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 IGT na Rede > Vol. 5, N° 9 (2008) ISSN: 1807-2526 

ARTIGO

A pessoa madura e o mundo contemporâneo

The mature person and the contemporary world

Teresinha Mello da Silveira

Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Endereço para correspondência


RESUMO

As angústias vividas pelas pessoas mais velhas, diante dos apelos da contemporaneidade para que elas sejam vitrines cheias de novidades, conduziram a autora a rever conceitos referentes ao que é belo no ser humano para além da transitoriedade da juventude. Na tentativa de parecerem mais jovens e se sentirem pertencentes, muitas vezes essas pessoas se submetem a procedimentos por demais agressivos e danosos para seus corpos físicos. Assim sendo, o presente artigo trata das vivências dos sujeitos na idade madura diante das demandas socioculturais hodiernas. Discute-se também as contribuições da Gestalt-terapia para os sujeitos em questão, de tal maneira que lhes permitam viver e gerir os conflitos inerentes a essa faixa de idade, modificando-se e modificando o contexto ambiental que por vezes se afigura tão adverso.

Palavras-chave: maturidade; contemporaneidade; angústia.


ABSTRACT

The anguish experienced by older people in face of the appeals of the contemporaneity for them to be showcases full of news, led the author to review concepts concerning what is the beauty in the human being. To beyond the transience of youth. In an effort to seem younger and feel belonging, often these people submit themselves to procedures over aggressive and damaging to their bodies. Therefore, this article deals with the experiences of the subjects in the mature age in the face of hodiernas socio-cultural demands. Discussions also concerns the contributions of Gestalt therapy for the subjects in question, in such way to enable them to live and manage the conflicts inherent of that range of age, modifying themselves and modifying the environmental context that sometimes seems to be so adverse.

Keywords: maturity; contemporary; anguish.


INTRODUÇÃO

O convite para participar juntamente com outros profissionais da mesa redonda intitulada: Infância, Adolescência e Maturidade: Perspectivas Gestálticas de Atuação, na IV Jornada de Temas em Gestalt-Terapia, do Núcleo Aconteser de Gestalt-Terapia conduziu-me a muitas reflexões. Agora, ao escrever este artigo, outras tantas reflexões me tomam, impelindo-me a colocar no papel não só o que sistematizei sobre o tema como o que experimentei através de pensar sobre ele.

Meus estudos mais recentes estão voltados para casal, família e idosos, embora desenvolva a prática clínica com pessoas de diferentes faixas etárias. Por esta razão, creio eu, coube-me falar sobre maturidade.

Maturidade! O que é maturidade? Certamente falar sobre a velhice ou sobre envelhecimento seria mais fácil porque, com o aumento crescente do número de pessoas com mais de sessenta anos, muitos estudiosos se debruçaram sobre o assunto, mas maturidade!... O termo produz um efeito curioso em minha cabeça e em meu coração. Deparo-me com experiências, fruto dos anos vividos e sinto-me quase obrigada a explorar aspectos de mim mesma. Falarei sobre isso mais adiante.

Voltando à definição de maturidade, começo a divagar sobre o tema. Quando uma criança responde às demandas do meio ambiente, para além do que se espera dela, fala-se que ela tem maturidade. Um adolescente que pensa ou age como adulto é dito maduro. E quando um adulto se mostra maduro, como o chamamos?

Algumas músicas bem antigas me vieram à cabeça e imagino que elas poderiam me inspirar. Primeiro lembrei de um samba de um cantor chamado Miltinho.

- Você mulher que já viveu, que já sofreu não minta.
- Um triste adeus nos olhos teus, a gente vê mulher de trinta.

É verdade, há quarenta ou cinqüenta anos atrás, ter trinta anos já era ser vivida. Hoje, muita gente com essa idade ainda tem uma dinâmica de adolescente – não trabalha, mora na casa dos pais e depende deles economicamente.

O Roberto Carlos (que já passou da maturidade) também cantou uma música que ele mesmo compôs: “Mulher de quarenta...” falando dos encantos da mulher dessa faixa etária.

E tem aquela canção onde o Lupicínio Rodrigues dá conselhos para a vida amorosa dos mais jovens.

- Esses moços pobres moços, ah! Se soubessem o que eu sei...


Por fim relembro uma mensagem que recebi por e-mail, falando dos Anos Dourados, de autoria da Danuza Leão. Fase dos romances, dos namoros longos, dos carros conversíveis, dos bailes de debutantes... Segue-se a Revolução de 1964, os festivais de música, Chico Buarque, Vinícius de Morais e tanta poesia, os movimentos de protesto e tudo é vida!

A nostalgia que toma conta de mim leva-me a perceber que estou ficando velha. Será que isso é que é maturidade? São os anos vividos? É a experiência? É ter uma história para contar? Recorro ao dicionário do Aurélio, versão três do século XXI, um dos programas do meu computador e encontro uma série de definições. Algumas talvez possam ajudar no que me disponho a dizer.

Maturidade aparece figurativamente como madureza. Fala-se ainda em idade madura, circunspecção, siso, prudência, precisão, firmeza e perfeição. Contudo, um dos significados de maduro me chamou a atenção: já entrado em idade... O que é isso? Não me agrada muito. Percebo que a idade cronológica tem um peso quando se fala de maturidade, envolvendo aí a perspectiva da velhice próxima.

Tem um outro aspecto, porém, o aspecto da experiência. Ser maduro é ser experiente e recorrendo novamente ao dicionário, constato que experiente é aquela pessoa que tem experiência, que revela experiência, perito, experimentado. Escolho desenvolver o trabalho seguindo este caminho.

Creio que fica claro neste preâmbulo o quanto me foi difícil conceituar maturidade, para me referir ao ser humano. Assim também é difícil que as pessoas maduras se vejam com uma identidade social. Não são crianças, não são adolescentes, não são adultos, não são velhas. Nos defrontamos, deste modo, com o não reconhecido, o não lugar, o não identificado, incorrendo no risco de ser o não ser.

O filme “Tomates Verdes Fritos”, dirigido por Jon Avnet, mostra bem o conflito vivido pelas mulheres ditas maduras. Numa cena do filme, a protagonista (Kathy Bates), uma mulher de mais de quarenta anos, expressa sua dor dizendo: - “Eu estou numa idade que estou velha demais para ser nova e nova demais para ser velha!” É a partir desta colocação que eu vou desenvolver esse tema aqui.

Considero, para fins deste trabalho, que a maturidade situa-se entre quarenta e sessenta anos, visto que, segundo a Organização Mundial de Saúde, idoso é aquela pessoa que tem mais de sessenta e cinco anos, nos países desenvolvidos e mais de sessenta, nos países em desenvolvimento. Desta maneira, refiro-me aqui ao que se convencionou chamar baby bummer, ou seja, aquelas pessoas que nasceram após a segunda guerra mundial.

Uma das características do mundo contemporâneo é ter fronteiras pouco nítidas, logo, muito do que vou expor vale para outras faixas etárias, particularmente para aqueles indivíduos de idades próximas.

Compartilho com a posição de Gusmão (2001) ao falar sobre maturidade e velhice, quando afirma que “maturidade diz respeito a experiências vividas pelos sujeitos sociais ao longo de suas vidas, que resultam em qualidades conquistadas por suas trajetórias pessoais e coletivas” (p.114).

A maturidade envolve dimensões físicas, biológicas, sócio-culturais, históricas, econômicas e psicológicas. Apesar de todas essas dimensões serem inseparáveis, para fins desta apresentação eu parto de uma visão social para chegar ao particular, ou seja, às vivências da pessoa madura.

Embora esteja falando sobre pessoas de ambos os sexos, as mulheres serão postas mais em foco, pelo fato de serem mais exigidas e mais influenciadas pelos meios de comunicação e pela mídia, tornando-se alvos fáceis de conflitos e angústia nesta fase. Ademais, os homens maduros, no contexto social vigente, são vistos de uma forma muito mais positiva. Ainda é preciso levar em conta que as mudanças físicas, com o advento da menopausa, marco relevante nesta etapa de vida, são muito mais evidentes e rápidas nas mulheres do que nos homens.

Como já foi dito, o sujeito maduro situa-se no espaço do não ser. Não é jovem, nem velho. Não tem o frescor da juventude, já ganhou uns quilinhos; a celulite está mais evidente, as estrias, uma ruguinha aqui e acolá. Fala-se em idade madura, idade da loba, quarentão, meia idade...

 

 
Começamos a sentir que este é um tempo de contínuas desistências, uma coisa depois da outra. A cintura. O vigor. O senso de aventura. A visão 20 por 20. A confiança na justiça. O entusiasmo. O espírito alegre. O sonho de ser campeã de tênis, estrela da TV (...). Abandonamos até a esperança de poder emagrecer ou sermos imortais (VIORST, 2003, p.275).

 

Tudo isto me faz pensar em como são manipuladas as faixas etárias. Não é absurdo imaginar que elas servem ao poder. Quem pode o que. Quem pode votar, quem pode namorar, quem pode dar conselhos, e assim por diante. Esta é uma boa forma de controle. Mas não é só isso. Tem também os estereótipos que são cruéis, principalmente com as mulheres. E os chavões? - Quem gosta de coroa é defunto! Essa é de pára-choque de caminhão. Tem ainda o mercado de consumo que se apraz em fabricar necessidades. O padrão de beleza valorizado, as roupas, as opções de lazer e as preferências dos homens tendem sempre para o lado da beleza e da juventude. Aí então, as coisas ficam mais complicadas para quem está em torno dos cinquenta. Quantas vezes as pessoas compram roupas de adolescentes apenas para se sentirem mais jovens.

Quando o poder econômico permite faz parte na agenda de qualquer quarentão ou cinquentão as clínicas de rejuvenescimento algumas vezes por semana. Uma vez ou outra é importante fazer uma lipoaspiração. E as propagandas? Creme disso, creme daquilo, promessa de milagre. Tudo menos ficar velho, porque ser maduro é a porta de entrada para a velhice, tal são os ditames da nossa cultura.

Quero deixar claro que não estou falando do cuidado consigo, da saúde, da busca de bem estar com a sua própria idade, mas da obsessão, da negação, do apego ao ser o que não é. Além do que, é própria do ser humano a busca do estético, do belo, do harmonioso. No entanto, cada idade tem a sua beleza. Esta beleza é denotada principalmente pela congruência entre o externo e o interno. Um conflito entre o que se é e o que se tem estraçalha a maneira da pessoa estar no mundo, favorecendo a eclosão de doenças como pânico, depressão e toxicomanias que nada mais são do que impossibilidades de um melhor ajustamento criativo ao ambiente, ambiente este que, numa visão psicanalítica, Birman (1999) chamou de “a cultura do narcisismo e do espetáculo”.

 

  O que define a psicopatologia é o destaque conferido a quadros clínicos fundados sempre no fracasso da participação do sujeito na cultura do narcisismo. Quando se encontra deprimido e panicado, o sujeito não consegue exercer o fascínio de estetização de sua existência, sendo considerado, pois, um fracassado segundo os valores axiais dessa visão de mundo. Pelo uso sistemático de drogas o indivíduo procura desesperadamente ter acesso à majestade da cultura do espetáculo e ao mundo da performance (p.169)

 

Diante de tudo isso a pessoa abre mão do seu próprio jeito de ser e busca atingir metas nunca atingíveis para ter um brilho, um lugar social. É neste contexto de novidade, de consumo, de individualismo exagerado que convivem pessoas de todas as idades, inclusive aquelas ditas maduras.

A maturidade se insere num contexto histórico e cultural específico. Pelo que já foi dito, nota-se que ela atravessa e é absolutamente atravessada pelo momento, lugar e tempo onde acontece.

A respeito do assunto que venho desenvolvendo, vale dizer que minhas observações partem mais especificamente do Rio de Janeiro, início do século XXI e principalmente da camada média e média alta da população, que é aquela que tem acesso aos nossos consultórios. É ai, em meu consultório, que constato que esta etapa, por tudo que ela representa é acompanhada pela angústia, não só para as mulheres, embora, como já disse, elas sejam as mais afetadas, mas para os homens também.

Mesmo correndo o risco de ser generalista, o que identifico nos centros urbanos do país é uma sociedade neófita, onde impera o mito da juventude eterna, a negação da transitoriedade do tempo e o universo do ter em lugar do ser.

No momento histórico em que vivemos, nega-se a idade, negam-se as perdas e pensar em prevenção significa saber qual é a maneira de manter o rosto bem lisinho para sempre. Não falo só das mulheres, não. Um exemplo recente é o daquele cantor do L. S. Jack, o Marcos Menna, de 27 anos, que há quatro anos atrás quase morreu em decorrência de uma lipoaspiração. Agora, cremes, colares, brincos, roupas, locais de/da moda, emagrecimento, corpo malhado e tudo o mais atingiram também os homens que muitas vezes compensam as suas preocupações buscando mulheres bem mais jovens.

Mundo louco o nosso! Não é nada demais um homem de meia-idade gostar de uma jovem de vinte anos. Mas, porque tanto espanto quando um Gianechine se apaixona pela Marília Gabriella?

Por que a Suzana Vieira só é maravilhosa porque é uma jovem e bela mulher de mais de sessenta anos? Aliás, em um número da revista Flash, de alguns anos atrás, tem uma reportagem com ela cujo titulo é: Uma mulher de sessenta com um corpinho de trinta. Esta reportagem foi feita um pouco depois do término da novela Senhora do Destino, onde ela era uma das protagonistas. Vale dizer que tinha passado há pouco tempo por uma lipoescultura. E se fosse uma mulher de sessenta com corpinho de sessenta, alguém iria fazer uma reportagem? Quem pode se interessar por uma mulher com um corpo de sessenta? Ninguém ou poucos. Esses que se interessam também são raridades dignas de reportagem. A esse respeito, Negreiros (1999) coloca-se sobre o duplo padrão para o envelhecimento:

 

 
Os homens mais velhos, menos numerosos, são valorizados por suas conquistas no plano social e econômico enquanto a mulher mais velha, mesmo tendo ascendido a idênticas condições socioeconômicas, ainda é avaliada pela perda de seus “encantos” (p.109).

 

Nesta mesma direção Viorst (2003) argumenta: “Assim sendo, a mulher pode temer o envelhecimento porque significa a perda do poder – o poder sexual de atrair os homens”. (p. 274). Mais adiante a autora fala com mais contundência: “Pois se a juventude está ligada à beleza e a beleza, à atração sexual da mulher, e esta atração sexual é importante para conquistar e conservar um homem, então o assalto da idade à beleza pode lançá-la num terror de abandono” (p.275).

Enfim essas investidas da cultura ocidental, construídas e apoiadas por todos nós, estão aí presentes e parece que ainda levarão um bom tempo para mudar. Vale, contudo, lembrar que em culturas diferentes os valores são diferentes.

No local onde trabalho, havia uma residente do serviço social, de descendência japonesa, que surpreendeu a todos trazendo a sua experiência pessoal. Na família dela o velho era a pessoa mais importante. Nada era decidido sem que antes ele fosse consultado. Ele é o experiente, o sábio, o que já viveu e, portanto, o modelo. A moça explicou que para eles os antepassados são venerados como os que deram origem a todos que vivem agora, e o membro familiar mais velho estava mais perto deles. Explicou ainda que o aparecimento do primeiro cabelo branco numa pessoa da família é motivo de comemoração.

Havemos de pensar que dessa forma pode-se viver todo o curso de vida de maneira mais tranqüila. Por outro lado existem etnias africanas que isolam os velhos deixando-os morrerem sozinhos.

Podemos perceber, através destes exemplos, como um fato natural como a velhice pode estar inscrito no imaginário das pessoas, variando de acordo com a história e a cultura de cada povo. Da mesma forma, não há apenas uma visão de idade madura. Até na mesma cidade, a saúde, a posição socioeconômica, o sexo, o bairro contribuirão para os diferentes significados da maturidade.

Mesmo com diferentes representações o envelhecimento é universal e natural, com suas vantagens e desvantagens, com seus ganhos e suas perdas, e são muitas as perdas, mais do que em qualquer outra fase da vida.

O envelhecer começa desde que nascemos. No mundo atual, com tantos veículos de comunicação, as fronteiras da idade cronológica têm sido relativizadas. Pessoas de diversas idades participam das mesmas atividades, participam de atividades científicas, culturais e de lazer deixando antever que a maturidade e a velhice vão ter uma nova cara em breve. Além do mais, a despeito de todas as perdas da idade madura, esta faixa da população vem se modificando e não está tão passiva diante das demandas culturais. Assim, o pluralismo de comportamentos, e atividades, a ruptura de preconceitos e a valorização da subjetividade são elementos da modernidade que contribuem para uma outra concepção de pessoa madura.

Deixando de lado os aspectos, digamos, mais sociais cabe pensar também nos aspectos psicológicos. Há anos atrás travei contato com um livro chamado “Passagens: crises previsíveis da vida adulta”, Sheehy (1980). Foi a primeira vez que me chamou a atenção o fato de não se falar mais em etapas do desenvolvimento após os dezoito anos, já que o livro abordava mudanças claras nas pessoas com o decorrer dos anos, marcadas pelo que a autora chamava de crises.

Mais recentemente tenho me utilizado das propostas teóricas de Erik Erikson (1976, 1982, 1986), um psicanalista que causou uma reviravolta na Psicologia do Desenvolvimento na metade do século XX, quando situou o desenvolvimento da personalidade, através de crises evolutivas que se juntam às crises acidentais por todo o curso da vida. Ele situa oito etapas desde o nascimento até a velhice. Erikson defende que em todas as etapas do desenvolvimento existem perdas e ganhos. Ele condiciona a superação da crise e o decorrente crescimento, não só a capacidades psíquicas do sujeito, mas também à qualidade das relações estabelecidas no meio social em que este sujeito está inserido. Desta forma, a crise pode ser agravada ou vencida diante das demandas ambientais. Este último aspecto é que quero destacar.

Na “idade madura” a generatividade se contrapõe à estagnação. Se a primeira absorve a segunda surge o cuidado. A oitava e última idade do homem corresponde à “maturidade” ou “velhice”. Nesta etapa a crise envolve a integridade do ego, de um lado, e a desesperança, de outro, gerando a virtude básica da sabedoria.

O cuidado, valor que emerge no “adulto maduro”, se contrapõe à rejeição, esta última referente à resistência ao cuidado com outras gerações. Cuidar é preparar as gerações futuras. Isso não está restrito aos pais, mas está presente nos ideais para tornar o mundo melhor para as gerações futuras. Estagnar-se é ser absorvido por suas próprias necessidades e acomodações.

A “velhice” é fruto das sete etapas percorridas. Ela incluí as vitórias e fracassos de toda uma existência. A sabedoria é decorrente da capacidade de fazer uma retrospectiva da vida gratificando-se e apreciando o que foi vivido. Resulta daí a aceitação do seu próprio ciclo de vida. Por outro lado, a desesperança eclode quando na revisão de vida, tão comum no idoso, ele se depara com uma série de perdas, de situações inacabadas, que impedem-no de (re) significar os acontecimentos de sua vida e de utilizar seu potencial criativo para seguir confiante.

Independente de qualquer crítica que possamos ter a toda essa compartimentalização, louvo o esforço de Erikson para mostrar que em qualquer idade existem perdas e ganhos e é possível ocorrerem mudanças.

A generalização é importante para podermos nos comunicar. No entanto, quando estamos fechados na sala do nosso consultório, elas não nos servem para muita coisa. Nestas circunstâncias o que importa é como cada pessoa experiencia a sua etapa de vida.

Novaes (1995) diz e nós todos sabemos que cada pessoa é fruto de sua experiência de vida. A esse respeito, cabe-nos conhecer aquela história de vida particular, contada e recontada no presente, com os óculos das vivências mais atuais, que favorecerão as necessárias (re) significações dos fatos.

Que eventos foram vividos? Como foram vividos? O que é singular dessa pessoa?...Os sinais do tempo no seu corpo; a diminuição da força física; o primeiro par de óculos; o fogacho da menopausa; a preocupação com os filhos adolescentes ou jovens adultos; a preocupação com os pais já muito idosos; os casamentos; divórcios; recasamentos; sonhos frustrados; o recomeçar. Será que dá tempo? Certamente essas pessoas têm mais urgência, embora não sejam obrigatoriamente mais impacientes. Muito preocupadas com o envelhecimento, com as promessas de beleza e de juventude eterna, elas são facilmente manipuladas pelos fabricantes de necessidades, próprios da sociedade de consumo.

A terapia é o espaço privilegiado para viverem seus lutos, para abrirem-se para o novo, para descobrirem que existe vida depois dos quarenta, aceitando a transitoriedade do tempo.

O contato efetivo com o que são, conduz a mudança de valores introjetados e de significados. É comum acontecer dessas pessoas precisarem fazer toda uma revisão de vida constatando o que já realizaram e o quanto estão realizando dos seus sonhos e planos. Desta forma, abrem-se para cuidarem mais de si e dos outros. A maturidade é mais positivada quando consegue ser vista como parte da existência e não como algo que não deve ser mostrado.


Considerações finais

A contemporaneidade favorece representações específicas da pessoa madura que reflete na sua forma de viver. É comum ela oscilar entre os pólos de inclusão, isto é: aquela que já viveu muitas coisas, e de exclusão – a que morreu para a juventude. O conflito ocorre pelo fato de a pessoa não se ver com um lugar. Deste modo, fica difícil ter uma identidade social.

A Gestalt-terapia, interessada na interação do sujeito com o seu contexto sociocultural, oportuniza a vivência particular do estilo de vida deste sujeito, de tal maneira que ele promova ajustamentos criativos saudáveis de forma consciente e responsável. Ademais, é possível que mudanças individuais conduzam a mudanças sociais quanto à forma de conceber a maturidade, se cada vez mais pessoas cumprirem o seu papel na história.

A abordagem gestáltica caminha na contramão dos valores vindos de fora, onde o “ter” é mais importante que o “ser”. Nós buscamos transformar homens de papéis em homens de verdade para que eles possam modificar não só a si mesmos, mas também a história de um povo, tal é o nosso compromisso social como gestalt-terapeutas.



REFERÊNCIAS

BIRMAN, J. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

CIONAI, S. Da contracultura à menopausa: vivências e mitos da passagem. São Paulo: Oficina dos Textos, 1999.

ERIKSON, E. H. Infância e Sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

______________ The Life cycle completed: A review. New York, W. W. Norton, 1982.

______________ ERIKSON, J. M., KIVNICH, H. Q. (1986)Vital Involvement in Old Age. New York: Norton, 1986.

GUSMÃO, N. M. A maturidade e a velhice: um olhar antropológico. In: NERI, A. L. (org) Desenvolvimento e envelhecimento: perspectivas biológicas, psicológicas e sociológicas. Campinas, S. P.:Papirus (Coleção Vivaidade), 2001,113-139.

NOVAES, M. H. Psicologia da terceira idade: conquistas possíveis e rupturas necessárias. Paulo de Frontin: Grypho, 1995.

SHEEHY, G. Passagens: crises previsíveis da vida adulta. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980.

SILVEIRA, T. M. A construção criativa na vida do casal: limites e possibilidades do casamento contemporâneo. Dissertação de mestrado, PUC/Rio, 1998.

Endereço para correspondência:


Teresinha Mello da Silveira
e-mail: teresinha.silveira@globo.com

Recebido em: 22 / 05 / 2008.
Aprovado em: 01 / 08 / 02008.





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