ARTIGO

Gestalt-terapia: fenomenologia na prática clínica

Gestalttherapy:phenomenologyon the clinical practice  

Ulisses Heckemaier de Paula Cataldo

RESUMO

O presente trabalho pretende estudar, através de uma revisão bibliográfica, a  influência da fenomenologia na prática clínica da Gestalt-terapia. Para tal, por  motivo de opção de trabalho, é realizada uma investigação da proposta  fenomenológica, idealizada por Husserl, focando o contexto do seu surgimento  (a crise do pensamento cartesiano), o uso da epoché como método, e a  particularidade da consciência como Intencionalidade. Por fim é feita uma  leitura da prática clínica da Gestalt-terapia como arte do contato, identificando o  self como conceito central para o entendimento da metodologia  fenomenológica na prática clínica, com a intenção de marcar a ruptura com o  paradigma reducionista vigente nas demais abordagens psicoterapias, bem  como de sinalizar as peculiaridades de tal postura.  

Palavras-Chave: Gestalt-terapia, fenomenologia, intencionalidade,  consciência, clínica.

ABSTRACT

This paper intends to study, through a literature review, the influence of  phenomenology in clinical practice of Gestalt therapy. For this was conducted  an investigation of the proposed phenomenological, as conceived by Husserl,  focusing on the context of its emergence (the crisis of Cartesian thought), the  use of epoché as a method, and the particularity of consciousness as  intentionality. Finally we made a study of clinical practice of the Gestalt-therapy  as art of contact, identifying the self as a central concept for understanding the  phenomenological method in the clinic, with the intention of making a break with  the prevailing paradigm reductionist approaches in other psychotherapies, and  as signaling the peculiarities of such a stance.

Keywords: Gestalt therapy, phenomenology, intentionality,  

consciousnessclinic.

1 - INTRODUÇÃO

Modelos de construção da realidade, impreterivelmente, partem de bases  epistemológicas. Isto é, toda teoria, movimento e escola de pensamento tem na  sua base uma posição quanto à forma de se apreender a realidade. Identificar  essas bases promove rigor às práticas que advém de tais movimentos e/ou  teorias. Dessa forma, o estudo da epistemologia é relevante uma vez que  sustenta todo o sistema conceitual que dá suporte às práticas proferidas por  um determinado campo de saber.

A prática e a própria construção dos conceitos de uma teoria, devem  corresponder à epistemologia que sustenta a teoria. Em outras palavras, a falta  de coerência entre a forma basal de se interpretar o conhecimento, bem como  a explicação do que é, ou não, real, com os conceitos e práticas de uma teoria  a tornam pobre, fraca, desvalorizando suas hipóteses e técnicas.  

No entanto, nem sempre essa base fundamental é devidamente estudada e  compreendida. No que se refere à abordagem Gestáltica, ao contrário de  outras abordagens, tal esforço é presente desde os primeiros autores que  seguiramas ideias de Perls e seus colaboradores, como escrevem os teóricos  da segunda geração Yontef (1993) e Ginger (1995). Preocupação, esta,  também presente em recentes trabalhos, como Ribeiro (2007), Rodrigues  (1999), e Müller-Granzotto (2004, 2007a). Em virtude das particularidades e  discordâncias entre os trabalhos acima mencionados,priorizaremos o estudo da  fenomenologia a fim de responder a seguinte indagação: a Gestalt-terapia, no  que se refere à prática clínica, tem a fenomenologia como método e base  epistemológica?

A resposta a essa indagação nos fez voltar às bases do pensamento  cartesiano para identificar a particularidade e singularidade de fenomenologia.  Como uma proposta de filosofia de rigor, Husserl almejou chegar às coisas  mesmas: a uma epistemologia que servisse de base para todas as ciências. A  fenomenologia vem criticar o universalismo e o psicologismo, pensamentos  estes que confinam o fenômeno humano a uma consciência encapsulada, a  uma interioridade entendida como essência. A psicanálise e o Behaviorismo,  segundo Feijó (2000), são exemplos de abordagens que situam o fenômeno  humano a partir de teorias que tem por base as ciências da natureza. Desse  modo, o homem é encerrado a leis naturais ocultas ao aparente, ocultas ao  sensível enganador. O self, sob a perspectiva do psicologismo, é entendido  como centralidade numa lógica linear de causa-efeito, como uma instância  essencial e formadora da personalidade, somente mutável de acordo com o  funcionamento natural da mente.

A fenomenologia por sua vez, aborda o problema do conhecimento de forma  totalmente diferente. Compreende o real como co-originário da consciência  transcendental, num movimento de apreender as coisas, os fenômenos, como  aparência para uma consciência, reintroduzindo o sensível a partir da redução  fenomenológica.Husserl, que pretende, com a fenomenologia, uma nova  atitude frente ao ser e a consciência, bem como um novo método que sirva de fundamento a todas as ciências, propõe uma visada ao ser em sua “doação  originária”, tal como este se mostra à consciência. Para Husserl o sentido do  ser e do fenômeno não pode ser dissociado, sendo a idéia de consciência  transcendental fundamental para a compreensão do exercício da epoché. A  consciência para a fenomenologia, ao contrário do racionalismo que a  encapsula, e lhe confere faculdades, é entendida como atos em fluxo, ou seja,  como atos intencionais. É transcendental por que não se reduz nem ao mundo  empíriconem aos próprios pensamentos, sendo os fenômenos apreendidos  como se revelam (não existindo por si, nem, muito menos, pela ação da  consciência). A consciência, para Husserl, é transcendente ao mundo empírico,  e ao domínio do pensamento (ao psicológico), sendo a visada do fenômeno  entendida como um exercício do co-originalidade consciência-mundo.

O contraste entre a fenomenologia e as formas reducionistas (empíricas e  idealistas) de abordar o fenômeno humano é evidente, no entanto, somente  uma investigação detalhada da referida postura epistemológica em  comparação com a prática da clínica Gestálticapodem responder nossa  principal indagação. Propõe-se, pois, no primeiro capítulo, o estudo da  fenomenologia de Husserl identificando seu contexto de surgimento, e sua  principal característica: o uso da epoché como método, como atitude, que,  segundo Husserl, embasaria todas as ciências.  

No segundo capítulo discutimos a clínica Gestáltica compreendida como uma  clínica do contato. Abordaremos, para maior rigor e compreensão dos  processos clínicos, os principais conceitos da Gestalt-terapia, e identificaremos  a metodologia clínica da Gestalt-terapia focando no conceito do self como  sistema de contatos.

Para concluir, o terceiro capítulo visa identificar a prática clínica da Gestalt terapia, construída no capítulo anterior, como não apenas condizente com o  método fenomenológico de se interrogar a realidade, mas como um puro  exercício da epoché.

Desta forma, espero contribuir para uma reflexão acerca da busca de rigor para  as práticas psicoterapêuticas em Gestalt-terapia, e de investigação de suas bases epistemológicas, no intuito de posicioná-la ou interpretá-la à luz da  fenomenologia, bemcomo refletir acerca de uma clínica sem naturalizações dos  fenômenos humanos.

2- OBJETIVOS  

2.1- GERAL

Investigar a pertinência da fenomenologia como método clínico e correlativa  base epistemológica da Gestalt-terapia.

2.2- ESPECÍFICOS

∙ Identificar no que consiste a fenomenologia tal como entendida por  Husserl.

∙ Focar a diferença entre a visão racionalista predominante e a noção  fenomenológica de consciência e através da leitura do método  fenomenológico.

∙ Distinguir a proposta de clínica na abordagem gestáltica a fim de  compará-la com o método fenomenológico.

3 - METODOLOGIA

A metodologia empregada consiste na revisão bibliográfica de livros e artigos  publicados, englobando tanto autores da Gestalt-terapia, quanto autores da  filosofia. De acordo com Gil (1999), a pesquisa bibliográfica é desenvolvida  mediante material já elaborado, abrangendo todo o material tornado público  sobre determinado assunto.  

A busca bibliográfica privilegiou leituras de publicações de professores da  Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e clássicos da literatura em Gestalt terapia, e filosofia. Também foi utilizado artigos de revistas eletrônicas. As  palavras Chave utilizadas foram: “self”, “fenomenologia”, “intencionalidade”,  “clínica” e “Gestalt-terapia”.

4 - O QUE É FENOMENOLOGIA?

O termo Fenomenologia não é propriedade de apenas um filósofo. Derivado do  grego phainesthai - aquilo que se apresenta ou que se mostra - e logos - explicação, estudo, a fenomenologia pode ser entendida como a ciência que  trata do aparecimento do fenômeno; sendo este tudo aquilo que aparece. No  entanto, sua essência, e seu uso foramcunhados de diferentes formas, por  diferentes pensadores, designando, assim, diferentes contribuições e  interpretações. Dessa forma, uma definição mais complexa e rigorosa do termo  é necessária, uma vez que trataremos de visão específica de Husserl sobre a  questão.

O que é a fenomenologia de Husserl? Segundo Dartigues (1992), Husserl deu  um novo conteúdo para a palavra fenomenologia, bem diferente e inovador, comparado à filosofia até seus escritos. Como crítica aopensamento positivista, Husserlpropõe um método seguro e rigoroso para fundamentar todas as  ciências, transformando a filosofia numa ciência de rigor.

A fenomenologia, conforme o pensamento de Husserl, portanto, é uma atitude  filosófica e um método que visa o rigor mais radical para o conhecimento. O  caráter inovador da fenomenologia é a volta ao fenômeno puro, às essências  assim como aparecem, à retomada do sensível (abandonado pelo pensamento  Cartesiano). O pensamento de Husserl marca a ruptura com as formas de  visada do fenômeno até então, atingindo, dessa forma, o mais original: o fenômeno tal como aparece para a consciência - entendida como fluxo, não  como interioridade.

Segundo Dartigues (1992), A fenomenologia nasceu na última década do  século XIX, período dos primeiros trabalhos de Husserl. Período este também  marcado por uma grande derrocada dos grandes sistemas filosóficos  tradicionais. Hegel, que iluminou todo o pensamento alemão nas décadas  anteriores, não é mais tão influente, assim como o pensamento de  Schopenhauer entra em declínio. Autores como Marx, Freud e Nietzsche tão  pouco tinham suas ideias difundidas. Quem preenche o espaço vazio deixado  pelo declínio do pensamento é a ciência positivista.

O positivismo tem como marca principal o conhecimento objetivo, observável,  empírico, que exclui toda a subjetividade. A pretensão das ciências ao utilizar  tal método era desvelar o mistério do real, ou seja, as leis subjacentes que  explicariam a natureza; leis estas mecânicas, obedecendo à doutrina  mecanicista e determinista, que acompanham a ciência. O objeto das ciências  naturais, como a física, por exemplo, era compreendido como o ser em-si,  como a observação empírica da realidade. A realidade, o ser em-si, no caso, os  objetos dessas ciências, guardariam todas as explicações dos fenômenos da  natureza, compreendidos na relação de causa-efeito.

No domínio das ciências, do conhecimento empírico e objetivo, o naturalismo e  a psicologia são as doutrinas mais criticadas por Husserl. O Naturalismo,  regido por métodos indutivos e dedutivos (se distanciando do conhecimento  intuitivo), procura construir sistemas que abracem todo o conhecimento,  unificando sob um mesmo preceito - a medida, a mensuração, o cálculo - todo  o campo do saber. A psicologia, por sua vez, busca constituir-se como ciência  abraçando o modelo das ciências naturais naturalizando a consciência e  encapsulando-a no sujeito. Os fenômenos humanos, na psicologia, são  abordados através de uma dicotomia que entende a natureza a partir de  mecanismos provenientes de faculdades mentais (faculdades da razão,  faculdades do Eu). Esse movimento abandona totalmente o sensível e o corpo;  um como enganador, e outro como natureza de ordem ultrajante ao espírito.

Dessa forma, como conclui Merleau-Ponty:

A fenomenologia se apresentou desde o seu início como  

uma tentativa para resolver um problema que não é o de  

uma seita: ele se colocava desde 1900 a todo o mundo, e  

ele se coloca ainda hoje. O esforço filosófico de Husserl é,  

com efeito, destinado em seu espírito a resolver  

simultaneamente uma crise da filosofia, uma crise das  

ciências do homem e uma crise das ciências pura e  

simplesmente, da qual ainda não saímos (citado por  

Dartigues, 1992, pag. 8).

Para melhor compreensão a crítica de Husserl é necessário voltar ao inicio do  pensamento científico, e discutir suas propostas. Desde o século XV, segundo

Morente (1964), fatores históricos como a destruição da unidade religiosa, as  guerras de religião e o advento do protestantismo abalaram a crença  aristotélica. A descoberta de que a Terra é redonda racha a física de  Aristóteles, mudando radicalmente a imagem que se tinha da realidade  terrestre. Além disso, o homem do século XVII também descobre o céu nos  trabalhos de Kepler e Copérnico, e, com isso, a terra deixa de ser o centro do  universo para ser mais um dos planetas em órbita.

Adventos como estes não puderam ser ignorados, e a necessidade de novas  perguntas se fizeram presente. A dúvida é a palavra de ordem, e dessa crise  nasce um novo campo na filosofia, a epistemologia, ou seja, o método para se  chegar ao conhecimento.

René Descartes, filósofo francês, é o principal nome deste momento. Dele que  toda a filosofia da subjetividade se desenvolverá, passando pelos empiristas  ingleses, Leibnitz, Kant, e posteriormente Hegel, dentre outros. Descartes quer  achar um princípio do qual não se possa ter dúvida. Uma certeza, uma verdade  que resista a toda e qualquer dúvida, e que fundamente todo o conhecimento e  as ciências. Para tal, utilizará o método da dúvida metódica.

Descartes parte do princípio de eliminar do seu juízo todos os elementos que  lhe atribuíssem qualquer tipo de dúvida, tudo aquilo que não fosse uma certeza  absoluta, ou uma “evidência apodídica”. Para ele, todo o conhecimento até  então era enganador, assim como o senso comum, devendo ser abandonados  como princípio para se chegar à verdade. Da mesma forma, os dados do  sensível também eram enganadores, devendo, igualmente, serem postos de  lado.  

Na busca pela primeira verdade indubitável, que levaria, numa cadeia de  razões, a outras verdades, a dúvida converte-se em método, e se torna  hiperbólica. Descartes chega ao extremo com a dúvida, ao total cepticismo. A  dúvida extrema, então, faz Descartes inverter a relação sujeito-objeto  conhecida até então. Em atitude oposta do realismo, ele vai voltar-se para o  próprio interior, para o próprio pensamento: a primeira certeza de Descartes, a  verdade acima de qualquer suspeita é que ele não pode duvidar que duvida.

Nas palavras de Descartes:

(...) enquanto eu queria assim pensar que tudo era falso,  

cumpria necessariamente que eu, que pensava, fosse  

alguma coisa. E, notando que esta verdade: eu penso,  

logo eu existo, era tão firme e tão certa que todas mais  

extravagantes suposições dos céticos não seriam  

capazes de abalar, julguei que podia aceitá-la, sem  

escrúpulo, como o primeiro princípio da filosofia que  

procurava (1637/1973, pag. 54).

Dessa forma, a filosofia muda por completo. A atitude natural do realismo, que  prega a inteligibilidade da natureza (o conhecimento refletindo na mente a mesmíssima realidade) é invertida. E, a partir de Descartes, todo o  conhecimento passa a derivar do pensamento, do Eu pensante, da razão;  postura conhecida, na filosofia, como o Racionalismo.

A primeira certeza de Descartes é o próprio pensamento, que assegura a  existência do mundo, das coisas. Enquanto se pensa, o objeto pensando  existe. Descartes considera o pensamento não como um ato, mas como  conhecimento, como uma substância dotada de existência: a substância  pensante. Esta é a primeira dicotomia de Descartes: a separação entre o  

sujeito que conhece, e o objeto que é apreendido pela razão, pela consciência,  pela alma do sujeito.

Partindo do principio da certeza no pensamento, Descartes distingue os  pensamentos confusos, nebulosos, não distintos nitidamente dos pensamentos  claros e distintos, estes bem nítidos, e que podem ser divididos nas partes que  o compõe sem confusão alguma. Sendo Deus, então, uma ideia clara e  distinta, portanto perfeita, ela deveria ser possível à alma devido a um ser mais  perfeito que o próprio homem que pensa. Esse ser, Deus, portanto, como  perfeito que é, é causa da própria existência.

Provada, pois, a existência de Deus, e como esse é perfeito, justo e bom (não  enganador), Descartes prova, por conseguinte, a existência do mundo material.  A dúvida metafísica é superada a partir da ideia de Deus, donde se podem  derivar os critérios de verdade, justiça, beleza, clareza, além de provar uma  causa soberana bela e justa. As ideias claras e distintas, pois, são o critério e a  fonte de toda a verdade, de toda a certeza uma vez que são inatas, ou seja,  são colocadas em nós por um Deus bom e justo.

O mundo cartesiano obedece às ideias claras e distintas das matemáticas, das  geometrias; um mundo de puras realidades geométricas. Um mundo mecânico,  regido por leis deterministas. Leis, essas, descobertas através da razão, onde o  

sensível é totalmente abandonado como meio para o conhecimento. É o  mundo das ciências modernas.

A ciência, como uma invenção do século XVII, nutre-se do espírito cartesiano  ao modular, principalmente segundo a física de Newton e Galileu, o universo  como mecânico. A ideia de Descartes de eliminar o confuso e o obscuro  aparece nas ciências, segundo Morente (1964), no sentido de eliminar (reduzir)  do universo a qualidade, e não deixar mais do que a quantidade; esta  submetida à medida, a lei.  

O universo, antes imutável, como forma perfeita, agora, para o cientista, é uma  máquina composta de polias e engrenagens, como um autômato, ou um relógio  (símbolo do pensamento mecanicista). O universo passa a ser regulado e  determinado por leis, as leis da física (as leis de Newton), comportando o  principio da inércia e da causalidade.

A natureza, como pálida expressão de leis ocultas do seu real funcionamento,  é o que procura o cientista através da observação empírica traduzida em equações matemáticas (através de exercícios da razão). “Neste modelo,  portanto, o mundo possui a topologia do contínuo, a atitude do cientista é  neutra, e a compreensão dos fatos dá-se pela explicação dos mecanismos e  pela fragmentação do todo em suas partes” (Feijoó, 2000, p.18).

O espaço e o tempo são absolutos, dentro de um passar contínuo de tempo, e  imutável; existindo independente da presença do observador. As leis  respondem a uma causalidade mecanicista (linear e unidirecional), sendo todos  os fenômenos do espaço determináveis no sentido passado, presente e futuro,  formando cadeias de causa e efeito interdependentes. Matéria e energia são os  fundamentos básicos, sendo a primeira, a substância, de todas as coisas, e a  segunda a força propulsora dos objetos (constante e determinística).  

Tem-se o primado da matéria, atribuindo-se ao empírico todo o método  possível de apropriação do real. O homem moderno, pois, vai à realidade  através da razão, tendendo a “considerá-la como realidade autônoma e mais  ‘objetiva’ que a realidade sensível, já que era somente por seu intermédio que  se podiam descobrir leis rigorosas, a propósito dessa ultima”(Dartigues, 1992,  p. 76).

Citando novamente Manuel Garcia Morente:

Descartes extrai do Eu um mundo de pontos e figuras  

geométricas. Mas consultemos um livro de física  

contemporânea e veremos que realidade nos apresenta;  

apresenta-nos uma realidade composta de equações  

diferenciais, integrais, de prótons, de elétrons, de  

‘quantas’ de energia; uma realidade entre a qual e nossa  

realidade vital sensível e tangível existe um abismo, não  

menor, antes muito maior ainda que aquele que abriu  

Descartes entre esses dois mundos. É que, com efeito, o  

pensamento de Descartes guia, anima, de um lado, todo  

o pensamento científico, e, de outro, todo o pensamento  

filosófico em nossa cultura moderna. (1964, pag. 174).

Descartes, no seu racionalismo, aprisiona a consciência (a alma, o  pensamento, ou a razão) como algo localizado no tempo e no espaço,  separando a substância que pensa da substancia corpórea (determinada pelo  pensamento).  

Nas palavras de Descartes:

“(...) compreendi por aí que era uma substancia cuja  

essência era pensar, e que, para ser, não necessita de  

nenhum outro lugar, nem depende de qualquer material.  

De sorte que esse eu, isto é, a alma, pela qual o que sou,  

é inteiramente distinta do corpo e, mesmo, que é mais  

fácil de conhecer do que ele, e, ainda que este nada fosse, ela não deixaria de ser tudo o que é” (1637/1973, p. 54).

Tal noção, foco da segunda meditação cartesiana, encerra o sensível como  enganador, e o corpo como matéria extensa (regida por leis deterministas). A  consciência encapsulada, dessa forma, responde às mesmas leis, na forma de  leis do psiquismo. O homem passa a ser mecanismo em tudo aquilo que não é  pensamento puro, como qualquer animal, como qualquer aparelho.

Descartes, pois, buscou a certeza e agiu em meio a um método que lhe  garantisse rigor. Esse projeto tem continuidade com Husserl, que vai buscar na  filosofia o seu rigor.

Husserl, como dito anteriormente, quer elevar a filosofia à ciência de rigor, que,  por sua vez, embasaria todas as ciências. Ele reconhece no projeto moderno a  fracassada intenção de criar uma filosofia, centrada na questão do método,  como ciência rigorosa. A filosofia moderna teve como fruto, segundo Husserl, a  fundamentação e a autonomia das ciências naturais, o que marca uma  carência quanto a uma forma rigorosa de ciência. Para Husserl, a filosofia não  pode apreender-se, não possui intelecções objetivamente compreendidas e  fundamentadas, como no caso das matemáticas.  

A filosofia é, segundo Husserl (1965), a representante da aspiração do  conhecimento puro e absoluto não sabe como constituir-se como verdadeira  ciência. Carece de problemas e métodos plenamente esclarecidos no seu  significado. Nas palavras de Husserl:

“Não digo que a filosofia seja uma ciência imperfeita. Digo  

simplesmente que ainda não é ciência, que não chegou a  

sê-lo, a julgar pelo critério de um conteúdo – ainda que  

reduzido – teórico, objetivamente fundamentado, que  

possa ser doutrinado”(1965, pag. 20).

A fenomenologia, como nova doutrina filosófica, tem a proposta, portanto, de  ser uma ciência que fundamente com bases sólidas e seguras todo o  conhecimento. Para tal propõe uma reforma rigorosa da filosofia. A crítica de  Husserl tem como alvo a falta de critérios rigorosos para os objetos de estudo  das ciências positivistas.

O conhecimento científico, objetivo, é o alvo das ciências naturais, toma o real  como empírico, como existente em si mesmo, como dado evidente, o mesmo  ocorrendo para a ciência da consciência, a psicologia. Ainda mais, quanto a  uma investigação da relação entre a consciência e o ser, o naturalismo  identifica o ser como realidade da própria consciência, como correlativo, em  conformidade com a essência da consciência.

A postura de que a realidade fala por si, na forma de leis, obscurece o discurso  racionalista que habita suas profundezas. O cientista fala do ser como se este fosse constituído pelas próprias fórmulas e esquemas que o cientista fala,  comportando propriedades e leis que podem ser estudadas por si próprias.  

Como as leis da ciência transmitem sua exatidão aos fenômenos da realidade,  elas tendem a reduzir a natureza como realidade autônoma, em si mesma;  considerada, essa realidade científica, mais objetiva que os dados do sensível,  enganadores e não suficientes para o desvelamento dessas leis.

O naturalismo, como escreve Husserl em (1965), “resulta do descobrimento da  natureza como unidade do ser no tempo e no espaço” (p.12); ou seja, como  dito anteriormente, essa doutrina, propaga-se na realização da ideia da  natureza como ciência natural (que visa, através do método científico,  encontrar as leis, as verdades, por detrás dos fenômenos). A forma extrema de  naturalismo, seguindo o argumento de Husserl, é o psicologismo, a  naturalização da consciência. A redução dos dados intencionais e imanentes  da consciência a leis, e modos de funcionamento psicofísico.

O psicologismo é justamente essa tendência a encerrar às leis naturais os  fenômenos psíquicos. É, senão, o modelo do método das ciências da natureza  aplicado à consciência. Assim, os estudos acerca da consciência e do  conhecimento ficariam reduzidos a uma substância pensante, a razão  interiorizada, com suas faculdades, classificações e características. “O  psíquico é dado como um Eu, como experiência vivida de um Eu, que  empiricamente aprendemos manifestar-se relacionados com certas coisas  físicas, chamadas de corpos” (Husserl, 1965, pag.15).

A psicologia, dessa forma, seria a disciplina que fundamentaria a lógica, teoria  do conhecimento, ética, estética, e pedagogia numa metodologia científica  experimental que serviriade base para todas as ciências do espírito.  

O naturalismo, pois, é racionalista e objetivista. Em outras palavras, tira seus  fundamentos nas premissas das suas próprias teorizações e julga montar  teorias que negam as suas verdadeiras premissas. Ou seja, para sua valoração  filosófica para fins metafísicos usa uma filosofia de base precedente. “Seu  contra-senso oculta-se a ele próprio, residindo na naturalização da razão”  (Husserl, 1965. Pag. 10).  

Nas palavras de Husserl:

Evidencia-se que – igual a toda posição científica da  

Natureza – a sua posição pré-científica numa Teoria do  

Conhecimento que conserve o seu sentido uníssono,  

deve em princípio ficar excluída, e com ela todas as  

afirmações que implicam posições existenciais, téticas, de  

objetos concretos, como o espaço, o tempo, a  

causalidade, etc. Isto parece que se estende ainda a  

todas as posições existenciais que se referem à  

existência do homem investigador, das suas capacidades  

psíquica, e coisas semelhantes (Husserl, 1965, pag.17).

O que se deriva desse problema é a confusão por parte das ciências  positivistas naturalistas quanto ao seu objeto de estudo. As ciências naturais  (sendo a psicologia aqui também inclusa), devido a essa ingenuidade e  arrogância, não têm claro seu objeto, “confundido a descoberta das causas  exteriores de um fenômeno com a natureza própria desse fenômeno”  (Dartigues, 1992. p.12); perdendo de vista a que se referem seus resultados  obtidos através dos seus métodos e pesquisas.

Nomes como Dilthey e Brentano já propunham uma reformulação do objeto de  estudos da psicologia. O primeiro era, conforme escreve Dartigues  (1992),crítico do psicologismo, pregando o retorno de um “sentimento da vida”  para a psicologia. Entendia que os dados psíquicos, diferente dos fenômenos  naturais, com dados imediatos, supostos de descrição e compreensão.

Brentano, professor de Husserl, por sua vez, compartilha da critica de Dilthey.  Estuda a exploração do campo da consciência com os modos de relação ao  objeto. Vai distinguir fundamentalmente os fenômenos psíquicos dos físicos;  sendo os primeiros dotados de uma intencionalidade,oquequer dizer que o  modo de visada que temos dos fenômenos na sua percepção original,  constituem o seu conhecimento fundamental (Dartigues, 1992).  

No entanto, se ainda é evidente um subjetivismo no pensamento de Brentano,  este ainda faz um psicologismo, buscando a operação mental que fundamenta  a matemática. Husserl, por sua vez, busca a superação do psicologismo, ainda  

encontrado em Brentano, como coloca Dartigues: “Um ultrapassamento da  psicologia descritiva de Brentano era necessário, e é este ultrapassamento que  Husserl realizará sob o nome de fenomenologia” (1992, p.10).

A proposta Husseliana é de uma consciência inovadora, visto que a teoria do  conhecimento jamais trabalhara a questão com rigor necessário. A  investigação deste autor consiste no que a consciência é, na sua essência, e,  simultaneamente, para aquilo que ela significa em todas as suas formas  distintas. Em como ela, em virtude da essência dessas formas, prova o valor e  a realidade das mesmas.

Husserl está interessado no pensamento mais original, no fenômeno puro, na  consciência pura (a vivencia pura, essa, que não pode ser estudada a partir de  nenhuma teorização). Os fenômenos puros, na sua originalidade, devem ser  apresentados como dados (no sentido de dar-se, de modos de mostração), em  conformidade com o sentido de cada intelecção (e não dados como verdades  ocultas ao aparente). Vê a consciência como vivência, como simples presença  do fenômeno imanente.

A psicologia das ciências naturais, ao apreender o fenômeno sob a ótica do  psicofísico perde a sua originalidade. Uma análise da consciência pura, uma analise verdadeiramente rigorosa e basal de todo o conhecimento, entende o  fenômeno como dado imediato: consciência como consciência de. Nas  palavras de Husserl:

“O significado da afirmação de a objetividade concreta  

existir e provar-se inteligível como existente e no modo da  

sua existência, é que deve evidenciar-se meramente  

como a própria consciência, compreendendo-se, por  

conseguinte, perfeitamente. Para isso, é preciso o estudo  

da consciência total, visto ela por todas as suas formas  

assumir funções possíveis de intelecção. Sendo, porém,  

toda consciência, uma ‘consciência de...’, o estudo da sua  

essência inclui também o do significado e do seu objeto  

como tais” (1965.pag.19).

À fenomenologia interessa a consciência pura, não a consciência empírica  (existente em continuidade com a natureza). Portanto, Husserl foge às  hipostasias realistas e racionalistas, e fala de uma terceira via; esta rigorosa o  suficiente para fundamentar todo o conhecimento, a fenomenologia. O  fenomenólogo vê o mundo a partir do campo de mostração que se dá a  consciência, sem sentidos e determinações dadas.  

A descrição fenomenológica pretende chegar ao universal, na estrutura. Para  tal, aproxima o universal do singular, o objeto do sujeito, propondo uma  consciência intencional - uma atividade de co-originalidade com o mundo.

Husserl não se contenta com nada que não seja um dado absolutamente  evidente, com nada que não possa ser suscetível de um conhecimento  originário. Isso é, remete-se a algo que seja fiel ao propósito de garantia do  rigor. Para tal, procura sólidas que sejam evidencias absolutas, evidências “apodídicas”. O referido autor, dessa forma, se remete ao propósito cartesiano  de eliminar toda a dúvida a fim de se chegar ao conhecimento como evidência  última. Nas palavras do mesmo:

“Foi de um modo muito direto, diga-se expressivamente,  

que o estudo das meditações cartesianas interveio na  

nova configuração da fenomenologia nascente e lhe deu a  

forma e o sentido que agora tem e que quase lhe permite  

chamar-se de um novo cartesianismo, um cartesianismo  

do século XX” (Husserl, 1929, pag. 90).

No entanto, a proposta da fenomenologia vem de encontro não só com as  proposições cartesianas, como com o conhecimento empírico das ciências,  como visto anteriormente. Husserl retorna ao pensamento cartesiano o  liberando da sua última ingenuidade: propõe ao invés de o cogito ergo sun, o  cogito cogitatum(Penso pensamentos, lembro lembranças), o que marca a  fenomenologia como um novo método, uma nova epistemologia, bem como  uma nova atitude. Atitude esta que consiste em distinguir, a partir do que se  busca elucidar, o sentido último das coisas, a coisa em sua “doação originária”.  Husserl, como escreve Dartigues (1992) buscava a intuição originária, o  “princípio dos princípios”.

Por atitude natural pode-se dizer o que Husserl chamou de “tese do mundo”.A  crença de que o “mundo” revela-se a nós pela experiência sensível, este  situado espaço-temporalmente. Trata-se das coisas consideradas como entes  mundanos, dados em si, com suas respectivas propriedades. Postura esta caracterizada como “realismo ingênuo”, onde se aceita a existências das coisas  pura e simplesmente como são, sem um exame crítico. As ciências da  natureza se comportam sem qualquer dúvida ontológica a respeito dos objetos  que estudam, ou seja, tem uma postura de equivalência do ser real e como ser  percebido. Descartes critica esse realismo metafisico uma vez que deriva o  mundo da consciência. Para ele a existência da realidade era garantida pelo  pensamento, tinha a evidência do ser, do mundo, através do exercício do  pensamento (o racionalismo cartesiano).Num primeiro momento Husserl, como  escreve Tourinho (2011), ao criticar a hipostasia realista, chega a algo próximo  ao cógito cartesiano com a idéia de “evidência cogitatio”; a evidência de que os  dados dos sentidos não são suficientes para sustentar a evidência da realidade  por si só.

No entanto, Husserl vai além de Descartes ao generalizar a epoché também  para o âmbito da consciência, da vivência psicológica. Segundo Husserl, o  sujeito empírico também é um ente, assim como os entes mundanos, dado por  si. A consciência é vista como uma entidade interiorizada, psicologizada;  localizada espaço e temporalmente. Seus objetos lhe diferem por substância,  estes apreendidos, em si mesmos, por meio de suas faculdades,num plano  espaço-temporal com sentidos e determinações dadas por si mesmas. “O  transcendente passa a ser, portanto, entendido como fonte de dúvidas e de  incertezas, porém, abrangendo agora o eu empírico em sua relação com o  mundo natural” (Tourinho, 2011, pag.30).

Dessa forma, Husserl vai consolidar o deslocamento dos fatos empíricos, para  os fenômenos. Da subjetividade transcendental para a consciência  transcendental, capaz de ver os fenômenos tais como se apresentam,  consistindo o “puro ver” das coisas, a visada original. A fenomenologia  prescindirá da existência das coisas mundanas, para o puro ver, para os  fenômenos como se revelam, como se mostram para a consciência em sua  pureza irrefutável, na auto-reflexão da consciência transcendental.

Em outras palavras, para Husserl, conforme escreve Tourinho (2011), o  transcendental é o próprio domínio do conhecimento, domínio da autenticidade.  A consciência transcendental marca o retorno do sensível como fonte de  conhecimento, tirando este do domínio da razão. É o “retorno às coisas  mesmas”, ao puro fenômeno, a pura e original vivência. Tem-se sensível não  encerrado à percepção, ao órgão dos sentidos, pois, como diz Dartigues  (1992), tal posição encerraria ao cepticismo. Para Husserl, os fenômenos se  dão por intermédio dos sentidos, mas aparecem intuitivamente como dotados  de sentido, de uma essência (imanente ao fenômeno): “Eis por que, para além  dos dados dos sentidos, a intuição será uma intuição da essência do sentido”  (Tourinho,2011, pag.14).

Mas, por não se tratar de uma consciência interiorizada, empírica, mas sim da  consciência transcendental, um fenômeno é um fenômeno na e para a  consciência pura (ou transcendental). Ou seja, através do exercício da redução  fenomenológica (a epoché), a consciência é compreendida como fluxo, como  intencionalidade, em co-originalidade com o mundo. As coisas não são dadas  em si mesmas para uma consciência interiorizada (doadora de sentidos e  determinações), mas, do contrário, são visadas intencionalmente. A  consciência, como escreve C. Tourinho:

“(...)deve ser concebida a partir de sua relação intencional  

com o seu objeto que, em sua versão reduzida, enquanto  

um dado imanente, um conteúdo intencional da  

consciência. Trata-se, com tal redução, de fazer o mundo  

reaparecer na consciência como um horizonte de  

idealidades meramente significativas, que se revelam  

como um dado absoluto e imediato para uma tal  

consciência pura que o apreende e o constitui  

intuitivamente” (2011, p. 33).

A mesma consciência que apreende o objeto intuitivamente é responsável pela  constituição desse objeto no pensamento, como uma unidade de sentido, um  fenômeno puro. Puro significa não mundano, não factual, aquilo que não pode  ser pensado em termos de dados empíricos. Os objetos, as coisas, enquanto  cogitatum exigem uma doação de sentido que só pode vir através dos atos  intencionais, das unidades de sentido que pressupõe uma consciência doadora  de sentido. O fenômeno, pois, em sua co-originalidade, é logosao mesmo  tempo que fenômeno.

As coisas, portanto são para uma consciência a partir de um horizonte de  sentidos, se dão em co-originalidade. Não é a consciência que posiciona o  mundo, nem este impresso na consciência ingênua. A consciência como  intencionalidade, como ato, como fluxo, acontece na co-originalidade do dado  imanente, e da consciência doadora de sentidos. Se por um lado, na atitude  natural, o mundo se revela a consciência como fatual, na atitude  fenomenológica, de outra forma, o mundo se revela como pura significação; se  revela em sua totalidade, como fenômeno.

A causalidade, com o acontecimento temporal linear desaparece como  funcionamento da consciência. Como a consciência é correlacional, todo objeto  é intencional (conteúdos intencionais da consciência) e toda intencionalidade é  para o ato intencional – implicados mutuamente em co-originalidade. O tempo,  como escreve Dartigues (1992), é entendido como uma rede de múltiplos  agoras, cada um de uma vez,não como acontecimentos lineares que derivam  de uma base prévia de aprendizagem.

Husserl, pois, acaba com a dicotomia sujeito e objeto (entendida como  interioridade/exterioridade), nos remetendo sempre ao que é exterior, ao que é  transcendental à consciência empírica (psicológica). A redução fenomenológica  permite-nos lançar para o modo transcendental de consideração do mundo, recuperando a autêntica objetividade na própria subjetividade transcendental;  “uma exterioridade objetiva na pura interioridade” (Husserl, 1929, p. 34),  unindo, dessa maneira, o objetivo e o subjetivo

Husserl posiciona a dimensão intencional independente e anterior a toda  descrição psicológica, a toda introspecção, recuperando, assim, de um modo  original, a idéia de “objetividade imanente”. Dessa forma, o particular se torna  também universal, cabendo ao fenomenólogo a investigação da  intencionalidade - o exame dos elementos que, no ato de consciência pura, são  responsáveis pela constituição das diferentes modalidades do “aparecer”  enquanto tal (diferentes formas do dar-se dos objetos na consciência pura).  

Analisar o sentido íntimo das coisas, segundo a fenomenologia, significa,  portanto, analisar o sentido dos objetos intencionais, explicitando as  significações que se encontram aí implicadas, bem como as diferentes  modalidades de aparecimento desse mesmo conteúdo intencional.

Portanto, ao deslocar o eixo da epistemologia de uma apreensão empírica do  mundo para uma visada intencional, Husserl se abstém de considerar sobre a  existência do mundo, sem, no entanto, negá-lo. Para a fenomenologia, filosofia  como ciência rigorosa, o que interessa é o sentido dos objetos intencionais, o  “sentido do mundo”, e não os fatos. A consciência como fluxo, operando na  intencionalidade, no cogitatum, garante a objetividade e pureza da  fenomenologia como ciência do mais originário. Da “coisa mesma”, recuperada  pela consciência transcendental. “Para Husserl, somente assim a filosofia  poderia, definitivamente, se livrar das divergências de seu tempo, e da ameaça  do ceticismo iminente, reerguendo-se de forma inabalável” (Tourinho, 2011,  pag.39).

5 - GESTALT-TERAPIA E O SELF COMO CONCEITO OPERACIONAL  FENOMENOLÓGICO

Concordando com Ribeiro (2007), a Gestalt-terapia é uma abordagem que tem  por objetivo a arte do contato. É através do contato, na promoção de um  encontro mais rico e criativo, que o mal-estar vivido pelo cliente pode ser  ampliado e transformado em novas formas de existência. A terapia, dessa  forma, é um espaço para o exercício do contato, um exercício de troca na  vivência da relação entre terapeuta e cliente a fim de se expandir a awareness  e desenrijecer processos bloqueados do sistemaself. Nas palavras do autor  citado acima: “A Gestalt pode ser definida como uma terapia do contato em  ação (...)” (pag. 25).

Os principais autores da Gestalt-terapia, Perls, Hefferline e Goodman (1951),  partem do principio de que qualquer investigação psicológica, e de todo o  campo do saber das ciências, deve-se considerar o organismo e seu ambiente.  A Gestalt-terapia tem por objeto de estudo, e por finalidade clínica, o limite, a  interação entre organismo e ambiente, entendendo tal fronteira enquanto campo de presença, e identificando os comportamentos humanos como função  dessa interação. Nas palavras dos autores:

Denominemos esse interagir entre organismo e ambiente  

em qualquer função o ‘campo organismo/ambiente’, e  

lembremo-nos de que qualquer que seja a maneira pela  

qual teorizamos sobre impulsos, instintos etc, estamos  

nos referindo sempre a esse campo interacional e não a  

um animal isolado (1951, p. 42-43).

Para autores citados, organismo e ambiente não são substancias  distintas,antagônicas em sua natureza, como no pensamento Cartesiano, pelo  contrario, fazem parte do todo organismo/ambiente. O termo fronteira passa a  ideia de um limite “entre”, porém, do contrário, Perls, Hefferline e Goodman  (1951) preferem pensar em num limite “de”. A fronteira-de-contato, onde a  experiência ocorre, não separa o organismo de seu ambiente, mas sim o limita,  o contém, o protege e o diferencia. O Contato é função dessa fronteira.  

A experiência, como escrevem Perls, Hefferline e Goodman (1951), é função, e  se dá na fronteira entre organismo e ambiente, sendo, a realidadeum todo  organizado, uma Gestalt (com a obtenção de algum significado e a conclusão  de alguma ação). Pode-se dizer, portanto, que o contato “é a realidade mais  simples e primeira, sendo a percepção sensível derivada da experiência da  fronteira, constituindo, esta, uma estrutura unificada” (PHG, 1951, p 20).

O contato, em outras palavras, como escreve Perls (1973), pode ser definido  como awareness do campo ou resposta motora no campo; entendido como tipo  de interação que se tem na fronteira num movimento de consciência (de) e  ação (para). Esta interação inclui a awareness da novidade assimilável e o  comportamento com relação a esta; que pode ser da ordem da assimilação, ou  rejeição: “É na fronteira que os perigos são rejeitados, os obstáculos superados  e o assimilável é selecionado e apropriado” (PHG, 1951, pag.44).

Contato pressupõe sempre o encontro com o diferente, sendo que um  organismo vive em seu ambiente por manutenção da sua diferença e por meio  da assimilação do ambiente a sua diferença (Polster, 1979). Fronteira de  contato é o limite onde o organismo se diferencia do meio, se atualiza enquanto  diferente, enquanto singularidade. Diferenciar-se é obter uma relação onde a  satisfação seja mútua, do organismo e do mundo: “O meio não cria o  organismo, nem este cria o meio, cada um é o que é, com suas características,  devido ao relacionamento com o outro e com o todo” (Perls, 1973, pag. 31).

O que é difuso, sempre o mesmo, ou indiferente não é um objeto do contato  (como exemplo pode-se citar os órgãos internos em funcionamento saudável).  O mundo ganha sentido quando os encontros viram contato, ou seja, na  ocasião de mudança, do novo; quando um altera a natureza do outro. O  organismo saudável goza de uma fronteira permeável, o que permite um bom  contato na medida em que a fronteira se expande para o novo.

Todo contato é criativo e dinâmico. Como o organismo não é passivo do  contato –este é espontâneo –o organismoassimila o ambiente. O que é  selecionado e assimilado é sempre novo, sendo que o organismo persiste pela  assimilação do novo, pela mudança e crescimento. No processo de  assimilação o organismo é sucessivamente modificado, assim como o  ambiente. Este processo faz com que o individuo se encontre sempre em  ajustamento. É pelo ajustamento criativo que a mudança e o crescimento se  dão.  

No exercício clínico, como arte do encontro, do contato, toda vez que uma  novidade é percebida no campo, toda vez que se tem um aumento da  awareness na fronteira de contato, uma nova possibilidade é descoberta. Uma  nova figura esta a disposição para o cliente exercer a sua liberdade, e a sua  responsabilidade, na ação frente a este novo horizonte que emerge.  

Um bom contato, portanto, é aquele consonante com a formação de uma figura  nítida, de uma gestalt clara, onde se tem awareness acompanhado do  comportamento motor que se completa, que fecha o ciclo da assimilação  levando ao consequente crescimento. Isto implica numa clínica que não carece  de teorias do comportamento normal, “a própria figura fornece um critério  autônomo da profundidade e realidade da experiência” (PHG,1951, pag. 46).  

O terapeuta tem por missão estimular o contato do cliente tendo a própria  relação terapêutica como guia no aqui-e-agora. É por meio do contato que se  promove awareness do campo e uma resposta condizente com o que o cliente  quer, e com o que o aparece como horizonte de suas possibilidades  existenciais.

Segundo Perls, Hefferline e Goodman(1951), todo ato de awareness exige  contato, no entanto, não significa que todo contato impliquei em awareness.  Dessa forma, como escreve Yontef (1993), a awareness pode ser entendida  como fixação da uma gestalten, como um contato pleno; como uma integração  total do campo organismo/ambiente. Contato completo, integrado, no sentido  de haver uma total percepção, da parte de quem percebe, de todos os  elementos do campo organismo/ambiente.É a experiência de minha  pessoalidade como fundo de tudo que acontece na fronteira, no campo de  presença.

Awareness, como escreve o casal Müller-Granzotto (2007a), é processo de  orientação que se renova a cada instante. É uma unidade, uma fixação. Dá-se  a partir de um sentir (entendido como espontaneidade), como abertura para a  nossa “história impessoal”. É formação de gestalten, e acontece no aqui-e agora, no movimento de formação e dissolução de figuras, consonante com a  necessidade genuinamente emergente. Só existe awareness no contato, na  percepção do campo organismo/ambiente (sempre no presente).  

A emergência de uma figura na fronteira de contato, e a decisão do organismo  perante as escolhas que lhe são possíveis diante dessa figura correspondem  ao ciclo de abertura e fechamento de Gestalt. Ciclo este que pode ser definido como as polarizações do self no encontro com o mundo.Uma necessidade  emergente, algo que seja do foco do interesse do organismo, ao ser contatada,  é uma gestalt aberta, que necessita de movimento para ser fechada. Contato  como percepção (de) e movimento (para), trás consigo a ideia de abertura e  fechamento de gestalt, de configurações inteiras, através dos processos  envolvidos o ciclo contato, ou, em outras palavras, na dinâmica do  funcionamento do self.

O self pode ser considerado como o principal conceito da Gestalt-terapia. É em  serviço do self, de suas dinâmicas e funções que o contato, o ajustamento  criativo e a awareness são possíveis; sendo os fenômenos de empobrecimento  do contato formas de inibições do sistema self (PHG, 1951). Dessa forma, toda  a teoria da Gestalt-terapia, sua prática clínica, e seu próprio objetivo são  orientados a respeito do sistema self, considerando suas funções e dinâmicas.  Um bom terapeuta deve, dessa forma, ajudar o cliente, muitas vezes perdido em angustia, a organizar e tomar responsabilidade das suas escolhas, em  outras palavras, ajudar o cliente a completar o ciclo de contato proporcionando  satisfação e crescimento ao self. Mas, para nosso melhor entendimento, o que  é propriamente o self?  

A definição para o self encontrada na obra de Perls, Hefferline e Goodman  (1951) é a de que o self é “o sistema complexo de contatos necessário ao  ajustamento criativo” (p. 179). Ao definir o self como um sistema de contatos  que tem a função de contatar o presente, Perls Hefferline e Goodman (1951)  não o entendem como uma entidade psicofísica, mas sim como um processo,  como algo que se dá através de uma relação, como um acontecimento na  fronteira de contato. O self, para estes autores, é uma dinâmica de trocas  energéticas entre o organismo e o meio, de modo a permitir, por um lado, a  conservação de algumas formas de organização anteriores (junto às quais me  experimento como aquilo que permanece) e, por outro, a destruição de formas  antigas e assimilação de formas novas (o que permite que me experimente  como algo integrado ao ambiente).  

O self pode ser compreendido, então, como o estado na fronteira de contato;  fronteira esta que pertence tanto ao organismo quanto ao ambiente. Dessa  forma, não se deve pensar o self como uma instituição fixada; ele existe onde  quer que haja de fato uma interação na fronteira, e sempre que esta existir:  “quando se aperta o polegar, o self existe no polegar” (PHG, 1951, p.179).

Enquanto sistema de contatos o self não é uma regularidade de ações, mas um  continuum que se modifica a cada instante. Ele a cada momento mobiliza, na  forma de excitamento, um fundo (meu passado) que responde ao meu  investimento em forma de figura, como potencialidade, como um horizonte de  futuro.

Na leitura de Perls, Hefferline e Goodman (1951) é claro a identificação do self como um processo de formação de figura (presente) e fundo (passado). Para  estes autores, o passado não é visto como uma instância imutável, mas está,  também, em jogo, em constante mudança, em constante renovação. Por conseguinte, numa situação de awareness essa “preteriedade da situação se  dá como sendo o estado do organismo e do ambiente, mas no instante mesmo  da concentração, o conhecido (o passado) está se dissolvendo em muitas  possibilidades” (Ibidem p. 181).  

A dinâmica de formação de gestalt é função do self, uma vez que a formação  de figura dá-se no processo de contato. Nas palavras de Perls, Hefferline e  Goodman: “o self é a força que forma a gesltalt no campo; ou melhor, o self é o  processo de figura/fundo em situação de contato” (1951, p.180). Em  decorrência disso, os referidos autores vão dizer que o self é “a realização de  um potencial” (p180), donde segue a ideia do self como uma potencialidade  engajada.  

Na medida em que a concentração prossegue- excitação pela qual o contato se  dá- o self se identifica com algumas possibilidades, alienando-se de outras.  Essas possibilidades, então, são transformadas em figura que emergem, por  sua vez, do fundo de potencialidade. O futuro, o porvir, é a marca efetiva desse  processo, sendo que a identificação e alienação dessas possibilidades, o  surgimento de uma nova figura, é o ajustamento criativo (onde o novo é  assimilado).

Nem ativo, nem passivo, mas - espontâneo e engajado numa situação - são,  segundoPerls, Hefferline e Goodman (1951), as principais características do  self. A espontaneidade, segundo os mesmos autores, “é o sentimento de estar  atuando no organismo/ambiente que esta acontecendo, sendo não somente  seu artesão ou seu artefato, mas crescendo dentro dele” (Ibidem p.182). Em  outras palavras, essa característica do self o identifica a postura de descobrir se e inventar-se ao mesmo tempo, agredindo e aceitando o que é contatado.  Não se trata, pois, da ação do sujeito sobre si, mas da gênese desse sujeito na  ação.

Sujeito este que, tendo sua gênese renovada a cada contato, se modifica,se  surpreende ao perceber o ambiente também renovado a cada encontro. Logo,  para a Gestalt-terapia, um sujeito não é uma interioridade imutável presa a um  passado que o define e que, muitas vezes, o condena. O sujeito gestáltico é  alguém em fluxo, em mudança, que organiza suas ações (na sorte de  ajustamentos)a partir da intencionalidade da sua consciência.  

Para além, no que consiste ao método fenomenológico e o self, o casal Müller Granzotto (2004, 2007a) identificam as funções e dinâmicas do self como uma  sorte de espontaneidade a luz da noção de temporalidade da fenomenologia de  Husserl. Para os referidos autores, o self cria estruturas específicas para  propósitos específicos, o que quer dizer que o self de acordo com o foco da  experiência, cria funções específicas, em detrimento de outras. Essas formas  elementares da vivência do self, ou seja, da pura vivência espontânea,  constituem o que Perls, Hefferline e Goodman (1951) vão descrever como  operações, ou funções do self.

Segundo o casal Müller-Granzotto (2007a) a descrição dos processos que  constituem a reedição criativa de nós mesmos no campo organismo/ambiente  (reedição, esta, na forma de um fundo, que se realiza como horizonte de  possibilidades para a figura emergente), ou a descrição do self (que é a mesma  coisa) é a descrição do que há de essencial na experiência. Por essa razão  “Perls e seus colaboradores propõe não uma teoria da personalidade ou uma  metapsicologia, mas uma psicologia formal, que não é senão uma descrição  fenomenológica desse processo de apercepção da própria unidade no mundo – processo esse a que denominaram self” (MG, 2007a, p. 212, grifos meus).

Logo, a descrição das funções do self nada mais é do que a descrição e  análise das estruturas por meio do qual podemos nos representar como uma  unidade nos processos contato e ajustamento criativo. Estas estruturas, ou  “sistemas parciais do self”, como nomeiam Perls, Hefferline e Goodman (1951),  que, a partir da análise de como o contato (que pode ser física, química,  emocional, política) se polariza como o fluxo de awareness,são as funções Id,  Ego e Personalidade.

As funções do self não são etapas de uma sucessão cronológica  (compreensão errônea que nos levaria ao entendimento da natureza do self  como interioridade). As três funções são apenas três pontos de vista diferentes  que se pode ter da mesma experiência. O que significa que no fluxo de  awareness (em cada experiência vivida) é possível que se apresente, até concomitantemente, as três funções. O que vai por, pois, em evidência uma  função do self em prol de outra é a escolha de quem está a descrever a  experiência. Nas palavras de Marcos e Rosane Müller-Granzotto:

A frase ‘Sou eu que estou respirando neste momento’  

designa, simultaneamente, uma personalidade, uma  

réplica verbal de uma identidade objetiva (marcada pelo  

pronome eu), uma função de ego, que é a ação mesma  

de emitir a frase em questão, quanto uma função id, que é  

a necessidade ou excitamento que ultrapassa ou sobeja  

os valores semânticos fixados pela frase supra (2007a,  

p.214).

A título de maior para o entendimento da dinâmica do selfcabe apresentar a  releitura que o casal Müller-Granzotto (2007a) propõe a respeito das mesmas.  Estes autores vão reportar-se a fenomenologia de Husserl para explicar “as  condições dinâmicas que permitem à consciência transcendental representar,  na forma de um objeto transcendente, a unidade de suas próprias vivências”  (2007a, p. 224). Tais condições, como os mesmos dizem, reconhecem a  vigências de um tipo especial de intencionalidade, a “intencionalidade  operativa”.

A intencionalidade operativa, que é para Husserl uma “espontaneidade” (1893,  p. 124 apud Müller-Granzotto, 2007a, p. 224) na qual vinculamos nossas  vivências com as demais sem que uma substância seja criada, sem que haja  um ato de unificação. Esse vínculo entre as vivências e pode ser experimentado de duas formas: como retenção do vivido enquanto  modificações sucessivas e como um horizonte de tempo (passado e futuro).

Uma vivência, seguindo o fluxo da consciência, dá lugar a uma nova vivência,  no entanto, como explica o casal Müller-Granzotto (2004, 2007a) a partir de  Husserl, uma espécie de permanência ocorre como horizonte para novas  vivências. Essa permanência, como, por exemplo, a sucessão da melodia que  forma um todo coerente, implica numa variedade de modificações. A vivência  permanece retida enquanto materialidade modificada, e a cada nova vivência  se tem a modificação dessa modificação, até que todas essas modificações  estabeleçam, para novas vivências, um tipo de horizonte. “Essa  intencionalidade diz respeito, então, à organização espontânea desses vividos  retidos enquanto horizonte de retrospecção e de prospecção para novos  vividos materiais” (Müller-Granzotto, 2007a, p. 224).  

Essa síntese, todavia, é provisória, e está em transito constante. Meus co dados retidos, meu horizonte temporal, esta em constante formação e  reformulação, na medida em que meu campo de presença em torno do dado  material atual se desmancha em virtude do surgimento de um novo dado, com  a consequente formação de um novo campo de presença. Esse fluxo de  presença é denominado pelo casal Müller-Granzotto (2007a) de “consciência  da vivência interna do tempo”, ou “consciência imanente do tempo”.  

Husserl, segundo os mesmos autores citados acima, não concebe o tempo  vivido como uma sucessão linear de agora(s), mas como uma rede que se  arma em torno do novo agora que é vivido. Esse agora(s), em rede, é  independente, e totalmente diferente dos demais; se não o que teríamos seria  uma sucessão linear do tempo. No entanto, esse agora(s) não guarda uma  relação material (um dado) com o(s) novo(s) agora(s), o que não significa que  não haja relação alguma.  

A relação que guardam apenas pode ser estabelecida do ponto de vista do  vivido, ou seja, o que se pode saber do que já foi vivido é uma modificação  deste perante a posição que me encontro agora. O que é exatamente o duplo  sentido da intencionalidade operativa: a vivência retida em nossa consciência  transcendental deixa de ser vivência para se tornar horizonte (ou fundo).  

A cada novo agora nossas vivências retidas se modificam. Mas, mesmo se  modificando constantemente, o horizonte é aquilo que eu sempre posso  reivindicar como orientação para minha vivência atual (como fundo). O agora é  um campo de presença, ou temporal, onde um horizonte de passado e um  horizonte de futuro são possíveis. Entretanto, cabe ressaltar, que este campo  de presença (futuro que se faz presente a partir do passado) trata-se de um  contiuum, sendo meu campo de presençatranscendência para o dado vindouro.  O que estabelece a abertura necessária para que um novo dado possa surgir,  e que um novo campo possa se formar, com seus horizontes contingenciais – sempre em fluxo.

Para estes autores, portanto, o processo da experiência de formação de figura  a partir de fundo histórico, ou seja, o self, como a realização de um potencial  pode ser interpretado como funcionando em dois níveis, um de operação (de  modificações sucessivas) e outro construído (o fundo, ou o horizonte histórico),  da mesma forma que acontece na experiência consciência imanente do tempo  de Husserl.  

O self, como uma rede temporal, tem a cada fronteira de contato (ou presente  transiente) um campo de presença, ou seja, em cada vivência, que se dá  sempre no aqui e agora, temos em co-presença todas as nossas vivências  passadas, quer estas se apresentem como lembranças ou como expectativas.  Vivência esta que se dá de forma espontânea, pois ao mesmo tempo em que  nos ocupamos de fixar um dado a partir de um fundo de preteriedade no campo  organismo/ambiente, vemos essa preteriedade renovar-se em possibilidade  futura, em busca de um novo dado, de uma nova figura.

Dessa forma, ao mesmo tempo em que o self é relação, ele é minha  pessoalidade. Essa última, minha pessoalidade, é assegurada pelo fundo, uma  base regular, como escreve Müller-Granzotto (2004), desde onde os dados na  fronteira de contato aparecem como possibilidades. E, sendo arrebatado por  essas possibilidades – com as quais o se identifica ou nas quais se alínea – o  self, em proveito de um acontecimento espontâneo que ele não controla,  vislumbra o surgimento de uma nova figura; “o que faz dele a unidade de um  fluxo temporal que se renova a cada situação concreta em proveito da situação  seguinte, junto a qual a situação antiga é assimilada” (Müller-Granzotto, 2007a,  p.229).

Este processo é o próprio ajustamento criativo no campo, e, conforme o  entendimento do casal Müller-Granzotto (2004), é somente tendo por base a  fenomenologia que o campo de presença pode ser compreendido como  dinâmica figura/fundo, e o self como a realização de um potencial. O que  significa que o fluxo do contato envolve duas orientações temporais: uma  prospectiva (formação e destruição de uma gestalt, de uma figura, na  passagem do surgimento de um dado para outro) e uma orientação  retrospectiva (assimilação do dado como um fundo para a formação da próxima  Gestalt, para o surgimento da próxima figura). Na primeira orientação temos o  crescimento, enquanto que na segunda temos a conservação.  

Dessa apresentação temporal da formação e destruição de figura, do contato,  da dinâmica do self, pode-se concluir que o self como sistema de contatos, é  uma experiência de contato por vez (passagem ininterrupta de uma vivência de  contato apara outra). Sendo que cada vivência contém as outras como  horizonte de passado e futuro. “O self é a cada nova vivência de contato a co presença de todas as outras” (Müller-Granzotto, 2007a, p. 235).

5.1 –A dinâmica do self e a clínica gestáltica

Quanto a dinâmica do self, suas polaridades e características, é possível dizer  quetoda vez que um Gestalt-terapeuta usa o “o que”, o “quando” e o “como”  como perguntas, ao invés do “por que”, está, na realidade, se voltando para as  polaridades das dinâmicas do self em suas frequentes interrupções. Para cada  função, em correspondente dinâmica, segundo Perls, Hefferline e Goodman  (1951), existem formas específicas de trava, mecanismos de quebra da  espontaneidade do ciclo de formação e destruição de figura.  

Em algumas das suas últimas publicações, o casal Müller-Granzotto (2007b,  2008, 2009), imbuídos na missão de aprofundar as pistas que os principais  autores da Gestalt-terapia criaram, desenvolvem novas contribuições teóricas e  clínicas às originais formas de ajustamentos comprometidos em  espontaneidade e criatividade sugeridos por Perls, Hefferline e  Goodman(1951): os ajustamentos neuróticos, psicóticos, e de aflição. No  entanto, antes de se abordar estas contribuições, é necessário, para um maior  entendimento, uma apresentação mais aprofundada das funções e correlatas  dinâmicas do self.

Conforme pensam os fundadores da Gestalt-terapia - Perls, Hefferline e  Goodman (1951) -, o self cria estruturas específicas para propósitos  específicos, o que quer dizer que o self de acordo com o foco da experiência,  cria funções específicas, em detrimento de outras.Segundo o casal Müller Granzotto (2007a) a descrição dos processos que constituem a reedição  criativa de nós mesmos no campo organismo/ambiente (reedição, esta, na  forma de um fundo, que se realiza como horizonte de possibilidades para a  figura emergente), ou a descrição do self (que é a mesma coisa) é a descrição  do que há de essencial na experiência. Por essa razão “Perls e seus  colaboradores propõe não uma teoria da personalidade ou uma  metapsicologia, mas uma psicologia formal, que não é senão uma descrição  fenomenológica desse processo de apercepção da própria unidade no mundo – processo esse a que denominaram self” (MG, 2007a, p. 212, grifos meus).

As três funções (Id, Ego e Personalidade), e as respectivas dinâmicas (pré contato, contato, contato final e pós-contato) a elas associadas, são apenas  três pontos de vista diferentes que se pode ter da mesma experiência, que é o  sistema self em funcionamento. O que significa que no fluxo de awareness (em  cada experiência vivida) pode ser apresentar concomitantemente as três  funções, sendo que o que vai conferir maior evidência a uma função do self em  prol de outra é a escolha de quem está a descrever a experiência.

Cada uma das funções do self corresponde a um modo específico de  organização gestáltica (a formação de uma figura em relação a um fundo).  Quer dizer que em cada polarização do self, em cada estrutura, o self tem uma  experiência diferente no sentido de formação e destruição de Gestalt. Na  dinâmica do self, o processo do contatar, é, em geral, uma sequencia contínua  de fundos e figuras, cada uma esvaziando-se e emprestando sua energia a  figura em formação, que, por sua vez, servirá de fundo para uma nova figura.

A função Id é aquela em que o self encontra-se diminuído, disperso. Ela  aparece nos hábitos, e também tem como característica o agigantamento  do corpo. A função id é a retenção, como escrevem Perls, Hefferline e  Goodman (1951), de algo que não se inscreveu como conteúdo: a forma  impessoal e genérica da presença do mundo em mim.

Enquanto hábito, o Id sou eu mesmo, uma expressão do self, ou do  processo de reedição criativa, mas um eu genérico, impessoal, que se  manifesta como uma sabedoria prática, sem uma inscrição, sem uma  significação consciente. Nesta função, o contato se dá quase que a revelia  do eu, como o sono, o respirar (Ginger, 1995, pag.127).

O Id não existe fora do contato, no entanto, minhas experiências no  exercício do contato são, ao mesmo tempo, minhas e inseparáveis do  meio. De modo que minha vivência esta diluída, ou integrada ao meio  circulante. “Enquanto Id sou um corpo, um corpo próprio, que antes de ser  conhecido (representando para mim mesmo), é vivido como volume, como  espessura, como transito entre eu e o mundo” (Müller-Granzoto, 2004,p.3).

Quando o self esta polarizado na função Id a figura não esta propriamente  definida. Nesta função, quando muito, a figura é a vivência do hábito, uma  vivência do corpo. Vivência esta no sentido de que nessa função não se tem  propriamente uma dinâmica, mas sim uma inércia. Sobre a função Id pode-se  dizer, segundo Perls, Hefferline, e Goodman (1951,) que esta serve como um  estado de inércia, de passividade, onde o Ego pode acolher um dado como  figura. Trata-se de um domínio próprio em que um dado indeterminado surge, onde um excitamento se dá.

A função Ego, por sua vez, é aquela em que o self se encontra ativo, agindo  sobre o ambiente. É nesta função que uma figura clara pode ser identificada,  ou alienada (a partir de um fundo histórico, a função Id), e se tem a emergência  de um significante individual, que é, senão, nossa ação. Conforme escrevem  Perls, Hefferline e Goodman, “[o] Ego é a identificação progressiva com  possibilidades e a alienação destas, a limitação e a intensificação do contato  em andamento, incluindo o comportamento motor, a agressão, a orientação e a  manipulação” (1951, p. 154).

Cabe ao Ego a inscrição de uma figura num campo genérico de  indiferenciação. O self na função ego esta identificado com o interesse ativo  selecionado, e a realidade, aqui, “não é enfrentada de acordo com sua vividez  espontânea, mas é selecionada ou excluída, de acordo com os interesses com o qual o nos identificamos” (PHG, 1951, p. 185).  

Na função Ego Perls, Hefferline e Goodman (1951) identificam três dinâmicas:  o pré-contato, o contato e o contato final. O pré-contato caracteriza-se pela  apreensão de um dado a partir do fundo de excitamento fornecido pela função  Id em decorrência do acontecimento de algo novo (seja este um estimulo que  de desenvolve como uma emoção, ou uma dor). Nessa dinâmica, como  escrevem os autores acima, “o corpo é fundo, e o apetite ou algum estímulo ambiental são a figura. Isto é o que esta consciente como sendo ‘aquilo que é  dado’ ou o Id da situação, dissolvendo-se em suas possibilidades; (...) essas  excitações ou pré-contato iniciam o excitamento do processo figura/fundo”  (p.208).

No contato se tem a deliberação, por meio da qual o self se polariza na função  Ego. O excitamento, dessa forma, torna-se fundo enquanto o conjunto de  possibilidades figura. A deliberação pode ser entendida um ato de identificação,  com uma possibilidade do meio que vem a satisfazer a necessidade do  organismo, ou a alienação, a fuga, de um acontecimento perigoso. Opera no  sentido de escolha dessas possibilidades, resultando na formação de uma  figura.  

Neste processo é onde ocorrem as emoções: a “awareness integrativa de uma  relação entre o organismo e o ambiente” (PHG, 1951, p. 212). A emoção e  sentida concomitantemente como uma manipulação potencial do ambiente, é a  condição corporal que o organismo se encontra. As emoções são importantes,  segundo os autores citados, pois na sequencia de fundos e figuras elas  assumem o comando da força motivadora dos apetites e anseios, das  identificações ou fugas (que é realizada na polarização do self no processo do  contato final); dai a importância de checa-las, por parte do clínico, no processo  terapêutico

A função Personalidade trata-se, para Perls, Hefferline e Goodman (1951), de  certa generalidade (não perceptiva) na qual o self se sedimenta, tornando-se  uma identidade histórica. É a representação que o sujeito faz de si mesmo, sua  autoimagem, que lhe permite reconhecer-se como responsável pelo que sente,  e pelo que faz (Ginger, 1995).  

É por meio da função Personalidade, que experimentamos nossa capacidade  de reconhecer nossas representações, nossa identidade, e, caso nos  perguntem, serve de fundamento pelo qual seria possível explicar nossos  comportamentos. Nesse sentido, Perls, Hefferline e Goodman dizem que a  função Personalidade é “a figura na qual o self se transforma e assimila ao  organismo, unido-a com os resultados de um crescimento anterior” (1951, p.  184).  

A autoconsciência da função Personalidade é autônoma, responsável no  desempenho de um papel numa situação concretaÉ importante, todavia,  ressaltam os últimos autores citados, não confundir autonomia com  espontaneidade. O que os autores citados querem dizer com autonomia é a  capacidade de escolher livremente. Liberdade esta proporcionada pelo fato da  base da atividade já fora obtida de antemão, ou seja, “nos comportamos de  acordo com o que somos, isto é, com o que nos tornamos” (Ibidem p. 188).  Nesse sentido, a personalidade pode responsabilizar-se na medida em que o  self criativo não consegue. Por que, como escrevem os mesmos autores, a  responsabilidade é o preenchimento de um contrato. Portanto, a “personalidade  é a estrutura responsável do self” (Ibidem p. 189).

Todavia, a consistência dessa identidade esta em jogo, é perfurada pelo vazio  do hábito (a função Id) e ultrapassada pelas criações da função Ego (pelo  material sempre novo advindo do contato). A dinâmica da experiência enquanto  um processo que responde a diferentes formas de discrição esta intimamente  ligada com as estruturas das funções do self.

Quando o self se polariza numa ação, momento em que ele faz algo, tem-se o  contato final. No contato final, como escreve Perls, Hefferline e Goodman  (1951), “o self esta absorvido de maneira imediata e plena na figura que  descobriu-e-inventou; no momento não há praticamente fundo. A figura  incorpora todo o interesse do self, e o self não é mais nada que interesse  presente. De modo que a figura é o self” (p.220). Aqui a figura descoberta é  nítida e presente, sendo o ambiente e o corpo, desprovidos de interesse. A  awarensess, segundo os mesmos autores, esta no seu ponto mais radiante,  concentrada no objeto eleito.

Depois que o excitamento foi atenuado pela ação ego, o self pode relaxar, isto  é, polarizar-se numa representação; regida, esta, pela cultura daquilo que ele  próprio fez. Esta é a dinâmica do pós-contato, onde o self encontra-se  diminuído, e assume a função personalidade.

Segundo o casal Müller-Granzotto (2007b), a procura pelas funções  comprometidas do sistema self deve ser o foco da ação do terapeuta, do  contrário de investigações por dados, por conteúdos, muitas vezes intrusivos e  não condizentes com uma postura processual, fenomenológica de ser  compreender a clínica. Para os referidos autores, que preferem o uso de novas  nomenclaturas para as interrupções do sistema self (respectivamente  ajustamento evitação, de busca e ético-político), clínico em Gestalt-terapia  deve, uma vez diante do cliente, perceber o lugar que é convidado a ocupar,  tornando o apelo (ou a sua falta) do cliente uma voz clareza aos processos de  inibição que muitas vezes estão por trás de suas queixas.

Na clínica gestáltica cabe ao clinico, portanto, segundo os autores citados  acima,“pontuar” os momentos em que inibições do ajustamento criador são  percebidas na relação terapêutica, não diferenciando o trabalho de intervenção  do trabalho de investigação (“diagnose”) das funções comprometidas do  sistema self. Tal pontuação nada mais é do que a devolução, e a implicação do  cliente em seu próprio processo, sendo o tempo clínico da Gestalt-terapia o  aqui-e-agora.

O foco no momento presente, na relação genuína entre terapeuta e cliente,  como esfera temporal da Gestalt-terapia, revela seu caráter diferenciado e  inovador. Diferentemente de outras abordagens, nem o passado, nem o futuro,  muito menos um cronograma linear de passos necessários, são postos em  prática na clínica Gestáltica. Pelo contrário, o tempo na Gestalt-terapia é o  tempo necessário para o contato fluido e espontâneo aparecer como  possibilidade para o cliente, sendo o objeto da experiência clínica, como  escreve o casal Müller-Granzotto (2007b) a “própria vivência atual da inibição, ou realização [...] do fluxo de contato temporal na atualidade da sessão” (p.  171).  

Em cada ajustamento onde uma inibição, a sua maneira, limita a experiência  de espontaneidade e completude do sistema self a partir de dinâmicas específicas, efeitos são observados, sendonecessárias intervenções pontuais,  de forma a que as repetitivas e dolorosas formas de interrupção do livre fluir do  sistema self sejam reescritas e que novas possibilidades possam ser postas  em prática. Dessa forma, o casal Müller-Granzotto (2007b, 2008, 2009) propõe  formas específicas de intervenção para cada forma de inibição do sistema self.

Contudo, como deixa claro o referido casal, para a Gestalt-terapia, do contrário  das ciências médicas, por exemplo, os diferentes ajustamentos, mesmo  entendidos comocomprometimentos de diferentes funções e demandarem intervenções diferentes, não correspondem a uma exclusão, ou classificação  da pessoa como pertencente a um determinado tipo, ou forma de ser. Os  comprometimentos, segundo o casal Müller-Granzotto (2007b) constituem um  sistema único, sendo possível um mesmo cliente, em diferentes momentos, em  função do campo de possibilidades, que sempre se atualiza no contato,  experimentar e por em ação as três formas de ajustamento disfuncionais.

Cabe deixar claro, mais uma vez, tendo em vista o objetivo do presente  trabalho, que Perls, Hefferline e Goodman (1951) afirmam que esta tipologia  apresentada não é uma classificação de pessoas anormais, mas um método de  decifrar a estrutura de um comportamento único. Para a Gestalt-terapia, como  escreve o casal Müller-Granzotto (2004) não interessa os motivos dessas  interrupções. Explicações universais não é o objetivo da descrição dos  ajustamentos disfuncionais, mas sim, “sinalizar como algo, que não é da ordem  de nossa materialidade, que não retorna enquanto horizonte”(p.13).

Ao invés de se construir uma gênese teórica das neuroses, psicoses e aflições,  Perls, Hefferline e Goodman vão preferir descrever a forma ou a orientação  específica da relação, da dinâmica da fronteira; descrever a relação entre meus  horizontes temporais (fundo) e os dados no campo de presença.

A Gestalt-terapia como psicologia formal, interessa-se, pois, na descrição dos  comportamentos no sentido de como são vividos. A clínica na Gestalt-terapia  trabalha à luz dos processos do self, tendo como método a descrição, por parte  do cliente das suas vivências. A terapia visa ajudar o cliente a restabelecer a  awareness de seu próprio funcionamento, a fim de que o cliente possa  transcender a forma de ajustamento em que está aprisionado. A tarefa do  terapeuta, segundo Perls, Hefferline e Goodman (1951) “é apenas propor um  problema que o paciente não esteja resolvendo de maneira adequada, e se  estiver insatisfeito com seu fracasso; nesse caso, com ajuda, a necessidade do  paciente destruirá e assimilará os obstáculos, e criará hábitos mais viáveis” (...)  (p.248).

Os ajustamentos neuróticos, primeiramente, segundo Perls, Hefferline e  Goodman (1951), podem ser entendidos como “a perda das funções de Ego para a fisiologia secundária sob a forma de hábitos inacessíveis” (1951, p.  235). O comportamento neurótico, segundo os mesmos autores, também é um  hábito (resultado de um ajustamento criativo), no entanto, é um hábito que não  entra no campo de contato, pois não apresenta nada de novo. Como se trata  de uma interrupção na dinâmica do self, essa experiência, esse ajustamento,  não flui, não se atualiza. Esse hábito passa, então, a fazer parte do corpo, não  do self (PHG, 1951).

Como perda das funções do Ego, a neurose implica na confusão do agir no  campo de presença organismo/ambiente. Nesse caso, a função Ego não  consegue criar, para o dado, nada de novo (por vezes ela nem consegue  admitir a existência do dado), e segundo Perls, Hefferline e Goodman (1951), o  Ego nada pode fazer senão deliberar em função da inibição de sua ação. Nas  palavras de Perls, Hefferline e Goodman (1951):  

A neurose é a evitação do excitamento espontâneo e a  

limitação das excitações. É a persistência das atitudes  

sensoriais e motoras, quando a situação não as justificaou  

de fato quando não existe em absoluto nenhuma  

situação-contato, por exemplo, uma postura incorreta que  

é mantida durante o sono. Esses hábitos intervêm na  

auto-regulação fisiológica e causam dor, exaustão,  

suscetibilidade e doença. Nenhuma descarga total,  

nenhuma satisfação final: perturbado por necessidades  

insatisfeitas e mantendo de forma inconsistente um  

domínio inflexível de si próprio, o neurótico não pode se  

tornar absorto em seus interesses expansivos, nem levá

los a cabo com êxito, mas sua própria personalidade se  

agiganta na awareness: desconcertado, alternadamante  

ressentido e culpado, fútil e inferior, impudente e  

acanhado, etc. (p.235-6)

Como dinâmica na fronteira de contato, a neurose, segundo o casal Müller Granzotto (2004), pode ser entendida sob a ótica das relações figura e fundo,  por conseguinte, como um evento temporal. Segundo Perls, Hefferline e  Goodman (1951), na neurose o self esta inibido, isto é, incapaz de conceber a  situação vivida como processo, e preso num passado que intervém impedindo  as diversas dinâmicas temporais de contato (pré-contato,contato,contato final e  pós-contato). A inibição do self tem como efeito mecanismos que são  correlatos às diversas polaridades das dinâmicas expostas, como explicam o  casal Müller-Granzotto (2007a, 2007b). A saber, segundo estes autores, a cada  dinâmica do sistema self se tem, respectivamente, como ajustamentos  disfuncionais característicos a confluência, a introjeção, a projeção, a  retroflexão,e, por fim, o egotismo.

No que consiste aos ajustamentos neuróticos, o casal Müller-Granzotto (2007b)  propõe duas formas de abordagem, de intervenção, que o Gestalt-terapeuta  deve executar: a frustração habilidosa, o uso de experimentos. Na primeira,  utilizada com maestria por Perls, o terapeuta deve-se colocar na posição de não aquecer aos pedidos, aos apelos do cliente, visando estabelecer uma  relação de campo que tem como meta instaurar uma situação de contato que  possa trabalhar “por um lado, a inibição reprimida (que esta a atuar nos  ajustamentos neuróticos)e, por outro, a angústia característica da presença de  algo que se repete na função Id” (Müller-Granzotto, 2007b, p. 176). É esta,  pois, “habilidosa” por ser necessário, em primeiro lugar, que esteja  estabelecida em um contexto no qual o cliente esteja protegido, e, em segundo  lugar, que esteja, também, eticamente comprometida com a autonomia da  função Ego no cliente.  

O uso de experimentos, individuais e espontâneos, que, necessariamente, não  são prioridade da clínica dos ajustamentos neuróticos, são sempre pautados no  aqui-e-agora, e no trato da relação terapêutica. Os experimentos são  ferramentas úteisno sentido de ajudam o cliente, muitas vezes depois de  graves comprometimentos da função de Ego, a articular por conta própria uma  situação de contato. É, enquanto reabilitação da função ego, aquilo que  introduz uma novidade que, muitas vezes, nem o clínico, nem o cliente podem  esperar.

Quanto aos ajustamentos psicóticos e aos ajustamentos de angústia, o casal  Müller-Granzotto (2008, 2009) apresenta notória contribuição expandindo as  noções de tais processos, bem como das intervenções possíveis.  

No que se consiste aos ajustamentos psicóticos, que os referidos autores  preferem chamar de “ajustamentos de busca”, o que se evidencia é um tipo de  ajustamento criador em que a função Ego opera em função da ausência do  fundo temporal de vivências que a função Id espontaneamente não reteve, ou  não pode articular. Sem a base da função Id, que, fenomenologicamente, fica  indisponível em suas operações fundamentais, como escreve mais uma vez os  referidos autores (2008), a saber, a retenção (formas de orientações habituais)  e a repetição (fundo disponível para um novo dado), a pessoa, apresenta uma  desprovida de “motivos” para lidar com um dado na fronteira de contato,  apresentando uma “rigidez”.  

Como também é um ajustamento criador, por conseguinte, no ajustamento de  busca, a pessoa vive, frente às condições de campo possíveis, uma relação  atípica da função Id. Esse processo, como escreve o casal Müller-Granzotto  (2008), leva a função ego à procura no dado (no percebido) o excitamento que  a função Id não forneceu. Nessas circunstâncias o sistema self inventa  histórias que ele não pode reter, ou espontaneamente arranjar.

A respeito da rigidez dos ajustamentos psicóticos, o casal Müller-Granzotto  afirma:  

“ [...] nos ajustamentos psicóticos percebemos uma  

espécie de rigidez, tal não tem relação com aquelas  

respostas comportamentais aparentemente  

desorganizadas, com as quais, na maioria das vezes,  

costumamos caracterizar a psicose como uma sorte de “doença”. A rigidez tem antes relação com a “repetição”  

das tentativas de preenchimento e articulação daquilo  

que, espontaneamente, não se organiza em alguns  

momentos de nossa vida, a saber, nossos próprios  

desejo, nossos próprios excitamentos” (2008, p. 11).

Inspirados pelas palavras acima, cabe marcar a diferença epistemológica de  uma abordagem psiquiátrica e do olhar gestáltico para os ajustamentos  psicóticos, ou de busca. Enquanto a psiquiatria propõe um modelo negativo,  evidenciando no psicótico uma doença, um comprometimento de faculdades  mentais, o Gestalt-terapia, baseada numa postura fenomenológica, vê esse  fenômeno pelo seu lado positivo, como um ajustamento também criador (priorizando o que este ajustamento produz), não identificando numa pessoa  que realiza tais ajustamentos um “psicótico”, um “doente”, ou um “anormal”.  Ademais, como dito anteriormente, ajustamentos de busca não são privilégio,  ou exclusividade, de apenas um grupo da população, mas sim ajustamento que  todos têm potencial de realizar a todo tempo. O que leva uma pessoa a um  ajustamento psicótico mais rígido, do contrário de ser uma natureza, é uma  forma de lidar com o mundo frente as possibilidade que lhe são oferecidas,  sempre tendo em mente os fenômenos humanos como uma relação de  fronteira.

Cabe ao terapeuta nesses casos apoiar o cliente para que este possa fazer  valer seu modo de vida, seus ajustamentos de busca nos contextos em que ele  se insere, o que revela o caráter politico clínica Gestáltica, uma vez que esta  não normatiza e excluí o cliente em ajustamento de busca como um anormal e  incapaz.

Os ajustamentos de aflição, nomeados pelo casal Müller-Granzotto (2009) de  ajustamentos ético-político, são voltados não produção da função  Personalidade. Os ajustamentos ético-políticos são ajustamentos criativos que  tem relação com a solidariedade, com um pedido de inclusão. Nesses casos, a  função Ego, em relação com os múltiplos casos de exclusão social, faz da  ausência de dados de pertencimento um “pedido de socorro” que, ao mesmo  tempo, aliena seu poder de deliberação e confere ao meio o status de  alteridade, de total diferença.

Funda-se, dessa maneira, como escrevem os referidos autores, por ausência  de identificação da função Personalidade, um tipo especial de identificação, a  solidariedade. Os nossos semelhantes, nesse contexto, não são  responsabilizados pelo sofrimento gerado, mas sim convocados a nos  favorecer essa inclusão. Em vez de uma manipulação ou destruição do outro, o  que acontece é uma autorização do outro, o que configura o ajustamento ético político como um pedido de reconhecimento. Nas palavras dos referidos  autores: “Trata-se de um ajustamento cuja meta é encontrar suporte para que  se possa voltar a criar, para que os ajustamentos criadores voltem a acontecer” (2009).

Ao clínico, nesse contexto, cabe acompanhar o processo de reconstrução da  autonomia e deautoconhecimento da função Ego por parte do cliente. Nas  palavras doa autores citados acima: “Nos contextos de sofrimento ético político, o clínico é aquele que cuida da autonomia dos sujeitos (funções Ego)  envolvidos no processo criativo de ajuda” (2009).

6 - CONCLUSÃO

A psicologia científica, no campo da psicoterapia, como escreve Feijoó (2000),  esforçou-se para cumprir o rigor positivista de ciência, adaptando seu objeto de  estudo, e suas práticas aos princípios da mecânica clássica. Como  representantes de tal proposta, como escreve a autora, se pode citar, como  exemplo, a psicanálise e o behaviorismo.  

Para estas abordagens, o comportamento humanopode ser explicado, e  encaixado em modelos (classificações de tipos, como psicose, esquizofrenia,  etc.). São teorias onde o particular não passa de uma forma de expressão do  universal, do essencial (a lei). Tais abordagens pregam o Eu como núcleo,  como identidade central e imutável. Dessa forma, o terapeuta, na posição de  especialista, interpreta o psiquismo (um universal) a fim de identificar seu  mecanismo de funcionamento e de prescrever uma ação. É de acordo com as  leis de um psiquismo mecânico que os fenômenos humanos, para essas  abordagens, são compreendidos como efeitos de um passado miserável. Ou  seja, para tais abordagens as mazelas do presente são fruto de  acontecimentos passados determinantes, compreendendo-se o tempo como  linear. A clínica, pois, marca o sujeito não como singularidade, mas sim como a  expressão do conjunto de leis, de a priores a serem descobertos, e o terapeuta  uma figura neutra (como um cientista).

Na abordagem fenomenológica o terapeuta não procura as causas latentes de  acordo com as leis psíquicas que regem a consciência. Os fenômenos  humanos, do contrário, distinguem-se por essência de um fenômeno natural  puramente objetivo. A linguagem da fenomenologia é uma linguagem  puramente humana, entendendo o homem, na clínica psicológica, como uma  ordem superior a reduções e fragmentações. As interpretações a cerca do  humano se perdem de vista, como fica notório no trabalho clínico da Gestalt terapia, que privilegia a descrição dos processos de ajustamento do sistema  self a fazer qualquer tipo de interpretação das causas ou das qualidades da  mente do cliente.Pela fenomenologia, abre-se a possibilidade de uma conversa  sobre a essência humana, onde se fala com o outro, do ponto de vista da sua  vivência, e não sobre o outro para ele mesmo (um diálogo e não dois  monólogos).  

A partir do método fenomenológico o cliente é encarado como consciência  intencional, ou seja, apreendido e compreendido por si próprio, a partir do fluxo  das suas próprias vivências. O terapeuta trabalha pelo desvelamento de  sentidos do cliente por si só. A posição de especialista em psiquismo (em  causas deterministas e mecanicistas) cai, dando lugar a uma postura fenomenológica, no sentido de se ater a como o cliente se mostra, e como ele,  o terapeuta, experiência a relação (quebrando, também, a ideia de neutralidade  por parte do terapeuta).

Com efeito, a Gestalt-terapia ao trabalhar à luz dos processos do self, como  visto, assume a postura da epoché como método, valorizando a descrição, por  parte do cliente, das suas vivências. A terapia visa ajudar o cliente a  restabelecer a awareness de seu próprio funcionamento a fim de que o cliente  possa transformar a forma de ajustamento em que está aprisionado. A tarefa  do terapeuta fica a cabo de suas pontuações a respeito das inibições que  percebe, no exercício de campo, e devolve para cliente. Nas palavras dePerls,  Hefferline e Goodman (1951) “é apenas propor um problema que o paciente  não esteja resolvendo de maneira adequada, e se estiver insatisfeito com seu  fracasso; nesse caso, com ajuda, a necessidade do paciente destruirá e  assimilará os obstáculos, e criará hábitos mais viáveis” (...) (p.248).

A ideia de um tempo linear e espaço encapsulado cedem ao fluxo de  consciência intencional (que opera no aqui-e-agora), sendo o tempo necessário  para a mudança o tempo do clientefrente as suas possibilidades de  ajustamento. As queixas do cliente, seus sintomas, não pertencem mais a uma  classificação de manifestações psíquicas bioquímicas, mas a modos de se  posicionar e encarar a sua existência. Causas atribuídas a um passado  miserável e determinador não fazem mais sentido frente a uma consciência  como fluxo, operando em co-originalidade com o mundo.

As dinâmicas do self, bem como a “diagnose” e intervenção frente aos  ajustamentos comprometidos em sua espontaneidade e criatividade, servem de  guia para as intervenções do terapeuta, que, ao identificar qual função do  sistema self esta interrompida, pode pontuar, do contrário de aquecer o pedido  à repetição da parte do cliente, ou criaruma vivência, que facilitará a autonomia  do cliente.

A tentativa de compreender o self como um sistema temporal, embasado pela  fenomenologia de Husserl, como conceito base, e operativo metodológico, é  outro ponto que nos remete às reflexões abordadas ao logo deste trabalho no  sentido de diferenciação entre o entendimento dos fenômenos humanos para  as ciências da natureza, e para a fenomenologia. Segundo a leitura do self a  partir da Intencionalidade operativa, em outras palavras, admitindo-se o self como um fenômeno temporal (Müller-Granzotto, 2007a) se tem uma postura  em relação ao tempo diferente da ciência positivista. Enquanto que, para a  última, o tempo se apresente como uma cadeia linear entre passado, presente  e futuro, estando o sujeito determinado pelo que já viveu, a Gestalt-terapia  entende o sujeito em fluxo, no aqui- e - agora. Estando sua inscrição no tempo  condizente a Intencionalidade de uma consciência enquanto fluxo.

A Gestalt-terapia elege não o indivíduo, mas os acontecimentos na fronteira de  contato, as relações como foco. Entende o homem como a interação, como  processo organismo/ambiente, não como um animal isolado (Perls, Hefferline e  Goodman, 1951). A clínica na Gestalt-terapia, levando em consideração seus métodos e objetivos, como escreve o casal Müller-Granzotto (2007a) cumpre a  função, em seu exercício, de ser uma transposição da fenomenologia do  campo epistemológico, para o campo ético, uma vez que visa autonomia do  cliente em realizar seus contatos e fugas de maneira espontânea, sem levar  em consideração nenhum comprometimento moral ou regulador do que seja  normal ou anormal.  

Para concluir, portanto, em virtude da revisão proposta, fica claro que a  Gestalt-terapia não tem como proposta prática e epistemológica as bases  racionalistas e idealistas das ciências.Em oposição,aclínica Gestáltica,  baseada no exercício do contato, sendo o self entendido como um sistema  temporal, como fluxo, como um acontecimento de fronteira, funciona no  princípio do imperativo fenomenológico da descrição da experiência pura, o  que marca uma nítida diferença em comparaçãoàs propostas modernas  positivistas.  

Ademais, acrescentado a este ponto, pode-se dizer que a fenomenologia não é  apenas uma orientação para o entendimento do self, nem apenas uma  influência para a metodologia clínica da Gestalt-terapia, mas a base  epistemológica sem a qual a compreensão do processo clínico e da própria  Gestalt-terapia, na forma de um campo singular de saber, torna-se inviável.  

7 - Referências Bibliográficas

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Endereço para correspondência: E-mail: ulissescataldo@gmail.com

Recebido em: 26/04/2013

Aprovado em: 19/07/2013

Revista IGT na Rede, v. 10, nº 18, 2013, p.187-222 DOI 10.5281/zenodo.15042818 Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526