melhor do  que o isolamento total, já que nos constituímos com o outro e nos  desenvolvemos no entre, mesmo que, nesse caso, a confirmação seja ilusória.  Mesmo assim, o isolamento pode ocorrer de forma compulsória, sem que o  alvo queira seguir esse caminho. Isso pode acontecer pelo medo generalizado  que se espalha entre os alunos de que podem ser a próxima vítima. Para que  corram menos risco de serem os próximos alvos, deixam de acompanhar ou  conversar com a vítima das agressões, que acaba se tornando uma pessoa  isolada, todos se afastam. Aliado a isso, temos a falta de maturidade dos  adolescentes para lidar com a situação, o que significa que falta estrutura tanto  para o autor ver o que está fazendo, como para o alvo lidar com as agressões  que sofre.

Então, um complicador dessa questão é que o outro é muito importante para  gerar nossos significados, mesmo que seja para desqualificar ou diminuir.  Como coloca Almeida (1999, p. 71): “na modelagem dessas atitudes, o outro  tem uma participação imprescindível. É o outro que dá sentido às  manifestações expressivas da criança”. O alvo fica numa situação muito  delicada em que escolhe entre ocupar o lugar dessa pessoa que não merece  ser valorizada ou viver sozinho a maior parte do tempo de vida nessa época, já  que passa grande parte da semana no ambiente escolar. Temos nossa vida  emocional vinculada às nossas relações, portanto, o que sentimos precisa ser  testemunhado por alguém para que possamos vivê-lo e termos a noção dos  sentidos que damos às experiências. Sozinhos, ficamos deficientes do ponto  de vista emocional também, o que na idade escolar pode significar até mesmo  ter deficiências mais profundas que acarretem em problemas na vida adulta.

A criança que é um pouco diferente, que não tem espaço para exercer todo o  seu potencial pode ficar com essa marca por muito tempo. Seu desempenho  pode estar sempre limitado e sua autoestima pode ficar tão arranhada que  levará tempo até que possa confiar em si mesma, valorizando suas atitudes.  Colocado nesses termos, enquanto limitação existencial, a situação ganha  contornos de seriedade, chamando atenção para o cuidado com o  desenvolvimento do jovem, que não deve ser somente intelectual, mas também  emocional. Para deixar isso mais claro vamos agora tratar, especificamente,  das consequências emocionais dos alunos envolvidos nesse tipo de relação.

2.3 - As consequências emocionais de autores e alvos

Para falar das consequências emocionais dos participantes do assédio moral  escolar voltarei a usar como construto a questão do desenvolvimento relacional  sob a perspectiva Buberiana. Como já disse, a fluência de Eu-Tu para Eu-Isso  é bastante importante, em algumas oportunidades estabelecemos um dos  esquemas e em outros momentos a outra, uma possível cristalização não seria  saudável.

Ainda sobre questões relacionais percebemos que tudo se desenvolve no  entre, nossa personalidade e crescimento psíquico se dão nesse campo, então,  nosso entendimento precisa passar por esse fundamento. Com isso concluí-se  que é nesse campo que somos e que nos construímos como pessoa; precisamos dessa troca para termos garantias de existência através da  confirmação pelo outro.

O estilo de relação que garante uma sustentação existencial é o modelo Eu-Tu,  onde há a reciprocidade, uma relação de mão dupla em que os dois lados se  reconhecem e tem um tratamento equivalente. Claro que aqui falo da relação  homem-homem, que é o que nos interessa, mas esta não é a única que se  estabelece nesse formato. Buber (1974) coloca outros dois tipos – relações  com seres da natureza e a esfera das essências espirituais -, mas considera  esta que estamos tratando como a mais importante.

Então, o que nos interessa investigar é exatamente o entre e o que se constrói  a partir disso. Apreendemos com isso que dependemos do outro para nossa  própria construção de autoestima, de personalidade e de nossos significados  psicológicos. Como bem lembra Chalita (2008, p. 147), “todos são partes de  cada um de nós. Parte daquilo que somos e sentimos é consequência da ação  do outro. Assim, também, o outro é parte daquilo que somos capazes de nele  despertar”. Somos todos interdependentes nessa construção.

Com isso em mente passamos para a leitura de como o bullying funciona  nesses termos. Nesses significados que nos são apresentados é como se a  parte agredida da relação, que chamamos de alvo, se encontrasse na posição  de Isso, se constituindo num objeto para seu agressor. Esse significado, em  algumas vezes, é a única coisa que tem ou só o que ouve a seu respeito nos  diversos espaços onde vive. Para o alvo, então, é muito difícil não adquirir esse  estilo de vida por esse reconhecimento, mesmo que este não seja muito  sustentável.

Outra questão que traz mais complexidade a este cenário é a idade que esses  jovens possuem nas séries de que falo aqui, nessa época conseguir digerir o  que lhe é dito é muito difícil. Não conseguem ainda ter muita segurança para  separar o que lhe é útil e jogar fora o que não faz sentido. Nesse momento o  adolescente ainda é uma pessoa que introjeta muito e não consegue assimilar  as significações de forma saudável. Nessa fase é comum o jovem só trocar as  introjeções dos significados dados por sua família para as que são dadas pelo  meio social ao qual pertence.

A introjeção para a Gestalt-terapia é a passagem de formas de ser e  significados sem que seu recebedor tenha condições de filtrar o que lhe parece  útil, que lhe faz sentido, do meio de questões que não lhes dizem respeito.  Perls (1988, p. 46) diz que é “aquilo que trazemos inteiro, o que aceitamos  indiscriminadamente, o que ingerimos e não digerimos, é um corpo estranho,  um parasita que se instala em nós”. Não é parte de nós, embora pareça. É  ainda parte do meio. Sempre fazendo a ressalva que esse mecanismo não é  ruim a priori, já que tem função em determinados contextos, essa faixa etária  de que falo tem esse modo preferencial de funcionamento, já que o filtro que  avalia o que recebe do outro não está totalmente construído.

A introjeção do alvo por sua posição oprimida, às vezes, é tão potente que ele  leva para outras situações um agressor interno, que o deixa sempre em  posição de vítima ou de objeto em outras relações, principalmente porque o  alvo, enquanto Isso da relação, recebe a confirmação de objeto que tem  serventia para ele enquanto afirmação existencial. Somado a isso, lembramos  ainda que, o estilo de relação Eu-Isso é privilegiado em nossa sociedade,  parecendo que só contamos com essas duas posições possíveis: Eu – atuante,  agressor, sujeito; Isso – passivo, vítima, objeto. Partindo desse princípio, o alvo  precisaria ter forças para passar a outra parte da relação, o que na maioria dos  casos não é uma crença que possui, só restando, então, a posição que ocupa,  que é melhor do que nenhuma.

Esses problemas ou dificuldades existenciais só se dão, obviamente, nas  relações desenvolvidas e encenadas pelo homem. As dificuldades ainda são  um importante indicativo de que algo vai mal entre as pessoas e até mesmo na  sociedade em geral, como tenho proposto nesse trabalho. O bullying pode ser  um importante indicativo de que algo não vai bem nas relações desenvolvidas  nos tempos pós-modernos. Tal qual fazemos com o sintoma na Gestalt-terapia,  partimos para a contextualização com o objetivo de compreender qual a função  dele e o que significa para quem o possui. A ideia não é sufocá-lo levando a  eliminação daquilo que incomoda, já que, até mesmo para desenvolver algo  que possa ajudar, precisamos primeiro compreendê-lo e descobrir o que ele  pode nos ensinar, caso contrário eliminamos a pista que temos para ajudar  alguém. Como nos diz Hycner (1995, p. 134) “dentro do problema está a  solução”. Precisamos estar atentos ao que o problema está tentando nos dizer.  Isso é importante para o trabalho de elaboração dessa questão na escola, sob  a perspectiva gestáltica.

Da mesma forma que compreendemos a psicopatologia como algo oriundo do  entre das relações, também entendemos que a autoestima se desenvolve no  mesmo campo. As experiências só o são com uma interpretação subjetiva do  que ocorre nas relações e a construção da autoestima passa, então, por esse  

processo. Portanto, não é a experiência em si que contribui para a constituição  da estrutura do Eu, mas o significado que damos a ela, do que ocorre entre  duas pessoas. Precisamos do outro na montagem do que somos, além de sua  confirmação para a nossa existência.

Em algumas situações a importância dessa confirmação é tão grande que o  sujeito pode até desenvolver uma estrutura falsa, ilusória, mas que lhe garanta  alguma sustentação. Torna-se interessante construir um estilo de  personalidade que se alinhe com a maioria mesmo que seja falsa. Esse tipo de  construção segue a mesma linha do que disse a respeito do alvo quando opta  por ter uma confirmação negativa a não ter nenhuma. Só que, nesse caso  específico, a intenção do autor não é nem reconhecê-lo como um Tu, que  receberia algum tipo de sentimento negativo, mas como algo que se assemelhe  mais ao uso de um objeto que não é merecedor de nenhum tipo de sentimento.

Penso que, também por isso, temos a repetição de relações agressivas entre  os alunos. Utilizando a leitura de que o espaço escolar é dividido entre as duas  posições presentes na relação de bullying, um indivíduo pode escolher a  posição de agressor por lhe parecer mais conveniente para sua sustentação  nesse espaço social, mesmo que não concorde de forma consciente com o que  está escolhendo. Na posição de agressor há uma tentativa de ser confirmado  pelo outro, algo que não atingiria de outra forma conhecida por ele. É claro que  a leitura dessa bipolaridade relacional se apresenta como estilo prioritário na  contemporaneidade, mas não como única possibilidade. Há outros caminhos  que podem se acessados.

Quando falo em confirmação, é bom que se diga, não seria a mesma ideia de  aceitação, por exemplo. A confirmação se trata de um reconhecimento total da  existência do outro, com suas qualidades e defeitos, com suas facilidades e  dificuldades, com suas opções diferentes e às vezes irritantemente opostas e  cristalizadas. Como Hycner (1995, p. 61) bem resume neste trecho: “confirmar  o outro significa fazer o esforço terrível de se voltar para a outra pessoa e  afirmar sua existência única e separada – „sua alteridade‟. Significa também, ao  mesmo tempo, reconhecer o vínculo humano comum da relação com outras  pessoas”.

A aceitação dá uma ideia mais próxima de não confirmação nesses termos e  se coloca mais como obrigação de conviver do que, propriamente, uma escolha  por compartilhar a existência como seres humanos iguais que são em suas  diferenças. Então, a confirmação inclui o outro mesmo que seu comportamento  pareça inaceitável, nesse caso o Eu trata o outro como um autêntico Tu.  Quando olhamos de perto o assédio moral escolar percebemos que sua  dinâmica se dá em grande parte pela dificuldade, que parece de nosso tempo,  que os alunos têm de lidar com as diferenças, tanto físicas e psicológicas,  como de poder.

A partir desses dados fica mais claro o quanto dependemos das relações para  construção de nossa autoestima. Esse construto é muito importante  principalmente nessa fase. Como é uma época importante do ponto de vista da  construção da personalidade, a falta de um ambiente saudável cria dificuldades  para o jovem lidar com as situações que se apresentam e podem causar  problemas para o desenvolvimento do futuro adulto. Uma das situações que,  sem dúvida, pode causar esse tipo de consequência negativa é o bullying. Aqui  temos um detalhe importante: algumas características são comuns aos alvos desse tipo de assédio, mas é importante notar que alguns alunos que sofrem  essa agressão sucumbem a isso ou ficam presos a esse tipo de relação,  enquanto que outros de características semelhantes não apresentam essa  resposta. O que dá para notar é que uns têm mais suporte de seu modo de ser,  apresentando uma autoestima equilibrada, enquanto outros não acham  possível se apresentarem com seu jeito, denotando uma autoestima baixa, que  não se autoconfirma e, por isso, tão pouco pode ser confirmada pelo outro.

Essa construção e suporte têm uma importante base que é o meio familiar,  como aferido na pesquisa da ABRAPIA (2003) e que cito no próximo item,  sendo possível que a confirmação existencial dos alvos que sofrem seja  deficiente nessa base inicial. Talvez essa seja a grande diferença entre os que  se desestruturam diante das agressões sofridas e os que - como vimos nas  frases reais destacadas anteriormente - podem dizer: “...me ofendem, mesmo  assim vou para casa alegre,...”. O bullying é uma questão importante  exatamente porque alguns alunos que são alvos não têm estrutura para lidar  com as situações que se apresentam e sofrem muito com a forma como são  tratados no ambiente escolar, com as “brincadeiras” unilaterais. As consequências desses atos são muito sentidas e, apesar do alvo ser a parte  da relação mais nítida quanto ao sofrimento, o autor, por seu turno, também  tem dificuldades pelo seu estilo de comportamento. Com relação a este último,  o que se apresenta mais visível, de forma geral, segundo Lopes Neto (2005, p.  9), são “baixo rendimento escolar, agressividade e comportamento antissocial”,  características marcantes em autores que sem dúvida levam a algum tipo de  sofrimento, seja na escola por seu rendimento, ou no campo social por correr o  risco de ser vítima, ele mesmo, de agressões pelo seu comportamento.

A agressão como estilo de vida se reproduz nas relações e é bastante possível  que, quando esse modelo de comportamento predomina, retorne desta mesma  maneira para seu autor. Portanto, viver dessa forma traz como consequência  negativa sofrer agressões ao longo da vida e viver relacionamentos  conflituosos que não promovem uma vivência saudável. O sujeito que vive de  forma que priorize a violência não traz sofrimento só para quem ele agride, mas  também para ele próprio, já que há um desgaste emocional durante uma briga  e, algumas vezes, o sentimento de culpa depois. O sofrimento se instala  principalmente quando o agressor fica culpado com suas atitudes, mas não  consegue agir de outro jeito. Em longo prazo esse estilo de vida traz muitas  dificuldades relacionais e o comportamento antissocial pode se intensificar  podendo até mesmo gerar problemas com a lei.

As consequências para o alvo do assédio moral escolar, além de serem mais  nítidas, são mais numerosas em seus itens. A clareza desses efeitos se traduz até mesmo pelas mais diversas reações físicas em quem sofre esse abuso  repetidas vezes. Estar na escola já desencadeia uma série de reações  desagradáveis como destaca Fante (2005, p. 24-25): “taquicardia, sudorese,  diurese, dor de cabeça, mal-estar generalizado, sensação de sufocação,  cólicas, náuseas, vômitos e diarreia”. Esses sintomas dão uma ideia  aproximada do quanto é insuportável sua vida na escola.

Como o fenômeno acontece repetidas vezes, causando dor e angústia  silenciosa, o quadro pode evoluir para a depressão e a ansiedade exagerada,  até chegar a atitudes autodestrutivas como o suicídio. Como o alvo, muitas  vezes, não encontra suporte nos espaços em que vive e nem autossuporte  para denunciar, vive todas essas consequências sozinho e em silêncio, ficando  inseguro, podendo levar a uma reação intempestiva como temos a  oportunidade de ver em algumas ocasiões no Brasil e ao redor do mundo.  Histórias de alunos que, armados, vão para escola se vingar de todas as  agressões sofridas fazendo muitas vítimas, tem se tornado cada vez mais  comum.

Nessas situações muitas das vítimas dessa vingança, inclusive as fatais, não  tinham relação direta nem indireta com as agressões, o que reforça a tese de  que os alunos que eram vítimas de agressões queriam destruir a escola, como  representante de todo o mal que lhe é causado, a escola precisa “morrer”  tamanho é seu descontentamento com esse campo de sua vida. Claro que  existem, nesses casos, alguns alvos mais específicos, como agressores  conhecidos ou pessoas que não deram atenção para possíveis denúncias, mas  aparentemente eles alvejam indiscriminadamente, como no caso do massacre  de Columbine nos Estados Unidos em 1999.

É interessante que no caso de uma escola em Jonesboro, nos Estados Unidos,  como descreve Fante (2005), um massacre ocorreu e apresentou reações  posteriores semelhantes à lógica do bullying. Testemunhas que souberam o  que ia acontecer não denunciaram, assim como os espectadores de assédio  moral escolar. Alguns alunos sabiam do plano e não contaram a ninguém.  Outro ponto a ser analisado reforça a tese de que os jovens agredidos muitas  vezes só veem como saída a mudança de posição, passando a agressores.  Nesse exemplo específico ainda tivemos a repetição da fama e do retorno  positivo de outros alunos experimentado pelos agressores, já que, depois do  incidente, dois alunos disputavam o título de melhor amigo de um dos autores  da tragédia.

Esse cotidiano violento da escola torna o ambiente árido para qualquer  desenvolvimento socioeducacional saudável. Os alvos são os principais  afetados por esse clima, ir para escola torna-se um sacrifício tão grande que o  corpo apresenta sinais de que não pode mais ir, já que o mal-estar surge no  momento em que o jovem precisa ir para escola. Em alguns casos, a estrutura  psíquica do alvo é tão frágil que se acha merecedor daquilo que sofre, o que  acaba contribuindo para aumentar o mal-estar, principalmente porque,  merecedores disso, não podem nem reclamar. Esses sujeitos acabam não  tendo o suporte necessário para escolher um caminho que o livre dessa  situação.

Em longo prazo as vítimas da agressão escolar podem se tornar adultos com  baixa autoestima, sem confiança, depressivos, introspectivos e até com medo  de se relacionar socialmente. Esses reflexos são sentidos na vida adulta  porque a violência escolar chega numa época importante de construção da  personalidade, o que faz essa estrutura ser arrebatada de forma marcante.

Esse rebaixamento subjetivo que sofrem pode gerar problemas na vida adulta ,  uma gestalt aberta que precisa de elaboração, como explica o trecho abaixo:

“O complexo inteiro de sentimento, expressão, gesto e a  

impressão sensória, que é particularmente profunda  

porque está inacabada de maneira significativa, está  

agora em desuso; e se gasta continuamente uma energia  

considerável para mantê-lo fora de uso em toda situação  

presente (uma energia considerável porque a cena  

traumática está inacabada de maneira importante, e deve  

ser energicamente combatida).” (PERLS, HEFFERLINE,  

GOODMAN,1997 , p. 102)

Nesse trecho fica claro que situações inacabadas trazem muito desgaste de  energia para o sujeito. Esse gasto só acaba quando trabalhada a questão, caso  contrário pode causar problemas relacionais até que isso se realize. Além  disso, as crenças negativas da fase de agressão podem cristalizar e  desorganizar a vida adulta, trazendo sofrimento e propiciando formas de se  relacionar não muito saudáveis.

Com todas essas consequências sob perspectiva parece que se torna  importante para a escola estar atenta e abrir espaço para as discussões e  medidas a serem tomadas para atuar nas situações de violência, ao menos  para que se reduzam os efeitos deletérios dessas questões sobre a vida dos  alunos. Nesse caminho é importante ressaltar alguns itens importantes, que  serão discutidos e aprofundados mais a frente. Como tratamos tudo enfocando  as relações e o fato delas estarem inseridas num contexto maior, não se trata  de encontrar e punir um possível culpado, na maioria das vezes, o agressor, a  direção deve ser se livrar da agressão, e não do agressor.

Isso nos leva a discussão que acaba sendo levantada nesse trabalho,  desencadeando reflexões como essa: a escola tem que estar preparada para  lidar com essas questões? Em relação a essa questão, a princípio, já posso  citar o que opina Chalita (2008, p. 110): “a escola, por delegação social, deve  ser um local de acolhimento e de estímulo ao desenvolvimento e ao  crescimento intelectual, sem desprezar as necessidades pessoais, sociais e  afetivas dos alunos”. Nesse trecho percebemos uma posição que responde  afirmativamente a questão colocada. Além disso, o mesmo autor ainda  complementa, citando Platão, quando este fala que educação é liberdade,  condição que nos emancipa da ignorância, mesmo que envolva sacrifícios e  seja doloroso o saber.

Parece-me que essas citações concorrem para um pensamento amplo do que  seja educação e falarei mais sobre isso no terceiro capítulo. Antes de entrar  propriamente nessa parte, algumas palavras sobre o papel da família na  construção da personalidade do par autor-alvo do bullying.

2.4 - A participação familiar na construção de autores e alvos

Seguindo a linha norteadora do trabalho, de contextualizar a situação que se  apresenta, discuto nesse trecho outra instância bastante importante para a  compreensão do que acontece com nossos alunos hoje em dia: a família.  Precisamos de alguns detalhes desse campo por sua influência primeva e  fundamental na vida dos filhos, detalhando como eles podem repetir  comportamentos familiares agressivos ou passivos diante da violência que  sofrem.

A família entra como componente fundamental da educação, senão por  responsabilidade voluntária, ao menos por lei. A Constituição Brasileira  formaliza em seu artigo 205 a participação familiar, deixando clara essa  obrigatoriedade legal. Abaixo, segue o artigo:

“Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado  

e da família, será promovida e incentivada com a

colaboração da sociedade, visando ao pleno  

desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício  

da cidadania e sua qualificação para o trabalho.” [grifo  

nosso]

Como prevê o nosso código nacional, a família é um dos braços importantes do  processo educacional e, embora não esclareça de que forma, coloca como um  de seus deveres. A partir de alguns conhecimentos em psicologia imaginamos  o quanto é importante essa presença para o início da vida escolar e sua  continuidade. As necessidades vão mudando ao longo das séries, mas é  sempre importante a proximidade, principalmente num caso de bullying em  que, na maioria das vezes, o adolescente tem vergonha de falar o que está  acontecendo com ele.

Para entender melhor como essas influências acontecem, falemos um pouco  do desenvolvimento da criança no meio familiar. No início da vida infantil tudo é  significativo e percebido pela criança como fundamental, mesmo porque, as  necessidades das crianças são imensas e demandam muitos cuidados. Tudo  que precisa é essencial para a sua sobrevivência e tudo que está a sua volta  se torna importante e, obviamente, seus pais são os elementos que mais se  destacam nesse campo.

À medida que vai crescendo a criança vai se descolando dessa dependência e  de seu mundo infantil, diferenciando o que encontra a sua volta em pessoas e  situações mais relevantes e outras nem tanto. Como diz Buber5(1974, p. 43) a  

5[Buber (1923), apud Von Zuben (1974)]

“história do indivíduo manifesta um crescimento progressivo do mundo do  

Isso”. O que fica ainda de relevante em termos de relação se constitui no estilo  

Eu-Tu, incluindo, em sua maioria, a relação com os familiares mais próximos.

Como importante núcleo de identificações, a família fornece subsídios para que  seus filhos iniciem seu desenvolvimento de forma mais segura, principalmente  porque no início da adolescência, período que está em foco aqui, o meio social  começa a ganhar mais espaço na vida do jovem e diminui um pouco a  influência da família. Quando isso acontece, no caso da escola, por exemplo, o  aluno precisa ter alguns filtros para identificar quais são as escolhas melhores  para ele e, talvez o mais importante, precisa ter estrutura para não participar de  situações que não lhe interessam ou que o ofendem. Para se cuidar sozinho e  até tomar as devidas providências quando é vítima de algum ato agressivo que  não consiga lidar, o adolescente precisa ter uma estrutura razoável, já que o  meio pressiona bastante.

Nessa formação a atenção e afeto dos pais são importantes para o  crescimento da criança. Sistemicamente, se a família é bem equilibrada e têm bons valores, seus filhos vão, provavelmente, se desenvolver por esse  caminho. Nesse processo o que tem de mais importante para os pais passarem  para os seus filhos é o exemplo de suas próprias atitudes. Claro que não se  excluem as conversas e explicações sobre o que acontece, mas o peso maior  é a ação, principalmente porque alguns pais são incoerentes entre o que dizem  e o que fazem. Temos muitos exemplos de pais informados que passam o que  sabem para seus filhos, como, por exemplo, respeitar os outros e eles mesmos  não respeitarem as pessoas que entram em contato no cenário social, às  vezes, incluindo seus próprios filhos.

Toda a família, seja de que estilo for e qual formação tenha, é referência para  os filhos. Chalita (2008, p. 165) destaca bem essa contribuição familiar:

“Os pais, de alguma forma, contribuem para a descoberta  

da razão de existir. É numa estrutura familiar sólida que a  

criança e o adolescente vão suprir suas necessidades de  

amor, de valorização, de limites e de coerência. Valores  

que contribuem para o desenvolvimento de habilidades de  

autodefesa e auto-afirmação.”  

Então, percebemos que no processo de crescimento do adolescente para se  transformar num “ser social”, como dizem Lopes Neto e Saavedra (2003), este  precisa adquirir habilidades no seio da família, local onde pode apreender  noções de respeito, limite, afeto, solidariedade e outros valores éticos e morais.  Na pesquisa da ABRAPIA (2003) foi constatado que uma família agressiva ou  de pouco contato afetivo, eram em grande parte o nicho de formação dos  autores de bullying. O adolescente, então, carrega um forte componente  familiar, seja de forma positiva, seja de forma negativa, como vemos no caso  de condutas agressivas.

Isso também não quer dizer que tudo seja responsabilidade familiar e que seus  filhos não têm liberdade de escolha sobre suas ações, além disso as famílias  dão o que podem e, na maior parte das vezes, estão fazendo o máximo para  educar seus filhos. Chamo atenção para o tema familiar porque num momento  de dificuldade de seus filhos na escola, são marcantes tanto na construção do  problema como na resolução do mesmo. Para que a família seja chamada  nesse momento, temos que estar cientes da influência importante dessa  instituição, principalmente porque os problemas podem ser - e em sua maioria são de fato – um indício de que algo funciona mal em determinado núcleo  familiar e esta pode ser uma oportunidade de se discutir sobre isso.

Esse ponto é muito interessante porque, frequentemente, em situações de  adolescentes envolvidos em situações de agressão, esbarramos com frases  dos familiares de muita surpresa e denotando falta de entendimento de como  aquele sujeito chegou a tal ponto, se esse comportamento, na visão deles, não  foi ensinado em casa. Nesses casos é comum aparecerem frases como: “Eu fiz  tudo por ele!”, “Ele sempre teve tudo!”, “Sempre lhe dei tudo do bom e do  melhor!”. Esses “tudos” que aparecem nas frases têm nuances infinitos e  podem indicar problemas nas relações. Na primeira e na terceira frases, temos  que contextualizar o tudo porque pode não ter sido suficiente ou colocar sob  perspectiva a qualidade do “bom e do melhor”, já que algo bom para um, pode  ser ruim para o outro, trata-se de uma questão ligada à subjetividade. O “tudo”  da segunda frase nos remete a situação de infantilização do adolescente, já  que ele tem todos os seus desejos atendidos nessa situação. Esse modelo não  contribui muito para um crescimento responsável dos filhos.

As famílias têm dificuldade de acessar essas percepções, por isso uma criança  que vai mal na escola é um importante indicador de uma questão que pode  estar muito bem camuflada no sistema familiar. Aqui reside o problema da  inclusão da família, porque se a questão está nas sombras, provavelmente é  para continuar lá por uma dificuldade de entrar em contato com a história  familiar. Colocá-lo à luz de discussões pode ser insuportável para a família, o  que reduz as chances de resolução.

Contudo isso, o que fica de mais importante sobre esse aspecto é que a  família, de fato, tem uma importante influência sobre seus filhos, talvez a maior  de todas, e que não pode se furtar dessa responsabilidade. Seu  comportamento é facilmente repetido pelas crianças e, sem dúvida, suas  opiniões sobre o mundo e sobre seus próprios filhos pesam muito na vida  deles. Isso é um sistema do qual não se pode fugir.

O processo de crescimento traz uma consequência imediata e importante para  o adolescente, conforme vai se desenvolvendo o jovem vai ficando cada vez  mais responsável por suas escolhas, enquanto que o papel do adulto relativo a  isso vai diminuindo. Quando isso não acontece, os pais ainda continuam em  todos os momentos tentando livrar o filho das possíveis consequências de seus  atos, tornando-o imune ao que é de sua responsabilidade, transformando-o,  portanto, em uma pessoa irresponsável diante de suas escolhas. Esse é outro  ponto que faz parte do quadro que estou montando nesse trabalho.

Toda essa confusão que a família vive ainda é intensificada por influências que  estão presentes no modo de vida pós-moderno. Antes as posições familiares  eram fixas e as regras bem definidas. Esse sistema, chamado de patriarcal,  tinha o pai como chefe inquestionável da família e a fonte de renda principal da  família. Ele trabalhava para sustentar a casa e todos que lá habitavam tinham  que obedecê-lo. A mãe exercia a função de cuidar da casa e dos filhos, sua  posição perante a prole era de respeito também. Aos filhos, restava obedecer aos dois e nunca questionar nada. Tudo era controlado nesses termos e esse  modelo era até um incentivo para que os filhos saíssem de casa cedo. Esse  esquema era marcado, então, pelo autoritarismo paterno.

Depois dos movimentos de contracultura nas décadas de 60 e 70 essa  instituição passou por mudanças que ainda não se estabilizaram  adequadamente. As regras claras e bem definidas dos tempos anteriores  caíram, as mulheres entraram no mercado de trabalho e os filhos passaram a  contestar mais a autoridade dos pais. Nesse novo modelo parece que a família  ainda não encontrou uma boa forma de atuar. Como as regras instituídas não  existem mais como no formato anterior, a autoridade dos pais já não vem mais  acoplada à função que ocupam, precisa ser construída no dia a dia.

Sem as velhas referências os componentes da família precisam de mais  trabalho para criar e educar seus filhos. A velocidade das mudanças pós modernas faz com que o hiato entre as gerações da família seja ainda maior e,  o adolescente, histórico representante do rompimento com as tradições e  produtor de diferença, passou a exercer esse papel com intensidade maior,  gerando mais conflito entre as partes. Esse contexto traz dificuldades  importantes à família que parece estar no mesmo barco do “não-saber” dos  professores que recebem seus filhos.

Na falta de um porto seguro que lhes dê referências para atuar, os pais se  veem em constante dificuldade no contato com os filhos. Isso é tão comum  hoje em dia que, em determinadas situações, ouvimos propostas de retorno ao  modelo autoritário de educação do passado, como forma de controlar os  jovens. A geração que lutou contra a estrutura familiar autoritária, com suas  medidas repressivas, em alguns momentos acha que essa é a melhor maneira  de serem respeitados pelos filhos. Com isso, o sistema familiar, perdido, pode  produzir em seu interior filhos com valores deturpados, que vão repetir no meio  social, comportamentos que podem ser desrespeitosos, antiéticos e até  agressivos, causando problemas no contato com o outro.

Uma das questões que trazem muitas dificuldades aos pais pós-modernos é a  administração da liberdade que os adolescentes podem ter e os limites que  devem existir nesse processo. É claro que, à medida que cresce, o jovem  precisa ter espaço para ampliar suas possibilidades, ter uma liberdade cada  vez maior diante do que seus pais podem escolher por ele. O fundamental é  que para ter direito a liberdade deve compreender que esta nunca é adquirida  sem a companhia de uma boa dose de responsabilidade.

A liberdade é, então, condicionada e não é um benefício que se deve conceder  sem que deveres venham junto, colaborando para limitar as ações. O que  vemos hoje é o uso da liberdade sem respeito pelo direito que o outro também  tem de usá-la. A falta de limites dos adolescentes advém principalmente de  pais que não permitem que seus filhos se responsabilizem por atos que  possam invadir o espaço de vida do outro. Nessas oportunidades alguns pais  não deixam que seus filhos tenham o ônus de suas atitudes. Essa liberdade  mal utilizada é participante importante do estilo de relação Eu-Isso, em que o

outro é quase um objeto das vontades alheias. Como bem analisa Chalita  (2008, p. 220):

“O primeiro aprendizado sobre civilidade é o de que  

vivemos numa sociedade constituída por pessoas  

diferentes entre si e que, apesar disso, gozam dos  

mesmos direitos e deveres, e que essas diferenças  

devem ser consideradas sinônimos de diversidade, não  

de desigualdade; que a vida não se resume  

exclusivamente à nossa pessoa e aos nossos caprichos,  

e que a sobrevivência da humanidade depende da  

convivência harmoniosa, cordial e respeitosa com outras  

pessoas.”  

Isso é bastante importante porque os valores e os limites que são transmitidos  com a liberdade é que vão construir cidadãos responsáveis em suas ações no  meio social. Uma base saudável promove um lançamento adequado do sujeito  

na sociedade, principalmente no início, em que este começa a se desprender  da influência maior da família para começar a fazer suas escolhas de forma  autônoma, não sem uma certa dose da influência da nova rede onde o jovem  vai se estruturar, a dos amigos.

A participação da família nessa fase é fundamental, acompanhar o adolescente  e estar disponível para suas dificuldades é importante. Claro que a  disponibilidade não deve ser confundida com controle rígido, os pais precisam  fazer um balanço razoável entre cercear a liberdade dos filhos e deixá-los ser.  O equilíbrio interessante a ser alcançado deve estar entre uma ruptura brusca  em que jovem se amedronta diante da súbita falta de apoio e a eterna  vigilância dos pais, se movimentando para resolver as questões no lugar dos  filhos. Essa meta pode ser atingida através de um lar aberto, não para a  liberdade total, mas para a discussão dos impasses, atitude que pode afinar a  família entre os pólos opostos da repressão e da permissão.

Com essa afinação bem realizada a família prepara suas crianças e  adolescentes para saber se proteger e escolher, com valores dos pais  internalizados. Para isso, os pais devem ter confiança, não só em seu filho,  mas também no trabalho que realizaram nessa caminhada. Também é  importante notar que, quanto à educação, os tempos são só diferentes,  necessidades e cuidados mudaram um pouco, mas, hoje, não são  necessariamente piores para a educação familiar do que anteriormente, que,  obviamente, tinham outros problemas a serem equacionados, como fica claro  no trecho abaixo:

“Não é novidade para ninguém o quanto as famílias estão  

mudando e tais mudanças, muito comumente, implicam  

em um estado de crise. Embora essa possa ser uma das  

razões, é sabido que as dificuldades nos relacionamentos  

íntimos sempre existiram. Temos que considerar também  

que antigamente as famílias não se dispunham a falar de suas mazelas, até mesmo porque o modelo mais  

tradicional de família incluía um silêncio, por vezes  

doloroso, em torno do que se passava dentro  

delas.”(SILVEIRA, 2005, p. 2)

Indubitavelmente o meio social principal nesse momento de mudança é a  escola, já que os adolescentes estão nesse espaço, ou envolvidos com  atividades oriundas deste, a maior parte de seu tempo útil. Caso a saída de  casa para essa rede social seja dificultada por uma família que age em um dos  pólos – permissão e repressão – de forma cristalizada, é no espaço escolar  que vão ocorrer a maior parte dos problemas. Um jovem que sai de uma família  desestruturada que não o confirma, pode conseguir uma segunda chance na  escola para que se transforme numa pessoa potente. Por isso, o trabalho da  escola no cuidado com as relações que nela se encenam, é de suma  importância para o desenvolvido do jovem e, talvez, sua última chance.  

“A relação afetiva entre pais e filho repercute na formação  

da personalidade do indivíduo. Um bom relacionamento  

afetivo, em que o carinho e o amor se evidenciam no trato  

com a criança, criará registros altamente positivos em sua  

memória, fortalecendo a auto-estima e a autoconfiança.  

Por outro lado, um relacionamento marcado pela falta de  

afetividade positiva e pelos maus-tratos físicos ou verbais  

influenciará o indivíduo, determinando seu desempenho  

social e sua capacidade de adaptação às normas de

convivência, bem como sua habilidade de integração  

social. Portanto, as raízes do comportamento agressivo  

estão fincadas na infância, sendo o modelo de  

identificação o elemento fundamental para a sua  

compreensão.” (FANTE, 2005, p. 175)

Nesse sentido escola e família devem ser complementares na educação e  construção da autonomia do adolescente. Essa parceria deve estar entrosada  porque são os dois espaços vivenciais mais importantes dessa faixa etária. A  colaboração dos dois lados pode criar condições para que algumas arestas  sejam aparadas. Então, os ditos alunos “problema”, podem vir de famílias  disfuncionais, algo que deve ser compreendido pelos professores para uma  atuação mais precisa, que proporcione um cuidado mais sistêmico com tal  aluno. Nesse ínterim é importante a presença e acompanhamento da família,  lembrando sempre que não é algo fácil de abordar, já que, como vimos, o aluno  “problema” pode ser o sintoma que aponta para uma família disfuncional que,  por diversas vezes, não está disponível para olhar para suas questões.

Como colocam Perls, Hefferline e Goodman (1997, p. 101), “a repetição  acontece até que se consiga uma assimilação”. Enquanto a elaboração não  acontece, o jovem vai repetindo os comportamentos aprendidos de sua família  de origem. Nessa idade é comum os adolescentes não terem muito contato  com a forma como vivem, não se dão conta de muitas ações que realizam e  absorvem muita informação do meio, tanto familiar, quanto social, sendo que o primeiro, como diz Fante (2005, p. 174), “registra seus contatos humanos  iniciais, constituindo a referência para a construção da personalidade”.

Portanto, se uma família é agressiva, preconceituosa, abusa de seu poder com  os mais fracos, ou é antiética, a probabilidade de seus filhos seguirem esse  caminho é muito grande. Se não for só por repetição, o adolescente ignorado  em casa causa problemas que geram ações disciplinares da escola ou da  polícia, como uma forma de serem olhados ou confirmados. A violência  psicológica – críticas depreciativas, ridicularização, chantagens – ou o  preconceito podem passar de forma muito sutil e entrar no cotidiano familiar  sem serem notados pelos participantes. No caso da agressão física, o  movimento é mais claro, pois é visível, e, às vezes, deixa marcas, sem dúvida  algo mais palpável e, portanto, de intervenção mais fácil.

Em uma investigação realizada por Fante (2005) foi constatado que 73% dos  alunos envolvidos em atos de bullying disseram que reproduziam um  comportamento que aprenderam em casa, traduzindo em números o que  levanto nessa parte do trabalho. É importante destacar ainda que a influência  de uma família agressiva pode produzir dois tipos de comportamento em seus  filhos: o agressivo, em que o adolescente repete o comportamento familiar, e o  retraído, em que torna-se difícil suportar os ataques sofridos em casa e no  meio social. O segundo caso é mais próximo dos comportamentos dos alvos de  bullying.

Entre os dois estilos de violência a mais difícil de ser identificada acaba sendo  a mais cruel e problemática. A violência psicológica é difícil de ser notada no  jogo familiar e, principalmente, não deixa marca visível nenhuma. Para o  adolescente que cresce nesse meio é difícil apontar o que está ruim nesse tipo  de relação, mesmo porque, não tem muita estrutura para enxergar de forma  distanciada o que acontece em seu meio familiar, visto que ainda é muito  referenciado pelos pais.

O que lhe resta fazer em grande parte dos casos é se habituar a viver dessa  maneira, desenvolvendo ferramentas que possam facilitar sua sobrevivência.  Claro que, apesar de ser responsabilidade dos pais a forma como atuam, não  quer dizer que ajam assim com intenção de provocar algum mal. Aliás, em sua  maioria, agem dessa maneira com a melhor das intenções, provocando  algumas dificuldades no crescimento e desenvolvimento dos filhos. Na maior  parte das situações não estão muito aware das escolhas que fazem e, assim  como seus filhos, também não percebem o jogo do qual fazem parte.

O adulto de hoje também pode ter sido tratado de maneira agressiva, ou sem  afeto, por seus pais, figuras que também acabam sendo referência. Se os seus  lares funcionavam dessa forma, a aprendizagem desse formato pode trazer,  em alguns casos, a repetição do comportamento mais tarde. Se cresceram  com estilo de relação preferencial Eu-Isso, podem ter uma estrutura  direcionada para tal e acabam tendo dificuldade de escolher outra forma de  atuar. Os pais podem acabar tendo problemas por ignorar outras possibilidades  de relação, dão o que receberam. Ressaltando sempre que se trata de uma  tendência e não de um resultado obrigatório e causal entre as gerações.

Uma criança pode aprender a se tornar agressiva num ambiente desses,  imitando um padrão de comportamento. Por isso é importante que os pais  estejam atentos para o tipo de troca que estão estabelecendo. A falta de  cuidado com esse contato com os filhos pode abrir espaço para situações de  violência, que, como já foi dito, podem ir desde a falta de respeito pelo espaço  dos filhos até a agressão física. Esse sistema é reforçado também quando  faltam regras claras ou quando os pais são incoerentes entre o que dizem e o  que fazem em casa. O jovem pode tanto reproduzir um movimento violento  com seus companheiros de escola, repetindo o que sofre em casa, como pode  adotar uma posição passiva, repetindo na escola a submissão e o lugar de  agredido. O bode-expiatório familiar pode acabar se repetindo na escola.

Portanto, a família pode ser uma variável importante do assédio moral escolar  e, muito embora não seja uma relação de causa e efeito, pode ser responsável  tanto pela ação dos autores, como pela passividade dos alvos. Como lembra  Chalita (2008, p. 87):

“Em se tratando de perfil familiar, este não é, certamente,  

um diagnóstico definitivo e conclusivo. Correríamos o  

risco de rotular famílias inteiras, imputando toda a  

culpabilidade do fenômeno bullying aos lares desprovidos  

de afeto. Mas, seguramente, a ausência do afeto e do  

acolhimento, no ambiente familiar ou escolar, é um fator  

que merece vigilância e intercessão. A ação do aluno  

tirano não se justifica isoladamente pela família  

empobrecida de afeto, ou pela escola omissa e  

depauperada de valores, nem, ainda, pelo grupo de  

amigos que fortalece e valoriza o agressor.”  

Então, com todo o cuidado para que não criemos rótulos, levantamos essas  influências que se somam – família e valores contemporâneos – e concorrem  para um comportamento agressivo, mas não podemos abandonar a escolha  individual do adolescente e nem que a família tem um peso maior dentre essas  influências.

Além de ser importante na construção dos personagens envolvidos no assédio  moral escolar, a família também se torna importante em identificar se algo vai  mal com seus filhos. Principalmente no caso do alvo, os pais precisam estar  atentos se tem algo que não vai bem com o adolescente. Mesmo que os  componentes familiares tenham uma relação próxima não é uma tarefa fácil de  realizar porque o adolescente, de forma geral, já apresenta um comportamento  instável por natureza. É uma fase complexa do ponto de vista emocional em  que o jovem está sofrendo muitas transformações corporais e em sua vida  social. Com muitas mudanças ocorrendo, seu comportamento fica mais  estranho para família e não é tão fácil separar quando isso é natural para idade  e quando algo ruim está acontecendo, principalmente porque também é nessa  fase que os filhos começam a construir sua independência e já querem resolver  seus problemas sozinhos.

Como relata Zagury (1996, p. 30): “as emoções são contraditórias. Deprimem se com facilidade, passando de um estado mediativo e infeliz para outro pleno  de euforia e crença em suas possibilidades.” Esse estado emocional dificulta  num diagnóstico preciso por parte dos pais, principalmente com relação a um  jovem que é alvo de bullying. Falo do alvo aqui porque são eles que sofrem  mais imediatamente numa relação desse tipo e ao mesmo tempo tem vergonha  de falar sobre isso e pedir ajuda. Não possuem estrutura nem para sustentar  um pedido de ajuda, algo preocupante pelo que já vimos das consequências  emocionais da parte agredida.

A forma dos pais acolherem quando a queixa finalmente é verbalizada também  é de suma importância. Esse processo deve ser tratado com o cuidado que  merece um discurso que só pode surgir com muito esforço, pela dificuldade já  destacada. É um pedido de ajuda que, muitas vezes, é o único que será  possível em muito tempo e essa oportunidade precisa ser aproveitada. Quando  isso ocorre, soluções construídas pelos pais não ajudam em nada, então, não  surte muito efeito tentar diminuir o sofrimento do adolescente dizendo para que  ele simplesmente não ligue ou incentivando-o a reagir, repetindo o ciclo de  violência. São dois caminhos que os pais, de repente, procurariam, mas está  fora da alçada do que o jovem pode fazer, mesmo porque, ele já deve  conhecer essas duas propostas racionais e sofre exatamente porque não  consegue sustentar essas duas saídas e, muito provavelmente, nenhuma  outra.

Algumas formas de lidar com a questão partem sempre de uma escuta  cuidadosa desse sofrimento e, mesmo que se sugira uma solução mais  próxima do que o adolescente é capaz de fazer, é bom nunca desqualificar o  sofrimento presente nos filhos. Tanto no caso do autor do assédio, esse  identificado pela escola quase sempre, como no caso do alvo a ideia é poder  focar no que eles podem fazer para solucionar a questão a partir de suas  possibilidades, incentivando a canalização da agressão para algo positivo no  primeiro caso e fortalecendo a autoestima no segundo.

As dificuldades podem diminuir com uma boa parceria entre a família e a  escola. Como já vimos, em alguns momentos, a escola é muito importante para  identificar uma situação de bullying no caso dos agressores, mas também afina  o diagnóstico no caso da vítima usando seu rendimento decrescente na escola  para notar que algo não vai bem. Esse entrosamento é essencial tanto para a  identificação dos envolvidos como para atuação no sentido de resolução do  caso. Como a pesquisa-intervenção realizada por Fante (2005) nos mostra, os  pais devem estar dentro das escolas como seus filhos e os casos devem ser  discutidos entre todos os envolvidos, mesmo que num primeiro momento haja a  separação entre a parte agredida e a agressora, o projeto é poder fazer com  que todos participem juntos do processo. Segundo os dados colhidos nesse  trabalho essa intervenção pode reduzir os casos de assédio moral escolar.

Os profissionais da escola sejam eles professores, inspetores, orientadores  pedagógicos ou psicólogos, devem cuidar da abertura desses espaços, cada  um do seu jeito, promovendo a discussão e promoção de saúde na escola.  Dessa maneira podem buscar um caminho para uma escola mais humana que pode desenvolver o máximo que seus alunos conseguem oferecer. Um espaço  como esse pode render bons frutos para que a sociedade tenha mais  representantes que atuem de forma a considerar o outro como igual em suas  diferenças. A família precisa cobrar isso da escola e esta precisa cobrar  daquela a mesma direção, tornando-se parceiros no processo. Veremos agora  como a escola pode ser importante para esse trabalho.

3 - A escola contemporânea

“Do rio que tudo arrasta

Se diz que é violento,  

Ninguém diz violentas  

As margens que o cerceiam.”6 

3.1 - O professor na sala de aula contemporânea

Os tempos pós-modernos, como já defini antes, imprimiram algumas mudanças  importantes na cena social. Outeiral (2005) coloca que passamos por rápidas  transformações que provocaram rupturas de uma série de paradigmas, como  ideias, valores morais e estéticos, processos de pensamento e, como não  poderia deixar de ser, a escola também é abarcada por esse processo se  tornando palco de alguns conflitos e dificuldades nas relações educacionais.

O tempo dos alunos de hoje é muito diferente do tempo do professor, a  distância entre os dois em relação a que existia no passado parece ter  aumentado. Os adolescentes de hoje processam as informações de maneira  muito rápida e estão sempre conectados a diversas fontes ao mesmo tempo. A  imagem do jovem de hoje é aquela em que ele está sentado no computador  olhando diversos sites diferentes, jogando, ouvindo música, conversando com  amigos virtuais e com a televisão ligada. Com essa enxurrada de signos sendo  absorvida instantaneamente o adolescente cresce habituado a não se  interessar por livros ou outras atividades que sejam mais lentas e precisem de uma concentração maior, tendo dificuldade, portanto, de estar em situações  que exijam essas características. Esse processo vem se intensificando e  parece não dar sinais de que vai estabilizar em algum patamar por agora.

Claro que temos um processo de aceleração, por exemplo, que não assola  somente os adolescentes, mas eles acabam sendo os mais severamente  impactados, já que não possuem uma estrutura já construída e, por esse  motivo, absorvem mais a modelação existente em seu cotidiano. Como já  dissemos, o adolescente é a personificação das rupturas com o estilo de vida  anterior, representado por seus pais, e portador das notícias de novas formas  de subjetivação. Muito embora não sejamos produto da história, sofremos sua  influência e quanto menos aware do nosso estilo de vida, mais risco corremos  de seguir esse mesmo fluxo. Com essas características pós-modernas esse  choque se torna mais duro.

Algumas escolas, pelo que vemos, parecem uma instituição alheia a essas  transformações, principalmente quando percebemos que sua estrutura parece  a mesma há pelo menos mais de um século. Quando essa escola recebe o  aluno pós-moderno um embate, até o momento insolúvel, vai ser encenado. A  instituição escolar, em sua maioria, repete um comportamento antigo com  estruturas velhas e quer incutir no aluno conhecimentos necessários para um  

6[Bertold Brecht, apud Patto (2008)]

objetivo específico, visando, em sua maioria, somente a passagem dos anos escolares e o vestibular. Então, é como se determinadas escolas só se  preocupassem com esse tipo de desenvolvimento de seus alunos, deixando  para segundo plano uma parte importante da educação, como o  desenvolvimento emocional e a promoção da cidadania.

O jovem nos bancos escolares precisa, então, se ocupar de diversas tarefas e  se enquadrar naquele estilo de aprendizado, já montado e cristalizado antes de  sua própria existência. Esse ponto se torna mais interessante quando  observamos a origem grega da palavra escola, citada por Chalita (2008, p.  188): „scholé, significa lugar do ócio‟, algo que nada tem a ver com o que ocorre nessas instituições hoje em dia. O autor ainda completa dizendo que “a  educação grega, a Paideia, era interdimensional. [...]Desenvolvia as dimensões  da razão, do desejo, do sentimento e da relação com o transcendente”. Esse  trecho torna ainda mais distante a escola contemporânea da ideia grega  original.

Essa escola, não muito diferente das mais antigas, não se apropria muito  desses conceitos oriundos da etimologia grega da palavra escola. O  surgimento da estrutura de escola que conhecemos hoje em dia pode ajudar a  explicar um pouco a forma como o professor atua e o afastamento da proposta  grega inicial. Foucault (1983) afirma que na organização dos espaços  institucionais no século XVIII a escola foi abarcada, instituindo separações,  disciplinas e controle espaço-temporal.

Nesse século, as instituições começaram a funcionar com um controle mais  fino dos espaços e dos corpos para sua melhor organização. Fábricas,  hospitais, prisões e exércitos ganharam tecnologias de organização que,  segundo Foucault (1983), engendraram novas relações de poder. Ele observou  que a estrutura escolar foi uma das instituições que teve o mesmo destino no  século XVIII e, em sua maioria, eram colégios internos de orientação religiosa,  que já continham em seu cotidiano regras rígidas de funcionamento. A parte do  que pode provocar discussões infindáveis a respeito das teorias foucaultianas,  me concentrarei apenas no que vemos hoje como correlato dessa organização  e de como sua disciplinarização pode ter gerado construtos de poder que não  contribuem para a garantia de um desenvolvimento mais integral, que possa  incluir o campo emocional ou mesmo cívico, algo que poderia evitar, ou pelo  menos diminuir, as ações de bullying no colégio.

Foucault (1983) coloca que o modelo tradicional de escola, em que cada aluno  ganha atenção individualizada do professor enquanto os outros esperam ociosos, começa a desaparecer e surge uma estrutura de lugares individuais  determinados. Foucault (1983, p. 134) fala, ainda, que dessa forma era  “possível um controle de cada um transformando o espaço escolar numa  máquina de ensinar, mas também de vigiar, de hierarquizar, de recompensar”. Esse controle do espaço pode ser ampliado até a hierarquização da sala de  aula segundo o temperamento do aluno, seu avanço intelectual ou sua  aplicação, sob a classificação do professor.

A partir disso a escola se tornou um lugar organizado em espaços unitários,  com alunos ocupando lugares delimitados em carteiras que, em alguns  momentos, são destinadas a eles sem que possam escolher em qual sentar. A  hierarquização propicia também o aparecimento da serialização, não se pode  mais ter, para uma boa organização, alunos de níveis muito diferentes em uma  mesma série, então, os alunos precisam apresentar um rendimento tal para ir  subindo de série. Esse sistema é o mesmo até hoje e proporciona,  principalmente para os professores, um lugar de poder que antes não existia.  Os alunos precisam passar de série para terem o aval escolar de que  evoluíram enquanto aprendizes, e quem estipula os parâmetros para isso é o  professor, não sozinho, mas com apoio da escola.

A educação, como destaca Cerezer (2005), é um processo que não ocorre sem  algumas rupturas e conflitos, mas os colégios contemporâneos tornam isso  ainda mais intenso. As instituições repetem alguns movimentos, como a  construção de esquemas prontos que os alunos devem incorporar sem muitas  perguntas, não tendo o direito de contestar ou, pelo menos, discutir algumas  regras, reduzindo seu espaço de pensamento. Nesse caminho a escola  contemporânea, na média, acabou se construindo com o um olhar centrado no  conhecimento racional e didático. A preocupação é fazer todos aprenderem os  conteúdos outorgados pela escola e descobrir quem são os que não  conseguem cumprir as metas elaboradas pela instituição. Na realidade o  parâmetro nem precisa ser a medida de conteúdos introjetados, mas se o aluno  atinge as metas estipuladas, já que muitos saem da escola sem o tal conteúdo  exigido. A forma de avaliação pode não ser eficiente para aferir o que se  aprendeu e muitos vão passando de série sem saber muito bem o que já lhe foi  apresentado como matéria escolar. O resultado final parece ser focado na  evolução seriada e não na aprendizagem.

“A supervalorização da cognição tornou as relações  

impessoais, estereotipadas e padronizadas sem espaço  

para incluir aquilo que não consta no conteúdo  

programático ou aquele que esteja fora do padrão  

determinado pelo grupo. As disciplinas  

compartimentalizadas fragmentam o saber, que perde o  

sabor, o sentido e o significado. A organização do espaço  

físico enfileira as crianças e desfavorece o diálogo e a  

troca de ideias e ideais.”(CHALITA, 2008, p. 190)

Essa lógica invade o campo educacional e é defendida como proposta na  organização capitalista meritocrática. Isso se percebe em artigos divulgados principalmente através da mídia, braço importante da produção de  subjetividade contemporânea. Um exemplo claro desse tipo de texto pode ser  observado em dois artigos veiculados pela Revista Veja e escritos pelo  economista Gustavo Ioschpe. Notamos que as avaliações a respeito da  educação passam por uma lógica empresarial e pouco humana.

Citando os dois artigos que têm como títulos “O amor constrói. Mas não ensina  tabuada.” e “Aula de ética é em casa, não na escola”, conseguimos recolher  um bom número de frases e ideias que são bem representativas do modo de  pensamento vigente na pós-modernidade quando aplicadas à escola. Os  artigos estão afinados com esse pensamento e excluem a cidadania e  formação mais ampla dos bancos escolares em favor dessa lógica de que falo  aqui. Destaco abaixo pelo menos dois trechos, só como um exemplo, do que  norteia o pensamento desse teórico que não tem nenhuma formação na área  da educação e que baseia sua lógica em aplicação de estatísticas às notas, em  ideias econômicas e na comparação com os tais países “desenvolvidos”.  Seguem os trechos:

“A escola brasileira parece acreditar que terá cumprido  

sua missão se criar um sujeito bem ajustado, que não  

puxa os cabelos dos coleguinhas, ainda que não saiba a  

tabuada nem consiga escrever dois parágrafos  

concatenados.”(IOSCHPE, 2010, p. 103)

“[falando de escolas que procura para o filho]Ouve-se  

falar pouco no desenvolvimento cognitivo, em  

aprendizagem, em ciências exatas. Menos ainda alguém  

se referindo à pesquisa empírica ou aos recentes achados  

de neurociência. Em compensação, dois temas são  

unanimidade: cidadania e ética. É uma distorção que me  

preocupa.” (IOSCHPE, 2010, p. 120)

Ou seja, o artigo classifica como distorção a formação humana que a escola  tem interesse em colocar em prática e ainda completa que o interesse deveria  ser a passagem de conhecimentos teóricos, inclusive neurociência. Claro que  não descarto que a escola deve se propor a passar informação para seus  alunos, como fica patente ao longo do trabalho, mas não acho que deva se  limitar a isso, como propõe o referido autor. Pelo que consta no artigo e nos  trechos destacados parece que se o aluno dominar os números ou como  escrever um parágrafo não importa todo o resto, nem se ele conseguirá viver  em sociedade sem causar mal a alguém.

Com essa citação destaco um estilo de pensamento que em alguns momentos  parece hegemônico em nossa sociedade, como se o objetivo de nossas vidas  fosse cumprir com as metas estipuladas pelo mercado humano que se transformou a formação escolar. Perseguir boas notas e ter um bom  desempenho acadêmico ofusca a produção de cidadãos que pudessem viver  em sociedade com potencial para diminuir a incidência de relações agressivas,  presentes tão marcadamente em nosso cotidiano. A escola pós-moderna, em sua maioria, passou a preparar o aluno para uma lógica de funcionamento  neoliberal, então, o ensino e o colégio servem de ensaio para encarar um  mundo competitivo, em que só alguns conseguem atingir seus objetivos e uma  massa de estudantes não conseguem ultrapassar o funil que se forma nos  passos seguintes à escola.

Ainda dentro dessa lógica, a escola contemporânea - nesse caso somente as  da rede privada - parece ter sido capturada também pela ética do mercado e  com isso o objetivo do lucro acaba por permear as relações no ambiente de  ensino. Os alunos passam a clientes gerando todas as consequências  possíveis advindas de uma lógica em que um adolescente aprendiz passa a ter  sempre razão. Como forma de reação do corpo docente, temos os discursos  verticais e tentativas de deter os alunos, principalmente através do manejo das  notas, que vão selecionar quem é apto e quem não é. O discurso passa pela  assimetria de saber em que o professor tem algo a oferecer e o aluno não.

Ao mesmo tempo o tipo de ensino ficou parado no tempo enquanto o mundo  caminhou. O conteúdo do que os alunos vão apreender na escola, não raro,  estão em descompasso com o mundo em que irão entrar depois. O que é  ensinado não conta, em sua montagem, com as necessidades do aluno.  Lembrando aqui que, preparar alguém para o vestibular, não forma cidadãos  nem seres pensantes. Não excluindo a necessidade atual dessa forma de  preparo, pensar nisso como única função da escola é, no mínimo, temerário.

O descompasso do ensino aumenta ainda mais quando vemos que famílias e  alunos mudaram seu ritmo de vida, o intervalo de tempo para resolução de  problemas está muito menor hoje, assim como a comunicação se dá de forma  instantânea, levando a atividades cada vez mais rápidas e dinâmicas. Como  coloca Sanches (2005), não precisamos entrar numa sala de aula para  perceber que esta se afasta e muito desse modo de funcionamento e parece  parada no tempo.

O agente principal desse processo é o professor e este torna-se um repetidor  de conceitos, em muitos casos, se interessando mais por esse currículo formal  do que, propriamente, um currículo mais humano, que contenham em seus  princípios aprendizagem cívicas e emocionais. Por privilegiar o primeiro estilo,  um currículo formal elaborado pela instituição educacional e sem qualquer  participação do corpo discente, os adolescentes se encontram submetidos a  obrigações que estão apartadas de sua realidade e não conseguem encontrar  sentido para lições fragmentadas que ele precisa saber para alcançar uma  meta que não é construída por ele.

Desse modo, o aparelho de ensino não consegue tirar o melhor de cada um e  detém, ele e seus operadores, segundo Chalita (2008), o monopólio da  verdade sobre a forma de se adequar a vida. Nessa lógica a escola se investe  do poder de dizer o que é certo e o que é errado, piorando a situação quando  ainda passa a ideia de que esses parâmetros são naturais e não construídos  com alguma intenção. Percebemos que notas e avaliações padronizadas que não se preocupam em tratar o diferente de forma diferente, remetendo ao  conceito de equidade e não de igualdade, é de todos os ângulos, artificial.

Se a instituição repete o movimento de rechaçar a diferença enquanto  possibilidade de saber e padroniza alunos, sem que alguém possa construir um  saber reflexivo sobre isso, ela reforça o preconceito com os ditos incapazes,  que não o são por deficiência natural, mas por um não enquadramento nas  “leis universais e naturais” escolares. Nesse mecanismo a instituição  educacional diagnostica o fracasso produzido por ela mesma, já que é esta que  elabora os parâmetros artificiais que vão enquadrar os aptos e classificar os  que estão fora dos limites estabelecidos como inaptos, ou “alunos-problema”.

A falta de reflexão, ou de espaço para isso, dos envolvidos no processo  educacional propõe relações congeladas na escola, todos têm um papel bem  definido e nada pode ser mexido. Portanto, professores não podem ser  questionados pelos alunos em suas práticas e estes só devem obedecer ao  que lhes é imputado. Só que esse método tem entrado em falência desde que  os adolescentes, sempre contestadores, foram ganhando mais espaço pela  queda do autoritarismo das figuras de autoridade, modelo vigente até a  segunda metade do século XX. Com isso, somente os argumentos do  professor que esse estilo de educação é o que deve ser seguido, sem muita  fundamentação, já não convencem mais os alunos e não os fazem ficar em  seus bancos calados.

Com essas metas, como diz Freire (1997), a escola acaba por priorizar um  caminho não muito ético que não leva em consideração o livre pensar e o  investimento nas relações, principalmente entre seus funcionários e a  população assistida por essa instituição. Ainda segundo ele, falando de ética, é  importante investigar como a educação pode ter enveredado pelo caminho  reproduzido pela lógica do mercado, principalmente as escolas privadas, sem  se preocupar muito com seu objetivo primeiro de educar. A escola se  transforma em uma negociante financeira tratando seus alunos como clientes,  repetindo a forma capitalista que atravessa nossas relações.

Isso pode ter diversas implicações negativas para o processo de  desenvolvimento escolar, já que se transformando numa instituição passiva  interessada em aumentar suas receitas, sua mediação com alunos e familiares  fica comprometida e, como clientes detentores da razão, cobram da escola  posturas que lhes interessam e não o que seria educacionalmente elogiável.  Numa situação em que alunos e familiares podem precisar comparecer no  espaço escolar para discutir posturas e envolvimentos dos adolescentes em  comportamentos de assédio moral, o trabalho psico-pedagógico já apresenta  um prejuízo estrutural, já que, pelo que se pratica, os contratantes não podem  ser questionados ou contrariados.

Essa leniência abre espaço, portanto, para comportamentos mais agressivos,  como o próprio bullying, que conta exatamente com uma falta de interesse de  fiscalização e trabalho com as relações entre os alunos. Lembrando sempre  que a escola aparece como segunda possibilidade de socialização e de desenvolvimento emocional do jovem, logo depois do espaço familiar, isso  torna o papel dessa instituição muito importante para ser colocado em xeque  por relações comerciais entre pais e escola.

Outro dos grandes interesses da instituição educacional contemporânea,  pertencente ao campo da disciplina, diz respeito ao manejo que os professores  detêm das notas escolares. Esse item, como já citei, introduz um sistema de  poder na sala de aula que é muito usado pelos seus participantes. Vivemos em  nossas escolas a cultura da nota e do vestibular, como é perceptível quando  observamos o que acontece no Ensino Médio, por exemplo. Desde o seu início,  no 1º ano, já se tem um apontamento para a preparação focando o vestibular e  o processo educacional é abandonado definitivamente. Como o que nos  interessa aqui é fase de 6ª a 9ª do Ensino Fundamental, darei mais importância  ao que as notas escolares representam nesse período, mas a atitude que se  estabelece no Ensino Médio também é algo preocupante do ponto de vista  educacional.

Em outra referência foucaultiana, ele avalia a nota como a passagem do  castigo físico antigo para esse controle mais formal dos comportamentos. É  bastante comum alunos serem ameaçados com redução de pontos por algum  movimento fora dos padrões ou serem avisados de que a prova será muito  difícil se não se comportarem bem. A prova, então, assume um caráter de  punição aos alunos que excedem os padrões e normas ditados pela escola e,  muitas vezes, tem um caráter mais disciplinar, ou de controle, do que,  propriamente, para medir conhecimentos. “A disciplina fabrica assim corpos  submissos e exercitados, corpos <dóceis>. A disciplina aumenta as forças do  corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminuem essas mesmas forças  (em termos políticos de obediência”). (FOUCAULT, 1983, p. 127).

A nota, enquanto disciplina, produz exatamente essas reações dos alunos,  docilidade diante da política escolar para não serem sancionados em termos de  avaliação. Sanches (2005) faz uma pergunta muito pertinente quanto a isso,  quando questiona o que a nota mede: o que o aluno aprendeu ou o que o  professor foi capaz de ensinar? Talvez não precisemos, como numa prova  clássica, achar a resposta “certa” para essa pergunta, mas ter a possibilidade  de agregar as duas ideias na avaliação. Pensando de maneira gestáltica,  precisamos dar importância a relação que se estabelece no ensino entre  professor e aluno para clarificar o que acontece quando isso não funciona.

Portanto, a crítica não serve para, respeitando a mesma lógica escolar, colocar  a responsabilidade só no trabalho do professor, mas na relação que  estabelecem, trazendo para a avaliação em sala as duas perspectivas e não só  uma. Para Sanches (2005) a avaliação, da forma como é realizada, não tem  vínculo com o processo de construção do conhecimento pelo aluno. O que leva  a uma segunda constatação sua que conflui ao tema da relação que coloquei  anteriormente. Com base nesse estilo de avaliação a escola está correta e os  alunos que vão mal nelas é que estão com problemas, transformando esse  espaço de relação, ainda segundo o mesmo autor, num diálogo entre surdos.

Com isso a avaliação traz em seu bojo um claro instrumento de poder para o  professor, apoiado na premissa que os alunos precisam evoluir de série em  série para que possam ter um desenvolvimento, dito, normal. Como avalia  Gallo (2003), é como se só tivesse restado a esse profissional esse poder de  decidir sobre a capacidade dos alunos, porque já não tem mais um salário  digno e nem o status de outros tempos. O professor se torna outro reprodutor  de um método de qualificação que exclui quem tem dificuldades com esse tipo  de ensino. No lugar de atuar como um produtor de possibilidades, se apoia nesse instrumento que não contribui com o desenvolvimento do aluno  enquanto pessoa. Como novamente coloca Gallo (2003), o professor não  precisa anunciar qual será a nova possibilidade, mas vivendo um estilo Eu-Tu  com seus alunos, dentro das situações que lhe são apresentadas nessa  relação, cuidar do espaço em que se poderá construir, em conjunto, algo novo.

Quando a escola não foca nesse processo colabora para o que Freire (1997)  chama de “burocratização da mente”, onde o aluno não é provocado a pensar,  e sim correr atrás de boas notas. Um dos efeitos colaterais dessa estrutura é  fazer o jovem ficar dependente de que digam o que precisam fazer e a repetir o  movimento de perseguir boas notas por toda a sua vida. Isso se reproduz até a  faculdade e depois dela, podendo gerar reflexos até mesmo nas suas relações  pessoais, em que o sujeito passa a depender sempre de uma avaliação do  outro para existir, para que seja alguém.

Outro efeito importante é que a atenção é tão voltada para esse processo  durante o período escolar, que notas boas viram sinônimo de sucesso, quem  não alcança essas metas além de ser um fracassado, pode absorver a cultura  de que isso vai se repetir pelo resto de suas vidas. Essa estrutura muitas vezes  é encampada também pelos pais, tornando a vida dos que não atingem tal  sucesso na escola um grande sofrimento. Pensemos, por exemplo, nos  adolescentes que desde cedo tem uma enorme aptidão para artes, esse  esquema montado dessa forma, além de não ajudar, ainda pode atrapalhar em  seu processo de construção profissional e de autoestima, este último justificado  pela importância da escola na vida dos jovens.

Claro que aqui não venho defender a eliminação desse processo de avaliação,  mas é preciso pensar que este, talvez, não esteja sendo feito da melhor  maneira possível. Para o aluno-artista, por exemplo, deveríamos pensar em  incluir isso de alguma forma em seu processo de avaliação. Outro ponto que  fala a favor dessa discussão é o fato de que a escola estruturada desse jeito e,  colocando a nota como balizador de conhecimento, prediz que o aluno que se  forma, sabe, então, pelo menos uma parte daquele conhecimento que lhe foi  passado. Mas na realidade sabemos que temos alguns casos em que o jovem  sai do colégio, mas não alcança essa obtenção de informações que a escola  atesta com suas notas. Portanto, as notas que aprovam não se traduzem  necessariamente em conhecimento, o que demonstra em muitos casos a  inutilidade desse esquema.

Chama atenção também que alguns profissionais sabem disso, tanto que há  alguns casos de alunos que “passam” de ano por causa de uma avaliação do conselho de classe, mesmo sem obter o índice exigido. Então, por que não  tornar esses processos velados mais claros para todos os envolvidos? O que  vemos hoje é o grande terror que alguns adolescentes passam em semana de  provas achando que a nota que vai tirar será apropriada de forma rígida para a  sua aprovação. Alguns jovens encaram essas avaliações de forma tão intensa  que parece que sua existência depende exclusivamente daquela aprovação  pela nota.

Todo esse processo me parece essencial porque se isso tudo é o que tem de  mais importante na escola, é possível que outras questões sejam avaliadas  com menor atenção, o que por si só, é algo perigoso. Parece-me óbvio que a  estrutura escolar formal, englobando aqui a universidade também, não garante a formação de um cidadão que seja educado e respeitoso com o espaço do  outro. Caso isso não fosse verdade só teríamos delinquentes ou falta de  educação de pessoas que não tivessem passado pelos bancos escolares e não  é isso que ocorre.

Então, não seria mais interessante nesse processo de avaliação escolar  contemplar o todo do processo do jovem e não focar numa parte, que seria a  nota? O conselho de classe precisaria relativizar os casos, como parecem que  fazem algumas vezes, e acompanhar o desenvolvimento individual tendo como  parâmetro o que o aluno pode render. Isso deveria extrapolar essas reuniões e,  de fato, entrar nas salas de aula e nos outros espaços escolares, para que  ficasse claro para todos o que seria levado em consideração para avaliação.

A importância disso, com relação ao tema da agressão que discuto aqui, é que  o aparelho educacional estruturado dessa forma parece ter dificuldade de lidar  com situações de bullying exatamente porque está focando em outras questões  que não são suficientes para resolver o problema, além de excluir a diferença,  como nos casos do assédio moral escolar. E o que pode ser ainda mais  complicado, a formação dos professores também não parece contemplar esse  viés e eles terminam como reprodutores da norma escolar há muito  estabelecida.

O interessante era que os professores fossem produtores de possibilidades,  que pudessem ser criadores de espaços para que os alunos possam se  desenvolver plenamente. O que ocorre, na verdade, é que, hoje, boa parte dos  professores se tornou um mero transferidor de conhecimento, muito parecido  com o que uma máquina poderia fazer. A aula, dessa forma, parece um  monólogo e não um diálogo com os alunos, que devem ficar quietos. Nesse  modelo os alunos não interagem e precisam seguir a disciplina de ficar  acompanhando em silêncio.

É muito duro para os adolescentes, sobretudo os de hoje, se comportarem  dessa forma, seu nível de vida o empurra sempre para atividades dinâmicas e  movimentadas. Aliado a isso, o professor, tal qual os pais dos alunos, não é  reconhecido como figura de autoridade por si só, precisa construir esse lugar  no contato com os alunos. Para isso deve estar atento ao equilíbrio entre  licenciosidade e autoritarismo, portanto, não é interessante que exagere nem na liberdade irresponsável e nem nos limites sufocantes, um equilíbrio  complicado de se colocar em prática.

De qualquer forma, algo que é difícil, torna-se impossível de realizar se a  questão não é abordada. O professor lida com uma diversidade grande de  individualidades e, por esse motivo, é alvo das mais diferentes demandas em  sala de aula. Pensar sobre isso dentro da perspectiva de manejo da liberdade e  das questões emocionais dos alunos torna essa profissão uma das mais  complexas de serem bem realizadas, principalmente no mundo de hoje.  Lembrando sempre que o professor ainda precisa ter espaço para o ensino  formal.

O que se percebe, hoje, é que o corpo docente parece muito focado neste  último, ignorando outras partes importantes do processo, como, por exemplo, o  próprio desenvolvimento emocional do aluno, que se manifesta todo tempo se  pensarmos de forma integral. Aliás, é interessante notar que os postulantes ao  cargo recebem em sua escola, e depois em sua universidade, exatamente o  tipo de ensino que critico aqui, sem cuidado com o que pensa esse futuro  profissional da educação e também com seus afetos. Nesse sentido, o  professor em sua formação passa pelas mesmas dificuldades que seus alunos  passarão amanhã em sua classe, sendo assim, os dois estão sujeitos aos  mesmos métodos de ensino e padecem das mesmas dificuldades ao longo do  caminho da educação.

O modelo educacional poderia estar mais pautado no estilo de relação Eu-Tu,  em que o aluno, confirmado pelo professor, também tem algo importante a  dizer e não só o mestre, com suas indicações de sabedoria que os estudantes  precisam seguir cegamente, pendendo mais, nesse caso, para o estilo Eu-Isso.  O adolescente presente dentro da sala é um espectador do que se passa no  tablado, seus dois únicos trabalhos são: ficar quieto durante a apresentação e  ser obrigado a acompanhá-la. Embora, de fato, deva haver uma ordem para  que a aprendizagem se dê talvez isso não deva ser levado às últimas  consequências, cristalizando uma ordem em que nada pode escapar ao  planejado. Então, por mais que a educação necessite de castração em algum  nível, não precisa se pautar somente nisso.

É interessante notar que, quando esse esquema não funciona, o problema  reside na dificuldade de adaptação do aluno. O diagnóstico é feito  naturalizando o esquema escolar, este foi construído de forma correta e quem  não consegue acompanhá-lo é que precisa ser “consertado”. A  responsabilidade do aprendizado não é das duas partes, parece estar ligada há  apenas um dos lados, nesse movimento a instituição, novamente, trata seu  estudante como Isso, ou seja, ele não pode ser fonte de informação para uma  revisão sistêmica dos métodos, ele é a peça que não se encaixa nas  engrenagens estudantis, um objeto que não funciona.

Com toda essa construção de que participam e a estrutura educacional da qual  fazem parte, imagina-se que seja difícil que os professores tenham subsídios  para enfrentar uma situação de bullying ou de outros tipos de violência escolar.

Quanto a isso acumulam-se situações de omissão docente quanto ao assédio  moral escolar, minimizando muitas vezes a questão. Não é incomum  apontarem alternativas para o alvo que são meras orientações vindas de um  lugar que em nada contribui para ajudar e não tem características de  acolhimento. Ainda encontramos atitudes desastradas, que apesar de ativas,  produzem resultados negativos, como a história de Wanderley, 8 anos, narrada  por Chalita (2008, p. 126):

“Sem querer incomodar a mãe, começou a desistir do  

sonho de estudar. Em um trabalho em grupo, quando  

ninguém permitiu que ele entrasse, sozinho, ouviu o  

professor determinar que um grupo o acolhesse.  

Surpreso, entristecido, ouviu a frase dolorosa: ‟Ele fede! O  

bafo-de-onça tem mau hálito! O senhor já reparou nos  

dentes dele?‟. A sala riu. O professor também riu.”  

Esse trecho nos traz a gravidade desse assunto. Nessa sentença existem dois  grandes problemas: o fim do sonho de uma criança, em uma idade que é algo  muito precioso, e a intenção de desistir de uma parte de sua educação. Diante  

dessa situação o professor que se abstém de intervir de alguma forma que  proteja esse aluno do que sofre, provavelmente não contribui em nada para  que este se desenvolva e para que essas agressões não o impeçam de  concluir algo muito importante para ele.

Claro que não é somente o professor que precisa lidar com isso, este  profissional deve ter o apoio dos outros agentes escolares para proceder, mas  é sempre bom lembrar que o educador, presente em sala de aula, é o que  precisa atuar na urgência. No trecho acima percebe-se que naquele momento  só o professor pode fazer algo e, mais do que poder, pela gravidade do ato, ele  deveria tomar alguma atitude. Depois o acontecimento pode ser discutido e  trabalhado com outros profissionais, mas o primeiro atendimento é dele e o  educador precisa estar preparado. Veremos agora como este profissional lida  com as demandas escolares.

3.2 - As relações na escola e seus principais atores: professores e alunos

Continuando na parte do trabalho mais dedicada a educação, seus efeitos e  suas relações, começo destacando outro documento que define e legisla sobre  os conceitos educacionais que deveriam ser seguidos. Chalita (2008, p. 196)  destaca o artigo primeiro da Lei de Diretrizes e Bases da Educação que  estabelece:

“...a educação abrange todos os processos formativos  

que se dão na família, no mundo do trabalho, nas  

instituições de ensino e de pesquisa, nos movimentos  

sociais, nos meios de comunicação e nas atividades  

culturais.”

Como vemos é uma definição muito abrangente e coloca a escola como um  dos aparelhos responsáveis pelo processo, mas na atualidade, é a que mais se  destaca enquanto produção educativa. Por esse peso maior e pelo espaço  vivencial que ocupa no início de nossa vida, é que os agentes escolares  precisam ter muito cuidado com o que acontece em seu espaço. Como já citei,  é o segundo lugar de desenvolvimento mais importante para o adolescente e  sua segunda chance de se estruturar. A criança, que antes era “propriedade”  dos pais passa a responder a outra instância superior, o professor. Isso pode  ter uma implicação grande nos processos identificatórios do ser que começa a  se construir, principalmente porque, em muitos casos, o jovem passa mais  tempo na escola do que com a própria família.

Para qualquer ser humano poder se desenvolver plenamente é importante um  ambiente sadio que zele pela disponibilidade de elementos que possam  compor um crescimento subjetivo saudável. Como o indivíduo no início da vida  passa boa parte de seu tempo em ambiente escolar, é necessário que este  seja potente em reflexões para formar um cidadão que se relacione de maneira  diferente da que vemos hoje como modo preferencial em nossa sociedade.

O tecido social, saturado de relações violentas, precisa de novos participantes  disponíveis a tentar outras formas mais solidárias para que melhoremos nossa  convivência. Para esse processo funcionar a escola é um ambiente essencial  e, se em seu interior, as relações são permeadas pela agressividade, como as  de assédio moral, se desperdiça uma oportunidade fundamental para iniciar  uma mudança em nosso quadro social atual.

Nesse ambiente Sanches (2005) coloca que os alunos pós-modernos são  recebidos pelos professores de estilo educacional moderno, período que  antecede ao que estamos nos referindo como pós-moderno, causando alguns  choques difíceis de solucionar. Os alunos têm em seu mundo uma fonte  inesgotável de informações ao alcance de um clique na internet, uma das  tecnologias que mudaram radicalmente o estilo de vida das pessoas e  alteraram o ritmo dos adolescentes de maneira decisiva. Ao lado da televisão e  do vídeo-game, a internet também influencia na forma como os jovens se  relacionam. Com esse incremento na velocidade e diversidade das  informações passadas os alunos não têm facilidade de se concentrar em algo  mais lento, ou que precise de uma construção subjetiva mais presente. Em  resumo, pensar passou a ser algo um pouco fora de moda, abrindo espaço  para a introjeção de informações de maneira rápida e dinâmica.

Outras características importantes dos estudantes, como nos dizem Bauman  (2001) e Outeiral (2005), é não terem mais contato com os personagens das  grandes narrativas, o que significa que seus ídolos, pessoas que são  respeitadas por eles como referência, não duram uma estação do ano, são  muito frágeis, o que acaba reproduzindo o modo de se relacionar com as  autoridades. Seus representantes não ficam muito tempo no “poder” só pela  posição que ocupam, precisam reafirmar esse lugar todo dia no contato com os  adolescentes para serem respeitados. Nesses casos colabora muito o adulto  não ser incoerente entre o que fala e seu real estilo de vida. Por fim, o jovem de hoje quase não consegue ter um desejo que se sustente por muito tempo,  algo que valha a pena ter como meta, ou porque elas não dão mais o retorno  de outrora, caso da relação educação hoje/emprego amanhã, ou porque suas  necessidades são disponibilizadas ao seu alcance muito rapidamente.

Esse mundo é, por vezes, muito distante do que os professores viveram na  idade de seus alunos e o choque temporal e de pensamento é um dos que  dificulta um processo escolar baseado, exatamente, num estilo mais próximo  do moderno que é mais lento e mais estático. Para observar isso basta notar  que a escola é uma das instituições que funciona da mesma forma há muito  tempo. Isso deixa a escola cada vez mais distante dos modos de subjetivação  de seu público alvo, além do fato do professor não ser mais a única ou, pelo  menos, a principal fonte de informação de seus alunos que estão interessados  em propostas muito diferentes do que a escola tem a oferecer.

O processo de ensino muitas vezes conta com uma banalização e objetificação  de diversas questões, às vezes, relativas ao próprio funcionamento escolar,  que seriam importante fonte de reflexão. A escola recebe os estudantes que  estão sensibilizados com o estilo de funcionamento de nossa sociedade,  portanto, eles irão repetir em seu espaço diversos comportamentos sociais que  podem ser trabalhados de muitas maneiras pelos professores. Esse tipo de  trabalho serve para que se discuta principalmente as questões que não são  ditas e, por isso, se tornam banais, naturais, dificultando que sejam elaboradas,  como o estabelecimento de relações agressivas. Como destaca o trecho  abaixo, os alunos têm direitos e a escola deveres a serem cumpridos:

“É importante lembrar que a escola é um espaço de  

aprendizagem e, principalmente, de formação de  

pessoas. Para isso, deve ser garantido aos alunos o  

direito de freqüentar um espaço seguro, onde eles  

possam aprender e conviver com outras pessoas, num  

clima saudável e tranqüilo.” (LOPES NETO e  

SAAVEDRA, 2003, p. 115)

Outras ideias que também seriam importantes para discussão, como a forma  que a sociedade da qual eles participam se organiza e os impactos que isso  tem para o ambiente escolar, ficam de fora e são pouco aproveitados na forma  de temas transversais das atividades rotineiras. Essa estrutura pode levar a  uma acomodação do sujeito enquanto ser pensante, adormecendo as  representações políticas e os movimentos sociais que propõe novas ideias ou,  pelo menos, discute as hegemônicas, abrindo espaço para diminuir as  reproduções de modelos consagrados. A autonomia do estudante pode ser  interessante, deixando claro aqui, que isso não significa que ele fará o que  quer, mas terá uma liberdade de pensamento, que é um conceito que já traz  em seu bojo a responsabilidade inerente ao processo.

Com todas essas questões em funcionamento vale a pena os profissionais da  educação, em primeiro lugar, compreenderem que os jovens não entram na  escola vazios para serem preenchidos pelo conhecimento dos professores, como diz Chalita (2008, p. 170), eles já têm “um repertório interno povoado de  emoções, desejos e aspirações”, sendo o trabalho da educação potencializar  esse conteúdo. O segundo passo é avaliar, exatamente, qual é a bagagem que  já trazem, componentes que, sem dúvida, devem estar muito influenciados na  atualidade pelas características pós-modernas já citadas. Essa percepção deve  estar o mais próximo possível de uma avaliação individual, que vai produzir os  dados singulares necessários a uma boa medida de que posição o jovem  possui no aqui-agora, com sua construção de momento, e onde é possível que  ele chegue em termos de desenvolvimento. Claro que nenhum desses dados  será exato, mas dá uma dimensão mais justa de quem é aquele sujeito.

Portanto, não seria interessante a escola buscar a homogeneização,  uniformizando as condutas, fato que não contribui para mudar nem o status  quo escolar nem o social. Nessa dinâmica a escola encontra os não aptos ao  modelo escolar, ou seja, um indivíduo que não se adapta ao que a maioria  consegue, e pretende ajustá-lo para se enquadrar. Normalmente não se pensa  ao contrário, que o processo escolar é que não esteja atendendo aquele sujeito  específico, não porque ele tem um problema, mas sim porque a estrutura  escolar não consegue contemplar a enorme diversidade de formas de vida que  há em seus bancos. “Aparece, através das disciplinas, o poder da Norma.[...]O  Normal se estabelece como princípio de coerção no ensino, com a instauração  de uma educação estandardizada e a criação das escolas normais;” (FOUCAULT, 1983, p. 164)

Então, o surgimento da norma remonta a construção da estrutura escolar que  perdura até os dias de hoje. Esse mecanismo avalia quem é normal e quem  não é para os parâmetros da escola, fazendo a instituição reproduzir o modelo  que leva ao bullying entre os alunos. A escola pode, então, jogar o mesmo jogo  punitivo-discriminatório que vai compor o modelo que funda o comportamento  de assédio moral escolar.

Além disso, a escola ainda apresenta aulas monótonas, marcadas por  monólogos e pela distância entre o que se ensina e a vida real, não contribuem  para que o colégio seja um lugar atraente para seus alunos. O profissional mais  próximo e influente para fazer essa ligação se tornar mais importante e  produtiva para os alunos é o professor. É importante que cuide da abordagem  e do contato com os alunos, facilitando o processo de ensino e de educação,  que para Outeiral (2005, p. 96) são diferentes. Para ele o primeiro se trata de  “colocar signos para dentro”, num processo de introjeção de conceitos e, em  relação ao segundo, traduz como a possibilidade de “criar condições  ambientais para que a criança e o adolescente desenvolvam, no seu ritmo, seu  potencial”. Entendo que os dois precisam acontecer e ter a importância  necessária nos momentos adequados.

A despeito de toda a diferença entre os dois participantes desse processo,  descritos por Outeiral (2005, p. 84) como o “professor [...] um esteta da modernidade, enquanto seus alunos estão vivenciando a estética da pós modernidade”, os dois lados precisam se encontrar no aqui-agora possível para  que, aparando essas arestas, cresçam com a relação que desenvolvem. No que diz respeito a esse trabalho que apresento, os professores são de extrema  importância na avaliação de que um processo de bullying encontra-se em  andamento em sua sala de aula, já que é um dos campos de maior ocorrência  do fenômeno, como demonstrou a pesquisa da ABRAPIA (2003, p.73), e,  percebido isso, devem ter a compreensão de que forma podem intervir.

O professor também é um importante exemplo para seus alunos porque a  aprendizagem não se dá somente por palavras, principalmente no que diz  respeito à formação de um sujeito pensante e civilizado. Quando esse  profissional pune atitudes diferentes, discrimina os alunos que têm notas baixas  ou não respeita os questionamentos, ele dá exemplos sutis de comportamentos  que se alinham ao modelo que serve de base para as agressões em sala de  aula. Quando ocorre uma situação de bullying, por exemplo, ele se encontra  numa situação delicada para atuar, já que seu discurso não é coerente com  seus movimentos.

O professor autoritário também não abre espaço para o livre pensamento dos  estudantes, fato que só assujeita os mesmos, transformando-os em meros  repetidores das escolhas de terceiros. Esse estilo também não busca a  equidade, formato em que o profissional da educação encontra as  potencialidades singulares possíveis de cada aluno, mas vai planificando e  igualando todos os componentes da sala, como se não fossem diferentes. O  professor humano, ao contrário, contextualiza a situação do adolescente que  tem a sua frente e, mesmo que este possua todas as características que  dificultam sua prática, se esforça para criar condições para sua educação.

Para isso, parece-me importante um preparo psicológico e emocional desses  profissionais para lidar com uma infinidade de demandas que aparecem em  sua prática. Talvez esse desenvolvimento não se esgote somente na discussão  de teorias, mas já é um começo. Esse equilíbrio é importante principalmente  quando um aluno o desafia ou tem um comportamento considerado um  obstáculo para o bom andamento escolar. Caso o profissional discuta com o  estudante significa que estão balizados em igualdade, mas esse  emparelhamento é num nível baixo.

Supõe-se que um aluno tenha menos preparo emocional para lidar com suas  questões que o professor, se este último “desce” ao nível do estudante na  relação que estabelecem, ele não ajuda o estudante em sua dificuldade  presente e na sua incapacidade de suportar algumas situações. O fato do  professor discutir ou brigar com seu aluno, emparelhando o nível dos dois,  demonstra que o agente educacional também tem uma incapacidade de lidar  com o que acontece. Diminuir o aluno nessas situações também remonta ao  assédio moral escolar e, novamente, o professor demonstra um caminho a ser  seguido que exclui o outro e, embora em seu discurso possa dizer outras  coisas, esse modo de proceder se constitui como relação Eu-Isso.

Da mesma maneira, que o professor pode fazer a balança pender para  relações destrutivas, também é importante personagem no processo inverso e  agir na construção da personalidade dos estudantes. Dessa forma, pode ser o agente emissor do elogio que qualifica, processo bastante importante em se  tratando de pessoas que iniciam seu crescimento. Na escola, à medida que as  séries se sucedem, o elogio substitui o carinho físico do início do processo de  desenvolvimento. Só que na estrutura que vemos atualmente, em sua maioria,  o elogio parte de uma única situação: alcance de notas altas. Para isso existem  cerimônias de entregas de certificados de qualidade aos alunos como não  ocorre para outras atividades, e nem para alguma evolução relativa de um  estudante, que respeitaria sua singularidade, indo no sentido contrário da  premiação só por uma nota absoluta e estipulada como boa pela instituição. O  campo de elogio escolar, tão importante na construção da autoestima e na  confirmação do adolescente, é, então, muito restrito e acessível a uma minoria.

Esse processo também pode ser desencadeador de bullying, já que muitos  alunos podem se ressentir de não conseguir alcançar a única premiação  importante da escola e, por não conseguirem relevância por outras atividades,  podem dar vazão a sua frustração mal-tratando os que atingem o grau  estipulado. Nesse caso específico, a principal agressão verbal é chamar o alvo  do tradicional adjetivo nerd, encarado num sentido pejorativo por quem é  atacado.

Com isso o professor se insurge como instância de poder principalmente pelo  respaldo que possui diante dessa separação de quem é bom e de quem é ruim  balizado pelas notas, processo que ocorre através das avaliações, as quais  não têm participação dos alunos. Nesse sentido, se instaura uma assimetria de  poder entre professor e aluno, com vantagem evidente para a primeira, fonte  de imobilização da parte mais fraca da relação, fazendo com que os estudantes  não tenham muito espaço para legislar sobre sua formação.

Nessa relação assimétrica de poder, os conflitos e discussões em sala de aula  servem, muitas vezes, para dar notícias exatamente da ocorrência dessa  desigualdade. Com tal assimetria clara para todos os envolvidos ao menos  ficaria mais fácil de manejar a situação com escolhas mais assertivas sobre  qual direção tomar. Freire (1997) coloca que isso se mostra interessante do  ponto de vista que o mais fraco da relação pode deixar claro que a outra parte  abusa de seu poder, em atos covardes que o deixa imobilizado. Trazer essa  dinâmica a tona torna as relações, no mínimo, mais autênticas e com boas  possibilidades da ocorrência de uma evolução por outros caminhos. Parece  óbvio que o detentor do poder temesse um debate desse tipo, pois existiria a  possibilidade de surgir um mal-estar difícil de lidar a partir dessa situação ou de  seu autoritarismo ser colocado em xeque. Há, portanto, um risco nessa  postura, já que não se sabe qual seria seu resultado para o dia a dia em sala  de aula.

É interessante notar que, assim como os pais em casa, o professor que tem  sua autoridade mais bem estruturada, tem maior confiança em abrir espaço  para a liberdade dos alunos. Enquanto a relação fica cristalizada na vontade do  professor de que os alunos sejam do jeito que ele imagina e os jovens tentando  encontrar uma brecha para reagir a essa situação a seu modo, ninguém  estabelece uma comunicação que produza crescimento. Se isso se transforma numa queda de braço, o professor, por uma via autoritária, pode entrar numa  disputa de quem pode mais com o estudante, algo que não favorece e, aí sim,  pode se perder em termos de autoridade. Perdido nesse caminho, o  profissional não colabora para o crescimento do aluno e desce ao nível de  desenvolvimento deste, o que o leva a impor sanções e tratá-los de forma  agressiva, novamente se aproximando da postura que se repete entre os  estudantes nos casos de bullying.

Para atuar nessa linha tênue entre obrigar os alunos a fazerem o que a escola  quer, e estes resolverem de forma unilateral sobre seu comportamento, o  professor precisa de autoconhecimento e de equilíbrio emocional. Se tal  estágio for alcançado pelo profissional facilitaria a aproximação dos dois em  sala de aula para que conseguissem uma postura dialógica de ensino, em que  existem duas pessoas se relacionando em condições de equidade. Com isso o  adolescente encontraria mais espaço para crescer, tendo condições de  perceber que é responsável por esse espaço e que ninguém irá lhe dizer tudo  que precisa fazer.

Nessa relação mais respeitosa o conhecimento encontra um campo fértil, já  que é algo que se constrói no entre, ao contrário da postura tradicional de que  um detentor do saber dá uma informação fechada para um receptor que  precisa absorver de qualquer maneira. Segundo Bicudo (2006, p. 90), a  produção de conhecimento pode ter outro suporte além desse:

“Manifesta-se, também, quando o professor se coloca à  

disposição dos alunos para auxiliá-los a crescer de modo  

realista; quando fica atento às expressões dos atos  

cognitivos, abrangendo seus aspectos lógicos, afetivos,  

os de expressão do percebido e articulado.”  

A passagem de informação no formato de introjeção não engloba a ideia de  que o receptor é um ser que tem alguns conteúdos já construídos antes desses  que recebe e que, para se abrir para os novos, deve haver alguma vontade  genuína de apreensão. Numa relação dialógica a introjeção não é o esquema  preferencial, trabalha-se mais com um debate do que propriamente com uma  concordância artificial. Como todos os outros apontamentos, não digo isso  excluindo a introjeção totalmente do processo de ensino, sob pena de somente  inverter o sentido da fixidez de conceitos. Levanto, sim, uma outra vertente do  que pode estar incluído também no processo educacional, algo que não parece  acontecer hoje.

Esse tipo de professor que dialoga se esmera tanto na relação que tem  disponibilidade para compreender o aluno em suas dificuldades e facilidades,  podendo valorizar, caso haja espaço na escola, uma potencialidade  diferenciada que tal sujeito, por ventura, tenha. Isso não significa expor suas  dificuldades na sala de aula, nem menosprezar o aluno, mas aponta para um  acolhimento da diferença e para construção de um organismo equilibrado e  saudável, já que existem outras formas de desenvolvimento na escola  alternativas as de sempre. As habilidades singulares aparecem nessa postura mais dialógica, já que o professor pode ouvir de que forma preferencial o  adolescente consegue render o melhor que puder.

A liberdade de diálogo funda uma forma de educar diferenciada que pode  promover a apreensão crítica de conhecimentos e desenvolver a  responsabilidade correlata ao espaço que é dado ao aluno diante do educador.  Essa postura é bastante fenomenológica e é descrita de forma exata por  Sanches (2005, p. 73): “quando queremos recuperar alguém, buscamos  conhecer a essência do seu problema e não adotamos modelos comuns para  casos incomuns”. Dessa forma, a escola pode contribuir para a segunda  chance do adolescente de estar em um processo de crescimento dentro de  parâmetros civlizados, que o coloquem em contato com formas mais solidárias  de existência. É importante lembrar que os pais, que, às vezes, faltam nesse  estilo de educação em casa, podem ser sensibilizados também pela instituição,  para que eles possam vislumbrar outras possibilidades para viver em  sociedade, diferente de formatos calcados na violência.

Quando isso não ocorre e encontramos um diagnostico efetivo de bullying tudo  deve ser feito com muito cuidado para o professor não se tornar, ele mesmo,  um repetidor de atitudes preconceituosas de exclusão. Então, na busca de uma  solução, não adiantaria somente identificar o aluno-problema para que sofra  sanções, algo que respeita a lógica da medicalização dos pacientes  identificados, em que se observa quem é o problema, quem está fora da  norma, para devolvê-lo, depois de tratado, aos parâmetros normais, ou excluí lo de vez. Christina Barros (2009), em edição do jornal do CRP-RJ, coloca que  a medicalização escolar, principalmente em casos de Transtornos de Déficit de  Atenção e Hiperatividade, se dá por uma tentativa dos professores reaverem o  controle de sua autoridade, perdido com as mudanças nas instituições  educacionais ao longo do tempo.

No mesmo artigo do jornal Fernanda Bortone (2009) complementa que o  diagnóstico escolar que classifica os alunos em agressivos, hiperativos,  retardados, desatentos ou lentos pode estar equivocado, pois esses mesmos  estudantes podem ser vistos em outros espaços em que essas características  não são aferidas. Essa avaliação mais cuidadosa, incluindo outras vivências do  sujeito analisado, é um formato que não naturaliza o sintoma e não aponta para  um comportamento que é daquele sujeito específico. De outra maneira,  autoridades escolares partem em busca de um culpado, o que exime a todos  os outros de uma avaliação mais responsável da participação que cada um tem  nessa estrutura, lembrando que a escola e seus funcionários estão incluídos no  cenário social atual que já descrevi, sendo, portanto, possíveis repetidores,  também, de um comportamento que é tornado real pelo aluno-agressor. Com o objetivo de produzir ideias acerca do tema, levantando a parcela de  responsabilidade de cada parte envolvida, podem ser feitos grupos  participativos, palestras informativas e a transformação dessa questão em tema  transversal na escola. Esse movimento é bem diferente, e mais produtivo, que  encontrar um culpado ou apontar a responsabilidade do outro, sem se apropriar  da parte que lhe cabe. Vejamos agora de que maneiras isso pode ser alcançado tendo como perspectiva o desenvolvimento integral do aluno, nos  valendo, para isso, de um olhar gestáltico.  

3.3 - A escola como campo de aprendizagem integrada: impasses e  possibilidades

Finalmente chegamos a discussão que se impõe sobre o tema que apresento.  O que a escola pode fazer quanto ao desenvolvimento emocional de seus  alunos, principalmente no que diz respeito ao trabalho com o bullying e sua  prevenção possível. Uma das saídas existentes para a questão encontra-se em  sua discussão teórica, mas também na intervenção escolar a partir de  profissionais que estejam capacitados para ouvir os estudantes sobre a forma  como vivem e o que os leva a cometer atos agressivos contra seus  companheiros de classe. Nesse ponto, me parece que a Gestalt-terapia tem  muito a contribuir oferecendo subsídios para que o profissional se encontre  presente nas relações que se estabelecem, ajudando na leitura do que ocorre  no interior dos muros escolares.

Então, em primeiro lugar, a proposta é que o trabalho com os participantes não  deve ir na direção de punir um culpado, ou ao menos não se bastar nisso, mas  propor uma reflexão em torno do tema em que se possa clarificar a situação e  para que possuam dados que deixem em suas mãos um caminho saudável a  

seguir. Isso se verifica especialmente nas pesquisas de Fante (2005), quando  houve uma queda nos casos de bullying depois de sua intervenção chamando  todos a uma reflexão. Portanto, as atitudes da escola numa situação de  assédio não deve se basear somente em punição do autor, já que, desse  modo, a instituição não promove reflexão e repete o estilo de comportamento  que se quer extinguir, perpetuando o sistema e excluindo o autor. Com isso  precisamos pensar no papel da escola contemporânea frente aos desafios pós modernos e como se apropria do tema da educação. Dessa maneira a Gestalt terapia contribui dando subsídios para a escuta do sujeito e para o trabalho em  grupo, analisando a situação como um campo que se estabelece e propicia o  aparecimento do bullying, levando em consideração as forças que estão  atuando nessas relações.

A reflexão kantiana a respeito disso, como citado por Antunes e Zuin (2008, p.  10), fala da busca por uma educação para emancipação do sujeito para que  este possa utilizar sua razão para a convivência cidadã em espaços públicos e  privados, se configurando no que Kant chamou de “indivíduo esclarecido”. A  proposta é exatamente fazer o sujeito se implicar em suas escolhas, algo que  pode ser conseguido através da educação, produzindo indivíduos esclarecidos  e não repetidores de um modo de ser. Quando estamos inseridos em uma  sociedade que se destaca pelos comportamentos agressivos e violentos, o  estudante, que vive dentro desse sistema, pode reproduzir esse estilo. Nesse  ponto, a educação se insurge contra a barbárie, promovendo a conscientização  de que o caminho pode ser escolhido e não imposto por um modelo de  funcionamento.

Claro que esse movimento é um pensamento a ser construído, reduzir uma  discussão fértil ao campo educacional apenas à repetição de meros chavões  como “Violência gera violência”, sem uma reflexão sobre seu significado, torna  estéril um possível ato produtivo. Por isso que a entrada de especialistas nesse  circuito não garante sucesso no aparecimento de sujeitos pensantes e ativos,  visto que podem repetir o processo de chegar com direcionamentos de  pensamento prontos e unilaterais que não contam com a participação dos  envolvidos na questão. Isso faz com que os envolvidos nas questões escolares  deixem de contribuir para responder a questão do papel da escola atual frente  às demandas pós-modernas, algo que tento discutir aqui. Novamente aqui se  faz presente a escuta cuidadosa do que as partes têm a dizer sobre  determinada situação a partir de sua ótica, diferente da postura do  especialista, que, muitas vezes, se coloca numa posição de saber superior em  relação aos que vivenciam tal experiência.

E em caso de recusa de acolhimento para um caso de assédio moral escolar, o  profissional da educação não contribui para um cuidado com a individualidade  dos estudantes, nem com o que podem oferecer enquanto potencial de vida.  Isso precisa ocorrer para que chamas de vida não sejam apagadas ou fiquem  limitadas por muito tempo, inutilizando o potencial subjetivo do indivíduo. Nesse  momento escolar é importante um espaço para o autoconhecimento, para que  saibam e descubram o que podem produzir, principalmente porque nessa idade  temos todas as questões relativas ao início do processo de identificação  adolescente. O autoconhecimento promove escolhas mais acertadas para o  indivíduo produzindo mais sabedoria organísmica e com isso, um  desenvolvimento consciente e, possivelmente, mais equilibrado.

Bicudo (2006, p. 89) até chega a propor esse mecanismo como uma das  avaliações do aluno na escola, através do método de autoavaliação que  classifica como função da capacidade organísmica de valorização. O aluno,  assim, teria uma de suas notas a partir de uma avaliação que faz de seu  próprio desempenho na escola. Isso faz com que ele participe e se  responsabilize por uma parte de seu processo educativo na escola,  demonstrando qual o valor que ele estipula para o seu desempenho.

Da mesma maneira, esse caminho do autoconhecimento pode ser proposto  pelas autoridades escolares na tentativa de equacionar os casos de bullying  identificados, privilegiando um espaço para que os envolvidos reflitam em suas  posições nessa relação para que possam ocupar outras diferentes das de  agressor e agredido. Essa filosofia centra a questão nos sujeitos sim, mas não  abandona de forma alguma o trabalho na relação estabelecida, como ressalta  Bicudo (2006, p. 102), novamente: “a pessoa é como um ser que está no mundo-com-os-outros, de maneira histórica e culturalmente situada”.

Dessa forma a tese de que a escola precisa formar cidadãos acima de  qualquer currículo formal se faz presente, mesmo porque a formação teórica  somente, não garante que seres sociais sejam capazes de desenvolverem  relações saudáveis. Então, se o aparelho educacional se esmera no  movimento de formação teórica, este pode se tornar inútil, já que com uma sociedade em que o individualismo impera e relações agressivas predominam,  o caos pode chegar a tal nível que ninguém, por mais bagagem teórica que  possua, consiga viver bem nessa sociedade. Para a intervenção no espaço  escolar em situações de bullying, Lopes Neto e Saavedra (2003) citam que não  existem soluções simples. Por ser um fenômeno complexo e variável, cada  escola precisa de um programa próprio, baseado em seu contexto, que deve  ser realizado contando com a colaboração de todos para o projeto.

Nesse tipo de sistema o ambiente escolar ganha muito em riqueza com o  trabalho a partir das diferenças individuais. O que cada aluno é capaz e suas  dificuldades pessoais são bons ingredientes para um processo educacional  produtivo. Por esse motivo os processos de avaliação devem ser plurais para  encampar da multiplicidade de situações que podem ser possíveis para os  alunos. O que ocorre hoje é uma estrutura que privilegia as notas de matérias  formais somente, nesse âmbito não há espaço para o desenvolvimento  emocional nas atividades escolares. A predominância desse tipo de avaliação  faz com que o movimento também seja excluído do processo educacional.  Basta lembrar na forma principal de ministrar aula que temos hoje, todos  calados e sem se mover muito para não atrapalhar a atuação do professor.  Especificamente sobre essa tentativa de controle motor, impõe-se uma questão  até mais séria relativa à grande quantidade de diagnóstico médico e seu  tratamento medicamentoso correlato de Transtornos de Déficit de Atenção e  Hiperatividade.

Os alunos que não se enquadram no sistema escolar estão sujeitos a sanções  que até extrapolam tal espaço, sofrendo uma intervenção médica para que  entrem no ritmo esperado pela escola. Esse movimento não parte da inclusão  das necessidades do indivíduo e propõe uma solução que vem de fora para  dentro. Como coloca Almeida (1999), o professor não aproveita nem os  movimentos nem as emoções para algo produtivo, ignorando que a afetividade  está ligada intimamente ao conhecimento e aprendizagem. O déficit para  aprendizagem do transtorno citado pode não ser, então, de ordem racional,  mas de fundo emocional, que desorganizado, não promove espaço para a  apreensão de conhecimento.

Esse padrão médico respeita o modelo vigente de diagnosticar quem está  “errado” para consertá-lo ou excluí-lo, repetindo o comportamento social  preferencial que temos hoje. Como já foi dito, a escola está inserida no meio  social e sofre suas influências, o que não significa dizer que seja o único  segmento responsável por esse modelo. Diversos aparelhos sociais participam  dessa montagem, mas a escola se torna importante porque é protagonista de  um possível processo de mudança social. Seria interessante, então, que fosse  a fonte de transformação da sociedade através da produção de cidadãos para  esse cenário, não sendo reprodutora de personagens e de métodos de ensino  que compartilhem do que vemos atualmente.

“Cabe à ação pedagógica criar oportunidades para que os  

alunos compreendam o mundo, compreendam o outro,  

compreendam a si mesmos, reconheçam a diversidade humana e encontrem a melhor maneira de participar e de  

ser feliz. Não se trata, porém, de uma nova disciplina  

curricular, mas de estratégias educativas que ofereçam  

oportunidades de escolha, de participação para conhecer  

e pertencer e para se reconhecer como sujeito de direitos,  

deveres e talentos.” (CHALITA, 2008, p. 239)

Um dos objetivos da escola poderia ser se empenhar num mundo melhor e por  ser parte de um cenário complexo, ir para além de seus muros e se  responsabilizar por sua capacidade de produção social. Se somos  responsáveis pelo que acontece ao todo, de forma holística, como propõe Lima  (2008), podemos fazer algo todo dia para mudar essa dinâmica, observando o  que está ao nosso alcance. Se somos fonte do que pode acontecer de ruim, o  outro lado da mesma moeda é sermos fonte do que pode acontecer de bom. A  instituição de ensino tem acesso ao processo de formação de muitas pessoas  que serão os componentes futuros da sociedade, portanto, é base estratégica  para essa construção. Se ao contrário disso, não se empenha em compreender  uma situação de assédio moral escolar e nem acolhe seus participantes,  contribui para a manutenção do estado agressivo social.

O papel da educação rende bons frutos quando colabora, então, para a  emancipação de seus alunos, principalmente de pensamento. Esse processo  promove saúde nas relações sociais, sobretudo se envolver também outros  campos, como o emocional, no trabalho com os alunos. Em casos de bullying o  menosprezo pela queixa do alvo pode provocar uma desesperança e  insegurança tão grandes que seu dia a dia no colégio pode ser fonte de  sofrimento intenso, provocando enfermidades psíquicas e até doenças físicas.  Lembrando que, de forma e intensidades diferentes, o autor da agressão  também sofre com o processo.

A educação pode ser um espaço fundamental para os adolescentes virem a se  tornar o que querem, fazendo atualizações e afirmações de cunho cognitivo,  emocional, sensorial e social. Esse estilo educativo humano abre espaço para  que o indivíduo se sinta capaz de escolher o caminho que lhe for mais  conveniente, sem balizamentos artificiais como notas e outros estilos de  avaliação objetificantes. Quanto mais aware de seu processo de crescimento e  de respeito pelo seu próprio espaço, mais provável será ele reconhecer essa  potencialidade equitativa no outro e, por conseguinte, respeitar também seu  espaço na convivência e não estabelecer relações agressivas, como o bullying.  O espaço escolar é tão importante para essa formação que, em situações  terapêuticas, Aguiar (2005), o coloca como parceiro fundamental do trabalho  para melhorar a autorregulação da criança, ou como é o caso deste trabalho,  do adolescente. Dessa forma a educação busca ser um campo fértil para o  desenvolvimento coletivo, em que se tenha noção da existência e  necessidades do outro. Esse fato torna o processo educativo um importante  lugar de compromisso social contra o individualismo exagerado, estilo de  convivência Eu-Isso que cria brechas para o surgimento de relações  agressivas.

Já vimos o quanto é importante a confirmação de um Eu para a existência de  um Tu, dependemos do outro para existir e o espaço para que isso aconteça é  o meio social. Na faixa etária enfocada nesse estudo - repetindo que se trata  de uma fase de confirmação da personalidade por excelência – é de absoluta  importância que esse campo possa ser fértil, nesse sentido, para os  adolescentes. Como coloca Lima (2008), o jovem precisa encontrar um meio  que tenha elementos necessários para o desenvolvimento de sua  personalidade em todo o seu potencial, fazendo da escola um lugar  fundamental para esse crescimento.

Se esse lugar se estrutura sob o predomínio de vontades unidirecionais, o  campo se torna estéril para o desenvolvimento de relações de confirmação em  nível Eu-Tu. A escola, através de seus funcionários, deve estar atenta para a  criação de espaços em que os adolescentes possam aproveitar seus potenciais  singulares, senão voltamos ao modelo de uniformização que propõe  exatamente o contrário: “Sejam da forma que queremos”.

Para tornar a escola um espaço fértil para o crescimento é de suma  importância que os agentes da educação nunca deixem de ouvir as  dificuldades e sofrimentos que surgem em seus espaços, principalmente dentro  da sala de aula, com seus problemas relacionais aluno-aluno, aluno-professor  e aluno-estrutura escolar. Esse contato, que abre espaço para a escuta do mal estar, coloca os alunos para refletir e deixa em suas mãos parte da resolução  de seus problemas, numa abordagem que se aproxima muito de uma atitude  gestáltica. Em um caso de bullying esse esquema é bastante importante para  que se discuta o que está ocorrendo para, na participação dos envolvidos,  chegar a uma solução viável para todos. Já o modelo que se baseia somente  em punição, construído sob a égide de vontades unidirecionais, não promove  esse tipo de solução.

O convite para os alunos pensarem sobre sua própria situação concorre para  um estilo de relação Eu-Tu entre estes e os educadores. Nessa proposta há  uma consideração importante sobre o que os alunos acham de sua situação  escolar, social e o que podem melhorar, obtendo deles o que conseguem  produzir naquele momento. A valorização desse material vai ao encontro de  uma confirmação existencial, já que dessa maneira os estudantes têm  possibilidades de se verem como pessoas que são importantes para o outro e  para o meio social ao qual pertencem.

É importante notar que o professor que internaliza esse discurso mais humano  e se interessa pelo que seus alunos têm a oferecer, e não no que ele quer que  estes produzam, lida com seus estudantes de forma diferenciada, mesmo que  a escola em que lecione não concorde ou simplesmente não tenha essa linha  

pedagógica. Mesmo que este professor respeite a linha do lugar onde trabalha  ele se diferencia exatamente no contato com os alunos, promovendo  interações mais ricas e não objetificantes. Isso é interessante porque ele pode  estar tentando algo diferente onde sua influência alcança e, sem grandes  embates com a instituição, promove um trabalho que acredita poder causar  ecos em outros espaços, multiplicando um estilo de contato Eu-Tu. Para mudar um todo maior, de forma holística, começamos por uma pequena parte que  pode sensibilizar uma estrutura maior.

Nesse estilo de funcionamento, a instituição respeita o artigo 214 da  Constituição Brasileira que versa a respeito disso:

“Art. 214. A lei estabelecerá o plano nacional de  

educação, de duração plurianual, visando à articulação e  

ao desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis e  

à integração das ações do Poder Público que conduzam  

à:

[.....]

V – promoção humanística, científica e tecnológica do  

País.”

Na lei fica claro, novamente, o que se pretende da educação brasileira e coloca  como um de seus itens, precisamente, a promoção humanística. Embora sem  referências do que venha a ser exatamente seu significado, através da lei  podemos fazer a leitura de que a intenção é ir em direção a uma sociedade  mais humana, tendo como base de estruturação a educação.

Possivelmente, o que falo aqui seria rebatido pela questão do tempo que os  alunos têm na escola, que ficaria difícil para dar conta de todas essas  demandas humanas e mais a passagem das matérias formais. Isso é verdade,  mas a proposta é rever essa divisão do tempo e a forma como isso é feito,  porque só se pensa que isso é impossível respeitando o modelo vigente de  organização escolar baseada em sistema de notas e preparação para o  vestibular. Se não dá para observar as duas em conjunto, precisamos discutir  como fazê-lo e não abandonar a ideia porque é muito difícil executá-la. Em  último caso, constatada a impossibilidade, só o fato de poder levantar a  necessidade já reposiciona os sujeitos quanto ao que a escola deve oferecer.  Nesse caminho o professor pode, até mesmo, ajudar o aluno a construir sua  identidade, o que colabora para que escolha seus próprios caminhos e fique  menos dependente de alguém que o guie, tornando-se pessoa e se realizando  como tal. Com o colégio regido por esse enfoque, fica mais fácil atuar em  situações de violência.

A forma dialógica de atuação que apresentada dá mais consistência para a  inclusão da diferença, de outra forma esta é tratada como Isso e fica alijada do  processo escolar, não contribuindo para que o corpo discente possa crescer  com seus aspectos diferenciados. O diálogo com os alunos para inclusão dos  que escapam da média precisa ser afetivo e ético para acolher o outro em toda  a sua alteridade, o que não se faz sem esforço e preparação emocional.  Segundo Freire (1997) é nesse diálogo que inclui diferença que o indivíduo  aprende e cresce no encontro de dois seres que se reconhecem como  inacabados surge uma relação de propósitos éticos.

Todo esse campo precisa estar muito bem equilibrado para que, numa situação  de bullying, um trabalho cuidadoso possa ser realizado. Um bom começo é aproveitar a energia mobilizada pelo alvo quando se queixa. O movimento só  surgirá da parte agredida, que tem seu sofrimento mais sentido, é dessa parte  que sairá a possibilidade de solução. O cuidado de não eliminar o autor da  agressão faz com que se prolongue o aprendizado diante da diferença. A percepção de que podem optar por outros estilos de relação, que não esse, é  importante, caso o contrário, a parte oprimida pode imaginar que sua única  saída é passar ao lado opressor, perpetuando esse esquema da mesma forma  que a escola quando só se baseia em métodos punitivos. Esse tipo de relação  só se extingue quando há um engajamento de todos os participantes do campo  relacional, desde os componentes da estrutura de assédio, passando pelas  testemunhas, chegando até as autoridades educacionais.

A abordagem principal desses atos participativos, como propõe Fante (2005), é  discutir sobre o ocorrido, ou aproveitar o tema de forma transversal nas  atividades escolares, como, por exemplo, propor uma redação que fale sobre o  assunto ou um texto que traga contribuições mais indiretas. As discussões são  calcadas na reflexão dos envolvidos nos acontecimentos, para que não se  torne uma palestra em formato vertical, algo que fazia os envolvidos em tais  atos introjetarem conceitos, ordens e proibições, diferente do objeto principal  que seria a escuta e investigação do que o sintoma aparente nos diz.  Informações são importantes, mas nesse momento acaba por se tornar mais  positivo fazer com que todos pensem e falem sobre seus pontos de vista,  desse modo há uma produção e digestão do que é possível para cada um,  tornando mais efetivo em termos de prevenção e até mesmo, de uma possível  punição, às vezes, também necessária. Sobre a reflexão, nos diz Freire (2005,  p. 59):

“Ao defendermos um permanente esforço de reflexão dos  

oprimidos sobre suas condições concretas, não estamos  

pretendendo um jogo divertido em nível puramente  

intelectual. Estamos convencidos, pelo contrário, de que a  

reflexão, se realmente reflexão, conduz à prática.”

Dessa maneira, o uso da liberdade por todos pode ser avaliado e relativizado  porque torna possível que as partes se apropriem de seus espaços sem  precisar invadir e causar danos no do outro. A partir disso podem surgir alguns  parâmetros para a liberdade, partindo de uma construção coletiva, já que esta  não traz orientações específicas e regras definidas de como aproveitá-la.  Quando se discute abertamente sobre isso em grupo, principalmente tendo  como cenário as relações sociais, os envolvidos na reflexão tomam posse,  conscientemente, dos meios disponíveis para uma convivência menos  individualista que produza menos confrontos e menos tensão na fronteira de  contato. Novamente o manejo gestáltico de grupos se encaixa bem aqui, com o  psicólogo criando condições para que essas trocas, que são difíceis, possam  ocorrer de maneira produtiva e não redundando em novas brigas.

A partir dessa abordagem é possível fazer todos perceberem que estão  submetidos ao mesmo problema, só que de formas diferentes. Portanto, se  temos uma sociedade que prima por relações violentas, em maior ou menor grau, podemos sofrer com esse estilo de vida. Então, torna-se interessante a  escola, compreendendo esse processo, abrir esse espaço de discussão  criando possibilidades para que os alunos possam se unir em prol de um  objetivo comum, diminuindo um comportamento violento como o bullying,  buscando uma convivência mais solidária.

Visto que a exclusão não é uma opção produtiva, acaba sendo compromisso  da escola ter que garantir o direto de desenvolvimento subjetivo pleno de todos  os seus alunos, produzindo indivíduos que podem contribuir para uma  sociedade com mais cidadania. Essas obrigações, que podem ser discutidas  em sua forma, estão documentadas como deveres no Estatuto da Criança e do  Adolescente (ECA), de 13 de julho de 1990. Nele estão descritos alguns itens  que têm relação com a forma de lidar com pessoas pertencentes à faixa etária  assolada pelo bullying a começar pelos seus três princípios destacados na  apresentação: Princípio da Cidadania, Princípio do Bem Comum e Princípio da  Condição Peculiar de Pessoa em Desenvolvimento, este último muito  interessante, indo ao encontro do que escrevo neste trabalho. Ele trata da  condição específica do jovem, percebendo ser um período de características  especiais que deve ter cuidados peculiares para seu pleno desenvolvimento. A  importância é notada nos artigos que estão destacados abaixo:

“Art 7° - A criança e o adolescente têm direito a proteção  

à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas  

sociais públicas que permitam o nascimento e o  

desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições  

dignas de existência.

Art 16º - O direito à liberdade compreende os seguintes  

aspectos:

 ...

 IV brincar, praticar esportes e divertir-se;

 ...  

 VIII buscar refúgio, auxilio e orientação.

Art 17° - O direito ao respeito consiste na inviolabilidade  

da integridade física, psíquica e moral da criança e do  

adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da  

identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças,  

dos espaços e objetos pessoais.

Art 18° - É dever de todos velar pela dignidade da criança  

e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer  

tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou  

constrangedor.”

Por esses artigos percebemos que está em lei a proteção do jovem, já que está  presente a preocupação com o desenvolvimento sadio, as condições de  existência, o espaço para atividades lúdicas e o direito ao refúgio. Ainda cita a  garantia da integridade física, psíquica e moral, preservando o indivíduo e por  fim, coloca que é dever de todos velarem por esses cuidados, portanto, a  escola está incluída. Através disso notamos o quanto uma situação de assédio  moral escolar não assistida pela escola fere esse estatuto. A instituição é obrigada, pelo menos tendo em vista o que diz o ECA, a intervir na situação,  trabalhando tanto com o alvo como com o autor para garantir o cumprimento  dos artigos do documento. Outro ponto importante é o destaque para as  atividades lúdicas, esportivas e a diversão como direito assegurado,  demonstrando que esse espaço, escasso em algumas escolas, deve existir.

O trabalho escolar, portanto, deve conter um cuidado em relação a um  desenvolvimento mais geral de seus alunos. O desenvolvimento se dá de  forma bastante importante pelo lado emocional e não só comportamental, como  vemos em algumas ações escolares sobre o assunto. Como coloca Almeida  (1999), citando Wallon, o campo emocional existe desde o nascimento, muito  antes do campo intelectual entrar em cena. Parece um contra-senso, então,  deixá-lo tão excluído do processo de crescimento escolar dos indivíduos.  Segundo Wallon7, a afetividade é o ponto de partida do sujeito e seus sentidos  iniciais são dados pela mãe. Com o crescimento intelectual da criança ela vai podendo aprender os próprios significados para o que sente, um processo que  parece atropelado pela escola, já que os alunos não têm espaço para seus  dilemas emocionais.

Portanto, as emoções precisam do campo intelectual para serem trabalhadas,  assim como do corpo e outros. Então, seria estranho se o racional também não  dependesse da afetividade para seu funcionamento, ao menos em algum nível.  Enfatizo nesse ponto que tal dualidade se faz aqui para delinear e explicar  melhor o que defendo, principalmente porque é a forma que as instituições  escolares nos colocam a questão, mas, gestalticamente, entendemos que as  duas não funcionam separadamente como transcrevo aqui com objetivo  teórico. Com base nessa abordagem, percebemos o organismo como um todo  constituído de partes interligadas.

Por esse raciocínio fica claro que a proposta escolar de se interessar somente  pelo desenvolvimento intelectual dos estudantes é arriscada, já que, não se  observando o sujeito de forma integral, ignorando potencialidades de outros  campos, seu objetivo principal de formação fica comprometido. No que diz  respeito ao tema desse trabalho, é difícil investir só no campo intelectual com o  lado emocional abalado, como acontece em casos de bullying, e o resultado  ser positivo, corroborando a impossibilidade de isolar quaisquer aspectos do  sujeito.

Como coloca Almeida (1999), o desenvolvimento racional, de forma recíproca,  precisa de uma evolução afetiva para ocorrer. Vemos que a inteligência está  ligada às emoções, assim como a outros aspectos do sujeito, e que a evolução  precisa se dar em conjunto para um equilíbrio organísmico mais interessante,  que aproveite o que o aluno pode proporcionar de melhor. Esse equilíbrio se  torna importante porque, segundo Almeida (1999), um lado pode paralisar o  outro, algo facilmente observado quando alunos que possuem boas notas  começam a diminuir seu valor por uma separação dos pais ou por ser vítima de  agressões na escola, duas situações que desorganizam o campo emocional.

É interessante notar que a própria escola possui esses dados e correlaciona os  dois nesses momentos em que esse sintoma das notas aparece, agindo de  forma pontual na questão e, às vezes, com interesse único somente nas notas.  De forma constante, não é feito o trabalho na direção de um cuidado emocional  com os alunos, quando muito, o fazem ao perceberem exatamente a queda  nas notas, o que nos remete a importância grande que as avaliações objetivas  

7[Wallon (1993), apud Almeida (1999)]

possuem em tais instituições. A escola chega, portanto, atrasada ao tema do  desenvolvimento emocional de seus alunos, já que só se preocupam quando  algo já vai muito mal. Parece que só quando seu interesse focal, no caso, as  notas, é abalado a escola tende a se mover de forma mais ativa, depois que  algum problema já está instalado. O diagnóstico do sintoma não é uma prática  preventiva, esta se estabelece para a não ocorrência do sintoma, que é a  proposta a ser executada com relação ao bullying nas escolas, principalmente  pelos resultados positivos da pesquisa realizada por Fante (2005).

Esse trabalho chamado “Educar para a paz” produziu resultados muito  interessantes, comparando-se suas observações antes e depois de sua  intervenção. A autora do projeto o organizou da seguinte maneira: em primeiro  lugar descrevia as diversas situações de violência, depois passava a  investigação através da observação e aplicação de instrumentos técnicos.  Após isso divulgava os indicadores aferidos em material explicativo e, por fim,  montava fóruns para discutir os resultados. Num segundo momento partia para  a sensibilização do corpo escolar, do corpo discente e de seus familiares, com  movimentos de discussão, abertura de espaço para denúncias e campanhas  de solidariedade que excediam os muros escolares. No fim, um novo processo  de avaliação, parecido com o primeiro, era realizado para saber quais os  efeitos de seu programa na luta contra a violência escolar.

Seus resultados indicaram que, na medida em que as intervenções sobre o  tema iam sendo feitas, a ocorrência de bullying diminuiu. Mas não foi somente  isso, a ampliação de consciência na escola fez com que outros tipos de  indisciplina, como, por exemplo, a destruição do patrimônio escolar também  sofresse importante declínio estatístico, demonstrando que o aprendizado de  outras formas de relação, mais solidárias e mais ligadas a uma sabedoria  afetiva, incentiva os alunos a agirem de maneira cidadã.

Assumindo que a educação é o fundamento principal contra a violência, e esta  grassa em nossa sociedade atual, os professores devem estar preparados para  o acolhimento dessa demanda e, principalmente, estruturados emocionalmente  para receberem essa população sensibilizada pela agressão, cuidando dessa  parte do campo afetivo dos alunos. Para a instituição escolar a questão das  notas já seria uma boa justificativa para que se preocupassem em combater a  violência de forma preventiva através de atividades que desenvolvam os alunos  de maneira mais integral, já que pelas análises feitas, fica patente que um  crescimento cognitivo não é possível, por exemplo, com o aspecto emocional em desordem.

A abordagem gestáltica pode dar uma contribuição importante às instituições  escolares com sua compreensão de que o ser humano é um todo constituído de algumas dimensões e não só racional. Então, quando o estudante está  aprendendo conteúdos na escola não se encontra ali o funcionamento somente  de seu lado cognitivo, está presente nesse momento tudo que ele foi ou pode  ser, tudo que já passou, o que vive hoje e o que espera do futuro,  compreendido e sentido de todas as maneiras. Seria interessante, portanto,  que para um sujeito que se apresenta de forma integral, se apresente uma  educação que acolha e respeite o mesmo como um todo que é e não se separa  em partes menores.

A educação se constrói ligada também ao afeto e com um aprendizado que  também é emocional, além de cognitivo, só que em lugar disso o que mais  encontramos é a dificuldade de compreensão dessa sentença, colocando a  questão quase sempre de forma excludente, ou se tem um aprendizado de  

conteúdos formais ou se dá atenção às questões emocionais e existenciais.  Como bem ressalta Freire (1997, p. 49):

“É uma pena que o caráter socializante da escola, o que  

há de informal na experiência que se vive nela, de  

formação ou deformação, seja negligenciada. Fala-se  

quase exclusivamente do ensino dos conteúdos, ensino  

lamentavelmente quase sempre entendido como  

transferência do saber. Creio que uma das razões que  

explicam este descaso em torno do que ocorre no  

espaço-tempo da escola, que não seja a atividade  

ensinante, vem sendo uma compreensão estreita do que  

é educação e do que é aprender”

Quando a escola não consegue englobar todas as formas potencializa o  processo de exclusão. Uma pessoa que é tagarela, por exemplo, sofre com as  possíveis reprimendas, ou a frustração, a culpa por ser inadequada, na tentativa de exercer a vontade; e essas coisas diminuem mais ainda a  autoestima (Perls, Hefferline e Goodman, 1997, p. 99). O espaço para essa  característica não aparece e a situação é tratada como se o indivíduo fosse  novamente culpado de não se adaptar ao cotidiano escolar que prevê como  normalidade, o silêncio. A instituição acaba por excluir e, por consequência,  diminuir o aluno que não se enquadra.

Um trabalho de inclusão que dê espaço ao campo afetivo estudantil, além de  outros, gera consequências, visto que é o sujeito integro que vai ao meio  social, local onde se encenam, por exemplo, as emoções, como colocado por  Almeida (1999, p. 67), complementando ainda que a emoção precisa de  espectador, pois o outro é o ativador dos impulsos. Portanto, o campo  emocional é melhor desenvolvido nos espaços sociais. Outro efeito é que os  espaços abertos para discussão agregam novas ideias que põe em xeque o  modelo predominante de organização escolar, colocando-se em questão  certezas consagradas há muito tempo. Então, quando um fato novo surge, a  estrutura precisa se modificar para o novo paradigma, mesmo que este não  seja incorporado, o fato de pensar sobre ele para fazer uma avaliação coloca  em movimento uma mudança, mesmo que seja mínima.

Desses momentos é que podem surgir saídas interessantes contra as relações  agressivas na escola, tais como as citadas por Fante (2005): discussão do  bullying para não replicá-lo; levantar a percepção de que todos sofrem com  essa situação de assédio; deixar os alunos conscientes dessa escolha que  fazem; participação de todo o corpo escolar nas discussões, como os  inspetores, por exemplo, e outras medidas que podem contribuir para a  diminuição da violência escolar.

O que pretendi com essa parte do trabalho foi ensejar o que poderia ser feito a  respeito do papel da escola enquanto formadora de pessoas e de sua  responsabilidade como possível base modificadora da sociedade. Essas  funções são outorgadas às instituições de ensino pelas leis, mas, apenas isso,  não parece ter tido força suficiente para implementar tal formação. O único  alento é que, estando nos códigos legislativos, ao menos, aumentam as  chances de ser alvo de discussão sobre essa possível função.

A respeito disso ainda temos a Lei Municipal nº 5.089 de 2009, que estabelece  exatamente a obrigatoriedade de programas que previnam e combatam o  bullying nas escolas públicas da cidade do Rio de Janeiro. Mesmo sem seu  desenvolvimento teórico ou possíveis discussões, porque tive ciência da  mesma com o trabalho já concluído, acho válida a citação para o conhecimento  de mais uma lei que visa a melhoria das condições da educação, nesse caso,  falando diretamente sobre a violência tema desse trabalho. Esse documento se  encontra em anexo para consulta no fim do trabalho e dá uma boa ideia de  como o tema tem despertado preocupação nas diversas esferas sociais.

De qualquer maneira, se podemos discutir que tipo de formação a escola deve  oferecer, já não podemos fazer o mesmo com o bullying, já que é um fenômeno  que ocorre entre os muros da escola, limitando o desenvolvimento de alguns  de seus alunos. O combate, a prevenção e a compreensão do fenômeno  deveria acontecer estando em lei ou não. Esse processo deveria ser objeto de  interesse dessas instituições de ensino porque o sofrimento dos estudantes  que são alvo disso, na melhor das hipóteses, só prejudica seu rendimento  escolar e, na pior, agride de forma decisiva a construção da autoestima do  adolescente, fase importantíssima para este desenvolvimento, causando  efeitos deletérios que podem prejudicá-lo no prosseguimento de sua vida.

4 - A entrevista

4.1 - Discussão sobre as entrevistas realizadas com professores

No intuito de complementar o trabalho, foram colhidos depoimentos de três  professores que se formaram e dão aula no Rio de Janeiro. As entrevistas  foram feitas para que fossem levantados alguns dados de realidade a partir de  profissionais que vivem o dia a dia escolar. O procedimento usado com cada  participante é semelhante, as respostas parecidas serão tratadas de maneira  conjunta, salvo no caso de alguma discordância interessante. Nos momentos  em que é retirada uma frase ipsis litteris do que foi respondido, ou dito, será colocado entre aspas e com formato itálico. Logo após a apresentação das  respostas são interpostas algumas contribuições do texto teórico do trabalho  que tenha relação com a temática e se assim se fizer necessário.

As duas primeiras questões apresentaram repostas iguais para os três  entrevistados. Todos eles acham importante o desenvolvimento emocional dos  estudantes, mas nenhum deles recebeu esse tipo de orientação em suas  respectivas formações. Nesse processo, todos disseram que, enquanto alunos  da graduação, não dão importância para tais matérias e um deles teve  professores que valorizavam isso, enquanto que os outros dois entrevistados  não percebiam o mesmo empenho nos próprios mestres.  

Esse dado corrobora a observação na escola em que trabalhei de que o  desenvolvimento emocional não se apresenta como prioridade. O foco é maior  no esforço para os alunos aprenderem os conteúdos dados em sala, que  sempre são medidos por testes ou provas formais. Essas respostas  demonstram que os professores, em sua formação, também não são  sensibilizados para a questão, que acaba por se tornar menos importante  diante da ênfase ao ensino formal.  

Na questão seguinte os três julgaram que o preparo emocional do professor é  importante para a prática em sala de aula e só em uma das três universidades  isso não era abordado. Aqui nota-se que existe uma preocupação com o  preparo emocional dos professores, mas não há o mesmo movimento em  direção aos alunos, a questão parece restrita ao cuidado com a prática  pedagógica do professor e não se revela da mesma forma quanto ao corpo  discente. Esse modelo dá margem a algumas questões importantes, mas,  principalmente, esta: a formação do docente se concentra no desenvolvimento  dos alunos ou está mais focado nos professores? Porque chama atenção um  campo ser importante nas discussões universitárias para uma parte e não para  outra.

A diante, em duas questões relativas ao bullying, somente um dos três já sabia  do que se tratava, mas não obteve a informação em seus estudos na  faculdade. Os dois que não sabiam, não obtiveram nenhuma informação na  graduação e na licenciatura sobre isso e, tampouco, tiveram conhecimento por  outros meios, o que também chama atenção, já que, hoje, é um tema presente  na mídia.  

Outra vez podemos perceber o quanto a formação dos professores anda  atrasada em relação época em que vivemos. Os três professores entrevistados  têm uma média de idade baixa, em torno de 26 anos, portanto, não têm muito  tempo de formados, e não ouviram nada sobre esse assunto, que é uma  preocupação contemporânea. Como vimos ao longo do trabalho, os docentes  modernos - e aqui modernos não pelo tempo em que vivem, já que é o mesmo  dos alunos, mas em referência ao tipo de ensino que possuem na universidade  - são confrontados nas salas de aula com alunos pós-modernos, o que causa  muita dificuldade no contato e compreensão mútua. O desconhecimento do  bullying é só mais um exemplo dessa distância.

Na parte restrita às perguntas que somente seriam respondidas por quem tinha  informações sobre bullying, fato que só ocorreu com um entrevistado, havia  questões sobre a atuação prática numa situação reconhecida como tal. Essa  professora presenciou uma situação clássica de assédio moral escolar, pois um  aluno que chegou depois do ano letivo iniciado na escola, foi excluído pela  turma que já se conhecia há mais tempo, dificultando algo que já era  complicado para este estudante, porque não parecia ter muita habilidade de  socialização.  

Sua capacidade e disponibilidade em participar das aulas foi “mal interpretada” pelos colegas de classe e foi alvo de agressões até envolver-se numa briga,  em que ele e outro aluno foram suspensos. Nesse ponto não há informações  sobre outras medidas que possam ter sido tomadas pela escola além da  punição, repetindo o ciclo de que falo ao longo do trabalho. A situação chegou  a tal ponto que o alvo das agressões passava seus recreios sozinho na  biblioteca. Por fim, fizeram uma página de internet em um site de  relacionamento de cunho “ofensivo com o nome dele”.  

Esta professora disse que sua única atitude nessa situação foi passar o caso à diretora da escola para que esta tomasse alguma atitude. Colocou que sua  formação não ajudou para que pudesse intervir e, quando questionada sobre o  que poderia fazer, informou que “não está muito participativa nessas questões”.  Apesar de se sentir despreparada para atuar num cenário como esse,  concorda com a ideia de que é sim sua responsabilidade fazer isso. Vou me  deter um pouco mais na análise dessa resposta.

Nesse caso real de bullying, único a ser coletado nas entrevistas, fica patente a  dificuldade de atuação tanto da professora como da estrutura escolar. A  primeira vista já notamos a atitude da escola como uma repetição do ciclo de  agressividade. A punição como única saída, como vimos na teoria não ajuda  em nada o autor da violência e, na prática, como vemos nesse caso, ajuda  menos ainda o alvo, já que depois da atitude da escola só teve como saída o  isolamento total. Essa estratégia, muito comum para os alvos de bullying, serve  exatamente como última tentativa destes, já que ele não é protegido por  ninguém e não consegue isso sozinho, todos se tornam perigosos e, nesse  caso, a privação do contato para ele é o melhor a se fazer.

O autor também não recebe a atenção devida e, além de não ser convidado a  refletir, pode intensificar seus ataques por causa da punição que recebeu,  como parece o caso, tendo em vista a construção da página difamante no site  de relacionamento. Como colocado também, anteriormente, este é um exemplo  de intervenção estabanada por parte do colégio, já que aos olhos do alvo, ele é  punido duas vezes, uma na relação com os colegas e outra pela direção.  Nesse caso este se vê desamparado e, provavelmente, se sente injustiçado  com a ação da escola.

Também fica patente, nesse caso, a dificuldade da professora em lidar com a  questão e, embora concorde que é parte do seu trabalho, acaba se livrando da  urgência, passando o caso para outra instância. Nesse ponto parece também não haver cooperação entre os dois setores - corpo docente e direção - para  elaborar a questão. Com isso, o único movimento que resta é, realmente, a  punição. Como depois disso o alvo se isola, os problemas da escola quanto à  questão parecem resolvidos, já que não devem haver mais brigas. O que se  mostrou como sintoma de algo que vai mal, no caso a agressão ao alvo, foi  silenciado pelo isolamento deste e, por isso, o dia a dia escolar volta ao  “normal”.

Outro item importante para resolução do caso, como verificado na pesquisa de  Fante (2005), não é acessado pela escola. Como foi aferido por essa  pesquisadora, a participação dos pais na questão se torna muito importante,  principalmente porque influenciam decisivamente nas atitudes de seus filhos.  Como também foi colocado ao longo do trabalho a família é importante fonte de  referência para os jovens, então, sua participação numa situação de bullying é  fundamental para que possam tomar conhecimento de que seu filho é o autor  ou o alvo e para que possam discutir formas de lidar com a situação que se  apresenta.

Quanto à formação mais ampla do aluno e não só a passagem de conteúdos, a  instituição, nesse relato que trago aqui, falha clamorosamente. Nada é feito  para que as responsabilidades sejam elaboradas, o autor continua com seu  comportamento, o alvo acha que sua única saída para convivência é a  agressão e a escola não desenvolve seu lado de formar cidadãos e não meros reprodutores de disciplinas e comportamentos.

O último detalhe dessa questão, que tem relação com uma parte da discussão  teórica, é em relação ao diagnóstico. Pelo relato, a situação não foi identificada  como caso de bullying pela direção. Nesse caso, parece-me que poderia ajudar  tal rotulação, já que ao enquadrar a questão nesse tópico, a situação pode  ganhar um outro olhar por se tratar de um problema descrito com causas e  consequências bem delineadas. Dessa forma talvez a escola pudesse tomar  mais cuidado, visto que se trata de um problema reconhecido, fato que muitas  vezes impulsiona um envolvimento maior. Como dito antes, a rotulação pode  levar a um caminho positivo ou negativo, dependendo da forma como se  apropria disso. Nessa construção o diagnóstico talvez fosse positivo para a  resolução do caso, já que chamaria atenção de que não se trataria de  brincadeira.  

Na última questão, relativa a compreensão que os professores têm sobre o que  seja educação para eles, obtive respostas em três formatos que variavam na  ênfase dada em relação à formação humana e à aprendizagem formal. Um  deles falou somente em “desenvolver a capacidade crítica do aluno”, outro  mesclou um pouco dos dois aspectos falando em “transmissão de  conhecimentos (informação) e valores éticos e morais” e o terceiro que se  concentrou em dizer que a educação tem como objetivo “auxiliar o educando a  lidar com situações do dia a dia, bem como a viver em sociedade”.  

Os três consideraram esta a pergunta mais difícil, o que chamou atenção, já  que esta não pede teorias formais sobre educação, e sim o entendimento da questão aos olhos deles. Isso pode ser um indício do que os professores  passam em sua graduação, que parece não ter espaço para que pensem por  si, analisando criticamente as teorias, podendo, por fim, acabar tornando-se  meros repetidores do que lhes foi apresentado. Assim os professores somente  replicam modos de agir e conteúdos em sala de aula com os estudantes,  demonstrando dificuldade em dar opiniões autênticas, que, talvez, seja um  exercício pouco realizado na academia, o que acarreta na falta de incentivo  para que seus alunos o façam também.  

Em seus comentários informais foi unânime a reflexão de que há essa lacuna  em suas formações. Em dois casos a forma de falar sobre isso foi em tom de  pesar, porque sabem da necessidade disso e de acharem possível que fosse  um processo presente na universidade. Em pelo menos um caso, a professora  

chegou a essa constatação com uma dose de frustração ao classificar sua  formação como “inútil”.  

Todos ficaram interessados pelo tema e acharam importante as informações  sobre bullying e a discussão do papel do professor nessa situação. Um dos  entrevistados se queixou do despreparo para intervir numa situação assim e  ainda disse que, para ele, os episódios de assédio moral escolar diminuíram da  sua época de aluno para a atualidade como professor, outra informação  interessante, mas que mereceria uma dedicação maior para elucidá-la em  pesquisa, algo que não será feito nesse trabalho.

De posse dessas informações, percebe-se que a formação desses três  professores ouvidos oferece um modelo insuficiente para a prática do professor  em sala de aula. O contato com os alunos e o cuidado com seu  desenvolvimento mais amplo parece não ter um espaço relevante na  graduação e também na licenciatura, que é o trecho acadêmico mais ligado à  prática. Com isso, assuntos que dizem respeito a essas questões, como os  diagnósticos de Transtornos de Déficit de Atenção e Hiperatividade – que são  supervalorizados - ou bullying, não são discutidos durante o desenvolvimento  acadêmico.  

O cuidado com esse campo me parece importante porque os episódios de  bullying, ação de características agressivas, têm crescido na escola  contemporânea ao lado de outras ações de violência. Portanto, podemos  discutir em que medida a escola deve ser responsável por lidar com a questão,  mas não dá para negar que o contato com isso não é opcional. Esses  comportamentos vão acontecer no espaço escolar, assim como na dinâmica  social a qual está inserida, então, se o contato é irremediável, talvez seja mais  produtivo trabalhar com a questão a simplesmente tentar eliminá-la da escola,  com a punição ou exclusão dos alunos que personificam esse comportamento.  Usar o espaço escolar - contando com profissionais que sejam capacitados  para lidar com o campo emocional – para diluir os comportamentos violentos  através da discussão em grupo e prevenir seu aparecimento, primando pela  vivência escolar solidária, pode ser um bom começo para mudar um complexo  social maior, já que, melhorando a base, há uma oportunidade de uma  construção social melhor.

Considerações Finais. Ou seriam iniciais?

“A resposta é a desgraça da pergunta”8 

“O que enlouquece é a certeza, não a dúvida.

É do caos que nasce uma estrela”9 

Como tentei fazer permear por todo o trabalho, me interesso mais por fazê-lo  como veículo de novos pensamentos e encontros do que propriamente  estruturas em teorias fechadas em si ou no campo da Psicologia. Claro que a  teoria não é neutra, já apresenta alguns posicionamentos, inclusive os meus,  mas penso que não deveria se encerrar neles, o trabalho foi até onde teve  possibilidades, o que não significa que não pode se expandir para outras  discussões. A parte que me cabe aqui enquanto campo de conhecimento é o  da Psicologia e, dentro desta, a Gestalt-terapia, mas sei que o tema desse  trabalho tem outras interseções, que podem enriquecer e contribuir muito para  seu desenvolvimento.

Partindo dessa ideia de abertura proponho algumas considerações, que podem  ser apenas iniciais, e outras questões que podem fomentar novas discussões.  A guisa de conclusão, ao longo de todo processo teórico fica clara a avaliação  dos alunos como seres íntegros que trazem em sua constituição diversos  campos, incluindo o âmbito racional e emocional. Por essa lógica, uma pessoa  é constituída por esses dois campos, além de outros, que são  interdependentes e sua separação é meramente teórica. Portanto, o aluno para  se desenvolver, precisa de um equilíbrio entre tais instâncias sob pena de  ocorrerem perdas nesse trajeto pelo menosprezo de um dos campos.

Fica claro também que a escola contemporânea, em sua maioria, não está  atenta ao campo afetivo como está para o intelectual. Nesse sentido a escola  acaba se tornando um campo fértil para toda sorte de dificuldades relacionais,  que já observamos em nossa sociedade, resultando em situações de violência.  Com um quadro como esse não é estranho o surgimento do bullying e o  aumento de sua ocorrência.

É importante ter em mente os efeitos que foram levantados na pesquisa de  Fante (2005) para essa leitura final. O processo de abertura de espaços para  informação e conscientização do assédio moral escolar e o incentivo a atitudes  solidárias entre os alunos gerou uma melhora sensível no ambiente escolar,  registrando uma queda nos episódios de violência, o que nos leva a concluir  duas coisas: em primeiro lugar, mudanças são possíveis e, em segundo lugar,  que tais incentivos replicam melhoras de convivência, inverso do que parece  vigorar em nossa sociedade. Importante também destacar como o olhar  gestáltico se afina a essa proposta de trabalhar a questão como um campo de  relações, sem procurar culpados para futuras punições.

Outro ponto importante desse contexto de campo é o espaço para que os  participantes e agentes escolares como alunos, professores, inspetores, pais e  outros, possam estar aware de que vivência se tem e de qual se quer ter de  fato. Tratando todos que se envolvem na questão como potenciais  solucionadores, a partir do estilo relacional Eu-Tu, os envolvidos numa situação  de violência podem tomar o problema nas mãos, tornando sua resolução mais  fácil do que quando não a enxergavam.

Então, a proposta de prevenção dos casos de bullying se alinha ao trabalho de  Fante (2005). Parecem-me adequados os espaços de discussões em grupo  envolvendo toda a comunidade escolar. Esses encontros trazem uma potência  de resolução importante, já que a conscientização, por si só, pode trazer  mudanças importantes. Aqui o olhar gestáltico tem muito a contribuir, já que o  manejo de grupos é uma de suas possibilidades de atuação, se alinhando  exatamente ao formato que esses grupos teriam.  

O coordenador do grupo sob essa perspectiva teórica se posiciona somente  em cuidar para que o espaço de fala seja aberto e se mantenha, criando  

8[Blanchot, apud Outeiral (2005)]

9[Nietzsche, apud Outeiral (2005)]

possibilidades de posicionamentos de todos os envolvidos nos casos, suas  testemunhas e os profissionais que devem zelar para que casos de violência  não ocorram. A partir do encontro desses componentes diferentes podem  surgir novas construções, posicionamentos e soluções, sempre com o objetivo  de criação de um espaço escolar mais saudável. Seguindo esse caminho não  só cuidamos dos envolvidos nos atos agressivos como prevenimos o  aparecimento do bullying nas escolas, lembrando que cada escola tem uma  estrutura e, por isso, precisa de uma solução diferente para cada caso,  devemos estar atentos ao limite de cada profissional para lidar com o  fenômeno.

No caso dos professores, temos que avaliar quais são as possibilidades e  limites de atuação, sem abrir mão de que esta é imprescindível, como pudemos  observar nos depoimentos dos professores ouvidos para esse trabalho. Assim  como corroboram os estudos teóricos feitos e a pesquisa da ABRAPIA que  constatou que a maioria dos casos de bullying ocorre dentro da sala de aula,  local administrado principalmente pelos professores. Torna-se importante que  esse profissional esteja interado e preparado para a intervenção nesses casos.  

Nesse ponto abrem-se algumas questões, até esse momento sem respostas  objetivas, para discussão e novas construções. São elas:

- O bullying é algo do nosso tempo, intensificado na nossa época ou sempre  existiu e só não tinha nome e pesquisas?

- O bullying é um diagnóstico diferencial ou é uma questão de preconceito que  tem outro nome?

- O professor tem condições, no que se refere ao tempo, de atuar em situações  de bullying?

- O professor deve ser preparado para lidar com o lado emocional de seus  alunos?

- Como fazer um diagnóstico correto dos casos?

- A escola possui em sua estrutura tempo e espaço para discussão dos casos e  prevenção do fenômeno?

- Se não possui tempo e espaço, é por que não é seu papel ou por se  estruturar de uma forma que os interesses são outros que não a formação de  cidadãos?

- Nessas situações, é preciso o apoio de outros profissionais à escola, como  psicólogos, por exemplo?

Entre outras interrogações, essas foram as que ficaram mais presentes. O  debate deve continuar e a psicologia deve ter muito a contribuir com essas  questões em conjunto com outras disciplinas. De qualquer forma, é importante  que se tome alguma atitude e que se formulem estratégias, porque o fato  incontestável é que existem muitos alunos sofrendo com o bullying. Isso faz  com que a escola, nos casos em que isso ocorre, passe de um lugar de  desenvolvimento e formação para um lugar temido e incapacitante, tanto no  aqui-agora da vivência da agressão, como no futuro, privando o adulto de se  desenvolver em todo o seu potencial.  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ANTUNES, D. C., ZUIN, A. A. S. Do bullying ao preconceito: os desafios da  barbárie à educação. São Carlos, SP: UFSC, Psicol. Soc., Abr 2008, vol.20,  no.1, p.33-41. ISSN 0102-7182.

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BICUDO, M.A.V. A FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO CENTRADA NO ALUNO In:  MARTINS, J; BICUDO, M.A.V. Estudos sobre Existencialismo,  Fenomenologia e Educação. São Paulo, SP: Centauro, 2006. p. 57-103.

BIRMAN, J. Arquivos do mal-estar e da resistência. Rio de Janeiro, RJ:  Civilização Brasileira, 2006.

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Revista IGT na Rede, v. 12, nº 22, 2015, p.111-195 DOI 10.5281/zenodo.15048606

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526