ARTIGO

Gestalt-Terapia e Síndrome do Pânico: uma relação Gestalt Therapy and Panic Disorder: a relationship

Ana Maya Szuchmacher El Mann

RESUMO

Neste trabalho investigamos a Gestalt-Terapia como uma abordagem  consistente para atendimento às pessoas que sofrem ou sofreram com a  Síndrome do Pânico. Com este intuito, buscamos definir conceitos  fundamentais da Gestalt-Terapia que contribuem para o trabalho com este  público. Discorremos também sobre contribuição do processo terapêutico na  melhora apresentada e nas transformações biopsicossociais, que influenciam  positivamente a vida do indivíduo como um todo. A partir deste estudo e da  observação de casos clínicos desenvolvemos o presente trabalho. Ao final,  com a consecução desta monografia, verificamos ser a terapia de base  gestáltica eficiente para o acompanhamento de pessoas que sofrem da  Síndrome do Pânico.  

Palavras-chave: Síndrome do Pânico; Gestalt-Terapia; Contato,  Sintoma;Terapia.

ABSTRACT

In this paper we investigate the Gestalt-Therapy as a consistent approach to caring for people who suffered or have suffered from Panic Disorder. Because  of this, I seek to define the fundamental concepts of Gestalt-Therapy that  contribute to work with this audience. We broach about the contribution of the  therapeutic process and the improvement observed in the biopsychosocial changes that positively influence the life of the individual as a whole. From this study and observation of clinical cases we develop the present work. In the end, with the achievement of this monograph, we find the basis of Gestalt-Therapy,  to be a tool of great importance for the monitoring of  

 people suffering from Panic Disorder.

Keywords: Panic Disorder; Gestalt-Therapy, Contact, Symptom, Therapy

INTRODUÇÃO

O desejo pelo tema “Gestalt-Terapia e Síndrome do Pânico: uma relação” foi  suscitado a partir do interesse pela abordagem supracitada combinado com  os primeiros contatos com indivíduos que vivenciam o quadro. Este encontro  se deu na segunda etapa do curso de especialização, realizada no Instituto  de Gestalt-Terapia e Atendimento Familiar (IGT) onde, iniciamos o  atendimento de clientes da clínica social. Dentre estes, um, era participante  do grupo terapêutico e a outra, foi atendida individualmente.

Durante as supervisões, eram frequentes as discussões sobre nossa  atuação. Daí, surgiram os seguintes questionamentos: “O que fazer, quando  nos são relatadas as chamadas ‘crises de pânico’?”; “Qual o olhar da Gestalt Terapia?”; “Qual será o papel do gestalt-terapeuta junto ao seu cliente?”. E, a  partir dessas questões, o desejo pelo tema foi aumentado, culminando na  realização deste trabalho.

Ao estudar sobre o assunto, verificamos a existência de poucos artigos da  Gestalt-Terapia abordando este tema e alguns trabalhos publicados com o  embasamento da Teoria Cognitivo Comportamental, o que nos provocou o  seguinte questionamento: Percebemos que a Gestalt-Terapia é adequada e  

eficaz no acompanhamento destes indivíduos, por que, então, poucos  escritos foram encontrados?  

Como intuito de averiguar melhor esta questão, procuramos desenvolver um  trabalho cujo objetivo é ampliar o conhecimento sobre a Síndrome do Pânico,  estudar os conceitos da Gestat-Terapia mais importantes no que se refere à compreensão do quadro supracitado e investigar a Gestalt-Terapia como  uma abordagem consistente para o atendimento às pessoas que sofrem ou  sofreram desta síndrome.

Para elaboração deste trabalho utilizamos dois caminhos complementares. O  primeiro foi um levantamento da bibliografia produzida sobre o tema, Gestalt Terapia e Síndrome do Pânico. Encontramos livros, artigos e pesquisas e  percebemos que a grande maioria da bibliografia encontrada trata do tema  em separado. Este fator nos chamou muito a atenção, reforçando ainda mais  o desejo de publicar a eficácia da utilização da Gestalt-Terapia em casos de  Síndrome do Pânico.

O segundo caminho foi a observação, a discussão e a supervisão de casos  clínicos que acompanhamos ao longo do curso de especialização. Os  mesmos foram utilizados no desenvolvimento deste trabalho monográfico.  

A partir destes questionamentos a monografia foi organizada em três  capítulos, além da introdução e conclusão.

No primeiro capítulo procuramos delinear o quadro da Síndrome do Pânico,  onde são descritos de forma concisa seus sintomas e suas características  clínicas e emocionais.  

Em seguida, optamos por discorrer sobre a Gestalt-Terapia e os principais  conceitos desta abordagem, selecionados por nós, como fundamentais para  o acompanhamento de pessoas que sofrem de Pânico. Seguem alguns  destes: teoria de campo, contato e sintoma.

No terceiro, trabalharemos a importância do tratamento terapêutico durante  a vivência deste quadro e com o intuito de enriquecer o trabalho, utilizaremos  alguns fragmentos de casos clínicos. E ainda, de forma ilustrativa,  pretendemos relacionar a teoria com a prática.  

Esta monografia, não visa esgotar o tema, mas ampliar o olhar do psicólogo  através da abertura de novas possibilidades de contato e trabalho com  pessoas que sofrem da, tão famosa, Síndrome do Pânico.

1. A SÍNDROME DO PÂNICO

O tema do medo está na ordem do dia. Com a globalização, percebemos, de  forma rápida e com riqueza de detalhes, informações veiculadas sobre o  assunto na atualidade. Diversas matérias de jornais e revistas, internet, TV,  são alguns meios de comunicação que o abordam em suas várias  dimensões. Estes fatos podem ser verificados, em diversas datas e em  vários jornais, como por exemplo no jornal O Globo, dia 30 de julho de 2009  no qual uma das notícias da capa era: “ Tráfico leva ambulância do estado”; e  no interior do jornal, página 15: “Ladrões usam granada em assalto a  creperia”.  

É importante esclarecer, que a Síndrome do Pânico não está presente  apenas nas populações de grandes cidades, verificamos a sua ocorrência também em cidades de pequeno porte. Silva (2006, pag 45) relata este fato  de maneira bem objetiva: “Um dado sobre o pânico, que contraria o senso  comum, é o fato de ele ocorrer em igual frequência tanto nos grandes centros  urbanos quanto em regiões agrícolas (campo)”.

Observamos que o medo é um tema que atravessa o cotidiano e marca de  forma cada vez mais palpável a vida coletiva e individual, o que leva à  modificação de comportamentos sociais e hábitos mentais. Neste cenário de  medos, stress e pressão constante, tem sido grande o número de pessoas  que batem à nossa porta com a tão famosa Síndrome do Pânico.  

Não importa qual a classe social, pessoas que sofrem desta síndrome vão  aos consultórios e clínicas, frequentemente com a sensação de que estavam  prestes a morrer ou de ter um ataque cardíaco e saem de lá sem que, muitas  vezes, alguém seja capaz de lhes esclarecer qual a verdadeira origem de  seus males. Geralmente, estas pessoas passam por uma série de consultas  e exames, vão ao cardiologista, neurologista ou outro especialista,  culminando muitas vezes na emergência dos hospitais (por exemplo, Maria[1] que antes de chegar à terapia, buscou diversos outros atendimentos). Em  uma análise realizada pelo cardiologista Savioli (2007), junto a um serviço de  emergência cardiológica, verificou-se que, de 1364 pacientes que chegaram  com queixa de dor no peito e com absoluta certeza de que infartavam, 30%  tinham a Síndrome do Pânico. Assim, percebemos que muitos percorrem  caminhos equivocados na busca de superação do quadro, logo, um mau  diagnóstico pode levar essas pessoas a conviver com enormes desconfortos,  que acabam se estendendo à toda a sua família.  

 O próprio Savioli (2007, p. 20) menciona:

Muitos doentes chegam a meu consultório queixando-se

de dor no peito, palpitações, formigamentos, tonturas e  

sintomas que não têm nenhuma relação com problemas  

cardiológicos. São pessoas cujo sistema cardiovascular é  

normal...

Por esta razão, seguiremos este capítulo com o intuito de informar ao leitor  maiores detalhes sobre esta síndrome[2], através de sua definição e exposição  de seus principais sinais e sintomas.

1.1 Definição: características e sintomas do quadro

Em termos do surgimento da Síndrome do Pânico como entidade nosológica,  Rodrigues (2006) informa que em 1980 o Distúrbio de Pânico foi reconhecido  oficialmente como categoria diagnóstica, com a publicação da terceira edição  do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação  

Psiquiátrica Americana (DSM[3]III). A Síndrome do Pânico ou Transtorno do    Pânico é definido por SILVA (2004) como um quadro clínico em que ocorrem  os chamados ataques de pânico inesperados e recorrentes, que aparecem  subitamente sem nenhuma causa aparente. O indivíduo sente uma súbita  sensação de intensa apreensão, medo ou terror, comumente associada a  sentimentos de desastre e/ou fim iminente. O ataque de pânico está  associado a uma grande variedade de sensações físicas perturbadoras,  descritas abaixo. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos  Mentais, 4ª Edição - DSM IV - o ataque de pânico caracteriza-se por:

Um período distinto de intenso temor ou desconforto,  

acompanhado por pelo menos quatro de treze sintomas  

somáticos ou cognitivos. O ataque tem um início súbito e  

aumenta rapidamente, atingindo um pico (em geral em  

dez minutos mais ou menos), sendo com freqüência  

acompanhado por um sentimento de perigo ou catástrofe  

iminente e um anseio por escapar. Os treze sintomas  

somáticos ou cognitivos são: palpitações ou taquicardia,  

sudorese, tremores ou abalos, sensações de falta de ar  

ou sufocamento, sensações de asfixia, dor ou desconforto  torácico, náusea ou desconforto abdominal, tontura ou  

vertigem, desrealização (sensações de irrealidade) ou  

despersonalização (estar distanciado de si mesmo), medo  de morrer, parestesias (anestesia ou sensações de  

formigamento) e calafrios ou ondas de calor. (DSM IV,  

2002, p. 420)

Segundo os pacientes, uma crise de pânico dura vários minutos e é uma das  situações mais angustiantes que podem ocorrer a alguém. Além disso, os  indivíduos com Pânico apresentam também sentimentos de ansiedade e  apreensão quanto à sua saúde, levando-os a prever resultados catastróficos  a partir de sintomas leves ou efeitos colaterais de medicamentos.

Ainda com base no DSM IV (2002), o ataque de pânico é divido em três  tipos, de acordo com o início do ataque e a presença ou ausência de  ativadores situacionais externos ou internos:

∙ Os inesperados ou não evocados - são aqueles cujo início não é  associado pelo indivíduo a fator externo ou interno algum;

∙ Os ligados a situações ou evocados – são aqueles cujo início se dá  devido à exposição ou antecipação de situações ativadoras, estímulos  externos ou internos (estimulação fisiológica). Por exemplo, Maria[4] ao  entrar no metrô ou a imaginar o elevador parando, muitas vezes  desencadeava uma crise;

∙ E, os predispostos por situações – são similares ao anterior, porém não  estão somente relacionados à situação evocadora ou não ocorrem  imediatamente após a exposição. Logo, são aqueles mais propensos a  ocorrer em determinada situação, mas não invariavelmente associados  à mesma (por exemplo, no momento em que Maria entrava no metrô  lotado o comum era o início imediato da crise, conforme citado no 2° tipo  de ataque, porém há casos em que a pessoa só tem o ataque de pânico  após 40 minutos viajando no metrô).

A síndrome do Pânico pode ou não ser acompanhada de agorafobia - o  temor de se encontrar sozinho em lugares públicos sem uma saída rápida de  fácil acesso, caso surja um ataque de pânico. Assim, configura-se como o  medo de ter medo.  

SILVA (2004, p.3) descreve o mecanismo da síndrome do pânico da seguinte  forma:

A crise de pânico se dá a partir do entrelaçamento de  

pensamentos e sentimentos. À medida que a pessoa  

tem a primeira crise e aprende que pode ter uma vivência  

tão sofrida, ela começa a ter medo de ter as crises. Ela  

passa a ter medo de ter medo. Com isso surge uma  

espécie de reação em cadeia. Uma espécie de espiral  

viciosa na qual a pessoa passa a identificar  

praticamente qualquer sensação interna como indício do  

.início de uma crise. A capacidade de pensar termina  

sendo usada, pelo indivíduo para tirar sua própria  

segurança, ao invés de possibilitar a busca de suporte.  

A pessoa por estar com medo, vai criando um filme de  

terror na própria cabeça, imaginando os possíveis  

desdobramentos do que está sentindo. As fantasias mais  

comuns são de morte ou loucura eminentes. A  

insegurança em relação ao instante seguinte é  

assustadora e quanto mais aterrorizantes são as cenas  

imaginadas, maiores as alterações fisiológicas  

resultantes. Quanto maiores as alterações fisiológicas,  

mais nítida é a confirmação da presença da crise, maior o  

pavor, maiores os motivos para fantasias sobre o que  

pode acontecer no instante seguinte, e assim  

sucessivamente.  

Ao vivenciar uma 1ª crise, dirigindo, no metrô ou em outro ambiente  qualquer, a pessoa sente-se fragilizada e pode desenvolver medos de que as  sensações desagradáveis se repitam. Desta forma evitam locais e/ou  circunstâncias que crêem provocar novas crises, limitando-se cada vez mais.  Aos poucos o nível de ansiedade e o medo de uma nova crise atingem proporções tais, que a pessoa com o transtorno do pânico pode se tornar  incapaz de dirigir ou mesmo sair de casa. Este movimento foi observado em  um de nossos pacientes do grupo terapêutico, em que o mesmo era incapaz  de subir de elevador sozinho. Logo, permanecia na portaria do prédio  aguardando a chegada de alguém para acompanhá-lo.

Em Não entre em Pânico!, Savioli (2007, p.43) ilustra este movimento com  mais alguns exemplos:

Tenho um paciente que sofreu uma crise de pânico  

enquanto dirigia sua caminhonete. Por muito tempo  

deixou o veículo na garagem, usando outro carro, pois  

associou aquele automóvel à crise. Outros deixam de  

passar por locais onde tiveram crises, deixam de usar  

cores vermelhas por relacioná-las à crise e outras  

situações que, racionalmente, sabem não estarem ligadas  às crises, mas por via das dúvidas (...)

Logo, notamos que uma das maiores consequências do pânico é a  modificação da rotina de vida que, em alguns momentos o indivíduo em  sofrimento precisa fazer em detrimento de sua atividade profissional ou vida  pessoal, o que possibilita o aparecimento de transtornos familiares.

Por causa do medo de passar mal dentro de elevadores,  

vi pais subirem as escadas do prédio de meu consultório  

sem, no entanto, deixarem de ouvir as queixas e  

reclamações dos filhos que os acompanhavam. Casais se  

separam pelo isolamento social que o TP ocasiona em um  

dos cônjuges, outros deixam de aproveitar oportunidades  

de viagens sonhadas, o que pode deixar cicatrizes  

profundas no relacionamento. (Ibid, 2007, p. 45)  

Assim, observamos que a Síndrome do Pânico tem como característica  principal a presença dos chamados ataques de Pânico, inesperados e  recorrentes, os quais ocasionam transformações em diversos setores da  vida.

1.2 Características das pessoas que vivenciam a síndrome do pânico  

Com base no estudo realizado por Savioli (2007), cerca de 1,5% a 2% da  população pode ter a Síndrome do Pânico. As mulheres são mais afetadas  que os homens, com aproximadamente o dobro da incidência.  

De acordo com o DSM IV (2002), as pessoas que apresentam a Síndrome do  Pânico, em sua maioria são jovens. O início mais comum da manifestação é  no final da adolescência e por volta dos 25 a 30 anos, sendo encontrado um  pequeno número na infância ou após os 45 anos.

SILVA (2004) assim como diversos autores da bibliografia referenciada  apontam que habitualmente, essas pessoas apresentam alguns aspectos em  comum. São bem produtivas profissionalmente e são muito exigentes  consigo mesmos (perfeccionistas), desta forma, não convivem bem com  erros ou imprevistos. São pessoas que se preocupam demasiadamente com questões cotidianas, possuem excessiva necessidade de estar no controle e  de aprovação, e geram expectativas altas. Costumam reprimir alguns ou  todos os sentimentos e pensamentos negativos, seus conflitos íntimos e até  mesmo seus projetos e sonhos. Esta tendência era muito presente em Maria que reprimia sua irritação e não conseguia expor seus problemas íntimos,  conjugais e familiares com ninguém. O primeiro momento em que realizou  este movimento foi no processo terapêutico.

Ainda encontramos neste público uma tendência de ignorar as necessidades  físicas e emocionais. Em alguns indivíduos, esta forma de viver, torna-os  vulneráveis e propensos a vivenciar situações de estresse acentuado,  levando a um desequilíbrio psíquico e bioquímico, com consequente  possibilidade de um ataque de pânico.

Geralmente as pessoas que apresentam este quadro, tendem a assumir uma  carga excessiva de responsabilidades ao longo de sua vida, negligenciando,  muitas vezes seus limites orgânicos e psicológicos. Desta forma, com o  passar do tempo, pode ser gerada uma fragilidade, que será percebida em  momentos que demandam um esforço maior de adaptação. Logo, momentos  de estresse, como uma discussão ou um local cheio, podem funcionar como  um disparador de algo que já se encontrava ali.  

SILVA (2004, p. 6) aponta dois estilos de personalidades que mais  comumente apresentam a Síndrome do Pânico e as divide da seguinte  forma:

O primeiro estilo é composto por pessoas que eu  

normalmente brinco, classificando como tendo complexo  

de super-homem. São pessoas que não têm limites.  

Sempre tentam dar conta de tudo. Normalmente são a  

referência familiar. Sempre que surge um problema elas  

são as pessoas a serem acionadas. Essas pessoas não  

sabem dizer não, tendem a se voltar demasiadamente  

para outro e com isso perdem a referência dos próprios  

limites. É como se elas diminuíssem muito a capacidade  

de escutar suas próprias necessidades em prol de ampliar a possibilidade de perceber as demandas externas. O “eu  tenho”, substituiu quase que totalmente o “eu quero”. Não  

existe espaço para o prazer pessoal.  

O segundo estilo de personalidade é complementar ao  

primeiro. São aquelas pessoas que tendem a  

desenvolver vínculos de dependência. Buscam suporte  

no outro, se sentem incapazes de andar com as próprias  

pernas. Essas pessoas também perdem a noção de seus  

próprios limites, porém neste caso de forma praticamente  

intencional. Preferem abrir mão da direção de suas  

próprias vidas. A responsabilidade das escolhas é vivida  como algo pesado demais. Em função disso, elas  

preferem abrir mão de escolher, optando por convidar ao  

outro para que assuma as responsabilidades de suas  

decisões.  

Desta forma, notamos que a doença é como uma válvula de escape na  tentativa de se adaptar ao ambiente na qual a pessoa está inserida. Se este  ambiente é inadequado, o organismo tenta se adequar na tentativa de tolerar  o que é vivido. Portanto, esta síndrome simboliza orgânica e  psicologicamente uma forma de se relacionar com o mundo.

2. ALGUNS ASPECTOS DA GESTALT-TERAPIA

Para pensarmos na Síndrome do Pânico à luz da Gestalt-Terapia é  necessário olharmos para a nossa referência do que é considerado saudável  e não saudável em termos de funcionamento. Para que isto aconteça  precisamos ressaltar alguns pressupostos importantes a cerca desta  abordagem.  

A Gestalt-Terapia, abordagem escolhida para fundamentar este trabalho, é  uma abordagem de base fenomenológico-existencial que compreende o  homem como um ser de relação e, desta forma, volta o seu olhar para o  indivíduo junto ao seu contexto e sua rede de contato.

Com base na visão holística de ser humano, a perspectiva da Gestáltica propõe compreender o “organismo” (indivíduo) como um todo e não como a  soma de partes isoladas. O homem é visto como um ser biopsicossocial em  que é considerado não só o seu mundo interno, como também o contexto em  que vive.

Frazão, na apresentação à edição brasileira do livro Gestalt-Terapia de Perls,  Hefferline e Goodman (1997, p.10)., discorre:

Uma das importantes contribuições da Gestalt-Terapia  

refere-se à visão holística do homem, o qual é percebido  

como ser bio-psicossocial, sempre em interação com seu  

meio, isto é, leva-se em conta não apenas o que ocorre  

com a pessoa em sua totalidade, mas também o contexto  

no qual isso ocorre.

Neste ponto, precisamos falar do método de abordagem do ser humano  utilizado pela Gestalt-Terapia: o método fenomenológico. Tal método teve sua  origem na fenomenologia, que segundo Rodrigues (2000), tem como  principal autor Edmund Husserl.

Husserl fala de voltar-se para as coisas mesmas, para realidade que se  mostra: o fenômeno. Em seus estudos, faz da fenomenologia um método  para busca da verdade e percebe que não há uma subdivisão entre o ato de  perceber e o conteúdo percebido.

Em Husserl, esta unidade entre o pensar e o pensado  

transcende uma separação entre o mundo do observador  

– a mente –e o que é visado por esta observação – a  

realidade. O “eu” percebedor só existe em função  

recíproca (ou seja, uma existe em função da outra) com o  

“algo percebível”. Mas sendo este “algo percebível” uma  

função determinada pela consciência que percebe, logo  

teremos diferentes formas de perceber a realidade.  

(RODRIGUES, 2000, p. 39)

Assim, a fenomenologia consiste numa apropriação particular da realidade,  descrevendo a experiência como ela é. Logo, capacita o terapeuta a lidar  com aquilo que se apresenta como fenômeno para observação, conservando  uma postura descritiva e não prescritiva ou interpretativa em relação ao que  o cliente nos traz.  

“... a apresentação do fenômeno se dá a partir do que se  

mostra de uma forma direta – o próprio fenômeno – e não  

a partir de pressupostos teóricos que tenham como  

objetivo explicar o fenômeno, reiterando-lhe o seu caráter  

de estranheza...” (Rodrigues, 2006, p. 53)

No caso de Maria, como veremos abaixo, foi de grande importância, recebê la de modo a valorizar a sua singularidade. Apesar dos sintomas que estava  sentindo serem os mesmos de outras pessoas que vivenciam a Síndrome do  Pânico, estávamos olhando para Maria, que apresentava naquele momento  certas sensações, medos, desconfortos.

Segundo Holanda (apud D’ACRI, LIMA E ORGLER, 2007, p. 152):

Em um contexto psicoterápico, por exemplo, o terapeuta  

lida com as vivências de seu cliente, dentro de seu  

contexto de experiências de uma consciência  

(subjetividade), carregadas de sentidos que só possuem  

razão de ser em seus próprios vividos. Com isso, pode-se  dizer que o que caracteriza um método fenomenológico,  

na prática clínica, pode ser associado à ênfase na  

experiência imediata (que envolve o fluxo temporal de  

passado, presente e futuro, vividos no aqui-e-agora), e na  

busca de uma percepção de totalidade dessa experiência

(contrariamente à sua fragmentação em nosso cotidiano).

Nesta lógica, o gestalt-terapeuta precisa realizar uma forma própria de “redução fenomenológica” em que coloca entre parênteses suas idéias  preconcebidas, abstendo-se de seus juízos, antecipações e preconceitos (ou  reduzindo-os ao máximo) com o objetivo de entrar em diálogo com o fenômeno, alcançá-lo em sua essência. Por exemplo, deixar um pouco de  lado o conhecimento e pré-determinações da Síndrome do Pânico e estar  com a pessoa que chega até você. Cabe ao psicólogo acompanhá-la nesta  trajetória.

Com o intuito de compreender melhor a abordagem escolhida para  fundamentar este trabalho, aprofundaremos nosso estudo em alguns aspectos  da gestalt-terapia.

2.1 Um pouco sobre a Teoria de Campo

Concordamos com Rodrigues (2000) que ao observarmos um indivíduo,  percebemos que é possível focalizar diversas perspectivas de sua vida.  Podemos abordá-lo a partir de um olhar filogenético, ou seja, estudar o ser  humano através de sua genética, raça. Podemos ainda, lidar com o indivíduo através dos eventos socioculturais que o influenciam, como a religião,  escolaridade e a cultura. Há os eventos interpsíquicos, que são aqueles  referentes às relações entre amigos, parentes, entre outros. E, há ainda os  eventos intrapsíquicos em que são abordadas questões tais como: sua relação  consigo mesmo, a autoimagem. “O homem é um ser-no-mundo (Heidegger  1988), não havendo como conceber esse ‘ser’ sem o ‘mundo’ ” (RODRIGUES,  2000, p. 54).

Esta idéia de diversas perspectivas em torno do indivíduo foi trabalhada por  Kurt Lewin, recebendo o título de “Teoria de Campo”. Lewin, um dos psicólogos  da Gestalt, além de ser gestaltista ortodoxo, centrava seus estudos nas  necessidades, motivações e na personalidade se ocupando também com as  influências sociais no comportamento. Com o intuito de compreender o  funcionamento do comportamento humano, desenvolveu sua Teoria de Campo,  utilizada por muitos autores, inclusive Gestalt-Terapeutas.

Em sua Teoria de Campo, Lewin se baseia em duas suposições  fundamentais:

- O comportamento humano é derivado da totalidade de fatos coexistentes;  

- Esses fatos coexistentes têm o caráter de um "campo dinâmico", no qual  cada parte do campo depende de uma inter-relação com as outras partes.

A primeira suposição refere-se ao fato de que o organismo não tem significado  separado de seu ambiente. Assim, o homem está inserido e em contato com  uma totalidade de fatores coexistentes.

A segunda nos traz que as atividades psicológicas do homem ocorrem numa  espécie de campo. Onde comportamento humano não é determinado pelo passado, ou pelo futuro, mas pelas diversas forças atuantes no campo  dinâmico atual e presente. As quais envolvem, inclusive, aspectos da  experiência passada e das expectativas futuras.

Yontef desenvolve um artigo sobre a teoria de campo onde apresenta que:

Um campo é uma teia sistemática de relacionamentos,  

estes são onipresentes: Cada fato está presente em uma  

teia de forças inter-relacionadas, reunidas no tempo e no  

espaço e que são modificadas com o tempo. Um

acontecimento resulta sempre da interação de um ou  

mais eventos. (Yontef,1998, p.184).

Logo, o chamado “campo” consiste no conjunto de fatores que formam o  espaço vital do indivíduo (físico e psicológico), incluindo a forma como este  percebe e interpreta o ambiente externo que o rodeia. Os fatores que o  formam têm o caráter de um campo dinâmico, no qual cada parte depende de  uma inter-relação com as demais. Como nos aponta Lewin: “todo  comportamento (incluindo ação, pensamento, desejo, busca, valorização,  realização) é concebido como uma mudança em algum estado de um campo numa determinada unidade de tempo.” (LEWIN, 1965, p.XIII apud DACRI,  LIMA e ORGLER, 2007, p. 210)

Ainda no mesmo capítulo escrito por Yontef (1998, p. 184) encontramos uma  observação bastante enriquecedora sobre o Campo:

O campo é definido fenomenologicamente. A amplitude e  

a natureza exatas do campo e os métodos usados variam  

dependendo do investigador e do que está sendo  

estudado. O campo pode ser tão pequeno e rápido quanto  

partículas subatômicas, ou tão grande quanto o universo.  

As forças, em alguns campos, podem ser observadas  

com os cinco sentidos humanos, em outros, não. O  

campo pode ser físico, tangível ou intangível. Na Gestalt

Terapia estudamos as pessoas em seus campos  

organismo/ambiente. O ambiente do campo  

organismo/ambiente pode ser uma escola, um comércio,  

uma família, um casal, um grupo de treinamento, um  

indivíduo em seu espaço vital(...)

Desta forma, uma situação vivenciada poder ser considerada como uma  Gestalt formada por diversos elementos e onde estes elementos estão inter relacionados entre si e este todo – a Gestalt. E, além disso, qualquer  movimento ocorrido nesta Gestalt afeta todo o campo. De tal modo, há uma  influência tanto da pessoa sobre o campo como do campo sobre a pessoa  assim como, a realidade na fenomenologia é uma construção do observador e  do observado. Eu e você observamos um mesmo evento de formas diferentes,  por lentes distintas. “O que olhamos, como olhamos e o contexto de nossa  observação determinam o que observamos” (YONTEF, 1998, p.197)

A contribuição da Teoria de Campo vista até o momento, nos remete a um  dos princípios norteadores da Gestalt-Terapia: o todo é diferente da soma  das partes. Este princípio já pode ser encontrado no prefácio da obra  fundadora da abordagem gestáltica (1997, p. 36) quando Perls, Hefferline e  Goodman discutem as relações entre as totalidades e suas partes “o que contrasta com a suposição anterior de que o todo é meramente a soma total  de seus elementos”. Portanto, uma mera modificação no campo, altera toda  a sua composição.

Seguimos com o estudo sobre a teoria de Lewin que abordou também  comportamento humano. Para tal entendimento, desenvolveu a seguinte  fórmula apresentada também por Elídio (apud D’ACRI, LIMA E ORGLER,  2007, p. 210):

C = f (P,M)

onde o comportamento do indivíduo é representado pela letra (C) que é  equivalente a função (f), resultado da interação entre a pessoa (P) e o meio  ambiente (M) que a rodeia, o que configura-se como o espaço vital (organismo/ambiente).

AMBIENTE

P(Maria)

 

Conforme ilustrado acima, há os objetos, pessoas ou situações de valência  positiva que atraem o indivíduo e os de valência negativa que o repelem. A  atração é a força ou vetor dirigido para o objeto, pessoa ou situação; a  repulsa é a força ou vetor que o leva a se afastar do objeto, pessoa ou  situação, tentando escapar. (Elídio apud D’ACRI, LIMA E ORGLER, 2007).

Ilustraremos o esquema supracitado: Por exemplo, Maria, cliente sobre a  qual falaremos mais adiante, pode ser esquematicamente representada por  um campo (círculo). Esta vive em um outro campo maior, constituído pelo  seu espaço vital (família, igreja, trabalho) no qual diariamente acontecem  situações que a influenciam. No seu espaço vital Maria poderá encontrar  locais ou pessoas que não atendam a sua demanda, assim como a mesma  pode não dar conta da demanda exigida pelos mesmos. Logo, estes  fenômenos (coisas, pessoas ou situações) podem ser representados por  forças ou vetores que a cada momento constituem o seu campo e traduzem se em valências. São forças que possuem uma direção e uma intensidade  vividas como tensões que buscarão ser atendidas no meio. Quando lhe  trazem a satisfação dos seus desejos e necessidades presentes a valência é  considerada positiva, e em caso contrário, quando podem ou ocasionam  algum prejuízo são consideradas negativas. Ambas influenciam e são  influenciadas no campo e pelo campo.

É importante ressaltar uma observação feita por Yontef (1998), que na teoria  de campo tudo é construído conforme as condições do campo e os  interesses do percebedor. Desta forma o que poderia atrair a atenção de uma  pessoa, poderia não ser vantajoso para outra. Por exemplo, enquanto para  alguns o elevador é uma comodidade (uma valência positiva), para outros é  um obstáculo, uma dificuldade (uma valência negativa). Aproximamos-nos assim de mais um conceito da teoria o ambiente psicológico que é o  ambiente tal como é percebido e interpretado pelo indivíduo, diretamente  relacionado com as atuais necessidades do mesmo.

Esta movimentação, positiva ou negativa, provoca mudança no campo como  um todo, o que torna o campo dinâmico, conforme citado anteriormente. Todas estas observações são focadas no presente e ainda, segundo Lewin  (1965, p.32-2, apud D’ACRI,LIMA E ORGLER, p. 210):

De acordo com a teoria de campo, o comportamento não  

depende nem do passado e nem do futuro, mas do campo presente. (Este campo presente tem uma determinada  

dimensão de tempo. Inclui ‘passado psicológico’, o  

‘presente psicológico’, e o ‘futuro psicológico’ que  

constituem uma das dimensões do espaço de vida  

existindo num determinado momento).

Abordamos acima o princípio da contemporaneidade da teoria de Lewin que  está intimamente relacionado com o aqui-e-agora da Gestalt-Terapia. O  primeiro afirma que todo evento que gera uma mudança está no presente. O  aqui-e-agora não é estático ou absoluto, refere-se ao fluxo de tempo do passado para o futuro, em que o presente inclui o recordar (passado) e o  antecipar (futuro) e todas as transformações experienciadas neste momento.  

A Teoria de Campo fornece suporte teórico para a integração de diversos  aspectos do ser humano como o corpo, a mente, as emoções, as interações  sociais e os aspectos espirituais e transpessoais. Mais uma vez ilustro com o  caso de Maria. Ao recebê-la no consultório, verificamos a entrada de uma  pessoa, de suas crenças, modo de ser, de se relacionar, seus vínculos, enfim  todo um sistema, formado por sub-sistemas (família de criação, filhos, igreja,  entre outros) e que realizam troca através de suas fronteiras, que influenciam  e são influenciados uns pelos outros, a cada momento.  

Aqui, nos aproximamos de uma importante contribuição citada anteriormente  que atravessa toda a abordagem gestáltica que é a visão holística de  homem. Visão esta que corrobora o princípio de que o todo é diferente da  soma das partes, em que o homem é visto como um ser biopsicossocial,  sempre em interação com seu meio. Ainda, segundo esta visão, não  podemos trabalhar a mente e o corpo em separado. Ambos representam o  indivíduo. Sendo assim, podemos dizer que qualquer estímulo que atinja este  organismo, em qualquer um de seus subsistemas (interpsíquico,  intrapsíquico, físico, emocional) necessariamente promoverá mudança em  sua unidade total.

Ao escrever este capítulo, observamos que a teoria de campo, complementa  o olhar do gestalt-terapeuta, pois estuda o campo, formado pelo indivíduo, o  ambiente, a influência de um sobre o outro. Leva-se em conta a relação do  homem consigo, com o outro e com o mundo. Percebemos que, em alguns  casos, o indivíduo que chega com a queixa de dores no peito ou palpitações,  muitas vezes apresenta diversas questões em outras áreas de sua vida. Por  exemplo, problemas conjugais ou no trabalho que geram preocupação e  estresse excessivo, provocando sintomas físicos, como os apresentados pela  Síndrome do Pânico.

Logo, consideramos que a Teoria de Campo enriqueceu muito a Teoria da  Gestalt-Terapia e a partir de sua contribuição, o olhar clínico pôde ser  ampliado.  

2.2 Contato

A palavra “contato” é encontrada em diversos contextos, inclusive sendo  utilizada coloquialmente pela sociedade. Quem nunca ouviu: “Entra em  contato comigo amanhã pelo telefone!” ou “Quase não vejo o João,  perdemos o contato”, entre outras.

Segundo o dicionário a palavra “contato” é definida como:

“1. Estado ou situação dos corpos que se tocam;  

2.Comunicação, interação, ou convivência entre  

pessoas ou grupos; 3. Comunicação, conexão.”

(FERREIRA, 2008, p. 262)

O uso coloquial e irrestrito deste termo pode provocar uma simplificação  exacerbada de um dos conceitos mais importantes da Gestalt-Terapia.

“Contato” não é um conceito simples, trata-se de algo dinâmico, processual,  ativo, criativo em que há mais de um elemento envolvido.

Perls, Hefferline e Goodman (1997, p. 44) colocam que :

Primordialmente o contato é awareness[5] da novidade  

assimilável e comportamento com relação a esta; e  

rejeição da novidade inassimilável. O que é difuso,  

sempre o mesmo, ou indiferente, não é um objeto de  

contato. (...)

Baseado nesta afirmação, percebemos que o contato ocorre entre partes  diferentes, que ao se aproximarem trocam, se fundem e posteriormente se  transformam.

PHG (1997, p.44-45) prosseguem confirmando o caráter criativo e dinâmico  deste conceito:

(...) Ele não pode ser rotineiro, estereotipado ou  

simplesmente conservador porque tem de enfrentar o  

novo, uma vez que só este é nutritivo. (...) Por outro lado,  

o contato não pode aceitar a novidade de forma passiva  

ou meramente se ajustar a ela, porque a novidade tem de  

ser assimilada. Todo contato é ajustamento criativo do  

organismo e ambiente. Resposta consciente no campo  

(como orientação e como manipulação) é o instrumento  

de crescimento no campo. Crescimento é a função da  

fronteira-de-contato no campo organismo/ambiente;  

Entendemos por crescimento a assimilação e metabolização de algo  desconhecido, que se torna conhecido modificando o organismo.  

Ainda em PHG (1957), Fromm e Miller descrevem o contato como o local  onde o organismo e ambiente se encontram e se envolvem reciprocamente.  Acrescentam que o espaço entre ambos não é um vazio, é neste “entre” que  observamos a fronteira-de-contato onde os encontros e afastamentos  ocorrem e desta forma promovem o crescimento.  

Silveira (apud D’ACRI, LIMA E ORGLER, 2007, p. 59) aponta:

O contato sempre ocorre num limite denominado fronteira  

de contato. A fronteira de contato une e separa tornando

se mais ou menos permeável e, dessa forma, favorece,  

dificulta ou impede o contato.

Nesta dança de encontros, afastamento e crescimento, observamos,  conforme citado anteriormente que o contato é processual. E, para esclarecer  esta afirmação, nos voltaremos para divisão inicial de Goodman, em que o  contato apresenta quatro fases: o pré-contato; o contato ou tomar contato; o  contato pleno ou contato final; e o pós-contato. Em cada fase do ciclo, o  organismo funciona de acordo com um modo diferente e o foco de interesse  se desloca: “uma nova figura – ou ‘Gestalt’ – emerge do fundo e mobiliza a  atenção.” (Ginger e Ginger, 1995, p.130)

O pré-contato é a fase marcada pelas sensações, em que a percepção e/ou  o excitamento corporal são a figura de interesse.

No contato ou tomar contato o que se destaca é a ação do organismo. É uma  etapa ativa em que o organismo vai enfrentar o meio, através do processo de  estabelecimento de contato. Exerce o poder de escolha ou rejeição das  possibilidades oferecidas, promovendo uma ação sobre o ambiente.  

É o objeto desejado (ou ainda as possibilidades  

entrevistas) que vai definir a figura, enquanto a excitação do corpo vai se encontrar progressivamente como fundo.  

Geralmente, essa fase é acompanhada de uma emoção.”  

(Ginger e Ginger, 1995, p.131)

O contato final ou contato pleno é o momento em que a troca ocorre, período  em que há abertura ou abolição da fronteira-de-contato.

E, finalmente o pós-contato, fase da assimilação, favorável ao crescimento.  Momento em que as experiências são elaboradas, o ciclo está no final, a  Gestalt é fechada e o sujeito torna-se disponível para uma nova experiência.  

Sem dúvida contato é um termo de grande complexidade e, obviamente, os  processos na vida real não se dão de forma tão simples. Explicitamos o  conceito de forma didática, porém encontramos no dia-a-dia, em nosso  consultório, inúmeras Gestalts inacabadas, ciclos descontinuados ou ainda  problemas na fronteira de contato.  

Prosseguindo com o entendimento explicitado, é possível pensar que a  Síndrome do Pânico está intimamente ligada ao distúrbio de contato. Muitos  que vivem esta síndrome já na primeira fase do contato, no pré-contato, já  estão afastados de partes de si mesmo e não se dão conta das necessidades  físicas, como por exemplo o cansaço, o prazer corporal, entre outros.  Interrompe, não permite que o crescimento ocorra e o novo seja assimilado.  O que leva estes sujeitos em sofrimento a uma cristalização, a um  enrijecimento na sua forma de lidar com o mundo.

É importante destacar o relato da psiquiatra Silva (2006, p. 62-63):

As pessoas que sofrem de transtorno de pânico não  

costumam relacionar algum fato ou motivo óbvio que  

justifique a ocorrência dos primeiros ataques de pânico.  

No entanto, o que constatamos na prática clínica é que,  

na grande maioria dos casos, existe, sim, uma ligação  

com os eventos da vida dessas pessoas... Em uma  

investigação mais acurada, pudemos observar que esses  

eventos ou circunstancias não ocorreram nas últimas

horas, últimos dias ou semanas, mas, sim, entre seis e  

dezoito meses antes. Em geral, as pessoas com pânico

ignoram totalmente essa ligação retrógrada(...)

Notamos assim, que a Síndrome do Pânico pode se configurar também a  partir de, e como um distúrbio de contato, um distúrbio na atualização de  possibilidades por parte da pessoa. Na medida que alguém não percebe  

suas demandas, sejam elas físicas ou emocionais, o processo dinâmico de  atualização, é paralisado. E é neste momento de não-contato que o sujeito  fica vulnerável, podendo acarretar um desequilíbrio o que propicia o  aparecimento de sintomas.

Maria vivenciou este processo. Passou por cima de sua história, de seu  sofrimento e necessidades algumas vezes. Inicialmente não conectava estes  fatores às suas sensações da síndrome do pânico. Quando começou a  confiar e a falar sobre suas questões percebeu que seus ataques estavam  diminuindo. Não foi fácil, porém extremamente satisfatório.

2.3 O sintoma em Gestalt-Terapia

Ante o fenômeno do adoecer, tomaremos o que se nos  

apresenta como algo já dado ou aceitaremos o desafio de  

colocar em questão a sua essência? (Rodrigues, 2006, p.

43)

O homem possui, no seu dia-a-dia, muitas demandas sociais, familiares,  profissionais, entre outras. A forma como organiza e estabelece a sua  interação com o mundo está intrinsecamente ligada ao seu bem-estar.

Essa interação pessoa-mundo acontece com o que chamamos de auto regulação organísmica. Todo ser tende à auto-regulação contínua e dinâmica  ao longo de toda a sua vida. Como ressalta Perls (1977) toda a vida do ser é  caracterizada pela busca de satisfazer suas necessidades, que são muitas e contínuas, num processo homeostático constante. Este processo objetiva  então alcançar o melhor acordo possível entre organismo e meio a cada  momento, acordo este que denominamos de ajustamento criativo.

Segundo Mendonça (apud D’ACRI, LIMA E ORGLER, 2007, p. 20) o ajustamento criativo foi usado por Perls para descrever a natureza do contato  que o indivíduo mantém na fronteira organismo/ambiente visando sua auto regulação. O termo “criativo” refere-se ao ajustamento resultante do sistema  de contatos intencionais que o indivíduo mantém com seu ambiente. O  ajustamento criativo pode ser saudável ou não. Chamamos de saudável  aquele ajustamento em que o indivíduo consegue se orientar nas novas  circunstâncias, possibilitando uma ação transformadora.  

Logo, sob uma perspectiva gestáltica, podemos considerar saudável a  pessoa que “se relaciona com o meio enquanto indivíduo único, com vistas à  expressão e atendimento de necessidades, mantendo, ao mesmo tempo,  uma relação respeitosa com o outro em sua unicidade” (Frazão, 1997, p.67).

Já o funcionamento não saudável, consideramos  

(...)um fenômeno interativo que ocorre na fronteira de  

contato e que se refere à inabilidade de se relacionar  

criativamente com o meio, relacionando-se, ao invés  

disso, através de padrões cristalizados e repetitivos,  

através dos quais a expressão de necessidades é  

distorcida ou suprimida, com vistas a manter a relação  

com o outro, por mais artificial ou inautêntica que uma  

relação deste tipo possa aparecer. (Frazão, 1997, p.69).

Estes padrões, cristalizados e repetitivos, muitas vezes causam sofrimento e  como bem nos lembra Rodrigues (2006), Freud já versava sobre as queixas  hipocondríacas, frequentemente observáveis nos pacientes, que, não  podendo lidar com o absurdo do vazio, preferiam justificar o seu quadro como sendo de ordem orgânica, pois cuidando do corpo, eles têm a  possibilidade de neutralizar a falta de sentido com a ilusão de um controle.  

Podemos fazer uma analogia ao ajustamento criativo não saudável, a doença  vem para preencher esta falha na relação, este vazio. Muitas vezes é mais  fácil e prático tomar uma medicação, cuidar da dor física, do que olhar para  si.

A partir disso, é importante ressaltarmos que a Gestalt-Terapia (GT)  desconsidera a visão estigmatizada do normal como o indivíduo que se  enquadra nas normas sociais já estabelecidas. Assim como a própria noção  de doença defendida pela medicina[6] é questionada, se desejamos refletir  sobre os fenômenos que se nos apresentam. A idéia de uma determinada  doença, como a doença de pânico, produz restrição, fechamento o que limita  o campo de possibilidades e exclui a subjetividade de quem a vivencia.

Nesse sentido, o conceito de saúde na GT é visto como a capacidade  adaptativa do indivíduo frente às diversas situações de sua vida, podendo os  sintomas serem encarados como tentativa de tais adaptações, em busca do  equilíbrio entre as demandas do meio e as necessidades primordiais para o  funcionamento do organismo. Portanto, dentro de uma perspectiva gestáltica, saúde e doença não constituem dois opostos, mas sim etapas de um mesmo  processo. Como nos aponta Augras (1986, p.10):

A saúde não é um estado, mas um processo, no qual o  

organismo vai se atualizando conjuntamente com o  

mundo, transformando-o e atribuindo-lhe significado à  

medida que ele próprio se transforma. Melhor seria falar  

de um processo de construção mútua, pois indivíduo e  

mundo, organismo e meio, coexistem necessariamente...  

O normal é aquele que supera os conflitos, criando-se  

dentro de sua liberdade, atendendo igualmente às  

coações da realidade. Patológico é o momento em que o indivíduo permanece preso à mesma estrutura, sem  

mudança e sem criação (...).

Nesse sentido, o sintoma - a doença ou o conflito - consiste num esforço que  o organismo realiza para tornar a vida mais tolerável, para permitir que seja  vivida. Todo sintoma tem um sentido, quer dizer alguma coisa sobre aquele  sujeito. O que importa para o gestalt-terapeuta é a pessoa, o ser que está  doente, em sua forma de ser no mundo, na sua experiência singular ao  vivenciar determinados sintomas e não o sintoma em si.

PHG (1997) ao estudar as enfermidades psicossomáticas, discorre sobre a  relação do homem com seu corpo e chama a nossa atenção para o que está por trás dos sintomas:

Suponha que ele (homem) tenha muitos motivos para  

chorar. Todas as vezes em que se emociona até ficar à  

beira das lágrimas, ele, não obstante, não ‘se sente com  

vontade de chorar’, e não chora; isto é porque se  

habituou, há muito tempo, a não perceber como está  

inibindo muscularmente essa função e cortando o  

sentimento ... Em vez disso, ele agora sofre de dores de  

cabeça, falta de fôlego e até sinusite. (PHG, 1997, p. 78)

A Gestalt-Terapia visa o sujeito como um todo, a partir de suas experiências  vividas, sua forma de se relacionar com o mundo, suas crenças e valores. A  citação acima retrata a ligação entre diferentes áreas do ser humano: sua  experiência, ao apontar o hábito de não perceber a própria inibição muscular;  os sintomas, dores de cabeça, falta de fôlego e sinusite; os sentimentos,  como a vontade de chorar.  

Assim, para falar sobre o diagnóstico e conduta terapêutica do sujeito que  sofre Síndrome do Pânico, não podemos deixar de considerar alguns pontos  de grande importância para o tratamento, tais como: o contexto de tempo  (história do sujeito), espaço em que ele se encontra (família, comunidade,  cultura) e a identidade pessoal desse indivíduo. Desta forma, o sintoma não é destacado, objetiva-se encontrar significado, referindo-se a estas pessoas  não de forma rotular, mas sim como pessoas que se encontram neste  processo.  

Deste modo, pensando no conceito de saúde-doença como etapas de um  mesmo processo, estabelecer o diagnóstico é:  

Identificar em que ponto desse processo se encontra o  

indivíduo, detectar as eventuais áreas de parada ou de  

desordem, e avaliar as suas possibilidades de expansão e  criação (Augras,1986, p.11).

Logo, quando pensamos em pânico, observamos a doença não somente  como um conjunto de sintomas a serem eliminados e sim, observamos a  pessoa em sofrimento, cujo mesmo pode ser trabalhado, ressignificado e  transformado em novas possibilidades.

3. A TERAPIA: UM MOMENTO DE REFLEXÃO

Tanto na arte como na terapia se manifesta a capacidade

humana de perceber, figurar e reconfigurar suas relações  

consigo, com os outros e com o mundo, retirando a

experiência humana da corrente rotineira e por vezes  

automática do cotidiano, colocando-a sob luzes novas,

estabelecendo novas relações entre seus elementos,  

misturando o velho com o novo, o conhecido com o

sonhado, o temido com o vislumbrado, trazendo assim

novas integrações, possibilidades e crescimento. Esta

afirmação da centelha de divino em cada um de nós, esta

fé na capacidade humana de ser o artista de sua própria  

existência, ou, nas palavras de Paulo Coelho “o alquimista  de sua própria vida”, está encunhada no pensamento  

gestáltico(...)a Gestalt- Terapia concebe então o  

indivíduo como um ser relacional, como um ser em  

processo, afirmando a indivisibilidade do campo

organismo-meio, onde ambas as partes do sistema  

crescem e se desenvolvem numa relação de troca.  

(Ciornai, 1990, p.1)

Chegamos ao consultório, para mais um dia de trabalho. A sala de espera,  com pessoas conhecidas e outras aguardando a sua primeira sessão. Há  algo em comum que as unem naquele local. São pessoas que vivenciam  algum tipo de incômodo, que estão sofrendo, reconhecem que algo não está  “legal”. Verdades e atitudes antes inabaláveis começam a ser questionadas e  muitas vezes após inúmeras buscas, batem à nossa porta atrás de soluções  e respostas.  

Neste novo encontro, são compartilhados pensamentos, sentimentos,  medos, angústias e diversas outras questões que serão divididas nesta  relação única do cliente com seu terapeuta.  

Alguns destes encontros foram vivenciados na clínica social do IGT. Cada  um, com sua singularidade, com sua história. Optamos por citar neste  trabalho, trechos da nossa experiência com clientes que vivenciaram a  Síndrome do Pânico e de forma mais profunda, mergulhar na história de uma cliente em especial, a qual chamaremos de Maria.  

Estes pacientes atendidos por nós, chegaram ao IGT com uma circulação no  espaço muito limitada. Maria mal conseguia entrar no metrô cheio e quando  vinha, passava mal. Sentia um cansaço extremo, não conseguia assistir  televisão, pois as cenas de violência provocavam o mal estar. Descrevia as  crises, como uma dormência em parte do corpo, taquicardia, falta de ar, entre  outros. Sr X ficava trêmulo e gelado ao entrar no elevador, principalmente  sozinho. Em outros ambientes, muitas vezes tinha insônia, às vezes não  conseguia dirigir com medo de passar mal.

Ambos buscaram alguns serviços médicos, devido aos sintomas corporais  apresentados, e recebiam os exames perfeitos. Ou seja, sem nenhuma  causa orgânica para o que sentiam.

A primeira iniciou o atendimento individual, permanecendo em terapia  durante um ano. Ele fez terapia de grupo, com algumas sessões solicitadas pelo mesmo de atendimento individual, onde pôde relatar fatos que o  constrangiam na presença de outros, mas que com o tempo, pôde  compartilhar.

Tanto ela, quanto ele são pessoas extremamente generosas, prestativas e,  apesar de cada um ter a sua história, ambos reprimiam sentimentos próprios,  desejos, e necessidades físicas em prol do outro. Escolhemos uma das duas  histórias, simplesmente pelo fato de que desta forma poderemos explorar  com mais riqueza o trabalho realizado. A seguir, detalharemos um pouco  mais a história de Maria.  

Maria, casada, com quatro filhos, sempre trabalhou. Conta que era tudo  ótimo, até o nascimento dos filhos, quando as coisas começaram a mudar.

Quando o filho mais velho tinha 13 anos o marido parou de contribuir  financeiramente com os gastos do rapaz. O menino chegou a usar roupas da  mãe e Maria tentou suprir isso. Alguns anos depois, planejaram construir  uma casa maior para abrigar a família toda com maior conforto. Conseguiram  um terreno próximo e começaram a construir. Ao ficar pronta, seu marido se  recusou a mudar. Maria passou a viver em duas casas: cuidava da casa  menor onde o marido ficou com a filha e da casa maior onde foi morar com  os outros filhos. Isto gerou muitos conflitos, brigas entre os filhos e o marido, culpa por ter sempre que deixar uma casa, entre outros desconfortos. Com a  sua “bandeirinha branca”(sic), Maria estava pronta para selar a paz. Até que  os sintomas começaram a aparecer e não havia uma causa específica.

Durante algum tempo no processo terapêutico, observamos as sensações  presentes, em que momentos as crises de pânico eram mais fortes, quando  aconteciam e se algo era alterado.

Inicialmente, Maria contava seus conflitos sem muita emoção. Passou a  perceber o quanto tentava ficar distante de algo que era tão doloroso e tão  difícil. Notou que as crises eram mais frequentes e intensas nas semanas em que os conflitos eram mais fortes ou em semanas nas quais tinha que se  desdobrar entre duas casas, trabalho, igreja.

É importante lembrar que Maria era religiosa, Testemunha de Jeová, e que  se dedicava cumprindo metas e respeitando todos os preceitos  estabelecidos, referentes inclusive ao matrimônio.

Começamos a observar que, seu corpo, suas emoções, relacionamentos,  ambiente, família, entre outros estavam extremamente conectados. Uma  alteração em qualquer destas áreas, afetava a outra.  

Um dia, Maria se emociona, dizendo que planejou tudo para tornar a história  diferente, formar uma família unida e não deu certo. Afirma que não gosta  disso. Inclusive, fala da possibilidade de se separar, de arrumar outra  pessoa. Diz que se preocupa com o marido, que tem carinho e que no fundo  deseja que alguém cuide dele. Desta forma, não poderia se divorciar, pois a  bíblia diz que o bom marido é aquele que supri e ele não deixa que nada lhe falte. Este é mais um conflito, se ele não encontrar outra pessoa, ela também não poderá.

A partir deste trecho, notamos quantas demandas pessoais eram sufocadas  por Maria. Dificilmente ela compartilhava suas emoções com os filhos,  amigos e o marido. O desejo, os sonhos, estavam de lado, em prol de uma  tentativa de equilíbrio que segundo ela, estava indo além de seus limites. Que havia deixado de lado a vaidade, o seu cansaço, o lazer.

Ao aparecerem os sintomas da Síndrome do Pânico e após uma busca  exaustiva por um diagnóstico orgânico para seu sofrimento, Maria pára e  inicia o seu processo terapêutico. Começa a conhecer os seus limites físicos  e emocionais a partir de uma melhor compreensão da forma como lidava  consigo, desenvolvendo condições de cuidar deles. E, concede a si mesma  uma nova oportunidade de crescimento.

Após um breve relato sobre um fragmento de sua história, podemos olhar  mais a fundo quão ricos eram os nossos encontros. Calejada, Maria chegava  ao consultório esperando uma resposta. Um nome, algo que pudesse definir  o que sentia. Porém, deparou-se comigo, gestalt-terapeuta, a aguardando.  Cada sessão era um novo encontro.  

Minha postura, de não esperar a paciente com Síndrome do Pânico, e sim a  Maria, fazia toda diferença. Um atendimento em especial, me chamou muito  a atenção: Maria chegou em crise: mãos suadas e trêmulas, coração  palpitando, uma sensação enorme de morte iminente. Convidei-a para entrar  e pedi que sentasse e observasse o que estava sentindo, sua respiração,  suas emoções e que quando se sentisse confortável, poderia começar a  trocar comigo. Foi lindo ver, como Maria ficou relaxada ao perceber que não  seria rodeada de muitas perguntas e que simplesmente poderia ser ela  mesma naquele espaço. Pude recebê-la, naquele momento único, de forma  única, onde tudo que estávamos vivendo era novo, inesperado.

Como ela estava se sentindo era o mais importante naquele momento do que  o porquê estava sentindo aquilo. Olhávamos para o que estava acontecendo,  para o fenômeno de forma direta, sem uma expectativa a priori. Foi quando  começou a relatar todas as suas sensações e também falar sobre tudo que  estava vivenciando de forma intensa nos últimos tempos. Esta não foi a única  sessão que Maria chegou neste estado. Com o tempo pôde perceber em que  momentos suas crises eram mais frequentes ou mais fortes e aos poucos  entrar em contato com sua história e entrar em contato com a forma pela  qual estava vivenciando tudo. Sua dor, seu cansaço, sua tristeza e  sentimentos de preocupação e decepção, passavam despercebidos.

Podemos observar que com a crise de pânico, em função do sofrimento  intenso, o indivíduo pára um pouco com o automatismo das atividades  cotidianas o que com frequência pode levar a um momento de reflexão e de  abertura.

Conforme tratado no primeiro capítulo, alguns sintomas da Síndrome do  Pânico se dão no corpo. Assim como apresentamos limitações e resistências  ao contatar o mundo, notamos esta manifestação em nosso corpo também.  

No trabalho terapêutico, não podemos ignorar os sinais que o corpo nos dá,  é importante trabalhá-lo. Rodrigues (2000) enfatiza que a emoção é algo que  se manifesta corporalmente, produzindo descargas hormonais, alterando  nossos batimentos cardíacos, insuflando nossos pulmões. Ao reprimí-la ou  controlá-la, é necessário um esforço extra. O descontrole, termo  frequentemente relacionado ao ataque de pânico, muitas vezes é visto como  algo pejorativo. Porém, na Gestalt-Terapia utilizamos o conhecimento que  este “descontrole” traz para ampliar a awareness do indivíduo.  

A awareness é um evento sensorial, que ocorre aqui-e

agora, mas inclui recordar e antecipar ... É bom método  

gestalt-terapêutico falar sobre o passado, quando falar  

sobre o passado é a figura de interesse no presente, e  

parte do funcionamento ativo e atual. Não falar do  

passado, quando isto é necessário no presente, é tão  

disfuncional quanto falar do passado para evitar algum  

aspecto do presente(...)

Algumas vezes, o conceito aqui-e-agora da Gestalt

Terapia foi e é distorcido na prática ou na discussão sobre  a teoria. Na formulação teórica, o passado e o futuro, o  

que aconteceu e o que está sendo previsto, aquilo que do  

passado não se encerrou no presente, e o que é desejado  no futuro, são todos parte do aqui-e-agora. (Yontef, 1998,  

p. 199)

No trabalho com Maria foi de extrema importância valorizar este tão falado  “aqui-e-agora”. Através da sua história, tocamos em questões de um passado  remoto que ainda estavam em aberto, trabalhamos questões futuras (como o  sonho de ainda unir sua família) que mobilizavam muita energia no presente.  Ratificando o olhar da teoria de campo, verificamos a importância de  considerar a cliente como um todo: sua história, sua família, suas emoções e seu ambiente. Separar cada área nos impediria de estar por inteiro neste  processo.

Após um ano de terapia, o atendimento foi interrompido pela formação da  terapeuta. Era notável o crescimento de Maria e esta comunicou que se  sentia bem melhor e que estava conseguindo dividir mais, delegar mais.  Neste período, Maria que vinha tendo crises diárias, passou a ter crises de  forma mais esporádica, chegando a ter um espaçamento mensal. Alterou  algumas áreas de sua vida, reconheceu a demanda de continuar e recebeu a  indicação da terapia de grupo. Foi notável que aqueles sintomas que a  levaram a buscar uma ajuda especializada, começaram a diminuir na medida  em que entramos em contato com o que eles tinham a nos ensinar.

Através da apresentação deste caso, analisamos a contribuição da Gestalt Terapia para o processo de crescimento dos clientes. A “teoria de campo”,  amplia o nosso olhar. O “contato”, área onde o organismo e ambiente se  encontram, promove o crescimento. O “Sintoma”- podemos aprender muito  de nós através dele.  

Percebemos que cada caso é muito singular e que a terapia é uma  ferramenta que ajuda o indivíduo a enxergar novas saídas, a experimentar  novas formas de ação no mundo. É um processo, uma construção pessoal  que tem como ponto de partida facilitar a percepção das necessidades  pessoais, familiares, afetivas, profissionais de quem busca ajuda. O trabalho  psicoterapêutico é caracterizado pela possibilidade de rever situações  desconfortáveis na vida e a partir desse ponto buscar novas formas de  vivenciar essas situações.

Foi extremamente gratificante estabelecer uma relação terapêutica com  Maria que chegou em grande sofrimento e hoje consegue vislumbrar um  outro estilo de vida.

Percebemos, então, que o homem atual, cercado de demandas e cobranças  por todos os lados, vive, isto é, trabalha, estuda, ama, se alimenta, sem que  muitas vezes perceba sua própria existência. Não percebe as escolhas que  faz, não se responsabiliza por elas em alguns momentos, não se atenta para  os seus próprios limites físicos, morais, espirituais (por exemplo, Maria). Não  se apropria de certa parte de si mesmo, o que possibilita o aparecimento de  sintomas tão sofridos e paralisantes.  

O estudo realizado sobre a abordagem escolhida e a nossa experiência no  consultório corroboraram para eficácia do atendimento terapêutico gestáltico  com pessoas que sofrem da Síndrome do Pânico.

Então, a reflexão que tanto batia à nossa porta- “o que fazer quando nos são  relatadas as chamadas ‘crises de pânico’”? – foi vivenciada, observada e  discutida.

Observamos que inicialmente, devemos ouvir atentamente o que o cliente  nos traz. Qual o seu sofrimento, o que lhe trouxe ao nosso encontro e claro,  quem é essa pessoa em sofrimento que chegou ao nosso consultório.  Confesso que é muito tentador objetivar o quadro e dar respostas e  exercícios que ofereçam um alívio imediato dos sintomas, porém como  gestallt-terapeuta, é preciso estar com o cliente por inteiro, sem enquadrá-lo  em categorias.

Em especial, no caso da Síndrome do Pânico, aliando a teoria com nossa  experiência, observamos a necessidade de estar muitas vezes com o  sintoma, com o intuito de que a pessoa em sofrimento possa aprender com  ele e com ela mesma. Isto não significa trabalhar somente com a remissão  de sintomas, mas utilizá-los como um aliado para aprendizagem individual e  compreender o que diz daquela pessoa. Quando falamos acima “deixar um  pouco o conhecimento e pré-determinações da Síndrome do Pânico”,  queremos dizer sobre não dar fórmulas prescritas para lidar com esta ou outra síndrome qualquer, e sim permitir-se compreender quem é a pessoa  que chega até você.

O modo como a Gestalt-Terapia vê o sintoma, a saúde e/ou a doença é muito  peculiar e muito rico. Nós, seres humanos somos seres em constante  crescimento e desenvolvimento. Saúde e doença são considerados partes de  um mesmo processo. O sintoma nos diz algo sobre aquele indivíduo.  Aparece como a forma atual que o indivíduo tem de lidar com suas questões,  tornando a vida mais tolerável. Ou até mesmo, convidando este sujeito a  olhar um pouco mais para si. Por exemplo, quando Maria passava mal, era o  momento em que podia se desligar, fugir daquela realidade e ser cuidada.  Porém, isto vinha com um grande sofrimento que a paralisava e que a levou  a buscar ajuda.

Todo o exposto nos leva a pergunta: Como superar o Transtorno de Pânico?  Há uma resposta? Há uma fórmula?  

Ao longo do trabalho, compreendemos que a síndrome representa um  desequilíbrio vivenciado pelo indivíduo, observamos que o acompanhamento  psicológico, promove uma ampliação do auto-conhecimento através do qual  a pessoa tem a possibilidade de se observar e desenvolver novas formas de  lidar com as situações geradoras de sofrimento. Conforme o aprendizado é  adquirido, o indivíduo consegue buscar novas estratégias de vida e  naturalmente consegue superar o quadro. Observamos assim, que com a  terapia o sujeito aperfeiçoará seus recursos internos para saída do quadro e  junto à sua melhora, o indivíduo apresenta transformações biopsicossociais,  que influenciam positivamente a sua vida como um todo.  

Diante de tudo que foi exposto, podemos concluir que lidar com o transtorno  de pânico não é tão simples como pode parecer à primeira vista. Mesmo que  o nosso cliente apresente os diversos sintomas que representam a síndrome,  há a necessidade de afastarmos qualquer possibilidade de doença física (solicitando a realização de exames, por exemplo) e de nos aproximarmos  daquele que nos procuram.

Logo, o gestalt-terapeuta acompanha seu cliente como facilitador no auto conhecimento. Desta forma, o cliente aprende com seus próprios sintomas  com o intuito de que estes possam ser superados ou que o cliente crie  condições de modificar seu contexto, ou ainda, aprenda a conviver com o  mesmo sem perder o equilíbrio.  

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS  

Ao escrever esta monografia, foi possível ampliar muito o olhar sobre a  Síndrome do Pânico. Claro, não esgotamos o tema, mas muito nos  enriqueceu poder estudá-la através da Gestalt-Terapia.

Este estudo influenciou minha postura diante de todos clientes não só dos  que sofrem da Síndrome do Pânico, mas todos aqueles em sofrimento.  Influenciou minha postura diante da vida, em que respeitar a singularidade do  outro, tornou-se mais que fundamental. É importante destacar que Maria,  caso clínico apresentado foi de fundamental importância. Com ela, pude  observar na prática tudo que estudamos nesta abordagem.

Através do desenvolvimento deste trabalho, verificamos que na Gestalt Terapia, a saúde implica em um reconhecimento da capacidade do indivíduo  em manter-se em contato com seu meio, suas necessidades físicas e  emocionais. Implica em movimento para o contato, para as trocas, para o  crescimento.  

“Contato”, na forma como é abordado pela GT, foi o conceito que ficou em  maior evidência ao longo de todo o trabalho.

Percebi, ainda, como temos a necessidade de investigar mais a fundo a  resposta gestáltica em relação às pessoas que vivenciam uma urgência na  remissão de sintomas e que quando conseguem um certo alívio, deixam de estar interessadas no aprendizado que aquele quadro (sintoma ou conjunto  de sintomas) pode trazer.

Através das leituras e da minha experiência atual, noto uma tendência das  pessoas em não se cuidar e quando os sintomas diminuem, algumas  começam a faltar e até mesmo interrompem o tratamento, não investigando a  fundo suas questões. Aliás, este seria um lindo tema para um próximo  trabalho.

Não posso deixar de acrescentar minha percepção no que diz respeito a falta  de material escrito na GT sobre o tema. O gestalt-terapeuta tem tanto para  produzir, e a abordagem, tanto para enriquecer, mas ao mesmo tempo é tão  pouco explorada. Fica uma incógnita, pois por mais que observe isso,  também vivo esta dificuldade na produção textual, diferentemente da clínica,  da qual não me distancio mais.  

Enfim, apesar das dificuldades encontradas e vividas, é com muita  gratificação que concluo esta monografia. Como sempre brinco com meu  orientador, esta monografia é para mim o equivalente a uma gestação: muita  novidade, alegria, dificuldades em alguns momentos, muito aprendizado e,  hoje, com o seu nascimento a observo como um lindo trabalho: especial,  construtivo e que tem muitos caminhos para desenvolver.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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YONTEF, Gary M. Processo, Diálogo e Awareness. São Paulo: Summus  1998.

Endereço para correspondência

Ana Maya Szuchmacher El Mann

E-mail: ana.maya@yahoo.com.br

Recebido:29/04/2013

Aprovado em:06/06/2013

Revista IGT na Rede, v. 10, nº 18, 2013, p.146-186 DOI 10.5281/zenodo.15042738

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526


[1] “Maria” é o nome fictício dado a paciente atendida por mim no período do curso de especialização, cujo caso  ilustrará partes desta monografia.

[2] Ao longo deste trabalho, adotaremos a nomenclatura de Síndrome do Pânico (SP), considerando o termo  síndrome como um conjunto de sinais e sintomas, que se configura em nosso entendimento como um termo mais  descritivo e menos rotulante.

[3] O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação de Psiquiatria Americana, apesar de  objetivar a Síndrome do Pânico como outra doença qualquer que acomete o sujeito, ainda é hoje um manual de  referência que permite o intercâmbio de informações entre as diversas categorias profissionais na área de saúde.

[4] Maria é o nome fictício dado a cliente atendida por mim na clínica social que tanto contribuiu para o  desenvolvimento desta monografia

[5] “Awareness é uma forma de experienciar; é o processo de estar em contato vigilante com o evento  mais importante do campo indivíduo/ambiente, com total apoio sensório motor, emocional, cognitivo e  energético. Um continuum e sem interrupção de awareness leva a um Ah!, a uma percepção imediata  da unidade óbvia de elementos díspares no campo. A awareness é sempre acompanhada de formação  de gestalt. Totalidades significativas novas são criadas por contato de aware. A awareness é, em si, a  integração de um problema. (YONTEF, 1998, p.215)

[6] Não podemos deixar de valorizar a contribuição da medicina, porém, podemos apontar a sua  limitação e tendência ao reducionismo.