ARTIGO

Ensaio Sobre a Cegueira: Uma releitura gestáltica da obra de  Saramago

Blindness: A Gestalt rereading of the work of Saramago

Karina Masci Silveira

RESUMO:

Esse trabalho baseou-se em uma (re)leitura da obra literária Ensaio sobre a  Cegueira, de José Saramago (2008) sob a luz da gestalt-terapia. A obra  literária narra a trama de um surto epidêmico de cegueira e as dificuldades e  crescimento alcançados pelos cegos após a perda da visão. Entendo a  cegueira enquanto metáfora de adoecimento psíquico e a recuperação da visão  como metáfora de cura, a obra literária foi utilizada como ilustração do  adoecimento do homem moderno e o processo de cura foi utilizado como  simbolização do processo psicoterapêutico de base gestáltica. Sendo assim,  estabeleceu-se um entrelace entre a obra literária e as bases teóricas da  gestalt-terapia.

Palavras-chave: awareness; contato; cura; figura-fundo; gestalt-terapia;  neurose.

ABSTRACT:

This work was based on a (re) reading of literary Blindness by Jose Saramago (2008) based on gestalt therapy. The literary work tells the story of an epidemic  of blindness and the difficulties and growth achieved by the blind after the loss  of vision. I understand blindness as a metaphor for mental illness and recovery of sight as a metaphor for healing. The literary work was used as an example of  the illness of modern man and the healing process was used as a symbolization  of Gestalt psychotherapy process. Therefore, we established an interlock between the literary and the theoretical foundations of Gestalt therapy.

Keywords: awareness; contact; healing; figure-ground; Gestalt therapy; neurosis.

INTRODUÇÃO:

Esse trabalho consiste em uma (re)leitura da obra literária do escritor  português, José Saramago (2008). O Ensaio Sobre a Cegueira narra a história  de uma cidade onde, inexplicavelmente, ocorre um surto epidêmico de  cegueira. Observa-se aí, que não se tratava de uma cegueira convencional, ou  seja, escura, mas de uma cegueira branca, como se os personagens  estivessem mergulhados em um mar de leite. Pelo medo que a contaminação  se espalhasse cada vez mais, o governo adota a medida de isolar os cegos em  um internato e, nesse local, foram despejados centenas de cegos onde ficam  evidentes explosões de sentimentos como culpa, hostilidade, menos valia,  medo, impotência, sofrimento, fraqueza, entre outros. Porém, há entre eles  uma mulher que não perdeu a visão. Essa mulher foi fundamental na vida  desses cegos, uma vez que, com plena visão do que ocorria, ela os ajudou na  organização, deu-lhes força e apoio e caminhou ao lado deles no difícil e longo  processo de libertação e recuperação da visão por que passaram.

Tal como Saramago (2008) denuncia em sua trama, através dos cegos, o  homem moderno também vivencia o sofrimento de não ser aprovado pela  família, colegas, mercado de trabalho ou até mesmo pela sociedade em geral.  Se sente pior que os outros, introjetando valores depreciativos a ele atribuídos  e termina por cegar às suas potencialidades que poderiam ser desenvolvidas.  Esse homem perdeu o contato com o seu interior, desacredita em seus  próprios sentimentos e acaba cedendo às pressões da sociedade,  considerando que os valores impostos por ela são melhores que os seus. Isso  gera, na pessoa, o adoecimento e o desequilíbrio entre social e psíquico. O  psicólogo clínico tem como objetivo ajudá-lo a recuperar (ou clarear) a visão e  abri-lo novamente ao mundo das possibilidades. Afinal, a neurose se dá  quando a pessoa fecha-se para a mudança, para o mundo (Perls, 1988;  Ribeiro, 1998; Spangenberg, 2004).

Para Sapangenberg (2004) Segundo a visão fenomenológica e gestáltica, as  defesas são importantes a todo ser humano; o mal é quando a pessoa vive  defendida. A flexibilidade é sinal de saúde, de vida, ao passo que a rigidez e a  repetição são símbolos de morte; ela congela o tempo, paralisa um gesto. A  cegueira branca da obra do literário foi aqui analisada enquanto metáfora  desse adoecimento psíquico do homem moderno.

Segundo Perls (1988), o homem moderno sabe pouco sobre a verdadeira vida  criativa, possui um baixo grau de vitalidade e reduziu sua vida a exercícios  verbais e intelectuais, substituindo, então, o viver pelas explicações  psiquiátricas da vida. Essas características podem ser verificadas nos  personagens de Saramago (2008): eles querem explicações científicas para a  cegueira e aceitam as normas passivamente.

Porém, não apenas o adoecimento dos cegos foi analisado nesse trabalho,  mas também o processo por que passou o grupo de cegos que acompanhou a  mulher que não perdeu a visão, como metáfora de um processo de cura e  recuperação da saúde de acordo com a abordagem gestáltica. O grupo  desenvolveu relações saudáveis, tais como cuidado, contato, diálogo,  aceitação, relações essas indispensáveis para a manutenção da saúde  humana (Ribeiro, 1997; Ribeiro, 1998).

A gestalt-terapia é uma abordagem psicológica a qual se fundamenta no tripé  filosófico constituído pelo humanismo, pelo existencialismo e pela  fenomenologia. Além desse tripé filosófico, essa abordagem converge também  as bases teóricas da psicologia da gestalt, da teoria de campo de Kurt Lewin e  a teoria organísmica de Goldstein, além de contribuições de Reich, da  psicanálise e do Zen-budismo. Isso contribuiu para sua formação da visão de  homem como um ser em relação, livre, responsável e dinâmico (Ribeiro, 1985).

Conceito chave nesse trabalho, bem como para a gestalt-terapia, é o de  contato. De acordo com Ribeiro (1998), tudo na natureza é contato e ele é a  base do crescimento, do encontro com o outro e com o mundo, da mudança,  do desenvolvimento da auto-estima e da autoconfiança. A base da psicoterapia  gestáltica é a relação saudável que se estabelece entre cliente e  psicoterapeuta, a qual propicia ambiente fértil para o desenvolvimento de  ambos.

Então, é sob a luz dessa abordagem psicológica que se desenvolveu o  presente trabalho de (re)leitura de Saramago (2008) enquanto metáfora dos  processos de adoecimento e cura dos cegos.  

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA: RETRATO SOCIAL OU FICÇÃO LITERÁRIA?

Compartilhando das idéias de Velloso (1988), a literatura deve ser encarada  como uma produção histórica e ideológica. Histórica, pois seus autores estão  inseridos em determinados contextos históricos; ideológica porque traz consigo  os valores e ideologias de quem escreve a obra. Sendo assim, ainda que  ficção, as escritas tendem a transmitir uma interpretação, transfigurar a  sociedade, problematizar a realidade histórica e transformá-la em uma  aventura. O autor recria a realidade e transforma a História em história.  Escolheu-se a obra Ensaio sobre a Cegueira (Saramago, 2008) como exemplo  dessa interseção entre ficção literária e realismo social, do ponto de vista do  autor. Através do romance, o Saramago (2008, p. 310) realiza diversas críticas  sociais e, entre elas, expõe a complexidade dos “cegos que, vendo, não vêem”.  Ribeiro (1998) também ressalta a importância do artista na sociedade, uma vez  que a intuição aguçada desse, muitas vezes, o coloca à frente dos próprios  cientistas e filósofos. Esse capítulo dedicou-se a fazer um resumo da obra  literária através da narração dos acontecimentos e situações mais relevantes  para esse trabalho.

O ROMANCE:

O Início da Cegueira:

A trama literária de Saramago (2008) se desenrola em uma cidade fictícia com  diversas personagens, às quais ele não dá nomes, apenas características. A  história inicia-se com um homem dirigindo em uma cidade grande. Enquanto  ele aguardava o sinal abrir, ficou cego, subitamente. Desesperado, sai do carro  gritando que não conseguia enxergar. Os outros motoristas, impacientes e sem  querer saber o que se passava com aquele homem, buzinam e passam  xingando o recém-cego por atrapalhar o trânsito. Algumas pessoas param para  saber o que estava acontecendo e um homem se oferece para conduzi-lo até a  sua casa. Ao chegar lá, o voluntário perguntou se o cego queria que entrasse  para aguardar sua esposa, mas o cego, com medo do homem desconhecido o  dispensou. Quando a esposa do cego chegou, o marido contou o ocorrido. Ela  ligou para uma clínica oftalmológica e marcou uma consulta de urgência. Ao  chegarem à porta do prédio, tiveram uma surpresa: o bondoso homem que  ajudou o cego havia roubado o seu carro. Pegaram um táxi e seguiram para a  clínica, indignados com a atitude covarde daquele homem.  

No consultório se depararam com uma sala cheia à espera do oftalmologista.  Havia uma mulher com óculos escuros para proteger sua conjuntivite, um  rapazinho estrábico acompanhado de sua mãe, um velho com uma venda preta  nos olhos e mais duas pessoas sem características de problemas na vista. A  secretária avisou ao médico que o homem da cegueira súbita havia chegado e  esse o passou na frente, por parecer ser um caso mais grave. Quando o  homem descreveu como foi que aconteceu o fato e descreveu sua cegueira  como uma cegueira branca, como se estivesse mergulhado num mar de leite, o  médico achou muito estranho, afinal, as cegueiras são pretas, escuras.  Examinou os olhos do jovem homem de 38 anos, mas não encontrou nenhum  sinal de lesões que pudessem causar a tal cegueira. Pediu alguns exames para  que o homem fizesse para investigar se podia ser algo relacionado ao cérebro.  Ainda sem saber o que estava acontecendo com seus olhos, o homem e  esposa foram para casa.

O Segundo Cego e a Constatação de uma Suposta Epidemia:

O primeiro cego indignado com o homem que o havia roubado, havia  comentado com sua esposa que aquele ladrão podia, como castigo pelo que  fez, perder a visão também. Sem saber, aquele homem, enquanto fugia com  seu carro, ex-presidiário, acabou cegando no meio da rua e foi socorrido por  dois policiais.

A rapariga dos óculos, após sair do consultório oftalmológico, foi se encontrar  com um rapaz num hotel. Cuidadosa com sua conjuntivite, não tirou os óculos  sequer para se deitar com o homem. No auge do orgasmo a rapariga fechou os  olhos e viu tudo branco. Ao abrir os olhos, ainda sem entender o prazer que sentiu, percebeu que ainda via tudo branco. Só depois que percebeu que havia  cegado e começou a gritar, pelada, pelo corredor do hotel. O seu  acompanhante foi rapidamente embora e a deixou sozinha. Aos empurrões, a  expulsaram do hotel e um policial grosseiro a levou para a casa.

Enquanto isso ocorria, o oftalmologista estava intrigado com o caso que  recebeu em seu consultório. No fim de seu expediente, foi para a casa e  comentou com a esposa sobre o estranho caso. Falou que não iria dormir cedo  pois queria verificar se algum de seus livros falava sobre cegueira branca.  Ligou para um colega, que também nunca ouviu falar de um caso parecido, mas se dispôs a pesquisar sobre o assunto. O médico passou parte da noite  pesquisando e acabou dormindo sobre os livros. Quando abriu os olhos, um  susto: ele também havia cegado. Foi para a cama silenciosamente para não  acordar a esposa. No dia seguinte, quando sua mulher acordou, contou-lhe o  que ocorreu. A mulher o ajudou a procurar o número de telefone das  autoridades sanitárias, pois o médico acreditava ser o principal a fazer, uma  vez que podia tratar-se de uma doença contagiosa.  

A Segregação dos Cegos Como Providência:

Após a ligação do médico, o Ministério ainda recebeu a informação de mais  dois casos de cegueira súbita, ou seja, o da mulher dos óculos e o do ladrão.  Sendo assim, tomaram a seguinte decisão: recolher e levar os cegos a um  manicômio abandonado e também as pessoas suspeitas de contágio.  Rapidamente, o governo providenciou uma ambulância para recolher os cegos  de que tinha notícia.  

Ao chegarem à casa do médico, a mulher tentou entrar junto ao marido, mas foi  barrada pelo argumento de que só podiam levar os cegos. Imediatamente a  mulher disse que acabou de ficar cega e tinha que ser levada também. Porém,  aquilo não era verdade. A mulher enxergava tão bem quanto antes, mas não  queria deixar o marido sozinho. Enquanto esteve internada, a mulher manteve  o segredo de que via, exceto para o marido e para a rapariga dos óculos  escuros e, posteriormente, contou para as pessoas do grupo que se uniu a  eles.

Chegados os primeiro cegos ao manicômio abandonado, eles tentaram se  organizar em um quarto, marcaram suas camas através da ordem de  disposição e começaram a se apresentar. Logo no início houve uma briga entre  o primeiro cego e o ladrão que se reconheceram ao contarem como se  cegaram. O primeiro cego acusava o ladrão de ter se aproveitado de um cego  para roubar seu carro. O ladrão acusava o primeiro cego de ter-lhe transmitido  o mal-branco.  

Mais tarde, os cegos puderam ouvir uma voz vinda do alto-falante com as  explicações dadas pelo Governo:

“O Governo lamenta ter sido forçado a exercer  

energicamente o que considera ser seu direito e seu  

dever, proteger por todos os meios as populações na  

crise que estamos a atravessar, quando parece  

verificar-se algo de semelhante a um surto  

epidêmico de cegueira, provisoriamente designado  

mal-branco, e desejaria poder contar com o civismo  

e a colaboração de todos os cidadãos para estancar  

a propagação do contágio (...). A decisão de reunir  

num mesmo local as pessoas infectadas, e, em local  

mais próximo, mas separado, as que com elas  

tiveram algum tipo de contacto, não foi tomada sem  

séria ponderação” (Saramago, 2008, p.49-50).

Posteriormente às explicações, foram dadas diversas ordens aos cegos e, caso  descumprissem, poderiam ser mortos. Eram normas como até onde podiam ir e  como pedir produtos de limpeza e higiene. Prometeram ainda depositar no  pátio caixas de comida três vezes ao dia.  

Até aquele momento, os cegos acreditavam que a segregação naquele lugar  fosse, como dizia o governo, uma medida de segurança adequada. Pensavam  ainda que fosse uma rápida passagem de internação, até que se descobrisse a  cura para o mal branco. Porém, rapidamente mais cegos foram enchendo o  lugar. A comida nunca era o bastante para tanta gente e, além disso, não  cumpriam mais a promessa de deixar as caixas de comida três vezes ao dia.  Isso fazia com que os cegos, cada vez mais, perdessem a esperança de voltar  à vida normal e desacreditassem em qualquer ajuda ou empenho por parte do  Governo.

Um acidente ocorrido com um dos cegos, o ladrão, acabou confirmando a falta  de compromisso por parte do Governo. Enquanto os cegos iam enfileirados ao  banheiro, guiados pela esposa do médico, o ladrão assediou a rapariga dos  óculos e essa, para defender-se, chutou-o com o salto fino. O salto entrou na  perna do ladrão, ferindo-o seriamente. O médico, com auxílio de sua esposa,  tentou lavar o ferimento, mas a água que saia das torneiras parecia podre, o  que, ao invés de desinfeccionar, poderia acabar infeccionando mais. Fizeram  uma atadura para proteger e estancar o sangue, mas sabiam que não seria o  suficiente. Na mesma noite, o ladrão começou a arder em febre e a esposa do  médico viu que o aspecto da ferida não era bom. Falou com o marido e no dia  seguinte pediram remédio às autoridades dizendo que havia um homem ferido.  Mas receberam uma negação como resposta. Posteriormente, o ladrão sem  agüentar a dor que sentia, tentou ir próximo ao portão para pedir que o  levassem ao hospital. Assustado com a atitude do cego e acreditando que  fosse uma tentativa de fuga, o policial que tomava conta na guarita deu-lhe um  tiro na cara. Esse fato causou pânico entre os cegos. Eles passavam, além de  desacreditar do Governo, a temer as autoridades. Os cegos receberam uma  enxada e tiveram que enterrar o ladrão. Outros episódios de tiros por parte dos policiais contra os cegos aconteceram, sempre com a justificativa de que a  culpa era dos próprios cegos que estavam desrespeitando as normas.  

As confusões no isolamento não aconteciam apenas entre cegos e  autoridades, mas também entre os cegos. Disputas de poder, roubos de  comida, desorganização, desrespeito, brigas e até estupro ocorreram lá dentro.  A mulher do médico observava tudo, tentava organizar as pessoas, auxiliava  àqueles que precisavam de ajuda, mas sem impor nada, afinal, acreditava que  não podia sobrepor a eles, uma vez que todos estavam cegos, exceto ela. Ela  agia sempre à medida que os próprios cegos lhe davam espaço para isso.  Essa atitude não ocorreu, porém, com um grupo armado, liderado por um cego  companheiro de outro cego, mas este de nascença. Aproveitando-se de sua  condição superior em relação aos recém-cegos, esse grupo empunha poder  sobre os outros, pegava comida dos demais e estuprava as mulheres dos  outros grupos. Isso ocorreu até que a mulher do médico resolveu não seguir  cedendo àquela situação humilhante para as mulheres. Silenciosamente entrou  no quarto dos cegos “malvados” junto às outras mulheres e, no tempo certo,  cortou a garganta do cego chefe do grupo. Isso causou grande confusão entre  o grupo dos espertos e eles passaram a temer o que podia acontecer-lhes caso  insistissem na idéia de estuprar as mulheres. Já as cegas molestadas diziam  que as mãos daquela que o matou foram as mãos de todos os cegos. Porém,  os cegos “malvados” detiam toda a comida e água e se negavam a distribuir e,  coincidentemente, após o ocorrido o exército parou de entregar as caixas com  alimentos para os cegos isolados na quarentena. A mulher do cego, após  alguns dias sem comida, mesmo sem forças, resolveu organizar cegos  voluntários para uma batalha. Armaram-se com pedaços de ferro e foram tentar  invadir o quarto daqueles cegos. Porém, rapidamente foram espantados por  tiros os quais mataram dois dos cegos atacantes. Inesperadamente, uma das  cegas pegou um isqueiro que guardava em sua mala de mão e, sem que  ninguém soubesse, foi silenciosamente até o quarto dos cegos “malvados” e  colocou fogo nas cobertas das camas que esses cegos mantinham na porta  como proteção. O fogo se alastrou rapidamente. A mulher se queimou junto  dos cegos “malvados”. Desesperados com o cheiro da fumaça, os cegos dos  outros quartos saíram gritando e com medo do fogo. Ninguém entendia o que  estava acontecendo. Saíam todos pela porta fugindo do incêndio. A mulher do  médico, gritando ajuda aos policiais, mal conseguia acreditar no que via: não  havia ninguém nas guaritas. Eles estavam livres. Como relata Saramago  (2008), “O portão está aberto de par em par, os loucos saem” (p. 210).

A Saída do Internato:

A mulher do médico, mantendo o grupo formado ainda no internato unido, ou  seja, o médico, o velho da venda preta, o rapazinho estrábico, o primeiro cego,  a mulher do primeiro cego e a rapariga dos óculos escuros, saiu em busca de  alimento. Andavam em fila, um segurando o ombro do outro. O grupo já sabia  que a mulher do médico não perdeu a visão. Então, ela ia à frente, guiando-os  e contando o que via. No caminho entenderam que toda a cidade havia cegado. Os abrigos estavam quase todos ocupados por grupos de cegos e a  cidade lotada de lixo e excrementos. A mulher do médico encontrou um abrigo  seguro e achou melhor que todos descansassem lá enquanto fosse procurar  comida. Encontrou um supermercado com cegos brigando pelos restos de  alimentos que encontravam. Ela conseguiu encontrar a despensa do  supermercado e voltou para alimentar a si e ao seu grupo. Assim foi por dias: a  mulher do médico guiando, procurando comida, vendo os homens perderem  sua humanidade, cachorros comendo mortos e a atmosfera carregada de  odores de putrefação.

Saramago (2008) narra diversas situações de desespero, medo, cansaço,  esperanças e desesperanças por que passaram os cegos e a mulher do  médico. Expõe situações nas quais a mulher do médico é extremamente forte  para com a responsabilidade de ela ser os olhos de seis pessoas, enquanto em outras passagens ela quase desiste e deseja até cegar como os outros por não  suportar ver a situação em que se encontravam. A trama se desenrola de  forma angustiante até que, enfim, o primeiro cego grita: “vejo”. E assim, cada  um foi recuperando a visão, os cegos cantavam e gritavam a novidade por toda  a cidade, como exemplifica a seguinte passagem de Saramago (2008): “A  mulher do médico levantou-se e foi à janela. Olhou para baixo, para a rua  coberta de lixo, para as pessoas que gritavam e cantavam. Depois levantou a  cabeça para o céu e viu-o todo branco, Chegou a minha vez, pensou. O medo  súbito fê-la baixar os olhos. A cidade ainda estava ali” (p. 310).  

CEGUEIRA COMO METÁFORA DE ADOECIMENTO PSÍQUICO:

Após ter sido realizada uma exposição sobre a obra Ensaio sobre a Cegueira,  do escritor português José Saramago (2008), foi desenvolvida uma releitura  gestáltica da obra literária em questão. Esta foi entendida como uma metáfora  da realidade social contemporânea e, por isso, tal como a gestalt-terapia, fala  de vida.

A cegueira descrita por Saramago (2008), ao contrário da cegueira conhecida,  era branca. Entendeu-se, então, que o autor, por ressaltar tantas vezes esse  dado em sua obra, gostaria de dizer algo com isso. A fenomenologia, como  visto, mostra que o mundo é feito de possibilidades e o existencialismo  completa dizendo que o homem é livre e responsável por suas escolhas. O  neurótico é aquele que se cristaliza no passado e não vê as possibilidades que  o mundo lhe oferece. Sendo assim, a cegueira branca pode representar essa  ofuscação diante das possibilidades. Aqueles cegos não conseguiam eleger o  que era figura frente ao que o mundo lhes oferecia, tal como ocorre quando  todas as cores, todas as luzes se juntam e tem-se, com isso, o branco.  Elucidando, menciono a seguinte passagem de Saramago (2008): “Mas quem  nos diz a nós que esta cegueira branca não será precisamente um mal do  espírito, e se o é, ponhamos por hipótese, nunca os espíritos daqueles cegos  estiveram tão soltos como agora estão, fora dos corpos, e portanto mais livres  de fazerem o que quiserem” (p.90).

Ao final do livro o Saramago (2008) conclui através do diálogo entre a mulher  do médico e o médico: “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos,  Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem” (p.310).

A sociedade moderna oferece inúmeros estímulos, mas muitas vezes o homem  não consegue manter um contato consciente com o que Ribeiro (1998)  denominou de sábio interior e, assim, aliena-se, adoece. Esse termo expressa  aquilo que diz da própria essência, da voz que grita dentro de nós e nos  confronta com questões frente à realidade, a cada instante e que é  fundamental para o processo de autorregulação (homeostase) ao qual, de  acordo com Perls (1988), todo ser humano tende e necessita para a  manutenção do equilíbrio e da saúde. Ribeiro (1998) sinaliza que para  atingirmos o caminho da cura, é preciso “Acreditar, com A maiúsculo, em nosso  sábio e, portanto, em nós mesmos e, como decorrência lógica, acreditar no  Outro e no Mundo” (p. 57). Nessa mesma direção, Giussani (2009) coloca que  ser responsável é saber responder conscientemente a um chamado. Ao  chamado da realidade. Para tanto, faz-se necessário o exercício da atenção e  da aceitação. Prestar atenção e acolher o destino, no entanto, não são  posicionamentos automáticos. Precisam de trabalho e educação. Somente com  essas capacidades é que conseguiremos interpretar os sinais da existência.  Caso contrário, não faremos a pergunta adequada e, portanto, não buscaremos  uma resposta verdadeira. Por não estar atento ao chamado da realidade,  muitas vezes as pessoas elegem o que os outros querem e descartam aquilo  que realmente era importante para a satisfação das suas necessidades.  

Perls (1988) alerta que, apesar de o mundo oferecer amplas possibilidades de  enriquecimento e diversão, o homem moderno vagueia sem objetivo. O contato  com o mundo e com as pessoas não é positivo, não ajuda no crescimento e  desenvolvimento do sujeito e esse acaba cedendo às pressões da sociedade  sem, no entanto, manter o equilíbrio entre o eu e o não-eu. A sua fronteira de  contato não está bem demarcada o que o leva a se misturar com a sociedade e  com o outro. Já não sabe mais o que é dela e o que não é. Ribeiro (1998)  afirma que o ser humano, numa tentativa de ser amado, renuncia a si mesmo e  ao que ama e cede à obediência. Ele passa a captar a autoridade alheia e  corresponder às suas expectativas. Assim, seus contatos baseiam-se nessa  obediência ilimitada e infundada à autoridade. Saramago (2008) demonstra  isso em diversas passagens de sua obra. Os cegos seguiam as ordens vindas  do Governo, dos policiais, dos cegos malvados. E por que não se rebelaram  por tanto tempo? Por que aceitaram calados as humilhações do governo e dos  cegos malvados? Lembrando-se que o objetivo primeiro do ser humano é a  sobrevivência, é possível entender a atitude daqueles cegos. Enquanto  obedientes, eram “aceitos” e recebiam seu alimento. No princípio os cegos  aceitaram passivamente serem presos no isolamento e acreditaram, porém  sem reflexões, nas palavras do Governo de que aquilo era o melhor a ser feito: “O Governo está perfeitamente consciente de suas responsabilidades e espera  que aqueles a quem esta mensagem se dirige assumam também, como  cumpridores cidadãos que devem de ser, as responsabilidades que lhes competem, pensando que o isolamento em que agora se encontram  representará, acima de quaisquer outras considerações pessoais, um acto  de solidariedade para com o resto da comunidade nacional (...) O Governo  e a Nação esperam que cada um cumpra o seu dever” (p. 50. Grifo nosso).

Saramago (2008) demonstra com clareza o quanto os cegos obedecem às  ordens, mesmo que isso seja contra o sentido humano, seja por medo ou por  considerá-las normais: “Não há nada a fazer, eles nem têm culpa, estão cheios  de medo e obedecem a ordens, Não quero acreditar que isto esteja a  acontecer, é contra todas as regras de humanidade, É melhor que acredites,  porque nunca te encontraste diante de uma verdade tão evidente” (p.69). E ainda, mais à frente: “Avisos como aquele de Abandonar o edifício sem prévia  autorização significará morte imediata, ou Os internados enterrarão sem  formalidades o cadáver na cerca, tomavam agora, graças à dura experiência  da vida, mestra suprema de todas as disciplinas, pleno sentido, enquanto  aquele que prometia caixas de comida três vezes ao dia se tornava em  grotesco sarcasmo ou ironia mais difícil de suportar ainda” (p.95).

Essas passagens ilustram pelo menos duas teorias expressas pela gestalt terapia: a renúncia do ser humano em prol da sociedade e a importância  fundamental da experiência. Perls (1988) fala que o homem tende a manter um  equilíbrio entre o social e o psicológico. Porém, o neurótico retira-se cada vez  mais e permite que a sociedade o influencie demais, e passa, assim, a ver a  sociedade como maior que a própria vida. Esse desequilíbrio ocorre quando  indivíduo e sociedade vivenciam necessidades discordantes e o indivíduo não  consegue identificar qual a necessidade dominante. Quanto à importância da  experiência, Perls, Hefferline e Goodman (1997) afirmam que é a partir dela  que se estabelecem contatos, que se é possível chegar à awareness, à  organização/reorganização figura-fundo. É por isso, segundo Polster e Polster  (1979) que a gestalt-terapia trabalha a partir da experiência do aqui-e-agora  como sendo esta a responsável pelo fluxo de conscientização.

O ser humano, segundo Perls, Hefferline e Goodman (1997), tem perdido a  sensibilidade às suas experiências e às suas próprias necessidades. Isso  acaba gerando confusão e perturba a formação figura-fundo. Saramago (2008)  deixa clara essa dificuldade de os cegos se perceberem e entrarem em contato  com suas necessidades, de deixarem emergir uma figura, mesmo que apenas  sua sombra: “Aquela confusão, meu Deus, a falta que os olhos nos fazem, ver,  ver, ainda que não fosse mais que umas vagas sombras, estar diante de um  espelho, olhar uma mancha escura difusa e poder dizer, Ali está a minha cara,  o que tiver luz não me pertence” (p. 75).

Outra questão apontada por Saramago (2008) foi o fato de toda a sociedade ter  sido “contaminada” pela cegueira branca (neurose?), exceto uma pessoa: a  mulher do médico. Perls (1988) explica que tanto a sociedade, quanto o  indivíduo estão doentes, afinal, uma sociedade a qual tem muitos neuróticos  torna-se uma sociedade neurótica e uma sociedade neurótica acarreta em um  grande número de neuróticos: “O pior é que as famílias, sobretudo as menos numerosas, rapidamente se tornaram em famílias completas de cegos,  deixando portanto de haver quem os pudesse guiar e guardar, e deles proteger  a comunidade de vizinhos com boa vista, e estava claro que não podiam esses  cegos, por muito pai, mãe e filho que fossem, cuidar uns dos outros, ou teria de  suceder-lhes o mesmo que aos cegos da pintura, caminhando juntos, caindo  juntos e juntos morrendo” (p. 125).

Uma sociedade neurótica, tal como um neurótico, são incapazes de ver suas  próprias necessidades e, assim, não podem satisfazê-las. O neurótico,  segundo Perls (1988) está ligado ao passado, o seu presente é obscuro e é  torturado pelo futuro exatamente porque o presente lhe escapa. Saramago  (2008) demonstra essa falta de temporalidade: “Bons dias, perdera-se o  costume de dar os bons dias, não só porque dias de cegos, propriamente  falando, nunca seriam bons, mas também porque ninguém poderia estar  inteiramente certo de que os dias não fossem tardes ou noites” (p. 215). E  ainda: “Então não há futuro, disse o velho da venda preta, Não sei se haverá  futuro, do que agora se trata é de saber como poderemos viver neste presente,  Sem futuro, o presente não serve para nada, é como se não existisse, Pode ser  que a humanidade venha a conseguir viver sem olhos, mas então deixará de  ser humanidade, o resultado está à vista, qual de nós se considerará ainda tão  humano como antes cria ser” (p. 244).

Além da confusão temporal, fronteiras de contato mal definidas, contatos  negativos, Saramago (2008) aponta também o medo e a falta de esperança  como geradores da cegueira. Fatores que inibem o contato o qual é, segundo  Perls, Hefferline e Goodman (1997), um ajustamento criativo entre o organismo  e o meio e é isso que gera crescimento. Porém, na neurose o ajustamento  criativo é interrompido e padrões estereotipados surgem. O medo, no caso  daqueles cegos, por muito tempo interrompeu o processo de ajustamento  criativo. Eles apenas se “ajustavam” às normas, mas não criavam. Ribeiro  (1998) localiza que a descrença e a falta de fé em si é um traço característico  da sociedade moderna. Isso abala a autoestima e autoconfiança, munindo o  sujeito de defesas, resistências e alienações. Saramago (2008) demonstra as  distorções da visão advindas do medo em uma cena na qual os soldados ainda  não contagiados, mas já cegos de medo, cheios de defesas e com a  autoconfiança abalada, matam vários cegos que queriam apenas chegar mais  próximo do portão para aguardarem a chegada da comida:

“Os cegos começaram a cair uns sobre os  

outros, caindo recebiam no corpo balas que já eram  

um puro desperdício de munição, foi tudo tão  

incrivelmente lento, um corpo, outro corpo, parecia  

que nunca mais acabavam de cair, como às vezes  

se vê nos filmes e na televisão. Se ainda estamos  

em tempo de ter um soldado de dar contas das balas  

que dispara, estes poderão jurar sobre a bandeira  

que procederam em legítima defesa, e por  

acréscimo também em defesa dos seus camaradas desarmados que iam em missão humanitária e de  

repente se viram ameaçados por um grupo de cegos  

numericamente superior” (Saramago, 2008, p. 88-

89).

Com relação às defesas neuróticas, há que se reconhecer também a sua  importância. Elas também têm funções autorreguladoras. O problema, como  mencionado anteriormente, é que o neurótico vive defendido. Saramago (2008)  demonstra metaforicamente essa diferença entre defender-se e viver  defendido, ao narrar uma cena em que os cegos entram no prédio da rapariga  dos óculos escuros:

“Com o nervosismo da pressa, a rapariga dos óculos  

escuros tropeçou duas vezes, mas achou que o melhor era  

rir-se de si mesma, Imagina tu, uma escada que eu dantes  

era capaz de subir e descer de olhos fechados, As frases  

feitas são assim, não têm sensibilidade para as mil  

subtilezas do sentido, esta, por exemplo, ignora a  

diferença entre fechar os olhos e ser Cego” (p.234. Grifo  nosso).

Porém, o literário demarca também que, enquanto se é vivo, é possível  recuperar-se ou curar-se: “Meu general, essa deve ser a doença mais lógica do  mundo, o olho que está cego transmite a cegueira ao olho que vê, já se viu  coisa mais simples, Temos aqui um coronel que acha que a solução era ir  matando os cegos à medida que fossem aparecendo, Mortos em vez de cegos  não alteraria muito o quadro, Estar cego não é estar morto, Sim, mas estar  morto é estar cego” (Saramago, 2008, p. 111. Grifo nosso).

A RECUPERAÇÃO DA VISÃO COMO METÁFORA DE CURA:

Até o momento, discorri sobre o adoecimento/ cegueira da obra literária em  questão, poderei acerca das características dos cegos que podem ser lidas  como metáforas de adoecimento psíquico ou neurose: disfunção de contato,  desorganização, desequilíbrio entre demandas sociais e psíquicas, confusão e  perturbação da formação figura-fundo, medo, descrença em si mesmo. Porém,  Saramago (2008) descreve também diversas situações e diálogos que  demonstram crescimento e conscientização. Portanto, levantarei considerações  também sobre o processo de cura, afinal, a obra demonstra várias situações  em que os cegos, principalmente o grupo que acompanhava a mulher do  médico, experenciaram contatos verdadeiros, propícios ao crescimento e  recuperação da visão. Partindo da consideração de que uma psicoterapia  fundamentada na gestalt-terapia visa o crescimento do indivíduo e sua  conscientização ampla (awareness), foi feita uma leitura a partir desses  relacionamentos ocorridos no doloroso processo o qual passaram os cegos sob  a ótica gestáltica.

Os cegos que seguiam com a mulher do médico puderam encontrar contatos  que contribuíram para a recuperação da autoconfiança e da autoestima:

“Tanto ela (a mulher do médico) se tema cansado a  

dizer-nos, Se não formos capazes de viver  

inteiramente como pessoa, ao menos façamos tudo  

para não viver inteiramente como animais, tantas  

vezes o repetiu, que o resto da camarata acabou por  

transformar em máxima, em sentença, em doutrina,  

em regra de vida, aquelas palavras, no fundo  

simples e elementares. Provavelmente, um estado  

de espírito, propício ao entendimento das  

necessidades e das circunstâncias, foi o que  

contribui, ainda que de forma colateral, para o  

benévolo acolhimento que ali foi encontrar o velho  

da venda preta” (Saramago, 2008, p. 119).

E Saramago (2008) reforça, mais à frente, o quanto ter olhos naquele grupo,  uma pessoa que os pudesse guiar quando lhes faltava visão e que  proporcionou um espaço de acolhimento, cuidado e respeito foi importante para  que aqueles cegos conseguissem manter a dignidade frente às adversidades  encontradas: “Há que reconhecer que os primeiros cegos trazidos a esta  quarentena foram capazes, com maior ou menor consciência, de levar com  dignidade a cruz da natureza eminentemente escatológica do ser humano” (p.  133).

Também em um processo terapêutico, posturas como essas exemplificadas,  de acolhimento, respeito e cuidado, são fundamentais para o estabelecimento  do contato. Ribeiro (1997) demonstra que o encontro pleno entre cliente e  terapeuta e contatos que possibilitam a experienciação de aceitação, são um  convite para o entregar-se. Para o autor, o cuidado é a alma do contato e sem  aquele, este não pode existir. O cuidado, o acolhimento e o respeito  encontrados nas relações estabelecidas entre o grupo de cegos que  acompanhava a mulher do médico foi fundamental para que eles (o grupo e a  mulher) pudessem experenciar contatos saudáveis e, portanto, não neurotizantes.

Para Ciornai (2004), para haver esse contato saudável, a inclusão no  fenômeno é essencial. Isso significa que a pessoa deve penetrar no fenômeno,  sem, portanto, perder seu próprio referencial. Essa postura de inclusão traz  consigo confirmação e aceitação. Foi isso que fez a mulher do médico ao  fingir-se cega para ser levada junto com o marido para a quarentena. Ela  penetrou no mundo dos cegos, como em uma atitude empática, para guiá-los.  Além disso, a mulher do médico demonstra outras posturas que favorecem  esse encontro, tal como Ciornai (2004) pontua: a presença envolvida e atenta,  o compromisso com o diálogo, disponibilidade para a relação com o outro e a  não-exploração, no sentido de não manipulá-los para gratificações narcísicas: “A mulher do médico levantou-se, por sua vontade iria ajudar os recém-chegados, dizer-lhes uma palavra simpática, guiá-los até aos catres, informar  (...) Não se mexeu, só disse ao marido, Estão a chegar (...) O médico disse,  levantando a voz, Tenham calma, não se precipitem, aqui somos seis pessoas,  vós quantos sois, há lugar para todos” (Saramago, 2008, p. 65).

Nessa passagem fica clara a sua presença de forma inteira e disponível, bem  como o desinteresse em gratificações narcísicas, atitudes as quais trouxeram,  implicitamente, um incentivo à autonomia do marido. Ao invés de fazer por ele,  percebendo ser uma situação a qual o marido estava preparado para enfrentar,  ela apenas lhe disse o que acontecia e deixou que ele escolhesse e agisse da  forma como queria. Essas posturas de inclusão e presença genuína podem ser  encontradas também em uma passagem da obra literária mais à frente: “Entre  os cegos havia uma mulher que dava a impressão de estar ao mesmo tempo  em toda parte, ajudando a carregar, fazendo como se guiasse os homens,  coisa evidentemente impossível para uma cega, e, fosse por acaso ou de  propósito, por mais que uma vez virou a cara para o lado da ala dos  contagiados, como se pudesse ver ou lhes percebesse a presença” (Saramago, 2008, p. 91).

Posturas como essas que propiciam o estabelecimento do contato são  fundamentais para a gestalt-terapia, uma vez que esta se centra no conceito de  contato, considerando-o, dessa forma, matéria-prima da relação terapêutica. A  ternura, a suavidade, a clareza são, segundo Ribeiro (1997), alimentos do  contato saudável, o qual permite que a pessoa supere seus próprios limites.  

Tendo em vista esse estabelecimento de contatos saudáveis, ou seja, relações  confirmadoras e empáticas, Ribeiro (1998) pontua a importância do  fortalecimento da autoconfiança e da auto-estima como indicadores de saúde.  Para o autor, tanto doença, quanto saúde ou neuroses e cura, são produtos  das relações que a pessoa estabelece com o meio. Porém, para que esses  contatos possam existir, é necessário reconhecer os próprios limites e os  limites do outro. Se a pessoa não está preparada para superá-los, é preciso  respeitar ao invés de empurrá-la e apressá-la. Essas atitudes de respeito aos  limites também pode ser exemplificada através de passagens da narrativa de  Saramago (2008): “Mal-intencionados e de mau carácter foram também  aqueles que não só intentaram, mas conseguiram, receber comida duas vezes.  A mulher do médico apercebeu-se do condenável, mas achou prudente não  denunciar o abuso. Não queria nem pensar na conseqüências que resultariam  da revelação de que não estava cega, o mínimo que lhe poderia acontecer  seria ver-se transformada em serva de todos, o máximo talvez fosse  converterem-na em escrava de alguns” (p. 93).

Utilizando-se da prudência, a mulher do médico não denunciou aquilo que viu,  mas que os demais internos não estavam preparados para ver. Na passagem  seguinte, Saramago (2008) deixa explícito o reconhecimento do seu próprio  limite: “Em que loucura estou a pensar em meter-me, duvidou a mulher do  médico, mesmo que eles não exigissem, e nada é menos certo, eu própria não agüentaria sem me pôr aí a lavar, a limpar, quanto tempo me durariam as  forças, isto não é trabalho para uma pessoa sozinha” (p. 136).

O terapeuta deve, assim como a mulher do médico, ter consciência de seus  limites e de suas neuroses, bem como os de seus clientes. Ribeiro (1998)  afirma a importância desse saber até onde se pode ou consegue ir, ou ainda,  nas palavras da personagem de Saramago (2008), “Irei até onde for capaz, não  posso prometer mais” (p. 293).

Além do respeito aos limites, a mulher do médico demonstrava respeito aos  cegos como um todo, como pessoas. Assim, não querendo desvelar aquilo que  não quer ou não pode ser desvelado, ela sente-se incomodada pelo fato de ver  os cegos sem que eles soubessem que ela os observava: “Pela primeira vez,  desde que aqui entrara, a mulher do médico sentiu-se como se estivesse por  trás de um microscópio a observar o comportamento de uns seres que não  podiam sequer suspeitar da sua presença, e isto pareceu-lhe subitamente  indigno, obsceno, Não tenho o direito de olhar se os outros não me podem  olhar a mim, pensou” (Saramago, 2008, p. 71).

Então, foi nesse ambiente fortalecedor e acolhedor, especialmente propiciado  pela postura da mulher do médico, que os cegos daquele grupo encontraram  momentos de diálogos, de respeito, de aceitação, de compreensão, de  cuidado. Momentos estes fundamentais para o crescimento, desenvolvimento  da autoestima, da autoconfiança e da coragem.

O primeiro cego a demonstrar esses sinais de crescimento de forma clara na  obra literária, foi o ladrão. Quando ele chegou ao internato demonstrou sinais  de adoecimento, não apenas o problema da perda da visão enquanto  fenômeno físico, mas também de adoecimento psíquico. Ribeiro (1998)  destaca, nesse sentido, que uma doença é relativa ao organismo como um  todo, não um ente separado, afinal, a abordagem gestáltica implica numa visão  holística de homem. Para ele, muitas pessoas estão com a autoconfiança  adoecida, perderam o contato com o seu íntimo, alienaram-se, baseiam-se em  relação de poder ou, por outro lado, entregam-se ao vício, apresentam-se  infelizes, defensivos, agressivos e medrosos. Assim, escamoteiam a  responsabilidade e buscam um bode expiatório para as suas desgraças. Isso  fez o ladrão ao acusar e agredir o primeiro cego como causador da epidemia.  Porém, após ferir-se gravemente, recebeu cuidado, experenciou relações de  respeito e acolhimento, podendo, então, voltar-se para si e alcançar, com  clareza, sua autoconsciência e autonomia:  

“Não posso continuar aqui a apodrecer,  

reconheço que o seu marido fez o que estava ao seu  

alcance, mas quando eu tinha de roubar um carro  

não ia pedir a outro que o roubasse por mim, agora é  

o mesmo, eu é que lá tenho de ir, quando eles me  

virem nesse estado perceberão logo que estou mal,  

metem-me numa ambulância e levam-me ao hospital (...) é o que se faz com os condenados à morte, se  

têm uma apendicite operam-nos e só depois é que  

os matam, para que morram com saúde (...)  

Assombrava-o o espírito lógico que estava  

descobrindo na sua pessoa, a rapidez e o acerto dos  

raciocínios, via-se a si mesmo diferente, outro  

homem, e se não fosse esse azar da perna estaria  

disposto a jurar que nunca em toda a sua vida se  

sentira tão bem” (Saramago, 2008, p. 77; 79-80).

Após esse momento em que demonstrou crescimento, awareness,  organização, insights, ele tomou uma atitude de coragem: enfrentou a dor  causada pelo ferimento na perna e foi em busca de ajuda, querendo, com isso,  satisfazer a necessidade que se configurou claramente. Organizou-se e  cresceu.

O crescimento, para Ribeiro (1997), é função do contato o qual permite deixar  livre o fluxo do encontro com o outro e com a vida e, assim, gerar mudanças e  abrir novas possibilidades. Ele afirma que é a partir do contato que a pessoa  pode se encontrar com a sua coragem, seu medo, sua esperança. O contrário  disso é a desorganização, o desajuste, ou seja, a interrupção do fluxo do  contato, da formação figura-fundo e, consequentemente, da não satisfação das  necessidades atuais do organismo.

É preciso organizar-se para que se possa almejar a saúde ou a cura, afinal,  segundo Ribeiro (1997), a saúde pressupõe um relacionamento harmonioso dos sistemas psíquicos, ao passo que adoecer é sinal de desequilíbrio. Na  saúde há a satisfação adequada das necessidades, o que implica na  autorregulação do organismo e liberação do processo dinâmico da formação  figura-fundo. Saramago (2008) também ressalta a importância da organização  como sinal de saúde e desorganização como doença: “Uma organização, o  corpo também é um sistema organizado, está vivo enquanto se mantém  organizado, e a morte não é mais do que o efeito de uma desorganização, E  como poderá uma sociedade de cegos organizar-se para que viva,  Organizando-se, organizar-se já é, de uma certa maneira, começar a ter olhos” (p. 281-282).

Nesse trecho pode-se perceber que, a partir de um todo organizado, as  pessoas podem começar a ver, ou seja, quando a pessoa se organiza, deixa  fluida a formação figura-fundo e é capaz de entrar em contato com o seu  interior, ela é capaz de ter clara a figura que se forma, a necessidade que  precisa ser satisfeita, a realidade na qual está inserida. O espaço encontrado  pelos cegos do grupo da mulher que tinha olhos ajudou-os a se organizarem.  Saramago (2008) “Olhos, uns simples olhos, uma mão capaz de nos conduzir e  guiar, uma voz que me diga, Por aqui. Estes cegos, se não lhes acudirmos, não  tardarão a transformar-se em animais, pior ainda, em animais cegos” (p. 134).

A mulher do médico também tinha esse espaço para si. Há uma passagem na  qual Saramago (2008) deixa bem claro a sua necessidade de ela voltar seus  olhos para si para, então, não perder seu referencial, seu eixo e entrar em  contato com as suas necessidades: “Uma vontade de rolar-se sobre si mesma,  os olhos, ah, sobretudo os olhos, virados para dentro, mais, mais, mais, até  poderem alcançar e observar o interior do próprio cérebro, ali onde a diferença  entre o ver e o não ver é invisível à simples vista” (p. 157-158).

Perls (1988) nos alerta para a importância do (re)encontro com o sábio interior, para a (re)significação dos fatos, não apenas no nível cognitivo, mas também  no nível dos sentimentos e da percepção de si e do mundo. Saramago (2008)  

expõe essa visão de integração entre corpo-mente: “De que servirá ter olhos  límpidos, e belos, como estes são, se não há ninguém para os ver. A mulher do  médico disse, Todos temos nossos momentos de fraqueza, ainda o que nos  vale é sermos capazes de chorar, o choro muitas vezes é uma salvação, há  ocasiões em que morreríamos se não chorássemos (...) As mãos da rapariga  dos óculos escuros buscaram onde agarrar-se, mas foi a mulher do médico que  suavemente as prendeu nas suas, Descanse, descanse” (p. 101).

Primeiramente, esse trecho aponta para algo já mencionado na fenomenologia  e reforçado por Perls (1988): “Em verdade, eu posso dividir a frase “Eu vejo  uma árvore” em sujeito, verbo e objeto. Mas na experiência o processo não  pode ser cindido desta maneira. Não há vista sem algo para ser visto. Nem  algo é visto sem olho para vê-lo” (p. 32). Porém, essa passagem literária  evidencia também que o contato com o interior, no caso a fraqueza e o choro, é  fundamental para o equilíbrio do sujeito. A mulher do médico (re)significou a  importância dos olhos. Se ela apenas racionalizasse, poderia supor, tal como o  fez inicialmente a rapariga dos óculos escuros, que eles servem apenas para  ver, no sentido físico. Porém, numa situação em que a fraqueza advinda da  situação em que olhos que viam deixaram de ver, encontra o outro sentido  desses: o choro, enquanto forma de expressão não verbal. O seu marido ainda  abre outro significado para esses: “O médico só disse, Se eu voltar a ter olhos,  olharei verdadeiramente os olhos dos outros, como se estivesse a ver a alma,  A alma, perguntou o velho da venda preta, Ou o espírito, o nome pouco  importa, foi então que, surpreendentemente, se tivermos em conta que se trata  de pessoa que não passou por estudos adiantados, a rapariga dos óculos  escuros disse, Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o  que somos” (Saramago, 2008, p. 262).

Nesse trecho os olhos são entendidos como espelhos da alma. Ainda aí,  Saramago (2008) abre uma discussão sobre o que é alma, mantendo a visão  holística de homem. Essa discussão sobre esse aspecto assemelha-se à visão  existencial-fenomenológica de essência. A essência, segundo Ribeiro (1998), é  construída a partir das relações que a pessoa estabelece ao longo da vida e é  o que torna a pessoa o que ela é. Sendo assim, a existência é anterior à  essência. Esta é formada a partir daquela.

Esses trechos apontam também para algo já denunciado, segundo Ribeiro  (1998), pela gestalt-terapia: a substituição da disjunção OU pela aditiva E. Os  olhos não servem apenas para ver, no seu sentido literal, OU para chorar, OU  para ver a alma das pessoas, mas sim, para todas essas possibilidades. Sendo  assim, esses trechos apontam para a integração consciência E corpo,  sentimento E ação. Porém, esse pensamento é difícil de ser encontrado na  modernidade, uma vez que as pessoas estão muito mais acostumadas a  excluir que incluir.

Ciornai (2004) questiona essa dualidade estabelecida, responsável pela cisão  corpo-mente-social. Para ela, as pessoas estão viciadas no pensar, o que  atrapalha o fluxo de awareness. No processo terapêutico, o  

(re)estabelecimento da totalidade da pessoa é fundamental. É preciso deixar a  mente para se chegar aos sentidos; abrir-se à vivência e ao contato e confiar  na sabedoria interna de cada um e na própria. Afinal, como expões Saramago  (2008), “Se não podemos confiar uns nos outros, aonde é que vamos parar,  perguntavam uns” (p. 107).

Como já demonstrado, a mulher do médico possuía essas posturas de  confiança e abertura, presença atenta, aceitação, respeito aos limites e ao  próximo, ternura, suavidade, clareza, carinho. Todas essas posturas são  mencionadas por Ribeiro (1997) e Ribeiro (1998), como sendo fundamentais  para o processo terapêutico enquanto propiciador de mudança, cura e saúde.  Isso pode ser percebido no trecho que se segue:

“Viu o marido levantar-se e, de olhos fixos,  

como um sonâmbulo, dirigir-se à cama da rapariga  

dos óculos escuros. Não fez um gesto para o deter.  

De pé, sem se mexer, viu como ele levantava as  

cobertas e depois se deitava ao lado dela, como a  

rapariga despertou e o recebeu sem protesto, como  

as duas bocas se buscaram e encontraram, e depois  

o que tinha de suceder sucedeu, o prazer de um, o  

prazer do outro, o prazer de ambos, os murmúrios  

abafados, ela disse, Ó senhor doutor, e estas  

palavras podiam ter sido ridículas e não o foram, ele  

disse, Desculpa, não sei o que me deu, de facto  

tínhamos razão, como poderíamos nós, que apenas  

vemos, saber o que nem ele sabe. Deitados no catre  

estreito, não podiam imaginar que estavam a ser  

observados, o médico de certo que sim, subitamente  

inquieto, estaria dormindo a mulher, perguntou-se,  

andaria aí pelos corredores como todas as noites,  

fez um movimento para voltar à sua cama, mas uma  

voz disse, Não te levantes, e uma mão posou-se no  

seu peito com a leveza de um pássaro ele ia falar,  

talvez repetir que não sabia o que lhe tinha dado,  

mas a voz disse, Se não disseres nada compreenderei melhor. A rapariga dos óculos  

escuros começou a chorar, Que infelizes nós somos,  

murmurava, e depois, Eu também quis, eu também  

quis, o senhor doutor não tem culpa, Cala-te, disse  

suavemente a mulher do médico, calemo-nos todos,  

há ocasiões em que as palavras não servem de  

nada, quem me dera mim poder também chorar,  

dizer tudo com lágrimas, não ter de falar para ser  

entendida. Sentou-se na borda da cama, estendeu o  

braço por cima dos dois corpos, como que para  

cingi-los no mesmo amplexo, e, inclinando-se toda  

para a rapariga dos óculos escuros, murmurou-lhe

baixinho ao ouvido, Eu vejo. A rapariga ficou imóvel,  

serena, apenas perplexa porque não sentia  

nenhuma surpresa, era como se já o soubesse  

desde o primeiro dia e só não tivesse querido dizê-lo  

em voz alta por ser um segredo que não lhe  

pertencia (...) Depois a mulher do médico disse ao  

marido, Deixa-te ficar um pouco mais, se queres,  

Não, vou para a nossa cama, Então ajudo-te.  

Ergueu-se para lhe deixar os movimentos livres (...)  

Ele levantou-se devagar, buscando apoio (...) então  

ela, como sempre havia feito, agarrou-lhe um braço,  

mas agora o gesto tinha um sentido novo, nunca ele  

precisara tanto que o guiassem como neste  

momento, porém não poderia saber até que ponto,  

só as duas mulheres o souberam verdadeiramente,  

quando a mulher do médico tocou com a outra mão  

a face da rapariga e ela impulsivamente lha tomou  

para levar aos lábios. Pareceu ao médico que ouvia  

chorar, um som quase inaudível, como só pode ser o  

de lágrimas que vão deslizando lentamente até as  

comissuras da boca e aí se somem para  

recomeçarem o ciclo eterno das inexplicáveis dores  

e alegrias humanas. A rapariga dos óculos escuros  

ia ficar só, ela era a que devia ser consolada, por  

isso a mão da mulher do médico tardou tanto a  

desprender-se” (Saramago, 2008, p. 171-173).

Esse trecho demonstra a importância do deixar sentir, sem a sua interrupção  através de justificações racionalizadas, do acolhimento do outro enquanto  pessoa, do respeito entre os três personagens, a compreensão contextualizada  do fato. Foram momentos como esse, vivenciados por todos daquele grupo,  que possibilitaram a cura dos cegos. E demonstrando que o contato  transforma, Saramago (2008) ressalta através da personagem da rapariga dos  óculos escuros, transformada pelas relações, que hoje seria capaz de viver  com o velho da venda preta: “A mulher que então era não o diria, reconheço,  quem o disse foi a mulher que sou hoje” (p. 292).

Então, entre tantos acontecimentos difíceis, dolorosos, que beiravam o  insuportável, o grupo da mulher do médico e ela mesma, devido às relações  terapêuticas que se estabeleceram, foram, ao longo do caos que lhes era  oferecido, se organizando, fortalecendo, (re)significando as relações,  recuperando a auto-estima, a autoconfiança e a coragem, se abrindo para a  vida, mudando, transformando. Eles escolheram viver o mais dignamente  possível dentro das possibilidades que estavam ao alcance. Os olhos que  viam, ou seja, os da mulher do médico foram fundamentais nesse processo de  cura o qual passaram os personagens, uma vez que foram a luz que faltava e o  guia necessário para que não se perdessem. Eles puderam (re)nascer, o que é  sempre possível enquanto se está vivo: “Finalmente, arrancou uma rama da  roseira que crescia num canto do quintal e foi plantá-la na base do moimento,  do lado da cabeça. Ressurgirá, perguntou a rapariga dos óculos escuros, Ela,  não, respondeu a mulher do médico, mais necessidade teriam os que estão  vivos de ressurgir de si mesmos, e não o fazem, Já estamos meio mortos,  disse o médico, Ainda estamos meio vivos, respondeu a mulher” (Saramago,  2008, p. 288).

Ao final, Saramago (2008) reforça mais uma vez a importância de integrar  corpo-mente para conseguir chegar à harmonia e equilíbrio do organismo, bem  como a necessidade que o homem tem de se renovar, limpar a sujeira  acumulada ao longo da existência e abrir-se às novas carícias ou atropelos da  vida, de maneira clara e direta: “Tudo o que pudesse servir para limpar um  pouco, ao menos um pouco, essa sujidade insuportável da alma. Do corpo,  disse, como para corrigir o metafísico pensamento, depois acrescentou, É o  mesmo. Então, como se só essa tivesse de ser a conclusão inevitável, a  conciliação harmónica entre o que tinha dito e o que tinha pensado, despiu de  golpe a bata molhada, e, nua, recebendo no corpo, umas vezes a carícia,  outras vezes a vergastada da chuva” (p. 265).

Sendo assim, a obra contemplada demonstra diversas situações e visões que  devem existir em um processo terapêutico, bem como a cura, a mudança, a  integração do todo, a abertura aos fenômenos, a (re)organização e, sobretudo,  a fundamental importância das relações da qualidade dos contatos que são  estabelecidos, uma vez que a abordagem gestáltica baseia-se especialmente  no contato como fator indispensável à vida e ao crescimento. Para Ribeiro  (1997), aquilo que não contata, perde o seu sentido, agoniza e, assim, morre.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

O homem moderno tem passado por um período de alienação em que  experimenta a cisão entre o eu e a sociedade, entre corpo e mente, entre  organismo e meio. Sendo assim, ele não consegue diferenciar o que é sua  necessidade e o que é imposição da sociedade, abdicando-se cada vez mais  da satisfação de suas necessidades e, então, cedendo à obediência passiva às  normas e tentando, apenas, atender às expectativas alheias.

Entendo os cegos de Saramago (2008) como personagens simbólicos do  homem moderno, estabeleço também sua relação com a cegueira metafórica.  Apesar de ter uma gama de possibilidades, as pessoas não conseguem  enxergar o que é prioritário, quais as suas necessidades e, assim, não podem  manter o equilíbrio do organismo. E é esse homem que muitas vezes procura,  angustiado, uma terapia.  

Sendo assim, o processo terapêutico deve auxiliar a pessoa no processo de  organização de suas necessidades, do contato com seu sábio interior, na  ampliação das possibilidades e no incentivo à autonomia e escolhas  responsáveis do cliente, ou seja, na sua retomada da visão. Para isso, é  fundamental a qualidade do contato entre terapeuta-cliente, uma vez que o  contato positivo propicia um campo para o crescimento, reflexões, integração e  awareness.  

Para que seja estabelecido esse contato genuíno, o terapeuta deve tomar  atitudes empáticas, de aceitação incondicional, acolhimento, cuidado e respeito  para com o cliente. Este não pode sentir-se ameaçado, julgado ou empurrado  para além dos seus limites. O terapeuta deve saber até onde ele e o cliente  conseguem caminhar em campo seguro, sem perderem o eixo referencial e  isso é dado a partir da relação e do fenômeno que se abre nesse momento. Avançar além do que são capazes pode gerar fechamento, enrijecimento e, até  mesmo, paralisação do processo de cura. Afinal, ninguém se desvela todo ao  mesmo tempo.

O processo terapêutico deve ser cuidadoso; o terapeuta deve estar atento às  partes que o cliente deixa desvelar e juntar essas peças que, aos poucos, vão  integrando o todo. É importante entender como a pessoa se defende, de que e  para que ela se defende, é também um trabalho importante do terapeuta. Ao  mesmo tempo em que a perda da visão pode levar à desorganização, ela  também pode ser uma proteção. A pessoa deve ver aquilo que está preparada  para ver.

Então, o terapeuta deve ajudar o cliente a desenvolver suas potencialidades,  sua autoestima, sua autoconfiança, sua autonomia e sua consciência para que  ele possa lidar com os fenômenos que se mostram, sem desintegrar-se com  isso. Através do crescimento, o cliente descristaliza-se, organiza-se e ganha  coragem para ver e enfrentar aquilo que vê. Não é, portanto, papel do  terapeuta, apontar o que o cliente deve ver, mas fortalecê-lo para que ele  próprio possa abrir os olhos. Abrir os olhos para a vida, para si, para o mundo.  Abrir os olhos e ver. Ver, inclusive, o momento de fechá-los e esperar o  momento de abri-los novamente.  

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Endereço para correspondência:

Karina Manci Silveira

kkmasci@yahoo.com.br

Recebido em:05/06/2012

Aprovado em:06/12/2012

Revista IGT na Rede, v. 10, nº 18, 2013, p.81-103 DOI 10.5281/zenodo.15042800

Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526