ARTIGO

Corpo, fala e expressão: diálogos entre a Gestalt-Terapia e a filosofia de  Merleau-Ponty

Body, speech and expression: dialogues between Gestalt therapy and  Merleau-Ponty

Mônica Botelho Alvim, Diego Visconti Araújo, Camilla Santos Baptista,  Felipe T.W. Barroso, Karina Marques Ferreira Queiroz, Thatiana Caputo  Domingues da Silva

RESUMO  

Buscando contribuir para a reflexão acerca do estatuto do corpo e da  expressão na clínica da Gestalt-terapia, este artigo busca um diálogo com a  fenomenologia de Merleau-Ponty. Esse diálogo se faz possível mediante a  base fenomenológica da Gestalt-terapia refletida na concepção de sujeito e de  sua relação com o mundo proposta pela abordagem. Em primeiro lugar discute se a temática do corpo e corporeidade na concepção do filósofo para em uma  segunda seção promover um diálogo com noções centrais da gestalt-terapia,  tais como awareness e contato. Por último, traçamos as linhas gerais da  concepção merleau-pontyana de fala como gesto corporal indicando  possibilidades de contribuições para futuras reflexões acerca do diálogo  terapêutico. A partir do que foi discutido, pode-se entender a importância da  relação entre corpo, fala e expressão na obra de Merleau-Ponty, assim como a  relevância da articulação do pensamento desse filósofo com a Gestalt-terapia.

Palavras chave: Fenomenologia; psicoterapia; awareness; corporeidade.

ABSTRACT

Seeking to contribute to the debate about the status of the body and expression  in Gestalt-therapy clinical approach, this article builds a dialogue with  phenomenology as proposed by Merleau-Ponty. This dialogue is made possible  through the phenomenological basis of Gestalt Therapy. Firstly we discuss the  theme of the body and embodiment in the philosopher proposals; a second  section aims to promote a dialogue with the central concepts of gestalt therapy,  such as awareness and contact. Finally, we trace the outlines of the philosopher  comprehension about speech as bodily gesture, indicating possibilities for its  future contributions to think the therapeutic dialogue. From what has been  discussed, one can understand the importance of the relationship between  body, speech and expression in the work of Merleau-Ponty, as well as the  relevance of joint this thinking with Gestalt therapy.

Keywords: Phenomenology; psychotherapy; awareness; embodiedness.

INTRODUÇÃO

Pretendemos neste artigo apresentar a noção de corpo, fala e expressão para  Merleau-Ponty, filósofo fenomenólogo francês, e buscar possíveis articulações  com a teoria e a prática clínica da Gestalt-terapia. Dessa forma,  apresentaremos alguns conceitos referidos pelo autor entendendo-os de forma  indissociável, na medida em que um remete ao outro, e articulando-os com  alguns conceitos fundamentais da Gestalt-terapia, tais como: awareness,  campo organismo/ambiente, fronteira de contato, contato, para discutir o  estatuto do corpo na psicoterapia.  

O pensamento de Merleau-Ponty e a abordagem da Gestalt-terapia  compartilham uma visão do ser humano que concebe o corpo como potência  expressiva e elemento central na compreensão do modo de ser do homem no  mundo. Ressaltam o caráter espontâneo da consciência-corpo e preconizam a  dimensão pré-reflexiva da experiência em relação ao conhecimento reflexivo.  

Ao longo desse artigo, portanto, entrelaçaremos a filosofia de Merleau-Ponty e  a Gestalt-terapia, apontando pontos em comum entre ambas. Apostamos  nessa articulação entre filosofia e psicoterapia porque acreditamos que essa  possível aproximação amplia a compreensão da noção de corpo na clínica,  enriquecendo o campo teórico e prático da Gestalt-terapia.

1- O corpo em Merleau-Ponty

Merleau-Ponty inicia sua obra a partir das propostas de Husserl e entende que  a consciência é corpórea e seus aspectos representativos ou mentais são  sempre a posteriori. Dessa forma, toda experiência é pautada primordialmente  na percepção, no sentido que se evidencia no corpo. “A consciência reflexiva  não é a forma canônica da consciência, nem sua única forma, nem a primeira.  Depende da consciência perceptiva, indiscernível de um corpo cognoscente.” (MERLEAU-PONTY 1946/1990).  

Trata-se de um corpo cognoscente, matriz da experiência, modo de ser no  mundo. É um corpo ao mesmo tempo visível e vidente, que sente e é sentido.  Esse corpo flui na temporalidade integrando a experiência vivida, sendo ele a  própria estrutura situacional da vivência. Toda experiência ou vivência  perceptiva é anterior à reflexão. Dessa forma, o conhecimento se dá a partir de  um corpo no mundo, de uma totalidade corporal cognoscente que está sempre  em contato com o mundo gerando o conhecimento a partir dessa unidade  relacional na qual o conhecimento se faz a partir da práxis.

É dessa forma que Merleau-Ponty destaca que o corpo tem um caráter vivido,  “é um campo de experiência” (ALVIM, 2007, p.42) e através de uma  experiência motora acessa o mundo. Ele fala em uma “praktognosia”, uma “capacidade corporal de realizar uma gnose se dá, então, a partir da práxis,  não envolve representações” (op.cit).

No livro intitulado “Fenomenologia da percepção”, Merleau-Ponty introduz o  conceito de corpo habitual, que partindo de sua motricidade, gera um  conhecimento. O corpo habitual aponta para o fundo de experiências já vividas,  mas que está em constante  

atualização no seu contato com o mundo. Este então é um corpo que carrega  um passado, um habitual que, no entanto, se reedita na situação presente. É  nesse sentido que Merleau-Ponty fala de corpo atual apenas na medida em  que esse sintetiza em si o corpo habitual e a situação presente. Diz, portanto,  de um corpo que além de se orientar por um sistema de posições atuais, é  dirigido por uma dada situação. A respeito disso MOUTINHO (2004) discorre:

“O "corpo atual", instalado no "presente vivo" e voltado para  

o mundo, para o porvir, arrasta atrás de si o sedimentado,  

que é o "corpo habitual", ambos, corpo habitual e corpo  

atual, passado e presente, engrenados e orientados,  

prospectivamente, para um pólo intencional. Daí o esforço  

de Merleau-Ponty em mostrar que esse sedimentado não é  

uma massa inerte no fundo de nossa consciência, que ele,  

ao contrário, se "alimenta secretamente" de meu presente,  

formando com este uma unidade (...).” (p.28).

A partir dessa concepção do referido autor, é possível fazermos uma  articulação com a ideia de contato da Gestalt-terapia, que de acordo com  Robine (2006), implica um conhecimento imediato e implícito do campo  (awareness) e um comportamento motor.  

Para a Gestalt-terapia a experiência ocorre na fronteira de contato organismo ambiente, sendo essa uma concepção que vai de encontro com as ideias de  Merleau-Ponty, na medida em que implica numa noção que se opõe ao  dualismo organismo e ambiente e concebe essas dimensões como elementos  de um mesmo campo que se comunicam na fronteira de contato, de onde  surgem as experiências. Chama-se contato o fenômeno que ocorre nesta  fronteira. A respeito disso, ROBINE (2006) fala:

“O contato é awareness do campo ou resposta motora  

nesse campo (Perls; Hefferline; Goodman, 1951,Il. 3). Se  

aceitarmos minha proposta de tradução de "awareness", a  

frase deles se transformará em: ‘O contato é conhecimento  

imediato e implícito do campo, ou resposta motora no  

campo' Awareness e comportamento motor são, portanto,  

ligados para constituir o contato” (p. 76).

O corpo tal como pensado por Merleau-Ponty é aquele que realiza uma síntese  na percepção, é a sede do encontro da pessoa com o mundo, “campo  perceptivo-prático, temporal, que dota a existência de um sentido de  possibilidade.” (ALVIM, 2007, p. 309).

Merleau-Ponty afirma que o corpo habitual tende a criar sentido, é instituinte e  também se atualiza na relação com o mundo. Dessa forma, mais do que se  habituar a meios diferentes o corpo institui novos meios. A partir da situação  em que se encontra ele se orienta rumo a suas significações, que ultrapassam  sua condição atual e caminha em direção a novos sentidos. É nesse contexto  que o filósofo define a noção de trabalho como esse conjunto de atos imbuídos  de sentido que transformam o meio e instituem uma nova forma, um novo sentido a partir da experiência. É a noção de trabalho que se refere à  possibilidade humana de conferir sentidos aos objetos e instrumentos de seu  meio cultural e histórico, bem como criá-los e recriá-los através de  reapropriações do próprio sentido do objeto, de novas estruturas.

“Enquanto um sistema físico se equilibra face às forças  

dadas do entorno e o organismo animal dispõe para si um  

meio estável correspondente aos a priori monótonos da  

necessidade e do instinto, o trabalho humano inaugura uma  terceira dialética pois projeta entre o homem e os estímulos  

físico-químicos, objetos de uso - o vestuário, a mesa, o  

jardim – objetos culturais- o livro, o instrumento de música,  

a linguagem – que constituem o meio próprio do homem e  

fazem emergir novos ciclos de comportamento.”  

(MERLEAU-PONTY, 1942/1975, p. 197-198).

O corpo expressa um significado através de gestos expressivos e integra na  experiência a significação histórica. Nessa perspectiva, não se pode mais  pensar em uma consciência como uma entidade separada, a consciência  existe como fenômeno corpóreo na medida em que toda experiência expressa  um sentido pré-reflexivo. Conseqüentemente, o corpo deixa de ser pensado  como um conjunto de experiências sensoriais e como efeito de atividades  exteriores ou interiores.

“Esse caráter eminentemente corpóreo da significação  

impede que se possa tomá-la como objeto puro de  

pensamento: é no sentido do comportamento que as  

significações das palavras sempre se encontrarão e é no  

acordo de nossas intenções práticas, isto é, no sentido do  

que fazemos, que se realiza a comunicação”. (FURLAN e  

BOCCHI, 2003, p. 445).

A corporeidade é experiência temporal, visto que o ato intencional implica uma  síntese temporal em que o corpo se move de uma situação atual para uma  situação possível, vislumbrada em um horizonte de possibilidades. Todo  movimento pressupõe um ato significativo em uma dada situação vivida pelo  sujeito através de uma perspectiva em relação ao mundo, em uma  possibilidade de ser, em movimento de ser algo que não está presente, mas  que se apresenta como possibilidade. Merleau-Ponty propõe a compreensão  desse fenômeno através da noção de um corpo que não tem como marca o “eu  

penso”, mas o “eu posso”. “A síntese que compõe os objetos percebidos não é  uma síntese intelectual, digamos com Husserl, que é uma ‘síntese de transição’  - antecipo o lado não-visto da lâmpada porque posso colocar a mão nela”.  (MERLEAU-PONTY, 1946/1990, p. 47).

Ou seja, é justamente em um campo de possibilidades que nos relacionamos  com o mundo, indo além de sua face visível para as possibilidades que são  significadas em ato. Ao dirigir-se ao mundo, o homem, em um mesmo ato,  traz à tona o seu passado e instaura uma possibilidade futura que é o seu  próprio movimento. O possível vislumbrado já é a própria ação, quando movo  meu braço para pegar um copo, minha ação é ao mesmo tempo uma  possibilidade e a realização da possibilidade já vislumbrada. A gesticulação é  condição desse corpo, ela é ininterrupta. Esse movimento de transcender o  presente através de uma síntese ocorre sem cessar, dessa maneira, o possível  é o tempo todo atualizado em ato.

Merleau-Ponty ultrapassa as concepções dualistas pensando o corpo como  unidade integradora do sentido humano. É nele que o sentido da experiência  se expressa, e a expressão para Merleau-Ponty se define justamente por esse  ato que institui concretude ou facticidade a uma virtualidade ou possibilidade,  todo ato se atualiza no mundo constituindo-se como fato perceptível e  acessível a uma intersubjetividade: “o ato de expressão constitui um mundo  lingüístico e um mundo cultural, ele faz voltar a cair no ser aquilo que tendia  para além.” (MERLEAU-PONTY, 1945/1994, p. 266).

Toda ação humana expressa um sentido, uma intenção imanente ao ato  expressivo em que o seu significado é o seu próprio movimento. Só é possível  compreender esse significado a partir de suas relações em uma situação  específica. O homem emerge no mundo e capta seu sentido, sua linguagem,  sua história, seus hábitos, e dentro desse meio do qual faz parte ele institui,  altera, mistura e transforma.

2 - Corporeidade e awareness  

Como discutido anteriormente, para Merleau-Ponty o corpo é concebido como  hábito e atualidade, isto é, possui um estilo próprio e a tendência a atualizar esse estilo de acordo com a situação realizando uma síntese temporal que ele  define como corporeidade.

O corpo expressa o sentido da experiência de forma pré-reflexiva. Assim, o  significado de um ato não surge antes, na forma de pensamento ou depois do  ato, na forma de re-flexão através do movimento de olhar para a experiência  que ocorreu, mas é construído no momento em que se expressa  corporalmente. Podemos afirmar de modo gestáltico que esse é o momento em  que o sujeito inventa, cria novas formas de expressão conforme o campo em  que se encontra porque para a Gestalt-terapia o sentido também é originário da  

experiência pré-reflexiva a qual Merleau-Ponty se refere como o momento do  nascimento do sentido.

Para a Gestalt-terapia nossa relação com o mundo é sempre corporal. Nessa  abordagem, assim como para Merleau-Ponty, o corpo também possui um lugar  importante visto que a expressão de sentido ocorre com o corpo e não  apartado dele, sendo a fala também uma gesticulação corporal.  

Além disso, a Gestalt estimula a espontaneidade da gesticulação, isto é, a  possibilidade de se expressar sem bloqueios no contato e aware das  necessidades emergentes do campo organismo-ambiente que ocorre mediante  a valorização da experiência pré-reflexiva na terapia.  

Pode-se pensar que na terapia, o objetivo de ampliar a capacidade de  awareness do paciente pode se relacionar à dimensão da corporeidade que  fala Merleau-Ponty, visto que a awareness envolve a capacidade da pessoa se  perceber no campo estabelecendo uma forma de relação com o mundo que  tem a ver com o seu corpo habitual e atual na síntese temporal que realiza.

A noção de awareness da Gestalt-terapia não se refere a um conhecimento  reflexivo sobre um problema, mas um conhecimento imediato e implícito do  campo. Segundo Robine (2006, p.79), a awareness funciona no modo médio,  nem ativo nem passivo em relação ao campo. Merleau-Ponty aponta nesse  mesmo sentido quando fala da ambiguidade do ser, entendendo este como ao  mesmo tempo vidente e visível, como o agente e o paciente. Um exemplo do  modo médio é o artista que quando pinta seus quadros está aware do que faz,  mas não é “deliberadamente calculista”. Awareness não é uma vigilância  constante sobre o que está acontecendo, isso seria adoecimento porque  direcionaria a energia da pessoa para um estado de vigilância, impossibilitando  a espontaneidade e abertura para novas experiências. Mas também não é uma  pura passividade em que o organismo se deixa levar completamente pelo  ambiente.

Awareness pode ser entendida a partir de três dimensões: sentir, excitamento e  formação de gestalten. A dimensão do sentir se refere ao momento pré reflexivo da experiência em que a pessoa sente um estranhamento sem saber  nomeá-lo; na dimensão do excitamento a pessoa se deixa excitar por alguma  figura emergente que se destaca do fundo mobilizando energia; já na dimensão  da formação de gestalten ocorre a integração da figura com o fundo com  possibilidade de percepção da necessidade dominante que emergiu como  figura. Um exemplo é quando a pessoa sente sede. Inicialmente a pessoa  sente um estranhamento na dimensão do sentir que logo faz o corpo se  mobilizar na dimensão do excitamento e surgir a sensação de sede como figura  no campo em que se encontra.

Essa concepção da Gestalt-terapia de awareness se relaciona a noção de  Merleau-Ponty de anterioridade da percepção em relação à reflexão. A ideia de  

Merleau-Ponty de que a atividade perceptiva é anterior à atividade reflexiva  porque a percepção é a modalidade original da consciência também está  presente na Gestalt-terapia que ressalta a importância de não sobrepor a  reflexão à percepção. A atitude terapêutica é de abertura para a experiência,  uma atitude admirativa e que busca awareness.

Além disso, a Gestalt-terapia entende que é a partir do corpo que ocorre o  contato, isto é, a experiência com aquilo que é diferente, novo, estranho para a  pessoa. Ele é o fundo a partir do qual a excitação do campo emerge. Nesse  sentido, é possível articular com a concepção de Merleau-Ponty de que os  significados da experiência só podem ser entendidos a partir da expressão  corporal.  

A Gestalt-terapia dirige a atenção não somente ao conteúdo do que o paciente  fala na terapia, mas à forma como fala. E quando as repetições de padrões,  bloqueios e rigidez tornam-se figura surge um campo fértil de trabalho na  terapia. Isso porque essa abordagem se debruça mais sobre como o cliente  está falando, gesticulando e agindo do que sobre o que o cliente está falando.  Isto quer dizer que se utilizam critérios estéticos na terapia, que oferecem a  direção de qual a melhor forma de interação, seja através de uma pergunta, um  trabalho corporal ou até mesmo o que é chamado de “experimentos”. Assim, a  terapia caminha na direção da possibilidade de o cliente se olhar e se ver  repetindo padrões, apresentando-se rígido, para poder recuperar sua  espontaneidade através da awareness, ou seja, do conhecimento da forma  com que se relaciona no campo mediante as necessidades do mesmo.

Assim, o trabalho de ampliação da capacidade de awareness realizado na  terapia visa tornar o paciente aware de suas fixações, tensões, gestalten fixadas, possibilitando a fluidez do processo da consciência por meio da  corporeidade e com isso a abertura do seu campo de possibilidades e de criação (ALVIM, 2007 p. 279-280). É importante apontar que o ato de estar  aware é sempre aqui e agora, num presente que envolve dimensão de passado  e futuro (YONTEF, 1998). Segundo Alvim (2007) a awareness pode ocorrer  pela experimentação que é “uma oportunidade de realização de uma ação que,  em curso, pode ser vivida e experimentada, fazendo brotar um sentido de self a  partir da awareness de si próprio no campo”.

Na situação terapêutica,  

“O terapeuta conta com a awareness de si próprio para  

lidar com o paciente, de acordo com a situação, dando a  

ele a oportunidade de exercer suas agressões (ou o que  

quer que seja) em circunstâncias reais e enfrentar uma  

reação normal sem que o teto desabe. Assim, aquilo que é  

não-consciente pode surgir em primeiro plano de modo que  

sua estrutura possa ser experienciada. Ajudamos o  

paciente a ver como ele censura, retrai-se, com quais  

músculos, imagens, recursos. Quando ele se percebe  

reprimindo ativamente, ele mesmo pode começar a relaxar  

a repressão” (PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN,  

1951/1997, p. 62).

Essa ampliação da capacidade de awareness que ocorre na terapia possibilita  “alcançar um determinado nível na técnica de awareness de si próprio que o  paciente possa continuar sem ajuda” (PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN,  1951/1997, p. 61).

Quando a terapia propõe uma ampliação da awareness tem como objetivo uma  reintegração da totalidade através da superação de divisões como  mente/corpo, eu/mundo e do resgate a espontaneidade da ação. “Assim,  através da experiência, sendo um corpo, um corpo-presença, recuperar a  inteireza e a confiança básica, a fé na capacidade de lidar com a diferença, a  ambigüidade, o invisível, o desconhecido.” ALVIM (2007, p. 312).  

Assim como a Gestalt-terapia, o pensamento de Merleau-Ponty foge aos  dualismos que separam mente e corpo, sujeito e o mundo propondo conceitos  integradores dessas dimensões da nossa existência no mundo. Um dos  conceitos do autor que ilustra bem essa tentativa integradora é a noção de  carne que poderia ser entendida, de forma breve, como o fundo sócio-histórico cultural do qual todos emergimos e através do qual nos relacionamos.

3 - Fala como gesticulação corporal

Merleau-Ponty propõe que o corpo integra homem e mundo, é o ponto de onde  partem todas as manifestações do ser. Dessa forma, a fala é considerada um  gesto corporal dotado de sentido que é compreendido pelo outro, possibilitando  a relação do sujeito com o mundo e sendo, portanto, considerada prerrogativa  da unidade corpo-mente-mundo. A fala emerge como gesto do corpo que está  em relação de sentido com o mundo. Assim, para compreender a linguagem é  necessário entender o gesto que é considerado seu movimento expressivo  originário (FURLAN e BOCCHI, 2003).

A fala é vista como uma das formas de uso do corpo, que não depende de  representações, já que não tem uma relação de exterioridade com o  pensamento, não é tradução do mesmo, mas ambos estão interligados. Assim,  a fala é pensada enquanto expressão, dando existência à significação. “O  pensamento não é exterior à expressão, tampouco ele existe antes que ela se  concretize, seja em palavra, gestos, sons ou cores” (FURLAN e BOCCHI, 2003  p. 449).

Habitualmente temos a impressão de que o pensamento existe antes da fala  porque nos lembramos de pensamentos já construídos, falas prontas. Mas se  procurarmos compreender o surgimento da fala, sua expressão original, fica  

mais evidente que a fala surge enquanto gesto na espontaneidade de  expressão. Ainda que esteja construída com base em um fundo de falas  instituídas, se constrói de forma singular naquela situação.

Como menciona Merleau-Ponty (1945/1994 p. 248), “a denominação dos  objetos não vem depois do reconhecimento, ela é o próprio reconhecimento” e  “os sons não são apenas os signos das sonatas, mas ela está ali através deles,  ela irrompe neles.”. Assim, a significação da fala não é conceitual, ela advém  do gesto realizado pelo corpo.

Na perspectiva empirista a fala era vista ou como efeito de relações neuronais fisiológicas e de associações de linguagem. Na perspectiva intelectualista,  como efeito de categorizações e representações do pensamento; nessa  segunda orientação ela era pensada como invólucro vazio, portador das  elaborações de uma atividade intelectual. Em nenhuma das perspectivas a  palavra portava significação. Merleau-Ponty vai romper com essa tradição, afirmando a fala como portadora de sentido. A fala evoca através de cada  palavra um campo de possibilidades (de ação) (virtualidades) que emergem de  minhas situações vividas, tanto quanto um gesto que uso em meu cotidiano é a  expressão de uma possibilidade que para mim se abre.  

Quando pronuncio a frase “vou pegar o copo”, essas palavras que me vem à  boca são como o próprio gesto de pegar o copo. Ambos existem em ato, eles  se realizam no próprio fazer.

“Reporto-me à palavra assim como minha mão se dirige  

para o lugar de meu corpo picado por um inseto; a palavra  

é um certo lugar de meu mundo lingüístico, ela faz parte de  

meu equipamento, só tenho um meio de representá-la para  

mim, é pronunciá-la, assim como o artista só tem um meio  

de representar-se a obra na qual trabalha: é preciso que  

ele a faça.” (MERLEAU-PONTY, 1945/1994, p.246).

A fala é a tomada de posição do sujeito no mundo das significações. Ela pode  ser singular, instituinte de uma novidade e então denominada fala falante ou  pode ser uma fala já instituída no mundo que possibilita a comunicação social,  isto é, fala falada. Dito de outra forma, a fala falante/autêntica, ou também  chamada de fala primária, consiste numa linguagem em estado nascente,  como um ato criativo; e a fala falada ou secundária se refere a uma linguagem  sedimentada, constituída por significações banais, correntes e pelas demais  formas embasadas em conceitos já naturalizados. Nesse sentido, a fala  instituída não exige esforço de expressão nem de compreensão por parte do  ouvinte porque já é conhecida.  

“A fala autêntica é o pensamento em ato: não existe um  

pensamento precedente, do qual ela seria a tradução. O  

que existe antes dela não é o pensamento e sim a  

gestação de uma intenção significativa. Na fala autêntica o  

pensamento está se fazendo no ato de falar e não apenas  

se traduzindo externamente.”. (AMATUZZI, 1989).

A partir da citação acima se pode compreender que a fala falante ocorre na  dimensão pré-reflexiva, acontece em ato e se expressa enquanto gesto  corporal. Não há uma representação que é falada como uma tradução, mas  uma fala que se faz presente em situação e que aponta para um sentido. Essa  fala é a produção de um sentido e pode ser entendida como uma espécie de  registro corporal da situação que se apresenta. Dessa forma, palavra e fala,  para Merleau-Ponty (1945/1994), precisam deixar de ser uma maneira de  designar um pensamento ou objeto tornando-se assim, a presença desse  pensamento no mundo sensível, seu emblema, seu corpo e não sua  vestimenta.

Assim, ao pensar na produção de sentidos, lidamos com a possibilidade  momentânea de um vazio de significado. Esse vazio nos permite possibilidades  de instauração de novos sentidos e nos abre para a experiência, para o aqui e  agora. É um vazio fértil que possibilita a criação, o novo. “Antes da expressão  há apenas uma ausência determinada que o gesto ou a linguagem procura  preencher e completar” (FURLAN e BOCCHI, 2003).

Na relação entre fala falada e fala falante percebe-se a dimensão sócio histórica do ser humano que adota algumas falas instituídas no mundo ao  mesmo tempo em que é capaz de instituir e significá-lo. Dito de outra forma, a  fala aparece de um fundo cultural instituído que também pode ser modificado  pelo sujeito quando se apropria das significações disponíveis e a partir delas  recria, reinventa novos sentidos. “A fala falante é o ato cultural ou a cultura  fazendo-se; a fala falada é o produto cultural que, no entanto, serve também de  rampa de lançamento para novos atos culturais. A fala secundária é útil e dá  continuidade. A fala original cria. Uma depende da outra.” (AMATUZZI, 1989).

Portanto, entende-se que não existe fala instituinte sem um fundo do qual ela  se destaca. O mundo percebido não é um objeto puro de pensamento, mas um  estilo universal convencionado por aqueles que o percebem e que não pode  ser tomado como acabado.

Num diálogo, o entendimento da fala de alguém não ocorre como mera  assimilação do que está sendo dito, mas implica em transformação. A fala é  entendida pelo outro da mesma forma como ocorre com a compreensão de um  gesto na medida em que “através do meu corpo posso torná-la minha”  (FURLAN e BOCCHI, 2003, p. 449) porque faz parte do campo de  possibilidades.

“Os gestos, portanto, não são oferecidos deliberadamente  

ao espectador como uma coisa a ser assimilada; eles são  

retomados por um ato de compreensão, cujo fundamento  

nos remete à situação em que os sujeitos da comunicação

eu e o outro- estão mutuamente envolvidos em uma  

relação de troca de intenções e gestos” (FURLAN e  

BOCCHI, 2003, p. 449).

Dessa forma, diz-se que o comportamento tem uma conotação intersubjetiva  visto que vemos “no outro um reflexo de minhas próprias possibilidades,  intenções que podem fazer parte de minha própria conduta” (op.cit). Isso  porque o corpo tem a capacidade de apreender o sentido de outra conduta.

Segundo Merleau-Ponty (1945/1994, p. 257-258), “a fala é a única, entre todas  as operações expressivas, capaz de sedimentar-se e de constituir um saber  intersubjetivo”. Essa característica intersubjetiva da fala pode ser percebida na  medida em que o direcionamento da fala a outra pessoa ou a orientação da  compreensão de quem fala é mediada pela capacidade de antecipação e  transgressão da fala que faz com que ela transmita mais dos signos linguísticos (MERLEAU-PONTY 1945/1994). Isso porque a existência de sons e de  palavras escritas segundo o significado de um dicionário não é suficiente para  a produção de sentido. Podemos ter um exemplo disso quando lemos um livro e, apesar de estarmos familiarizados com certos termos, estranhamos a sua  linguagem e demoramos um tempo para compreendê-la porque está sendo  usada de forma diferente, transmitindo um sentido novo (MERLEAU-PONTY  1945/1994).

O outro a quem dirigimos nossa fala é um outro eu mesmo mas isso não  significa dizer que o outro é eu. O outro é visto por mim como objeto dentre  outros que permeiam meu mundo, mas quando ele se movimenta, exibe gestos  para o mundo, percebo que nós compartilhamos o mesmo mundo, ou seja, o  mundo ao qual ele se dirige é o mesmo que eu percebo. O outro é um eu  generalizado e por isso não coincide comigo. Essa noção de compartilhamento  de um mundo em comum pode ser entendida como intercorporeidade, tal como aponta Merleau-Ponty (1969/2002, p. 171): “Há uma universalidade do sentir- e  é sobre ela que repousa nossa identificação, a generalização do meu corpo, a  percepção do outro”.

Segundo o autor, nós vivemos em relação carnal com o mundo e com o outro,  o pensamento é fundado no sujeito encarnado, essa é nossa forma de inserção  primeira no mundo. Nossa relação com o mundo torna possível uma situação  comum e a percepção de um outro nós mesmos, que enfrenta dificuldades na  interação com o mundo, que se expressa e constrói novos sentidos. O outro é  percebido como  

diferente de mim quando ele me surpreende e emprega um estilo de se  expressar que é misterioso aos outros.

De acordo com Merleau-Ponty (1969/2002) a fala que se utiliza de  significações disponíveis no mundo estabelece uma situação comum, uma  

comunidade do fazer. Assim, a fala do outro afeta nossas significações na  medida em que pertencemos a mesma língua e cultura. E o uso da língua  fornece uma comunidade do ser, é o que caracteriza o ser humano. Isso  porque a sedimentação da cultura dá aos gestos e a fala um fundo em comum  que a significação ultrapassa. Nos comunicamos porque todos possuem a  capacidade de fala, de deixar-se conduzir pelo discurso a uma nova  significação.  

A fala se estabelece na relação entre o falante e o ouvinte. É importante  destacar que não se é ativo apenas quando se fala e passivo quando se é ouvinte, mas precedo a fala do outro enquanto ouvinte e precedo a minha fala  enquanto pronuncio algo.

Tais considerações podem ser tomadas para uma reflexão sobre o diálogo  terapêutico, assunto que ultrapassa o escopo desse trabalho. Entretanto,  destacamos aqui um ponto comum entre a concepção de fala em Merleau-

Ponty e a fala na Gestalt-terapia que é a característica de expressão criativa da  fala falante. Uma fala falante interessa à Gestalt-terapia na medida em que essa busca privilegiar a experiência pré-reflexiva e evitar uma fixação em  significados e conceitos já formados que constituem uma fala falada ou em  significados construídos posteriormente à experiência no momento reflexivo.  Nesse sentido, pode-se dizer que a Gestalt-terapia estimula a fala falante do  paciente, isto é, a sua capacidade criativa de expressão sem bloqueios fixados,  buscando o sentido que emerge da experiência e evitando a reprodução do  que já foi dito e que tende a distanciar o cliente da singularidade da experiência aqui-agora.

Conclusão

Esse estudo é uma pesquisa teórica desenvolvida no âmbito do grupo de  estudos e pesquisas "Fenomenologia e Gestalt-terapia", cujos resultados visam  contribuir para as discussões sobre a expressão e o corpo na terapia e para o  desenvolvimento teórico da abordagem da Gestalt-terapia. Consideramos esta  uma reflexão fundamental, pois é com o corpo que o homem atua, se expressa  e inter-relaciona com o mundo. Por meio de uma revisão bibliográfica de  algumas obras do filósofo Merleau-Ponty e da literatura da Gestalt-terapia - uma abordagem de base fenomenológica - descobrimos pontos de encontro  que nos trazem um olhar sobre o corpo na psicoterapia.  

Para Merleau-Ponty, o corpo é matriz da experiência que une corpo-mente mundo na medida em que o corpo, a mente e o mundo não se relacionam de  forma dualista, mas compõem um campo de onde emergem todas as  experiências e seus sentidos. Para o referido autor, a fala é concebida como  gesticulação corporal, uma expressão de sentido eminentemente corporal que  não representa um pensamento porque não está em relação dualista com a  mente, ao contrário, a expressão da fala ocorre no mesmo momento da  construção de sentido, portanto, a fala enquanto expressão é corporal.  

A partir da compreensão de Merleau-Ponty de que a fala é gesticulação  corporal podemos nos aproximar da proposta gestáltica no contexto da  psicoterapia de refletir sobre como esse homem fala: uma fala espontânea,  com awareness, ou seja, conectada com o campo e com a situação, produtora  de sentidos e instituinte? Ou  

uma fala bloqueada, fixada em uma forma rígida, repetitiva? Quando esse  último fenômeno ocorre no processo terapêutico, o terapeuta auxilia o cliente  no sentido de que ele se dê conta do bloqueio na expressão espontânea, isto  é, perceba a fixação numa determinada forma de se expressar. Assim, o  terapeuta visa que o cliente recobre a fluidez, reintegrando o bloqueio que se  configura como uma dimensão apartada de si para que sua consciência possa  ser um continuum criador, como propõe Alvim (2007, p.10), quando fala de "uma consciência que é um corpo dirigido para uma situação presente". Nesse  sentido, a Gestalt-Terapia busca uma fala falante, produtora de sentidos e  instituinte.

Merleau-Ponty entrelaça esses conceitos, em geral tratados de forma dualista  pelo pensamento intelectualista ou empirista, como compondo um mesmo  campo de existência do modo de ser do homem no mundo, contribuindo,  portanto, para uma visão holística do ser humano em sua complexidade que  interessa ao estudo tanto da filosofia como da psicologia e, em especial, da  Gestalt-terapia, na medida em que possibilita um diálogo enriquecedor para  sua teoria e prática.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

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Endereço para correspondência:

Mônica Botelho Alvim, Diego Visconti Araújo, Camilla Santos Baptista, Felipe  T.W. Barroso, Karina Marques Ferreira Queiroz, Thatiana Caputo Domingues  da Silva

E –mail: mbalvim@gmail.com/ divisconti@gmail.com/  

baptista.camilla@gmail.com/ felipetwb@hotmail.com/  

karinamfq@yahoo.com.br/ thati_caputo@hotmail.com

Recebido em:24/11/2012

Aprovado em:20/12/2012

Revista IGT na Rede, v. 9, nº 17, 2012, p.171-186 DOI 10.5281/zenodo.15042666

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526