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ARTIGO
Pensando gestalticamente
a contemporaneidade
Thinking
contemporaneity throught the Gestalt-therapy approach
Lauane Barocelli
Nunes
Dialógico
Núcleo de Gestalt-terapia - UFRJ, RJ, Brasil
Endereço
para correspondência
Resumo
Este trabalho busca desenvolver
uma reflexão sobre o contexto contemporâneo a partir da visão
de homem e de mundo subjacente ao paradigma que sustenta a abordagem gestáltica.
Inicialmente, o artigo busca focalizar a contribuição que este
paradigma, com a complexidade que lhe é inerente, pode oferecer para
a compreensão acerca dos problemas do mundo atual. Num segundo momento
do artigo, descrevo algumas características fundamentais de nosso tempo,
dentre as quais se destaca a ênfase contemporânea nos valores da
economia de mercado capitalista, pautada no consumo. A partir disto, busco desenvolver
a discussão sobre as implicações destes aspectos para o
indivíduo-no-mundo, segundo o olhar da Gestalt-Terapia. Como conclusão,
ressalto a necessidade de que o psicólogo gestáltico empreenda
uma reflexão crítica acerca do contexto em que vivemos na contemporaneidade,
resgatando a perspectiva relacional que marca a Gestalt-Terapia e concebe o
indivíduo-em-relação indicotomizável com o contexto
em que se constitui.
Palavra-chave: contemporaneidade; Gestalt-Terapia;
indivíduo-em-relação.
Abstract
This work aims
to develop a reflection about the contemporary context starting from the vision
of man and world behind the paradigm that supports the gestalt-therapy approach.
The first part of the article focuses on the contribution that this paradigm,
with the complexity inherent to it, can offer for understanding the problems
of the today’s world. In the second part of the article, we describe some
fundamental characteristics of our time, among which stands out the contemporary
emphasis on the values of the capitalist market economy, based on consumption.
From this, we come to the discussion on the implications of these aspects for
the individual-in-the-world, under the perspective of Gestalt-Therapy. In closing
comments of the article, it is stressed the need for the gestalt-therapist undertake
a critical reflection on the context in which we live in contemporary world,
rescuing the relational perspective that is the signature of Gestalt-Therapy
and conceives the individual-in-relationship useparable with the context that
constitute himself.
Keywords:
contemporary context; Gestalt-Therapy;
individual-in-relationship.
Introdução
A palavra ”Gestalt”
tem o sentido de totalidade, configuração, interdependência
entre partes que formam um ‘todo’. Para além do mero significado
do termo, a abordagem gestáltica assume uma ótica que ainda hoje
pode ser considerada ousada e, talvez, revolucionária: qualquer todo
– uma obra de arte, uma pessoa, o mundo – só pode ser compreendido
pela interação complexa entre as partes que o compõem,
interação esta que não é da ordem da acumulação,
mas da superação. Ou seja, ao interagir no todo, cada parte é
superada ao ser afetada e transformada pelas outras ‘partes’ com
que se relaciona. Da mesma forma, o próprio ‘todo’ supera
a soma das partes que o compõe, transcendendo-as.
Tal perspectiva – inspirada, em Gestalt-Terapia, no holismo de Smuts –
põe em cheque as dicotomias históricas às quais temos sido,
artificialmente, submetidos: natureza x cultura, corpo x mente, razão
x afetividade, indivíduo x sociedade e outras. Para a Gestalt-terapia,
estes aspectos não são vistos de maneira isolada. Além
disso, nenhum deles se impõe ao outro em relação de superioridade,
oposição e hierarquia: a cultura não é mais marcante
que a natureza, a mente que o corpo, o indivíduo que as determinações
históricas e sociais, bem como também são falsos os contrários
destas hipóteses e até mesmo a simples separação
entre tais aspectos. O homem integra todas estas dimensões, numa perspectiva
complexa e global com faces nunca inteiramente objetivas nem subjetivas, sociais
ou biológicas, individuais ou culturais.
Tal complexidade que, desde a gênese, marca a Gestalt, é apontada
hoje, mais de cinqüenta anos depois, por diversos autores do âmbito
das Ciências Sociais como uma resposta necessária e acurada para
os problemas do mundo contemporâneo (Morin, 2000; Plastino, 2005; e outros).
A este respeito, diz Morin (2000a):
“Unidades complexas como o ser humano ou a sociedade são multidimensionais:
dessa forma, o ser humano é ao mesmo tempo biológico, psíquico,
social, afetivo e racional. (...) O conhecimento pertinente deve reconhecer
este caráter e nele inserir seus dados: não apenas não
se poderia isolar uma parte do todo, mas as partes umas das outras (...)”
(p. 38).
De maneira congruente a esta perspectiva, a Gestalt-Terapia transcende a visão
dicotômica, reducionista e pouco complexa do mundo, delineando uma visão
de homem e de mundo que substitui a conjunção alternativa ‘ou’
– que separa e fragmenta – pela aditiva ‘e’ –
que relaciona e integra. Ou seja, gestalticamente, o homem é a um só
tempo, individual e social, livre e determinado, biológico e cultural,
singular e dotado de regularidades no coletivo. Com isso, devolve-se ao homem
e aos problemas do mundo a complexidade que lhes é inerente, substituindo
o vício reducionista de dicotomização do real pela valorização
do global. Deste modo, evita-se a polarização que desenvolve uma
parte e aliena a outra, insistindo em ver incompatibilidade e hierarquia onde
há complexidade, ‘unidualidade’ e inter-relações
entre partes de um todo único.
Nesta perspectiva, ainda que estejamos lidando com aspectos polares de uma questão,
gestalticamente enxergamos, através da aparente oposição,
correlações implícitas. Lima (2005) remetendo-nos a Capra,
Morin e a Prigogine, observa que tal compreensão gestáltica, ao
conceber a relação entre polaridades, se alia ao questionamento
que vem sendo realizado no campo científico contemporâneo acerca
do reducionismo presente no pensamento da ciência clássica que,
ao abordar a realidade de forma estática, aliena a visão integrativa
capaz de abarcar a interação dinâmica entre os opostos.
Morin (2000b), analisando a questão, observa que ao separarmos, artificialmente,
o que está ‘tecido junto’, polarizando a energia na análise
de partes isoladas e negligenciando a sistematicidade destas no todo, podemos,
ainda que involuntariamente, desordenar a estrutura com a qual estamos lidando.
Para servirmo-nos
de uma questão atual que dê materialidade a estas reflexões,
os progressos históricos que conhecemos na contemporaneidade, ao mesmo
tempo em que amplificam nosso conhecimento e domínio das partes, nos
torna, por vezes, pouco sensíveis para a interação que
estas partes estabelecem no todo (Morin, 2000c).
Neste cenário,
podemos dizer que, historicamente, sempre foi do interesse da economia, considerada
isoladamente, o crescimento da produtividade, a substituição de
trabalhadores por máquinas etc. Entretanto, sob uma ótica mais
holística, mexer apenas nesta parte sem cuidar das conseqüências
que gera, tal crescimento pode se revelar – como infelizmente vem acontecendo
– um desastre para os interesses globais da Humanidade. Desta maneira,
não se trata de invalidar o crescimento do domínio sobre “as
partes”, neste caso (representado pelas forças produtivas e automação
do mundo), trata-se de posicioná-las num contexto mais amplo que torne
visível suas interações e sua sistematicidade (Plastino,
2005a).
Assim, é
a sabedoria de uma visão holística que poderia ‘casar’
com a ótica cartesiana – que apesar de tão execrada, também
é útil e necessária para determinados aspectos da vida
humana – de modo a substituirmos um olhar fragmentador por uma visão
ampla e conseqüentemente mais lúcida do mundo. A meu ver, a Gestalt-Terapia,
se ainda não atingiu a maturidade nesse processo, possui bases fundamentais
para a operação deste olhar.
A despeito
da carga de pessimismo que acompanha a maioria de nossas análises sobre
a contemporaneidade, assistimos nos dias de hoje ganhos construtivos para a
experiência dos indivíduos no mundo – alguns deles, aliás,
calcados exatamente na ótica cartesiana sobre o conhecimento . Para apenas
mencionar alguns deles: tornamo-nos, em certo sentido, menos vulneráveis
às catástrofes naturais; assistimos a progressos médicos
importantes para a vida humana; com o computador, os meios de comunicação
em massa, aumentamos nosso potencial de comunicação e informação;
no domínio íntimo, somos mais autônomos, mais livres de
prerrogativas e protocolos tradicionais...
Entretanto,
complexificando a questão, todos estes avanços, como sabemos,
não estão todos igualmente disponíveis, nem foram somente
benéficos para as pessoas do mundo. Junto com eles, crescemos também
em desemprego, miséria, esvaziamento ideológico, alienação,
solidão, banalização, virtualização do contato
e insegurança.
Diante disto,
sob o paradigma da racionalidade moderna determinista e parcial, nas malhas
de um sistema sócio-econômico específico, desenvolvemos
uma fantástica capacidade de produzir e de individualizar o mundo, às
custas, por outro lado, da miséria e da alienação das massas,
bem como das necessidades mais subjetivas do humano.
Neste sentido,
o problema não está, como algumas análises sobre o nosso
mundo contemporâneo parecem sugerir, nos avanços da ciência
ou da tecnologia, vistos de forma isolada, nem mesmo na derrocada da religião
e da família tal como eram representadas. Aliás, gestalticamente,
a pergunta certa para compreendermos melhor nossa experiência cotidiana
na contemporaneidade, não é ‘por que’ e sim ‘como’.
Sendo assim, o cenário social que assistimos hoje não é
um efeito mecânico de causas como a tecnologia, a ciência, a produtividade
da economia e a diluição dos princípios tradicionais, mas
é o resultado de como tal cenário foi se construindo, sob que
bases, que fundo, que contexto, que tipo de racionalidade e configuração
de forças políticas e econômicas.
Neste sentido,
o processo capitalista e neoliberal de crescimento da produtividade e da economia,
sem uma racionalidade mais holística que considere a existência
de todas as outras dimensões da vida, induz, como tem acontecido, à
desorganização do todo social e humano e garante, apenas, o processo
de enriquecimento que interessa apenas a algumas partes dominantes no mundo
(Plastino, 2005b).
Lyotrad (1979)
pode nos ajudar a pensar a questão ao observar que, na contemporaneidade,
num processo engendrado a partir da emergência do saber científico
– que assume o centro do palco social contemporâneo – os saberes
narrativos, que fazem parte da liga cultural, das histórias dos antepassados,
assim como os saberes intuitivos, nossos afetos e espiritualidade perdem grande
parte do crédito. O cientista interroga a validade destes saberes e constata
a ausência de argumentação e prova, desqualificando-os como
primitivos, selvagens, carregado de opiniões, preconceitos, ideologias.
Com isso, acaba por descartar, sem o saber, dimensões constitutivas do
ser, como às referentes ao campo de sua história singular e cultural,
de seu imaginário, espiritualidade e também de seu mistério
ou daquilo que não pode ser dito em palavras, nem negado, nem afirmado:
nem mesmo pelos cientistas.
A Gestalt-Terapia,
fundada na filosofia existencialista, se aproxima da crítica do autor,
apostando no caráter misterioso, surpreendente e inexplicável
da vida humana. Além disso, contesta a primazia da razão conceitual,
valorizando, a seu lado, outras linguagens e funções de contato
com o mundo que não falam, necessariamente, a língua dos números,
mas a língua de nossos sentidos, sentimentos, imaginação,
afeto e intuição, sendo estas, outras ‘partes’ igualmente
valiosas para compor o todo único que é o homem.
Neste ponto,
levanto a questão: que tipo de discussão a Gestalt-Terapia, com
sua visão holística de homem e de mundo, pode suscitar sobre a
experiência contemporânea?
Sem a pretensão
de respondê-la em definitivo, pretendendo apenas, no âmbito deste
artigo, levantar e alimentar a discussão podemos começar lembrando
que a Gestalt-Terapia focaliza no centro de suas preocupações,
o ser-no-mundo, buscando salvaguardar sua natureza relacional e contextualizada
e seu potencial transformador. Sendo assim, a análise do contexto histórico
e social é, por princípio, importante e necessária para
a Gestalt-Terapia.
Além
disso, a abordagem gestáltica tem, no conceito de contato, um dos cernes
de sua proposta teórica. Trabalhamos então pelo contato mais satisfatório
do indivíduo consigo mesmo, com suas necessidades organísmicas
, com o outro e com a vida, na busca de um sentido mais pleno de ser e estar
no mundo. Neste sentido, é uma abordagem que se orienta para além
da patologia, centrando-se na existência, com as angústias e maravilhas
de ser humano. Como analisam Polster & Polster (2001a), o trabalho do gestalt-terapeuta
é demasiadamente rico, não se limitando à doença,
ou à cura desta. Assim, para além da doença, focalizamos
a vida, valorizamos a autenticidade e a realidade das emoções
humanas, acreditamos em relações significativas, na vivacidade
do aqui-e-agora, do encontro e do diálogo.
Mas como é
viver a perspectiva gestáltica nos dias de hoje? Que ambiente nosso meio
sócio-cultural tem oferecido para a realização da proposta
gestáltica? A quantas anda, em nosso contexto atual, a promoção
do contato autêntico e real consigo, a realização do encontro
pleno com o outro, a valorização da experiência presente
e a discriminação de necessidades organísmicas?
O ambiente contemporâneo
A fim de ingressarmos,
aqui, na discussão sobre tais questionamentos, gostaria de apresentar
uma definição esquemática, porém sensível,
acerca do conceito ‘contemporaneidade’, também denominada,
por alguns autores, de ‘pós-modernidade’.
“O fantasma pós-moderno invadiu o cotidiano: com a tecnologia eletrônica
de massa e individual, visando a sua saturação com informações,
diversões e serviços. Na Era da Informática, que é
o tratamento computadorizado do conhecimento e da informação,
lidamos mais com signos que com coisas.
Na economia, ele passeia pela ávida sociedade de consumo, agora na fase
do consumo personalizado, que tenta a sedução do indivíduo
isolado até arrebanhá-lo para sua moral hedonista. A fábrica,
suja, feia, foi o templo moderno; o shopping, frenético em luzes e cores,
é o altar pós-moderno.
Mas foi na arte que o fantasma, ainda nos anos 50 começou a correr mundo.
Os pós-modernistas querem rir levianamente de tudo (...).
Encarna também nos estilos de vida e filosofia, com o niilismo, a ausência
de valores e de sentido para a vida. Mortos Deus e os grandes ideais do passado,
o homem moderno valorizou a arte, a história, o desenvolvimento, a consciência
social para se salvar. "Dando adeus a estas ilusões, o homem pós-moderno
já sabe que não existe céu nem sentido para a história
e assim se entrega ao presente e ao prazer, ao consumo e ao individualismo”
(Santos, 1997a, p. 19).
Neste contexto,
a contemporaneidade especializa, na cultura ocidental, uma progressiva diluição
das referências tradicionais do passado – preconizadas, sobretudo,
pela religião e as correlatas leis inflexíveis da tradição
social – enquanto desenvolve uma nova, fugaz e sutil referência:
o mercado, e sua correlata lógica do consumo.
Diante do vazio
de modelos a serem seguidos o mercado é o único ‘modelo’
que resta e que possui as características necessárias para não
ser nem percebido como um modelo impositivo e externo ao indivíduo, mas
que, por isso mesmo, se imiscui na existência social de maneira sutil,
mas perturbadora.
Segundo esta
lógica, que passa sob os meandros do pensamento neoliberal, a contemporaneidade
proclama que somos e devemos ser livres. Livres para sermos o que quisermos.
Surgem os lemas nos livros de auto-ajuda e na mídia: ‘você
é a pessoa mais importante da sua vida’ ‘tudo é possível’;
‘o sucesso é ser feliz’ dentre outros slogans recorrentes.
Com isso, é fácil notar uma polarização em relação
ao passado no que diz respeito ao que é socialmente desejável.
Isto é, se anteriormente éramos atados por obrigações
coletivas com ligas fortes demais e, portanto, limitantes, acabamos desbancando
para um individualismo igualmente limitante que renega a pertença do
indivíduo à coletividade. Com isso, negligencia-se o fato de que
o humano, ao mesmo tempo em que é livre, único e particular, necessitando
efetivamente ter sua individualidade valorizada e respeitada, também
é, e sempre será, um ser em-relação.
Neste sentido,
se antes o indivíduo estava alienado num mundo de obrigações
coletivas segundo as quais, precisava seguir a-criticamente os dogmas da religião
e da tradição, hoje, corre o risco de alienar-se na filosofia
do ‘cada um por si’, na qual, também a-criticamente, repete
de forma mecânica uma lógica estranha ao humano e, paradoxalmente,
ao cuidado de si. Ao invés disto, muito mais do que livres e por si,
os indivíduos, não raro, se encontram perdidos e isolados, tornando-se
presas fáceis para o mercado.
Além
disso, como observa Bauman (2004a), a contemporaneidade assiste a uma mercantilização
da auto-realização, o que, podemos dizer, vai pouco a pouco nos
distanciando do sensível e difícil ajuste de nossas necessidades
organísmicas às demandas do meio enquanto se torna atrelada às
necessidades criadas e induzidas pela lógica mercadológica do
mundo e da vida.
Contemporaneidade e contato
“Com
a televisão, a mídia, a publicidade, a internet, vamos progressivamente
apagando a diferença entre o real e o imaginário, ser e aparência.
Fica apenas o simulacro passando por real. Mas o simulacro, intensifica o real.
Ele fabrica um hiper-real, espetacular, um real mais real e mais interessante
que a própria realidade. Com isso, somos levados a exagerar nossas expectativas
e modelamos nossa sensibilidade por imagens sedutoras.” (Santos, 1997b).
Na cultura
contemporânea da imagem, descrita pelo autor, a experiência de contato
corre o risco de se diluir como um recurso disponível ao indivíduo
contemporâneo ‘médio’.
Num mundo em
que as imagens têm mais valor e recebem mais atenção do
que a realidade em si, esta relação rica com a experiência
imediata – subjacente a um bom contato consigo e com o mundo – entra
em cheque.
Para começar,
a valorização da imagem, fundada, como apontado acima, nas leis
de consumo e na espetacularização da vida pela mídia, inclui
ritmo e propriedades diferentes da experiência de contato. Contato exige
aproximação e afastamento, um envolvimento pessoal e suscetível
na experiência presente. Diferentemente, consumo e captação
de imagens possuem ritmos acelerados, impulsivos, no mesmo compasso das tais
frenéticas luzes e cores dos shoppings centers. Além disso, não
supõem envolvimento pessoal na experiência presente, mas, ao contrário,
estão baseadas em fantasias e introjeções do imaginário
social acerca do que é ou não necessário, bonito, útil,
valioso.
O calor das
experiências e a discriminação das próprias necessidades
individuais que, por sua vez, exigem o tempo e energia disponível para
o reconhecimento, acabam, portanto, por esmorecer diante da sedutora e imediata
manipulação da aparência. Neste processo, o contato está
em cheque-mate. No lugar da vivacidade do contato, ficamos com o espetáculo,
um hiper-real, aparentemente mais sedutor e atraente que a realidade em si.
Como não temos tempo para seguir além das aparências, avaliando
de maneira aware e crítica o que está “por detrás”
dela, escolhemos o espetáculo e negligenciamos o real. Para complicar,
na experiência interna, ao negligenciar o real, o si-mesmo também
é negligenciado.
Ao lembrarmos
a célebre frase de Fritz “esqueça a mente e recobre os sentidos”
atestamos, mais uma vez, o quanto a cultura do simulacro nos afasta desta proposta.
Ao contrário do que pode ser compreendido através de uma leitura
superficial do significado desta frase, a defesa gestáltica não
é por uma liberalização inconseqüente e irresponsável.
A valorização dos sentidos, não é, tampouco, valorização
da imagem e da aparência, mas de um contato atento e aware com o mundo
onde procuramos utilizar nossos sentidos de maneira rica, semelhante ao movimento
do artista ou do monge que realmente vê o que está olhando, ouve
o que escuta, sente o que toca e, assim, permanece com o que é.
No cenário
contemporâneo, tendemos a estabelecer um contato imediatista, utilitário
e superficial com o mundo, no qual, bem antes de recobrarmos os sentidos, somos
cooptados, sem nos dar conta, pela imagem que, sedutora e habilmente, se faz
de real e nos leva a fantasiar o que, de fato, não está ali.
Vale lembrar
que a imagem que nos seduz não é qualquer imagem, nem tampouco
a imagem que escolhemos. A imagem que seduz já ‘está em
nosso sangue’, nos tendo sido vendida e sutilmente imposta. Sendo assim,
quando escolhemos uma bijuteria, uma roupa, ou até uma pessoa, muitas
vezes não o fazemos numa opção existencial, com contato
e awareness , ou seja, com uma consciência mais global do que estamos
fazendo e querendo. É, comumente, uma escolha condicionada e impulsiva,
ou ainda, como diria Bauman: uma escolha boa para o consumo.
A auto-exigência
por beleza, além de, em muitos casos, ser excessiva, é calcada
em critérios apriorísticos do que é belo, critérios
estes dados pelo sistema. Com tanta preocupação com a própria
aparência e com a dos outros, o potencial de presença efetiva e
real do ser no mundo é minimizado, e conseqüentemente o estar humanamente
presente, única maneira de relacionar-se com os outros e com a vida,
se torna um desafio para o homem / mulher contemporâneo(a).
Desta forma,
se adotarmos a metáfora gestáltica e pensarmos que o mundo nos
alimenta, este alimento pode estar virando um ‘bloco indigesto’
no organismo do ser contemporâneo. Ao invés de mastigar o alimento
que o mundo dá – o que favoreceria a discriminação
e ‘destruição’ da substância recebida a fim
de verificar, por seus próprios meios, se vamos aceita-la ou rejeitá-la
– o indivíduo contemporâneo introjeta o alimento do mundo
como uma criança engole o leite da mãe, de maneira a-crítica
e passiva, com insuficiente habilidade de envolvimento e com baixa responsabilidade
na experiência.
Até
porque, como foi apontado anteriormente, a capacidade crítica do indivíduo
contemporâneo foi, progressivamente, sendo diluída no reino do
imediatismo. Sendo assim, o envolvimento com qualquer assunto ou experiência
mais existencial é evitado. Na contemporaneidade, prefere-se rir. Rir
levianamente de tudo. Neste sentido, as participações, em qualquer
assunto e experiência serão participações brandas,
frouxas, sem um envolvimento mais autêntico, contínuo e deliberado
e, se alguma situação ou tema existencialmente mais complexo começa
a rondar, a deflexão freqüentemente marca presença de modo
a ‘cortar o assunto’ e manter, inalterado, o status quo.
Na lógica
do chamado “neo-individualismo pós-moderno” (Santos, 1997c,
p. 17), no qual o sujeito vive com poucos e raros projetos e ideais, a não
ser cultuar sua auto-imagem e buscar sua satisfação no aqui e
agora, a consideração do passado, bem como os projetos para o
futuro que exigem esforços significativos são ilusões e
perdas de tempo nos quais não se deve incorrer. O aqui e agora é
tudo. Entretanto, a valorização deste aqui e agora não
tem, em absoluto, nenhuma congruência com a valorização
do aqui e agora gestáltico. Muito pelo contrário. Como mencionamos
anteriormente, a Gestalt-Terapia trata da valorização da experiência
presente, e não de um imediatismo no qual a experiência organísmica
efetiva fica, na realidade, encoberta. Mais do que na imediatez da experiência,
a contemporaneidade se funda na rapidez: tudo deve ser impulsivamente consumido
e descartado no agora.
Contemporaneidade e intimidade
No campo das
relações e do encontro com o outro, as circunstâncias que
vimos descrevendo até aqui se refletem de forma marcante.
Como afirma
o gestalt-terapeuta Michael Miller (1995a), se a intimidade no séc. XIX
sofreu por repressão demasiada, na atualidade, talvez esteja sofrendo
por demasiada expressão. A liberdade conquistada historicamente, ao mesmo
tempo em que inclui ganhos, apresenta novos desafios. Não é tarefa
simples ser livre. Dentre estes novos desafios, usufruir a liberdade sem sobrepor-se
a dos demais e sem descambar num individualismo limitante, exige auto-suporte,
de maneira que o indivíduo seja naturalmente capaz de entrar em contato,
de forma fluida e sensível, tanto com as suas próprias necessidades,
quanto com as do outro.
Assim, o casal
contemporâneo que decide entrar num compromisso amoroso da ordem de longo
prazo, o faz, não raro, dentro dos moldes capitalistas/neoliberais, encarnando,
sem se dar conta, de forma mais ou menos ambígua, de valores como competitividade
e auto-referência, valores estes que podem ser considerados um retrato
humano de nossa realidade econômica.
A este respeito,
Miller (1995b) associa as relações amorosas contemporâneas
ao que ele denomina “terrorismo íntimo”. A partir desta metáfora,
o autor explica como, freqüentemente, casais contemporâneos, ao invés
de estabelecerem um encontro com o outro no qual a afirmação mútua
retro-alimente os envolvidos, o padrão estabelecido é o da disputa
e competição pelo controle da relação e prevalência
de suas próprias idéias e desejos. Neste sentido, ao contrário
de um relacionamento ou parceria, o que acaba se desenvolvendo, é algo
semelhante a uma guerra a dois, onde, nos moldes da cultura capitalista de mercado,
cada um luta por seus próprios interesses, sem conseguir comunicar-se
com os do outro.
Neste cenário,
a satisfação buscada, que, na contemporaneidade, representa fator
fundamental para a permanência da relação, é desejada,
muitas vezes, com a complicada condição de que não envolva
de forma considerada excessiva, valores estranhos a esta lógica consumista,
como esforço, disciplina e ‘doação de si’ (Bauman,
2004b). Sendo assim, se uma relação amorosa não gera mais
satisfação instantânea, após algumas tentativas mal-sucedidas,
o horizonte mais próximo e tentador, é descartá-la, em
busca de um novo ‘produto’, mais ‘fácil de usar’
e satisfatório. Há também a possibilidade da escolha pela
permanência na relação. De uma forma ou de outra, sem uma
re-configuração que possibilite que cada participante da relação
possa abdicar da luta íntima e competitiva por poder, cada qual continuará
ocupado demais consigo para compartilhar e efetivamente encontrar o outro.
Entretanto,
quando mencionamos anteriormente a ambigüidade desta nova posição
do indivíduo, queremos marcar que ao mesmo tempo em que a experiência
amorosa contemporânea acompanha a lógica de consumo de nossa cultura,
perseguindo o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro e resultados
que não exijam esforços demasiados, a garantia de um futuro e
de permanência do relacionamento amoroso no tempo é, como observa
Bauman (2004c), algo tão temido quanto apreciado.
Sendo assim,
seria equivocado pensar que a independência e liberdade tão valorizadas
na atualidade eximem o sujeito da busca pela proteção, segurança
e êxtase do encontro com o outro. Ao contrário: diante da insegurança
provocada pelos princípios fluidos e móveis da vida amorosa contemporânea,
onde uma relação só se sustenta em si mesma, os indivíduos
buscam, além de liberdade e ‘espaço pessoal’ –
expressão que passa a marcar presença no discurso social –,
relacionamentos tecidos de compromissos duradouros. Através deles, pretendem
conseguir o amparo e a cumplicidade duráveis que consintam a elaboração
de projetos de futuro, nos quais possam se equilibrar em meio à abertura
e flexibilidade da vida cotidiana.
No pólo
da busca pela individualidade inatacável, que pode acabar redundando
em individualismo incapacitante, torna-se difícil para o indivíduo
usufruir a alegria do Encontro e do contato revitalizante com o outro. Um indivíduo
que, embora possa até dizer que ama, introjeta a lógica individualista
de maneira a ocupar-se somente com a defesa de suas próprias necessidades
e expectativas, pode não ter energia organísmica para acolher,
amorosamente, as necessidades e expectativas do parceiro. Deste modo, segue
o casal contemporâneo numa conhecida e recorrente solidão a dois,
freqüentemente projetando um no outro a fonte de suas insatisfações
e vazios.
Contemporaneidade e ajustamento criativo
Cada indivíduo
particular e único vai encontrar, segundo a Gestalt-Terapia, seus próprios
mecanismos para lidar com as experiências no mundo. Neste sentido, os
indivíduos não reagem da mesma forma aos processos de mercantilização
que vimos descrevendo, inerentes a contemporaneidade. Ao contrário: gestalticamente
importa muito saber como cada experiência partilhada socialmente nos dias
de hoje, interatua na particularidade da experiência de cada indivíduo.
Sendo assim,
as reflexões que levantamos neste artigo, se referem à porção
da experiência social que vem sendo partilhada entre os indivíduos
contemporâneos, sem desconsiderar que cada qual irá internalizar
de maneira própria tais experiências e, criativamente, fazer coisas
diferenciadas com elas. Deste modo, ao mesmo tempo em que encontramos indivíduos
que se ajustam criativamente às condições sociais dadas
na contemporaneidade através de variados tipos de estruturas defensivas
e/ou compensatórias, depressão, pânico, transtornos alimentares,
uso de drogas, violência, egotismo, alienação de si e do
outro etc., há também aqueles que poderão ajustar-se de
outros modos, mais satisfatórios para si mesmos e para a coletividade.
Além
disso, como mencionamos anteriormente, estaríamos contrariando a complexidade
do pensamento gestáltico se ignorássemos que, se por um lado a
contemporaneidade expropria, por outro, torna possível, como também
defende Giddens (2002), formas de atuação sobre as circunstâncias
da vida que não estavam disponíveis em situações
pré-modernas. Para dar um exemplo reconhecível, ao mesmo tempo
em que nossas relações pessoais se tornam potencialmente afetadas
pela lógica do consumo, oferecem oportunidades de intimidade e auto-expressão
ausentes em muitos contextos mais tradicionais, abrindo espaço para o
próprio desenvolvimento da psicoterapia.
Desta maneira,
vale ressaltar que através da discussão que propusemos neste artigo,
não buscamos satanizar a contemporaneidade, tampouco defender que hoje
estamos piores do que ontem. Entretanto, também não queremos “rir
levianamente de tudo”, desconsiderando os problemas e dificuldades que
enfrentamos em nossa época, imobilizando-nos assim para uma reação
possível e criativa que possibilite re-arranjos mais satisfatórios
para nós mesmos e para a coletividade.
Considerações finais
A Gestalt-Terapia
funda-se como uma abordagem que entende e valoriza a indivisibilidade entre
indivíduo e contexto. A Teoria de Campo, um de seus fundamentos teóricos
básicos, preconiza um homem ‘mutante’ que se reconfigura
no tempo e no espaço. Além disso, a relação com
o campo não é uma relação passiva. O indivíduo
é, nesta troca, determinado e determinante.
Assim sendo,
acredito que a prática da Gestalt-Terapia, tanto no campo da clínica,
quanto no campo institucional, em intervenções comunitárias
e outros, exige uma reflexão crítica acerca do contexto social
em que vivemos, sob a pena de estarmos desvirtuando a própria essência
de nossa abordagem, que é, desde a sua origem, uma perspectiva engajada
com o contexto e com uma visão estética do mundo.
Além
disso, alienando a reflexão acerca de nossa condição contemporânea,
corremos o risco de perdermos não só nossa capacidade crítica
reproduzindo um modelo nem sempre congruente com nossas crenças gestálticas,
mas a própria capacidade de um trabalho eficaz em nossa prática
profissional.
Neste sentido,
é fundamental e premente estarmos aware dos problemas vindos na esteira
das soluções contemporâneas e, a partir daí, daquilo
que podemos e devemos fazer enquanto profissionais e pessoas num cenário
no qual, contato, encontro, valorização da dignidade humana e
awareness, são conceitos, – e principalmente experiências
–, estranhas e em desuso para grande parte dos indivíduos. Apostar
e trabalhar por tudo isso é, hoje, de alguma forma, nadar contra a maré.
Por outro lado, é atender ao apelo angustiado de nossa humanidade, que
sofre, inevitavelmente, com a alienação e a distância de
si mesmo.
Como afirmamos
durante o artigo, nós, gestalt-terapeutas, acreditamos e valorizamos
o humano. Um humano não somente rico em potenciais, consciente de si
e livre, mas um ser humano transformador. Por isso, vamos ‘enfrentar a
maré’ e continuar apostando.
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Endereço
para correspondência
Lauane Barocelli
Nunes
Email: luaneb@ig.com.br
Recebido em: 18/09/2008.
Aprovado em: 02/07/2009.
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