RESENHA

Amar e brincar – Lembrando os fundamentos da condição humana Love and play - Remembering the fundamentals of the human condition Luciana Loyola Madeira Soares

Resumo:

O texto de Humberto Maturana e Gerda Verden-Zöller apresenta o amar e o brincar como  os fundamentos da condição humana a partir da perspectiva do emocionar. Vão às  origens da primitiva cultura matrística europeia e da patriarcal que a sucedeu, decisivas  na formação do linguagear e do emocionar no ocidente. Apontam como as crianças são  responsáveis por conservar as mudanças culturais. Os autores acenam com a  perspectiva de um novo rumo – o neomatrístico – para um redesenho das relações do  humano com o ambiente natural e na formulação de uma condição mais humanizada para  a comunidade humana. Segundo eles, a democracia é a própria redenção do humano.  

Palavras-chave: cultura; brincar; amar; criança; democracia.

Abstract:

Humberto Maturana’s and Gerda Verden-Zöller’s book presents play and love as the basis  of the human condition under the perspective of emotion. They go back to the primitive  European matriarchal culture and also to the patriarchal culture as both of them were  decisive for the West world. The authors show how children are responsible for the  transformation inside a culture. Maturana and Verden-Zöller indicate a new possibility for  the human being: a dialogical attitude among humans and also with the environment.  Democracy is described as the way to freedom.

Key words: culture; play; love; child; democracy.

Resenha do livro:

MATURANA, H. e VERDEN-ZÖLLER, G. Amar e Brincar – fundamentos esquecidos  do humano. São Paulo: Palas Athena Editora, 2011, 3ª edição. 263 páginas. ISBN  978.7242-048-7. Original publicado em 1993, em Santiago, Chile.

Vivemos tempos de transformações em todos os âmbitos das relações do humano no planeta, quando se questiona o papel da educação voltada predominantemente  para um futuro de competições acirradas, diante das novas configurações familiares,  crises éticas espocam e ficam sem o devido encaminhamento, junte-se a isso o  desenfreado avanço da tecnociência e a visão dos recursos naturais em franca  degradação. Ainda muito mais poderíamos continuar elencando como sinais de  decadência para compor o já conhecido e ameaçador cenário do mundo  contemporâneo. Até aí, nenhuma novidade. A partir deste livro, ousamos afirmar que  esta é uma maneira unilateral para descrever nosso viver na contemporaneidade,  não contemplando os aspectos relacionais, afetivos e criativos do humano em seu  percurso existencial – uma efetiva aposta em novas perspectivas para a  desacreditada comunidade humana. Este é o resgate que esta obra pretende  realizar. Isto é motivo suficiente para darmos boas vindas à nova edição brasileira.

Em “Amar e brincar – fundamentos esquecidos do humano”, cuja primeira  publicação em língua espanhola foi em 1993 em Santiago, e que teve sua primeira  edição brasileira em 2004, estando atualmente em sua terceira edição, datada de  2011, Humberto Maturana e Gerda Verden-Zöller nos trazem suas reflexões acerca  das relações humanas e as transformações culturais pela trajetória do emocionar. A

afetividade na conversação dá o tom e o tema, como evidenciado na própria  montagem do texto e distribuição dos capítulos. Ambos os autores indicam que a  obra foi produzida a partir de conversas entre eles, as quais, peculiarmente, geraram  dois textos separados e totalmente entrelaçados em sua base teórica e na visão das  relações e perspectivas para o humano em sua existência na contemporaneidade,  tempo em que sua própria sobrevivência depende das relações entre si e com o  ambiente natural. Apoiados na noção de “... que uma cultura é uma rede fechada de  conversações.” (p. 12) os autores indicam que mudanças em uma cultura ocorrem  por transformações “... no emocionar que assegure a conservação da nova rede de  conversações que constitui a nova cultura.” (p. 23), reputando às crianças da  comunidade o papel de firmar uma mudança cultural, afirmando que elas constituem  a conservação deste novo emocionar.  

A primeira parte coube a Maturana, sob o título ‘Conversações matrísticas e  patriarcais’ onde ele se dedica a discutir cultura e como nela se dão os processos de  mudanças, passando pela perspectiva matrística e patriarcal como modos de  emocionar e, sua relevância na formulação da democracia. Maturana mantém-se fiel  à linha constituída por ele e Francisco Varela em outras obras, abordando o  surgimento da existência humana como entrelaçamento entre o linguagear e o  emocionar; sua ‘Biologia do Amor’ – apresentada como característica central da coexistência humana - não se limita o campo do biológico, pelo contrário, faz uma  interlocução da Biologia com outros campos, como Antropologia, Sociologia,  Política, Psicologia e Educação. Em suas palavras, a vida humana ocorre “... como  uma rede de coordenações consensuais de coordenações consensuais de ações e  emoções entre seres humanos...” (p. 104).

O autor pensa a cultura patriarcal europeia como caracterizada por pensamento  linear, conflitos, contradições, competição e busca por resultados, produzindo  sofrimento, perda de respeito e de sensibilidade. Tal modo surgiu na Europa como  modificação no emocionar devido às invasões de povos que já praticavam a cultura  do patriarcado; emerge a necessidade de defesa, o que determina o sentido de  enfrentamento, controle e rígida delimitação de espaços e, consequentemente,  define novas redes de conversações em que a exclusão figura. Já o modo  matrístico, que existia na fundação da comunidade humana, a qual surgiu pela  constituição do linguagear em seu entrelaçamento com o emocionar, formulando as  primeiras redes de conversações, caracterizava-se pelo consensual, pois mais do  que permitir a existência humana, ele é um modo de coexistência, fundamentado na  busca pelo acordo e por um projeto comum de convivência. Propondo não incidir  numa cisão conflituosa entre estes modos, já que a exclusão de um deles seria  insistir em funcionar no pensamento ao modo do patriarcal, o autor propõe a reflexão  como caminho, apontando sua convicção de que possamos passar de uma cultura  patriarcal para uma ‘neomatrística’ cuja característica seria o viver em democracia, o  que ele considera uma tentativa de resgate da essência matrística de nossa infância.  É utópico sem ser nostálgico ou nutrir vã esperança. Maturana finaliza suas  reflexões apontando que para vivermos num mundo melhor, diferente deste modo  hoje praticado, será preciso ter outros desejos, o que ocorrerá a partir mudanças em  nossas conversações, o que, segundo ele, necessariamente implicará em tomada  de responsabilidade tanto por nossa racionalidade quanto por nossos desejos.  

Na segunda parte, Gerda Verden-Zöller dedica seu texto a H. Maturana e discorre  sobre a cultura e a produção do emocionar em crianças a partir da experiência do  brincar e da brincadeira. A autora explicita que sua perspectiva é baseada na  ‘Biologia do amor’ de Maturana, privilegiando o corpo na integração das experiências  do humano. O principal aspecto em seu trabalho é a aposta na saúde, optando por  afastar-se da tradição ocidental dicotômica que separa corpo e alma, corpo e  espírito, corpo e mente, ser humano e mundo natural, observador e observado, o que, nos permite estender nossas reflexões a outras separações que incluem o  racional e o emocional, o viver e o morrer, saúde e doença, homem e mulher, todas  indicando a supremacia de um em detrimento do outro. A autora considera as  diferenças como produtoras de novos arranjos existenciais e como aquilo que pode  promover a própria renovação das relações dos humanos entre si e com o ambiente  natural. Em seu texto Verden-Zöller enfatiza a importância da interatividade corporal,  indicando que nosso devir se dá pela transformação corporal, já que a validação da  criança como ser no mundo se dá por suas experiências afetivas corporais. A autora  segue alertando o leitor para o fato de que a relação com a mãe, que não  necessariamente é a genitora, é o marco fundamental da aceitação, da intimidade, da confiança, do brincar e do amar, possibilitando as experiências interacionais mais  decisivas para o desenvolvimento de sua autoconsciência e de sua consciência  social. Brincar e amar só se vivem no presente, não se comprometem com o futuro – simplesmente acontecem em plena mutualidade. Decorre daí o que pode haver de  mais humano na condição humana: desdobrar amorosidade e respeito em suas  futuras relações, produzindo ética. É a saída para um modo de viver em aliança com  o presente. Nesta linha, ela afirma que a democracia seria uma tentativa de retorno  a esta dimensão oriunda das primeiras trocas gratificantes entre mãe e bebê. Desenhos de crianças que tomaram parte no trabalho realizado pela autora em sua  prática como observadora participante ilustram sua conversa com o leitor.

A mensagem de Maturana e Verden-Zöller de que “... a aprendizagem do emocionar  é transferível.” (p. 63) sintetiza a ideia de que é no presente com as crianças que  tecemos as novas redes de sustentação para a comunidade humana. Portanto, este livro é obra altamente recomendável para psicólogos e educadores envolvidos com  o tema da infância e da existência humana na contemporaneidade, dentro de uma  perspectiva relacional, e que fizeram do emocionar uma aposta incondicional naquilo  que o humano pode fazer de melhor por si e pelo mundo que habita.

Endereço para correspondência:

Luciana Loyola Madeira Soares

E-mail: psi.lucianasoares@gmail.com

Recebido em: 15/08/2012

Aprovado em: 06/06/2013

Revista IGT na Rede, v. 10, nº 18, 2013, p.223-227 DOI 10.5281/zenodo.15042828

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526